PROMETHEUS – 2012

O que você faria se pudesse descobrir a origem da humanidade e estivesse frente a frente com o seu criador? Essa é a pergunta inicial proposta por Prometheus, talvez um dos maiores filmes de ficção científica dos últimos anos. Após confrontar o homem com o terror do desconhecido em “Alien: O Oitavo Passageiro” (utilizando metáforas sobre estupro, bem como a polêmica questão do aborto) e refletir de maneira surpreendente sobre as responsabilidades do criador em “Blade Runner: Caçador de Andróides”, o diretor Ridley Scott decidiu mesclar os melhores de sua carreira, entregando um longa onde os personagens enfrentam suas crenças para aceitarem a verdade sobre a criação e, acima de tudo, sua consequência: destruição.

Sinopse:Em 2089, um grupo de exploradores descobre um mapa através de desenhos arqueológicos datados há milênios por civilizações de épocas distintas e partes mais diferentes do globo. A partir daí fazem uma viagem espacial a fim de identificar os possíveis Engenheiros/deuses criadores da humanidade, porém ao buscarem a revelação dos segredos acabam alterando o curso natural da história, podendo desencadear o fim da raça humana ao confrontar seu Criador.

Cenários de tirar o fôlego

Os temas aqui desenvolvidos ultrapassam séculos e já haviam sido destacados no livro “Seriam Os Deuses Astronautas?”, entretanto talvez jamais houvera no cinema um filme (sem ser documentário) dedicado inteiramente à essa teoria. Em entrevista, Ridley Scott comentara “Prometheus” como um “2001: Uma Odisséia no Espaço” com asteróides. Concordo com ele, porém o maior erro do lançamento de Scott talvez seja a ausência de um clima singelo. “O Oitavo Passageiro” e “Odisséia no Espaço” possuem o mistério como fonte inteligente de suspense, todavia seu novo trabalho peca ao tornar-se quase exclusivamente ficção científica, desagradando os fãs da série do xenomorfo. Mas isso pode ser explicado justamente pelo fato de “Prometheus” preocupar-se em revelar os mistérios da humanidade, um assunto necessariamente amplo a fim de obter resultado coerente (pelo menos no universo criado por ele) e aceitação do público.

Quem já conhece a série Alien sabe da escolha obrigatória do personagem central ser mulher. Isso se deve às inúmeras metáforas contidas nas tramas, afinal todas as histórias passadas nesse universo fictício preservam as mensagens de independência feminina, principalmente no que diz respeito ao aborto (analisado como libertação da repressão imposta pela sociedade, representada pela Empresa patrocinadora das viagens espaciais cuja preferência sempre é pelo feto alienígena, tornando o corpo estuprado da mãe inteiramente descartável). A sofredora da vez é a sueca Noomi Rapace. A atriz já havia mostrado todo seu talento na versão original de “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres” e agora vive sua primeira protagonista hollywoodiana em “Prometheus”, tal qual Sigourney Weaver em Alien. Honestamente, talvez não houvesse escolha melhor. Rapace provavelmente é uma melhores atrizes da atualidade, sua atuação sempre é surpreendentemente natural e a aparência comum auxilia ao distanciá-la dos estereótipos estéticos do cinema, aproximando-a mais da personagem por ainda ser desconhecida de grande parte do público. Sua personagem vive um dos momentos mais perturbadores do filme, o qual provavelmente será inesquecível às mulheres da platéia.

Noomi Rapace sofre em Prometheus

Para quem aguarda um épico, não sairá decepcionado quanto aos cenários, é bastante notável o empenho da direção de arte (as filmagens ocorreram em várias partes do mundo), portanto os cenários e paisagens são de tirar o fôlego. A única ressalva que faço é quanto à aparência dos engenheiros. Quem viu Watchmen, só precisa imaginar um Dr. Manhattan cinza, sem brilho, cujos olhos são completamente negros. Mas é aí que surge uma ironia MUITO interessante. (Se você não leu a obra-prima Watchmen e tiver interesse, por favor pare de ler esse parágrafo) Ao final da revista em quadrinhos, o Dr. Manhattan (um físico atingido por radiação que o faz adquirir poderes de um Deus) vai embora da Terra após afirmar que talvez irá tentar criar uma nova forma de vida em outro planeta. Nós sabemos que ele pode se multiplicar e possivelmente originar vida humana pela matéria, os engenheiros de Prometheus são todos iguais e fazem a humanidade, logo qualquer semelhança será mera coincidência?

