Instinto Materno (2013). Jogos de Poder e Submissão

instinto-materno_2013O título em inglês desse longa romeno, “Child’s Pose”, em tradução literal, significa “posição infantil” ou “posição fetal”. Na ioga, trata-se de uma posição em que a pessoa, sentada sobre os tornozelos, projeta-se com os braços esticados para a frente, até tocar o chão, em uma atitude de aparente submissão.

Pois submissão parece ser o tema central do filme de Calin Peter Netzer. Após atropelar e matar um garoto que atravessava uma rodovia, Barbu (Bogdan Dumitrache) é preso em flagrante. O incidente torna-se a chance de ouro para que sua mãe, Cornelia (Luminita Gheorghiu) tente, a todo custo, uma reaproximação com o filho. Controladora e autoritária, frequentadora das altas rodas sociais de novos-ricos, Cornelia inicia uma empreitada de telefonemas e contatos com autoridades para livrar o filho da investigação policial e do devido processo. Com isso, acredita que trará o filho de volta a seu convívio.

Tomar a frente do caso é a atitude esperada dessa mãe que quer superar a “síndrome do ninho vazio”, pois dedicou a vida ao único filho. Homem na faixa de seus trinta anos, vivendo com uma mulher que não é o modelo de nora desejada por sua mãe, Barbu rejeita o modo de vida de Cornelia, e luta em manter-se fiel a princípios éticos. De início, uma estória que aponta a falta de limites do amor materno que sufoca a ponto de anular o objeto amado, Child’s Pose amplia sua visão da questão familiar para outro ponto: as relações de poder das classes dominantes sobre as dominadas. Ao interferir no andamento do inquérito junto à polícia, tentar o suborno de uma testemunha e um acordo com a família da vítima, Cornelia sintetiza o pensamento – e as ações subsequentes – de uma parcela privilegiada da sociedade romena, certamente formada após a queda da ditadura de Ceausescu em 1989, onde todos os meios são válidos para burlar a lei e manter seus pares a salvo da punição. Assim como em outras partes do mundo, o público e o privado confundem-se, realidade que aqui conhecemos muito bem.

Vencedor do Urso de Ouro e do Prêmio da Crítica em Berlim em 2013, o filme traz uma interpretação brilhante de Luminita Gheorghiu. Aos 64 anos, sua Cornelia não dá tréguas a qualquer fragilidade mostrada pelos outros personagens – Barbu, seu marido Domnul, a nora Carmen –, sem abrir mão de sua própria sensibilidade. No entanto, mesmo tal sensibilidade, que lhe permitiria compreender o luto da família do menino morto, está permeada pelo egoísmo, pois ela própria apenas sente algo semelhante ao perder o controle sobre a vida do filho. E esse amor que a todos consome, ao final, será a mola propulsora de todas as suas atitudes.

Child’s Pose é notável não só por mostrar a luta incansável dessa mãe devoradora, mas também por denunciar as relações sociais que tantos acreditam ocorrer apenas em nosso país. Mas que são mais comuns do que imaginamos.

Por Eduardo Carvalho

Instinto Materno (Pozitia Copilului. 2013). Romênia. Direção: Calin Peter Netzer. Roteiro: Razvan Radulescu e Calin Peter Netzer. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 112 minutos.

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Amen. (2002)

Como este artigo irá falar sobre os problemas e implicações do ser humano através do filme Amen., do cineasta grego – e totalmente politizado – Costa-Gravas, vale ressaltar que contém alguns SPOILERS que podem estragar o prazer daqueles que gostam de desfrutar uma história sem conhecer sua trama principal. Porém vale ressaltar que Costa-Gravas não faz filmes de suspense, nem de terror, nem de comédia, sendo que nada do que for dito aqui irá comprometer o resultado impactante do filme. Sendo assim, fica a seu critério: ler este artigo para se interessar pelo filme ou assistir o filme para se interessar pelo artigo. Dado o recado, vamos as devidas análises que proponho discutir.

Não irei falar sobre os detalhes do filme. Não irei me ater ao nome dos personagens, situações corriqueiras, e outros afins. O que interessa é apenas a ideia principal.

