Who is Dayani Cristal? (2013)

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“Para mim é muito frustrante saber que alguém que tinha sonhos, acabou se transformando em um número, estatística.”

Acompanho a trajetória desse documentário desde muito antes de poder assisti-lo. Assim que me lembro de ter lido uma crítica muito ruim quando da exibição do filme no Festival de Cinema Sundance, no qual, aliás, ele foi premiado como melhor documentário. Acreditando nessa tal crítica, pensava comigo mesma: “Ainda que seja ruim, merece o reconhecimento por tratar de um assunto tão delicado quanto cotidiano e essencial de ser pautado”. Estritamente, a imigração clandestina para os Estados Unidos através da fronteira com o México. De maneira mais abrangente, o questionamento de inúmeras condições pré-estabelecidas e naturalizadas, mas que, na realidade, são como tudo, uma construção ao longo do processo histórico: as fronteiras, o capitalismo, a exploração do homem pelo homem, a hierarquização das pessoas e de suas vidas, a valoração da mercadoria, entre muitas outras.

Pensava eu que esse filme seria como tantos outros que se propõem a discutir questões sociais e políticas importantíssimas, mas que falham por vários motivos, como o excesso caricatural na construção de situações e personagens, por exemplo. Insiro nessa linha o filme Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi, 2000) e Déficit (Gael García Bernal, 2007). Ambos têm a proposta de retratar as relações entre a classe média e as classes populares, mas acabam se tornando caricatos e chatos. Em outra chave, temos o filme O som ao redor (Kleber Mendonça Filho, 2012), cuja representação da sociedade pernambucana nos trouxe aos olhos as sutilezas da exploração cotidiana e das relações entre classes, tão mais perversas quanto mais invisíveis.

Pois bem, ainda que todos esses três filmes aqui citados sejam ficções e Who is Dayani Cristal? seja um docudrama, acho plausível dizer que ele segue nessa segunda linha de filmes que vão tratar de questões essenciais ao entendimento da sociedade sem fazê-lo de forma caricatural, simplificadora e/ou redutora. Com um posicionamento político bastante claro desde seu início, o documentário cumpre bem seu papel de denúncia e militância sem se tornar chato, maçante ou apelativo.

O filme se desenvolve em duas vertentes: a primeira, claramente documental, que retrata as dificuldades de identificação de corpos de imigrantes clandestinos encontrados no deserto do Arizona, tendo como mote um corpo com a tatuagem “Dayani Cristal” no peito. A segunda vertente, misto de drama e documentário, é aquela que mostra a reconstrução feita por Gael García Bernal da trajetória deste hondurenho encontrado morto. Não há aquelas cenas às quais costumeiramente adjetivamos como chocantes: sangue, violência, agressão. Mas há sangue, violência e agressão, expressas de maneira sutil, assim como é sutil tudo que faz com que as situações retratadas no documentário possam ocorrer todos os dias em diversos lugares sem que seu questionamento consiga bater de frente com a política que garante sua reprodução.

E esse pra mim é o grande acerto do documentário; colocar a forma fílmica e a forma social em compasso. A violência social denunciada pelo documentário é praticada na realidade cotidiana com tanta sutileza como nos é apresentada no filme. A agressão diária que faz com que homens e mulheres sejam obrigados a abandonar seus países deixando para traz sua história, sua identidade e as pessoas a quem querem bem para se arriscarem numa jornada permeada por perigo, carência e invisibilidade é tida por quase todos como natural ou, quando muito, irreversível. Daí que se reproduza há tanto tempo, cada vez de maneira mais qualificada, otimizada, deixando para trás centenas de milhares de pessoas, consideradas menos importantes e, portanto, de morte aceitável; uma estatística.

Outro ponto bastante positivo do documentário é logo no começo já deixar claro que estamos diante de uma construção metonímica, que parte de um pedaço para exemplificar o todo: a trilha dos créditos iniciais é a canção Latinoamerica, da dupla porto-riquenha Calle 13, da qual gosto muito e que, na minha opinião, é uma das produções artísticas que mais bem captaram o que é ser latino-americano e onde nos inserimos socialmente, como devemos nos portar: de pé e em luta. Como o próprio nome da canção diz, quem canta é todo latino-americano e, portanto, a história não é apenas do homem com a tatuagem “Dayani Cristal”, mas sim de muitos e tantos outros irmãos de continente e de trajetória.

