Heleno – O Príncipe Maldito (Heleno. 2011)

Gostei do filme em preto e branco do diretor José Henrique Fonseca que trata de ressaltar o caráter perfeccionista de uma pessoa controvertida, da linda e muto linda fotografia de Walter Carvalho que traz todo o glamour de uma época em que todos eram tão superficiais quanto a base da importância de se pertencer ao Hgh society.

O suspense do longa ignora as prováveis curiosidades do espectador em conhecer detalhes da história dessa figura de final já conhecido, nos trai nas imagens das idas e vindas, flash back que percorrem o presente, o delírio, o passado. A narrativa não é confusa, mas não esclarece substancialmente pequenas curiosidades. Há a mensagem subliminar para aqueles que desejem saber mais: “leiam o livro”. O compromisso da telona é com o mito – O que fez muito bem a direção de Fonseca que passa com sutileza a imagem do bom humor do craque, e até permite que os mais atentos percebam sua arrogância na obra cinematográfica como uma arma defesa de alguém que consciente da sua genialidade no gramado, ciente da admiração das mulheres pelo seu rosto bonito, porte imponente, educação e refinamento imaginava conviver com a inveja do restante do mundo, perpetuando aquela arrogância característica da juventude. Em certos momentos me pareceu que Heleno não passou dos 17 anos.

O filme colore a característica de um homem apaixonado por sua  atividade esportiva num tempo de transição entre o amadorismo e o profissionalismo ainda praticamente inexistente.

Um homem advogado, filho da riqueza do café que só queria jogar bola e, como sabia que jogava bem queria ser aplaudido, ovacionado. Sua paixão pelo ato de jogar bola e pelo time que defendia, sua ânsia passional de ver expresso por todos a sua capacidade muito acima da média.

Retratando Heleno, o homem, num contexto de uma sociedade  que ainda tateava no aprendizado de como tratar as  figuras públicas de um setor esportivo que não tinha ainda delineadas suas regras e estatutos.

Ao nos poupar dos detalhes mais dramáticos que a doença impingiu ao craque, a obra preserva a imagem de alguém que tendo o necessário para fazer tudo, fez muito, mas não realizou suas ambições, vítima da sua própria escolha, mesmo aquela que não se sabe exatamente o momento em que é feita.

A demência total talvez lhe tenha protegido das muitas frustrações. Não participou de nenhuma copa mundial, não deu título ao seu time do coração, não viu seu filho crescer e não viveu tanto tempo com a mulher que escolheu para casar. Mas no auge dos efeitos característicos da insanidade mental povocada pela sífilis, esquecido do que era, batia no peito orgulhoso de dizer quem era: “Eu sou Heleno”!

Sim, era e como era!

Também fora boleiro genial, impaciente e até agressivo com os “cabeça-de-bagre”. Corajoso de dizer sobre como se entra em campo defendendo o time e honrando a camisa. Não fosse tão “louco” seu modo de encarar o maneira de exercer a profissão seria argumento de palestras motivacionais.

Ele era Heleno e hoje seria dito “mascarado”, mas ainda na atualidade seria muito mais incompreendida a sua postura de recusar “bicho” pago pelo clube num jogo onde não houve vitória, recebido por colegas que ao seu ver não jogavam pela camisa. Arrepia essa cena que Rodrigo Santoro, incorporado pela entidade Heleno de Freitas bate no peito  e declara sua ética de amor ao clube, comprometimento com resultado e orgulho por seus passes. (ok, que ele era rico e os amigos jogavam para ganhar dinheiro, mas isso não diminui a emoção, por mais que a distribuição da sua parte no “bicho” e queima do dinheiro restante possam parecer arrogância).

Adentra no vício pela inocente porta das drogas permitidas, socialmente aceitas e naquele tempo até  com uso admirado por expressar o glamour da riqueza – o lança-perfume, cigarros e as bebidas alcoólicas. Perde a saúde pela falta de orientação e ignorância vigente numa época em que preservativos praticamente não existiam como prevenção de DSTs; segue orgulhoso, negando-se ao tratamento que acreditava lhe causaria impotência; ruma impávido colosso pelo caminho que lhe foi permitido como celebridade optar  pelo não tratamento de uma doença ainda, quem pode saber, em estado inicial.

