Isto Não é um Filme (In Film Nist. 2011)

É triste saber que enquanto em determinados lugares sobra liberdade e não se sabe exatamente o que fazer com ela, desperdiçando-a, em outros sobra entusiasmo, força de vontade e boas ideias, mas infelizmente esbarra na censura e não liberdade de expressão. É o que aconteceu com o diretor iraniano Jafar Panahi condenado a seis anos de prisão domiciliar e vinte proibido de fi…lmar.

Jafar encontrou uma brecha e conseguiu produzir “Isto Não é Um Filme” para nossa felicidade possibilitando o espectador a lamentavelmente saber que a repressão é uma realidade em pleno século XXI, e que este “não-filme” conseguiu sair de seu país de maneira clandestina, através de um mero pendrive escondido dentro de um bolo.

Parabéns ao diretor por estar dando voz aos outros diretores iranianos impossibilitados de realizar seus trabalhos, mesmo sabendo que está correndo risco de sofrer punições com a produção caseira agora espalhados pelos quatro cantos do mundo.

Sonhar ainda é permitido em qualquer nação… bom que ele encontrou um meio de partilhar este seu sonho com o publico. Agradeço profundamente pela coragem e ousadia.
Karenina Rostov
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Isto não é um filme (In Film Nist, This is not a film. 2011)
Filme iraniano dirigido por Jafar Panahi e Motjaba Mirtahmasb.

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011)

Por Alex Ginatto.
Pude assistir ontem a este surpreendente filme. De início acho que fui um pouco preconceituoso por se tratar de um filme iraniano, mas o enredo se aplica a qualquer lugar do mundo, talvez se focarmos um pouco menos na religião.

Realmente conseguimos sentir a aflição de todos os lados:
-o marido orgulhoso que não quer que a esposa se vá, mas também não diz isso a ela;
-a esposa, preocupada com o futuro de sua filha, querendo sair do país, mas não suportando a ideia de que o marido não concorde com ela;
-a filha em uma época complicada, diante da separação dos pais, se vendo como objeto de disputa;
-o senhor que não pode vencer o corpo e mente desgastados pela doença;
-o casal mais pobre entre a religião e o dinheiro devido aos credores.

O filme se mostrou muito maior do que se imagina pelo título e acho que a ideia do diretor ao finalizar sem um lado é justamente focar no todo e não somente na separação do casal.

Tudo o que acontece durante o filme é fruto de mentiras e decisões precipitadas iniciadas pela saída de Simin de sua casa. Ou seja, a separação é o início de tudo, e o filme termina com a certeza de que o que fica pendente durante todo o seu desenrolar, ao contrário do que parece, tem um fim, se concretiza.

Não sei se para rever, mas para se pensar e aplicar em nossas vidas.

Excelente filme!
Nota 8.

A Separação (2011). Ou: o Declínio da Família Contemporânea.

E quem estaria com a razão? Todos… Ninguém… Pois tanto em termos da natureza humana, quanto da sociedade, tudo dependerá de seu próprio ponto de vista.” (Asghar Farhadi)

O filme “A Separação” traz em primeiro plano uma reação em cadeia devido a separação de um casal. Pois quase todos os envolvidos se viram na obrigação de mentir, ccomo também de omitirem certos fatos. E que para alguns deles o que antes parecia ser uma mentirinha de nada, tomou um rumo inesperado.

Agora, seria mesmo uma casualidade de chegarem ao ponto onde chegaram? Que ao mentirem crendo ser com boas intenções não haveria implicações? Até porque para manter a mentira que se contou terá que obter pelo menos o silêncio de outros envolvidos. E estando de posse da mentira do outro, teria como se eximir da própria? O ato de mentir traria muito mais o peso do pecado ou o do perjúrio? Mas e quando Religião e Estado ocupam o mesmo estado de direito? Mais! E quando o Sistema Judiciário, sobrecarregado, se perde nas próprias malhas da Lei? A sucessão de erros fora por que alguém não segurou a onda? Mas quem, ou melhor, o que foi o ponto inicial desse drama familiar? Que terminou envolvendo outras pessoas. Onde inocentes ou culpados todos pagaram um preço.

