Uma Boa Mentira (2014). O que preservar e sacrificar numa nova vida?

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Diretor Philippe Falardeau

Diretor Philippe Falardeau

Por: Valéria Miguez (LELLA).
Numa atualidade onde alguns por egoísmo querem uma regressão social… Eis aqui um filme que irá tocar a outra parte que busca por mais e mais direitos humanitários até para uma outra parte bem maior do planeta… Ele fala de uma guerra civil que quando muito foi parar em algum parágrafo de um Livro de História Geral. Lembrando ainda que mesmo as do tempo presente quando veem a público são logo esquecidas… Então, é de se aplaudir quando fatos como esses são mostrados em Filmes! “Hotel Ruanda (2004), é um exemplo. Logo, o filme “Um Boa Mentira” também não deixa de ser uma releitura de páginas da História da Humanidade: do que ela tem de perverso e do que ela tem de bom! Mas tem muito mais! Ele conta a história de um grupo de sobreviventes do Sudão que foram viver nos Estados Unidos. Mas que nem por isso o filme passa rapidamente por tudo o que eles passaram ainda em solo pátrio. São órfãos de uma Guerra Civil deflagrada por religião e poder, em 1983, dizimando muitos sudaneses… Vale lembrar que genocídios até por limpezas étnicas não são exclusividades do solo africano…

Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado.” (Provérbio Africano)

uma-boa-mentira_2014_02Um Boa Mentira” fora o sonho americano para alguns refugiados sudaneses que nem sabiam o que significava isso. Era apenas a esperança de uma vida melhor após tantas lutas por sobrevivências. E o filme nos mostra todas elas! A longa caminhada que fizeram sem uma direção certa… Onde por vezes indicadas por aqueles que não mais poderiam seguir em frente… Ou quando tiveram que aceitar o sacrifício de um deles para que então os demais pudessem seguir adiante… Ou mesmo já estando num de Campo de Refugiados, já em 1987… Com racionamento de comida… Doenças… Eles ainda tiveram que esperar 13 anos até terem seus nomes numa das listas de admissão aos Estados Unidos…

Huckeberry Finn mentia para sobreviver em situações indesejáveis. Mas mais a frente as mentiras mudaram porque ele mudou… Quando diz ao caçador que não tinha escravos, era mentira, mas para salvar Jim. A liberdade de Jim significava mais que o dinheiro de entregá-lo…

uma-boa-mentira_2014_04Ainda em solo pátrio, e antes de terem quase a totalidade dos familiares dizimados, levavam uma vida bem rural, entre rebanhos bovinos e tendo como “vilões” felinos famintos… O de modernidade que por lá apareceu foram as armas, os helicópteros… É! As armas chegando primeiro… Com isso tudo que iriam conhecer dali para frente seriam de fato novidades… Já começando pelo o voo em avião, a comida à bordo… Mas o que mais chamava atenção estava invisível: do irem ao encontro de uma vida melhor… E em “Uma Boa Mentira” teremos a vida de quatro deles, mas representando a de todos que ficaram conhecidos como os Garotos Perdidos do Sudão. São eles: o gigante e religioso Jeremias (Ger Duany), o habilidoso Paul (Emmanuel Jal), o bom com a oratória Mamère (Arnold Oceng) e a meiga Abital (Kuoth Wiel). É Mamère quem nos conta essa história! E lá foram eles felizes como crianças! Mas já no desembarque surge a primeira pedra nesse novo caminho… Mas o jeito eram prosseguirem…

Olhe para mim. Eu era do exército. Estive na guerra. Mas muitos de nós éramos só garotos… Confrontando coisas inimagináveis. Tendo que fazer escolhas que ninguém deveria fazer. Seu irmão fez a escolha dele naquela dia. Uma decisão só dele. A decisão não era sua. Você não tinha o poder. Nunca teve.

