O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)

O-Conto-da-Princesa-Kaguya_2013Por: Carlos Henry.
Mais uma vez, o Estúdio Ghibli brinda sua audiência com uma pérola rara. Dirigido por Isao Takahata, “O Conto da Princesa Kaguya” segue a mesma linha dos trabalhos do estúdio exaltando a supremacia da natureza, que como em “Meu amigo Totoro” coloca os bens materiais num último plano.

Singelamente artesanal, “Kaguyahime no Monogatari” tem movimentos e sequências que muito impressionam. A apurada técnica manual, que não tem medo de mostrar a textura e as pinceladas da ilustração, acrescenta mais poesia, um humor muito peculiar e certa verossimilhança à fantástica história do conhecido conto japonês:

Um casal de pobres camponeses acha um pequeno ser dentro de um bambu que eles acreditam ser uma princesinha e portanto se esforçam para transformá-la numa, sem se darem conta que estariam assim, afastando-a da felicidade na sua simples missão na Terra.

Com raros recursos digitais, o trabalho de desenhar cada quadro levou cerca de 8 anos para ser completado e ganhou uma indicação ao Oscar de Melhor Animação. A julgar pela assombrosa beleza dos últimos momentos do filme no fabuloso resgate de Kaguya reunindo música e emoção numa apoteose onírica, o esforço realmente valeu a pena.

O Conto da Princesa Kaguya (Kaguyahime no Monogatari. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Anúncios

Meu Amigo Totoro (Tonari no Totoro. 1988)

Por: Andinhu S. de Souza.

Tonari no Totoro Totoro, totoro totoro

Mori no naka ni, Makushi kara Sunderu
Tonari no Totoro Totoro, totoro totoro
Kodomo no Toki ni Dake, Anata ni Otozureru
Fushigi – na Deai

Magia, emoção, e uma bela viagem aos tempos de infância nessa, que é uma das mais maravilhosas obras do mestre da animação japonesa Hayao Miyazaki, que trás uma bela e emocionante história, que nos faz voltar aos tempos em que acreditávamos em fantasmas, brincávamos no jardim com toda aquela energia. Meu Amigo Totoro é uma dádiva que nos faz perceber com clareza a criança e a inocência escondida dentro de cada um de nós.

Baseado numa obra literária, a obra começa com um homem e suas duas filhinhas se mudando para uma casa localizada na zona rural do Japão; o motivo, ficamos sabendo só algum tempo depois, é a doença da mãe delas, que a obriga a estar em um hospital ali perto. As duas meninas passam a maior parte do dia sozinhas, pois seu pai é professor e trabalha em uma universidade longe dali; são elas o centro do filme, que é de uma delicadeza extrema. Quando chegam no novo lar, as meninas Mei (a mais nova) e Satsuki (a mais velha) começam a explorá-lo, logo ficam animadas em saber que a tal casa pode ser mal assombrada pelos Makure Kurosuke que são fantasmas bem conhecidos nas fábulas do Japão. Ficam maravilhadas ao encontrar os Susu Ataki, que são as bolinhas pretas de fuligem.

Mas é em uma tarde qualquer, enquanto sua irmã Satsuki está na escola e seu pai está trabalhando na sala, que Mei viverá uns de seus dias mais graciosos. Brincando no jardim, ela persegue dois coelhinhos pequeninos até que cai em um buraco, onde conhece Tororo, que é conhecido dentro da fábula do filme como o deus guardião da floresta, e só quem é criança pode conseguir vê-lo. O personagem do Livro é chamado de Tororu, mas Mei pronunciava errado, Totoro. Esse encontro possui algumas caracteríscas do filme Alice no País das Maravilhas, no qual Alice cai num buraco até chegar no tal país.