Respectivamente, Dr. Manhattan (Watchmen) e Engenheiro (Prometheus). Seria o Dr. Manhattan um engenheiro?

Uma das características mais aterrorizantes de Alien são as criaturas. Apesar de se passar no mesmo universo que o filme de 1979, nós estamos falando de um parente próximo, portanto Prometheus mostrará espécies distintas, todavia com as mesmas referências. Nesse caso, a aparência dos monstros sempre é inspirada nos órgãos reprodutores humanos, por isso “O Oitavo Passageiro” contém simbologia para o estupro e aborto (lembrando aquela garra que infiltra sua semente no corpo da pessoa, a qual servirá de receptáculo involuntário para o monstro), logo esse lançamento segue a tradição com os mesmos significados, porém inovando na estética grotesca.

Com inúmeras referências, Prometheus desbanca vários exemplares desse ano com sua versatilidade. O andróide interpretado por Michael Fassbender (outra estrela em ascenção) é um dos personagens mais interessantes (ele é cinéfilo, além de tudo), promovendo diálogos inteligentes. Em um momento, é comparado a Pinócchio (o boneco que queria ser de verdade). Talvez não despreze inteiramente a raça humana, mas sua decepção de reconhecer o propósito de sua criação faz referência direta ao momento pelo qual os humanos da história estão passando, encontrando seu criador.

O fato do encontro dos astronautas com os Engenheiros poder desencadear o fim da humanidade é plausível no cinema. Se refletirmos sobre outras ficções como “Planeta dos Macacos” e “2001: Uma Odisséia no Espaço”, onde o ser humano encontra a própria destruição nos seus avanços tecnológicos e na ousadia da curiosidade. Os personagens de Prometheus desafiam suas próprias limitações humanas ao enfrentar os engenheiros, rendendo referências incríveis à famosa cena “filho pródigo versus criador” de Blade Runner. Após anos, finalmente podemos dizer que Ridley Scott voltou para casa e, na época atual, é sempre bom tornar a ter surpresas no cinema. Desejo uma ótima seção legendada (pois a dublagem brasileira desse ficou medonha) para todos.

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Entre Segredos e Mentiras (All Good Things. 2010)

O filme é baseado num caso real – o desaparecimento de uma jovem, em 1982, no seio de uma rica e tradicional família novaiorquina. Onde o Diretor Andrew Jarecki leva o espectador a conhecer de perto toda a estória. Mesmo ela sendo contada pelo principal suspeito, o marido da jovem. Em “Entre Segredos e Mentiras” mais que tirar conclusões sobre como ocorreu o desaparecimento – já que o filme lança suspeita de como aconteceu o sumiço -, ele nos leva analisar os principais envolvidos: além do jovem casal, o pai do suspeito. Até por conta disso eu fiquei na dúvida: mergulhar na personalidade de cada um desses três personagens – David Marks (Ryan Gosling), Katie Marks (Kirsten Dunst) e Sanford Marks (Frank Langella) -, ou fazer um resumo de modo a motivá-los a ver esse filme. Pois o filme é muito bom! Tentarei não trazer spoilers. Muito embora o filme nos leva mais a um estudo dessas personalidades.

Não sei se pelo fato do ator, ou da estória desse sumiço que fica sem uma punição, ou até por ambos, o lance foi que pensei em “Um Crime de Mestre“. Sem que isso deponha contra o filme, talvez reforce a performance de Ryan Gosling para esse gênero de filmes. Nesse aqui, é ele quem brinca com todos que queiram penalizá-lo pelo sumiço da esposa. Parodiando o outro: “Matei minha esposa. Agora provem!