O que eu não gostei no filme é que tudo é tão sutil, apenas o destino implacável e soberano, como aquelas antigas  fábulas de moral e bons costumes que os avós  contavam na  esperança que com elas os netinhos se tornassem bons meninos.

Não aparece no filme, a derrocada do atleta devido o erro do diagnóstico que apontava esquizofrenia, em vez da sífilis cerebral que lhe corroeu os nervos e destruindo os seus neurônios, mostra com clareza a isenção dos médicos do clube em não obrigá-lo a tratar-se. A trama nos conduz ao pensamento que ele foi apenas alguém que perdeu para si mesmo e a derrota assumiu forma retumbante porque ele não sabia perder. A tranquilidade da normalidade com que o seu melhor amigo lhe rouba a mulher parece dizer “bem feito pra esse menino mal”…

Como o jogador protagonista da 1ª maior negociação no futebol na época,  Heleno volta desprestigiado tanto por ter amargado a reserva como pela dispensa do Boca Juniors da Argentina, com neurônios a menos e ouvindo vozes dá ao Vasco o campeonato Carioca de 1949, único da sua careira sem aparecer no pôster oficial dos campeões pelo rotineiro motivo:  suas brigas. Sem noção da realidade, certo de que o tempo, a doença e o vício em álcool e éter não lhe atingiriam vai para a Colômbia e se torna lá, ídolo. Já muito atingido pela doença, cheirando éter para sobreviver,  sua esposa Hilma, no filme, Sílvia (Aline Moraes) pede o divórcio e  Heleno tenta com desespero recomeçar no América do Rio onde realiza o sonho de pisar no Maracanã, mas por apenas 35 minutos.

O que não está no filme:

· A Segunda Guerra Mundial impediu a realização de duas copas, 42 e 46, duas oportunidades a menos para um jogador cujo tempo corria mais rápido que para os outros. A cena em que Heleno, depois de ameaçar o técnico Flávio Costa com uma arma sem balas, toma uma surra, o tiraria da sua última oportunidade de deefender o Brasil no campeonato mundial de 1950.

· Em 1942, Heleno foi o artilheiro do campeonato Carioca com 28 gols, marca até hoje não atingida no Botafogo que teve como sucessores de Heleno, Dino, Paulo Valentim, Amarildo, Garrincha, Jarizinho, Roberto Miranda e Túlio Maravilha.

· Em 1952 Heleno estava louco e foi diagnosticado como esquizofrênico. Internado numa clínica do Rio de Janeiro amarrado em uma camisa-de-força, tomou choques, apanhou e fugiu. Foi encontrado com uma faca nas mãos gritando que mataria se o levassem de novo para a clínica.

· Sua esposa, Hilma (que no filme se torna Silvia) era filha de diplomata, colega do poeta Vinícius de Moraes. Este, dedicou ao noivo “Poema dos Olhos da Amada” – obra que seria seresta na voz do cantor Sílvio Caldas.

· Foi no Fluminense, em 1938, através de Carlomagno, que Heleno de Feitas apresentado como jogador de meio-campo, passou a atacante.

· “Jogo do Senta” em 10 de setembro de 44, Heleno era o capitão e principal jogador do Botafogo, que vencia o Flamengo por 5 x 2 e o jogadores rubronegros sentaram-se no gramado. A torcida alvinegra gritava “senta para não levar mais”.

· Mania de grandeza, discurso sem nexo e confusão entre fantasia e realidade são as principais manifestações psiquiátricas da doença também conhecida neurossifilis ou sífilis terciária, a PGP é uma manifestação tardia da doença que paralisou cada órgão do ex-atleta.

· Aos trinta 38 anos, Heleno pesava pouco mais de 40 quilos, tinha o quadro mental de uma criança de 5, falecendo vítma da PGP – Paralisia Geral Progressiva.

