Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte final

california-2015_de-marina-personPor: Carlos Henry.
CALIFÓRNIA de Marina Person pode ser considerada uma comédia de adolescentes. E das boas, por conta de um afinado elenco juvenil embalado por deliciosos hits (David Bowie, New Order e muitos nacionais, todos muito bem inseridos nas cenas, especialmente o final com “The Caterpillar” do The Cure.) dos anos 80 quando a ação se desenrola. Estela (Clara Gallo) vive sua difícil passagem pela puberdade ancorada na figura de seu idolatrado tio Carlos (Caio Blat, perfeito no papel) que vive na Califórnia e exerce influência mágica na menina criada por pais caretas. Os planos de conhecerem juntos o badalado estado americano são interrompidos pela volta inesperada de Carlos ao Brasil que chega magro e debilitado por conta de uma terrível e ainda desconhecida doença que começava a se espalhar pelo mundo naquela época. O engenhoso roteiro insere o complexo personagem de Caio Horowicz no momento certo. Ele é o menino mais estranho da escola. Sua posição de bissexual avançado irá amedrontar e fascinar a menina afligida pelos hormônios da idade, mas cercada de justificados preconceitos. “Se você for gay, você vai pegar Aids!” adverte Estela ao novo pretendente, ignorante como a maioria da população diante de uma praga nova e misteriosa. Apesar do que é abordado, o tom do filme é leve, ameno e muito divertido em sua maior parte, especialmente por conta do elenco de meninas e da pequena, mas sempre preciosa participação de Gilda (Trabalhar Cansa) Nomacce como uma empregada afeita a simpatias mágicas.

E aproveitei os intervalos do Festival e as férias para apreciar o que estava no circuito.

perdido-em-marte_2015O diretor Ridley Scott continua desapontando. Seu último longa PERDIDO EM MARTE (The Martian) é uma ficção científica apática e excessivamente técnica que poderia interessar somente aos aspirantes a astronautas. O personagem de Matt Damon é considerado morto numa missão em marte e deixado abandonado no planeta inóspito. O que deveria ser uma situação tensa acaba virando plataforma para uma série de piadas nem tão engraçadas. A trilha sonora calcada em hits da Disco Music seria um (forçado) atrativo à parte, não fosse detonada o tempo todo como se fosse mau gosto apreciar aquele gênero de música. Descartável.

a-travessia_2015A TRAVESSIA (The Walk) de Robert Zemeckis assombra com imagens estonteantes em 3D na tela gigante do Imax para contar a história verdadeira do Francês Philippe Petit que decide atravessar através de um cabo de aço as célebres torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque pouco antes de serem concluídas as obras finais nos anos 70. Não aconselhável para quem sofre de vertigem. Philippe sofreu pena leve pela inesquecível façanha ilegal e acabou ganhando passe livre para o terraço de observação da torre. O passe teve sua data de validação alterada de um dia definido para duração indeterminada. Infelizmente o trágico curso da história não permitiu que o célebre equilibrista usufruísse da regalia para sempre.

love-3d_filmeLOVE 3D do cultuado diretor do chocante “IrreversívelGaspar Noe é uma grata surpresa. Execrado pelos exibidores ultraconservadores deste país de mente curta, é ao contrario do que possa parecer é um filme de muita qualidade. Narra a obsessão sexual de um homem casado pela jovem Electra, uma antiga namorada que desaparece sem deixar vestígios. A paixão doentia confundida com amor esgota o rapaz física e mentalmente vista em notáveis mudanças ao longo da narrativa. Como é que a esta altura do campeonato, em pleno século vinte e um, numa terra infestada de sujeira, miséria e corrupção, alguém por aqui pode ousar se indignar com um punhado de cenas de sexo explícito (Penetração do ponto de vista do interior da vagina e um orgasmo masculino em direção à tela são as cenas mais comentadas) totalmente inseridas no contexto de um roteiro bem elaborado? A pornografia está nos jornais que hoje em dia não têm censura.