uma-boa-mentira_2014_05Separados da Abital, os três então conhecem aquela que os ajudariam a arrumar um emprego, Carrie Davis (personagem de Reese Witherspoon). Fora buscá-lo em lugar da representante da instituição que os trouxeram da África, Pamela Lowi (Sarah Baker). Já a partir desse primeiro contato, Carrie começa a perceber que tudo era realmente novidade para eles. Mas nessa convivência não fora apenas o choque cultural que a deixara meio perplexa, mas sim em quanto mais eles iam descobrindo as novidades dali iam também preservando algo própria. Onde numa cena, por exemplo, faz um bem à alma: “Estamos olhando as estrelas.”… Assim eles prosseguiram meio que separando dos itens considerados essenciais para muitos dali o que realmente era essencial para eles… Pausa para falar da performance de Reese Witherspoon! Ela esteve ótima até em não solar. Muito embora creio que nem conseguiria por que os três – Ger Duany, Emmanuel Jall e Arnold Oceng – brilharam! E aplausos também para o Diretor Philippe Falardeau (de “O Que Traz Boas Novas“) até pelo timing perfeito contando muito bem toda essa história!

Mesmo que nossas diferenças possam nos dividir, nossa humanidade nos une. Somos irmãos e irmãs tentando compartilhar esse mundo maravilhoso que chamamos de lar.”

uma-boa-mentira_2014_06Num mundo onde valorizam tanto os bens materiais em lugar do que seria realmente essencial para si próprio e os demais a sua volta… Num mundo onde o desperdício até de alimentos ainda é muito grande… Assistir ao filme “Uma Boa Mentira” – que mesmo contendo cenas que doam na alma -, ele também nos lava a alma! Por ainda ter pessoas verdadeiramente humanas e desejosas de um mundo cada vez mais menos desigual. Mas principalmente que histórias como essas, dos Garotos Perdidos do Sudão, nos levam a reafirmar nossos conceitos de que os valores morais e éticos são o que realmente levamos de bagagem na jornada da vida. Mesmo tendo que atravessar infernos… Mesmo que pelo caminho tenhamos que contar “uma boa mentira“… Assistam essa emocionante história! Nota 10!

Uma Boa Mentira (The Good Lie. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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O Show de Truman (1998). A manipulação pela inaptidão de se questionarem.

o-show-de-truman-o-show-da-vida_1998Por Giovana Natale.
O filme “O Show de Truman: O Show da Vida“, dirigido por Peter Weir, conta a história de um homem comum que nasceu em um ambiente de estúdio. Sem perceber que sua vida inteira era filmada e transmitida ao vivo, 24 horas por dia, Truman seguia um papel realista entre figurantes que participavam da primeira experiência de um reality show. Seguindo fielmente um roteiro ao longo de seus dias, Truman, o personagem vivido pelo ator Jim Carrey, passou uma boa parte de sua história sem ao menos perguntar e se questionar sobre seu cotidiano.

o-show-de-truman-o-show-da-vida_1998_01Esse longa metragem é baseado na obra “A República“, do livro VII de Platão, que apresenta a ideia do Mito da Caverna, onde poucos conseguem distinguir entre o mundo das aparências e o mundo da realidade autêntica, sem se questionar se vivem em um jogo de fantoches.

No decorrer do filme é nítida a crítica feita a mídia que consegue manipular não somente o personagem real, como também a quem assistia, influenciando o consumo e o hábito dos telespectadores, por meio da publicidade que era feita pelos personagens secundários que vendiam seus produtos, criando um enfoque principal na indústria cultural.

A ideia que a obra transmite, é a manipulação que assistimos entre a mídia e a falta de capacidade das pessoas se interrogarem e criarem seus próprios sensos críticos, sobre o que é verdade ou mentira. E também essa grande vontade do consumo que é ocasionado pelas grandes publicidades midiáticas.

O Show de Truman: O Show da Vida (The Truman Show. 1998)
Ficha Técnica: na página do IMDb.

