“Miss Violence” (2013). Ou a Crise e os Demônios

Miss Violence_2013Por: Eduardo Carvalho.
Miss Violence_01Festa de aniversário: Angeliki está fazendo 11 anos. Cara amarrada, ela posa para fotos com a família, dança com o avô. Quando todos se distraem, Angeliki vai à janela da sala. Põe uma, as duas pernas no parapeito. Sorri levemente para a câmera. E salta.

A abertura de “Miss Violence” norteia o que se verá dali em diante. Uma família grega decai lentamente, afetada pela crise econômica que atinge o país. Tal motivo levará cada personagem/membro da família a fazer qualquer coisa por dinheiro. Omissões e perversões surgem em adultos e adolescentes, e concentradas, a princípio, na figura do avô (Themis Panou), que comanda a família com tamanha rigidez, a ponto de fazer com que todos reajam à tragédia como se fosse nada.

O angustiante desenrolar da trama, em um lento crescendo habilmente criado pela direção de Alexandros Avranas, vai descortinando o que levou Angeliki à morte. Uma estranha falta de afeto, uma apatia. A partir de determinado momento, vemos que há um quase nada de noção de moral, e torna-se fácil deduzir as monstruosidades que cercam aquela família. Ainda assim, a sequência em que o avô leva a neta para tomar sorvete é um chute certeiro no estômago.

Miss Violence_02Pode se discutir o que levou os personagens a tal degradação. A questão financeira é o real motivo, ou serve como pretexto para que cada um revele seus demônios? Para muitas pessoas, a pressão social, na busca da manutenção do status – ou apenas da sobrevivência – é suficiente para que se abra mão de seus valores. Vivendo em um capitalismo em crise, cada homem estipula seu preço; basta chegar o momento propício para que ele se ponha à prova. Angeliki preferiu perder a vida a sujeitar-se ao que lhe estava reservado. Por paradoxal que pareça para alguns, a adolescente teve a única atitude que mostra algum senso de ética e decência.

Assim como a sequencia inicial, a situação de uma sociedade que se esfacela por conta da crise está presente como um fantasma ao longo de toda a projeção. A burocracia acompanha todo o luto, luto este que, no entanto, nunca acontece. A rotina familiar, ao menos na sua superfície, parece não se abalar com o ocorrido. A fotografia opaca dos planos estáticos acentua toda a frieza, e apenas engrandece o sentimento incômodo gerado no espectador. O elenco é impecável: além de Panou, Eleni Roussinou faz a mãe de Angeliki, nunca conseguindo expressar a tristeza na sua totalidade ante a mão de ferro de seu pai. A avó, feita por Reni Pitakki, surge como figura sinistra em meio ao silêncio entrecortado por poucas falas, guardando a última surpresa ao final.

Vencedor do Leão de Prata em Veneza em 2013 e de outros prêmios por outros festivais, “Miss Violence” é uma obra polêmica a que ninguém fica indiferente, deixando o espectador a pensar o que esperar do ser humano.

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Dente Canino (Dogtooth / Kynodontas. 2009)

Imagem“Dogtooth” explora as características da evolução da educação familiar – quando um casal decide fechar seus filhos ao mundo de um modo geral. Psicologicamente perturbador, este filme tem uma abordagem quase documental para analisar a educação mal concebida e os danos na vida dos três filhos do casal.

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Os três adolescentes sem nome vivem trancados em casa, e sendo educados no sistema “home school”-  onde os pais promovem uma educação  fora do sistema tradicional, e acrescentam uma instrução moral de acordo com suas respectivas crenças. Em muitas cenas, esses adolescentes escutam a mãe dá-lhes palavras do vocabulário do dia:  “mar” é uma poltrona de couro;  “telefone” significa saleiro; “zumbis” significa flor amarela e “b*ceta” significa luz grande. Protegido pelos pais, os adolescentes só estarão prontos para explorar o mundo exterior quando seus dentes incisivos (referencia ao dente canino) cairem.

Ocupando o seu tempo jogando jogos de resistência controlada pelo pai, os jovens tem um único contato com o mundo exterior, quando recebem a visita de Christina (Anna Kalaitzidou), que trabalha na empresa do pai. Ela entra na casa para satisfazer os desejos sexuais do filho do casal, o qual, logo como a cantora Sandy, se encanta com o prazer anal, e frustra Christina ao não querer “desfrutar” mais de sua vagina. A moça, em seguida, contamina o ambiente estéril da casa com influências externas. Se conhecimento pode ser perigoso, aqui fica mais claro, diante da reação da filha mais velha do casal, em querer explorar o mundo exterior.

O cineasta Giorgos Lanthimos foi agraciado com o premio  “Un Certain Regard” em 2009 no Festival de Cannes, e chegou a receber uma inesperada, mas justa indicação ao Oscar de melhor filme estrangeiro no ano passado, mas perdeu o premio para o drama a la telenovela “In a Better World” (2010). Lanthimos me envolveu instantaneamente com sua narrativa, simplesmente porque me senti solto neste mundo louco que ele criou – em vez de fazer uso de “voice over” para guiar a história, ele  nos coloca dentro das emoções dos personagens, evitando os “reaction shots“,  isto é, não temos “close-ups” da emoção expressa pelos atores, mas o efeito é sentido!. Lanthimos também faz um belo uso da cultura pop para nos dar uma conexão com a história; enquanto o uso de sexo, incesto e violência, agita as nossas emoções.

