Uma Dama em Paris (Une Estonienne à Paris). 2012

uma-dama-em-paris_2012A velhice em via de regra não traz ternura a pessoa, mas sim retira os freios desnudando a personalidade, libertando-a das regras impostas socialmente. Ela não potencializa qualidades e defeitos. Serão as vivências que irão influenciar seus atos nessa fase da vida. Serão as bagagens, os fantasmas… que a deixarão, mais amarga, mais ranzinza, mas autoritária… Ou pelo contrário, tornando-a mais sábia diante dos novos obstáculos, das novas limitações… mais amiga de tudo e de todos. Pois a velhice retira também o ser totalmente livre. É ter que aceitar depender de alguém em algum momento.

Em “Uma Dama em Paris” temos dois exemplos dessa polaridade. Uma já no auge da velhice e a outra entrando nela. Juntas passarão por alguns desafios. Um deles é o de se viver sobre o mesmo teto. E quem seriam elas?

uma-dama-em-paris_01Começando por apresentar  Anne (Laine Mägi). De temperamento calmo, mas firme nas atitudes. Que com a morte da mãe, com os filhos morando longe, se vê sozinha. E para piorar, se vê diante de ter que revidar mais energicamente as investidas do cunhado quando bêbado. Assim aceita deixar a Estônia e ir cuidar de uma conterrânea que mora há décadas em Paris. Mais do que ter uma nova ocupação ir morar na capital francesa era a realização de um sonho de infância. Afinal, quem não gostaria de conhecer Paris, não é mesmo? Do outro lado temos Frida (Jeanne Moreau). Uma mulher rica. Que meio que se trancou em seu luxuoso apartamento, num ponto nobre de Paris. Arrogante, Frida não aceitou o fato de precisar de uma cuidadora. Com isso não facilita em nada a vida de Anne.

A cada tentativa de Anne para animar Frida, era como receber um balde de água fria. Fria, não! Gelada! Então ela ia espairecer em longos passeios pela cidade, tanto durante o dia como à noite aproveitando também a beleza da cidade luz. Se para Anne essas caminhadas serviam também de válvula de escape, para nós é um brinde a mais ver Paris pelo olhar dessa imigrante. O clima pesou quando Anne na melhor das intenções programa um reencontro com velhos amigos. Mas acaba fazendo com que Frida reviva antigos fantasmas. Pedras rolaram. E aí? Bem, e aí ambas terão que decidir se atingiriam uma oitava maior na escala da vida, ou se continuariam levando a vida de antes. Sozinhas.

uma-dama-em-paris_02Uma Dama em Paris” tem como pano de fundo a velhice. Num belo cartão postal que é Paris. Como também entre duas classes sociais distintas. Mas que traz em primeiro plano a solidão. Que pode pegar desprevenida mesmo aquele que sempre se doou. Como também há quem queira deixar esse ninho ciente que antes terá que retificar uma eterna gratidão. Por isso precisa partilhar com outra pessoa o fato de ir viver a sua vida. O peso de estar abandonando alguém o leva a querer alguém que o entenda. Mas seu – “Tome conta dela para mim!” -, não deve ser algo imposto. Ele é Stéphane (Patrick Pineau), que foi quem contratou Anne. O fez como última tentativa de cortar um cordão umbilical. Será que os três irão realmente aceitar com leveza esse confronto com o destino?

Uma Dama em Paris” é de se acompanhar atento e com brilho nos olhos a solidão que bate à porta com o passar dos anos. Numa história nada incomum. Mas com um certo charme. Regada a chá e croissant saído do forno da boulangerie da esquina. Enfim, um bom filme para um fim de tarde.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Uma Dama em Paris (Une Estonienne à Paris). 2012. França, Estônia. Diretor: Ilmar Raag. Elenco: Jeanne Moreau (Frida), Laine Mägi (Anne), Patrick Pineau (Stéphane). Gênero: Drama. Duração: 94 minutos.