A BRUXA (2015). Obra Prima que Assombra no Sentido mais Profundo!

a-bruxa_2015_postera-bruxa_2015_01Por: Carlos Henry.
The Witch, O filme de Rober Eggers precisa ser rotulado, então ele acaba sendo vendido como uma fita de terror. No entanto, é muito mais do que isso. O roteiro elaboradíssimo, baseado em escritos antigos transporta a plateia mais atenta a uma profunda experiência psicológica que envolve fanatismo, religião e sexualidade apresentados num conjunto irretocável de preparação de elenco, trilha sonora e direção. Som e imagens, essências do cinema, estão magníficos. A fotografia monocromática que realça o vermelho em momentos chave e o coral de vozes lúgubres e sons assustadores (Incluindo a impressionante voz pregadora de Ralph Ineson) garantem o tom pretendido. O resultado não podia ser mais perturbador.

a-bruxa_2015A história se passa no século XVII, onde uma família comum composta de pai, mãe e os filhos (Uma adolescente, um casal de gêmeos ainda crianças e um bebê) estão tentando se reestruturar numa região isolada, após terem sido expulsos de uma comunidade por conta de divergências religiosas. Na nova casinha na floresta, o primeiro acontecimento estranho acontece. O bebê desaparece. Poderia ser um lobo, mas também poderia ser uma bruxa para usar a criança em conhecidos rituais satânicos de rejuvenescimento. A partir daí, uma sucessão de tragédias começa a desarmonizar a família. A menina não se dá conta do poder sexual que exerce. Esta confusão de sentimentos, absolutamente normal, mas difícil de ser entendida especialmente na época, inicia um confuso conflito entre todos a ponto de confundirem abalos da fé com pecados mortais e sentimentos da puberdade com sinais do mal. Nisso, o aparentemente inofensivo bode preto carinhosamente batizado de Black Philip pelas crianças gêmeas assume um ar maléfico, suscitando um perigoso jogo de culpa e punição.

A dubiedade delirante é o ponto alto da obra. Dependendo da interpretação, que é amplamente permitida, o filme pode ser visto como mais um mero exercício de terror. A visão mais larga, capaz de perceber o imenso leque de nuances no roteiro vai reconhecer em “A Bruxa” uma autêntica obra prima que assombra no sentido mais profundo.

A Bruxa (The Witch. 2015)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Série: The Family (2016 – ). Estilhaçaram novamente aquelas vidraças… E agora?

the-family_serie_00Por: Valéria Miguez (LELLA).

Estariam todos eles em busca de uma identidade própria?

A Série “The Family ao nos levar para dentro de um drama familiar o faz com pitadas de um thriler! Até porque mais do que revelar os acontecimentos, somos conduzidos a refletir quem são cada um deles individualmente! Tanto no núcleo da família protagonista, como também com alguns de fora, mas diretamente envolvidos na trama, voluntariamente ou não, personagens do passado dessa família como também aderidos as circunstâncias atuais. É que o foco principal se dá com a volta de um dos filhos do casal dado como morto há dez anos atrás. Onde até houve uma pessoa que foi condenada por tal crime.

Assim, temos segredos entre si e para além daquelas vidraças novamente estilhaçada!

Do núcleo familiar temos: conflitos entre o casal central; um dos filhos sentido o peso de ser o ‘loser‘; carreiras profissionais que os afastam até afetivamente do lar, inclusive num jogo perverso quando a ambição fala mais alto… Por ai segue! A saber, temos: a matriarca é Claire Warren, personagem de Joan Allen (de “A Outra Face da Raiva“). Que se com a comoção com a perda ela foi eleita para Prefeitura local, agora com o retorno do filho aproveita para voos mais longe, ser a Governadora. Ajuda não apenas pela atenção midíatica, mas também pela própria filha do casal, a jovem Willa Warren, personagem de Alison Pill (de “Scott Pilgrim Contra o Mundo“). Dela, Claire recebe “ajudas” que nem faz ideia. Com a volta do filho, o pai que se encontrava em viagens, volta então para casa. Ele é John Warren, personagem de Rupert Graves (de “V de Vingança”). John sem querer ficar à sombra da esposa tornara-se um notório escritor e palestrante sobre com o tema “Luto em Família”. Embora feliz com a volta do filho caçula, perde um pouco seu chão profissional, além de ter também a volta de um antigo affair. Ele também fica dividido se o jovem é ou não o seu filho, mas não tanto como o outro filho, Danny, personagem de Zach Gilford. Outrora um adolescente alegre e desportista, encontra-se perdido no álcool. O que pode lhe deixar desacreditado se o irmão é ou não um impostor. Até porque o então Adam (Liam James, de “2012“) deixa dúvidas em quem assiste, se ele é o não o verdadeiro Adam.