Fica a minha recomendação do filme, bastante interessante, contundente e honesto. Ainda não está disponível em DVD e, infelizmente, acho que uma exibição nos cinemas brasileiros é improvável. De qualquer forma, pode ser encontrado para baixar na internet, mas sem legendas. Quem é Dayani Cristal? Bora treinar o espanhol e o inglês, pessoal… Vale a pena! Para assistir ao trailer do documentário, clique aqui. Link no IMDB.

“Sem guardas, sem controles. Aqui não se necessitam passaportes. Talvez assim devessem ser todas as fronteiras.” – Gael García Bernal, sobre a fronteira entre a Guatemala e o México

Os esquecidos (Los olvidados, 1950)

los-olvidados-posterEste é, sem dúvida, um dos grandes filmes de Luis Buñuel. Pela sutileza realista e cruel com que representa a exclusão social, pela clareza com que mostra a violência crua à qual estão submetidas as populações periféricas das grandes metrópoles e por tocar no ponto central que gera essa violência. A recorrência da temática social na obra do cineasta espanhol é grande, sendo tema de importantes referências de seu trabalho, como é o caso de O discreto charme da burguesia (Le charme discret de la bourgeoise, 1972). Mas em Os esquecidos o que mais me impressionou foi a construção fílmica das situações.

Nenhum personagem é vilão, pois as atitudes individuais são mostradas como resultado da situação social a que estão submetidos. Assim, o jovem Jaibo, líder da gangue de meninos, egoísta e ensimesmado, nos é apresentado como um delinquente, mas sutilmente Buñuel nos faz ver que ele é produzido por um sistema que não visa nem educar nem prover as necessidades básicas das populações pobres, mas reproduzir e reiterar a violência física, simbólica e psicológica em reformatórios.

Da mesma forma, a mãe de Pedro não é compreendida como um desalmada que não liga para o filho mais velho, lhe nega comida, entrega-o à escola agrária e ainda se envolve com Jaibo (que a essa altura já roubou uma faca do patrão do seu filho, pelo qual deixou Pedro levar a responsabilidade). Mas sim, ela é mais uma vítima do sistema excludente e machista, que a obrigou a casar-se aos 14 anos com um homem que a abandonou com os filhos, por quem tem que trabalhar várias horas por dia, sem conseguir lhes dar afeto, apenas o mínimo do mínimo para que não morram de fome.

Pedro quer constantemente “tomar jeito” e trabalhar, já que não consegue estudar, mas as condições de vida o impedem de fazê-lo. Mesmo quando recebe a confiança do diretor da escola agrária, Jaibo aparece para fazê-lo fugir, levando-o para a morte. A violência que permeia todas as relações desenroladas no filmes faz com que possamos entender que ela não é fruto dos indivíduos em si, mas sim, uma imposição de uma força maior que os oprime a todos com constância e firmeza. Assim, as cenas do ataque dos meninos ao cego ou ao aleijado são incômodas na medida em que representam o processo autofágico que (des)ordena a vida e o cotidiano das populações marginalizadas (tanto porque estarem à margem quanto por serem mantidas à margem).

10418155_697084740340223_4893991445148083285_nA qualidade do filme só aumenta quando percebemos, contudo, que não há uma naturalização do recurso à violência como algo inerente à pobreza, através tanto do personagem de Julian, quanto pela origem da grande violência ser sutil e constantemente  apresentada como vindo de cima. Quem sugere um possível agente de transformação é justamente o diretor da escola agrária para onde Pedro é enviado: trancar a miséria em vez das crianças!

Os esquecidos no IMDB.

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno. 2006)

Todo conto de fadas, sob a minha ótica, é um tanto quanto macabro. São intrigas, assassinatos, personagens complexas e muitas vezes irresolvíveis. Quase sempre temos tortura psicológica tão extrema que somente a realização de um sonho extremo pode livrar a personagem desta condição. Geralmente, nestes contos, a salvação se dá na figura do príncipe encantado – elemento valente, heroico, que nada teme e que nada sofre.

Na história de O Labirinto do Fauno não há príncipe encantado, visto que a história é a salvação para todos os males. Além disto, em vez dos desenhos com traçado ricos em cores, aqui o ambiente é triste e sombrio. Neste cenário, é a figura da menina Ofélia que traz alguma coisa de esperança. O Labirinto do Fauno é o conto de fadas idealizado pela protagonista mirim para oferecer-lhe uma saída para um mundo aparentemente sem solução.