A-Colina-EscarlateA COLINA ESCARLATE de Guillermo del Toro é a grande decepção que fecha o festival. Tantos clichês que talvez funcionassem numa paródia de Mel Brooks – Arranca risos da plateia com a suposta intenção de assustar lançando mão de fantasmas toscos, gráficos e falsos, rangidos e “sustinhos” para lá de batidos. A-velha-perversa-do-retrato-que deve-esconder-um-segredo, O-jovem-que-divide-um-terrível-mistério-com-a-irmã-estranhíssima e a-menina-idiota-que-vai-morar-na-mansão assombrada-apesar-dos-avisos-da-mãe-morta são algumas das sandices óbvias do inacreditável roteiro. Como é que a talentosa Mia (Amantes Eternos) Wasikowska foi se embrenhar nesta patuscada? E o Senhor Del Toro que já realizou obras-primas como “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo” também perdeu a mão? Assustadoramente ruim. Como dizia um crítico que tinha um programa sobre cinema na TV nos anos 70: Fujam do cinema que estiver “levando”!

[Continuação daqui.]

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Cinema em 3D. Estão esquecendo de um grande detalhe…

avanco-em-oculos-3DAqui o assunto será mesmo sobre o Cinema em 3D: Filmes e Salas. Em destaque as Salas onde não tem como passar esse tipo de filmes, mas assim mesmo exibem filmes com essa tecnologia. Em específico sobre as Salas IMAX, o Evandro escreveu um texto delicioso de ser lido, esse: IMAX Fundo do Mar 3D. Além de uma tecnologia diferente, as Salas IMAX ainda são em um número bem menor no Brasil. Agora, voltando aos 3D…

Mesmo tendo alguns filmes em 3D produzidos bem antes, o boom do Cinema em 3D foi na Década de 50. Uma projeção onde a visão reproduzida aparentava estar em formato de relevo. Mas esse jeito não persistiu por muito tempo. O porque ao certo, não sei. Há muito poucos dados sobre esse início. Numa pesquisa que fiz para colher dados para esse artigo o que achei foi numa página em inglês. E o mais curioso era a fonte: o Guinness Book. Ficando uma pergunta se deram pouca importância a essa tecnologia, ou até por não ter atraído muito o público depois disso. Quem sabe com o novo boom do momento apareçam mais estudos sobre o Cinema em 3D.

Cronologia da História do Cinema em 3DCom o avanço dessa tecnologia, inclusive nos óculos, os filmes em 3D voltaram à cena. Mas ainda faltava mais. James Cameron esperou por mais de uma década para só então filmar ‘Avatar‘. Por querer usufruir de todo avanço. E fez bem! Pois o filme Avatar fica como marca na História do Cinema em 3D. Mesmo os que não gostaram desse filme terão que concordar com esse fato. Com esse feito desse Diretor. Fiz um gráfico para ilustrar essa trajetória.

Eu fiquei encantada com o ‘Avatar’ em 3D! Por um tipo de campanha viral* na Blogosfera eu ganhei um Dvd desse filme. Chegando na minha casa fui correndo rever o filme. Parando nas cenas onde me lembrava do 3D. Uma em específica por ter sido a única que me “assustou”… E vi que nesse filme a Fotografia não perdeu em nada na nitidez e nem na minha televisão que nem HD é.

nitidezFiz isso até para tirar uma dúvida. Tudo por conta de outro filme. Talvez a Sala de Cinema onde vi o tal filme tenha sido a grande vilã dessa história. Fora algo que me irritou quase a ponto de sair do Cinema. O filme foi ‘Como treinar o seu dragão‘. Numa Sala comum exibiram uma versão em 3D. Ficando tudo esbranquiçado ao fundo, só destacando algo no meio… e em várias cenas. A colagem que fiz com o dragão ilustra um pouco o que estou contando. Na segunda foto mostra como fica a cena do 3D numa Sala comum: perde a nitidez. Acontece que até para ir num Cinema mais próximo onde de onde eu moro eu gasto também com o táxi, e não é por frescura, mas sim porque sou cadeirante. Sendo assim pelo menos quero ver num filme uma ótima Fotografia. Uma boa imagem eu até aceito. Mas uma péssima me leva a odiar essa “febre 3D”.

Pelo jeito os Produtores, ou mesmo os donos das Salas, não estão nem ai para esse detalhe importante.

Numa comparação seria assistir um show de um excelente cantor, num acústico – no gogó e acompanhado de um violão, por exemplo -, ou ouvi-lo num grande e potente show. A essência dele – voz, letra, melodia -, está nas duas apresentações. O que muda, é o espírito de quem vai assisti-lo em cada um dos shows: se quer algo mais intimista ou não. E que o mesmo não aconteceria num cantor de playback. Pois não saberia cantar, e encantar, num ao vivo. Ou até que poderia ser ouvido em casa mesmo.