O filme se passa na Alemanha em pleno nazismo, diversos soldados alemães vivem o seu dia-a-dia normalmente: têm rotinas de patrulhamento, visitam suas famílias nos dias de folgas, vão à igreja e se divertem no tempo livre. Diversos judeus estão sendo recrutados para trabalharem em campos nazistas em atividades que desenvolvam ainda mais o país. Um dos soldados alemães – e também um dos dois personagens principais da trama – é um químico que desenvolve um produto de limpeza eficiente, onde uma pequena quantidade basta para limpar grandes proporções.

Porém, inesperadamente, o exército alemão começa a encomendar grandes quantidades deste produto. De pronto, este soldado atende a demanda com bastante satisfação, ao saber que sua invenção está a contento os militares. Porém, no decorrer do tempo, ele estranha que esta quantidade sempre aumente, visto que não existe a possibilidade de utilizar este produto apenas com fins de limpeza. Decidido a investigar o que estaria por trás, primeiramente ele questiona um dos responsáveis por fazer a encomenda: rasgando elogios, o questionado e mais um pequeno grupo decide levar este soldado para observar com seus próprios olhos o porquê encomendas maiores se fazem necessárias.

Ao chegar no local, o questionado pede para o soldado espreitar através de um buraco criado para observar uma enorme casa. Enquanto isto acontece, ele começa a explicar: “Antes de utilizarmos o seu produto, demorávamos horas e horas para matar os judeus através destas câmaras de gás. Eles ficavam agonizando por grandes tempos, o que era muito caro para nós, visto que a demanda aumentou e precisávamos cumprir a nossa meta de chacinas diárias. Com o seu produto, as mortes se tornam muito mais rápidas. Bastam apenas alguns minutos.”

O soldado observa perplexo e fica desorientado. O questionado responde que ele está fazendo um grande bem aliviando as dores daquelas pessoas de forma rápida e ajudando a Alemanha a fazer uma verdadeira limpeza racial. Não irei me ater a isto, porém perceba a interessante relação entre o produto de limpeza comum, para limpar imundices, e a utilização do mesmo com o propósito de limpeza racial. Só esta comparação nos levaria a longas discussões no que se refere as divergências no tratamento humano orientado à uma posição social (seja religiosa, econômica ou racial).

A primeira coisa que podemos afirmar em relação à reação do soldado é que ele desconhecia os fatos, que tratavam do genocídio e extermínio de judeus na Alemanha. Se ele desconhecia os fatos, surge a esperança de que outras pessoas no exército nazista também desconheciam. Em segundo lugar, a sua reação após conhecer estes fatos não foi de alegria ou aceitação, pelo contrário, foi de angústia e enorme surpresa. Ou seja, as motivações para aquele extermínio não estavam explicitas, logo, não era um consenso.

Sabendo destas coisas, o soldado entrou em conflito: estavam usando o seu produto para matar pessoas – sim, pessoas – sem o seu consentimento. E ainda aproveitaram a deixa para encomendarem ainda mais produtos para a mesma finalidade. Ele não podia negar uma solicitação do seu próprio exército, que representava os interesses de seu país. Então, como ele poderia salvar as vidas que estariam condenadas por sua criação? Como ele poderia denunciar esta abominação sem ser considerado traidor? Será que, ao saber destes acontecimentos, o povo e as autoridades de seu país aprovariam o que estava acontecendo? Eram muitas as questões que estavam em sua cabeça no momento.

A pressão começou a fazer com que o soldado começasse a tomar algumas atitudes estranhas. Não sabendo como fazer, resolveu se aconselhar com o padre de sua igreja local. Para ele, era óbvio que a igreja não toleraria a morte de outras pessoas de forma tão covarde e desleal. Ao mencionar os acontecimentos ao padre local, e inclusive solicitar que seu relato fosse transmitido aos frequentadores da igreja, o mesmo se recusou a prestar-lhe a ajuda necessária, afirmando que ele jamais poderia ficar contra os interesses do exército, visto que eles representavam a vontade dos comandantes de seu país. Se ficasse seria acusado de traidor e seria condenado a pena de morte.