O filme começa com duas vozes em off, dentro de um tribunal, em 2002. Uma dessas vozes é de David. E nesse interrogatório, ele retrocede no tempo. Esses flashback começam na sua infância. Onde tudo parecia ser saudável. Principalmente a relação dele com a mãe. Depois o filme avança até o dia em que ele conhece Katie. A estranheza que ambos sentiram pela ida dele até o apartamento dela, é meio que explicado mais tarde, já num almoço entre Sanford, David, Katie e a mãe dela.

Aos olhos de Sanford, Katie era uma interesseira. Mas sendo ela culta, e pelo filho estar muito apaixonado, ele faz vista grossa. Só interferindo depois. Mas não a ponto de ver o filho como um sociopata. Aos olhos dele, David era um fraco. Com o desenrolar da estória ficamos sabendo o porque de carregar uma culpa. E que devido a ela, fez o que fez pelo filho. Só não deu a ele o controle da empresa.

Katie se encanta com David, e até com tudo que ele pode lhe oferecer. Mas depois vai descobrindo que o marido não era quem ela imaginava. Fantasiara, mesmo ele tendo lhe dito certas coisas. Não que isso o abone pelo o que ele fez. Mas fica uma reflexão no porque dela ter voltado atrás no rompimento ao saber que sairia sem grana nenhuma. É fácil falar com conjecturas, mas vem a ideia de que sairia sim sem um tostão, mas sairia viva desse casamento.

Sobre a personalidade de David, deixo a sugestão em especial a todos da área psico: terão nele um excelente material de estudos. Para mim, leiga no assunto, o relaciono a uma sociopatia num grau maior. Para os não leigos, talvez já dariam-no como um psicopata.

E o que levou, ou melhor, o que trouxe à tona vinte anos depois esse desaparecimento, tem como consequência esse julgamento que ouvimos desde o início do filme. Levando David a uma queima de arquivos.

Além de toda essa trama, que nos deixa até perplexos, é interessante ver como era a Times Square naquela época. Esse é daqueles filmes que dá vontade de rever logo em seguida, pois deixa a impressão que perdemos uma peça desse jogo. Tamanho é o fio condutor sobre tudo o que aconteceu. Tudo amarradinho num filme muito bom!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Entre Segredos e Mentiras (All Good Things. 2010). EUA. Direção: Andrew Jarecki. Roteiro: Marcus Hinchey e Marc Smerling. Gênero: Crime, Drama, Mistério. Duração: 101 minutos.Censura: 16 anos.

Decálogo IV, de Kieslowski

Os Dez Mandamentos – Versão resumida – Velho Testamento – Êxodo 20.

1. Não terás outros deuses diante de mim.
2. Não farás para ti imagem de escultura, não te curvarás a elas, nem as servirás.
3. Não pronunciarás o nome do Senhor teu Deus em vão.
4. Lembra-te do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás, mas o sétimo dia é o sábado do seu Senhor teu Deus, não farás nenhuma obra.
5. Honra o teu pai e tua mãe.
6. Não matarás.
7. Não adulterarás.
8. Não furtarás.
9. Não dirás falso testemunho, não mentirás.
10. Não cobiçarás a mulher do próximo, nem a sua casa e seus bens.

DEUS

“Ninguém pode viver nossa vida por nós.
Se há algo que eu quero é paz.”
Kieslowski

Decálogo IV  –  Kieslowski

Quem já não viu um filme que envolva carta? São tantos, não? De amor, de escárnio, de conteúdos diversos… é o fetiche máximo do melodrama. Em Lolita de Stanley Kubrick, carta de Charlotte endereçada ao amado; Ligações Perigosas de Stephen Frears a carta ocupa lugar privilegiado, como também em Nunca te vi… Sempre te Amei de David Hugh Jones; Disque M para Matar de Alfred Hitchcock; Cartas de Iwo Jima de Clint Eastwood; Rastros de Ódio de John Ford; em Casablanca é uma quase carta; na verdade trata-se de um bilhete de conteúdo significativo e como este último tornou-se um cult, achei interessante destacar o de Isa para Rick. E a finalidade quase sempre é a mesma: é usada como pretexto para o desenrolar das ações e dos diálogos.

