Lemon Tree (Etz Limon)

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Um filme sensível, de belíssima fotografia com excelente e linda atriz. Beleza a despeito da idade ou justamente por causa dela, me pareceu uma perfeita palestina retratando a Palestina. Salma Zidane (Hiam  Abass), numa primeira cena aparece cortando limões e fazendo compotas. Vê-se em suas mão a habilidade de quem breve terá um limão não azedo mas muito amargo para cortar…

O filme recheado de muitas sutilezas, delineados por clarezas deixou-me ligeiramente deprimida por sua carga de injustiças e dominações daquelas que nada podemos fazer a respeito até que percebemos que por maior que seja o oponente e por menor que seja o oprimido, notamos o quanto de covardia pode haver nesse clichê “o que eu posso fazer?

Vive Salma com seus mais de 40 anos, a plantar seus limões, a cuidar do seu pomar, plantado há mais de 50 anos por seu pai. O maior adubo das árvores são com certeza, história e lembranças, e  seus frutos transformam-se em limonadas que nenhuma personagem deixou de exclamar como deliciosa.

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Entre muita solidão e algumas lembranças, Salma vai levando a vida, viúva, com filhos criados vivendo distante, até o dia em que ganha um vizinho, de nome Israel, ministro da defesa do Estado homônimo. Um chefe do Serviço Secreto supõe que o pomar de Salma seria o um caminho estratégico para terroristas que quisessem atentar conta a segurança do ministro. Ela recebe uma carta comunicando o fim do seu pomar e que seria indenizada por isso. Começa aí, um pesadelo temperado por esperança e perseverança. O primeiro passo é traduzir a carta escrita em hebraico. O segundo buscar ajuda. O filho que mora nos EUA, não pode sequer terminar com tranqüilidade o telefonema; a filha casada e com 2 ou 3 filhos e marido é mais comovida com sua própria penúria que pelo drama da mãe e, no local onde estão apenas homens onde ela consegue de um “amigo” a tradução da carta. Tudo o que ela consegue saber além do conteúdo, é que nada pode ser feito, arbitrariedade similar já ocorrera com todos por ali e ela, palestina, não pode aceitar nenhum dinheiro israelense… O egoísmo que sacode por lá é o mesmo que paira por cá…

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Salma Zidane contrata um advogado (Ali Suliman), indicado pelo genro. Eles vão à corte onde sequer conseguem falar. Ela decide recorrer a Suprema Corte. A partir daí, sentimentos desdobram-se diante de atos e fatos. É sutil e delicado porém perceptível o envolvimento e quase sedução madura de quem não pretende uma entrega mas compreende o direito feminino de mostrar-se bela: Numa cena onde ao atender o advogado que bate à porta, ela decide não usar seu hijab; nas cenas onde ela passa o seu baton e naquela, em que ela tira o mesmo baton para atender alguém que chega e que não é o advogado. A delicadeza com que o medo é mostrado é a mesma que mostra o modo das personagem ir em frente.

É clara a solidão de Salma quando ela conta que quando não há uivos de lobos, ela se sente só e quando eles uivam ela se sente uivando com eles. É claro a sua obstinação quando ela em uma única frase resume a espinha dorsal de todo o filme: “eu já sofri demais” (e por isso exatamente por isso, ela vai à luta e não entrega sem resistência tudo aquilo que ainda possui e que lhe traz paz de espírito, sua casa, seu pomar, suas lembranças, suas tradições culturais. Não importa o preço ela paga!)

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Lemon Tree,é um filme tocante que mostra a intolerância daqueles que já acostumamos a ver como vítimas. Mostra a disputa e os poucos lados da única questão que é querer o que é do outro. Tomar posse simplesmente por achar que se tem direito por ser o mais forte, o detentor do poder, da autoridade. É o que demonstra a visita de um provavelmente parente do finado marido, a dizer que mantenha limpa a memória do falecido. Não importa de que lado esteja a força, ela estará forçando sempre o mais indefeso… Assim, a atitude ou falta dela com a qual se responde ou se corresponde às situações nas quais o uso arbitrário da força nos coloca.

Esse filme é baseado numa história real e, talvez por isso mexa na ferida que é a impotência consentida ou não e seus descaminhos.

Mira (Rona Lipaz-Michael) surge no filme, numa situação de felicidade e futilidade. Ela é a feliz dona de casa judia, casada com o ministro da defesa de Estado de Israel. Durante os preparativos para a festa de inauguração da casa, eles têm uma conversa que demonstra que se ela faz algumas concessões, não significa que seja desatenta ou que ignore os fatos. O nível de tolerância do ministro é claramente demonstrado quando Mira sugere iguarias árabes e o marido, depois de breve rodeio bate o martelo escolhendo o cozinheiro e que este faça apenas comidas kosher…

Mira, se envolve na causa da sua vizinha árabe, através de olhares e atitudes que irão perdendo a timidez ao longo do filme. Esse filme é um grande filme muito mais por aquilo que induz do que pelo que mostra. Muito mais do que a disputa entre palestinos e israelenses, mas por mostrar a forma como cada uma dessas culturas tratam suas mulheres, semelhantes e rivais. Espera-se um comportamento respeitoso sem que nada se faça para realmente o obter, nisso em que eles são diferentes dessa nossa cultura tão ocidental e moderna?

