El Viaje Hacia el Mar (2003. Uruguai)

Por: Ana Maria.
O cinema uruguaio produz poucos filmes, mas traz ótimas surpresas. Uma delas é o El Viaje Hacia el Mar, adaptação do conto homônimo de Juan José Morosoli, dirigido por Guillermo Casanova. Aqui no Brasil, é mais conhecido por aqueles que frequentam festivais e também já foi exibido algumas vezes na Sessão Cone Sul do Canal Brasil.

Numa manhã de domingo de 1963, num bar do povoado de Minas, no Uruguai, o gari Rataplán, o coveiro Quintana, o vendedor de loteria Siete y Tres Diez e o cachorro Aquino esperam por Rodríguez, que vai levá-los para ver o mar pela primeira vez. El Vasco, o capataz, também os acompanha, mas contra sua vontade. Recém-chegado de Montevidéu, um elegante forasteiro (interpretado por César Troncoso, protagonista de O Banheiro do Papa), une-se à comitiva na última hora.

Rodríguez tem grandes expectativas de ver os amigos emocionados ao conhecer o mar, porém o mais importante não parece ser o mar, mas sim aquilo que o acontecimento representa para esses homens que, apesar de estarem em um pequeno país, imaginam o litoral como algo tão distante.

Durante a viagem, sob o sol forte, no velho (e bota velho nisso!) caminhão vermelho de Rodríguez, os seis personagens vão revelando suas particulares maneiras de viver e de entender o mundo e as pessoas, enquanto discutem e ouvem rádio. Na emissora que estão escutando, o locutor lê mensagens que as pessoas enviam para amigos e parentes, incluindo a de uma mulher que manda dizer ao irmão “Mamãe grave, traz gravata preta”.

Um road movie simples e original, com pitadas de humor, bonitas paisagens do interior do Uruguai, locais diferentes daqueles visitados pelos turistas, boa música uruguaia e um elenco maravilhoso formado por Hugo Arana, Julio César Castro, Diego Delgrossi, Héctor Guido e César Troncoso.

-Vamos viajar, vamos conhecer o mar.
-Que bom! E a que praia vocês vão?
-Tem mais de uma?
-Claro. Você não conhece o mapa?
-o quê?
-O mapa, do Uruguai, não conhece?
-Não, todo não…

Link para o conto no qual o filme foi inspirado
http://letras-uruguay.espaciolatino.com/morosoli/viaje_hacia_el_mar.htm
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O Banheiro do Papa – A vida imita a arte que imita a vida

O Banheiro do Papa (El Baño del Papa) é um filme baseado em fatos reais. Um drama que narra a vida e a luta diária de um povo sofrido e seus subempregos, vivendo de fazer bicos e transporte ilegal de muambas (pleonasmo proposital) na fronteira entre Brasil e Uruguai; fato centrado em uma família miserável da cidade de Melo, no Uruguai no ano de 1988, época do Papa João Paulo II e sua Odisséia pelo mundo.