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KLASS (2007) e a Questão da Morte

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O texto contém spoiler.

Tive a felicidade de assistir aquele que talvez seja o melhor filme produzido em 2007. Se trata de Klass, uma produção da Estônia, país que não tem tradição no cinema mas que merece ser respeitado desde já.

A película fala sobre a história de dois garotos que são extremamente humilhados e torturados por seus colegas de classe até que acendem o estopim. Não suportando mais serem agredidos eles entram no pátio da escola e chacinam diversos alunos. No fim se suicidam.

De certa maneira o filme repete os fatos do episódio conhecido como o “Massacre de Columbine”, porém o foco está presente nos dois assassinos, na angústia, na tortura física e psicológica, e nos seus temores de estudar em um colégio onde os alunos estão mais preocupados em formar gangues e organizar festas do que realmente aprender alguma coisa.

O filme pode ser polêmico pois, ao seu término, dizemos em nosso íntimo: “toda esta turma merecia coisa muito pior do que morrer” e “é uma pena que eles tenham cometido suicídio“. Pois é, o diretor sabe como transitar o nosso sentimento através do decorrer da história e dá um motivo compreensível para a execução da chacina.

Mesmo não sendo esta a intenção (creio que a intenção maior seja um alerta para pensarmos na consequência de nossos atos – afinal jamais aqueles jovens imaginavam que as suas brincadeiras levariam-os até a morte), o filme levanta algumas perguntas importantes para a nossa reflexão: mesmo sendo contra a lei, será que realmente é errado matar em qualquer tipo de ocasião? Será que tem gente que não merece morrer? O mundo não seria melhor se certas pessoas simplesmente deixassem de existir?

Não conheço tão a fundo as motivações da duas pessoas que cometeram a “Chacina de Columbine” para fazer qualquer julgamento de suas atitudes, muito menos daqueles que foram assassinados (me baseio somente pelo filme) porém temos alguns outros exemplos mais próximos e que podemos aplicar os mesmos questionamentos: o bandido Champinha e o do Francisco de Assis Pereira, conhecido como o “Maníaco do Parque”.

A única motivação dos dois para cometer crimes é o prazer de torturar e assassinar pessoas. Não há mais nada em jogo. Para este perfil de pessoa, não seria mais justo finalizar a sua existência do que prolongar a sua vida atrás das grades (isto quando não estão livres)?

Eu entenderia muito bem se os parentes das vitimas resolvem agir por si mesmos e resolvessem acabar com a vida destes dois exemplos, pois justiça – neste país principalmente – é apenas uma palavra sem significado concreto. Ou seja, nada mais justo do que aplicarmos o nosso senso de justiça nestes casos extremos.

Também vejo desta forma para alguns políticos que se enriqueceram a base do dinheiro do povo trabalhador: ora, isto é roubo e deveria ser punido. Como a palavra “crime político” não existe, nada – absolutamente nada – acontece. Pois bem, um cara que está nadando em dinheiro que não é dele poderia muito bem morrer por um atentado, para que ficasse de exemplo para os próximos que resolvessem fazer o mesmo. Para mim isto não está errado.

Bem, não vou me alongar muito para não ficar muito nervoso ou muito revoltado, afinal o dia está apenas começando e não quero que a minha alma fique congestionada pelo senso de injustiça que permeia nossa sociedade.

Mas que é um bom filme é, sem sombra de dúvida.

Por:  Evandro Venancio.

KLASS 2007. Estônia, 2007. Direção e Roteiro: Ilmar Raag. Elenco: Vallo Kirs (Kaspar), Pärt Uusberg (Joosep), Lauri Pedaja (Anders), Paula Solvak (Thea), Mikk Mägi (Paul), Riina Reis (Riina), Riina Ries (Riina), Joonas Paas (Toomas), Virgo Ernits (Tiit), Karl Sakrits (Olav). Gênero: Drama. Duração: 99 min.