Série: Caras e Caretas (1982-1989). O que transmitir ou não as novas gerações?

caras-e-caretas_serie_1982-1989Por: Morvan Bliasby.
Nestes tempos aziagos de “Escola Sem Partido“¹, golpes institucionais e outras ideias ‘jeniais‘, além de uma mesmice estarrecedora das SitComs, das Soap Operas, etc., numa revisita quase mandatória à década de 80 do Século XX, a sua explosão de comédias de situação e o começo da distensão “lenta e gradual”, como preconizavam os donos do mundo, entre as potências que alimentavam a fogueira da Guerra Fria. Deste caldeirão ultra efervescente se sobressai a SitFamily Ties“², nominada, no Brasil e em Portugal, respectivamente “Caras & Caretas” e “Quem Vem Aos Seus“, neste segundo estranho título temos, claramente, uma ironia, pois parece degenerar, e muito.

O Enredo

Steven (Michael Gross) e Elyse Keaton (Meredith Baxter) são dois hippies classe média típicos, economicamente falando, ultra liberais nos costumes e que se casaram havia duas décadas.

Um tanto quanto nonsense, no tocante à educação dos filhos, eles creem piamente que os filhos os seguiriam em seus valores, teriam uma vida “zen” e seriam filosoficamente parecidos com estes.

O tempo lhes mostrou o quão errados estavam, mormente no tocante ao filho mais velho, Alex (Michael J. Fox). Este, um executivo, na cabeça e nos valores (um admirador incorrigível de Ronald Reagan!). Isso mesmo. Reagan. Importante para nos ambientarmos. Reagan, Tatcher e a ideia do Estado mínimo, do tamanho de uma bacia, nas palavras dos próprios. Este é o ambiente da série. Alex utilizava chavões dos republicanos e portava até mesmo um cartão de sócio do clube dos conservadores. Inteligente, ganancioso, reacionário. uma cópia (carbono) exata de seus pais. Alex se encaixa perfeitamente no estereótipo do “self-made man”, tão usual, à época e hoje.

Já a moça, Mallory (Justine Bateman), ao contrário, relaxada, preguiçosa, fútil e cujo círculo de interesse consistia em compras, rapazes e… compras e rapazes.

Vem, a seguir, Jennifer (Tina Yothers), a caçula. Todo o seu sonho era ser uma pessoa normal. Dependendo da situação, razoável, não?

Family_Ties_castA série, malgrado de forma às vezes sutil, até demais, teve a virtude de discutir preconceitos, censura, gravidez adolescente, vício (drogas), relacionamento familiar e círculos criados em torno de interesses similares. Todos os personagens da série, inclusive os papeis satélite, contribuem para uma discussão sutil e ao mesmo tempo rica sobre os valores de então.

O sucesso estrondoso da Sit tem a ver com isso. quem sabe, além do fato de ter sido a propulsora e impulsionadora de celebridades precoces, como o Micheal J. Fox.

Mas a discussão subjacente da comédia de sucesso parece ser a questão educacional (não somente educativa, educacional, de finalidade da formação). Até que ponto a formação dos nossos filhos, de uma geração, por exemplo, pode ser vilipendiada, a ponto de achar que as coisas se repetirão por osmose. Que não precisaremos assumir uma posição mais protagonista, com relação ao tipo de pessoa humana que queremos formar, subvertendo, se necessário, os valores vigentes e até a educação formal, via escola. A ‘Escola Sem Partido‘, esta aberração imposta pelos nossos nefandos “amigos” ideólogos, daqui e d´alhures, por exemplo, é uma mostra de protagonismo às avessas, ou seja, não seja inocente de pensar que existe neutralidade em qualquer aspecto da vida. Tal movimento aposta na interdição do debate natural na escola, na vida, para a nova geração de zangões…

Séries como Family Ties e “Todo Mundo Odeia o Chris” são muito eficazes em, sob o pretexto de discutir amenidades, ir bem fundo nos costumes e preconceitos e acabam, neste roldão, se tornando fotografia de uma época. Family Ties parece bem atual, traçando um paralelo com o momento em que assistimos ao desmonte de vários Estados nacionais. Esta já é uma boa razão para assisti-la, como análise comparativa. Além dos canais da tevê paga, que vez por outra a reprisa, geralmente com o título original, além de poder vê-la nos sítios dos Estúdios originais ou nos canais de “stream“.