É meio por ai para diferenciar os filmes em 3D. Não apenas os bons dos ruins. Dos que o 3D entrou de fato como um Coadjuvante, daqueles que estão mesmo aproveitando do 3D como caça-níqueis. Como disse antes até a ida ao Cinema tem um custo, como também o preço do ingresso. Se a Sala não tem a tecnologia para exibir um em 3D que projete um sem essa tecnologia. E quem não tem a competência para fazer um nos moldes do que Cameron fez com “Avatar”, deveria pelo menos fazer o filme em duas versões. O público merece esse respeito. Ou eu é que teria ficado mal acostumada com a qualidade do 3D no filme do James Cameron. Eu até tentarei ir com mais complacência nos próximos em 3D. Mas por favor! Respeitem também o meu bolso.

E vocês, o que teriam a dizer do Cinema em 3D?

p.s: (*) A tal Campanha partiu da iChimps. E me escolheram pela segunda vez. Grata! E fica aqui o registro de que são profissionais de markenting confiáveis. Espero continuar sendo escolhidas nas próximas Campanhas.

Por: Valéria Miguez (LELLA), em 13/10/2010.

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte II

festival-do-rio-2013A GAROTA DAS NOVE PERUCAS (Heute Bin Ich Blond) de Marc Rothemund tem um tema forte. Uma menina cheia de vida que de repente enfrenta um câncer devastador. Quando começa a perder cabelos por conta do tratamento, decide comprar várias perucas e assumir diversas personalidades. O humor e a criatividade da jovem ajudam a combater a doença. Um tema comum numa ótica alemã bem diferente, cheia de talentos e sem os excessos de dramaticidade comuns a Hollywood.

TATUAGEM é uma pérola hedonista de Hilton Lacerda. Ambientado numa periferia nordestina no final da ditadura no Brasil (1978) traça um retrato pouco visto da época já exaustivamente focada no eixo Rio/São Paulo. Ao sair dessa zona urbana conhecida, o filme ganha um colorido único com números musicais poderosos e sequências geniais amparadas por um roteiro preciso e um elenco vigoroso onde todos se destacam. Clécio (O excelente Irandhir Santos) quer montar um show ousado num cabaré decadente com o nome de chão de estrelas e se apaixona por um menino soldado cujo apelido é Fininha (Jesuita Barbosa). A paixão resulta num aparente contraste entre a resistência burlesco-nordestina e a severidade militar. Não tarda para que a trupe comece a se rebelar contra a aparente ameaça. O extravagante Paulete (Rodrigo Garcia numa composição inspiradíssima) está à frente dessa pacífica oposição. O que mais funciona no filme é a ausência de falsos pudores nos diálogos e especialmente nas cenas de sexo. O primeiro encontro de Clécio e Fininha é um primor de erotismo precedido de uma arquitetura de sedução notável, bem como o assédio sexual no quartel militar. Destacam-se também os curiosos relatos populares ligados ao pecado como o bebê que nasce sem cabeça ou o burburinho causado pela liberação de obras proibidas como “A Laranja Mecânica” de Kubrick com as famosas bolinhas pretas censurando a nudez frontal dos atores. Tudo costurado com primor e talento formando um espetáculo único e inesquecível que volta a orgulhar o cinema nacional ultimamente estremecido com produções grosseiras de bilheteria fácil. Salve o nordeste!

BEHIND THE CANDELABRA foi concebido para ser exibido na tela grande, daí a qualidade em todos os quesitos da produção. No entanto, o diretor Steven Soderbergh teve de se contentar em vender os direitos para a televisão por conta da temática gay exagerada. Como conseguir conter um personagem como o músico Liberace que exalava excentricidade por todos os poros? Liberace já era famoso e tinha quase 60 anos quando conheceu o adolescente Scott Thorson que se tornou seu amante por muitos anos. Os dois são vividos magistralmente por Michael Douglas e Matt Damon que travam batalhas verbais elaboradas numa estória muito bem roteirizada. Mas o ponto alto é para a maquiagem que transforma Damon de menino a adulto, Michael num velho afetado que definha com uma doença mortal e Rob Lowe em um cirurgião plástico hilário e deformado que certamente é um dos pontos altos de sua carreira. Vai passar na HBO. Vale a pena ser visto.