O que mais me chamou a atenção nesse roteiro foi a criatividade, algumas ótimas sacadas, e a fotografia belíssima. São pequenas histórias assim banais que me cativam sendo transformadas em obra de arte. A viagem do maior representante da igreja católica pelo mundo tornou-se assunto corriqueiro depois de um determinado tempo; a imprensa no início fazia aquele alarde, cobertura ampla, geral e irrestrita, o foco estava centrado no Vaticano e na próxima parada de Vossa Santidade Karol Wojtyla.
Melo, que faz fronteira com o Brasil, começou a se preparar para esse santo dia. Os meios de comunicação anunciando constantemente a passagem do Papa por lá, contabilizando 50 mil pessoas participando do evento, deixou o povo pra lá de eufórico. A vinda dele é esperada pela população como uma forma de ganhar dinheiro extra. Muitos deles investiram suas economias comprando comida para alimentar a população nesse dia, bandeirinhas, souvenires e outras bugigangas; outros com a mesma idéia, mas sem recursos próprios, recorram a empréstimos a bancos.
Somente uma família teve uma idéia genial: A do Beto e sua esposa Carmen mais a sua filha Silvia. Pensaram em construir um banheiro, para uso exclusivo dos visitantes que por lá passariam, a fim de atender suas necessidades fisiológicas e cobrariam um valor simbólico de $$ 1,00, com direito a papel higiênico e tudo o mais.
Começaram a construir o banheiro no quintal da casa com tudo o que tem direito: porta, paredes de alvenaria, pia e faltava o detalhe principal o vaso sanitário. Carmen, a esposa que não era boba nem nada, tinha lá escondido no colchão suas economias que guardava para a educação de Silvia, sua filha que sonhava ser radialista. A propósito, a chegada do Papa por aquelas paragens seria o momento ideal para a garota mostrar seu talento, que por sinal vivia ensaiando. Já no dia D, da chegada do ilustre visitante é que Beto foi à cidade comprar o trono, porém, com todo o alvoroço, o formigueiro humano que se formava  naquele dia, fez com que ele se atrasasse e não conseguisse voltar para casa com o tão sonhado objeto do desejo nas costas. Num determinado momento, a família estava antenada com um canal de televisão que noticiava o povo se dirigindo ao local da chegada do divino evento, no centro da cidade e, de repente, vê no meio da multidão Beto carregando a privada e deduz que não chegaria a tempo de terminar o banheiro.
Muito trabalho por nada. Os moradores queriam tanto ganhar uns trocados, mas todo esforço de tempo e dinheiro investidos, tantos sacrifícios foram parar na lixeira. E ninguém naquele bendito dia queria fazer xixi.
Aprende-se muito com histórias desse gênero. Sempre tiramos alguma lição de vida. No carnaval 2010 do Rio de Janeiro, por exemplo, jovens moradores vizinhos do Sambódromo, aproveitaram o momento festivo para ganhar dinheiro. Como os banheiros químicos espalhados pela cidade nesse período não estavam dando vazão, duas adolescentes tiveram a idéia de alugar o de suas casas cobrando R$ 1,00 daqueles que precisavam se aliviar. Se deram bem. Chegaram a ganhar R$ 400,00 num dia de carnaval. Isso foi notícia em vários meios de comunicação, e a associaram a outro fato negativo que esse período proporciona, o de fazer as necessidades em lugares públicos. O Brasil está no ranking do ato obsceno com maior representação entre os porcalhões, que fazem xixi na rua. A repressão para os mijões presos no carnaval resultou em prisão e multa. Haja cadeia. E adianta?
Esse povo pagante é, lamentavelmente, a porcentagem mínima dos educados da nação “não faz mais que a obrigação”, já que muitos preferem deixar seus dejetos nas praças, postes, árvores ou ao lado mesmo do banheiro perdendo o seu propósito. Sem falar nos lixos que são largados em qualquer canto, em qualquer lugar.
Será que uma campanha educativa na mídia, ajudaria? Abraço a genialidade do roteiro pelas boas intenções. Por outra ótica, pode ser interpretada como uma crítica aos atos de um povo, questão de ética e cidadania, por mais simples que ela seja. Fazer xixi no lugar certo, por exemplo. A educação que deveria vir de berço não existe há tempos. Sobra mais um desafio para os bancos escolares. Clap! Clap! Clap!
Karenina Rostov

Gigante: o amor pelas câmeras de supermercado

Por: Simão Zygband.
Gigante_filme-uruguaioGigante, filme que fui assistir neste final de semana. Trata-se de uma produção uruguaia (onde se passa o filme), em conjunto com Argentina, Alemanha e Espanha.

Gigante é gostoso de ver. Retrata a vida simples (e sofrida) de um segurança de supermercado, Jara (Horacio Camandule), que se apaixona anonimamente por uma faxineira, Julia (Leonor Svarcas), a quem monitora pelas câmeras de vigilância.

Não é um filme brilhante, mas mostra como vivem pessoas humildes, em suas casas (onde passam o menor tempo de suas vidas) e o seu local de trabalho (ou mais de um, como é o caso de Jara, a personagem principal, que faz bico de leão de chácara, nos finais de semana, em uma danceteria).

