HITCHCOCK (2012)

hitchcock_2012_cartazO filme “Hitchcook” de Sacha Gervasi tem acertadamente pouco do livro homônimo de Stepehen Rebello que deu origem a esta obra. Enquanto Stephen esmiúça detalhes técnicos e curiosos dos bastidores do filme “Psicose”, Sacha trabalha em cima de um roteiro deliciosamente cinematográfico sobre o mesmo tema.

Por exemplo, as cifras e contabilidades de uma produção tumultuada são substituídas por insinuações de traição de Alma, esposa do diretor e por perseguições delirantes do assassino em série Ed Gein, que inspirou Robert Bloch a escrever a novela de terror que arrebatou Hitch. Também dá ênfase à figura de Alma, transformando-a num personagem feminino fortíssimo, defendido com brilhantismo por Helen Mirren. As figuras de Leigh e Perkins, estrelas de “Psycho” estão perfeitas com as caracterizações de Scarlett Johansson e James D’Arcy respectivamente, dentro do visual agradável do final dos anos 50. A cena antológica do assassinato no chuveiro tem pouco destaque, o que não chega a frustrar, num filme rico em diálogos inteligentes e bons momentos para os fãs do diretor e de “Psicose”.

Se por conta de uma notória dessemelhança ou uma maquiagem ineficaz, o ator Anthony Hopkins não conseguiu a aparência ideal para o papel título, tudo é compensado com uma atuação impressionante e habilidosa onde ele atinge o tom debochado, divertido, inseguro e por vezes cruel do mestre do suspense, que não poderia mesmo ter sido uma pessoa ordinária.

Por Carlos Henry.

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Um Crime de Mestre (Fracture. 2007)

Um Crime de mestre é diferente de um crime perfeito.

Me parece que a diferença é que um crime de mestre é possível. A Polícia consegue descobrir quem matou, e até o por que matou, mas não sabe como provar por não ter provas.

Já um crime perfeito cometido por um animal imperfeito, me parece impossível; e de fato, é. O homem, como qualquer outro animal, deixa rastros, marcas, impressões, que o denunciam em seus atos, mesmo com uso de luvas etc e tais.

O mestre desse filme é um mestre como ator: Anthony Hopkins! Marido traido por sua esposa decide matá-la. Faz, mata. Consegue burlar todas as provas contra ele, e numa luta entre o bandido e o mocinho, o filme se desenrola de uma maneira muito interessante e até cômica. Convenhamos que o humor de Hopkins não é abalado nunca rsrsrsr. Quem ganha somos nós, fãs de carteirinha.

Uma curiosidade: Hopkins escolheu Ryan Gosling para contracenar com ele tão logo recebeu o roteiro do filme em mãos.

Achei a escolha muito assertiva. Deu muito certo o casamento do protagonista com antagonista. Afinal, a Polícia para alcançar o bandido tem que pensar como ele…

Thor. Dateme un martelo!

por notobviouscinema.
Pode acreditar: apesar do desastrado trailer que praticamente só mostra efeitos especiais, Thor é excelente cinema.

Thor estreou aqui uma semana antes da estreia nos EUA; numa sexta-feira, como a maior parte dos filmes. Mesmo achando absurdo não estrear Thor comme il fault em uma quinta-feira, lá fui eu. Não pelo 3D, não pelos efeitos especiais, mas curioso para ver como se sairia Kenneth Branagh na direção. Diretor da pouco conhecida obra-prima Dead Again (Voltar a Morrer) [*] e de adaptações de Shakespeare como Henri V, Branagh foi no mínimo uma escolha inusitada para dirigir um filme baseado nos quadrinhos da Marvel.

O resultado é surpreendente. Branagh conseguiu elevar a história de Thor acima da pancadaria, equilibrando uma boa dose de humor, ritmo impecável e interpretações marcantes. Só não espere falas shakespeareanas – os diálogos são a parte fraca do filme, pomposos mas sem arestas.

