OLHO NU (2014). O Ney Matogrosso dos Palcos e da Vida.

ney_matogrossoO documentário de Joel Pizzini sobre a trajetória do prolífico artista Ney Matogrosso, foge aos padrões comuns. Para começar, não há depoimentos de outras pessoas sobre o cantor, salvo um ou outro pequeno comentário sempre sem legendas ou marcações de tempo, que parece não ter importância alguma na narrativa habilmente fragmentada. É o próprio Ney quem fala de si mesmo o tempo todo. Ele critica e analisa suas imagens de arquivo e falas do passado com a autoridade de seus mais de setenta anos.

ney-matogrossoControversamente à sua aparente sisudez, Ney aparece despudorado, com roupas e maquiagem extravagantes que o tornaram famoso, ou completamente nu, integrado a uma natureza selvagem de lagos, matas e bichos que diz fazer parte, como sintetiza a bela imagem do imenso caracol que lhe acaricia o rosto. É curioso assisti-lo falando afirmações conhecidas como quando diz que não acha o próprio corpo bonito, mas usa como se fosse. E até acreditam. Complementa.

A narrativa recheada de trechos de letras que ele já cantou e comentários quase sempre muito sérios e fortes ilustra uma vasta produção musical de qualidade, incluindo as músicas do lendário grupo Secos & Molhados com cenas inéditas do antológico show no Maracanãzinho nos anos 70.

Nem mesmo as suas eventuais e desastrosas declarações políticas, sob a justificativa de uma suposta subversão congênita, conseguem arranhar uma carreira íntegra, rica e bela que o filme consegue registrar em cada fotograma. Ney é vencedor e sua força não teme as rugas ou a morte, como na cena que mostra Paulete e Cazuza numa reunião e se pergunta por que não foi embora na leva de uma doença que matou tantos amigos nos anos 80. Às vezes, mais de um funeral por dia, lembra entristecido na condição de sobrevivente.

Como já cantou tantas vezes com seu sangue latino: O que me importa é não estar vencido.

Carlos Henry.

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Serra Pelada (2013)

serra-pelada_cartazSerra Pelada de Heitor Dhalia é um filme incrível. Incrível as reconstituições, figurinos, os cenários, com montagem perfeita, com perfeitas as inserções de imagens reais da época, incluindo os noticiários, fotografia, edição e o roteiro amarra muito bem o drama das personagens fictícias tão reais e para a minha alegria no final uma cena feliz!

Eram garimpeiros, mas poderiam ser jogadores de futebol ou qualquer outra profissão que possibilitasse a realização dos sonhos pela posse repentina de muita grana e o acesso aos caminhos do poder.

A narrativa em primeira pessoa feita pela personagem Joaquim (Juliano Andrade) coloca a gente dentro do espírito das cenas que se sucedem possibilitando que nossa  percepção vá além da ação, deixando o filme longe de ser apenas um filme de ação.

serra-pelada_joaquim-e-julianoAmigos de infância fracassados cada um a seu modo, Joaquim e Juliano (Juliano Cazarré) vão à corrida do ouro. Juliano não tem família, é boxeador de apostas e foge de uma dívida com um agiota que o ameaça. Joaquim é professor que fica desempregado, com mulher grávida e decide que seu filho será rico. Um é grande e forte o outro magro e mirrado. Poderia ser uma dupla tipo Master and Blaster de “A máquina mortífera”, mas o fortão da história decide pensar, descobrir que tinha talento e gostava de matar e dar asas às suas ambições.

serra-pelada_os-amigos-de-infanciaO ouro transforma Juliano e o sonho não abandona Joaquim. Se a sede de poder traz para Juliano a liberação de seus instintos opressores e assassinos, onde o ter sobrepõe a outros valores, é a fidelidade a tônica de Joaquim. Fiel ao amigo, fiel ao projeto de enriquecer para o bem de sua família. Juliano se integra perfeitamente ao ambiente violento, torna-se personagem do faroeste caboclo que era Serra Pelada, uma terra onde a lei era a força, tirania e corrupção.

serra-pelada_garimpoO filme de milhares de figurantes é enxuto focando poucos personagens, enfatizando no drama de cada um em detrimento de entrar em aspectos históricos da loucura que foi tudo aquilo e o contexto político da época. O que não deixa de explicar os jargões locais, a estrutura da exploração e venda e o seu domínio tomado pelo governo militar com mudanças das leis do garimpo que passou a ser oficialmente o único comprador de ouro, proibir a presença de mulheres o que “privilegiou” os homossexuais – chamados Marias (que com a chegada da AIDS foram expulsos do garimpo) -, armas e bebidas alcoólicas o que não evitou as bebedeiras, prostituição, tiroteios e mortes  transferidos para 30 km adiante.