the-family_serie_01Com a volta de Adam…

Temos Hank Asher, personagem de Andrew McCarthy (de “O Primeiro Ano do Resto das Nossas Vidas“). Vizinho dos Warren e já tendo sobre si um caso de pedofilia, fora coagido a confessar o assassinato de Adão: o que lhe rendeu dez anos atrás das grades. Inocentado, e até recebendo uma alta quantia pelos danos morais, tenta voltar com a vida. Só que agora parece que terá uma mais isolada: todos na localidade o reconhecem e se distanciam. Além de ter que conviver com o ódio dos Warren. Que em vez de um pedido de desculpas, recebe a fúria de John por culpá-lo das privações que o filho passara nesses dez anos. É que com a confissão, o caso fora encerrado pela Justiça, não havendo mais buscas.

Também volta à cena a então Sargento de Polícia Nina Meyer (Margot Bingham). Nina fora a detetive encarregada de resolver o caso do sumiço do pequeno Adam. No afã até de se promover, baseando-se mais em disse-me-disse do que provas, ela então forçara Hank a se confessar culpado. Agora, não lhe resta outra alternativa em ir em busca do verdadeiro culpado e com o que colheu agora do Adam. Além de se ver novamente envolvida amorosamente com John.

Além de também entrar em cena dessa vez uma repórter local, Bridey Cruz (Floriana Lima). Talvez em busca de voos mais longe, Bridey que até então tem uma coluna/blog sobre o estilo de vida de uma homossexual, agarra a notícia da volta de Adam como o seu passaporte. Para isso até fará um jogo de sedução com Danny, que até estava junto com ele no dia em que ele desaparecera.

E com eles e mais outros personagens a trama segue pulando entre o passado e presente, mas com cortes precisos onde vai mostrando a história além de manter o suspense do que ainda está por vir. E todos estão bem ambientados com o contexto. O que é muito bom! As performances estão de fato ótima! Assim como o desenvolvimento da trama!

Ponto para a criadora, Jenna Bans, que em “The Family” dá o seu voo solo, após ser co-roteirista em “Scandal” e “Grey’s Anatomy“, entre outras séries. O que lhe dá bastante base para emplacar nessa sua primeira obra. Tomara que agrade também os fãs em solo americano já que é audiência nos Estados Unidos que conta ponto para ir ganhando mais temporadas. Estando ainda com poucos episódios nessa sua primeira temporada exibida pela canal Sony. Eu estou gostando!the-family_serie_2016

Oscar 2016 – Apostando num Mundo Mais Justo, Sem Violência e Com Mais Igualdade Social!

oscar-2016_pontos-altosAntes mesmo da grande noite o Oscar 2016 levantou polêmica e de uma bandeira que pulou do ano anterior: o de não ter atores negros entre os finalistas. Verdadeiro! Onde até entendo o ato de boicotar o evento, mas… Vale lembrar que tendo uma chance de falar, mesmo que rapidamente, que será ouvido por milhões de pessoas. E foi o que fez Chris Rock aproveitando essa imensa platéia com o seu discurso na abertura do Oscar 2016. Que mesmo que ele tenha decorado o texto, deixou a impressão de não estar acreditando. Que estava livre para dizer tudo o que estava engasgado. Num quase receio de que a qualquer momento seria cortado. Ele falou bonito!

Com isso parecia que a Academia se redimia até pelo o do ano passado… Mas vale ressaltar que ela é a representante de mais de seis mil de eleitores. Que são eles com direito a voto que fazem as escolhas. Assim vieram deles o fato de não ter atores negros indicados nesse ano também. Agora, há também outros fatores. Um deles seria o peso da “divulgação” que alguns filmes recebem. Que por sua vez os levam a serem exibidos em muito mais salas. O que termina empurrando os demais para locais mais distantes, ou mesmo sendo exibidos em poucas salas… Que acaba diminuindo o público, logo de receberem mais votos.

Agora, bem que a Academia poderia divulgar após a festa da premiação, o número de votos de pelo menos os trinta mais votados… De qualquer forma há um outro e importante fator a ser considerado como bem disse Chris Rock: “O que a gente quer é oportunidade. Queremos que atores negros tenham as mesmas oportunidades. E não é só de vez em quando.” Bravo, Chris!