O filme se passa no final da ditatura de Franco, na Espanha em 1944. Alguns remanescentes fascistas continuam a alojar em montanhas, escondidos da resistência civil, que aos poucos vão limpando a Espanha. Carmem está grávida do Capitão Vidal, fascista duro e onipotente – homem este que não agrada nem um pouco à Ofélia, filha apenas de Carmem, cujo pai havia morrido anos antes.

A partir deste ponto contém spoilers, ou seja, alguns trechos poderão conter partes da trama e isto poderá estragar o seu prazer, caso ainda não tenha assistido o filme.

Próxima de ganhar o bebe, o Capitão Vidal obriga aos seus subordinados a trazer a mulher e Ofélia para a montanha onde eles estão alojados, viagem está que desgasta totalmente a mulher, de modo que ela fica muito doente.
Diante de um cenário novo e assustador, Ofélia – que é leitora assídua dos contos de fadas – passa a fantasiar a respeito de uma fada que lhe leva para um Labirinto onde lá encontra um Fauno que lhe explica que ela era, na verdade, a princesa do mundo subterrâneo, a qual o seu pai lhe esperava há muito tempo. Para conseguir abrir o portal que levariam os de volta ao seu mundo, ela precisava cumprir algumas missões.
Na verdade a história é um subterfúgio para as coisas que Ofélia iria realizar. Era o ponto de fuga que a menina idealizou. Paralelamente a estas missões, a maldade do Capitão Vidal, por trás de um cenário de guerra e constante tensão, faz com que a menina simplesmente se esconda em sua própria história.
O final é muito comovente, pois da maneira como ela criou a sua história, Ofélia conseguiu enfrentar todos os seus desafios com bravura. Finalmente ela consegue abrir o portal e passar para o mundo subterrâneo, onde lá será feliz para sempre.

Guilherme Del Toro criou sua obra prima com este filme, que ganhou mais de 70 prêmios pelo mundo afora, incluindo três oscars. O Labirinto de Fauno é uma belíssima história, um conto sinistro sob a nossa realidade contada sob a perspectiva das fadas.

Cinco Dias Sem Nora (Cinco Días Sin Nora. 2008)

A última instância de recurso é a observação e a experimentação. Não a autoridade.” ( Thomas H. Huxley)

Valeu o ingresso! Assim como a ida até outro ponto da cidade. O que faz valer também uma reclamação aos Distribuidores que limitam as Salas onde filme que não são tidos como comerciais serão exibidos. Mais! Ao determinarem também o local, demonstram preconceitos aos que moram no Subúrbio, numa de que ai não há cinéfilos que gostam desses filmes. Se visam o número de ingressos vendidos, nessa sessão tinham menos de 20 pessoas. Enquanto que para a Sala ao lado o pipocão “Se Beber, Não Case 2” já estava com ingressos esgotados meia hora antes do início da sessão. O que os Shoppings nos Subúrbios deveriam fazer: exibir na maioria das Salas os caça-níqueis e deixando uma delas para os tidos como Cult. Bem, reclamação feita, ora e vez de comentar o filme.

Cinco Dias Sem Nora” traz um tema que nem todos digerem bem: a morte de um ente querido. Ele vai além, já que foi por suicídio. O filme não determina que tipo de problema específico a personagem título, a Nora, tinha, mas ao longo da estória ficamos sabendo que houve outras tentativas. O que mesmo para um leigo denota que ela tinha um distúrbio psíquico. Mas a doença em si não vem muito ao caso. O perfil dela como um todo sim.

Logo no início do filme vemos o quanto Nora é metódica. Segue numa preparação de uma grande ceia. Mesa posta para vários comensais. Vários potes etiquetados com alimentos na geladeira. Envelopes endereçados para algumas pessoas. Sendo que uma das fotos de um deles, por um descuído cai embaixo do sofá. Algo não planejado que irá alterar o que ela planejara para o seu Funeral.

Por mais macabro que possa parecer de alguém organizar o próprio funeral, não se cabe aqui em um julgamento a ela. Porque o que vem à mente é algo como: os fins, justificando os meios. E até porque nos pegamos a rir com quem ela encarregou de dar vida ao seu plano. Ele é José (Fernando Luján), seu ex-marido. Pelo seu comportamento, se vê que era o oposto de Nora. José até tenta boicotar os planos de Nora. Mas se hora o destino está a seu favor, noutra ele se vê preso a trama.