Série: Caras e Caretas (1982-1989)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

¹ Uma ideia tão imbecil para se acreditar ter saído da cabeça de educadores. Felizmente, não!.
² No Brasil, curiosamente, uma novela, tempos após, recebeu o nome literal da comédia de situação: Laços de Família.

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Livro: Capitães da Areia (1937), de Jorge Amado

capitaes-da-areia_jorge-amado_capa-do-livroPor: Karla Kélvia, do Blog Livro Arbítrio.

Uma visão social e não apenas policial… Numa obra atemporal.

Eu sou do tipo que tem uma relação bem estreita com os livros, desde criança. Quanto mais um livro me marca, mais eu sinto que as lembranças que eu tenho da história dele fazem parte da minha própria história. Capitães da Areia, de Jorge Amado, está na minha galeria de livros mais que especiais, mais que queridos, daqueles que estão gravados em mim para sempre.

Creio que o lirismo do meu querido escritor baiano está em um dos seus ápices neste livro, que, além disso, possui uma trama extremamente atual. Capitães da Areia foi escrito em 1935, em uma fase engajadíssima de Jorge Amado com o Partido Comunista, fato que transparecia muito em suas obras das décadas que vão de 1930 à 1950, chamadas, por esta razão, de “panfletárias”. O Brasil daquela época estava prestes a entrar na Ditadura Vargas, o Estado Novo; o mundo nazifascista caçava comunistas e judeus, e estava para eclodir a Segunda Guerra Mundial. Apesar de o contexto em que surgiu ser tão diferente dos dias de hoje, ninguém pode negar que a história deste livro seja atemporal.

capitaes-da-areia_personagens-01Os Capitães da Areia são meninos de rua; um bando que vive de pequenos furtos e que conhece toda a Salvador. Eles moram num trapiche, um tipo de armazém abandonado no cais do porto, e formam um número variável. O líder deles é Pedro Bala, e os outros mais conhecidos são Sem Pernas, Volta Seca, Professor, Boa Vida, Gato, Pirulito. O livro é dividido em três partes. Na primeira, “Sob a lua, num velho trapiche abandonado”, vemos histórias de aventuras quase independentes dos garotos pelas ruas da cidade, explorando também suas personalidades e os seus medos. Um dos momentos mais bonitos e agridoces desta parte é “O Carrossel”, quando os garotos, que mesmo tão novos levam uma vida tão dura, deixam seu lado mais infantil vir à tona.

capitaes-da-areia_personagens-02A segunda parte é “Noite da Grande Paz, da Grande Paz dos teus olhos”, em que Dora e seu irmão pequeno ficam órfãos quando seus pais morrem infectados com bexiga e eles ficam sem ter como e onde viverem. Ela é a única menina dos capitães, a “mãezinha” dos garotos, o amor platônico de Professor e a namorada de Pedro Bala. Depois de voltarem do reformatório, um amor tão lindo e breve tem um desfecho de abalar qualquer coração.

A terceira e última parte é “Canção da Bahia, Canção da Liberdade”, na qual os garotos já não são tão “garotos” assim e cada um vai seguindo seu rumo. O grupo passa a ter participação em greves e a consciência política de Pedro Bala é despertada, seguindo os passos do seu pai. Adoro o final, em que se diz que ele se torna um líder revolucionário.