Um jovem padre, com menor autoridade e que escutou tudo (este é o segundo protagonista do filme) resolve ajudar o soldado e recontar a sua história para uma hierarquia mais elevada da igreja, visto que seu pai era muito influente dentro do Vaticano e trabalhava como assessor de imprensa do Papa. Mesmo com o relato chegando nos mais altos níveis de hierarquia, a igreja se recusa a se intrometer nesta questão, chegando à dizer que o problema dos judeus não é um problema cristão.

O desenrolar do filme, e seu tronco principal, demonstrar as diversas tentativas frustradas de, tanto o soldado como o jovem padre, quererem denunciar o extermínio dos judeus e as pessoas, principalmente a igreja, fecharem os olhos e os ouvidos sobre estes acontecimentos. Chega ao cúmulo do jovem padre forçar um encontro com o próprio Papa, relatar os acontecimentos, receber a promessa de que a santidade falaria ao vivo, em rede internacional, sobre o que acabara de ouvir, como forma de intervenção, e ele não cumprir com a sua promessa.

No fim, os dois entram em colapso: o jovem padre entra em um trem com diversos judeus, com uma estrela de Israel costurada em sua batina, rumo a um campo de concentração, e passa os seus dias trabalhando no local. Como ele foi reconhecido como padre, e por portar a estrela de Israel, os soldados nazistas o forçam a trabalhar no enterro de corpos de judeus (que seria considerado um castigo muito cruel).

O soldado-químico tenta novamente argumentar com outros soldados do exército se o povo alemão sabia o que estava ocorrendo ali. A resposta: “O mundo inteiro sabe!“. Esta resposta deixa o soldado-químico ainda em maior crise, visto que a resposta enaltece a sua ingenuidade simultaneamente com a certeza que independente do que ela faça, nada mudará pois as pessoas não querem mudar.

A maioria das conclusões deste filme podem ser retiradas de suas próprias análises. Costa-Gravas é um cineasta que faz provocações para lhe permitir refletir acerca das situações colocadas. O ponto de destaque que gostaria de apontar é a capacidade do ser humano em não se intrometer em assuntos que não lhe diz respeito, independente do que seja. Isto amplifica a visão egoísta e egocêntrica a respeito do homem, que se preocupa apenas com os fatos que estão dentro do seu próprio universo de relações. Parece que tomar isto como verdadeiro pode ser um disparate, visto que entre o nazismo e a contemporaneidade há uma enorme diferença, porém perceba que a fórmula essencial continua a mesma: podemos ver um mendigo na rua e achar suas vestes ou sua aparência engraçada, e diante de uma tragédia anunciada, conseguimos sorrir e sermos indiferentes aos acontecimentos. Pai mata filho e filho mata pai, e, diante desta realidade, descobrimos como fazer uma ótima piada contendo estes ingredientes.

Além desta falta de sensibilidade, é possível destacar também outro ponto: a satisfação em saber que um adversário ou concorrente está por baixo. Neste caso, me matéria de religiões, é a igreja católica satisfeita em saber que os judeus estão sendo massacrados. Pois poderia haver interferência! Não houve, justo que não era de todo ruim para o catolicismo que esta tragédia acontecesse. Nos dias de hoje, podemos ilustrar com torcidas de futebol: palmeirenses estão satisfeitos com a tristeza dos corinthianos, devido ao rebaixamento para a série B do futebol brasileiro. Num nível mais agressivo, são paulinos estão satisfeitos, ainda que não tenham participado diretamente, em verem torcedores santistas sendo agredidos violentamente, de tal forma que não interferem na briga (não para que não se machuquem, mas para que seus opositores possam apanhar ainda mais).

Para concluir, segue um terceiro ponto-de-destaque: histeria coletiva gerada por um acontecimento de massa. Como a própria descrição sugere, é quando a boiada estoura. Não há nenhuma razão aparente para desencadear uma série de acontecimentos anormais, que inibe a racionalidade, aumenta a animalidade, assim como a força e o descontrole, de tal forma que sugerimos que o homem é um animal irracional. No filme, esta expressão se dá com o nazismo e o massacre dos judeus. Por mais que a ordem venha de cima, o homem tem a sensibilidade de executar ou não tal ordem, mas justamente por não ser uma iniciativa própria, não consegue se sentir culpado. O nazismo é uma histeria que contagiou a todos os soldados alemães. Passou a ser divertido matar judeus, ainda que fossem crianças de colo.