SHAMPOO um filme de Hal Ashby datado de 1975 provou que perdeu força ao longo do tempo. Exibido em película riscada, com a cor adulterada e o som distorcido, mostra os então jovens Warrem Beaty e Goldie Hawn numa comédia de difícil digestão com drama demais inserida no roteiro para ser engraçado. Tudo gira em torno do cabeleireiro George, que aproveita da fama homossexual que a profissão lhe conferia na época para se envolver com todas as mulheres que se aproximavam. O atrativo maior da sessão seria a presença da estrela Goldie Hawn que simplesmente não apareceu.

GRAVIDADE (Gravity) de Affonso Cuarón apesar de incursões mais profundas inseridas nos (bons) diálogos deve ser encarada como puro entretenimento. Diversão do tipo montanha-russa mesmo com muita aflição. A sensação conferida com o 3D e o Imax  é de queda livre e afogamento. Tudo se passa no espaço dividido pela engenheira Ryan e pelo astronauta Matt numa missão delicada quando são atacados por uma chuva de meteoros que os deixam flutuando à deriva sem contato com a Terra. George Clooney está perfeito como sempre, mas o filme é de Sandra Bullock que imprime terror e coragem assombrosos em cada fotograma onde aparece lutando pela vida. Hollywood continua a fazer filmes extraordinários.

GATA VELHA AINDA MIA de Rafael Primot teve sessão de gala no Odeon com a presença das estrelas Regina Duarte e Barbara Paz. Regina é Gloria Polk, uma escritora solitária que já teve seus dias de Glória e é entrevistada por uma jovem jornalista (Paz) num embate furioso regado à inveja e amargura. Ainda que com deslizes no roteiro, o filme mantém interesse por conta dos diálogos cáusticos e da força das atrizes, ganhando um diferencial no epílogo surpreendente, quase noir com toques de terror para acabar derrapando um pouco no desfecho um tanto mal solucionado. De qualquer modo, vale conferir nem que seja para observar a estranha composição de Gilda Nomacce no papel da intrometida vizinha Dida. Gilda já havia feito outro filme exótico e excelente, o cultuado “Trabalhar Cansa”.

GIGOLÔ AMERICANO (American Gigolo) teve apresentação em película no CCBB o que é sempre uma boa experiência apesar do desgaste do tempo. O próprio diretor Paul Schrader estava presente na projeção desbotada e riscada de sua obra de 1980. Richard Gere brilha no auge de sua beleza, numa trama quase ingênua para os dias de hoje, vivendo um prostituto de luxo envolvido num crime. O talentoso Giorgio Moroder faz a música no mais fraco dos seus trabalhos para o cinema e Armani assina os figurinos que marcam época. Schrader afirmou na conversa após a sessão que não faria o filme hoje com o conteúdo homofóbico daquela versão que coloca gays como vilões inescrupulosos e o personagem de Gere imitando gratuitamente um homossexual. Cita a boate The Probe mostrada no filme como um cenário estereotipado e underground. No entanto era um lugar freqüentado por todos, inclusive por ele na época. Revela, afirmando não ter preconceitos.

festival-do-rio-2013_03O LOBO ATRÁS DA PORTA pode ser considerado um thriller. Baseia-se no caso conhecido como “A Fera da Penha” que chocou o Rio na década de 60. Extremamente bem conduzido por Fernando Coimbra, o longa conta com um elenco de grandes nomes como Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabíula Nascimento nos papéis principais, bem como participações muito especiais de Juliano Cazarré e Thalita Carauta (A Janete de Zorra Total num papel parecido com o trabalho que vem fazendo, mas com o sabor de cinema). Tudo começa com o desaparecimento de uma criança. Os pais da menina são chamados à delegacia e Rosa, a amante do pai, é a principal suspeita do sequestro. Nesta versão, o macabro acontecimento continua a acontecer no subúrbio do Rio, embora se desloque um pouco da Penha para Oswaldo Cruz e tem a época atualizada para o tempo corrente, o que lhe confere um distanciamento perfeito para manipular com a suposta obscuridade psicológica de cada personagem sem a preocupação da exatidão e fidelidade dos fatos. O resultado é um grande filme.