O primeiro acerto de Branagh foi provavelmente a escolha de Antony Hopkins para o papel de Odin, rei de Asgard cujos filhos Loki e Thor se debatem numa relação fraterna conflituada. Hopkins conduz a trama de maneira firme, sem excessos, sem jogar sombra sobre seus herdeiros. De um lado, Chris Hemsworth faz um Thor com boa dose de esquisitice mas que não cai no ridículo. Na outra ponta, Tom Hiddleston rouba a cena com seu conturbado Loki, destroçado entre a admiração pelo irmão, o gosto do poder e as descobertas que faz ao longo do filme.

O maior acerto provavelmente foi ter içado Heimdall, a divindade a quem cabe guardar a ligação de Asgard aos demais reinos (inclusive a Terra), a um papel chave na trama. Idris Elba dispõe de pouco mais do que alguns olhares e uma ou outra fala para compor Heimdall, que no roteiro é um elo crítico para as ações do filme (e para as sequências que já estão no forno) – um alívio, pois em mãos erradas Heimdall [**] poderia ser reduzido a um Scotty de Jornada na Estrelas.

A galeria de interpretações inclui ainda os mortais que Thor encontra em seu exílio terrestre: a compulsiva cientista Jane (Natalie Portman), seu mentor Erik Selvig (Stellan Skarsgård, perfeito no papel) e a maluquinha Darcy (Kat Denning, mais uma vez usando gorro).

Como já vem acontecendo nos filmes da Marvel, Stan Lee faz uma ponta e as histórias se misturam. O Agente Coulson dos filmes Iron Man (Homem de Ferro) 1 e 2 aparece em Thor – com a mesma interpretação competente de Clark Gregg e a mesma capacidade de ser o grande babaca do filme. Pelo menos cabe ao agente Coulson a melhor piada. [***]

Vá, divirta-se e não saia da sala antes do final dos créditos.

[*] Dead Again, nunca canso de repetir, tem uma das aberturas mais brilhantes do cinema. Aparentemente convencional, mas quase cirúrgica.

[**] Heimdall foi um dos poucos deuses mitológicos que não entrou em meu imaginário durante a infância – por algum motivo naquela confusão de deuses e monstros nórdicos não tinha dado caso dele. Foi mais tarde que, precisando batizar um projeto onde era crucial garantir que somente as informações relevantes fossem enviadas, recebi de um colega a sugestão de que Heimdall era a melhor analogia. O nome foi adotado e passei alguns meses contando a estória do guardião da Ponte do Arco-Íris em palestras e até congressos, uma pitada de nerdice que ajudava a quebrar o gelo. Mal sabia eu o quanto esta última analogia seria apropriada por Branagh.

[***] SPOILER: é evidente que a piada é melhor quando vista em seu contexto. Mas se a curiosidade for grande, lá vai:

Quando o Agente Coulson vê pela primeira vez o Destruidor, um monstro metálico vindo de Asgard, ele pergunta: “você é do Stark?” – ingenuamente achando que se tratava apenas de mais uma engenhoca do homem de ferro Robert Stark.

O Homem Elefante (The Elephant Man. 1980)

o-homem-elefante_1980_capaHá tempos queria assistir esse filme, mas sempre algo me tirava desse destino. As coisas não são por acaso, é preciso um olhar mais calmo com esse filme de David Lynch, o mais “normal” até então, em minha opinião. Também não daria pro Lynch chafurdar o bizarro, pois o ‘O Homem-Elefante‘ já é por demais estranho e o Homem-normal, mais ainda.

o-homem-elefanteO ser humano, pra mais uma vez comprovar que não respeita as diferenças, faz de uma deformidade física, uma doença rara,  uma atração circense. À margem da sociedade até que um médico (Anthony Hopkins, super novo) volta seu olhar pra ele. Interesse? Status? Descoberta Científica?