Assim, já desde o início o Oscar 2016 contou com discursos políticos, humanitários, sociais… Foram vozes a pedir um engajamento maior de toda a Sociedade!

Como o do Diretor de “A Grande Aposta“, Adam McKay, que levou o Oscar de Roteiro Adaptado. Lembrando ainda que o filme falou sobre uma tragédia que deixou milhões de pessoas sem casas e emprego… McKay aproveitou para pedir que deem um basta a isso! Que não votassem em candidatos comprometidos com Wall Street… E de quebra nem em milionários “esquisitos”… Um discurso que também cai como luva aqui no Brasil em relação aos golpistas… Bravo, McKay!

O Filme “Mad Max: Estrada da Fúria” saiu-se o grande vitorioso da noite com seis estatuetas – Figurino, Design de Produção, Maquiagem e Cabelo, Montagem, Edição de Som e Mixagem – que mesmo que sejam considerados técnicos, foram merecidos! Até porque na listagem dos finalistas faltaram principalmente o do Diretor George Miller, pelo excelente trabalho, e o da atriz Charlize Theron, pela sua magistral performance. Bem, mesmo tendo sido injustiçado em algumas categorias… Jenny Beavan, que levou o prêmio de Figurino, deixou também um importante seu recado! Em relação aos cuidados com a poluição da nossa atmosfera, e para que todos sejam mais gentis uns com os outros! Valeu, Jenny! O mundo está precisando muito disso: mais amor, menos ódio!

Um outro grande momento do Oscar 2016… Primeiro veio por quem apresentou uma das canções concorrentes… Alguém de peso! Não apenas por ser ele o vice presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, mas por se tratar de uma bandeira dele e desde quando ainda um Senador: quando então criou uma Lei contra a violência com as mulheres. Biden num discurso em tom ameno conclamou a toda a sociedade a abraçarem essa causa! Assim como a também tentarem mudar toda uma cultura machista! Great!

Uma expressiva apresentação pois a canção “Til It Happens To You” pertencia ao Documentário “The Hunting Ground“. Um filme que fala dos estupros em campus universitários americanos. Que também mostra que as direções dessas instituições se preocupavam mais em encobrir o fato em si. Além dos depoimentos, e até por eles, as vítimas além da violência sofrida, lutam por justiça e pelo direito de estudarem em paz. “Til It Happens To You” foi escrita e interpretada por Lady Gaga, cuja a apresentação contou com a presença de vítimas de violência sexual. Bem, a canção não levou a estatueta… Agora, por certo emocionou! Além de dar voz a essas pessoas! Bravo, Lady Gaga!

Ainda dentro deste triste contexto… O “A Girl in the River: The Price of Forgiveness“, ganhador como Documentário de Curta-Metragem. Ele conta a história de uma jovem que se apaixonou e ao tentar fugir enfrentou a “lei em nome da honra”… Por sorte sobreviveu e com coragem para contar essa história ao mundo. Até para mostrar a de centenas de mulheres que são mortas anualmente por essa mesma “lei”. Em seu discurso, a Cineasta Sharmeen Obaid-Chinoy disse que após assistir ao filme, o Primeiro Ministro do Paquistão decidiu mudar a lei que mata mulheres em nome da honra; além de exaltar aos homens que incentivam as mulheres a estudarem, em terem profissões… É! É tentar mudar um comportamento machista! Bravo!

Também teve o do Diretor Asif Kapadia pelo Documentário ganhador da estatueta: “Amy“. Uma obra que disseca com raro discernimento as dificuldades que Amy Winehouse enfrentou no decorrer da vida. Ao receber o prêmio Kapadia diz que quis mostrar ao mundo não aquela menina dos tabloides, mas sim a bela menina: inteligente, espirituosa, talentosíssima… A menina que silenciosamente pedia por cuidados… Ainda não vi o filme, mas já se mostra um respeito nessa homenagem!

