Desvendando A Vida de Pi: Breve Análise Sobre O Lado Sombrio da História

Richard Parker contra Pi: Um Conflito Interno

Olá pessoal, após alguns meses sem postar, estou de volta. Dessa vez falarei sobre o best-seller A Vida de Pi (The Life of Pi) do autor canadense Yann Martel, livro que estava passando quase despercebido pelo Brasil antes da adaptação cinematográfica feita pelo diretor Ang Lee. A campanha de divulgação do filme promete algo aparentemente infantil com o cartaz de um rapaz acompanhado de um tigre digital, entretanto essa é uma história bastante adulta e deve ser vista como tal. Minha proposta é analisar a obra procurando decifrar os reais significados dessa trajetória que buscou apoio na Psicanálise e saiu vitoriosa como uma das melhores metáforas sobre o confronto do ser humano contra seus impulsos de crueldade. Afinal, o livro explora a motivação do homem perante a solidão ao demonstrar de forma impressionante a importância da religião para alguns, não somente como aspecto cultural (afinal são abordadas várias religiões), mas como um meio de autocontrole.

Contronto para domar o tigre

Jamais se tratou de apenas domar o tigre

O confronto do rapaz com o Tigre se dá de uma forma extremamente simbólica. Na verdade, o tigre representa a parte cruel do ser humano, com quem Pi terá que lutar até o fim se quiser manter-se vivo. Essa salvação pode ser compreendida metaforicamente, literalmente e religiosamente. Como ele está num bote apenas com o tigre, será necessário domar os impulsos ferozes do animal para evitar sua própria morte. Na verdade, ele não procura matar o animal, apenas busca uma convivência pacífica com o mesmo. Utilizando uma abordagem semelhante a vários filmes como Cisne Negro, X-Men 3 (a indomável Jean Grey/Fênix Negra) ou Senhor dos Anéis (o Gollum), onde o personagem não sobrevive sem seu lado sombrio. Isso faz sentido ao notarmos a inclinação assassina despertada em Pi através da luta pela sobrevivência, se ele quiser continuar a ser a pessoa alegre de antes precisará combater esse instinto e domá-lo. Caso contrário, o tigre matará o rapaz, tornando-se o único no bote, representação do próprio Pi composto por duas personalidades. Por isso, sou totalmente contra o filme ter ganhado  o título brasileiro “Aventuras de Pi”, pois esse confronto se dará eternamente no personagem narrador, apesar do mesmo constantemente tentar manter suas tendências violentas (despertadas pelo trauma no bote) adormecidas.

A abordagem religiosa em A Vida de Pi: valorização do aspecto cultural e necessidade de autocontrole do personagem.

A abordagem religiosa em A Vida de Pi: demonstração dela na diversidade cultural e necessidade de autocontrole do personagem.

A salvação esperada por Pi, além da literal (no caso, seria a chegada em terra), também pode ser vista pela religiosidade do rapaz. Ele gostaria de ser muçulmano, hindu e cristão simultaneamente. Isso pode indicar um possível desespero do mesmo ao tentar controlar de todas as formas sua personalidade, caracterizada pelo tigre. Na embarcação, um dos atos mais repetidos pelo menino é o da oração, é óbvio a tendência das pessoas em orar numa situação tão trágica quanto a dele. Entretanto após analisar o final, compreendemos que Pi não é alguém confiável. Ele pode moldar os fatos conforme for sua vontade, não havia testemunhas e Richard Parker pode ser meramente uma projeção sua, não existindo fisicamente a não ser através de Pi. Portanto, é inútil questionar se a trama prova ou não a existência de Deus, pois basta salientar o foco do importante ser Pi manter suas “tendências assassinas” quietas, nem que para isso precise crer piamente em algo totalmente distinto de seus paradigmas (sua família não era adepta ao cristianismo). Ele provou, sim, que somente sua fé conseguiu fazê-lo viver com a consciência limpa, o suficiente para seguir em frente normalmente independente de seus crimes passados.

A paixão de Pi pelos animais não é incomum, ele projeta através de cada um no bote alguém que participou dos eventos pós-naufrágio. Isso se deve ao antropomorfismo expressado por sua consideração pelos habitantes do zoológico de seu pai desde a infância. Várias discussões são relatadas no livro a respeito do estabelecimento e até alguns excelentes argumentos sobre manter ou não animais no zoológico. A preocupação do autor demonstra ser um pedido de respeito aos animais. São exploradas várias questões bastante interessantes sobre o comportamento deles. A maioria das pessoas não atenta para esses detalhes, todavia isso enriquece demais a narrativa antes de fornecer um panorama mais reflexivo do papel de Pi ao lidar com eles.

