BODY (CIALO. 2015). Uma Densa Catarse no Final.

body_cielo_2015Por: Carlos Henry.
O ritmo arrastado e lento do longa da polonesa Malgorzata Szumowska, não lhe tira o mérito de levantar o tema do espiritismo com relativa leveza e até algum humor estranho. O roteiro gira em torno de um perito criminal que tem dificuldades em lidar com a filha anoréxica, após a morte da esposa. Com o problema em crescendo, o pai, ainda que cético, lança mão de uma tentativa de contato com a falecida através da terapeuta médium Anna.

Desconfortável, não a ponto de deixar o filme pela metade, a estrutura narrativa cumpre o papel de tratar o tema com respeito sem, contudo, influenciar o espectador que fica livre para tirar suas conclusões por conta de oportunos delírios provocados pelo álcool e medicamentos. Obviamente o Brasil é citado pelo personagem Anna por conta do número de adeptos à crença por aqui. Vale aguentar até o final que é uma densa catarse.

BODY (CIALO. 2015)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

A Igualdade é Branca (Trois couleurs: Blanc. 1994)

“Só há um tipo de amor que dura: o não correspondido.” (Judie Foster).
Dizem que comédia nunca ganhou Oscar por ser considerado um gênero menor. Eu nunca fui fã dessa categoria de prêmio de academia, nem morro de amores por filme desse gênero; e outra, que rótulos, às vezes enganam.
A Igualdade é Branca é o segundo episódio da TRILOGIA DAS CORES do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, dedicado ao bicentenário dos ideais da França com os três lemas da bandeira respectivamente: liberdade, igualdade e fraternidade, e é o único da trilogia que tem um certo humor e por essa razão críticos o consideram um exemplar inferior ao Blue e Rouge.
Blanc é um tema banal e corriqueiro no cinema: a história de um casal em crises sem chances de superá-las e a saída encontrada é o divórcio. No entanto, é uma abordagem completamente diferente, extrapolando a barreira dos sentimentos, da emoção e pondo em xeque questões não sentimentais, mas carnais: o desejo, o sexo, orgasmos, tesão, ereção, atração, deixando claro que a falta desses elementos a relação perde o sentido.
Kieslowski é polonês por nacionalidade, francês por paixão e cidadão do mundo. Fala, então, através de seus filmes todos os idiomas. E quando há amor, não existe barreira para a língua. Tanto que ele juntou nessa história BLANC um casal que não fala o mesmo idioma: ela é francesa e ele, polonês. Mesmo assim não viram barreira para se casarem e se tornarem uma só carne, até que a morte os separasse, como reza a cartilha do ritual de enlaçamento matrimonial. Acontece nas melhores famílias. Aspas: Tenho uma irmã que se casou com um estrangeiro.
O filme Ghost Dog de Jim Jarmusch há dois amigos que não falam o mesmo idioma, mas de certo modo, se entendem.
Assisti recentemente a um filme Filipino onde os personagens K e Ana, metidos a cineastas, andavam pelas ruas com seus equipamentos microfones, gravador, câmera, perguntando para as pessoas o que era AMOR, até que alguém lhes responde com outra pergunta: “Em que ano estamos?, Ainda existe isso?”
No filme Basquiat, sobre a vida desse pintor, em um determinado momento, num restaurante, o artista percebe certo preconceito racial e ele se vira e faz a seguinte pergunta à namorada: “Em que em ano estamos?” Como quem questionasse a impossibilidade de a esta altura do século ainda existirem tais sentimentos de inferioridade.
Tempos modernos! As pessoas estão mais individualistas, preocupadas em trabalhar, ganhar dinheiro, gastar, nada de envolvimento emocional, apenas sexo, atração e encontros descompromissados.
A linguagem do AMOR é universal, não existe barreira quando se ama. Mas, e quanto ao sexo? Onde começa um e termina o outro? Ou um é o complemento do outro? Ou são coisas completamente distintas?
O filme “A Igualdade é Branca” gira em torno do casal. Karol (Zbigniew Zamachowski), um bem-sucedido cabeleireiro polonês cujo casamento está definhando com a francesa Dominique (Julie Delpy). Esse casamento acaba assim que ela descobre que o  marido é impotente, apesar de ele ser loucamente apaixonado por ela, ou talvez por causa disso, ele não consiga consumar sexualmente o casamento e sofre por isso. Quando o filme começa, a garota já perdeu a paciência com a situação e pediu o divórcio. Ela o abandona e volta para a França, assim que descobre que ele é acometido desse mal. Algum tempo depois ele recebe uma intimação do advogado dela a fim de tratar da anulação do casamento. Ele vai à França e lá é muito humilhado por ela, que pede o divórcio e diz que o casamento nunca se “consumou”. Algumas cenas do dia do casamento em flashbacks são as lembranças de Dominique mostradas em alguns lances durante a conversa.