Pela imagens, pela singeleza do amor que nasce repentinamente por detrás das câmeras de segurança, é que vale a pena dedicar 90 minutos do seu dia para assistir a este filme.

Informações Técnicas
Título no Brasil: Gigante
Título Original: Gigante
Direção e Roteiro: Adrián Biniez
País de Origem: Uruguai
Gênero: Comédia / Drama
Tempo de Duração: 90 minutos
Ano de Lançamento: 2009

O Banheiro do Papa (El Baño del Papa. 2007)

Confesso que mais do que pela história em si, o que me motivou mesmo a assistir esse filme foi o país de origem. Em conhecer o Cinema Uruguaio. Não saí decepcionada. A trama é boa e nem um pouco fora da realidade. Mesmo que esse título possa causar estranheza há alguns.

Antes, por lembrar que há quem torça o nariz por achar que o Cinema Brasileiro só mostra pobreza… a esses, aviso que esse mostra uma periferia bem humilde. Mas como muitas que alguns de nós conhecemos, também há solidariedade entre os vizinhos. Numa de compartilhar o pouco que têm. Sendo assim, se não querem ver essa realidade peguem outro filme. O que seria uma pena!

O filme foca numa Vila onde os adultos sobrevivem fazendo biscates. Ou, onde há uma terceirização para lá de informal.

Onde as mulheres lavam, passam, costuram… para uma outra parte mais abastada. Nossa! Quando uma filha volta de uma das entregas diz… É! Não é mesmo algo improvável. Isso acontece!

Já para a maioria dos homens, é o de irem buscar mercadorias para o comércio local, mas em território brasileiro. Poucos são os que fazem todo esse trajeto com motos. A maioria faz essa viagem diária, de quilômetros, com bicicletas. Para ‘dificultar’, na estrada principal no lado uruguaio tem um destacamento militar. Precisam ouvir do Oficial como “guardam” a fronteira do país.

Então os homens seguem por um outro caminho. Que aumenta ainda mais o percurso. Pior até! Pois o caminho é muito acidentado, com trechos em charcos. E por essa trilha por vezes aparece um “rapa”. Então é como ‘se correr o bicho pega, se ficar o bicho come‘.

Se falei de todos no geral foi para chegar ao título do filme.  Onde entra uma família em especial a do Beto (César Troncoso). Um pouco dele, da sua família e das suas aspirações:

Ele sonha em ter uma moto para além de poder trazer mais mercadorias, poupar o seu joelho. A princípio tenta convencer a mulher em deixar a filha fazer as viagens junto com ele. Nem a mulher consente, nem muito menos a filha quer já que tem planos de continuar os estudos na capital. Entre ela e o pai há um estranhamento.

Eis que com a notícia que o Papa passaria por lá há um agito na comunidade. O pessoal da vila vê nisso um jeito de ganhar uns trocados a mais. Todos colocam em prática suas idéias. Até a mulher do Beto tem uma, mas que ele a descarta por conta da dele.

E qual seria a dele? É até engraçado como triste ao mesmo tempo o momento que lhe vem essa idéia. O lado triste, e é até constatado por sua mulher mais adiante no filme. Bem, para não estragar a surpresa de vocês, reparem para onde ele olhou. Creio que entenderão  😉 Agora, o lado cômico da ideia do Beto é algo do tipo: “Se vão comer tudo aquilo… Vai faltar matinho“. Pois é! Ele resolve construir um banheiro. Além de ter pouquíssimo tempo, teria que fazer mais viagens pois não tem nenhuma reserva financeira para tal empreitada.

De cá acompanhamos o seu drama. A mim, o vi como um sonhador demais. E mais! Alguém que nesses “vôos” esquece que não está nessa sozinho. Mas como também no mundo real há os que não apenas os deixam voar, como ajudam nisso.

Gostei do filme! Mas não entrou para a minha lista de rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA)

O Banheiro do Papa (El Baño del Papa). 2007. Uruguai. Direção e Roteiro: César Charlone e Enrique Fernández. Elenco: César Troncoso, Virginia Méndez, Virginia Ruiz, Mario Silva, Nelson Lence. Gênero: Drama. Duração: 90 minutos. Baseado numa história real.