Totoro é quase um desses bichos fofinhos que costumamos ver em animações, Digo quase porque, em vez de humanizá-lo, o que o tornaria mais adorável, Miyazaki opta por deixá-lo em estado bruto, por assim dizer, como bicho mesmo; ele não possui nenhum sentimento humano, é antes um animal e se comporta assim. O fato de se afeiçoar às meninas não lhe muda em nada o comportamento; e é por isso que às vezes o seu sorriso pode ser assustador. É um personagem apaixonante, demora a aparecer no filme, e continua aparecendo pouco. Mas é impossível não ficar ansioso quando Mei está preste a vê-lo pela primeira vez, e em todos os poucos momentos em que ele aparece.

Miyazaki usa várias referências da cultura japonesa que enriquecem a obra como o costume das pessoas de reverenciar uma árvore com sinal de respeito, como o Jizo-san, o padroeiro dos viajantes e os santuário na estrada; o respeito e a empolgação dos pais ao verem o entusiasmo dos filhos ao se encontrarem com fantasmas ou deuses. Miyazaki cria cenas fabulosas, e de uma intensidade emocional incrível. A relação familiar mostrada é um dos pontos fortes do filme. O laço familiar no qual envolve a familia de Mei é muito belo. A vontade de rever a mãe no hospital, a sintonia entre o pai e as crianças, a vontade de escrever tudo o que está acontecendo para a mãe.

O importante em “Meu Amigo Totoro” é soltar a imaginação, pois no filme não fica claro quando algo é real ou não. E Miyazaki usa vários pontos para nos fazer imaginar, como a cena em que Tororo, os coelhinhos e as meninas estão dançando em frente de um cercado no qual as meninas estão esperando crescer as sementes e com a ajuda de Totoro as sementes crescem e se torna uma árvore gigante. A cena mais maravilhosa do filme, com uma trilha sonora mais do que bela e nostalgica. Outro ponto é o “Gatoônibus” que é um ônibus em forma de gato que transporta Totoro pra não sei aonde. Só alguns conseguem vê-lo. As bolinhas de fuligem do começo do filme, nos faz pensar que elas seriam algo de grande importância para a finalização da obra. Mas é impossível não curtir o momento em que eles estão em cena!

Não possui momentos agitados, a não ser nos minutos finais do filme quando Mei se perde, tudo é levado de maneira alucinante deixando nossos olhos brilhando o filme inteiro, com personagens que gostaríamos de ter em casa e com trilha sonora linda mesmo. A delicadeza com que Miyazaki trata a infância e os sentimentos com ela relacionados é algo entre o melancólico e o feliz, capaz de emocionar tanto crianças como adultos, razão pela qual Meu amigo Totoro possa ser mesmo considerado o ponto alto na carreira do realizador.

Meu amigo To to ro Totoro, To to ro totoro
Que viveu na floresta desde os tempos antigos
Só quando se é criança
Alguém poderá visitá-lo
Será um encontro maravilhoso

Nota: 9.0

O Castelo Animado (Hauru No Ugoku Shiro. 2004)

Hayao Miyasaki nasceu em 1951 e continua desenhando. Seu talento é indiscutível, entretanto, apesar de ter ganhado um Oscar com “A Viagem de Chihiro”, pouco dele se fala. E mais uma vez nos surpreende com um mundo maravilhoso, rico em detalhes, uma fábula com príncipes, guerra, bruxas e inúmeras metáforas cheias de significados embutidos. Serve para qualquer idade, basta gostar de sonhar.

A história é simples. Uma menina chapeleira, que vive quase que reclusa, sai para passear e é atacada, um rapaz longilíneo e sedutor a salva. No mesmo instante ela é abordada por uma bruxa que lança um feitiço que a transforma numa anciã. Somente o jovem feiticeiro pode reverter isso.

Se nova ele nada sabe ou conhece, e sua auto-estima é no chão, agora os mundos se abrem para ela. Cada giro na porta do castelo animado, onde ela vai procurar o mago que a ajudou, é um universo totalmente diferente. Além de tudo os personagens secundários são interessantíssimos e profundos.