Karol ama essa mulher que escolheu para ser a sua esposa. Ele vai até Paris contra a sua vontade para tratar da separação e nada lá dá certo para ele. Seu cartão de crédito é cancelado, fica sem dinheiro, sem passaporte e sem a esposa. Na estação de trem faz amizade com um estranho homem que não gosta da vida, por alguma razão não quer mais viver e que está procurando alguém para matá-lo. Sem dinheiro e sem passaporte o jeito encontrado para voltar para a Polônia foi dentro da mala do seu novo amigo, Nicolau. A maior parte do tempo sua falta de sorte o acompanha, tanto que até a mala foi roubada por russos que por não encontrarem nada de valor dentro dela, ainda lhe dão uma surra e o abandonam desfalecido num lugar inóspito e frio. Sua falta de sorte começa a mudar, quando finalmente consegue chegar em casa. Volta a trabalhar e começa a arquitetar um plano com a ajuda do amigo para enriquecer e ter a atenção da sua ex novamente. O amigo pagou-lhe para que ele o matasse. Ele recebe esse dinheiro e acaba convencendo seu amigo Nicolau que morrer não é uma boa idéia. Com esse dinheiro ele começa seus investimentos. De vez em quando liga para Dominique até que um dia ela faz questão de que ele ouvisse seus gemidos de prazer na companhia de outro. Para ele que sofre de impotência, esse momento foi o FIM, foi a coisa mais desprezível e humilhante que ouviu da parte dela.
Karol arma uma cilada para a sua amada, passando-se por morto. Compra um cadáver com sua aparência física. O morto era  um homem russo que faleceu e ficou desfigurado, exatamente como ele queria, a fim de que Dominique ao ir ao necrotério da Polônia ao tentar reconhecê-lo, não desconfiasse que fosse ele, e herdasse toda a sua fortuna que à essa altura já era um milionário.
Dito e feito. Karol agora era considerado um homem morto. E Dominique foi ao enterro, reconheceu aquele cadáver como sendo do seu ex-poso, e ela chorou. Karol de longe observava a tudo e descobriu que ela sempre o amou e que ela chorou por saber que ele estava morto. À noite, no hotel em que Dominique estava hospedada, Karol apareceu para ela, fizeram amor (ou sexo?) durante a noite toda; ele não estava mais impotente, e ela sussurrou para ele que o amava. Karol tinha certeza disso. Karol sabia como agradar a uma mulher muito bem, lembrando que a sua primeira profissão era cabeleireiro; sabia muito bem que a mulher adora um trato no visual, começando pelos cabelos…
Karol foi embora e a deixou dormindo. Dominique ao acordar chamou por ele e quem respondeu foi a polícia que a prendeu por suspeitar dela, que ela tramou a morte dele para ficar com a herança e ela foi presa. Afinal, a igualdade é branca, como um véu de noiva, como a neve do inverno rigoroso da Polônia, como pombos voando, como um orgasmo, como o amor e a paixão, Karol armou para que tudo isso acontecesse, uma forma de se vingar pela humilhação e pela ofensa e por todo o constrangimento que ela o fez passar.
Em “A Igualdade é Branca” o que se discute são todos os tipos de igualdade, desde ser igual perante a lei até as obrigações conjugais. Agora tanto um quanto outro têm direitos iguais. Nos tempos modernos de sentir prazer, de se chegar ao orgasmo. Não mais o homem ter essa experiência, mas obrigação de satisfazer a sua companheira. É o amor fisiológico, um olhar irônico sobre como o vazio da vida pode ser profundamente afetado pelo amor.
O filme gira em torno das carências afetivas, quando o amor não se desenvolve não vai adiante por questões orgânicas, fisiológicas, vai além do romantismo, das cartas de amor, flores, declarações apaixonadas. Não se sabe mais onde começa o amor espiritual e termina o carnal. Dizia-se que o sexo é o complemento do amor. Então por que o casal se separou? Onde começa um e termina o outro? Pode-se viver só de amor platônico? Pode-se viver só de sexo e nenhum envolvimento amoroso? Chega um momento que uma coisa sem a outra, cansa.
Sabe-se que existe sexo sem amor. E o amor sem sexo? Mas um não complementa o outro?
Há quem ame e renuncie ao sexo. Religiosos são exemplos disso. E quem não fique sem sexo, é considerado doente? E fazer sexo por obrigação, seria o quê?
Há quem renuncie as satisfações do desejo. E com o tempo o amor acaba relaxando…acaba a atração física, acaba a atração emocional. A simples satisfação do desejo carnal às vezes custa caro, em ambos os sentidos (monetariamente e sentimentalmente). E quando um quer e o outro não? Um tem mais apetite que o outro?
Cada um vê o amor através de sua formação.
Dominique amava Karol, mas sua vida íntima sem sexualidade não fazia sentido. O amor começa pela admiração, gostar de estar perto daquela pessoa. Em certos pontos do filme a representação visual como uma grande explosão de luz branca, a neve, em alusão ao título do filme BLANC.
Igualdade é o que Karol desejava: amar e ser correspondido; mas como ela trapaceou ele se vingou. São tantos os questionamentos… Ela foi presa e ele jamais teria sua liberdade de volta, pois agora vivia sob uma pseudo-identidade. Ela presa nas grades da justiça e ele preso em sua mesquinhez, sua vingança e sua infelicidade de viver para sempre deixando de existir para a sociedade como cidadão Karol. E foram infelizes para sempre.
Por: Karenina Rostov
Cotação: *****
A Igualdade É Branca (Trois Couleurs: Blanc, França/Polônia/Suíça/Grã-Bretanha, 1994)
Direção: Krzysztof Kieslowski
Elenco: Zbigniew Zamachowski, Julie Delpy, Janusz Gajos, Jerzy Stuhr
Duração: 88 minutos