Além dessas reflexões, o filme também traz um outro tema: o de ter um membro da família já idoso, com o agravante de precisar de atenção e cuidados por quase 24 horas diárias. Interná-lo, ou mantê-lo em casa? Quando a renda familiar não permite colocar profissionais para esses cuidados, aceita-se qualquer um? Mas nesse filme vemos um outro ponto. A mulher ganhando mais que o marido, e sendo o idoso o pai dele. Onde eu acho que tudo começou. Sobrecarregada, mesmo gostando do sogro, ela tomou uma decisão precipitada. O marido que antes já não tinha aceitado que a esposa pagasse por enfermeiro, não seria com a nova decisão dela que ele mudaria de opinião. Numa de que é o “macho que sustenta a todos da família”? Mas ele também se precipita aceitando a primeira que apareceu para tomar conta do pai. E o pobre do idoso, sem querer, termina por ser a causa da separação do casal.

A separação veio por mais uma decisão sem pensar de Simin (Leila Hatami) que vira na permissão dos vistos (passaportes) uma chance de sair do Irã. Acontece que o marido, Nader (Peyman Moadi), não quis abandonar o próprio pai (Ali-Asghar Shalbazi); o tal idoso, e acometido do Mal de Alzheimer. Então, também orgulhosa, ela pede a separação de direito do casal. Até porque Nader concordou com o desenlace deles, mas  não concordou que ela levasse a filha do casal: Termeh (Sarina Farhadi, filha do Diretor do Filme: Asghar Farhadi.). E que essa por sua vez, já uma adolescente, não queria perder os estudos.

Simin pensou que assim intimidaria o marido. O que talvez teria conseguido se houvesse mais diálogo entre o casal. Já com quase 15 anos juntos, estavam à beira de uma crise, e que pelo jeito nenhum dos dois percebeu. A seu favor, havia o peso de uma sociedade machista e autoritária, e de tradição centenária. Dai o fato de ter focado mais no destino final – o de viverem em outro país -, do que ir preparando terreno aos poucos. Sufocada, não pensou direito.

Tanto um quanto o outro usaram a própria filha como desculpa. Grande erro! Pior! Jogaram nos ombros dela a decisão final. Simin via em sair do pais um futuro não tão rígido para Termeh. Já para Nader ele achava o país o melhor lugar para criar a filha. Mas no fundo, ambos sabiam que a filha os manteriam pelo menos próximos um do outro. E é algo que machuca: em ver que ainda havia amor entre esse casal.

Termeh, em meio a esse fogo cruzado, fica sem saber o que fazer. Como agir. Talvez por conta de um temperamento calado, muito mais propensa aos rigores da tradição do país, do que a própria mãe, ela foi cozinhando os dois em banho-maria. Desejava a reconciliação deles.

Em “A Separação” vemos como pano de fundo um Irã de uma classe média alta. Se não fosse pelos lenços cobrindo as cabeças das mulheres, o lugar passaria por um bairro em algum país do Ocidente. Mas avançando o olhar, ele é definido como sendo um com tradição Islã pela modo como tratam as mulheres.

Agora, como em todo lugar do planeta, se há a classe que se dá o luxo de pagar por empregados domésticos, também há esse outro contigente advindos das classes mais baixas. Onde moram no filme é ilustrado pelos ônibus: significando que moram longe dali. O que pesa também para essas pessoas: distância + custo das passagens + cansaço por essa jornada…

Personificando esse proletariado teremos um outro casal, e que serão envolvidos nessa separação inicial. A primeira envolvida será Razieh (Sareh Bayat), com a filhinha. Depois, seu próprio marido: Hodjat (Shahab Hosseini). Se para o primeiro casal, nem o fato de “não faltar nada em casa” pesou para manter o casamento, o mesmo foi um fator preponderante em salvar a própria união. É que desesperada em ver o marido, há meses desempregado, ter sido levado pelos credores, Razieh mesmo grávida, mesmo indo contra a sua religião, implora pelo emprego a Nader. E ocultando tal fato do marido.

Nader tendo que ir trabalhar, não querendo ser render de que precisaria da esposa de volta, ciente também de que estaria indo contra os princípios do islamismo, aceita que Razieh tome conta do pai, e da casa. Ela por sua vez fica ciente de que o idoso Alzheimer. Logo, em algum momento teria que tocar nele. Num homem. E quando tal hora chega, é um quadro patético em vê-la ao telefone querer saber se isso seria pecado ou não.

