Madonna – MDNA TOUR in Rio (2012)

madonna-mdna-2012MDNA é o nome do último álbum de Madonna e também intitula a nona turnê mundial que ela traz ao Brasil. A referência às letras do pseudônimo de Marie Louise Ciccone pode ser facilmente confundida com o componente ativo da droga “ecstasy” que é o MDMA. Madonna nunca para de gerar polêmica. É disso que ela sobrevive. E também de muita competência e disciplina.

Ameaça de chuva, uma apresentação morna de DJs brasileiros e um longo atraso deixaram a multidão de quase 70 mil pessoas bastante impaciente. Pouco depois das 23h, a irritação no Parque dos Atletas (RJ) é magicamente dissipada com os primeiros acordes do canto gregoriano do grupo Kalakan que abre o maior espetáculo já produzido para um artista solo. Dava para sentir uma impressionante e rara qualidade de som ecoando no espaço aberto. O clima agora era de expectativa e festa.

MDNA TOUR 02dez12 the crossA ópera pop (formato de encenação com músicas e roteiro criado por Madonna nos anos 90 e vastamente copiado) começa com uma belíssima catedral esfumaçada projetada em altíssima definição e com a perspectiva cuidadosamente planejada dando uma ilusão estonteante da coisa real. O soar do sino e o balanço do imenso incensório espalhando a fumaça anuncia a jornada da escuridão para a luz. Uma verdadeira descida aos infernos de uma pecadora até alcançar a redenção. O canto religioso continua até Madonna partir o confessionário de vidro com um rifle e sair cantando “Girl Gone Wild” numa apresentação à altura da abertura grandiloquente com sua trupe de bailarinos exímios.

O show continua com “Revolver” e “Gang Bang” numa atuação violenta em cenário de hotel quando Madonna se “defende” de um dos dançarinos que invade o quarto numa briga violenta magnificamente coreografada que acaba em morte. Tarantino puro. Seguem a animadas “Papa Don’t Preach” e “Hung Up”. Entre interlúdios magníficos são exibidos trechos de sucessos antigos e imagens de outras épocas da cantora. Madonna aparece vestida como chefe de torcida (majorette), com bastão, pompoms, um grupo de “cheerleaders” e tudo para dar um recadinho debochado à suposta rival Lady Gaga quando canta “Express Yourself” mixada com “Born This Way” (acusada de plágio por ser muito parecida com a primeira) e seguida de “She’s not me”.

MDNA TOUR 02dez12 the son Rocco RitchieSem deixar a plateia esfriar em nenhum momento continua com a apresentação arrebatadora de “Give Me All Your Luvin”. Neste momento, uma banda flutuante vestida no mesmo estilo surge entre o cenário, marchando suspensa no ar tocando instrumentos de percussão enquanto a dança continua no palco numa composição inacreditável. A ótima “Turn up the Radio” é cantada com Madonna na guitarra e “Open your heart” conta com a participação tribal do trio Kalakan. Neste instante, o filho adolescente da estrela, Rocco Ritchie dança vigorosamente com ela remetendo a um dos clips mais bonitos já feitos.

A delicada balada “Masterpiece” é cantada com trechos no telão do filme “W.E.” que ela dirigiu e foi injustamente mal recebido pela crítica e público. Uma discreta seção erótica é iniciada com “Justify My Love” e “Vogue” com os seios da diva adornados com o famoso sutiã de cone da turnê de “Blond Ambition”, mas com cenas bem mais suaves do que outrora, condizentes com seus 54 anos (16//AGO/1958). Ela já é uma senhora, mas está em plena forma, bela como sempre e arrisca um discreto strip-tease após versões muito boas e sensuais de “Candy shop”, “Erótica” e “Human Nature”. Diria até que ela está cantando melhor que quando da última vez no Brasil em 2008. Sim, ela canta de verdade, entre espelhos que se movimentam no palco, removendo peças de roupa pela passarela em forma de “V” até dedicar a próxima canção a todas as “periguetes” do mundo. Trata-se de “Like a Virgin” cantada numa variação intimista ao piano enquanto ela revela a tatuagem de mentira nas costas: “PIRIGUETE” numa homenagem carinhosíssima à conhecida gíria brasileira. Descabelada e decomposta como uma dançarina de cabaré, Madonna termina o número pedindo dinheiro. Os súditos obedecem e ela recolhe, submissa, os dólares e reais jogados no chão após ter a cinturinha apertada com um colete por um bailarino sem camisa até ficar sem ar. A plateia também está sem fôlego quando o número termina com ela e o pianista sumindo no palco mágico.