serra-pelada_01Juliano e Joaquim prosperam e tornam-se proprietários de um pequeno barranco tornando-se prisioneiros da febre do ouro, num mundo onde se busca e encontra riqueza, mas onde não há nenhum interesse em se tornar mais civilizado.

serra-pelada_sophie-charlotte-e-mateus-nachtergaleO barranco desperta o interesse dos donos de vários outros e Juliano resolve a situação à moda local. Um deles é Carvalho (Matheus Nachstergale), mantenedor de Tereza (Sophie Charlotte)  com quem Juliano irá se envolver. O outro é vivido por um Wagner Moura calvo e carismático, gângster e até engraçado, num papel menor, mas de muita importância na trama.

Wagner interpretaria Juliano, mas devido à proibição de gravar no local e a necessidade de se recriar todo o ambiente atrasou e impediu o ator de interpretar esse papel, tal qual Daniel Oliveira que daria vida ao Joaquim.

Esse é um filme que vale a pena ser visto e sua beleza justifica os 11 milhões da produção e os quase 5 anos que Heitor demorou para concluir o roteiro. Uma obra de arte.
Nota: 9

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte I

festival-do-rio-2013_os-documentarios– OS DOCUMENTÁRIOS:

BLACKFISH – FÚRIA ANIMAL (BLACKFISH.) é um documentário esclarecedor e reflexivo de Gabriela Cowpertwaite contando a chocante estória das baleias orcas criadas no famoso parque temático Seaworld em Orlando. A velada crueldade do cativeiro explode em terríveis ataques a seres humanos culminando na noticiada morte de uma treinadora do show.

INVADINDO BERGMAN (Trespassing Bergman) de Jane Magusson e Hyne Pallas. Para os fãs do cultuado e atormentado diretor Ingmar Bergman, somente. Trata-se de uma visita de cineastas famosos a sua protegida residência na inóspita Ilha Faró no mar Báltico. Recheado de cenas de seus filmes e depoimentos curiosos, infelizmente o documentário pouco revela de seus mistérios e segredos.

EU SOU DIVINE (I am Divine) de Jeffrey Schwarz desvenda a estrela preferida de John Waters como nunca vista antes. O gordinho Harris Glenn Mistead de Baltimore sempre se sentiu diferente, mas nunca poderia imaginar alcançar uma carreira meteórica transformada numa drag abusada e muito famosa. O documentário é perfeito simplesmente porque não é superficial. Supre a curiosidade dos fãs revelando detalhes muito além da conhecida, escatológica e antológica cena das fezes caninas de “Pink Flamingos”. Divine fazia shows, cantava e começou a ser reconhecida por trabalhos mais sérios como “Hairspray” quando teve sua breve vida interrompida. Talento genuíno.

CORREDOR DA MORTE – 2 Retratos (On Death Row – 2 Portraits) conta com a direção e a voz gutural do renomado cineasta Werner (Nosferatu) Herzog para apropriadamente contar estórias macabras de dois condenados à morte nos Estados Unidos. Os dois casos impressionam e muito. O primeiro episódio fala sobre Blaine Milan acusado de matar a marteladas a filha de 13 meses num suposto ritual de exorcismo. A ignorância dos entrevistados revela o grau de estupidez que culminou na tragédia. Uma das mulheres afirma que tudo que viu no filme “O Exorcista” aconteceu de verdade. Já Robert Fratta, um fisiculturista atinge o ápice do narcisismo quando decide matar a esposa revelando uma frieza assustadora. Seu discurso baseia-se em dogmas nazistas e teorias de racismo incontestável segundo sua concepção doentia. Apesar de sua arrogância, é possível notar o medo infinito que o envolve com a proximidade da execução. Absolutamente aterrador.

A BATALHA DE AMFAR (The Battle of Amfar) é um documentário conciso, mas esclarecedor e muito bem realizado sobre os últimos avanços nas pesquisas para vencer o vírus HIV.  A fundação AMFAR foi criada em 1985 no auge da epidemia, tendo à frente a cientista Dra. Mathilde Krim e o ícone do cinema Elizabeth Taylor que muito contribuiu para a luta contra a doença. Após a morte da estrela, outros artistas abraçaram a causa como Goldie Hawn que deu o ar de sua graça no Espaço Rio em Botafogo. Muito apressada, Goldie mal respondeu a uma pergunta no pequeno debate, não falou com os fãs nem com os repórteres e ficou um bom tempo no banheiro. Será que teve um mal súbito?