Não ficando só nisso, ainda há lhe pesar… Pela distância percorrida até chegar nesse emprego, pela gestação em período de cuidados, pela jornada dupla de trabalho, Razieh coloca a filhinha para ajudá-la no serviço da casa. A criança ao descer as escadas com o lixo, acaba entornando-o. Uma moradora do prédio impõe que Razieh limpe, e logo. Aturdida, ela esquece do idoso. E…

A partir daí mais erros se sucedem. Como uma avalanche. Mentiras e omissões em lugar de diálogos francos e respeitosos. E quando Hodjat descobre tudo, a teia de situações conflitantes aumentam. A grande questão que se estampa: Quem iria dar um freio aquilo tudo? Para no mínimo tentar uma conciliação geral. Um meio-termo onde ninguém achasse que não teve razão no que fez.

Não pude evitar em pensar na crise atual e no mundo real. Onde estão aumentando a população pobre dos países tidos como do primeiro mundo. Como também, que mesmo criticado por muitos, o Brasil com o seu Bolsa-isso-Bolsa-aquilo fez foi diminuí-la. Então, no filme, para esse casal de baixíssima renda, o próprio país era ainda mais opressor do que para o outro. Não havia o Bolsa Família do Ocidente, por exemplo.

Mas tanto Estado quanto Religião, em geral, incentiva em se ter uma família. Não importando se terão como mantê-la ou não. Não é de boa política o planejamento familiar. Algumas tradições ainda incentivam em trazer mais filhos ao mundo.

Para o casal pobre o desemprego viera já estando casados e com uma filha nascida e outra a caminho. Pesando ainda o fato de que psicologicamente Hodjat não estava tarimbado para ser um pai, nem em constituir uma família. A recessão que passava só trouxe a tona seu temperamento explosivo. Com tudo isso, o casal não apenas se envolveu, como também Hodjat quis tirar proveito de um fato. Já que com a indenização, teria como se livrar dos credores.

Além da crise financeira poderia se pensar que é por culpa de uma cultura machista? Se sim, ela não é privilégio das de tradição Islã. As do Ocidente, mesmo que veladamente, também se calca nela. Se alguém achar que não, que preste atenção nas propagandas de algum produto voltado ao lar, a família, só como exemplo. Eles colocam a mulher como compradora compulsiva, ou como uma “do lar”. Já para o homem, o mesmo produto é vendido como um hobby. Então a culpa não seria por ocidentalizar os costumes locais.

Para mim, o que Asghar Farhadi quis mostrar em “A Separação” é que a instituição Família que está em falência.

Que não importa se no Ocidente, ou no Oriente, é esse laço que precisa ser revisto. Ser pesado. Ser reavaliado sempre. O “sombrio” sentar para discutir a relação precisa acontecer. E que em vez de já numa mesa de um Juiz da Vara de Família, por que não com a ajuda de alguém da Área Psico, assim evitando chegar as vias de fato. Tem uma certa hora que o melhor a fazer é sentar e conversar. Saber o que cada um ainda estaria procurando nessa relação. O que, ou em que, cada um cederiam para uma boa convivência. Pesar se é o ser ou o ter que é alicerce da mesma. É por aí. Já que para cada casal também há conflitos únicos.

Não sei se por conta de não sofrer censura do governo e com isso não teria o filme liberado que Asghar Farhadi deixou o final em aberto. Os créditos subindo, e de cá ficamos sem saber a sentença final. Mas que para mim houve sim um desfecho. Como citei anteriormente: ele quis mostrar o declínio da instituição Família. Em qualquer classe social, e a bem da verdade, em qualquer cultura também!

O filme deixa uma vontade de rever logo em seguida. Por ficar a sensação de ter perdido tal cena quando mais a frente ficamos ciente de que foi ela que levou a tal consequência, a tal mentira. É uma uma mentira levando a outra, e depois a outra, e mais outra… A trama vai se revelando aos poucos, como num Thriller. A impressão de não termos prestado atenção no fato anterior, é por também querer conhecer, saber de todos os detalhes para melhor avaliar; para então ver se havia razão de ser. O ter como ponderar, como numa cena entre Nader e Termeh. Na realidade, sabemos como o fato anterior se deu. Julgá-los já se perde a razão de ser. Até porque: está feito! Como também não é de nossa alçada.