Calcifer é um demônio do fogo. Capturado por Howl, ele é a energia da casa em movimento. Sim, o castelo caminha com pés de galinha e corpo de ave gorda e complexa. Seu interior é sujo e bagunçado, como qualquer quarto de adolescente. Porém cheio de magia. Sophie põe ordem em tudo, conquistando o pequeno aprendiz que lá coabita, o Marki. Este reverencia o proprietário, que todo o tempo viaja e enfrenta perigos inomináveis de guerra.

Ah, as batalhas lá fora são ferozes, naves enormes. Selvageria em que Howl está envolvido até as penas. Ele voa, ele ataca, ele combate. Mas foge de seu destino, não enfrenta os magos e não sabemos o porquê dele ser tão misterioso e depender tanto de sua beleza… Howl é enigmático e cativante. Praticamente todos os personagens querem ser donos do seu coração.

Acredito que apenas o espantalho Cabeça-de-Nabo, que resgatado por Sophie, não é grande fã de Howl. E neste afã de lutar e ao mesmo tempo evitar confrontos Howl envia Sophie para conversar com o príncipe e sua conselheira, a poderosa Madame Suliman.

Esta vive num castelo alto, cercada por miniaturas infantis de Howl, que um dia foi seu aprendiz. A subida das escadarias, lado-a-lado da bruxa rival, a gigantesca Bruxa do Nada é um desafio de poder.

Lá chegando o filme toma um rumo mais abrupto e os destinos são definidos de maneira rápida. Ela declara seu amor a Howl e neste momento podemos ver claramente quando é que ela está nova ou velha. A infância dele tão bem representada, é singela. As cenas de desarranjo do castelo animado, sobrando apenas uma jangada é algo estupendo.

E no final, o amor é vencedor, claro. E fica aquela lembrança de que o coração de um homem nunca tem dono, a não ser ele próprio, que o comanda e o alimenta.

O que há de bom: metáforas ricas, desenhos extremamente detalhados, enredo criativo
O que há de ruim: pouca divulgação de uma animação desse nível
O que prestar atenção: será qual a verdadeira idade de uma pessoa? A cronológica ou a sonhológica?
A cena do filme: quando a Bruxa do Nada entrega para quem é de direito, o coração

Cotação: filme ótimo (@@@@)

COBRA

O Castelo Animado (Hauru No Ugoku Shiro. 2004). Japão. Direção e Roteiro: Hayao Miyazaki. Atores: Chieko Baiko, Takuya Kimura, Akihiro Miwa, Tatsuya Gashuin. Gênero: Animação, Ação, Aventura. Duração: 119 minutos.

A Partida (Okuribito, 2008)

Esta obra de arte do cinema nipônico é uma das experiências mais agradáveis que pude compartilhar com o meu televisor nos últimos tempos. Este é um daqueles filmes deliciosos, de fácil digestão, com toques suaves de humor e drama sob medida, além de momentos de emoção e um ápice comovente. Se fosse um filme americano apostaria qualquer valor que seria o grande campeão do Oscar.

Não estamos diante de um quebra-cabeça. O filme não é de suspense e nem exige uma bagagem intelectual para sua apreciação. Na verdade é uma trágica comédia, ou talvez um drama engraçado, defina como quiser. O fato é que os mais de 130 minutos do filme passam como num piscar de olhos. Elogios a parte, vamos a história (spoilers), que embora aparentemente não tenha nada demais, é extremamente bem desenvolvida.

Daigo Kobayashi é um perdedor nato. Assim que consegue realizar o seu sonho de tocar numa orquestra sinfônica e, obter com isto, uma melhor posição social, ele adquire um violoncelo caríssimo especialmente para executar a sua tarefa, porém logo após a sua primeira apresentação, o patrocinador encerra as atividades da orquestra por falta de público.

Logo, Daigo está sem emprego e com um instrumento financiado para pagar. Com o aval de sua apaixonada esposa, ele vende o instrumento e volta para a sua terra natal, numa zona afastada dos grandes centros. Passa a morar com sua esposa na casa que sua falecida mãe deixou de herança. A casa remonta à diversas lembranças que Daigo teve em sua infância, e as lembranças não são as melhores, visto que seu pai – a qual gostava muito – abandonou a casa para viver com outra mulher.