Fato é que de um suposto bronco em nome de seu aspecto físico deplorável, temos uma bela criatura em seu interior dócil, inteligente e gentil. A Bela e a Fera morando na mesma casa, no mesmo corpo. As atitudes pacíficas de Merrick (John Hurt: Homem-Elefante) tornam-se cada vez mais tocantes quando postas frente-a-frente à arrogância de um homem saudável; homem que colonializa, que é mais predador do que qualquer outro animal no Planeta.

Lynch não poupa esforços pra ilustrar essa crítica. Ele me tirou o fôlego em três cenas:

1. Quando seus companheiros de circo e feira (corcundas, anões, gigantes e outros seres dotados de deformidades) se unem e o conduzem para a liberdade;

2. Na Estação Ferroviária onde as pessoas o cercam como se ele fosse um bruto, uma besta, e ele se defende afirmando sua humanidade (bem mais humano que muitos “humanos”);

3. Quando ele serve de atração para bêbados e prostitutas.

Nunca, nunca!
Nada morrerá.
O rio corre,
o vento sopra,
as nuvens movem-se rapidamente,
o coração bate.
Nada morrerá.

Um dos melhores trabalhos de Lynch, sem dúvidas. E pros que dizem que a Trilha Sonora não se diferencia, essa é bem diferente. Conta com “Adagio for Strings (Tiësto)” de Samuel Barber, uma música triste que a Rede Globo usou muito em suas novelas da década de 80…

O Homem Elefante – The Elephant Man

Direção: David Lynch

Gênero: Biografia, Drama

EUA – 1980

**Baseado em fatos reais.

Curiosidades:

– O diretor Mel Brooks foi um dos produtores executivos de “O Homem Elefante”, tendo sido o responsável pela contratação de David Lynch e pela decisão em filmar em preto e branco. Entretanto, para evitar que o público considerasse que o filme fosse um sátira pela simples presença de seu nome, Brooks pediu que não estivesse presente nos créditos do filme.

– O diretor David Lynch chegou a tentar ele mesmo fazer a maquiagem de “O Homem Elefante”, mas desistiu após concluir que não conseguiria fazê-la de forma satisfatória.

– A maquiagem de “O Homem Elefante” levava 12 horas para ser feita a cada vez que era aplicada em John Hurt.

– O orçamento de “O Homem Elefante” foi de US$5 milhões.

Por: Deusa Circe.

Um Sonho Dentro de Um Sonho (Slipstream. 2007)

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Os que sonham de dia são conscientes de muitas coisas que escapam aqueles que sonham apenas à noite. Tudo o que vemos não passa de um sonho dentro de um sonho.” (Edgar Allan Poe)

Antes, fui procurar pelo significado do título original: Splistream. O termo surgiu em 1989. O autor, Bruce Sterling, disse que é um tipo de linguagem que causa estranheza. Ela ultrapassa os limites dos gêneros convencionais. Nesse filme, há um mergulho na mente de uma pessoa. Onde outras pessoas entram junto com ele em sua própria Matrix. Como na canção do filme:

Um Sonho Dentro de Um Sonho‘ é daqueles filmes que vem como em peças de um quebra-cabeça para então chegar ao quadro final. Tal qual ‘Amnésia‘. Uma das peças está no comecinho: no que Bette (Fionnula Flanagan) diz a alguém num telefonema.

Com o final… Bem, fiquei pensando em como faria o texto. Se evitaria trazer spoilers, e com isso não tirar-lhes a surpresa. Acontece que o personagem principal, Felix Bonhoeffer (Anthony Hopkins), me motivou a falar mais… Então, fica o aviso: Se ainda não viu ‘Um Sonho Dentro de Um Sonho‘ pare por aqui. Assista, pois o filme vale muito a pena ser visto. Não apenas por essa nova linguagem, como também pelo prazer de ver Anthony Hopkins atuando. Ele, e outros mais como: Christian Slater (Ray), Michael Clarke Duncan (Mort)… Depois, venha trocar impressões.

Novamente: daqui em diante o texto poderá conter spoilers.