Então é isso! Com um elenco afinado – de querer vê-los em outros trabalhos -, temos em “A Separação” um filme Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011). Irã. Direção e Roteiro: Asghar Farhadi. Gênero: Drama. Duração: 123 minutos.

À Procura de Elly (Darbareye Elly. 2009)

a-procura-de-elly_posterDepois da ressaca do Festival de Cinema do Rio 2009, voltamos à nossa programação normal, não menos sem comentar um filme que me chamou a atenção e que merece ser citado para não cair no esquecimento. É o longa iraniano – Darbareye Elly / About Elly – dirigido por Asghar Farhadi.

A história toda gira em torno de mentiras. Não era para ser, mas uma mentira acoberta outra, para não ser descoberta; torna-se uma bola de neve, e dificilmente se sai dessa enrascada bem. Às vezes ela não tem limites; às vezes ela parece sincera. Mentiras enganam, destroem. Quem mente sempre fica numa situação constrangedora, e quando descoberto, vive-se angustiado. E uma mentira leva a outra exatamente pelo fato de ocultar a anterior pela vergonha e passa-se a medir as palavras e se policiar para não se trair, e uma sensação ruim vai ocupando espaço e tempo; vive-se tenso, preocupado, irritado…Elly é uma jovem professora que foi convidada pela mãe de uma de suas alunas para uma viagem de três dias com um grupo de amigos a fim de comemorar a volta de Ahmad da Alemanha; ele que acabou de se separar de sua esposa e retorna ao Irã.

Elly hesitou, porém, acabou cedendo e aceitando, por insistência, fazer essa viagem com o grupo. A vida de Elly para o grupo de amigos era um mistério. Sepideh, que a convidou a conhecia vagamente, mas não sabia nem ao menos o seu nome completo.

Sepideh queria era mais juntar o casal Elly e Ahmad (o recém-separado). Só que ninguém sabia que Elly era noiva há seis anos, e que não suportava o noivo, mas não terminava a relação por pressão dele que a ameaçava se ela o abandonasse. Alguns do grupo teria que ir à cidade para fazer compras e deixaram três crianças sob a responsabilidade de Elly. Uma delas se afoga no mar, e nesse instante, pelo desespero de todos na tentativa de salvar a criança, não se dão conta de que a professora também desapareceu. Ninguém sabe o que aconteceu. Se ela foi embora, porque de fato não estava se sentindo à vontade com o grupo que fazia brincadeira sobre formar um novo casal, se ela havia se arrependido e que teria ido embora, ou se teria se afogado na tentativa de salvar a criança do afogamento.

Sepideh que a convidou, estava se sentindo culpada. Ela confessou que Elly resolveu ir embora. Mas naquele momento não se sabia se ela decidiu de fato ir, ou se estava no mar na tentativa de resgatar o garoto, ou se teria saído para telefonar. Encontraram a mala e todos os objetos dela, daí concluíram que ela não poderia ter partido. Só que para complicar, Sepideh confessou que escondeu a mala da amiga para que ela não partisse. Encontram o celular dela e descobriram a sua última ligação. Era para um rapaz, e o grupo pensa que era o irmão, mas na verdade era o noivo, enfim, daí começa a construção de mentiras infindáveis, e só em pensar em contar, cansa.

Para o expectador, fica subentendido que ela partiu. O grupo aciona a policia local, que a busca em alto mar, mas nada encontra.

No dia seguinte, o rapaz que se pensava ser o irmão, mas que era o noivo da professora, vai ao local, e as mentiras são combinadas pelo grupo para passar a ele. Ninguém do grupo sabia nada da desaparecida, nem ao menos o nome dela. Elly era apenas um apelido e era filha única. Conta para o noivo que ela se acidentou e está em coma no hospital (mentira!).

No dia seguinte a guarda marinha encontra um corpo e o grupo é chamado para o reconhecimento. O desfecho é trágico. Você pode concluir.