O ABC DA MORTE (The Abcs of Death) como quase todo filme com muitos diretores não é um filme regular. No caso, a situação se agrava por conta de reunir diretores de diversas partes do mundo para contar o tema macabro através do alfabeto. No entanto, há momentos muito originais e até geniais no meio de uma sucessão de escatologia e terror gore. Digamos que muitas letras se salvam.

Monty Python: A Autobiografia de um Mentiroso (The Untrue Story of Monty Python’s Graham Chapman. 2012)

Festival do Rio 2012 e um dos filmes assistidos: Monty Python: A Autobiografia de um Mentiroso

As chamadas para comemorar mais um Festival de Cinema do Rio 2012, soa bonito e charmoso: “Rio de Janeiro é a capital do cinema… Acorde o cinéfilo que há em você!”. Uma invasão cinematográfica, pacífica, celebrando a parceria entre a Cidade Maravilhosa e Londres, iniciada com a passagem da tocha olímpica de lá para cá. A operação ganhou o nome de Foco Reino Unido e o palco das ações é o Festival do Rio 2012. Os homenageados são Alfred Hitchcock, James Bond…Homenageando também Alberto Cavalcanti, o primeiro cineasta brasileiro a fazer carreira internacional. Bravo!Na minha programação não poderia faltar Monty Python, claro! O filme Monty Python: A Autobiografia de um Mentiroso levou muitos de seus fãs à sala escura. Sessão esgotada. Enredo formidável!

A história alterna gravações feitas pelo falecido Graham Chapman, com trechos de filmes antigos do grupo, mesclando muitos símbolos e metáforas visuais com irreverência e bons momentos de risadas nos episódios destacados e bem escolhidos para compor sua “biografia” representando as memórias deste ícone do humor inglês.

Uma ótima ideia, por sinal, mas não feita para agradar a todos pelo tipo de humor em estado bruto, nonsense, que às vezes peca pelo excesso. Muito bem produzido, passando pela escolha do formato em esquetes, uma total identificação com o biografado, investindo em vários estilos de animação, do mais pueril ao mais rebuscado, mesclados por transições para dar continuidade aos episódios escolhidos da “Vida de Brian”. Algumas partes, concordo, poderiam ter sido suprimidas ou compactadas e, assim, atrairia novos olhares, outros admiradores, quem sabe…

Alguém no cinema argumentou que faltou algo. E lhe responderam num tom de brincadeira que o falecido não compareceria àquela sessão porque no momento estava muitíssimo ocupado. E surgiram outros comentários até de que poderiam reeditar certas passagens, enxugar e fazer novos arremates entre uma composição final e início de outra história. Mas para quê tanta perfeição, exigir tanto do grupo humorístico excêntrico por excelência? Um ajuste mínimo na edição entre o final de uma animação e o começo de outra? Poderia mutilar a obra, perderia sua essência.

Recheado de ótimos diálogos, piadas refinadas, requintadas e também insossas!?! E o obvio! Como assim? Só mesmo Monty Python, pra variar – faz parte – desta vez e sempre. Inegavelmente uma grande produção, que apesar da composição tratar de trechos isolados, perdeu-se num determinado momento o fio da meada, perdendo, assim, a grande chance de ser um dos aclamados deste festival.

Com três diretores e envolvendo quinze diferentes estúdios que produziram dezessete estilos de animação para representar as memórias e mentiras de Graham, mas que, lamentavelmente, alguns fãs torceram o nariz comentando, ao término da sessão que Chapman não merecia essa “homenagem”. Perfeito! Seria estranho se agradasse a todos, não acha?

Uma das brincadeiras feitas por um dos diretores presentes no lançamento do longa foi o ponto alto da noite, muito válido e criativo ao apresentar para o público a sepultura do Graham com os seguintes dizeres numa placa: “Desculpem, não poderei estar à noite com vocês”. Final emocionante e ousado. Aplausos!

E os anfitriões encerraram citando Alberto Cavalcanti como cidadão inglês. Detalhe: este genial diretor é muito mais que isso: Ele é brasileiro e cineasta do mundo. Seria trágico se não fosse cômico. Fãs do diretor brasileiro não ficaram bravos. Bravo!
Karenina Rostov

Nota 9,0.*

Monty Python: A Autobiografia de um Mentiroso (A Liar’s Autobiography – The Untrue Story of Monty Python’s Graham Chapman, Reino Unido, 2012). Dirigido por Bill Jones, Jeff Simpson, Ben Timlett. Com as vozes de Graham Chapman, John Cleese, Terry Jones, Terry Gilliam, Michael Palin, Carol Cleveland e Cameron Diaz.