Eles passaram a enxergar judeus como insetos, e não havia nada de errado neste estado de ânimo que eles se encontravam. Nos dias de hoje, podemos aplicar esta histeria coletiva em alguns atos de vandalismo que observamos, como no exemplo dos garotos de classe alta que incendiaram um índio que estavam dormindo. Laranja Mecânica In Loco. Algo totalmente irracional despertou nestes selvagens, motivados não-sei-pelo-quê e não-se-sabe-por-onde a cometer tamanha atrocidade. Os chamados PitBoys, que são garotos que fazem lutas marciais e que saem a noite em busca de confusão, se enquadram no mesmo princípio.

Enfim, entre tantos pontos-de-destaque, o filme serve, acima de tudo, para demonstrar a ignorância, a mesquinhes, e incapacidade do homem em ser humano. Demonstra que a ética e a moral são apenas disciplinas de Direito e de Filosofia, e que não servem na praticidade para absolutamente nada.

E sabe o que é o pior? É que o filme, infelizmente, não mostra nada de novo. Serve, entretanto, para relembrar quem somos e isto incomoda bastante. Filme perturbador. Eu recomendo!

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiO / Universo Hiper-Real.

Um Herói do Nosso Tempo (Va, Vis et Deviens. 2005)

Então quando você sentir que acabou a esperança, Olhe dentro de você e seja forte. E você finalmente verá a verdade, Que há um herói em você.

Somente o passado era previsível aos olhos dessa mãe. Nele a crueldade de uma guerra religiosa e étnica já lhe tirara quase toda a sua família. Ficara apenas ela e um único filho. Restara-lhe agora um dilema: mantê-lo junto a si, mas sem saber até quando, ou perdê-lo para o mundo, mas dando a ele a chance de ser alguém na vida? O momento dessa tomada de decisão se aproximava. A Operação Moisés era a oportunidade de dar um futuro digno ao seu filho, ainda um menino. Não seria fácil pois precisaria de ajuda.

Um resumo do que foi a Operação Moisés. Um fato histórico acontecido em 1984. Onde uma equipe do Mossad resgata judeus etíopes de um acampamento de refugiados no Sudão. Levando-os para Tel Aviv, Israel.

Agora voltando a batalha invisível que então levaria seu filho para longe de si. Ele teria que se passar por judeu. Como convencê-lo a ir sem ela. E quem a ajudaria.

À essa mãe tão castigada pela vida, uma outra mãe que há poucas horas perdera seu filho, numa linguagem muda dá a ela a certeza de que dali para frente seria com ela. Assim o menino ganha um novo nome: Schlomo. E ele de coração partido segue em frente para cumprir um pedido/ordem de sua mãe: “Vá, viva e se transforme“.

Uma pausa para voltar a falar da Operação Moisés. É que no início do filme me peguei a pensar se atualmente outras nações também não faria o mesmo. Por ter sido um feito digno de aplausos. Mas com mais um pouco do filme vi que nem mesmo Israel voltaria a fazê-lo. Como também ficou uma dúvida do porque fizeram. Até por terem se cercado de todo um aparato para receber esse povo: muros, soldados… Parecia que estavam numa prisão. Com muito mais regalias é claro. Mas ainda detidos para uma investigação mais detalhada se eram de fato judeus.

Schlomo perde ai essa sua segunda mãe. Mas o destino ainda conspirava a seu favor. Lhe dando uma terceira e então definitiva mãe. Por sorte ele fora adotado por uma família agnóstica, e de esquerda. Mas achando que ele de fato era judeu o colocam para estudar o Torá.

Scholmo mesmo diante de tanta fartura em alimentos, recusa-se a comer ficando apenas nos líquidos. Falando em líquidos, a cena do seu primeiro banho de chuveiro arrepia de tão emocionante. E quando ele conta o porque do que o traumatiza tanto. É de sentir raiva da estupidez, da selvageria dos homens num campo de batalha e com inocentes.

Voltando a essa terceira mãe, ela é incansável. Tanto na educação, como em tentar cicatrizar as feridas desse coraçãozinho. Precisam ver o que ela faz para que Scholmo decida se alimentar. Entre broncas e carinhos, ela o faz seu filho: de fato e de direito. E lutando para que o respeitem como um deles. Mais que o preconceito religioso, a cor da pele será uma batalha que ambos irão enfrentar dali para frente.