“Richard, não posso te acompanhar ou te ver outra vez. Não pergunte o porquê. Apenas acredite que eu te amo. Vá, meu querido, e Deus te abençoe. Isa”.

Umas das histórias mais tocantes da telona que eu me lembro e que a protagonista é uma Carta é exatamente aquela que não vi. Como é possível? Parece loucura, mas é isso mesmo. Trata-se de um dos filmes do DECÁLOGO de Kieslowski que eu batizei de A CARTA. Vira e mexe, me lembro desse filme. A minha irmã foi que me contou, e sempre tive a sensação de tê-lo assistido, lembranças de algumas cenas de certos detalhes, as sutilezas nos gestos, olhares, e não sei por que, na época,  ao ouvir tive uma sensação desagradável, que me deixou agoniada e triste.

Anos depois é que assisti ao belo filme, (em janeiro de 2010, no CCBB- Rio) e para minha surpresa, é como se estivesse revendo.

O Decálogo é uma adaptação livre de Os Dez Mandamentos do Antigo Testamento da Bíblia. Kieslowski realizou na década de oitenta para a televisão Polonesa e cada um deles com o tempo de 55 minutos, transformando, pouco depois os dois primeiros em longametragens:  o Não Amarás e o  Não Matarás.

São histórias dos tempos modernos, mostrando que desde que o mundo é mundo quase nada mudou, que o homem continua o mesmo: invejoso, ambicioso, mentiroso, egoísta e toda espécie de fragilidade no que tange “a moral e bons costumes’.

Os episódios são independentes, e  foram realizados em Varsóvia, num conjunto habitacional – lugar-comum para todos eles. Há  um personagem misterioso que entra mudo e sai calado, que aparece transitando em cada história apresentada. Se você ainda não assistiu, preste atenção para saber quem é ele. Se já assistiu é forçar a memória. Neste 4 episódio é o homem que carrega uma canoa nas costas e ao passar por Anka a encara quando ela tenta em uma das vezes abrir a carta, o que a faz desistir. Isso daria margem a um novo roteiro.  Às vezes de uma frase se cria um conto, uma poesia, uma novela. Veio-me essa ideia… viajo… Kieslowski explica: Seria uma espécie de anjo. Parece querer dizer “Faça a coisa certa.”

A Carta como eu a denominei trata-se do DECÁLOGO 4 – HONRAR O NOME DO TEU PAI E DE TUA MÃE. Kieslowski é bem didático, deixando claro a intenção da mensagem que se quer passar, daquilo que a pessoa faz, independente de certo ou errado, sofrerá a devida consequência; é metódico, tratando cuidadosamente questões éticas, morais e religiosas a cada respectivo mandamento, à maneira dele de interpretar e de  fazer a leitura do mundo.

Honrar o Nome do Teu Pai e de Tua mãe – É a história de Anka, uma jovem de vinte anos. A mãe morreu quando ela apenas tinha alguns dias de vida e passou a viver com o pai, Michel que a criou sozinho. Um dia ele viaja, e enquanto está fora a filha encontra em seu quarto um envelope escrito com a letra do pai: “Não abrir antes da minha morte”. Dentro, um outro envelope endereçado, com a letra de sua mãe, para ela. Anka é uma estudante de teatro, com um professor que marca em cima, só podia mesmo levar jeito para a coisa e ter talento de sobra para dar e vender. Como toda garota de sua idade, tem namorado, e confessa que já fizera um aborto (isso para justificar ao pai que toda mulher sabe que é mãe e quem é o pai;  enquanto que  e o homem nunca tem essa certeza).

Excelente atriz. Revela ao pai que encontrou a tal carta  enquanto ele estava viajando e  mentiu-lhe que leu. Imaginou o conteúdo, decorou e contou a ele que acreditou. Na verdade ela escreveu uma outra com tudo o que imaginara. Um devaneio. Vinte anos se passaram  e nenhum dos dois leu a bendita Carta.