Capitães da Areia é um livro incrível, pungente, que nos faz pensar em desigualdade social, desamparo das crianças e falta de estrutura familiar, que, infelizmente, ainda vemos tanto no presente.
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A Família Bélier (La Famille Bélier. 2014)

a-familia-belier_2014E tem um passarinho querendo abandonar o próprio ninho… Mas que para essa gaiola há uma muito chave especial

O filme “A Família Bélier” traz como pano de fundo a entrada para a adolescência, mas muito mais daqueles que não passam o dia com seus celulares nas mãos. Daqueles que já levam uma vida bem mais produtiva ajudando aos pais nos afazeres diários e de onde sai o sustento da família. Nesse em especial, a criação de um pequeno gado leiteiro para o fabrico de queijos. O que já é um convite parra assistir e ver um cenário bucólico. O filme se passa num Um vilarejo na região do Mayenne, na França. É! O filme fala dos que ainda nem descobriram o próprio talento e que o levaria a abandonar o ninho familiar.

a-familia-belier_2014_01Em muitas das vezes o talento é nato precisando apenas vir à superfície, e de ter alguém com um olhar mais apurado, ou mais específico para essa descoberta. Nesse filme veio de um professor: o meio ranzinza Professor Thomasson. Numa bela atuação de Eric Elmosnino. Ele também se sente engaiolado: dando aula de canto numa escola no campo. E o primeiro vislumbre de uma joia rara entre os alunos veio meio que por intuição. Mas esse diamante a ser lapidado parecia estar intimidada até de fazer uso da própria voz…

a-familia-belier_2014_02Em “A Família Bélier” temos então a jovem Paula (Louane Emera). Uma adolescente que se divide entre a escola, a labuta na fazendola, o gerenciar preços de compra e venda desse negócio familiar e além de ajudar a família na feiras de produtores… Sem quase tempo de sobra, correndo de um lado para outro… Tem em seus breves momento de lazer, o conversar com a única amiga, Mathilde (Roxane Duran), e que esta está sempre levantando o astral “cansado” da Paula. Pois é! Com tantas atividades diárias, Paula nem tem tempo para os “dramas” tão comuns na adolescência, principalmente dos sem responsabilidades… Mas eis que nesse novo ano letivo para bagunçar o coração dessa jovem, surge um belo príncipe, Gabriel  (Ilian Bergala)… É! Até o primeiro amor veio nesse pacote surpresa…

a-familia-belier_2014_03Assim temos Paula tentando conciliar tudo que veio num rompante mexer com sua vida de corre-corre rotineira. Onde o cuidado maior estaria em cortar o cordão umbilical, mas muito mais dos pais para com ela… E essa inversão se dá pelo fato de que seus pais – Rodolphe (François Damiens) e Gigi (Karin Viard) – e o irmão caçula (Luca Gelberg) serem surdos. Paula era a ponte que ligava essa família ao mundo sonoro e um onde quase ninguém sabia a língua dos sinais. Fora ela, apenas um outro morador local que conhecia, o Rossigneux (Bruno Gomila), mas tendo esse um certo retardamento mental tal feito o levava a não ter o mesmo jogo de cintura em “traduzir” o humor ácido de Rodolphe… Humor esse que nos leva a certas situações cômicas. Até porque saindo do lugar comum, as falas são um dos pontos altos do filme.

lingua-dos-sinaisO filme “A Família Bélier” é mais um a não fazer uma dramalhão com certas limitações pessoais, tal e qual em “Os Intocáveis“, de 2011. A surdez na família em questão é mostrada com humor. Claro que há momentos que levariam qualquer um ao desespero na vida real. Mas o filme não veio para isso, seria mais para mostrar que assim como essa filha que eles também poderiam encontrar um jeito de ficarem mais independente dela. E assim deixá-la seguir seu próprio caminho. Ele mostra o dia a dia da família de surdos, até dos voos de alguns deles, como o pai querer adentrar na carreira política… Mas mais para mostrar a ligação dela para com eles. Sim! Porque esse filme é dela, da Paula!

a-familia-belier_2014_04Gente! É Cinema Francês! Logo sem nenhuma pressa em contar uma história. Dessa em questão, de uma deliciosa e até comovente momento na vida de uma jovem onde tudo acontece quase ao mesmo tempo. Onde o peso maior será abandonar a família. Nas esperanças e desistências dessa tomada de decisão. De uma adolescente que a vida a levou a amadurecer antes do tempo. O que dificulta ainda mais a ir adiante com a cara e a coragem, sem medo de ser feliz. Tendo como bagagem o talento recém descoberto. Ficar, seguir… Tendo apenas a certeza de que sempre terá um ninho para voltar. Até porque ela nunca deixará de ama-los. E mesmo sendo uma Comédia, não deu para segurar as lágrimas em dois momentos: um deles da Paula “cantando” para o pai…