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Os atores não atuam, mas vivem as suas personagens. Nem notei que o filme era falado em grego, de tão fascinado, e chocado com as cenas, principalmente vendo um pai encorajar os membros de sua família a ficarem de quatro e latirem como cães em seu quintal. Não achei engraçado, mas me encontrei intrigado como tal experiência afetaria os personagens mais tarde na história.

Não me importei tanto com o humor negro do filme, e nem foi por isso, que ja revi “Dogtooth” por 2 vezes, mas porque Lanthimos traça um olhar sobre o quão suscetíveis nós seres humanos somos quando somos condicionados a um passo em falso na educação de uma criança e como isso pode causar sérios danos.

Nota 10

O Tempero da Vida (2003). Entre Aromas, Sabores e Saberes

Primeiro quero falar do substrato que as raízes precisam para se desenvolverem. Como para deixarem frutos também. Há quem se sinta tão ligado a terra onde nasceu que nem se imagina morando longe dela. Para uma criança esse desprendimento fica mais fácil. O que irá levar na memória será o que até então vivenciou ali. Mas para muitos adultos se vê longe do lugar onde nasceu seria como ficar sem chão. Agora, o bom mesmo quando se tem a liberdade de ir e vir sempre que puder e quiser. Pois como na canção:

E assim, chegar e partir / São só dois lados / Da mesma viagem / O trem que chega / É o mesmo trem da partida / A hora do encontro / É também de despedida.”

Com isso, apresento-lhes os dois personagens principais dessa estória que uma guerra estúpida acabou separando-os. Um avô e seu netinho estimado. Que viviam felizes em Istambul. Entre Temperos e Planetas filosofavam sobre os mistérios da vida.

O Tempero da Vida” começa quase pelo finalzinho. Onde o netinho, Fanis (Georges Corraface) agora adulto, morando na Grécia, decide viajar até Istambul. Para rever seu avô, Vassilis (Tassos Bandis), e o seu primeiro amor. Iria aproveitar umas férias. É quando um dos amigos do seu avô o procura para lhe dizer que ele enfim resolveu vir para Atenas. Pedindo que Fanis preparasse um almoço de confraternização entre velhos amigos que também foram obrigados a deixarem aquela terra.

Assim enquanto prepara o almoço Fanis rever suas memórias dessa infância tão significativa. E nós vamos juntos nessa viagem. Desejando que nessa hora o sentido do olfato também fizesse parte do contexto. Não sei quanto a vocês, mas eu amo o perfume e o sabor das especiarias. Em entrar num Empório e se deliciar com todos aquele aromas; e colocar na comida que eu faço também. A Turquia lhe era muito cara (estimada), e a sua Família também. Mas por conta de seu pai ter nascido na Grécia foram obrigados a deixar Istambul. Seu avô ficou. A partir dali o contato era mais por cartas. Fanis até tentou voltar, mas os militares o impediram. Mas dali a pouco iria poder estar com ele novamente.

O pequeno Fanis (Markos Osse) do mezzanino do Empório de seu avô recebeu lições que foram sua bagagem nessa jornada chamada vida: Culinária e Astros; Sabor e Mistério; Aromas e Luzes; Sensações e Escuridão; Desejos e Medidas… Ele já sonhava em ser um Astrônomo quando crescesse. Com seu avô desenvolveu um outro Talento nato: iniciando no mundo da Gastronomia. Vassilis ia mostrando a sutileza de cada um dos temperos. A medida certa que aguçaria o paladar. Que daria vida ao prato. O que traria um despertar especial ao comensal. Assim seu avô foi mostrando que seus dois dons estavam em harmonia: G(A)stronomia.

Fanis até poderia ter se tornado um grande Chef. Adorava mostrar seus dotes culinário. Mas seu pai dizia que cozinhar era coisa de mulher. Um preconceito cultural. Mesmo assim de vez em quando Fanis cozinhava escondido. Mas a pressão fora muita – até por parte do Colégio -, que esse seu talento foi ficando mais como um hobbie. O que em parte o ajudou a temperar seus humores, amores, saudades… no correr da vida.

Sabem aquela estória gostosa de se ouvir? O filme nos leva a essa sensação. Sendo que estaremos vendo também. Há momentos tristes que se intensificam ao pensarmos que se não fosse pela estupidez de uma guerra separatista ambos poderiam ter tido uma convivência maior. Mesmo “O Tempero da Vida” sendo bom até de rever preferi não contar mais, em não trazer spoilers. Deixar que quem ainda não viu se delicie entre Aromas, Sabores e Saberes. Para quem já viu, que reveja os temperos para cada ocasião. O filme é muito bom. Sendo mais um a mostrar universos masculinos com delicadeza. E com certeza esse filme merece fazer parte da nossa videoteca.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Tempero da Vida (Politiki Kouzina). 2003. Grécia. Direção e Roteiro: Tassos Boulmetis. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 108 minutos.