MDNA TOUR 02dez12 the looksNo último bloco há uma assombrosa colagem de imagens fortes políticas do panorama atual ilustrando “Nobody Knows Me”. Destaque para os jovens mortos vítimas de “bullying” no telão com exibição de um esporte novo da moda, o “slackline” feito com malabarismos em cordas esticadas. Ela já havia lembrado ao público sobre a necessidade de mudança individual para a promoção da paz no mundo num belo discurso. Já vestida num deslumbrante modelo incrustado de cristais Swarovski, o espetáculo continua com as dançantes “I’m addicted” e “I’m Sinner” do último álbum enquanto surfistas de trem se equilibram em vagões que percorrem trilhos na Índia numa ilusão de movimento estonteante. O palco modifica-se com cubos coloridos em movimento e muitas luzes numa atmosfera feérica preparando-se para o grande final. O perdão da pecadora chega afinal através do emocionante coral de igreja entoando o sucesso “Like a Prayer” com a plateia inteira em uníssono. No ecoar dos sinos, Madonna retorna para fechar a megaprodução com “Celebration” mixada com trechos de outros hits numa grande festa com a trupe inteira.

E acabou! Nem adianta espernear! Como todos sabem, os shows da rainha são meticulosamente projetados sem espaço para o BIS. E precisa?

Carlos Henry.

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CURTA CINEMA 2012 RIO DE JANEIRO

Há um fantasma que assombra os festivais de curta-metragem no Brasil: É o terrível espírito do cinema experimental. Nada errado em querer inovar e parecer original na mostra competitiva, mas custa testar o produto de qualquer tentativa ousada, antes de brindar o público com toda a sorte de inovações pretensiosas que precisariam de um longo debate para serem desvendadas, se é que isso seria possível? Por que os novos cineastas não chamam a família e os amigos para uma sessão prévia e pedem uma opinião sincera que poderia mudar o curso de um produto final catastrófico?

Confesso que não vi muita coisa do festival, justamente por ser tão cansativo e desestimulante ter de enfrentar títulos tão pouco atraentes como “Tokyokoro”, “Kaatal”, “Shkurta” ou “Sendai” em estórias sem pé nem cabeça. Na tela, muita imagem distorcida, tremida, difusa e sem nenhum conteúdo aparente como um casal no pasto numa tomada longuíssima de caminhada, cada um com um animal, um beijo e depois o lento retorno. O que diabos o realizador quis dizer com isso?

Num outro curta de Portugal (Alvorada Vermelha – Red Dawn), cenas nauseabundas do mercado vermelho de Macau na China são misturadas com a aparição de uma espécie de sereia na água dos bichos. Assim enguias, peixes e animais abatidos e semimortos convivem com a etérea e estranha criatura aquática no meio do cotidiano sanguinolento da feira. Inacreditável! Nesta linha surreal, o nacional “Dizem que os Cães Veem Coisas” do Guto Parente tenta inovar na fotografia contrastante num evento esquisito na piscina, mas esqueceu de dizer a que veio.

No meio dessa verve pseudocriativa, sempre se salvam pérolas como o nacional “Animador” (Carny) em 35 mm de Cainan Baladez que embora também siga um traço nonsense, tem uma direção segura, um elenco afinado e uma estória atraente. Tudo se passa num parque de diversões (O Playcenter de São Paulo) onde é narrada a rotina de uma estranha funcionária do lugar que ganha a vida se vestindo de coelho. Com uma ideia bacana que renderia num roteiro mais apurado, o filme tem um humor peculiar e é realizado com profissionalismo surpreendente.

Do Egito, “41 Dias-41 Youm” (41 Days) de Ahmed Abdelaziz tem um ator mirim que é simplesmente irresistível na pele de um menino que é obrigado a cumprir um período de luto de morte na família justamente na época da Copa do Mundo. Ele simplesmente quer ver os jogos na televisão e a irmã quer dançar balé, práticas proibidas naquele momento pela severidade da religião muçulmana. As tentativas de burlar a vigilância da mãe austera criam momentos super-hilários que convergem num final feliz.

[Continua em “Amores Passageiros“.]

Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro 2012.

Por Carlos Henry.

TED (2012). Um ‘Calvin and Hobbes’ Às Avessas.