Então é isso! O filme “A Família Bélier” é Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Família Bélier (La Famille Bélier. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

O Amor é Estranho (Love is Strange. 2014)

o-amor-e-estranho_2014É! O amor é estranho por levar a uma decisão que deixará ambos felizes, mesmo tendo consciência que isso terá consequências desagradáveis. Mas pelo momento em si, vai lá e faz assim mesmo! Arrojo, maturidade…? Pode ser… O amor é estranho por levar alguém a ficar de longe admirando a pessoa amada, e que depois descobre que ela fazia o mesmo, e que mesmo assim travou o desejo da aproximação. Timidez, inexperiência…? Poder ser… O amor é estranho por fazer alguém a ser quase coadjuvante na vida do outro até que decide protagonizar a própria vida quando então o outro descobre o quanto esse amor era importante. Seguir em frente? Dar outra chance?… São certezas, dúvidas que permeiam a todos, principalmente em relacionamentos… No fundo é quase um momento de olhar no espelho e dizer amigavelmente: “Olá, estranho!

Muito bom quando se vê uma Hollywood colocando como protagonistas um casal homo e que por décadas levam uma vida plena de amor! Não que isso seja o pano de fundo em “O Amor é Estranho“, mas sim porque isso é que se deveria ver em toda a sociedade moderna. O que o filme traz são as incongruências das e nas atitudes que as pessoas são levadas a fazer em nome do amor. Até pela atitudes destemperadas por falta de um diálogo mais franco. Que às vezes nem se trata de ser por falta de amor, mas sim por acumular coisas mal resolvidas. Até pelo imediato de não pesar prós e contras… Indo por uma boa intenção… Levando então as explosões que poderão deixar feridas… E aí é cada um assumindo de um jeito próprio por mais estranho que isso possa parecer.

o-amor-e-estranho_2014_01Em “O Amor é Estranho” o casal Ben (John Lithgow) e George (Alfred Molina) após décadas de uma relação cheia de amor resolvem oficializar a união. Família e amigos comparecem até para abençoarem o gesto. Acontece que sai das intimidades desses lares… incomodando a Igreja. Tudo porque George dar aulas de Música num Colégio Católico. Todos – pais, alunos, corpo docente – até sabiam da relação dos dois, mas ao colocar num papel… O Diretor da instituição se vê obrigado a seguir a um outro papel: onde o casamento de George e Ben peca contra os preceitos da religião.

Com isso, só a renda da aposentadoria de Ben e somada as aulas particulares de piano dadas por George não dariam para cobrir todos os gastos de onde moravam. Decidem vender o imóvel e comprar um mais acessível aos bolsos dos dois. Mas até lá precisariam ficar de favor na casa de alguém. Ben então vai para a casa do sobrinho Elliot (Darren E. Burrows) e George vai para a casa do filho Roberto (Manny Perez). E é quando se convive sob o mesmo teto com esses familiares que a coisa começa a desandar.

o-amor-e-estranho_2014_02Elliot é casado com Kate (Marisa Tomei) e têm um único filho, o “adolescente” Joey (Charlie Tahan). Kate trabalha em casa: é escritora. Ben dorme numa beliche no quarto de Joey que não gostou nada dessa intromissão. Ben fica sem saber onde passar as horas do dia, sem querer também incomodar Kate que está escrevendo um novo romance… Para piorar essa nova vida dos quatro… Algo vem à tona: um temor de Elliot em relação ao próprio filho. É! Na intimidade de um lar é que se conhece de perto alguém… Mas mais do que uma panela de pressão prestes a explodir… É de Ben que Joey recebe uma real atenção, e mesmo tendo sido tão rude com o tio. Se na outra casa é por demais silenciosa… Na casa de Roberto que vive maritalmente com Ted (Cheyenne Jackson) mais parece uma boate onde todas as noites acabam em festas. Levando George a poucas horas de sono, e acabam deixando-o sem paciência durante as aulas… À primeira vista pode-se achar que Ben e George deveriam ter trocado de casas: um poderia dormir à noite e o outro durante o dia. Enfim, mesmo parecendo terem errado nessa “estadia provisória”… Foi devido a uma dessas baladas noturnas da casa do filho que George conheceu Ian (Christian Coulson) e…