Além dessas “três” mães, uma outra mulher entra na sua vida na fase da adolescência, e segue junto com ele. Ela teve que romper outras barreiras, teve que romper laços sagrados para ficar ao lado dele. Por ter quem não aceitava a relação de uma branca com um negro.

Em sua trajetória de vida dois homens contribuíram e muito em sua formação. Diria que foram seus dois Mentores. Um, um patriarca de sua terra natal, que tal como ele, estava em exílio. Eram ambos dois sobreviventes. O outro, o avô da família que o adotou. Ambos ensinaram os verdadeiros valores, as verdadeiras bagagens que se deve levar ao longo da vida. A cena de uma sabatina final na leitura do Torá é emocionante.

Não querendo “comprar” guerras até por imposição do pai adotivo que o queria lutando ele vai estudar medicina em Paris. Mas ao se formar acaba embarcando numa guerra que não era dele. E nela por se vê impedindo de atender alguém – e por ambos os lados numa guerra estúpida -, se descuida e termina sendo ferido. Voltando então para a casa, e se casa.

Acabou? Não! Tem muito mais ainda. Eu apenas pincelei o que seria esse filme. Nele temos a trajetória de um menino até a fase adulta. É um filme longo. Poderia ter sido mais enxuto? Sim! Mas creiam, mesmo assim não cansa, nem nos tira a atenção. O final do filme arrepia! Agora, embora eu tenha gostado muito, revê-lo talvez num remake mais curto. Ou em Dvd para ver em partes.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Herói do Nosso Tempo (Va, Vis et Deviens). 2005. França, Romênia. Direção e Roteiro: Radu Mihaileanu. Elenco: Yaël Abecassis, Roschdy Zem, Moshe Abebe, Sirak M. Sabahat, Roni Hadar. Gênero: Drama. Duração: 140 minutos.

Trem da Vida (Train de Vie. 1998)

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Como pode um filme contar um fato histórico tão horrível de um jeito encantador? Esse, “Trem da Vida“, o fez e com brilhantismo! E é muito, mas muito divertido. Ah! O fato histórico é o Holocausto. Agora, um pouquinho desse belíssimo e divertidíssimo filme…

Com a notícia do avanço dos soldados alemães, um grupo de judeus numa pequena província decidem que devem partir. Mas como? Juntos, seria difícil pois iriam levantar suspeitas. Eis que o mesmo que trouxera a notícia também traz a solução: montar um trem de deportação. Sendo que parte deles se passariam por alemães. Assim teriam uma chance para fugirem da perseguição nazista. E com isso somos brindados com cenas hilárias.

Fingindo estarem num trem de deportação já fora uma grande ideia. Mas primeiro que quem a trouxera era o louco/bobo da região, o Schlomo. E todos eles tendo que aceitar esse fato. Depois…

Bem um trem custa dinheiro. Mas tirar dinheiro de judeus? É! Eles fazem sim piadas disso, e de querer voltar as cenas para curtir outras vezes. Desde a coleta, passando pela compra – que tem que ser vagão por vagão para não despertar a menor suspeita -, até a saída do tal trem… as cenas são hilárias. Até a locomotiva comprada que puxará todos aqueles vagões é um espanto! O que é aquilo? Também com a grana arrecadada não poderiam exigir grande coisa. E sem esquecer da procura por um maquinista já que nenhum deles sabia conduzir um trem. Conseguem um que… Melhor assistirem.

Seguindo… Vem as escolhas em qual deles seriam os alemães… Até porque teriam que falar um alemão perfeito… Para isso importaram um certo “professor” de alemão… Também há as ironias entre esses dois povos: “judeus” e alemães… E mesmo com as compras, ou naqueles que saiam às compras… Onde um deles volta com ideais marxistas…

Então nesse trem teria: judeus, “alemães” e comunistas? E só? Não! Assim como em meio a uma discussão – inicialmente suscitada por comida e durante o ritual religioso -, indo parar nos ideais marxistas, Schlomo sai com essa: “O homem escreveu a Bíblia por medo de ser esquecido, sem se importar com Deus.“. Boa!