Se o livre-arbítrio leva até alguém a se matar, termina por interferir na vida de quem irá enterrar o corpo. E é quando entra em cena a Religião. A desse filme é a Judáica. Se por um lado Nora tramou de morrer às vésperas de um feriado judeu – Pessach -, o que reteria a todos nessa celebração, lhe escapou que o suicídio não é bem aceito no Judaísmo.

José, ateu, está se lixando para todo o cerimonial que o Rabino pretende fazer. Ambos se desentendem. Até pelo jeitinho que o Rabino sugere a título de encobrir o suicídio e por conta do sogro do filho de Nora e José. Por ser ele uma figura importante na Sociedade local. Já contrariado por se vê obrigado a seguir em frente com os planos de Nora, meio enojado com que os dogmas da religião abre caminho por conta de quem tem dinheiro, José ainda se vê atado ali no apartamento de Nora porque o filho está tendo dificuldade em encontrar uma passagem aérea, e por conta do tal feriado. E o filho, junto com a esposa e filhas, quer estar presente no enterro.

Enquanto vela o corpo, José vê a chegada de mais pessoas que como ele, não sabiam que Nora estava morta. Durante isso, José descobre a tal foto. Nela, Nora está em trajes de banho, numa praia, com um homem que não é ele. Pelo tempo mostrado na fotografia, ele acredita que ainda estavam casados. Como sabe que a esposa escrevia tudo, tenta abrir a escrivaninha. Mas quem consegue, é uma prima que se mostra não ser tão cega assim. Ela esconde dele o Diário de Nora.

Sem a presença das Religiões, o que se enterra não passa de um corpo sem vida. Mas que elas terminam dando um peso maior, até porque irão lucrar, financeiramente com esse, e mais tarde com os demais, num ciclo perpétuo.

Pai e Filho entram em choque, e em xeque. Num balanço de tudo que ficara enterrado até então. E ambos saem revigorados, cientes que perderam um tempo estando afastados um da vida do outro. Quando o filho cai em si, e que não quer que sua mãe seja enterrada na parte do cemitério junto com criminosos, cabe a José a decisão final. Numa de: “A vez é sua Nora!”

O filme é ótimo! De querer rever. Com momentos hilários! E um final emocionante! Tomara que saia logo em Dvd para que mais pessoas possam ver. É o Cinema Mexicano nos presenteando com mais esse. Bravo!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Cinco Dias Sem Nora (Cinco Días Sin Nora. 2008). México. Direção e Roteiro: Mariana Chenillo. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 92 minutos. Censura: 14 anos.

LUZ SILENCIOSA (2007). A Manutenção da Tradição pela Paixão

Por: Pedro Moreira da Silva Neto.
A ideologia de Luz Silenciosa participa de uma situação eminentemente moderna para uma organização que se determina na tradição. O contraponto entre ordem estabilizada e modernidade em seu abrupto tempo não determinado, não esperado se acondiciona na paixão.

Novamente se estabelece no relacionamento a condição de se petrificar, isto é, de se manter na ordem. Essa aparência é deslocada quando se percebe que é a troca conservadora por outra, a ação de um passe, de situação estruturada para outra é também tradicional no sentido de retificação do sujeito na perda de uma seguridade vivida na tradicionalidade.

Não ser tradicional, não pertencer a uma ordem não conservadora é uma atitude, por assim dizer estritamente tradicional e conservadora já que a tentativa de uma liberalidade de amor está também presa, petrificada no sentido de paixão, isto é, de uma determinação voluntariosa que se organiza na perda. Quero dizer que a perda de uma referência, de uma posição tal frente à comunidade, no caso Menonita (mas poderia ser outra) se encontra nessa dualidade entre ganhos e perdas, legitimação de um bem paixão pela morte. Que mesmo é isso, no sentido cristão que a representação do amor exacerbado se encaminha, à morte, à transmutação.

O que define por fim, essa condição de perda é, portanto, o despojo do amor, o desencontro que ocasiona a irracionalidade e a organização. Nesse sentido, penso que esta necessidade da perda é uma construção de perdas que, sem retorno se encaminha à entrópica situação do sujeito frente ao meio, uma localização geográfica da morte no território da paixão.