Uma mentira, por mais inocente que pareça, é sempre demais perigosa. Quem nunca mentiu, que atire a primeira pedra.

Karenina Rostov

http://www.youtube.com/watch?v=PuJhq56lLlU

E para ilustrar, um poema que fala a verdade da mentira.

A Implosão da Mentira

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Affonso Romano de Sant’Anna.
 
À Procura de Elly (Darbareye Elly / About Elly) – 2009. Sinopse: Após anos a viver na Alemanha, Ahmad está de volta ao Irã. Três dos seus antigos colegas de universidade decidem organizar três dias de férias. Uma das mulheres do grupo, a alegre Sepideh, fica encarregada dos preparativos e convida Elly, a professora da escola de enfermagem da sua filha.Ahmad, saído recentemente de um casamento infeliz, gostava de assentar com uma mulher iraniana. Sabendo disto, os amigos gradualmente se apercebem porque Sepideh convidou Elly. Esta passa a ser o centro das atenções e cada um procura realçar as suas melhores qualidades.No segundo dia, quando tudo parece correr como planejado, um incidente conduz ao desaparecimento de Elly.Leão de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim 2009.

Origem: Irã
Duração: 119 minutos
Tipo: Longa-metragem
Realizador: Asghar Farhadi
Gênero: Romance / Drama
Argumento e Roteiro: Asghar Farhadi
Director de Fotografia: Hossein Jafarian
Montagem: Hayedeh Safiyari
Produção: Asghar Farhadi
Música: Andrea Bauer
País de Produção: Irã
Ano de Produção: 2009
Duração: 119’
Língua Original: Persa

E Buda Desabou de Vergonha (Buda as Sharm Foru Rikht. 2007)

E Buda Desabou de VergonhaQueria mostrar o efeito da guerra sobre as crianças. Se vivem essa violência, a copiam e acham que é o correto.” (Hana Makhmalbaf)

Eu fiquei na dúvida em qual caminho seguiria para iniciar a falar de ‘E Buda Desabou de Vergonha‘. Se já pelo drama da pequena protagonista, ou se pelas brincadeiras de criança que também estão na trama, mas por conta do que citaram nela vi que os adultos influenciaram nisso.

Assim, parto da fala acima da Diretora. Que me fez pensar nas crianças de todo o mundo, já que a violência urbana não se restringe a poucos países. E mesmo dentro de um mesmo país há nichos que quando vemos alguma é muito mais pela mídia. Sendo que as crianças que convivem de perto com essa violência serão mais testadas na sua essência. Como nas favelas, enquanto algumas crianças brincam inocentemente, outras já tenderão para o lado do crime.

Dai, me pergunto se as brincadeiras na infância teriam mesmo grande influência na formação do caráter da criança? Lembrei-me de quando quiseram impetrar um politicamente correto em simples cantigas de rodas. Cantei muito a ‘Atirei o Pau no Gato’, e nunca me vi motivada a machucar um.

Acreditar, ou melhor, creditar que todo o caráter já nasce com a pessoa seria também dizer que não há recuperação para todos que seguem o caminho do antiético. Algo vem de berço sim, mas também uma parte é formada nesse início de vida: na infância. E é onde entra o adulto: em passar boas lições, como também observar as atitudes das crianças. Porque pode haver certos indícios na infância para um desvio comportamental futuro. Como pistas a seguir, mas que por vezes passam despercebidas.

afeganistaoA história do filme se passa no local onde a grande estátua de Buda foi destruída pelos talibãs, em Bamiyan, no Afeganistão. Onde uma população mais carente foram viver nas cavernas que ficaram após a destruição. Uma favela afegã. Um povo que convive, ou que vive num estado de guerra.

Dentro de uma dessas cavernas vive a pequena Baktay (Nikbakht Noruz), com a mãe e uma irmã ainda bebê. Com a ida da mãe até o rio para lavar roupas Baktay fica tomando conta da irmãzinha. Algo tão comum em muitos lares no mundo inteiro.

Na caverna ao lado, vive o pequeno Abbas com a sua mãe. Abbas ao fazer o seu dever de casa, lê o texto em voz alta. Baktay, meio irritada porque se a irmãzinha acordar, lhe dará mais trabalho, o repreende. E nessa discussão, ela descobre que se aprender a ler, conhecerá muito mais histórias. Decidindo então a ir para a escola.