Decálogo IV, de Kieslowski

Os Dez Mandamentos – Versão resumida – Velho Testamento – Êxodo 20.

1. Não terás outros deuses diante de mim.
2. Não farás para ti imagem de escultura, não te curvarás a elas, nem as servirás.
3. Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão.
4. Lembra-te do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás, mas o sétimo dia é o sábado do seu Senhor teu Deus, não farás nenhuma obra.
5. Honra o teu pai e tua mãe.
6. Não matarás.
7. Não adulterarás.
8. Não furtarás.
9. Não dirás falso testemunho, não mentirás.
10. Não cobiçarás a mulher do próximo, nem a sua casa e seus bens.

DEUS

“Ninguém pode viver nossa vida por nós.
Se há algo que eu quero é paz.”
Kieslowski

Decálogo IV  –  Kieslowski

Quem já não viu um filme que envolva carta? São tantos, não? De amor, de escárnio, de conteúdos diversos… é o fetiche máximo do melodrama. Em Lolita de Stanley Kubrick, carta de Charlotte endereçada ao amado; Ligações Perigosas de Stephen Frears a carta ocupa lugar privilegiado, como também em Nunca te vi… Sempre te Amei de David Hugh Jones; Disque M para Matar de Alfred Hitchcock; Cartas de Iwo Jima de Clint Eastwood; Rastros de Ódio de John Ford; em Casablanca é uma quase carta; na verdade trata-se de um bilhete de conteúdo significativo e como este último tornou-se um cult, achei interessante destacar o de Isa para Rick. E a finalidade quase sempre é a mesma: é usada como pretexto para o desenrolar das ações e dos diálogos.

“Richard, não posso te acompanhar ou te ver outra vez. Não pergunte o porquê. Apenas acredite que eu te amo. Vá, meu querido, e Deus te abençoe. Isa”.