PINA + Wim Wenders + um 3D Mágico = O Nascimento de um Clássico.

Tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. É aí que entra a dança.” (Pina Bausch)

Como tinha referências para assistir Pina” em 3D, é por esse fator que inicio. Pelo lindo cartaz ficava a ideia de que o uso dessa tecnologia ficaria no efeito de respingos de água na platéia. Algo por aí. Mas Wim Wenders foi muito além, e brilhantemente! Desde 2009, com o sucesso de bilheteria de “Avatar”, houve uma febre de 3D, mas pouquíssimos filmes usaram esse recurso a ponto de valer a pena. Até a presente data, para mim, “Pina” é o quarto filme a usar com inteligência o 3D; os demais foram: “Avatar“, a Animação “A Lenda dos Guardiões” e “A Invenção de Hugo Cabret“. Em “Pina” Wim Wenders usou o recurso colocando o espectador num lugar privilegiado num espetáculo de Dança. A teatralização de um evento desse porte, com o 3D deixa a impressão de estar ao vivo assistindo a um Balé Moderno. E realmente como se ficássemos num lugar mágico. Ora vendo de pertinho o suor no corpo do bailarino, ora sentido a força para dar a leveza ao movimento… A magia do 3D em “Pina” inicia com um convite para adentrar nessa Companhia de Balé Moderno, e de emocionar! Contar o que é, seria um spoiler que lhes tiraria a surpresa nesse encantamento. Bravo Wim Wenders! O 3D fez mesmo a diferença!

Conhecer Pina foi como encontrar uma linguagem antes de aprender a falar. Assim ela me deu um modo de me expressar. Um vocabulário.”

O Documentário “Pina” conta de maneira ímpar parte da carreira profissional de Pina Bausch. Coreógrafa, dançarina, Pedagoga de dança e diretora de balé em um Teatro na Alemanha, o Tanztheater Wuppertal – que depois foi acrescido: Pina Bausch. E é justamente com essa sua Companhia que ficamos conhecendo Pina, a profissional e um pouco do lado pessoal, pelos depoimentos dos bailarinos. Cenas que me emocionou também!

O ballet clássico é para jovens. O que mais me fascina na dança contemporânea é a possibilidade de interpretar a nossa própria idade“. (Mikhail Baryshnikov)

“Pina” me fez lembrar de alguns filmes. Sendo que dois deles por também terem usado a dança como linguagem. Um, foi “Fantasia”, da Disney. E quando eu vi a cena com o hipopótamo, sorrindo pensei: “Minha intuição estava certa!” O outro foi um que revi há pouco tempo, o “O Sol da Meia-Noite“, onde a dança moderna também é um coadjuvante de peso. Mas mais em cima de que tanto o personagem, quanto o bailarino Baryshnikov foi em busca: de uma dança que não ficasse presa a um corpo jovem. Claro que em “Pina” o fato de trazer também os dançarinos com mais idade teve o peso da homenagem. Mas numa atualidade onde a efemeridade nos leva quase a perder o bonde da História, é aplaudir como Wim Wenders conduz todos eles para contar essa história. Aqueles que conviveram por mais tempo com Pina, mostraram com a marca do tempo, que a dança fala por si só. Que a linguagem corporal transcende, já que ela vem de dentro.

O mais ínfimo detalhe importa. É tudo uma linguagem que você pode aprender a ler.”

Mesmo para mim que não conhecia a sua arte me vi envolvida com todas as coreografias. Claro que sendo uma Dança se pensa logo numa música como mestre de cerimônia, mas aqui não, ela vem com um coadjuvante que até pode ser trocadas, receber outras músicas do país de origem do dançarinos. A Trilha Sonora é formidável! De em certos momentos querer seguir o ritmo. Em sorrir ao ouvir “Leãozinho” do Caetano Veloso. De ficar com lágrimas na coreografia da jovem com o rosto de batom. De bailar discretamente com o som caribenho. E um solo me fez pensar no filme “O Artista“. Vendo o filme identificarão a cena. Ela é ótima!