FOGO NAS VEIAS (Fire in the Blood) também trata do tema da Aids concentrando-se na má distribuição dos milagrosos remédios ao redor do mundo. Dylan Mohan Gray preferiu um tom didático ao seu documentário o que o tornou um pouco modorrento, embora importante.

OS FILHOS DE HITLER (Hitler’s Children) de Chanoc Ze’evi mostra como vivem os descendentes dos poderosos nazistas ligados à figura do líder. A convivência com a sociedade é difícil por conta do estigma que carregam com seus nomes. Uma cena emocionante é quando um deles submete-se às perguntas de filhos de suas vítimas em plena Auschwitz, o célebre campo de concentração onde morreram muitos judeus na guerra. Sentimentos de perdão e condenação se misturam ao evento.

CIDADE DE DEUS – 10 ANOS DEPOIS de Cavi Borges mostra o destino dos participantes do premiado filme de Fernando Meirelles desenhando um autêntico panorama do país cheio de desigualdades e mazelas. A conclusão é que, apesar do filme ter sido reconhecido mundialmente, poucos dos que debutaram na fama conseguiram manter o ritmo do sucesso meteórico da época do lançamento do filme como Seu Jorge, Alice Braga e Thiago Martins. A maioria sucumbe ao triste esquecimento na sombra de uma obra premiadíssima que rende muito dinheiro até hoje.cidade-de-deus-10-anos-depois

As Horas (2002). Uma Leitura Através da Filosofia de Martin Heiddeger

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As Horas” é um romance escrito em 1998 por Michael Cunningham e que lhe rendeu, no ano seguinte, o prêmio Pullitzer para a categoria ficção. Em 2002, sob direção de Stephen Daldry e atuações de Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep nosapéis principais e outros grandes nomes como John C. Reilly e Ed Harris como coadjuvantes, “As Horas” se tornou um dos grandes clássicos do cinema e traz consigo uma profunda reflexão em torno da angústia heideggeriana. Diferente do que acontece com frequência na transposição do livro para o cinema, “As Horas” é uma película formidável, que merece todos os tipos de elogios de seus telespectadores, contando com atuações espetaculares dos atores e atrizes que compõe o time, que traz a essência do livro com toda a perfeição e fidelidade necessária para a realização de uma grande obra cinematográfica.

O livro conta um dia de três mulheres em períodos distintos, entrelaçadas por um elo em comum: o romance “Mrs. Dalloway”. Durante o decorrer deste dia, iremos observar os contrastes e as imensas semelhanças na vida destas três mulheres, que compartilham o principal objeto de estudo para a realização deste texto: a angústia. A primeira cena do filme, que funciona como prelúdio, é uma descrição dos últimos momentos da vida da escritora britânica Virginia Woolf (25/01/1882 – 28/03/1941 – interpretada por Nicole Kidman), e reconta a história de seu suícidio, o que de fato aconteceu, derivado das constantes crises depressivas e acontecimentos que agravam o seu estado existencial, como a destruição de sua residência em Londres , durante o bombardeio realizado pela Força Aérea alemã durante a 2º Guerra Mundial.

Na manhã de 28 de Março de 1941, Virginia Woolf escreve dois bilhetes de despedida, um para sua irmã e outro para seu marido, Leonard Woolf, esclarecendo os motivos que lhe levaram a se suicidar. Escrita-se que estas sejam as ultimas palavras de Virginia para seu marido:
“Querido, Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade. Você sempre foi paciente comigo e realmente bom. Eu queria dizer isto – todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V.”

A cena é retratada de forma magistral e exibe a nobre Virginia Wolf, escrevendo os bilhetes, abotoando os botões de seu roupão, fechando a porta de sua casa, caminhando por um bosque, colhendo pedras e colocando-as em seus bolsos e, finalmente, entrando num rio próximo a sua casa, paralelamente o seu marido entra em sua casa, encontra os dois bilhetes e os lê. Enquanto toda a cena se desenvolve, ouvimos a voz de Nicole Kidman dizendo os trechos do bilhete publicado acima. A cena é triste, porém muita bela e triunfante.