Umas das histórias mais tocantes da telona que eu me lembro e que a protagonista é uma Carta é exatamente aquela que não vi. Como é possível? Parece loucura, mas é isso mesmo. Trata-se de um dos filmes do DECÁLOGO de Kieslowski que eu batizei de A CARTA. Vira e mexe, me lembro desse filme. A minha irmã foi que me contou, e sempre tive a sensação de tê-lo assistido, lembranças de algumas cenas de certos detalhes, as sutilezas nos gestos, olhares, e não sei por que, na época,  ao ouvir tive uma sensação desagradável, que me deixou agoniada e triste.

Anos depois é que assisti ao belo filme, (em janeiro de 2010, no CCBB- Rio) e para minha surpresa, é como se estivesse revendo.

O Decálogo é uma adaptação livre de Os Dez Mandamentos do Antigo Testamento da Bíblia. Kieslowski realizou na década de oitenta para a televisão Polonesa e cada um deles com o tempo de 55 minutos, transformando, pouco depois os dois primeiros em longametragens:  o Não Amarás e o  Não Matarás.

São histórias dos tempos modernos, mostrando que desde que o mundo é mundo quase nada mudou, que o homem continua o mesmo: invejoso, ambicioso, mentiroso, egoísta e toda espécie de fragilidade no que tange “a moral e bons costumes’.

Os episódios são independentes, e  foram realizados em Varsóvia, num conjunto habitacional – lugar-comum para todos eles. Há  um personagem misterioso que entra mudo e sai calado, que aparece transitando em cada história apresentada. Se você ainda não assistiu, preste atenção para saber quem é ele. Se já assistiu é forçar a memória. Neste 4 episódio é o homem que carrega uma canoa nas costas e ao passar por Anka a encara quando ela tenta em uma das vezes abrir a carta, o que a faz desistir. Isso daria margem a um novo roteiro.  Às vezes de uma frase se cria um conto, uma poesia, uma novela. Veio-me essa ideia… viajo… Kieslowski explica: Seria uma espécie de anjo. Parece querer dizer “Faça a coisa certa.”

A Carta como eu a denominei trata-se do DECÁLOGO 4 – HONRAR O NOME DO TEU PAI E DE TUA MÃE. Kieslowski é bem didático, deixando claro a intenção da mensagem que se quer passar, daquilo que a pessoa faz, independente de certo ou errado, sofrerá a devida consequência; é metódico, tratando cuidadosamente questões éticas, morais e religiosas a cada respectivo mandamento, à maneira dele de interpretar e de  fazer a leitura do mundo.

Honrar o Nome do Teu Pai e de Tua mãe – É a história de Anka, uma jovem de vinte anos. A mãe morreu quando ela apenas tinha alguns dias de vida e passou a viver com o pai, Michel que a criou sozinho. Um dia ele viaja, e enquanto está fora a filha encontra em seu quarto um envelope escrito com a letra do pai: “Não abrir antes da minha morte”. Dentro, um outro envelope endereçado, com a letra de sua mãe, para ela. Anka é uma estudante de teatro, com um professor que marca em cima, só podia mesmo levar jeito para a coisa e ter talento de sobra para dar e vender. Como toda garota de sua idade, tem namorado, e confessa que já fizera um aborto (isso para justificar ao pai que toda mulher sabe que é mãe e quem é o pai;  enquanto que  e o homem nunca tem essa certeza).

Excelente atriz. Revela ao pai que encontrou a tal carta  enquanto ele estava viajando e  mentiu-lhe que leu. Imaginou o conteúdo, decorou e contou a ele que acreditou. Na verdade ela escreveu uma outra com tudo o que imaginara. Um devaneio. Vinte anos se passaram  e nenhum dos dois leu a bendita Carta.

Envolve outros mistérios e segredos da alma. Amor velado e não revelado; sentimentos não vividos por medo. O que me deixou agoniada, na verdade foi não saber o conteúdo da mesma. Curiosidade mórbida essa do expectador, mas claro, fiquei intrigada. Não se tem acesso como os outros exemplos que citados no início. Lembra o filme russo O RETORNO –   uma caixinha e o segredo de seu conteúdo revelado apenas ao fundo do mar.

A intenção  era não revelar o mistério. Havia uma desconfiança de adultério no  ar. E desde então a incerteza povoa a mente do viúvo: “É a minha filha ou não?” E de Anka que amava aquele homem não como pai: “É ou não meu pai?” Sem resposta, sem certeza, gostavam-se através de gestos e insinuações. Um pedaço de papel pode fazer um estrago enorme na vida das pessoas. Resolveram queimar. Um mistério que virou cinza.