Fora um jeito do destino tentar reorganizar a vida de todos? Mesmo já tendo abalado alguns dos relacionamentos? Essa nova virada ainda estaria em tempo para aproveitá-la? As feridas se cicatrizaram? Pode até ser… Pois tendo amor no coração ele tambem deixa um convite a fechar um capítulo, tendo novas páginas para seguir em frente até como se nada tivesse acontecido… Afinal, o amor é estranho mesmo!

o-amor-e-estranho_2014_diretor-e-proagonistasO Diretor Ira Sachs merece aplausos pelo conjunto da obra: atuações, trama, trilha sonora…! Um filme que pelo o que consta gerou polêmica nos Estados Unidos até pela “liga da moralidade e dos bons costumes” a MPAA – órgão censor daquele país -, que classificou-o como inapropriado para menores de 17 anos. Caramba! Só por beijos na boca entre homens? Mas enfim, querendo saber mais sobre essa tal MPAA, sugiro o Documentário “Este Filme Ainda Não Foi Classificado“, do Diretor Kirk Dick. Há um porém nesse filme e numa fala que o liga ao Brasil, a um certo estigma, e que eu fiquei sem entender até porque quem também assina o Roteiro é o brasileiro Mauricio Zacharias (de “O Céu de Sueli”). Ele bem que poderia não ter colocado tal estigma. Seria ele um “coxinha”?

No mais, “O Amor é Estranho” é muito bom! Merece ser visto! Quanto a rever, quem sabe algum dia… Nota 08!

O Amor é Estranho (Love is Strange. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Simplesmente Acontece (Love, Rosie. 2014)

simplesmente-acontece_2014Eu resolvi fugir do lugar comum, do meu é claro, e começar falando da Trilha Sonora de “Simplesmente Acontece“. Primeiro porque as músicas parece terem sido escolhidas a dedo tamanho é o casamento entre cada uma delas com a respectiva cena do filme. Depois mesmo sem ser um Musical, além de destacar também a passagem do tempo na história, de deixar uma sensação de “minha vida tem trilha sonora“, de quase como uma pausa para um café… É que para mim a Trilha Sonora veio como o diferenciador de ambas as mídias: o filme do livro o qual foi inspirado (“Where Rainbow’s End”, de Cecelia Ahern). Só por conta dela eu já daria os parabéns ao Diretor Christian Ditter! Agora, pelo filme por um todo,  seguem também os votos de uma carreira longa!

A nossa vida é feita de tempo. Nossos dias são mesurados pelas horas… Agarramos uns minutinhos do nosso dia sempre ocupado… bem lá no fundo você se pergunta se… foram gasto da melhor maneira possível.”

simplesmente-acontece_2014_00Em “Simplesmente Acontece” temos sim todos os clichês de uma Comédia Romântica: o “casal” que até levam um tempo para admitirem que estão apaixonados um pelo o outro… o “causador” de um afastamento entre eles… Por aí! Assim, é um filme para os que também amam esse gênero. Que mesmo assistindo sem barreiras, fica um querer que ele traga um diferencial ao mostrar sua história nos levando a se encantar! E nesse tem um sim! Que é o tempo que se vive durante essa tal “separação”. Que diferente da “Cinderela” que dormiu por décadas… A protagonista aqui encarou de frente a virada do destino…

Acho que a vida gosta de fazer isso com a gente de vez em quando; te joga num mergulho em alto-mar e, quando parece que você não vai suportar, ela te traz pra terra firme de novo.”

simplesmente-acontece_2014_02Aliás, há uma tirada ótima sobre as protagonistas dos Contos de Fadas com a realidade das mulheres. Num mundo ainda machista, até em se farrear – beber, transar… – ainda na adolescência pode não ser encarado como uma “despedida” antes de encarar as responsabilidades da fase adulta da vida. Ponto para o suporte que vem por pelo menos um dos próprios pais. Que nessa história vem da relação dela com o pai. Pode até ser um clichê… Mas que não deixa de ser um porto seguro importante na vida de um ser que ainda tem muito a aprender. Destaque também para a atuação de Lorcan Cranitch!