O mistério da ilha carnívora e assassina: ela é Pi.

O mistério da ilha carnívora e assassina: ela é Pi.

Quanto à ilha, essa é a parte mais genial. Admito que só compreendi melhor após a adaptação cinematográfica, pois ocorre a revelação da mesma estar em formato de homem. A ilha também expressa as circunstâncias mentais do protagonista. Ela é antropofágica, tal qual Pi precisou ser a fim de sobreviver. Entretanto se ele continuasse nela, ou seja, caso o rapaz continuasse a se alimentar de tal forma (o ato de ingerir carne é ainda pior para ele se levarmos em conta sua família vegetariana), morreria. Isso faz alusão à banalização da violência. O corpo continuaria vivo, entretanto Pi estaria se enganando e deixando sua crueldade aflorar até dominá-lo. Nesses momentos, os suricatos representam a alienação mental do rapaz, por isso sequer se defendiam do tigre, pois estavam ocupados demais aceitando as comidas. Percebam o seguinte: se Pi continuasse na ilha, Richard Parker também estaria. O tigre alimentava-se dos animais da mesma. Se Pi é a ilha, os suricatos são os resquícios de sua inocência. Eles seriam devorados pelo tigre, que possuiria todo o controle sobre o território. Além disso, a ilha acabaria matando Pi, logo o corpo (a ilha) extinguiria qualquer vestígio de humanidade (representada por Pi) do local.

A Vida de Pi é uma trama carregada de significados ocultos e merece ser apreciado nos mínimos detalhes, tornando-se bastante ampla quando ocorre análise da abordagem sobre a psicopatia do personagem central. Caso alguém deseje comprar o livro pela capa colorida, alerto se tratar de uma história adulta com um desfecho surpreendente, apesar de assustador para quem se acostumou com a afeição do rapaz pelo tigre. O próprio é uma excelente metáfora para a crueldade humana e a beleza aterradora que há na perda de controle (por isso o rapaz elogia tanto a aparência majestosa e enganosa do tigre). A adaptação cinematográfica foi ótima, porém perdeu muito de sua força no desfecho, onde ironicamente suprimiram bastante da real violência ocorrida com o protagonista ao longo da história, afinal não houve a utilização de imagens para tanto, o que considero imperdoável ao se tratar de uma adaptação visual tão feliz de um livro rico em interpretações. Para finalizar, tal qual o livro e filme perguntam: “depois dessa história, em quê você prefere acreditar?”

Alegre capa brasileira de A Vida de Pi.

Alegre capa brasileira de A Vida de Pi.

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As Aventuras de Pi ( Life of Pi. 2012)

93853_gal“As Aventuras de Pi” começa de uma forma bastaste interessante ao explorar a infância da personagem principal, em torno da fé, de uma filosofia de vida focada em elementos do hinduísmo, cristianismo e islamismo. Essencialmente, Pi quer “conhecer” Deus, em diferentes religiões para criar sua própria iteração.

Quando o filme explora as dificuldades de Pi atravessando o Pacífico em um barco salva-vidas, lidando com uma zebra, uma hiena, um orangotango e o devorador tigre, Richard Park, eu fiquei me perguntando para onde essa história iria me levar, simplesmente depois do inicio bastante cativante.

Não li o livro de Yann Martel, mas creio que as aventuras de Pi no Pacífico, são apenas dramatizadas no livro-, e Ang Lee tinha que mostrar em vez de apenas dizer. Então, temos as cenas modernas no Canada, as quais não prejudicam o fluxo da narrativa, mas também não ajudam em nada! Ao me deparar com o Pi de meia idade ( um Irrfan Khan com cara de carneiro morto a paulada), narrando a sua história para um escritor canadense (Rafe Spall), tive a certeza que ele sobreviveu ao seu calvário – e, se matou ou não o tigre, não me bateu nenhuma curiosidade!

Sobre a relação de Pi com Richard Parker,  o que gostei mesmo foi o fato que o tigre não se humanizar: Ele continua a ser um predador, e só se torna “amigo” na mente do jovem Pi (linda interpretação do desconhecido, Suraj Sharma). Os efeitos especiais são nada menos que incríveis– em nenhum momento, pensei que o tigre era apenas um animal feito pelo CGI. A beleza plastica desse filme vai além de palavras – lindo trabalho de fotografia de Claudio Miranda e, Mychael Danna escreveu uma trilha sonora sublime!!93852_gal

“As Aventuras de Pi” é um filme difícil, porque mesmo ilustrando uma aventura incomum, a mesma não é emocionante, e também quase nada acontece em termos de ação. O final é fraco (não desastroso, mas decepcionante ), principalmente porque o conteúdo é pouco para tanta beleza.

Nota 5/ 10