Em sua nova vida, Daigo busca um emprego nos anúncios de um jornal regional. Uma oferta lhe chama a atenção: um ótimo salário para um trabalho que não necessita experiência numa empresa que auxília os seus clientes em suas jornadas. Daigo imagina ser uma agência de viagens e decide ir até a empresa para se candidatar a vaga.

Na empresa, temos a secretária e o chefe, mais ninguém. Na entrevista, o chefe não faz questões, apenas diz o valor do alto salário, que espanta Daigo de tal maneira, que o chefe promete lhe pagar por dia e imediatamente lhe dá um adiantamento. Daigo acaba por aceitar a importância e sua contratação é efetivada.

No dia seguinte, conhecemos o trabalho de Daigo. Eles preparam defuntos recém-mortos numa cerimônia pré-cremação. Eles atuam como uma extensão da funerária. Além de maquiar e limpar o corpo dos mortos num ritual onde todos os familiares observam, também executam um ritual bonito e respeitoso de purificação da alma, antes mesmo de fechar o corpo num caixão.

Porém o trabalho onde seja necessário tocar o corpo dos mortos é considerado uma profissão de baixo escalão. Portanto Daigo esconde de todos o que eles faz, para não desonrar seus amigos e sua esposa. O desenrolar do filme segue uma fórmula interessante: cada vez que o escritório de Daigo é acionado, temos uma experiência totalmente diferente em relação ao morto e os seus familiares. Há casos que são engraçados, outros são trágicos. Outros ainda mesclam um pouco dos dois gêneros. Em alguns momentos, me recordei de uma série antiga da HBO chamada “Six Feet Under” (traduzido como “A Sete Palmos”).

Entre cada caso, Daigo beira entre o rídiculo e o dramático, quando seus temores estão próximos de se tornarem realidade e seus fantasmas do passado lhe atormentam ainda mais. A dinâmica do filme faz com que tudo seja muito bem explorado e a temática não acabe por nos cansar. É como se estivéssemos diante de um seriado com diversos episódios de curta duração. Se eu tivesse que falar do que se trata este filme, diria que se trata da relação entre pais e filhos. Daigo – o filho rebelde que nem mesmo se recorda da face do pai e seu inconformismo por ter sido abandonado. Do outro lado o pai – a qual só conhecemos através da perspectiva de Daigo e de alguns vizinhos.

Diante da perspectiva de tantas mortes, além de conviver num local que lhe remete a tantas coisas ruins, Daigo se transforma num herói. É carismático a ponto de sofrermos com suas quedas e sorrirmos com as suas ascensões. Há momentos que os corações mais duros certamente se amolecerão. Se você não quer se desmontar na frente dos outros, aconselho que assista este filme sozinho, por que o risco disto acontecer é real.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.

Coral de Tóquio (1931)

Coral de Tóquio (Tokyo no Korasu, Japão 1931)
Diretor: Yasujiro Ozu
Escolhi dia desses aleatoriamente para rever o filme O Homem que Sabia Demais de Hitchcock. Uma cena de uma das locações deste filme me remeteu ao cineasta Yasujiro Ozu. No desfecho, Hitch faz um breve passeio com a câmera, mostrando detalhes dos interiores da mansão, portas, escadas, mobília, corredores, lustres, até chegar ao quarto onde estava preso o filho seqüestrado do casal americano, exatamente como acontece ao estilo de Ozu filmar. Seria uma homenagem?