Chegando então no grande esperado da noite… “O Regresso” além do prêmio de Fotografia, deu novamente o de Direção para Alejandro G. Iñarritu! Que seguiu também por um discurso que espera por mudanças: “Tem uma fala no filme em que Glass (DiCaprio) diz para seu filho mestiço: ‘Eles não te escutam, apenas veem a cor da sua pele’. Então, que maravilhosa oportunidade nossa geração tem de nos libertar de todo preconceito e nos assegurar de uma vez por todas que a cor da pele seja tão irrelevante quanto o tamanho do nosso cabelo“. E mesmo que esperado o de Ator para Leonardo DiCaprio… Este, que até fora mencionado no discurso de Chris Rock… DiCaprio também deixou o seu recado: “A mudança climática é real. Está acontecendo agora. É a ameaça mais urgente… precisamos trabalhar coletivamente e parar de procrastinar. Precisamos apoiar os líderes do mundo todo que não falam pelos grandes poluidores e grandes corporações, mas que falam por toda a humanidade. E por bilhões de pessoas que serão as mais afetadas pela ganância política.” Bravo para Iñarritu e DiCaprio!

Mas o prêmio maior foi para “Spotlight: Segredos Revelados” que além deste, o de Filme, levou também o de Roteiro Original. Sendo que na premiação máxima, para mim competia mesmo com o “O Regresso“, já que não acreditei mesmo que “A Grande Aposta” levaria esse prêmio, como citei aqui. Bem, de qualquer forma estava bem cotado! Lembrando que o filme retrata uma investigação jornalística sobre crimes de pedofilia praticados por padres… “Spotlight: Segredos Revelados” não deixa de ser algo relevante… Mas de 2002 para cá… Há o Papa Francisco! Um Papa que, diferente dos antecessores, não esconde para debaixo do tapete os erros da Igreja Católica… De qualquer maneira, foi válido o pedido feito por um dos produtores do filme: “Esse filme deu voz aos sobreviventes e este Oscar amplificou esta voz, que esperamos que se torne um coro que vai ressoar até o Vaticano. Papa Francisco, está na hora de proteger nossas crianças e restaurar a fé.“. Pedofilia é algo sério, por demais! Que reforça a premiação!

E entre outros mais discurso… Ressalto também o de Sam Smith ganhador de Canção OriginalWriting’s On The Wall“, do filme “007 contra Spectre“: “Quero dedicar este prêmio à comunidade LGBT de todo o mundo. Estou aqui esta noite como um homem gay orgulhoso e espero que um dia possamos estar todos juntos como iguais”. Um discurso mais do que apropriado até porque o homossexualismo ainda hoje além de sofrerem por um forte preconceito, é até criminalizado em certas culturas. Bravo, Sam!

Assim, que bom que todo o glamour da entrega do Oscar permaneça mais no Tapete Vermelho… Que mais uma vez alguns dos premiados não ficaram só nos agradecimentos usuais… Usando o tempo e o imenso público com discursos onde abraçaram por causas maiores: de caráter social, humanitário, político, ecológico… Enfim, além de ter dado vez e voz ao Chris Rock com a causa racial, o Oscar 2016 conclamou a todos por mudanças de posturas, por uma consciência pela coletividade, para irem além do próprio umbigo. Com isso, um “Oscar goes to” para todos eles! Great!

Curiosidade: Além das premiações mencionadas, também ganharam o Oscar 2016:
– Atriz: Brie Larson, “O Quarto de Jack”
– Atriz Coadjuvante: Alicia Vikander, “A Garota Dinamarquesa”
– Ator Coadjuvante: Mark Rylance, “Ponte dos Espiões”
– Trilha Sonora Original: “Os Oito Odiados” (Ennio Morricone)
– Efeitos Visuais: “Ex Machina”
– Animação: “Divertida Mente”
– Curta de Animação: “Bear Story”
– Curta-Metragem: “Stutterer”
– Filme Estrangeiro: “O Filho de Saul” (Hungria)