Envolve outros mistérios e segredos da alma. Amor velado e não revelado; sentimentos não vividos por medo. O que me deixou agoniada, na verdade foi não saber o conteúdo da mesma. Curiosidade mórbida essa do expectador, mas claro, fiquei intrigada. Não se tem acesso como os outros exemplos que citados no início. Lembra o filme russo O RETORNO –   uma caixinha e o segredo de seu conteúdo revelado apenas ao fundo do mar.

A intenção  era não revelar o mistério. Havia uma desconfiança de adultério no  ar. E desde então a incerteza povoa a mente do viúvo: “É a minha filha ou não?” E de Anka que amava aquele homem não como pai: “É ou não meu pai?” Sem resposta, sem certeza, gostavam-se através de gestos e insinuações. Um pedaço de papel pode fazer um estrago enorme na vida das pessoas. Resolveram queimar. Um mistério que virou cinza.

Tudo poderia ser diferente se eles a tivessem lido.  Mas aí não haveria roteiro, não teria filme, esta história não existiria…

São tantas coisas que se deixa para trás…cartas que não são lidas ou que não se escreve, palavras que não são ditas, sentimentos que não se vive, desculpas que não pedimos…Tem coisa que é melhor mesmo não se saber. Nunca.

Karenina Rostov

Laços de Ternura (Terms of Endearment. 1983)

lacos-de-ternuraRevendo o filme, ‘Laços de Ternura‘, após tanto tempo, me levou a pensar num paralelo com a atualidade. Além do ato de ser mãe. Nesse tocante vem a máxima que diz que mãe é tudo igual, só mudando o endereço. E pela época do filme, pela história contida nele, nem dá para dizer que muita coisa mudou de lá para cá.

Mais de 20 anos se passaram e ainda vemos muitas mulheres gerando um filho atrás do outro sem o menor planejamento. Meio frio de minha parte, concordo. Mas há sim o de se pesar o orçamento do casal. Se terá como arcar financeiramente com a educação. Jogar nos ombros dos avós essa responsabilidade eu não acho justo. Não com uma imposição velada. Uma das ajudas que poderia ser, seria por conta de algo como nesse filme. No final dele.

O filme também fala do aborto. Numa conversa entre mãe e filha. Para que vejam que nada mudou em todos esses anos ainda é feito em larga escala, mesmo sendo ilegal. Recentemente foi feito uma pesquisa sobre esse tema, chegando nesse resultado: “Quase 4 milhões de mulheres fizeram aborto no Brasil nos últimos 20 anos. Em sua maioria, o grupo não é formado por adolescentes, mas por mulheres entre 20 e 29 anos. Mais da metade se declarou católica. E mais de dois terços já têm filhos. A maior parte optou pelo aborto como forma de planejamento familiar.” Como podem ver, faltou o o planejamento que citei anteriormente.

O filme também traz as puladas de cerca. De um lado, procurando nisso dar vazão aos desejos do corpo. Do outro, por não querer romper de vez com o matrimônio. Naquela de até que a morte os separe? Há também um terceiro motivo: os filhos. E até por conta deles também pesará as pensões advindas num rompimento. Se a grana anda curta, o que dirá tendo que manter duas casas? Então, enquanto ninguém reclamar, mantém-se toda a situação.

Entraria aqui até essa máxima: “O que os olhos não vêem, o coração não sente“. Ou outra mais cínica: “Se quer trair, que o faça sem deixar rastros“. Até aqui como podem verem todos esses anos nada mudou. Muito de nós conhecemos relacionamentos assim. Mas apesar de pontos em comuns, cada relação é única.