Conheço meia dúzia de filmes de Ozu dando perfeitamente para se concluir que seu estilo é inconfundível, reconhece-se como uma marca registrada pela poesia existente na fotografia, pelo assunto e costumes do cotidiano, temas triviais geralmente familiares, pequenos dramas, peculiaridades da cultura oriental, relações conflituosas entre tradição e modernidade. As imagens iniciais mostrando paisagens, crianças brincando, pessoas transitando pelas ruas, animais e residências transmitem paz e serenidade. Ele trata com carinho e especial sentimento os assuntos rotineiros e banais, o público se identificando constantemente pelos temas declinados, desde amor não correspondido, desemprego, saúde, miséria, educação, religião, família, até assuntos polêmicos como suicídio. Além de contar uma boa história, por mais simples ou rotineira que seja, Ozu nos presenteia com belas figuras de retórica e de estilo, principalmente a prosopopéia, personificando em belas imagens que dialogam frequentemente com o público, não se esquecendo de nenhum detalhe, tudo tem o seu valor, desde a chaleira e seu vapor num canto da sala, como também os corredores, as paredes, escadas, os chinelos e os cabides na entrada, a mesinha no centro da sala onde a família e os amigos se reúnem para uma habitual refeição e longas conversas, nada escapando ao olhar atento e cuidadoso de minúcias do diretor.

Fiquei emocionada e feliz pela oportunidade de ter assistido ao CORAL DE TÓQUIO, esse filme mudo, em preto e branco produzido em 1931, uma sessão especial assim, que eu me lembre, só vi no MAM (Museu de Arte Moderna), o clássico O Nascimento de uma Nação de D.W. Griffth com acompanhamento improvisado ao piano, e em outra ocasião um filme russo no Festival do Rio com tradução simultânea, os atores dublando ao vivo, foi um momento mágico e inesquecível.

A história de Coral de Tóquio começa dentro de um quartel onde um professor dá instruções aos subalternos, pedindo que marchem, verificando postura e obediência a ele como mestre, seus súditos fazendo tudo o que era pedido. O prólogo é uma comédia pastelão, ninguém no cinema consegue segurar o riso, principalmente quando estão em cena dois soldados trapalhões, sendo motivo de gargalhadas dos outros colegas recrutas e pelo fato de o professor mal conseguir manter a ordem e a disciplina do batalhão. Comentaram que Ozu era fã de Chaplin.

A história dá um salto, mostrando aquele que foi o soldado trapalhão, hoje um pai de família com três filhos: O mais velho era um menino aparentando ter uns seis anos; depois uma menina de cinco anos e um bebê. Okajima, o soldado hoje é um funcionário de uma empresa, e ele encontra-se em seu ofício ao lado de seus colegas de trabalho. Todos estão felizes porque é o dia do pagamento. O filho dele sabendo disso pediu-lhe de presente uma bicicleta, e o pai prometeu que lhe compraria. Acontece que nesse dia o patrão resolveu demitir um funcionário e este pai de família, para defender o colega foi falar com o patrão que acabou também o despedindo. Tempos difíceis no Japão, em plena depressão, e agora o jovem pai de família ficou desempregado. O que ele poderia fazer? Tinha formação superior, era professor, mesmo assim emprego não havia, era artigo de luxo, e Okajima começou a enfrentar dificuldades. Certo dia ele encontrou na cidade o seu ex-professor que também estava desempregado e ele lhe fez uma proposta. O professor estava abrindo com a esposa um restaurante e precisava de um ajudante para fazer propaganda, distribuindo panfletos nas ruas de Tóquio para conseguir clientes. Ele imediatamente topou. Só que não contou nada para a sua orgulhosa esposa porque não entenderia nem aceitaria ver seu marido com a formação que tinha, trabalhando como entregador de papel pelas ruas.
Okajima chegando em casa era só cobranças: o filho pedindo a bicicleta, a esposa, dinheiro para fazer compras, o bebê chorando e a menina adoeceu, precisando de dinheiro para ir ao médico e comprar medicamentos.

Um dia ela vai à cidade com os filhos e presencia a seguinte cena: o marido marchando pelas ruas, ao lado do seu ex-professor, carregando uma bandeira e distribuindo panfletos, a propaganda do restaurante. Em casa, foi um Deus nos acuda. A esposa não aceitou de jeito nenhum que ele continuasse naquela situação que considerava constrangedora para a família. Foi trabalhoso e penoso para ele convencê-la que era necessário porque ele não tinha outra escolha. É claro que para Okajima era apenas uma situação provisória até ele conseguir algo melhor. O ex-professor gostava muito dele e tinha muitos contatos de autoridades e pessoas influentes, e o ajudou sigilosamente enviando o curriculum dele para o ministro da educação indicando-o para o cargo de professor de literatura na universidade.