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Exceção a essa regra, é o misto de empregado, pai de criação e melhor-amigo- que- parece- não- dar- muita- confiança, o bom velhinho que recusa convite pra almoçar mas se interessa em saber sobre a visita da filha de Salma, o que demonstra que ele percebe a sua solidão mas  por motivos culturais, vê esta solidão como algo inerente ao destino de uma mulher viúva e árabe, o que não o impede de ir às “vias de fato” com Ziad. Dessa forma, essa personagem que não sei o nome deste ator que desconheço, é o único que não vai até Salma fazer-lhe cobranças e imposições por seu comportamento, como se um relacionamento, quando precisa ser proibido, fosse de competência única e exclusiva da mulher, afinal ela é o pecado, o homem só erra  por ser tentado…. Conhecendo Salma desde criança ele confia nela e só no final do filme entendemos essa forma de relacionamento sem conversa, apenas por atitudes, sim, exatamente da mesma forma como se “comunicam” Salma e Mia…

Em filmes que falam pela ausência de palavras um quadro na parede pode dizer muito de uma produção, tanto quanto o casaco que uma personagem veste. Reparem além da foto do marido de Salma na parede, a foto do craque Zidane no quarto de hóspede e o agasalho verde e amarelo de Ziad.

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O par da nossa heroína, Ziad Daud deixa claro que há os que se acomodam sem motivos para mais uma luta, pois desistiram, porém tendo uma boa causa, se empenham e se aplicam em vencê-la, o que não significa que seus horizontes se expandirão muito além dos seus interesses pessoais. Outra lição que o nosso advogado nos passa é que nem sempre o melhor aliado para uma luta seria melhor companheiro para nossa vida…


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Agora, uma anotação muito pessoal:

Eu que cresci vendo nos telejornais essa loucura palestino-judaico (ou seria vice-e-versa?) sem nunca ter compreendido muito bem, ao que um dia um professor me disse que “se fosse fácil eles já teriam se entendido e nós simplesmente estudaríamos história”, óbvio que tomei o caminho mais fácil de não buscar entender nada tão complicado. No entanto, por influência da 2ª guerra, tenho como muitos da minha geração, o vício ou tendência de ver os judeus como vítimas eternas. Este filme me sinalizou que já passou da momento de rever vários dos meus conceitos. O mundo é muito mais do que nos diz as fantasias americanas.

Por: Rozzi Brasil.  Blog:  Crônicas Urbanas.

Lemon Tree (Etz Limon). 2008. Israel. Direção: Eran Riklis. Elenco: Hiam Abbass (Salma Zidane), Doron Tavory (Defense Minister Israel Navon), Ali Suliman (Ziad Daud), Rona Lipaz-Michael (Mira Navon), Tarik Kopty (Abu Hussam). Gênero: Drama. Duração: 106 minutos.

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Paradise Now (Paradise Now. 2005)

Imagine there’s no countries… Nothing to kill or die for…

Nossa! O filme deu um nó na minha cabeça. Eu estava muito querendo assistir. Para saber pelo menos um pouco o que se passa na cabeça de um homem-bomba. Sei que não há lógica nisso. Ou sabia… É tenso! É angustiante! E é sensacional! Se é que se pode definir assim. Me fez ficar com vontade de ver novamente e dessa vez com um mapa ao lado.

Se eu fosse definir o filme em uma única palavra ela seria: oprimidos. Numa parte do filme me veio à mente essa estrofe: “Sertanejo é forte, supera a miséria sem fim…“. Mas lá é mais que isso, é ter a morte rodando aquela gente. Antes de receberem a missão os dois personagens principais descortinam toda a cidade. Lá de cima até parece que há tranquilidade no meio daqueles destroços. Só que é uma região sitiada. Que obriga as pessoas a seguirem por caminhos tortuosos. Oprimindo-os até num direito de ir e vir.

O filme tem início um dia antes do recrutamento de dois amigos: Khaled (Ali Sullman) e Said (Kais Nashef). De temperamentos opostos. Khaled é do tipo pavio-curto. Já Said é mais ponderado. Levam a vida sem grandes ambições. Curtindo o dia-a-dia que têm. Em comum, o respeito às tradições e o amor à família. Quando recebem a convocação a alegria vai embora. Mesmo já sabendo que um dia seriam chamados, ficam balançados. Aceitam a missão. Daí até o final, será um longo caminho… Como citei, de acompanhar quase sem respirar.

Um não tão imprevisto fato, separa esses dois jovens ao cruzarem a cerca. Sendo que eles queriam morrer juntos. Com o explosivos atados ao corpo, onde somente o encarregado da operação é que tem como retirar… Said fica peregrinando… Para ele mais que o peso do artefato, mais que a missão, tem em seus ombros o peso do pai ter sido um colaborador do outro lado. Khaled sai a procura do amigo para provar que ele não traiu aos seus como o pai. O que para eles antes tudo estaria liquidado em pouco tempo, com esse atraso os questionamentos afloram

No meio do caminho de ambos há Saha (Lubna Azabal). Filha de um mártir palestino. Ela tenta demovê-los. Mas para eles ela não tem dentro de si a causa palestina. Por ter morado em outros lugares. Por viver num mundo fora daquele cerco. Como se a Palestina para ela seria mais um lugar a se visitar. Mas Saha traz o contra-ponto dessa luta que já dura anos. E isso é mais um ponto positivo no filme. Quiçá, o mais importante. Por mostrar com clareza os dois lados: israelenses e palestinos aproveitando-se do poder que cada um detém.

Há uma cena entre Said e o Comandante da Operação… Bem, nessa hora não deu para segurar umas lágrimas. Enfim, creio que ninguém sairá indiferente após esse filme. Claro que não em por aprovar atitudes tão extremadas assim. Mas limpará as visões estereotipadas para com esses jovens recrutas. Filmaço! Nota máxima!

Por: Valéria Miguez (LELLA)

Paradise Now (Paradise Now). 2005. Palestina. Direção e Roteiro: Hany Abu-Assad. Elenco: Kais Nashif, Ali Suliman, Lubna Azabal. Gênero: Crime, Drama. Duração: 90 minutos.