Como a vida é engraçada, né? Bem na hora que você pensa que está tudo resolvido, bem na hora em que você finalmente começa a planejar alguma coisa de verdade, se empolga e se sente como se soubesse a direção em que está seguindo, o caminho muda, a sinalização muda, o vento sopra na direção contrária, o norte de repente vira sul, o leste virá oeste, e você fica perdido. Como é fácil perder o rumo, a direção…

simplesmente-acontece_2014_01Muito embora não se tratando de um Suspense, muito embora tenha ficado com vontade de esmiuçar a vida principalmente dos dois protagonistas, Rosie (Lily Collins) e Alex (Sam Claflin), optei em não trazer spoiler. Até porque o filme também mostra que no mundo de hoje muito do que fica exposto pela internet não é a visão real de cada pessoa: seu dia a dia, seus dramas, seus choros, nem seus momentos felizes. E nem se trata de mentir, muitas das vezes trata-se de omitir. Tal qual Rosie fez em não contar a Alex ao ganhar uma bolsa de estudos e indo então morar nos Estados Unidos. Para Alex nem seria ir atrás do american dream… nem meio que para fugir do cotidiano bucólico de onde cresceram… a questão que ficando ali seria como caminhar pelos pés do próprio pai… Ele queria mesmo ser protagonista da própria história. Ele até tentou colocar Rosie nesse contexto, mas…

Você deveria sair e se divertir, parar de carregar o peso do mundo sobre as suas costas. E parar de esperar por ele.”

simplesmente-acontece_2014_04Rosie e Alex se tornaram amigos ainda no Jardim de Infância. Meio que subvertendo a ordem das coisas onde nessa fase já começam se separar meninas de meninos, a amizade deles os levaram até a trocarem os assuntos mais íntimos. Com isso, até o fato dele ir morar em outro continente ajudou nessa sua tomada de decisão… Seria então algo importante demais em sua vida que não iria compartilhar com Alex. Tudo mais continuaram a compartilhar muito mais via internet… Para Rosie deixá-lo ir era que pelo menos um deles pudesse ir atrás do próprio sonho… Onde o dela seria em ter seu próprio hotel, mesmo que um dos pequenos… Sonho esse que seu pai a incentivava, e que nem seria para não mais trabalhar em abrir portas para os hóspedes do hotel de luxo, mas sim em se livrar do gerente que vivia controlando os horários de todos… Mas…

Às vezes você não percebe que as melhores coisas que irão lhe acontecer estão bem do seu lado…”

simplesmente-acontece_2014_03Bem, se o destino pregou uma peça em Rosie, algumas até bem tristes… Ele também foi generoso… Lei da compensação? Talvez por um olhar a vida por um outro ângulo… E quem sabe assim descobrir certos “presentes” advindos desses dramas que o destino nos impõe… Alguns deles, seriam tremendos spoilers… Assim, até seguindo pelo pano de fundo em “Simplesmente Acontece” que é o tempo… Rosie ganhou uma grande amiga, Ruby (Jaime Winstone). Uma amizade que veio para ficar! Ah! O tempo também mostrou a Alex o significado dos seus “sonhos estranhos“…

Estou tentando encontrar sentido na frase ‘tudo tem uma razão para acontecer’, e acho que descobri essa razão: para me irritar.”