Entrando no filme… Aurora (Shirley MacLaine) só quis ter uma filha. Talvez pelo seu temperamento. Com mais um tempo de casada, enviuvou. O filme dá outro salto no tempo, e então começa de fato toda a trama. Às vésperas do casamento de sua filha Emma (Debra Winger) com Flap (Jeff Daniels). Aurora não aprovava o casamento. Para ela, a filha iria sofrer por ele ganhar muito pouco. Flap era Professor. Mas Emma nasceu para ser Dona de Casa. Nem quis continuar os estudos, nem arrumar um emprego fora de casa. Queria mesmo cuidar do Lar, do marido e dos filhos. Então foram morar longe de Aurora.

jack-nicholson_and_shirley-macLaine_terms-of-endearmentAurora por sua vez embora sempre cortejada por uns amigos se fechou a um novo amor, ou mesmo as simples relações. Bloqueando os seus apetites sexuais. Diferente da filha que mantinha um caso extra-conjugal com Burns (John Lithgow). Flap também mantinha um caso com uma aluna. Tudo seguia sua rotina na vida de Aurora até que entra em cena um barulhento vizinho, Garret (Jack Nicholson), e que não saía mais de seus pensamentos. Mas passaram-se 15 anos para ela tomar a iniciativa. A cena da primeira saída dos dois é memorável.

Por não gostar de rédeas, após um namoro, Garret mesmo gostando dela, resolve sair de cena. Até que com uma virada do destino, pela perda de um membro da família, todos se unem para cuidarem das três crianças.

Um belo filme! Para ver e rever. A trilha sonora é linda, mas uma em especial, é de querer ouvir várias vezes. Ouça-a:

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Laços de Ternura (Terms of Endearment). 1983. EUA. Direção e Roteiro: James L. Brooks. Elenco. Gênero: Comédia, Drama, Romance. Duração: 131 minutos. Baseado em livro de Larry McMurtry.

Festa de Família (Festen. 1998)

festa-de-familia_1998Tratando-se de família, ninguém é leigo. Mesmo se “não tiver” uma família.  Não importa se você veio de Adão e Eva, ou da Evolução ou do Big Bang, no momento em que uma mulher e um homem engravidam já se constitui FAMÍLIA, em minha opinião; vale dizer que alguns Antropólogos discordam plenamente de mim quanto a isso.

Falando em Antropologia, no filme tem uma personagem que é Antropóloga (Helène), contrariando o desejo de seus pais que queriam que ela fizesse Direito. Bem, ela fez tudo ‘errado’ rs..  Quanto à família do filme, trata-se de uma família composta por pais e 4 filhos, sendo dois gêmeos (casal). Reúnem-se em um hotel (nas terras do pai da família), após o suicídio de uma das filhas, a Linda, gêmea de Christian, para comemorar os sessenta anos ‘patriarcais’.

O cerne da questão desta família é o abuso sexual do pai com dois de seus filhos.

O pai é uma figura-base em qualquer família, ele determina a estrutura familiar. Numa sociedade patriarcal como a nossa, assim como a dinamarquesa, o pai é o provedor, o protetor, o acolhedor, o castrador, o limitador, aquele que dá segurança e suporte. Nesta Era de mães-solteiras, me preocupa muito o prognóstico de nossa sociedade para daqui a uns anos. A crise já se iniciou, mas como o ser humano é adaptativo a qualquer meio ambiente e situação, o prognóstico é péssimo.

Voltando ao filme, o perfil dessa família, além de patriarcal, é de um desequilíbrio emocional visível. Ora, mas se são os pais as primeiras referências da criança, como não ser desequilibrada uma família que tem um pai molestador sexual e uma mãe submissa, omissa?

O que tem me assustado muito é esse número, cada vez maior, de abusos sexuais, registros de casos como pedofilia e incesto. Parece-me cada vez mais óbvio que o abusador também é um desequilibrado, mas que se “suporta” na rigidez e arrogância de uma educação quase nazista e fascista. Por falar nisso…

festa-em-familia-1998-01Este filme mostra também algo que para sempre será polê-mico, o Racismo. Helène é namorada de um negro,  mal-tratado por seu irmão Michael e toda família branca. O que me surpreende, porém não muito, foi a cena em que todos cantam aquele “hino” nazista em plena mesa do jantar; e o rapaz, sem entender aquela “língua”, quase sorri para eles.