E é assim que se inicia “As Horas”, um filme sombrio e que nos leva de volta a nós mesmos, e nos faz refletir acerca de nossa existência.

Em 1923, observamos o dia de Virginia Woolf enquanto ela começa a escrever o romance “Mrs. Dalloway”, e planeja contar toda a história de uma mulher em um único dia. Paralelamente temos uma constante e sofrível luta de Virginia contra a sua própria loucura.

Em 1951 temos Laura Brown (interpretada por Julianne Moore), uma mulher que leva uma vida praticamente perfeita mas que sofre de um vazio sem explicação. O seu dia gira em torno dos preparativos para comemorar o aniversário do marido Dan Brown (interpretado por John C. Reilly), na leitura do livro “Mrs. Dalloway”, da autoria de Virginia Woolf, além de ficar evidente a sensação de se sentir estranha dentro de seu própria habitat. Laura está grávida e tem um filho de três anos de idade.

Em 2001, Clarissa Vaughan (interpretada por Meryl Streep) organiza uma festa para comemorar o prêmio literário que seu grande amigo Richard (interpretado por Ed Harris) – ex-namorado, homossexual, aidético e prestes a morrer – ganha por reconhecimento a um livro de sua autoria. A vida de Clarissa só tem sentido ao vivenciar a vida de Richard – que trata a amiga sempre por “Mrs. Dalloway” – a qual observamos a sua enorme angústia ao se deparar com o estado terminal de seu amigo, assim como as constantes tentativas de lhe proporcionar ânimo e alegria, até como forma de combater a sua própria angústia.

É notável o movimento a qual se desenrola toda a trama, sendo a ligação e os paralelos entre as três protagonistas que fazem de “As Horas” umas das grandes películas de nosso tempo. De tal forma, o livro não deve ser diferente. Apresentada a trama, vamos aproximar “As Horas” com algumas partes da filosofia heideggeriana. Primeiro é preciso retomar que, sendo a filosofia de Martin Heidegger uma filosofia muita abstrata, fica difícil entrar em consenso quanto a alguns significados, sendo a intuição o principal método utilizado para a compreensão da obra de Heidegger. Uma vez que possamos dizer que a angústia ôntica é aquela que tem origem no intra-mundano e que a angústia ontológica não tem origem e é causa de si mesma, representado apenas a dor e aflição de um nada sem explicação, estamos aptos a iniciar a reflexão.

A escritora britânica Virginia Woolf é vítima de fortes crises depressivas, têm consecutivos quadros de histeria e, consciente de seu estado mental, enfrenta diversas batalhas com a sua própria loucura até o momento que se sente incapaz de vencer sua doença e acaba cometendo suicidio. É evidente a angústia de Virginia, que está sempre a esperar que algo aconteça, e a ansiedade presente em cada hora de seu dia, onde é difícil conciliar os pensamentos com a realidade. Embora tenha o constante apoio de seus familiares, Virginia sente que seu quadro é irreversível e para aliviar as dores de seus sentimentos, procura fugir o máximo possível de si e do mundo, como que para procurar algo sem saber exatamente o que.

Podemos nos basear analisando duas cenas onde a tentativa de fuga e a oscilação do pensamento: uma é quando Virginia decide ir à estação de trem de sua cidade e, após se encontrada por seu marido, pede para sair da região a qual habitam em troca de uma cidade mais movimentada. É a tentativa de Virginia para acreditar que o seu problema se encontra na vida a qual ela vive, e que a mesma não representa a sua própria vontade. Assim como Virginia, existe uma gama de pessoas que procurar exteriorizar os seus problemas e acaba procurando uma solução fora de si. São inúmeros os casos de pessoas que vivem angustiada e para acabar com este sentimento escolhem mudar de cidade, de carro, trocar o guarda-roupa, reformar uma casa, etc. No princípio, existe uma disposição para que as coisas melhorem, visto que a novidade faz que a nossa mente se distraia de forma mais acentuada, porém, conforme o passar do tempo, a novidade deixa de existir e você passa a se encontrar consigo mesmo, se reencontrando com a angústia e tendo a necessidade de se distrair novamente.