O dia da inauguração do restaurante, o seu ex-professor era ‘só sorrisos’, porque o local lotou; muita gente foi conhecer o novo point da cidade e foi o maior sucesso.

Nesse mesmo dia chega uma correspondência para o seu ex-professor. Adivinha o que era? A resposta do governo aceitando a indicação do professor Okajima para lecionar na universidade. Cinema também é uma escola, e neste filme aprendi muita coisa nova e agora compartilho aqui. Esta delicada comédia mostrando o cotidiano de Okajima um pai família em plena depressão e que acabou sendo despedido exemplifica o estilo de filmar e dirigir de Ozu e peculiaridades de seus primeiros filmes.

Coral de Tóquio é uma verdadeira obra de arte. Sem som e sem trilha sonora, como os primeiros filmes mudos e em preto e branco que ainda eram considerados uma curiosidade aos japoneses que diziam ser “coisa de ocidental”, e nesta sessão especial que tive a oportunidade de assistir e aprender coisas do mundo oriental que desconhecia, foi apresentado ao público a presença de uma narradora no idioma japonês, como se o filme fosse estrangeiro. Esse tipo de “tradução” ao vivo recebe o nome de Benshi que deriva de Ben (narração) e Shi (mestre, samurai), que servia para complementar o entendimento da obra cinematográfica. Formidável a tradução simultânea, ao vivo e em cores, com músicos e seus instrumentos orientais. Os benshis eram mais reverenciados que as próprias estrelas dos filmes.
O benshi continuou sendo uma parte muito importante na exibição de filmes até 1937. Fora do Japão o espanto nem era tanto pela manutenção do benshi. E sim porque frequentemente estes narradores tinham liberdade de acrescentar sua própria interpretação e dava explicação pessoal para cenas não filmadas, seu entendimento e impressão sobre o filme. Não necessariamente a versão pretendida do diretor. A narradora Ângela Nagai é ótima, fazia o público compreender um pouco mais o filme com um toque de humor imitando o choro do bebê, por exemplo, as brigas entre os irmãos por coisas banais, expressões fisionômicas etc, foi sensacional, e ilustrando constantemente com informações sobre o país, sobre a situação sócio-econômico-cultural, desemprego, família entre outros temas; e os músicos Felipe Fiani Veiga (tocando o instrumento okoto) e Tamie Kitahara (tocando o instrumento shamisen) fazendo o espetáculo mais bonito que a sétima arte já é. Tudo maravilhoso. Quem tiver oportunidade de ver um show como esse aconselho não perder. Assista!

Para quem achou estranho num primeiro momento, a técnica Benshi era muito usada nos primórdios do cinema no Japão, quando assistir a um filme era pouco para os espectadores, e os narradores eram, na verdade, considerados as grandes estrelas como os próprios atores. O filme só começava após uma palestra do Benshi; antes da narração dava-se explicação sobre o tema. No Japão existe até hoje sessões com benshi que também eram conhecidos como katsuben – abreviação de katsudoo shahin benshi (narradores de imagens em ação).

Fica aqui a dica para uma sessão de cinema divertida e leve. Esplendido!
Karenina Rostov
*
Elenco: Tokikiko Okada, Emiko Yagumo, Hideo Sugawara, Hideko Takamine, Tasuo Saito, Chouko Iida, Takeshi Sakamoto, Reiko Tani, Kenichi Miyajima, Isamu.