Tudo poderia ser diferente se eles a tivessem lido.  Mas aí não haveria roteiro, não teria filme, esta história não existiria…

São tantas coisas que se deixa para trás…cartas que não são lidas ou que não se escreve, palavras que não são ditas, sentimentos que não se vive, desculpas que não pedimos…Tem coisa que é melhor mesmo não se saber. Nunca.

Karenina Rostov

A Igualdade é Branca (Trois couleurs: Blanc. 1994)

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Por: Suzana Fehu.
Observação MUITO importante:
aqui toda a interpretação é minha (Suzana Fehu). Ou seja, podem ter várias interpretações coerentes a mais. A relação que faço com o Branco pode não se confirmar. A arte serve pra isso.

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A Igualdade é Branca” rendeu para Kieslowski o Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim, merecidamente tanto pela estória quanto pela arte.

A fotografia é de Edward Klosinski que em A Liberdade é Azul se preocupou em dar um tom azulado no filme, focando objetos e locais azuis sem overdose. Em A Igualdade é Branca, ele utilizou a neve da Polônia pra transmitir os sentidos do Branco do filme: frieza (sem cor), etnia (racial) e paz.

É brilhante a forma que Kieslowski junto com Klosinski brinca com esse branco que é tão valioso. Bem mais do que um detalhe, precisa ser notado em conjunto com a estória que amarra todo o contexto.

Ainda sobre a arte, perceba que Kieslowski valoriza muito a arte em si. Em Liberdade é Azul ele valoriza a música e composição (responsável pela trilha sonora é o mesmo que em Igualdade é Branca – Zbigniew Preisner). Preisner cria mais vida musical em Liberdade é Azul, pois em Igualdade é Branca ele foi mais discreto nesse aspecto, até porque a arte de Igualdade é a escultura. Em Fraternidade é Vermelha, Kieslowski deu atenção à fotografia, a arte das imagens.

A genialidade de Kieslowski, por vezes mal falado no mundo do cinema, é o de unir todos os significantes, nada sobra. A escultura em Igualdade, por exemplo, faz sombra à vida em construção de Karol.

A esposa de Karol (Karol na Polônia é homem rs) decide romper o casamento, pedir divórcio, e deixá-lo com o néctar pouco doce da rejeição. Moravam na França e o seu passaporte foi confiscado -aqui o aspecto do branco da cor, raça, diferença de países é posto como pano de fundo mesmo que França e Polônia “tenham” a mesma cor racial. Note a cena em que ele conversa com o Juiz no momento do divórcio. Ele questiona a língua francesa x polonesa.

Vale lembrar que Kieslowski é polonês que decide trabalhar na França. Não sei se é especulação de minha parte, mas fico tentada a pensar que Karol representou um pouco do que o Diretor deve ter passado em sua vida real, os franceses não são fáceis. Acho que esse “furo” não é à toa.

Ainda com relação ao Branco da raça, Karol voltou pra Polônia com apenas 2 francos no bolso, com a ajuda de seu amigo que o transportou na mala. Situação tacanha que nem preciso me estender nesse ponto, basta ver.

Continuando, a esposa de Karol, Dominique, além de deixá-lo ainda sacaneia com ele. É muito frio a maneira como ela o pune. Branco que significa sem cor. É notório o desejo dela por ele, e mais ainda a raiva que ela tem dele por ele não conseguir trepar com ela. Esse ponto merece muito carinho por parte de quem vê o filme, pois é muito sutil esse elo entre cor e relação.

Karol, já na Polônia, remonta sua vida, reconstrói seus bens e a escultura branca do que ele passou. Isso para se vingar da ex esposa -> IGUALDADE. Não entrarei na estória para não perder a graça da trama (pra quem ainda não viu).

Aí vem o terceiro sentido do Branco: a paz. A paz interior finalmente chegou? Os pesadelos acabaram?

Onde fica a culpa desse fogo cruzado? Aqui eu ressalto pra ser mais do que notado a última cena, a dele de binóculo. Com perdão da expressão: puta que pariu. Lindo! O branco cai e continua lá, mas agora ele dá espaço pra outras cores.