A outra cena é quando Virginia escreve, num estado profundo, o seu livro “Mrs. Dalloway” e observamos que a protagonista da história é um retrato vivo da própria Virginia sendo ela por si mesma, ou seja, sem influência alguma do mundo exterior ou da sua própria doença. É durante a escrita que Virginia vive a angústia ontológica, que permite que se encontre com o seu Dasein – que está sempre aberto para o ser – e ela pode “vir a ser o que se é”, sendo que ela passar a existir até o momento em que ela para de escrever e se reencontra com sua vida. Heidegger diria que esta é uma vida inautêntica, pois sua angústia, que ele classificaria como ôntica, tem origem no intra-mundana, ou seja, tem causa no mundo exterior.

Neste caso, a origem é patológica, proveniente de uma doença como a depressão. Além disto Virginia está sempre a fugir de si mesma, tanto é que opta pelo suicídio para acabar com o seu sofrimento e o sofrimento de seus próximos, numa atitude de não aceitação. Esta não aceitação é que faz com que Virginia, mesmo atingindo a angústia ontológica em diversos momentos, procure uma explicação – até como princípio de distração – para sua própria angústia e acabe migrando para o estado de angústia ôntica, que é onde podemos nos arriscar a contextualizar os suicidas, que utilizam da morte como distração para por fim à angústia.

Laura Brown acorda sozinha em sua cama. Seu olhar é absorto. Fica claro que ela se sente uma estranha. A única coisa que parece lhe interessar é o romance “Mrs. Dalloway” que está em seu criado-mudo. Ao levantar observa que o seu marido já está de pé e que prepara o café-da-manhã para eles. Ele diz que não quer incomoda-la, afinal ela está grávida. Ele está alegre, alias é o seu aniversário. Laura finge para ele e para o seu pequeno filho uma sensação de felicidade que não existe. Ele se despede e vai trabalhar. Laura Brown acredita que ela deve fazer algo para comemorar o aniversário do bondoso marido e decide forçosamente a fazer um bolo. Mas é difícil. Laura não se sente à vontade, não se sente bem com a sua vida. Ela está angustiada e sua angústia não tem origem em nenhum acontecimento interior ou exterior. Esta á a angústia ontológica. Laura Brown passa a existir para Heidegger. Algo pede para ela se entregar a esta angústia, contudo ela hesita, não sabe o por que, da mesma forma que ela também não sabe porque se sente assim. Todos seus movimentos são incertos. Laura recebe a visita de uma antiga amiga e num momento acaba lhe beijando a boca, o que deixa o ambiente difícil e pesado, e faz com que sua amiga vá embora.

Nesta ultima cena podemos dizer que a amiga que Laura Brown procurava atender a necessidade de dar vida a esse apelo da vida causada por sua angústia ontológica, que pede insistentemente para fazer algo mas sem dizer o que é este algo, não obstante também podemos dizer que Laura Brown fez algo que sempre quis fazer, e estava no processo de humanização quando decidiu trocar sua vida inautêntica por uma vida autêntica, onde ela pudesse realmente fazer aquilo que seu ser sempre reclamou.

Posteriormente Laura Brown pega o bolo que estava preparando para o seu marido e o destrói. O fato dela preparar o bolo era algo que estava presente em uma vida que não era sua e neste processo de humanização não fazia sentido algum continuar com aquilo.

Ao continuar a leitura de “Mrs. Dalloway”, Laura Brown planeja o seu próprio fim, visto que ela não enxerga uma saída para se livrar de seu estado de sofrimento. Ela pega o seu filho Richie, leva para uma vizinha cuidar e se dirige à um hotel, onde retoma a leitura de seu livro. Durante todo o decorrer do dia de Laura Brown também é interessante analisar um personagem que também é vítima de uma angústia, embora seja ôntica, e sofre tanto quanto os demais personagens: é o pequeno Richie, que percebe o quanto a sua mãe sofre e sente a inutilidade em não poder fazer nada para alterar este quadro. Ele acompanha cada momento do dia de sua mãe e percebe o quanto ela é infeliz. Ele percebe inclusive o momento em que ela deseja se matar, o que é retratado com o seu desespero ao ser deixado na casa da vizinha enquanto a sua mãe se dirige ao hotel. Contudo a sua angústia tem origem no sofrimento de sua mãe. Richie vive uma vida inautêntica por isto.