Em “Simplesmente Acontece” tudo está em uníssono! Além da Direção de Christian Ditter e da Trilha Sonora já citados no início… Atuações, com total química entre eles! Um Roteiro afinado, e assinado por Juliette Towhidi; que talvez até por ser de uma mulher conseguiu não deixar cair nos esteriótipos principalmente os personagens femininos. Não tem como não se encantar em especial por Rosie! Um filme que além de me deixou vontade de rever, também me fez querer ler o livro. Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Simplesmente Acontece (Love, Rosie. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Curiodades:
– O livro do qual o filme foi baseado é o “Where Rainbow’s End”, de Cecelia Ahern, e de 2004. Foi publicado no Brasil em 2006 como “Onde Terminam os Arco-Íris”… Mas com o filme, o livro volta com nova roupagem: título igual “Simplesmente Acontece” e com os personagens do filme na capa. E Cecelia Ahern também é autora do livro que inspirou o filme homônimo “P.S. Eu Te Amo”, de 2007″. 
– As frases do filme que permeiam esse meu texto eu as trouxe daqui:
http://www.mensagenscomamor.com/livros/frases_simplesmente_acontece.htm

Trailer Dublado

A Ilha dos Milharais (Simindis kundzuli. 2014)

A Ilha dos Milharais-2014_00Por: Eduardo Carvalho.
A cada primavera, em uma área da antiga União Soviética, fortes chuvas carregam terra fértil do Cáucaso aos rios da região entre a Geórgia e a separatista Abecásia. Formam-se ilhotas no rio Enguri, usadas pelos habitantes do local para o plantio, quando procuram se precaver da escassez provocada pelo próximo inverno.

Indicado pela Geórgia à pré-lista do Oscar de 2015, exibido durante a 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “A Ilha dos Milharais” foi sendo descoberto pelos espectadores, ganhando menção honrosa ao final do evento. A estória do velho que cultiva milho com a ajuda da neta, nessa terra de parcos metros quadrados, é contada com poucas falas. Aqui, tem-se a impressão que o filme guarda semelhanças com o belo “As Quatro Voltas”, mas não. A proposta radical da narrativa do filme de Michelangelo Frammartino propõe uma reflexão sobre vida e morte; em “A Ilha dos Milharais”, não haverá apenas uma representação dos ciclos de criação e destruição. A quietude presta-se a outros propósitos.

A Ilha dos Milharais-2014_01Explorando basicamente o mesmo cenário o tempo todo, a fotografia é um elemento essencial, em conjunto com a narrativa lenta, para que o tempo de cultivo do milharal seja perceptível; mudam apenas luzes e cores, mas não o local da ação. A câmera aberta coloca o público em contato com os protagonistas inseridos na paisagem, e fechando o foco, exibe os sentimentos expressos em seus rostos, para que possamos ler ali as marcas do sofrimento. No entanto, ocorre ouro crescimento, tão rápido quanto o da plantação; de criança, a menina passa a mulher. Ao chamar a atenção de alguns homens às margens do rio, e na breve relação com um visitante inesperado, ela começa a perder a inocência infantil, descobrindo outras realidades.

E é em uma dessas realidades que entra o espectador brasileiro, sem conhecer a história dessa região. Aqui, o filme de George Ovashvili, também co-roteirista, ganha mais sentido, ao expandir seu contexto histórico. Velho e menina estão em uma terra de ninguém – terra de ninguém por duas vezes – conforme indica um dos poucos e certeiros diálogos entre ambos. Todo o silêncio e a comunicação através de gestos e olhares estão plenamente justificados, não só como opção de narrativa fílmica; dentro da perspectiva geopolítica daquele lugar, só quem detém o poder pode expressar-se com alguma liberdade. Mas isso ocorre somente ali?

O terceiro longa de Ovashvili une elementos tão díspares como beleza e política com precisão, conseguindo ainda extrair um par de grandes atuações dos protagonistas. O ator turco Ilyas Salman, com mais de 40 filmes no currículo, transmite toda uma esperança cansada nos gestos e expressões, sem necessitar de palavras. E a estreante Mariam Buturishvili mostra medo e vulnerabilidade na menina, diante das transformações hormonais que ocorrem dentro de si e ao seu redor.

Nessa sociedade contemporânea marcada por caos e excesso, descobrir “A Ilha dos Milharais” é mais do que um presente. É um convite para pensarmos sobre nossas reais necessidades de comunicação, sobre a inevitável passagem do tempo e seus ciclos. E, acima de tudo, nos mostra que nada é permanente na vida. Nem mesmo a terra sob nossos pés.