Senhores Pais, não levem seus filhos de 11 anos de idade para assistir um Filme Não Recomendado Para Menores de 16. Principalmente este, “TED“. Porque o Ursinho de Pelúcia em questão ganha maioridade, logo fazendo coisas impróprias para menores. Mais ainda! Agindo como um bad boy. E é aí que mora o perigo! Porque é muito divertido! Mesmo tendo ele e “seu dono” levando uma vida politicamente incorreta. Mas uma dupla de amigos inseparáveis!

Quando não se tem amigos reais, está dentro da normalidade de na infância ter um amiguinho invisível. Ou mesmo que ele se “materialize” num bichinho de pelúcia onde o tête-à-tête fique dentro da mente da própria criança. Agora, quando há de fato um diálogo entre dois, mesmo sendo um deles um boneco com vida própria, perdurando até a fase adulta, há o que pensar! Mas não é como em “Uma Mente Brilhante“, pois aí todas as demais pessoas também seriam esquizofrênicas. Eu creio que a mensagem do filme não seria essa. Ou seria!? Já que atualmente há um mundo em outra dimensão tão hipnótico, que mesmo metaforicamente, é como se existisse vida num mundo invisível. Um mundo meio imaginário onde cada um pode ser o que quiser. Seja pela internet, ou até pelos inúmeros e variadíssimos reality shows na televisão. Logo, o ursinho de pelúcia “Ted” ter uma vida real não é tão surreal assim. Mesmo ele ganhando o aval de ser um milagre do Natal, podemos pensar que os ipods, netbook não deixam de ser o bicho de pelúcia da infância.

O solitário e pequeno John (Bretton Manley) amou tanto esse novo amigo, que juntos fizeram um pacto de nunca se separarem. Ted dava asas a imaginação dele, só que extrapolando. Perto de Ted, John era um eterno menino, num mundo de heróis e vilões, como também dos que se consideravam “amigos” de Celebridades. O que para John era o combustível para continuar levando a vida sem muitas responsabilidades. Acontece que John cresceu e… Pode-se também pensar que John – vivido na fase adulta por Mark Wahlberg -, tenha a síndrome de Peter Pan. Mas por um olhar mais romãntico eu diria que ele seria um fã de “Calvin and Hobbes” e quis ter, levar uma vida parecida. Mas Ted não é o Haroldo. Ted foi picado pela mosquinha da fama. Virou uma Celebridade. Mas num mundo onde a novidade é bem efêmera. Onde alguém de “personagem única” acaba não chamando mais a atenção da grande maioria.

Ou a pessoa se adequa a essa nova realidade, ou cairá no esquecimento geral, isso se realmente quer continuar nesse mundo do faz de conta. Um filme que aborda o se projetar num mundo de fama, mas num viés dramático é “Réquiem Para Um Sonho“. Mostrar ao mundo uma falsa realidade. E as fantasias de cada um pode levar alguém a querer e muito a fama do outro. Onde mais do que ter algo dessa celebridade, vai no desejo de tê-lo por inteiro. O que o leva a chamar a atenção desse alguém muito frustado por não ter conseguido nem os “15 minutos de Fama” por méritos próprios. O que leva Ted a correr o risco de ser pego por esse sociapata da era midiática. Um personagem que caiu como luva para Giovanni Ribisi. Ele está ótimo!

Acontece que nesse pequeno Clube do Bolinha de John e Ted tem uma Luzinha querendo entrar, ou se encaixar. Ela é Lori (Mila Kunis), que vai tentar com que John amadureça. Mesmo que para isso a única opção seja tirar Ted da vida de John. Mas aí não seria ela a nova “dona” do John? Querendo ter uma vida previsível. Não vendo que algo absurdo pode ser o começo de uma vida sem script.

Ponto negativo: Confesso que algumas vezes eu pensei em Jason Bateman para fazer o John. Pois Mark Wahlberg ficou meio travado nessa comédia escrachada. Sendo ele salvo pela atuação da Mila Kunis, de Ted e do filme por um todo.

No mais, o filme surpreende até por nos levar atentos até o final. Muito divertido! Onde Ted quase no finalzinho nos leva a uma gargalhada que deixa o sorriso na face muito depois do término do filme. E bem do jeito dele, ou seja: politicamente incorreto. Trilha Sonora ótima! Com algumas participações especiais, como Norah Jones. Um filme que deixou vontade de rever!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Ted (2012). EUA. Direção e Roteiro: Seth MacFarlane. Elenco: Mark Wahlberg, Mila Kunis, Seth MacFarlane (Ted), Joel McHale, Giovanni Ribisi, Patrick Warburton, Matt Walsh, Jessica Barth. Gênero: Comédia, Fantasia. Duração: 106 minutos.