A Igualdade é Branca

Direção: Kieslowski

Gênero: Drama

Polônia – França – 1994

A Liberdade É Azul (Trois couleurs: Bleu. 1993)

a-liberdade-e-azulQuando me deparei com os três filmes intitulados como parte da Trilogia das Cores, onde ‘A Liberdade é Azul‘, ‘A Fraternidade é Vermelha‘ e ‘A Igualdade é Branca‘, percebi se tratar das cores da bandeira da França e do lema tão querido por todos nós pós-Revolução Francesa: Igualdade, Fraternidade, Liberdade.

Quis saber um pouco mais sobre esse diretor, Krzysztof Kieslowski, que ainda não tinha entrado em contato. Trata-se de um polonês que fez filme polonês e francês. Esses três fazem parte de um segundo momento de sua obra, totalmente produzida na França.

Pretendo falar sobre esses três filmes aqui no nosso Cinema, hoje arrisco umas linhas sobre Liberdade é Azul.

Eu fiquei muito contente em saber que cor ela tem, pois na verdade tenho pra mim que uma das impossibilidades humanas é ser livre. Entendo como ser livre não aquele que goza do direito de ir e vir, apenas; mas, aquele que de tão livre as palavras faltam por não conseguir apreender a totalidade do conceito.

a-liberdade-e-azul_01Julie (Juliette Binoche) sofreu um acidente com sua família e foi a única sobrevivente. Tenta se matar mas não consegue. Viver, parece, é maior do que essa perda e dor. A dor dela é visível, é notória, mas sufocada. Completamente sufocada. Cada um com sua maneira de lidar com seus sentimentos.

Achei belíssimo a cena em que ela encontra sua empregada chorando e então lhe diz:

– Marie, por que você chora?

E Marie, experiente de cabelos brancos, responde:

– Choro porque a Senhora não chora.

Aquilo ali foi lindo… sem palavras! Elas se abraçam e Julie consola Marie não sei se como quem diz: “Passa” ou como quem diz: “É… não consigo chorar…”

Por mim, contemplaria esse diálogo por longas horas na companhia de um bom vinho, mas de tão bom que é o filme, sou convidada por mim mesma a continuar a escrever.

Julie, riquíssima, esposa de um excepcional compositor que toca as músicas que ela faz rsrsrs, abandona toda sua riqueza, toda a matéria que a cerca, para gozar de um anonimato e de uma liberdade que se pretende azul. Como ela diz, essas coisas todas são armadilhas…

Será?

Faz amizade, por acaso, com uma prostituta. Achei significativo o diretor colocar isso em cena e em pauta… Admira um flautista e se assume humana…

Será possível ser livre com o abandono da matéria? Os Budistas acreditam que sim, ainda que numa perspectiva outra.

Eu já penso diferente, embora não tenha apegos materiais. Penso que o que nos prende, além de um corpo limitado e limitante que todos nós temos (não sabemos voar), são os conceitos que formamos das coisas, as idéias. Isso não está na matéria, está em nós mesmos e tudo depende da forma como lidamos com a vida…

Indico, recomendo, esse filme pra ontem!

Por: Deusa Circe.

Trilogia das Cores:

Liberdade é Azul – Trois Couleurs – Bleu

Direção: Krzysztof Kieslowski

Gênero: Drama

França – 1993

A Fraternidade É Vermelha (Trois couleurs: Rouge. 1994)

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A Fraternidade é Vermelha. Uma singela homenagem à França que Kieslowski tanto amava…

A fraternidade é um conceito filosófico profundamente ligado às idéias de Liberdade e Igualdade e com os quais forma o tripé que caracterizou grande parte do pensamento revolucionário francês. Vale lembrar que dos três, foi o único que não esteve no lema Iluminista, que era “Liberdade, Igualdade, Progresso”.

A idéia de fraternidade estabelece que o homem, enquanto animal político, fez uma escolha consciente pela vida em sociedade e para tal estabelece com seus semelhantes uma relação de igualdade, visto que em essência não há nada que hierarquicamente os diferencie: são como irmãos (fraternos). Este conceito é a peça-chave para a plena configuração da cidadania entre os homens, pois, por princípio, todos os homens são iguais. De uma certa forma, a fraternidade não é independente da liberdade e da igualdade, pois para que cada uma efetivamente se manifeste é preciso que as demais sejam válidas.