Luz silenciosa não é para mim uma luminosidade ascendente, senão a perda da clarificação do estado de ser. A ética amorosa, com ou sem conservadorismo é a lógica da permanência reestruturada e não do corte, da amarra, mas de uma impossibilidade de ascensão cultural do indivíduo, de sua autopercepção enquanto falho, enquanto criador de oportunidade, e relacionado não ao objeto individual do desejo, mas da transmutação do amor paixão pelo amor. O sentido de amor maior que é perdido para uma criatura que não consegue, portanto, se estabelecer.

A aculturação, ou a inversão de valores, ou o racional e emocional num embate de qualificação. A perda da memória afetiva, interna, e a percepção externa de uma realidade sociocultural, entre tudo, filhos, futuro, posição, conhecimento, atividade produtiva, fatores que são substituídos por uma posição diversa, mas muito comum e conhecida: amor paixão, indefinição às ordens culturais, motivações emocionais, pouca percepção ou um individualismo que é levado por outro que apesar de conhecido é indeterminado, contrariedade ao controle social da cultural estabelecida, entre outros aspectos.

O que se percebe que Luz Silenciosa não trata do direito de amar, mas a ocasião da paixão e a perda sim de um olhar referencial ao estado do sujeito em sua comunidade. Uma posição do indivíduo -vestido de mundo, em sua mundanidade- que necessita de uma opção de qualidade para si, de um desejo seu e não de uma relação do sujeito frente a seu universo de conhecimento, ou de pertencimento local, ou de sentido comunitário, e mesmo de realização.

A modernidade implanta um sujeito deslocado do cotidiano da vida relacional num casamento com a fratura do sentido sociocultural. A opção é mais um acontecimento na vida da individualidade frente à ordem familiar e cultural.

Elizabeth Fehr faz o papel da mulher traída por Johan (Cornelio Wall Fehr) menonita (comunidade religiosa que defende o pacifismo radical e rejeitam o progresso) se apaixona por outra mulher. O ator é de fato também um menonita e se espantou em se ver no vídeo. No filme não está em cheque a questão de opção comunitária, mas as esperanças de uma família, de organização apaixonada pela paz ontológica de se realizar bem por reciprocidade. A comunidade onde foi realizado o filme está ao norte do México. Uma comunidade menos radicalizada nos preceitos, mas determinada em prover o sentido comunitário em sua tradição. Apesar de possuírem carros, e outros equipamentos tecnológicos a comunidade de Johan se mantém na direção de sua crença e organização.

O fato de se apaixonar por outra é antes de tudo um acontecimento humano, mas também é um símbolo de que os fatos exteriores invadem a mais estruturada organização tradicional. Por outro lado se faz como uma definição de que havendo o senso de poder, isto é, o sujeito está em posse de algo que o mobiliza, talvez implícito pela concussão tecnológica, pela impregnação da vontade que o faz redentor, o apaixonado. A vontade de poder então é mais uma presença na vida de todos nós como nos diz Nietzsche e a sua relação com o futuro nos torna vagos e independentes, nos faz a caminho sem direção, mas justificados por aquilo que nos permite realizar a paixão e dentro dela a sua alteração com a morte. Morre com a fé o homem, e nasce do homem a fé em sua condução inexorável à morte.

No espaço estruturado finito não é possível o engano, a mentira e não pode haver perda sem a reposição ideológica presente no outro.

A morte da mulher é o resultado da paixão (alguém deve morrer mesmo que de forma simbólica), morre para que a outra se anteponha à ordem, para que continue a estrutura desejada e amada, para que sublime o amor e retorne à tradição.

A quem assiste ao filme percebe que está inclinado a partir que é em última instância um desejo de permanência que é “obliterado” pela partida.

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno. 2006)

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Uma Radiografia da Condição Humana

A alegoria é um tipo de narrativa de duplo sentido, baseada na transferência e personificação, difícil de ser representada no cinema. Apesar de ser uma forma artística baseada em truques, capaz de dar vida aos maiores delírios dos cineastas mais diversos, a evolução tecnológica impõe um realismo à linguagem cinematográfica que se contrapõe ao simbólico. A linguagem teatral, a princípio, aceitaria melhor essa estilização, por seu caráter despojado e cru.