Após terminar a leitura de “Mrs. Dalloway”, Laura Brown decide não mais se matar. Ela retorna a casa da vizinha para pegar Richie, prepara o bolo do marido e depois observamos a comemoração do aniversário em família. Porém o olhar de seu filho deixa claro que Laura Brown ainda continua num estado que o preocupa. É claro que, até então, podemos concluir que a leitura de “Mrs. Dalloway” no hotel teve um efeito decisivo na vida de Laura, embora só no final do filme iremos descobrir o porque, mas o que podemos dizer já é que o livro proporcionou que Laura se encontrasse com o seu Dasein e permanecesse a viver não mais em estado de dúvida, porém existisse em estado consciente e controlado. A partir daquela experiência ela tomou parte de sua vida e passou a controlar todos os acontecimentos posteriores. Ela passou a se conhecer. Clarissa Vaughan está animada. Seu melhor amigo, Richard, acaba de ganhar um prêmio em relação a um romance que escreveu. Ela organiza a festa que fará em homenagem à ele.

Alias, Clarissa é especialista em dar festas. Homossexual, observamos que Clarissa também se como simular a alegria e a felicidade, sempre na tentativa de quebrar a solidão, tanto a sua como a dos outros. Porém fica claro que ela também não se sente confortável com sua própria vida. Ao se encontrar com o deprimente Richard, em estado sofrível e prestes a morrer, Clarissa tenta animar o Richard com a sua própria festa, porém ele não vê motivos para euforia. Não é a festa que vai deixá-lo bem, não é a festa que irá amenizar a sua angústia ôntica, que tem origem na sua expectativa de morte e no percurso de sua má sucedida vida. Richard ironiza Clarissa dizendo algo como “Mrs. Dalloway dando festas para quebrar o silêncio”. Esta é uma tentativa de Richard de dizer para deixar o que está como está, que não vale a pena mascarar a verdade, para ela parar de ficar simulando a vida e ficar fugindo de si mesma. Richard sabe que irá morrer. Ele não gosta de si e não gosta das pessoas, com exceção de Clarissa.

Clarissa sofre ao ver o amigo sofrer, a sua angústia é ôntica e tem origem no sacarmo e na antivida de Richard. Ela afirma que só é feliz na presença do amigo. Clarissa vive uma vida inautêntica, vive uma vida que não é sua. Para Heidegger, ela não existe. Ela não atende o chamado de seu Dasein. Ela prefere espantar tudo com flores e festas. Ela prefere tapar os ouvidos ao invés de escutar o seu ser. Naquela tarde, numa das visitas de Clarissa para definir detalhes da festa, Richard resolve se suicidar ao se atirar pela janela de seu apartamento. Clarissa observa tudo e se sente inútil, pois ela sempre teve a certeza de que poderia fazer algo que deixasse o seu amigo feliz. Ela se sentia assim justamente porque não vivia a sua vida. Então surge a apoteose da obra: durante o funeral, todos os participantes ficam chocados ao saber da visita da mãe de Richard. Clarissa sabe que a mãe de Richard abandonou ele e a sua irmã, assim que ela nasceu, e nunca mais deu notícias. Esta era a maior mágoa de Richard.

Sua mãe não é nada mais nada menos do que Laura Brown e descobrimos que Richard é o pequeno Richie que viu de perto toda a angústia de sua mãe. Laura explica que havia algo dentro de si que lhe dizia que aquele não era o seu lugar e que lhe clamava por vida. Ela havia decidido se matar numa tarde em que ela se hospedou num hotel. Porém ela havia decidido que não faria isto naquele momento e planejou todo o seu futuro: assim que ela tivesse o bebê, iria abandonar toda aquela vida ilusória (inautêntica) e passaria a viver (existir) da forma que realmente gostaria. Ela prometeu a si mesma que não iria se arrepender e que não iria olhar para trás. Ela disse á todos que havia escolhido viver. Ela diz isto serena, confiante, e com o olhar mais leve do que a Laura que observamos antes.

Heidegger diz que a felicidade não é possível como um sentimento simulado quando você decide viver uma vida autêntica, aquela felicidade proveniente de um sentimento de distração e de apego, mas diz que surge um sentimento de libertação, de conhecimento e um certo orgulho que nos faça crescer de tal maneira que poderemos dizer qual é o mundo que não queremos viver. E é este sentimento que encontramos na fala de Laura Brown ao relatar a sua experiência. Ninguém está mais apto a lhe julgar, e sentimos uma certa comoção geral.