Estatísticas:

Data de nascimento: 12/02/1920 / São João Neponucemo (MG)
Data falecimento: 08/11/1959 / Barbacena (MG)
Posição: Atacante

Clubes
1939-1948: Botafogo-RJ
1948-1949: Boca Juniors – Argentina
1949-1950: Vasco da Gama-RJ
1950: Atletico Barranquilla – Colômbia
1951: America-RJ

Títulos
Copa Roca: 1945
Copa Rio Branco: 1947
Carioca: 1949.

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Heleno – O Príncipe Maldito (Heleno. 2011)

Desprezando o tom clássico de uma biografia tradicional, José Henrique Fonseca criou um filme irretocável, quando optou por tratar da vida do jogador Heleno de Freitas realçando o lado cinematográfico da estória. Realçou o ídolo e mito enfatizando o lado perfeccionista do personagem que por vezes justifica sua arrogância e violência em limites extremos sem enfatizar sua origem nobre ou apelar sem critérios para o seu conhecido e voraz apetite sexual.

O trabalho extraordinário de Rodrigo Santoro, no melhor papel de sua carreira até então, ajuda a amalgamar talentos quem incluem um roteiro preciso recheado de diálogos e falas inteligentes, o elenco de qualidade, montagem e música (ópera e canções famosas) perfeitas além de uma maquiagem notável entre vários outros méritos na obra.

O resultado calcado na atmosfera glamorosa dos anos 40 é esplêndido, sobretudo por conta da acertada decisão de realizar a bela e delicada foto em preto e branco que valorizou o lado poético do personagem em closes impressionantes e sequências granuladas emocionantes, dentre os quais vale destacar a pungente discussão dos doentes no sanatório e a briga das crianças fãs na praia.

No final, o personagem precocemente devastado pelo éter e pela sífilis, mantem a altivez honrando o apelido de “Gilda”, uma alusão ao célebre papel sedutor de Rita Hayworth. Pelo menos no mundo do cinema, parece que em telas distintas e não menos clássicas, nunca haverá mesmo uma mulher como Gilda ou um homem como Heleno.

Carlos Henry

P.S.: Detesto futebol e não sou fã do Rodrigo Santoro.

Heleno – O Príncipe Maldito (Heleno. 2011). Brasil. Direção: José Henrique Fonseca. Elenco: Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Othon Bastos, Herson Capri, Angie Cepeda, Erom Cordeiro, Orã Figueiredo, Henrique Juliano, Duda Ribeiro. Roteiro: José Henrique Fonseca, Felipe Bragança, Fernando Castets. Fotografia: Walter Carvalho. Gênero: Biografia, Drama. Duração: 116 minutos. Inspirado no livro Nunca Houve um Homem como Heleno, do jornalista Marcos Eduardo Neves.

MALENA (MALÈNA. 2000)

Antes de assistir a esse filme, já tinha boas referências de seu diretor, o cineasta italiano Giuseppe Tornatore, que dirigiu o belo ‘Cinema Paradiso‘, um diretor que gosta de tocar as mais remotas emoções do público. Foi aí que cheguei à Malena.

Ambientado num vilarejo na Itália dos anos 40, um menino, em plena juventude, descobre os encantos e a beleza da jovem Malena, uma nova moradora da região, interpretada pela lindíssima atriz Monica Belucci. Tornatore nos remete aos desejos e devaneios de Renato, o garoto que vê em Malena uma mulher única e deslumbrante, que desperta os olhares dos homens do vilarejo e a inveja das mulheres casadas.

Muito interessante a questão da sexualidade proposta pelo diretor. Vemos um menino que busca sua auto-afirmação como homem, e suas fantasias e suas emoções de um garoto, que o fazem seguir sua “amada” por todos os lugares que ela vá.