Enxergo a Antropologia, infelizmente, como uma espécie de racismo. O estudo do homem, o homem como um animal visto como ‘superior’, evoluído. Será muita evolução esse excesso de violência gratuita em que somos submetidos nas grandes metrópoles?

O filme é um requinte de sintomas patológicos sociais: abuso sexual, racismo, aborto, lesbianismo, suicídio, maus tratos familiares…

Falando em suicídio, Camus escreveu numa época de pessimismo pós-guerra, que só há um problema verdadeiramente filosófico sério: o suicídio. Sem entrar nas nuances filosóficas quanto ao ‘matar-se’, a Europa é campeã em casos de suicídios, não perde nem para o Japão, que tem uma estatística ambiciosa quanto a isso.

Filme denso, tenso, sem trilha sonora, visceral. Faz parte do Movimento Dogma 95 (Movimento Cinematográfico). Eu recomendo.”

Por: Vampira Olímpia

Festa de Família – Festen

Direção: Thomas Vinterberg

Gênero: Drama, Violência, Sexo

Dinamarca – 1998

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 Luni, 3 Saptamani si 2 zile. 2007)

four-months-three-weeks-and-two-days.jpgAinda numa Romênia comunista, duas estudantes diante de uma decisão: fazer um aborto. Apenas uma delas é que está com essa gravidez indesejada. Cabendo a outra, mais do que a companhia, ser cúmplice nesse ato. Onde entre mentiras e omissões o preço a ser pago será muito maior a essa amiga. E por que? Amizade acima do limite? Sendo isso que a mim chamou mais atenção nesse filme: o valor de uma amizade. Otilia foi amiga a toda prova. Um dia pesado na vida de ambas é o que temos nesse filme.

Ao longo do filme somos levados a sentir todo o seu drama. E em certos momentos – quase sem respirar -, acompanhamos a sua longa jornada noite adentro. Sem julgá-la, apenas querendo entendê-la. Querendo também lhe ser solidária. Aquele preço. O porque de ter aceito… Méritos da jovem atriz: foi grandiosa a sua atuação!

Gabitza é a jovem que precisa fazer o aborto. E por que? Ou por que chegou até aí? Aqui eu convidaria também os homens para assistirem esse filme. Se esse aborda um universo feminino, a concepção é algo que partiu dos dois sexos. Se cabe à mulher o direito de fazer o aborto, é preciso que o homem veja todo o drama que uma transa sem sem pesar as conseqüências acarretará para a mulher. Até porque para o homem após o prazer do gozo pode partir livre para outra transa. Agora, se nessa transa geraram um novo ser, caberá a mulher o peso maior. Sendo assim deveria lhe ser de direito o abortar a gestaçã0. Mas há penas a serem pagas.

O filme traz à mesa de discussões o aborto. Legítimo até pelo fato que atualmente ainda há muitas gravidez precoces. Cada vez mais, mais jovens se engravidam por não se precaverem. Sendo assim manter ou trazer o tema do aborto já merece meus aplausos. Nunca fiz, nem faria um aborto. Não julgo quem o faça; muito menos sem antes saber dos reais motivos. Agora que venham mais filmes levantando esse tema. Ainda mais com um Papa tão reacionário, fechando a questão e ponto final. É um tema que não pode morrer até para que mais e mais pessoas não cheguem a ter esse fato como opção de escolha.

Agora como falei no início o calvário maior foi para a amiga. Que após uma noite tenebrosa, vejam a “preocupação” da Gabitza no final. Caramba!

Aqueles que não gostam de filmes lentos não irão apreciar esse. Mas perderão mais um belo filme. Pois esse traz cenas onde as horas parecem passar lentamente para a Otília, e de cá pelas angústias da Otília fica em nós um querer que passem logo.

Eu gostei desse filme! Nota: 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias (4 luni, 3 saptamani si 2 zile). 2007. Romênia. Direção: Cristian Mungiu. RoteiroCristian Mungiu e Razvan Radulescu.  Com: Anamaria Marinca (Otilia), Laura Vasilu (Gabita). Gênero: Drama. Duração: 113 minutos.