“Eu não investigo como as pessoas se movem, mas o que as move.” (Pina Bausch)

As coreografias de Pina Bausch fazem uma junção de Dança e Teatro, onde os poucos objetos cênicos usados fazem frente ao corpo de baile. Os levando a se conhecerem, a vencerem seus receios, a extrairem de si a força do sentimento. E em várias escalas: da solidão à alegria num encontro entre amigos, permeando com os relacionamentos a dois. Pina também usa elementos naturais como a terra e a água, ou como um grande granito. Natureza bruta que entra em comunhão com a natureza crua do dançarino. O 3D nos leva a sentir a pulsão desse, e nesse enlace. Realmente esplêndido!

O Documentário “Pina” já nasceu um Clássico. Que por conta disso deveria ser visto por muito. Por outro lado, pela temática muitos não irão apreciar. Como o senhor no meu lado que bocejou várias vezes a ponto de me fazer dar um grande bocejo, mas que me fez foi não ficar mais suscetível a ele. Como uma barreira invisível entre nós dois. Dai em diante foquei somente no filme. Vale a pena ir assistir em 3D! E que me deixou vontade de rever. Mas ai seria sem o 3D mesmo já que quem distribuiu o filme no Rio de Janeiro resolveu elitizar exibindo em um ponto nobre de Cinema. Já numa 4ª semana: sala lotada. Creio que o mesmo se daria em outros bairros.

Wim Wenders diz que a Pina gostava também de incorporar elementos externos e pertencentes aos locais em suas coreografias. Assim não sei se foi proposital, ou mesmo se foi para incorporar um merchan no Documentário. Porque uma coreografia num entrocamento ficou irresistível não olhar para uma placa enorme do MacDonald’s ao fundo. O que me fez lembrar da faixa da Coca-Cola em “Adeus, Lênin!“. Como também, caso não tenha sido por merchan, qual seria o significado de um símbolo de Fast Food no contexto da tal dança?

Então é isso! Pode ser que outros mais também irão trazer outras Danças, Balés Clássicos em 3D, mas os créditos serão para Wim Wenders: o pai dessa ideia sensacional. E quem sabe num futuro barateando as televisões com 3D, muitos mais terão acesso a filmes como esse. Porque o 3D caiu como luva para esse tipo de espetáculo. Assistam e comprovem. Até porque gostando ou não de Dança Contemporânea, ao se darem essa chance verão um Clássico. De tudo, não sairão indiferentes.
Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Hugo (2011) + Scorsese + Uso Inteligente do 3D = Obra-Prima!

Mesmo já tão decantado em versos e prosa – e com todo mérito -, mesmo com um certo atraso, eu não poderia deixar de registrar a minha impressão desse filme. Até por conta das referências de eu ir assistir numa Sala em 3D. Então fui conferir, e…

Depois do sucesso de bilheteria de “Avatar“, de James Cameron, vulgarizaram tanto o 3D atrás de rendas grandiosas, que talvez seja esse o motivo que tal feito no filme de Martin Scorsese não tenha se repetido. Pelo menos em relação ao Oscar 2012 lhe fizeram justiça. Mas faltou o de Melhor Diretor. Pela grandiosidade do uso da tecnologia do 3D. Como também por nos manter atentos por duas horas de filme. É uma pena que o grande público não pode absorver a belíssima história contada por Martin Scorsese. E quem assistiu “A Invenção de Hugo Cabret” numa Sala em 3D, com certeza ficou com vontade de aplaudir ao final do filme.

Já ciente de que o filme seria longo, mas também de que era muito bom, arrisquei e levei, junto comigo para assistir, três “termômetros”: um adulto que gosta muito mais do Gênero Comédia, um adolescente o qual desconheço o gosto, e uma criança que iria ver seu primeiro 3D. Minha dúvida recaiu-se nesse, até pela duração do filme. De início ele ficou encantado com essa tecnologia; naquela de até querer tocar na imagem. Mas lá pela metade do filme resolveu explorar a Sala de Cinema. Como fez isso em silêncio, como também não tinham nem umas vinte pessoas, relaxei e voltei de todo minha atenção ao filme, mas ainda a tempo de ver três mulheres saindo da Sala. Cheguei a pensar se teria sido por algo que comeram antes da sessão. Mas enfim, voltei ao filme.