Outro tema abordado é a questão da prostituição. Malena, após a suposta morte do marido no front de batalha na 2º Guerra Mundial, ela se vê sozinha e sem recursos para se manter, e se vê a aceitar comida em troca de favores sexuais aos oficiais nazistas (fazendo uma contundente alusão ao governo italiano que se alia aos alemães).

A sua “punição” e seu auge são os pontos máximos do filme, onde Tornatore nos inunda com todo o drama de sua personagem, e depois nos revela a imponência de uma mulher que dá o ar da graça de sua redenção.

Enfim, vale a pena conferir. Um filme com uma belíssima trilha sonora e belas imagens da Itália. Um filme que nos mostra até que ponto chega a questão do preconceito, da inveja, e dos pudores sexuais da época, além de uma bela e envolvente paixão platônica…

Por: Junior Silva. Do Blog: Caixa do Junior.

MALENA (MALÈNA). 2000. Itália. Direção e Roteiro: Giuseppe Tornatore. Elenco: Monica Bellucci, Giuseppe Sulfaro, Luciano Federico, Matilde Piana, Pietro Notarianni, Gaetano Aronica. Gênero: Comédia, Drama, Romance, Guerra. Duração: 92 minutos.

A Queda – As Últimas Horas De Hitler (Der Untergang. 2004)

O filme nos é contado por Traudl Junge (Alexandra Maria Lara). Ela era a secretária particular de Adolfo Hitler (Bruno Ganz). E narra os últimos dias desse ditador confinado num banker de segurança máxima.

Durante o filme fiquei me perguntando porque tantos seguiram um louco como ele. Dá para ver a personalidade desequilibrada do Hitler. Com um baita desvio de caráter. Claro que ele não foi o único monstro nessa história. Aqueles que fecharam as portas aos judeus, também o foram. E infelizmente, o ideal nazista, ainda se encontra e em vários países. Ele ainda tem fãs. Mas deixo uma ressalva aos mais jovens que apurem todos os fatos antes de embarcarem no pensamento nazista. Até porque o Holocausto figura sim nas páginas lamentáveis da História Real da Humanidade.

De tão absurdas que eram as suas leis que em uma das passagem chega a ser engraçada. É a cena do casamento dele com Eva Braun (Juliane Köhler). Com o juiz de paz perguntando a ele se era ariano. E um Oficial presente tentando dizer ao Juiz que ele estava diante do próprio Hitler, que para o ditador mor não há leis que o atinja.

Por outro lado um dos talentos de Hitler também é focado: sua excelente memória. Algo que também foi mencionado no filme “A Vida Secreta das Palavras“. Mostrando o quanto Hitler premeditou o extermínio aos judeus. E mais! Que muitos com o passar do tempo esqueceriam essa atrocidade.

Eu até gostaria de rever o filme para uma análise mais detalhada inclusive com as passagens dos seus oficiais. Mas confesso que no momento eu não tenho vontade de rever. É uma história real que enoja. Sendo assim peço que relevem esse texto que tirei da minha memória.

Eu não sei se a Traudl real quis ao contar essa história limpar um pouco a sua própria passagem. Mesmo sendo secretária particular onde há o peso da discrição… Creio que o querer saber o que se passava também conta. Mesmo sendo quem foi o seu chefe… o “o não ter visto” soa um tanto falso… De algum modo os reais fatos passavam por ela… Mas talvez tenha sido isso o fato dela ter ficado o tempo que ficou como secretária do Hitler. Mesmo assim… Uma lágrima teimou em cair, ao ouvir essa frase: “Que a juventude não é desculpa.” Assistindo, entenderão o porque!

É um filme que nos deixa sobre impacto! Sobre vários aspectos. E ele com certeza irá mexer com quem assistir. Quer seja por nos mostrar uma parte da História. Quer seja pelas interpretações! O ator que faz o Hitler, Bruno Ganz, merece muitos aplausos!

Por: Valéria Miguez (LELLA)

A Queda – As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang). Alemanha. 2004. Direção: Oliver Hirschbiegel. Elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Juliane Köhler. Gênero: Drama, Histórico, Guerra. Duração:156 minutos.