A Montanha Dos Sete Abutres (1951). A Tragédia como Mercadoria da Audiência

a-montanha-dos-sete-abutres_1951_02a-montanha-dos-sete-abutres_1951_00Por: Morvan Bliasby.
A Montanha Dos Sete Abutres — Um filme à antiga, literalmente. Não só na ambiência Noir. Do tempo em que não se fazia filme para bilheteria. Filme com mensagem, filme com moral a ser decodificada no transcorrer da trama. Antecipando e até demarcando o Noir, o mestre Billy Wilder nos brinda com um filme denso, soturno (sem fazer qualquer rapapé para com o estilo homônimo francês), gris, antecipatório até, do que se adviria, quando do domínio da imagem sobre a palavra. Outros diretores tentaram, como em O Abutre, discutir a mídia e seu poder sutil e ao mesmo tempo eficaz, massacrante. Síndrome da China, documentário com cara de filme, ou o contrário, tenta também nos mostrar este poder desmedido, aqui, pior, pois mesclado com interesses bélico-midiáticos. Uma mistura explosiva, literalmente. Jane Fonda e Jack Lemon, como sempre, arrasam. Monstros. O mais novo, e nem por por isso menos contundente O Abutre nos mostra aonde vão a ganância e afã de produzir não-notícias e como a manipulação midiática não conhece limites.

a-montanha-dos-sete-abutres_1951_01Voltando ao filme do magistral Wilder, menos não se poderia dizer do assustadoramente talentoso Kirk Douglas. O velho matriarca segura a trama do início ao fim, como só os sagrados do cinema o fazem; no papel do fracassado Chuck Tatum, sujeito muito bom no que faz, mas de temperamento forte, por isso demitido N vezes e tendo aquela que parece ser sua última chance. Tatum, num daqueles platôs do trabalho, onde não se tem o que dizer, vai ao deserto cobrir uma corrida de cascavéis. Leste certo. Não. Não era uma corrida de tatus, tão ao gosto do estadunidense, nem um trocadilho infame com o nome do personagem. Corrida de cascavéis. Isso! Num átimo, a trama muda, pois, ao parar para abastecer, ele e seu parceiro de jornada descobrem a história de Leo Mimosa, tentando encontrar relíquias indígenas, se mete num buraco de uma mina e fica encalacrado. Tatum já tem o “furo”. A oportunidade é esta. Esqueçam as meninas peçonhentas.

a-montanha-dos-sete-abutres_1951_03A partir daí, o filme ganha a musculatura pretendida pela direção e pelos roteiristas. Suspense. Apresentação dos caracteres da cidadela desértica com seus tipos humanos. Em todos os sentidos. Não é mais uma trama sobre cascavéis ou de onde o mais emocionante é uma bola de capim seco a rolar ao sabor dos ventos. Dramas humanos. Os interesses conflitantes vêm à tona; os que querem a liberação do infeliz, que só pode usar as mãos para se comunicar com o mundo à sua volta, e definha, já que não há como obter alimento ou água, a não ser pelo buraco onde, com gestos, ele fala ao mundo, os que não querem de jeito algum a soltura do garimpeiro, o próprio Chuck Tatum, nem Lorraine, esposa do infeliz Leo, pois, caso do Chuck, estamos falando em mídia. Audiência, no caso, é o que importa. Os que estão se lixando e os que querem aproveitar a deixa para sair daquele buraco de cobra, literalmente. Ir para a cidade grande, tentar carreira empreender algo, caso Lorraine, que não almeja nada que não seja sair de perto de Leo e viver a aventura da cidade grande. Cite-se ainda a completa desilusão, com o mundo e com a própria carreira, de Herbie Cookie, “parça” de Chuck Tatum. Aos poucos, seu mundo vai se esgarçando e Chuck já não é mais o seu ídolo.

a-montanha-dos-sete-abutres_1951_04 - Copia (2)Filme discutindo a si mesmo, ou mídia a se questionar, temos aos borbotões. Mas A Montanha Dos Sete Abutres (Ace In The Hole, no idioma original) merece todo o crédito pelo seu caráter premonitório de um tempo em que a mídia assumiria o protagonismo espúrio de ora. Antever isso em ´51 não parece trivial e não o é. O final do filme mostra, no roldão da exibição dos caracteres típicos de uma cidadela, o trágico a permear a vida humana e o quão não temos o timão das nossas atitudes nem o leme do nosso destino. Qualquer paralelo traçado com o modus operandi da mídia contemporânea é inevitável. Retrato vislumbrado e, infelizmente, confirmado. Ao vivo e em ‘cores Noir‘.