O talento para algo pode ser genético. Faltando a um adulto mais próximo mostrar a chave para que o jovem a descubra, por vezes ainda na infância. Mas a vida traçou uma linha torta para Hugo Cabret (Asa Butterfield). Lhe tirando seu bem mais precioso: seu pai. Uma pequena grande participação de Jude Law. Viviam felizes os dois entre responsabilidades, estudos de forma prazeirosa, e muita diversão. Fora o seu pai que despertou nele a paixão por Cinema. Mas um incêndio leva o seu pai. Então seu tio Claude (Ray Winstone) se torna o responsável levando-o para morar com ele. E Hugo leva algo que ele e o pai vinham consertando nas horas vagas: um autômato encontrado num museu. Assim, era como ter o pai junto a si. Aplausos para Asa Butterfield!

Sem o coração, não pode haver entendimento entre a mão e o cérebro”.

Claude morava numa Estação de Trem, em Paris. Era ele quem fazia a manutenção dos relógios. Ensinando o seu ofício ao menino. Beberrão, a vinda do menino lhe daria mais folga não apenas para beber, mas também para sair daquelas cercanias. Para Hugo, todo aquele mundo que via através dos grandes relógios ajudou a amenizar a dor pela perda do pai. E aprendendo a consertar relógio, lhe deu um caminho para a tal engenhoca. Mantendo os relógios pontuais, ambos se tornavam invisíveis aos olhos de todos.

O vai e vem diário dos passageiros, assim como dos trabalhadores e frequentadores das lojas na Estação de Trem, era para Hugo como a tela de um filme. Dos seus pontos de observação, ele já conhecia os hábitos de todos. Por caminhos internos, de desconhecimento geral, Hugo ia de um ponto a outro. Sempre a observar. Sonhando em voltar a sentir o calor e carinho de uma família. Até esse dia chegar, ia vivendo uma aventura solitária. Mas com o relapso tio, para não passar fome, se via obrigado a roubar pães, frutas, leite… Sendo que para isso teria que se fazer de fato invisível aos olhos do Inspetor da Estação. Personagem de Sacha Baron Cohen. Que está formidável!

Se você já se perguntou de onde vem os seus sonhos, olhe ao seu redor. É aqui que eles são feitos.”

Hugo também tentava se tornar invisível para o dono da loja de brinquedo. É que Hugo precisava de pecinhas dos brinquedos de corda, para a tal engenhoca. Mas um dia, o dono da loja, Georges Méliès (Ben Kingsley), lhe dá um flagrante. Dando início a uma nova aventura. Sendo que dessa vez Hugo não mais estará observando, ele fará parte desse roteiro de vida. Tudo porque George lhe toma o livro de anotações do seu pai. O que leva Hugo a conhecer e ficar amigo da sobrinha de George, a jovem Isabelle (Chloë Grace Moretz). Essa, sedenta por vivenciar uma aventura real, como dos livros que lia. Ela levará Hugo para conhecer o seu mundo dentro da Estação de Trens: a loja de livros do Monsieur Labisse. Outra grande participação nesse filme, pois quem interpreta é Christopher Lee. Aplausos também para Ben Kingsley e Chloë Grace Moretz!

Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.” (Chaplin)

A história de “A Invenção de Hugo Cabret” é fascinante: em colocar paixão naquilo que fizer. Mesmo o filme estando bem redondinho, fiquei com vontade de ler o livro homônimo de Brian Selznick, no qual o filme foi inspirado. O Roteiro de John Logan conseguiu contar e bem toda a aventura e desventura de Hugo. E Martin Scorsese conseguiu sim fazer um excelente uso do 3D. O que até me leva a ser repetitiva, mas é por uma torcida de que os demais Diretores só usem esse recurso de modo inteligente. Como também que as crianças que assistirem esse filme, além de ser tornar um cinéfilo, que também passem a gostar de lerem livros. O filme também tem isso de bom: incentivo à leitura. Great!

Um vídeo muito bom para quem não viu, ou viu e queira rever, de um Making Of dos Efeitos Visuais em “A Invenção de Hugo Cabret“: Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Então é isso! Uma Obra-Prima que vale o ingresso para assistir em 3D. Um filme onde não se resiste em aplaudir no final.

Por: Valéria Miguez (LELLA).