A fraternidade é expressa no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem quando ela afirma que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e de consciência e devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

A palavra é eventualmente confundida com a expressão caridade e solidariedade, embora elas tenham significados radicalmente diferentes. Enquanto a fraternidade expressa a dignidade de todos os homens, considerados iguais e assegura-lhes plenos direitos (sociais, políticos e individuais), a idéia de caridade cria a desigualdade entre os homens, na medida em que faz crer que alguns deles possuem mais direitos e são superiores e portanto são generosos quando os compartilham com os demais.

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A simbologia das cores da bandeira francesa representadas nos filmes por um lado simples de se entender, sob outra ótica, não. Muito além da retórica. A igualdade é branca. Realmente, já que o branco é a soma de todas as cores. A liberdade é azul. Gagarin, já dizia: a Terra é azul; contemplando daqui debaixo, dizemos: céu, o infinito é azul. A fraternidade é vermelha. Os laços sangüineos… a amizade fraternal que surge entre uma modelo e um juiz aposentado. Para Krzysztof Kieslowski este último seria uma premonição, os últimos acontecimentos da sua vida, ou simplesmente ROUGE.

Bem, brincadeira à parte. E até hoje costumo conversar com um amigo sobre um da trilogia. Quanto ao filme “A Fraternidade é Vermelha“, penso que ele todo tem enes interpretações do início ao fim, não apenas o final na tragédia com o navio.

Já percebeu que o Krzysztof Kieslowski e suas personagens sempre têm voyeurs? (vide “Não Amarás“) A arte imitando a vida, como nos tempos atuais; vivemos “fuçando” o orkut alheio. E cada um faz como pode e do seu jeito. O velho juiz, através da linha telefônica ouvia a conversa dos seus vizinhos; a própria filha de um deles ouvia a conversa do pai na extensão; o jovem juiz que aparece na trama paralela seria ele mesmo? Na juventude ele foi traído pela amada; no presente, ela, a modelo foi traída pelo namorado; enfim, duas histórias ou que se repetem, ou poderia ser a mesma.

Em uma das conversas do juiz com a modelo Valentine (não me lembro agora o nome da personagem) ele diz ter sonhado com ela com aproximadamente uns 50 anos de idade. Isso nos faz interpretar também se tratar de um sonho (real) dele com a sua amada do passado.

Fiquei meio curiosa com uma das cenas de ROUGE, mas não consigo me lembrar da cena tão citada “garrafa se quebrando”. Lembro-me do local onde Valentine um dia foi jogar boliche e sobre uma mesa estava um copo quebrado. E essa imagem durou um tempo considerável. Qual é o significado? Esse filme é cheio de linguagem metafórica não? Será que a personagem de Irène Jacob não teria saído direto de A Dupla Vida de Veronique para esse outro filme?

Por último, para não me alongar muito, o acidente que ela sofre, se não me engano, sobraram sete sobreviventes (o mesmo número de filhotes da cadela do juiz, também um número cabalístico); os sobreviventes são apresentados, um a um, e por último surge ela, a modelo, e essa aparição lembra uma das fotos que ela fez na qual deveria mostrar uma expressão de tristeza. Parecia tratar-se da mesma foto. Daí as interpretações realmente são inúmeras: ela poderia ter morrido, como também poderia ter sobrevivido, já que, ele dá um sorriso de felicidade; mas o filme acaba nessa foto, o da expressão triste. Uma premonição? Talvez ele tivesse tido mais sorte desta vez e ela não ter morrido, já que ele se apaixonou… Talvez tudo não tivesse passado de um sonho… a esperança nunca morre.

Por: Karenina Rostov.   Blog:  Letras Revisitadas.

A Fraternidade é Vermelha (Trois couleurs: Rouge). 1994. Polônia. Direção e Roteiro: Krzysztof Kieslowski. Elenco: Irène Jacob (Valentine), Jean-Louis Trintignant (Juiz), Frédérique Feder (Karin), Jean-Pierre Lorit (Auguste), Samuel Le Bihen (Fotógrafo), Marion Stalens (Veterinário), Teco Celio (Barman), Jean Schlegel (Vizinho), Juliette Binoche (Julie), Julie Delpy (Dominique). Gênero: Drama. Duração: 100 minutos.