Então iremos acompanhar toda sua saga ao querer estudar.

Primeiro, ela terá que conseguir comprar o caderno. Não é nada fácil. Ela nos leva a acompanhá-la com coração apertado. Noutras, nos leva a sorrir. Ou que por conta dessa dificuldade na compra, nos entristece ao ver com o que fazem com o caderno dela.

Depois, o drama em conseguir uma escola que aceite meninas. A única que existe fica bem distante. E no meio desse caminho… um grupo de meninos brincando de talibãs. A fazem de refém. Mais tarde eles brincam de soldados americanos.

meninos-brincando_vovo-moinaAqui, temos algumas reflexões. Crianças gostam de brincar de mocinho e bandido. Copiando filmes, livros, ou até o meio em que vivem. E isso não é indicador de algo ruim. O que irá pesar sim, será aquilo o que o adulto dirá sobre tais fatos. A criança será um mero repetidor. Nem estou contando com as que já mostram uma tendência sociopata.

Nesse filme, se vê uma população bem carente de recursos. Assim, esse grupo de meninos podem ter aprendido pelos livros escolares, ou mesmo por curiosidade, perguntando aos adultos do porque daquela destruição toda. Conhecendo a História mais recente do seu país. Mas a fala que faz referência ao Vietnã denota um peso maior, e que foi recebido por adultos. Então foi algo lido, ou ouvido, e não algo visto.

Se naquela região há um tipo de conflito, se nas nossas cidades o narcotráfico é que gera a violência, claro que quem mais irá sofrer as consequências serão as crianças. O direito de brincar nas ruas, ficará impraticável.

e-buda-desabou-de-vergonha_01Com tudo isso, para mim, o conflito maior em ‘E Buda Desabou de Vergonha‘, foi a dificuldade para a mulher estudar. É algo da cultura deles. Que são poucos os que permitem. No filme, se vê que há muitas mais turmas de meninos. Baktay teve também que disputar por um lugar para sentar. E com aquela professora… aquela turma de meninas não irão longe nos conhecimentos.

A atriz que faz a Baktay é um doce de criança. Não tem como não se apaixonar por ela. O que faz o Abbas, também. Ele será o pequeno grande herói para ela. Muito embora ela seja muito mais corajosa que ele, por ser mais destemida. Mas ele se mostra mais centrado. Mesmo que aos olhos de muitos possa denotar medo, era a solução mais acertada para escapar do cerco…

Na guerra, o único heroísmo é sobreviver“. (Samuel Fuller)

Eu gostei do filme. De querer rever. Mas o filme poderia ter sido muito melhor. Não sei se o vi com um olhar mais feminista, dai pesar contra esse tipo de cultura onde a mulher fica à sombra dos homens. Então, se o que a Diretora quis foi somente mostrar os malefícios das guerras perante as crianças, acabou se perdendo. Ou, eu me perdi por focar mais na dificuldade da menina em estudar. Nesse contexto sim, o filme foi excelente.

Bravo Baktay! Por ser uma criança que também gosta de brincar! Além da sede por querer aprender a ler e escrever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

E Buda Desabou de Vergonha (Buda as Sharm Foru Rikht). 2007. Irã. Direção: Hana Makmalbaf. Elenco: Nikbakht Noruz (Baktay), Abbas Alijome (Abbas), Abdolali Hoseinali (Talib boy). Gênero: Drama, Guerra. Duração: 84 minutos.

P.s: A ilustração dos meninos brincando, trouxe daqui: Histórias da Vovó Moina.
http://vovomoina.blogspot.com/2009/06/as-aventuras-da-dupla-dinamica.html

Tartarugas Podem Voar (Lakposhtha hâm parvaz mikonand. 2004)

tartarugas-podem-voarTartarugas Podem Voar‘ é um filme que traz um documental da insanidade de uma época, e que é bem atual. Que dói na alma. Que enoja em saber dos requinte cruéis dos fabricantes de minas terrestres. De mostrar a bestialidade em soldados estuprando uma adolescente. De que, principalmente crianças, são meros danos colaterais, totalmente sem significância para os fomentadores das guerras.