Depois da Vida (Wandafuru Raifu. 1998)

Por: Eli@ne L@nger.
Depois da VidaDepois da vida me apaixonou também porque o vi depois de o A Partida. Em A Partida, aprendemos a respeitar os mortos antes de serem cremados, como é de costume no Oriente. Nos ensina que nossa verdadeira ‘vocação’/missão é respeitar a vida, acima de tudo, de todos e de nós mesmos e de nosso ego tão imponente; honrar o morto tal como foi em sua melhor fase no plano físico – ou torná-lo melhor. O carinho e respeito como é tratado por especialistas ao embelezar a figura do morto, faz com que o respeitemos e dá a noção de uma vida vivida (mesmo que nossos egos e os dos outros não a tenham aceito) aos parentes e amigos presentes nos funerais. Ressuscita o que há de melhor em cada um e não, os momentos infelizes – seja pela tristeza que causou a nós e/ou aos outros; seja pela ignorância em si e inconsequência sobre nossos atos.

Depois da Vida nos mostra que, por mais dificuldades que possamos ter passado, haverá algum momento feliz que merece ficar registrado para a eternidade. A proposta é a de relevar todo o resto: assim deveríamos ter feito em vida. Depois da Vida nos dá a chance de nos vermos como alguém que pôde ser feliz, nem que seja por uma fração de segundos e que esta fração é o que realmente conta. É a felicidade o que conta e não, as mazelas mas que, diante delas, acabamos não registrando na memória que algumas vez, pelo menos uma, pudemos nos sentir bem dentro de nós mesmos, dentro de nossos corpos.

É um filme otimista, acima de tudo; muito intimista, pois vasculha a vida pessoal de cada um, entre mortos e vivos, não mais à procura das dores e dos sofrimentos, mentiras, omissões, faltas e falhas humanas. Este vasculhar as cenas vividas nos dá a sensação de um documentário, já que é exatamente isto o que NÃO fazemos conosco (relevar nossas manias e/ou defeitos), mas que poderíamos, a fim de pararmos de lamentar por todo o ‘mal’ que passamos. Pobres ou ricos, cultos ou não, inteligentes ou inábeis, todos merecemos ter uma boa imagem de nós mesmos, agora despojados de nossas ambições e/ou frustrações. Todos podem, ao menos por uns segundos. Sem isto, passar pra outro estágio de vida, nos torna como que ‘gavetas’ de mágoas: todo o resto será deletado da memória pra que possamos recomeçar com o que houve de melhor e não, de pior. Esta noção reafirma a crença reencarcionista, presente na cultura oriental.

Além disso, também o vi exatamente como o faria um diretor de cinema, até chegar às cenas ideais pra serem gravadas e exibidas aos futuros espectadores, no caso, os mortos. Pois que assistir a um filme é, por algumas horas ou minutos, morrer um pouco ou, em palavras melhores, deixar com que outro estado de consciência – onde o tempo/espaço se tornam relativos – nos transporte, como deveria ser, por outro enredo, como se ali estivéssemos e fôssemos os protagonistas.

Um cineasta me disse pessoalmente: ‘Ser cineasta é ser um eterno sonhador, que tem o olhar pro futuro. Eis porque não envelhecemos” – são eternos. Pois que agora compreendi o fundo dessa mensagem. São nossos melhores sonhos os que nos tornam eternos…

Depois da Vida (Wandafuru Raifu). 1998. Japão. Diretor e Roteiro: Hirokazu Kore-eda. Gênero: Drama. Duração: 118 minutos. Elenco: * Takashi Mochizuki – Arata; * Shiori Satonaka – Erika Oda; * Satoru Kawashima – Susumu Terajima; * Takuro Sugie – Takashi Naito; * Kyoko Watanabe (Ichiro’s Wife) – Kyoko Kagawa; * Kennosuke Nakamura – Kei Tani; * Ichiro Watanabe – Taketoshi Naito; * Gisuke Shoda – Toru Yuri; * Yusuke Iseya – Yusuke Iseya; * Kana Yoshino – Sayaka Yoshino; * Nobuko Amano – Kazuko Shirakawa; * Kenji Yamamoto – Kotaro Shiga; * Kiyo Nishimura – Hisako Hara.