No caminho desse trem além de tentarem passar despercebidos pelos alemães reais… teriam também que assim tentar passar, mas por grupos de rebeldes acreditando que era de fato um trem dos nazistas, até para evitar de explodirem o trem… E numa certa parada a fim de conseguirem mais comida me trouxe a grata lembrança da Série “Guerra, Sombra e Água Fresca” (Hogan’s Heroes), tal foi a comicidade da cena. Hilário!

E o final… Bem aí temos então a realidade nua e crua do que foi esse episódio lamentável na História da Humanidade. Mas que nos deixa também a certeza de que é preciso:

Sonhar, mais um sonho impossível. Lutar, quando é fácil ceder. Vencer, o inimigo invencível. Negar, quando a regra é vender. Sofrer, a tortura implacável. Romper, a incabível prisão. Voar, num limite improvável…

Um filme que vale a pena ver e rever! Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Trem da Vida (Train de Vie). 1998. França. Direção e Roteiro: Radu Mihaileanu. Com: Lionel Abelanski, Rufus, Clement Harari, Michel Muller, Agatha de La Fountaine. Gênero: Comédia, Drama, Romance, Guerra. Duração: 103 minutos.

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Luni, 3 Saptamani si 2 zile. 2007)

four-months-three-weeks-and-two-days.jpgAinda numa Romênia comunista, duas estudantes diante de uma decisão: fazer um aborto. Apenas uma delas é que está com essa gravidez indesejada. Cabendo a outra, mais do que a companhia, ser cúmplice nesse ato. Onde entre mentiras e omissões o preço a ser pago será muito maior a essa amiga. E por que? Amizade acima do limite? Sendo isso que a mim chamou mais atenção nesse filme: o valor de uma amizade. Otilia foi amiga a toda prova. Um dia pesado na vida de ambas é o que temos nesse filme.

Ao longo do filme somos levados a sentir todo o seu drama. E em certos momentos – quase sem respirar -, acompanhamos a sua longa jornada noite adentro. Sem julgá-la, apenas querendo entendê-la. Querendo também lhe ser solidária. Aquele preço. O porque de ter aceito… Méritos da jovem atriz: foi grandiosa a sua atuação!

Gabitza é a jovem que precisa fazer o aborto. E por que? Ou por que chegou até aí? Aqui eu convidaria também os homens para assistirem esse filme. Se esse aborda um universo feminino, a concepção é algo que partiu dos dois sexos. Se cabe à mulher o direito de fazer o aborto, é preciso que o homem veja todo o drama que uma transa sem sem pesar as conseqüências acarretará para a mulher. Até porque para o homem após o prazer do gozo pode partir livre para outra transa. Agora, se nessa transa geraram um novo ser, caberá a mulher o peso maior. Sendo assim deveria lhe ser de direito o abortar a gestaçã0. Mas há penas a serem pagas.

O filme traz à mesa de discussões o aborto. Legítimo até pelo fato que atualmente ainda há muitas gravidez precoces. Cada vez mais, mais jovens se engravidam por não se precaverem. Sendo assim manter ou trazer o tema do aborto já merece meus aplausos. Nunca fiz, nem faria um aborto. Não julgo quem o faça; muito menos sem antes saber dos reais motivos. Agora que venham mais filmes levantando esse tema. Ainda mais com um Papa tão reacionário, fechando a questão e ponto final. É um tema que não pode morrer até para que mais e mais pessoas não cheguem a ter esse fato como opção de escolha.

Agora como falei no início o calvário maior foi para a amiga. Que após uma noite tenebrosa, vejam a “preocupação” da Gabitza no final. Caramba!

Aqueles que não gostam de filmes lentos não irão apreciar esse. Mas perderão mais um belo filme. Pois esse traz cenas onde as horas parecem passar lentamente para a Otília, e de cá pelas angústias da Otília fica em nós um querer que passem logo.

Eu gostei desse filme! Nota: 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 luni, 3 saptamani si 2 zile). 2007. Romênia. Direção: Cristian Mungiu. RoteiroCristian Mungiu e Razvan Radulescu.  Com: Anamaria Marinca (Otilia), Laura Vasilu (Gabita). Gênero: Drama. Duração: 113 minutos.