A lição que fica desta cena é que não há vida ao se agradar somente os outros. Laura poderia viver uma vida dedicada aos filhos e ao seu marido, mas não é o que ela queria, então por que deveria ser assim? Por qual motivo ela deveria deixar de fazer aquilo que o seu ser ansiava? Quando passamos a viver uma vida que não é nossa apenas para agradar os outros, quando é que alguém passará a viver a sua própria vida de forma autêntica? Quando é que a vida passará a existir? Quando é que viveremos? Ao término do filme, observamos novamente a cena em que Virginia Woolf caminha adentro ao rio e comete o suícidio que entrou para a história como o fim da escritora. O dia termina. É o fim de “As Horas”. É por todos os argumentos citados neste texto que vale destacar “As Horas” como uma oportunidade de releitura da obra de Martin Heidegger, justamente por encontrarmos ingredientes que fazem parte da filosofia do último grande filósofo de nosso tempo. E que esta obra nos sirva para refletirmos durante todos os momentos de nossa vida.

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Link IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0274558/
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=he8cR7skklA

As Horas (The Hours). 2002. EUA. Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare. Nicole Kidman, Juliane Moore, Meryil Streep, Stephen Dillane, Miranda Richardson, George Loftus, Charley Ramm, Sophie Wyburd, Lyndsey Marshal, Linda Bassett, Christian Coulson, Michael Culkin, John C. Reilly, Jack Rovello, Toni Collette, Ed Harris. Baseado no livro de Michael Cunningham.

Cazuza – O Tempo Não Para (2004)

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Sou ariano. E ariano não pede licença, entra, arromba a porta. Nunca tive medo de me mostrar. Você pode ficar escondido em casa, protegido pelas paredes. Mas você está vivo. Essa vida é para se mostrar. Só quem se mostra se encontra. Por mais que se perca no caminho.”

Mesmo não sendo mais a primeira vez, ao rever ‘‘Cazuza – O Tempo Não Para‘, as lágrimas desceram em alguns trechos… marieta-severo_como-lucinha-araujoPrimeiro, foram juntas com a mãe dele, ali naquele corredor de um hospital. Lucinha Araújo muito bem interpretada por Marieta Severo. Numa época que a Aids matava, a esperança no coração de uma mãe, era o mesmo que clamar por um milagre. Até que ele veio. Num novo remédio. Numa nova droga, lícita. Que deu ao seu filho um tempinho a mais até para uma despedida no, e ao palco… Depois as lágrimas desceram naquele abraço do pai. Mesmo que o filho não tenha sido tudo o que ele queria… Mesmo assim, do seu jeito o amava e o queria vivo por mais tempo. Meus aplausos aos dois, que trouxeram ao mundo um grande Poeta da Música! E um em especial a Lucinha Araújo pela Sociedade Viva Cazuza.

Meu amor, meu cúmplice. Meu par na contramão. Você não mudou em nada (nada, nada, nada). Eu também não, que bom!

Ainda antes de entrar no filme… Quero deixar registrado Meus Aplausos também ao Brasil que em 2001 quebrou patentes de remédios anti-Aids. Peitando uma das grandes potências mundiais: a indústria farmacêutica. Um início de muitas vidas sendo salvas no mundo. Bravo! E se alguém ainda vier com a desculpa que os infectados foram por manter uma vida sexual desregrada, lembrem-se de Henfil. Que fora infectado numa transfusão de sangue. Mas voltando a vida sexual com vários parceiros, não custa nada se prevenir. No filme ‘Na Cama‘, eu deixei meus aplausos por terem mostrado essa parte: na paradinha para colocar a camisinha. Há um outro filme que mostra que é melhor treinar antes, sozinho em casa, como se coloca o preservativo, é o “O Virgem de 40 Anos’.

Não escondam suas crianças. Nem chamem o síndico. Nem chamem a polícia. Nem chamem o hospício, não. Eu não posso causar mal nenhum. A não ser a mim mesmo.

Ainda deixando mais um registro. Que para quem conhece meus textos, sabem que eu não curto nada as drogas. Evito até as lícitas, com uma refeição saudável. Assim, o filme cumpriu bem em não esconder o fato de quem se drogava. Em todas as classes sociais. Talvez ainda numa de pós Woodstock, onde o mundo das drogas era quase um santuário, só viram a excitação momentânea. Esquecendo, ou não querendo ver a realidade: que essa fantasia cobra caro. Pois nem todos conseguem sair facilmente. E trazendo para a atualidade, esse mundo aumentou e muito a violência urbana. Enquanto houver procura, haverá mercado.