Para quem viu ‘Caçadores de Pipas‘, ou leu o livro, já tem uma noção de uma diferença étnica naquela região do Oriente Médio. Refiro-me aos Curdos. Que em períodos de guerra, tentam sobreviver como em guetos. Isso quando não são dizimados. Em ‘Tartarugas Podem Voar‘ a trama se passa num acampamento curdo. De um lado, uma forte fronteira a lhes barrar entrada, a Turquia. E saindo dali, o forte preconceito dentro do Iraque.

Aqui se ve um grupo de crianças tentando sobreviver nesse mundo inóspito. Cruel, melhor dizendo. Como ganha pão: o desarmar minas terrestres que serão revendidas no mercado negro. De lá, alcançarão um preço muitíssimo maior, e que não será repassado a essas crianças. São elas que correm todos os riscos. São mutiladas no corpo e na alma.

princesa-diana_contraria-as-minas-terrestreA atualidade está carecendo de uma outra Personalidade como a Princesa Diana. Que ajudou a acordar parte do mundo para essa vil arma. E que eu quero falar mais sobre as minas terrestres, antes de voltar a análise do filme.
A maior indústria de minas do mundo encontra-se nos Estados Unidos, a Claymore Inc. Fabricam um tipo de mina cuja função é destruir e cauterizar logo após a explosão, os membros inferiores dos elementos atingidos, mutilando sem matar. Este artifício é feito de forma que o alvo não venha a morrer por hemorragias, e sim permanecer vivo, acordado, e sentindo dores pela maior quantidade de tempo possível, de forma a quebrar o moral da tropa em seu avanço. Além disso, serão precisos dois homens para carregar o ferido, diminuindo o número de soldados para combate“. Tem mais aqui.
Três fatores essenciais contribuíram para a criação do Tratado de Proibição de Minas Antipessoais (Tratado de Otawa, que entrou em vigor em Março de 1999, assinado por 153 países; no qual os governos signatários se comprometeram a remover, num prazo de dez anos, todas as minas existentes dos seu territórios): os mortos e feridos causados pelas minas terrestres em todo o mundo, a contribuição de alguns países, mas sobretudo, a mediatização do flagelo pela Princesa Diana“. Tem mais aqui.
Março de 1999… Dez anos se passaram e… E os Estados Unidos desenvolveram um novo tipo de mina. Chamado de spider (aranha), o artefato seria uma alternativa às minas tradicionais proibidas pelo Tratado de Ottawa, pois pode ser detonada por controle remoto.

A história se passa às vésperas da ocupação norte-americana no Iraque. Com isso, os adultos estão preocupados em tentar saber notícias externas pela televisão. Para tal fim, contratam um dos jovens para conseguir uma antena parabólica. Ele é o Satélite, quase um menino ainda. Tem esse apelido porque um dos artigos que vende, são as antenas.

É um líder entre todos, adolescentes e crianças, e muito estimado. Que acaba se encantando por uma adolescente, Agrin. Ela, o irmão e uma criança vieram se juntar ao local, mas não se integram ao grupo. Trazem um segredo de um passado recente. Satélite tentará quebrar essa barreira. Apesar de todo o flagelo, ele tenta passar calor humano.

É um filme que poderia ser passados nas Escolas. Numa tentativa de não virarem adultos egoístas. O mundo urge num desarme-se maior. Se as mentes de muitos adultos já não tem como melhorar, que seja ensinado as crianças os reais valores.

Tartarugas Podem Voar‘ é um excelente filme! O qual eu tornaria a ver, mas não no momento. É muito triste, pela história, pela estupidez dos humanos.  E gostaria muito que muitos assistissem. Ele traz uma maldade que poderia ser evitada.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Tartarugas Podem Voar (Lakposhtha hâm parvaz mikonand /Turtles Can Fly). 2004. Irã / Iraque. Direção e Roteiro: Bahman Ghobadi. Elenco: Soran Ebrahim (Satellite), Avaz Latif (Agrin), Saddam Hossein Feysal (Pashow), Hiresh Feysal Rahman (Hengov), Abdol Rahman Karim (Riga), Ajil Zibari (Shirkooh). Gênero: Drama, Guerra. Duração: 95 minutos.