Por estas e outras razões O LABIRINTO DO FAUNO (El Laberinto Del Fauno), do mexicano Guillermo del Toro, realizado em 2006, foi uma gratíssima surpresa. O enredo, repleto de citações a filmes fantásticos e à literatura de conto de fadas, e inicia numa distante região da Espanha, em 1944, ainda assolada por combates da Guerra Civil, para onde se mudam Carmen (Ivana Baquero) e Ofelia (Ariadne Gil, um achado), mãe e filha.

el-laberinto-del-fauno_021Procurando trazer encanto ao cotidiano, enquanto aguarda a chegada de seu padastro Vidal (Sergi Lopez, imponente e assustador), um sádico oficial fascista incumbido de dizimar os guerrilheiros locais, a garota descobre nos majestosos jardins da imensa mansão um labirinto que lhe abre um mundo de fantasias, que acabará influenciando a vida de todos em volta. Lá ela conhece o Fauno (o mímico Doug Jones), um ser meio humano e meio bode, que a convence ser uma Princesa que necessita realizar três tarefas para retornar ao seu reino maravilhoso.

Um dos aspectos mais originais da obra é esmiuçar um contexto político sob a luz de um universo encantado. Mas não se trata apenas de uma válvula de escape, pois aqui a realidade, ao invés de apenas provocar a fuga, se torna a matéria-prima a ser moldada pelo sonho. Mesmo em seus aspectos sombrios e carregados de metáforas, a fábula de del Toro (que já fizera uma experiência similar em A Espinha do Diabo, em 2001), com roteiro original do próprio, busca o equilíbrio oferecendo aos olhos do público um requinte visual excepcional.

A iluminação carrega nas cores e no sombreado visando reproduzir as ilustrações dos antigos livros de fábula. As citações trazem o clima dos filmes do britânico Terry Gilliam (O Pescador de Ilusões, Os 12 Macacos) e do norte-americano Tim Burton (Edward Mãos de Tesoura, Peixe Grande), realçados por uma cenografia que mescla o clássico literário Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, além dos contos dos Irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen.

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A conspiração estética prepara o terreno para o embate inusitado entre o Bem e o Mal, aqui representados pelo mundo onírico de Ofelia versus a rigidez ditatorial de Vidal. Em suas tarefas como a Princesa, ela irá se deparar com criaturas horripilantes e assustadoras, mas que apesar de suas aparências perceberá menos vilões que os seres humanos de carne e osso.

Esse sutil e meticuloso processo de humanização de determinado microcosmo caótico e violento, quando normalmente o universo mítico da fábula humaniza o reino animal, é uma das mais fascinantes inversões da obra de del Toro.

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Ao escolher ou decidir se o mundo de Ofelia é ilusão ou realidade, ao optar pelo otimismo ou pessimismo, pois o enfoque aqui é ambíguo, o público também analisará algumas das suas convicções e certezas, observando de fora para dentro de si mesmo. Porque embora muito longe de ser panfletário, O LABIRINTO DO FAUNO é uma radiografia mágica e sensível da condição humana.

O filme recebeu uma grande quantidade de prêmios internacionais, entre eles os Oscars de Melhor Fotografia (Guillermo Navarro), Direção de Arte/Decoração (Eugenio Caballero e Pilar Revuelta) e Maquiagem (Davi Martí e Montse Ribé), além de sete Prêmios Goya, o Oscar do cinema espanhol: Roteiro Original, Atriz Revelação, Fotografia, Montagem, Efeitos Especiais, Som e Maquiagem.

Cotação: * * * *

Por: Roberto Souza.   Blog:   Cal&idoscópio.

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno). 2006. México. Direção e Roteiro: Guillermo del Toro. Elenco: Ivana Baquero (Ofelia), Sergi López (Captain Vidal), Maribel Verdú (Mercedes), Doug Jones (Fauno / Pale Man), Ariadna Gil (Carmen Vidal), Álex Angulo (Doctor), Manolo Solo (Garcés), César Vea (Serrano), Roger Casamajor (Pedro), Ivan Massagué (El Tarta), Gonzalo Uriarte (Francés), Eusebio Lázaro (Padre), Francisco Vidal (Sacerdote /as Paco Vidal), Juanjo Cucalón (Alcalde), Lina Mira (Esposa del alcalde). Gênero: Drama, Fantasia, Suspense, Thriller. Duração: 112 minutos.