Estou pedindo, A tua mão. Me leve para qualquer lado. Só um pouquinho, De proteção, Ao maior abandonado.

cazuzaAgora sim, entrando no filme… Falando desse jovem contestador por meio da poesia da sua música. Eu já comentei que por vezes, um talento de alguém ainda jovem vem à superfície quando um adulto com um olhar mais apurado fornece as ferramentas certas. Bendita a hora em que João Araújo (Reginaldo Farias) colocou o seu garoto Cazuza (Daniel de Oliveira) aos cuidados do Zeca (Emílio de Melo). Pois esse, ao lhe dar um bloco e um lápis, deu a ele a chave. Cazuza a partir daí, nos presenteou com suas letras belíssimas.

Quando a gente conversa, Contando casos, besteiras. Tanta coisa em comum. Deixando escapar segredos. E eu não sei que hora dizer, Me dá um medo, que medo. É que eu preciso dizer que eu te amo, Te ganhar ou perder sem engano. É, eu preciso dizer que eu te amo, Tanto.

Cazuza, continuando a sua “vida louca, vida breve“… vai além, em querer cantar Músicas, e não apenas o ritmo Rock. Como a divulgar a mensagem contida nelas. Assim, segue carreira solo. Se desliga da banda Barão Vermelho. Por querer também cantar belos Sambas…

Ainda é cedo amor. Mal começaste a conhecer a vida. Já anuncias a hora da partida. Sem saber mesmo o rumo que irás tomar…” (Cartola)

daniel-de-oliveira_e_cazuzaDaniel de Oliveira ao dar tudo de si nessa magistral interpretação, deu a nós mais uma oportunidade em ver Cazuza. Como uma última despedida. Minhas lágrimas também desceram no final. Valeu Daniel! Bravo Cazuza! Deixou um belo legado de músicas belíssimas. Verdadeiras poesias!

O poeta está vivo, com seus moinhos de vento, A impulsionar a grande roda da história. Mas quem tem coragem de ouvir. Amanheceu o pensamento. Que vai mudar o mundo, Com seus moinhos de ventos.” Grata Frejat! É, o Poeta continua vivo em nossos corações!

Um filme para ver e rever sempre. Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Cazuza – O Tempo Não Para. 2004. Brasil. Direção: Sandra Werneck e Walter Carvalho. Elenco: Daniel de Oliveira (Cazuza), Marieta Severo (Lucinha Araújo), Reginaldo Farias (João Araújo), Emílio de Melo (Zeca – Ezequiel Neves), Cadu Fávero (Roberto Frejat), Dudu Azevedo (Guto), Leandra Leal (Bebel –  Bebel Gilberto), Andréa Beltrão (Malu), Débora Falabella (Denise – Denise Dumont). Gênero: Drama. Duração: 98 minutos. Baseado no livro “Só as Mães São Felizes”, escrito pela mãe do cantor, Lucinha Araújo.

As Testemunhas (Les Témoins)

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O melhor do filme de André Téchiné não é o retrato documental de uma doença fatal que surgiu no início da década de 80 e sim o roteiro preciso e envolvente que lida com a violenta mudança comportamental que começou naquela época e segue até os dias de hoje por conta da epidemia.

Conta a estória de um jovem gay promíscuo que se divertia em parques, banheiros e boates até conhecer um senhor médico que se apaixona por ele. Nesta época se envolve com um policial casado e descobre ser portador de um misterioso vírus. A situação mudará completamente a vida de todos os envolvidos.

Curiosamente, não é um filme triste embora choque com a crueza de algumas cenas. O engenhoso roteiro elabora situações que extraem momentos de reflexão, beleza e até sensualidade de um acontecimento aparentemente terrível. Os diálogos são ricos especialmente quando tratam dos sentimentos que envolvem a doença como a vergonha, o medo, o preconceito e a sensação de perda.

Les témoins conta com um elenco afinado que inclue Michel Blanc e Emmanuelle Béart e uma música recorrente que ajuda a compor o clima que evita a tragédia comum em todos os filmes com este tema, vislumbrando a esperança sempre que possível, como na seqüência final com o barco atravessando o mar num dia claro de sol.

Por: Carlos Henry.

As Testemunhas (Les Témoins). 2007. França. Direção: André Téchiné. Elenco: Michel Blanc (Adrien), Emmanuelle Béart ( Sarah), Sami Bouajila (Mehdi), Julie Depardieu (Julie), Johan Libéreau (Manu), Constance Dollé (Sandra), Lorenzo Balducci (Steve), Alain Cauchi (Sheriff). Gênero: Drama. Duração: 112 minutos.