Dizem que na iminência de uma morte passa um filme na nossa cabeça. Sendo de fatos vivenciados, pode ser porque deixaram algo pendente. Algo como no filme ‘Ao Entardecer‘. Agora, o que passaria nessas horas pela mente sendo essa pessoa um Roteirista? Para alguém bem antenado, até com fatos históricos mais recentes, juntariam também as histórias criadas em seus Roteiros?

Fora a essa nova ferramenta, slipstream… Por conta da idade avançada do personagem poderia também ser visto como um início de senilidade. Digo isso sem nenhum preconceito, pois sei que muitos escritores continuam escrevendo numa velhice bem avançada. Como também que um período de bloqueio criativo até um muito mais jovem pode passar por isso. Usei o termo por não ser a minha praia doenças de fundo psíquico. Já que os personagens povoam seu sono, sonho, pensamentos… Até porque mesmo durante os sonhos há um momento já com alguma consciência do que está acontecendo ao redor, antes mesmo de estar plenamente acordado. Surreal ou não Felix está vendo todos eles…

Assim, alternando sonhos e realidade, Felix tenta dar uma sequência coerente ao seu mais recente trabalho. Continuar um Roteiro cuja montagem já estava em andamento. Agora, no real ou no que estava em sua mente? Qual parte estaria de fato acontecendo? Qual seria a trama principal? Quem são de fato os atores e a equipe de filmagem? Por que abreviou a morte do ator? Quem era de fato o autor do Roteiro abandonado? Que influência teria o novo Roteirista nesse contexto? Afinal, a história não era dele, ou melhor, não era fruto da imaginação de outra pessoa?

Agora, por que começariam a encenar uma história sem um roteiro pronto? O que nos leva a pensar na vida, na que estamos nela. Escrevendo a cada momento. Atuando, dirigindo. Ora, protagonista. Ora, coadjuvante; como por exemplo, quando estamos ajudando outras pessoas.

Essas são algumas das peças do quebra-cabeça. Com isso, deixa uma vontade de revê-lo, para desvendar todo o mistério. Ou não, já que o gênero não veio para deixar tudo certinho. E nesse nosso roteiro o the end virá quando a morte chegar.

Não deixem de ver. Um ótimo filme!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Um Sonho Dentro de um Sonho (Slipstream). 2007. EUA. Direção e Roteiro: Anthony Hopkins. Elenco. Gênero: Comédia, Drama, Fantasia, Sci-Fi. Duração: 97 minutos.

O Silêncio dos Inocentes (The Silence of the Lambs. 1991)

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O Silêncio dos Inocentes – The Silence of the Lambs

Direção: Jonathan Demme

Gênero: Suspense

EUA – 1991

Silêncio dos Inocentes é um dos filmes que mais gosto de rever, rever e rever e rever.

Decorei falas, acreditem. É possível que eu consiga narrá-lo perfeitamente bem rs. Tudo isso porque acredito, assim como disse o psiquiatra do manicômio que Hannibal Lecter estava internado, para a detetive Clarice Starling (Judie Foster), em sua primeira visita: “Em termos de pesquisa, Dr. Hannibal Lecter é nosso espécime mais raro”. CONCORDO! Hannibal é muito diferente.

O filme começa com Starling em seu treinamento no FBI. Depois de sua primeira fala, surgem placas grudadas em uma árvore que diz o seguinte:
*Sofrimento -> Agonia -> Dor -> ADORE.

Isso sempre me chama atenção. Exatamente pelo masoquismo expresso nessas placas, que em contrapartida, é preciso ser sádico tanto quanto para pensar suficientemente parecido. Ou seja, os semelhantes se atraem.

Não sei se vocês repararam, mas a escolha de Hannibal Lecter com relação as suas vítimas é a EDUCAÇÃO. Um fetiche e tanto… Existem falas de Lecter que expressam isso claramente. Como no caso de Miggs. Seu companheiro de cela vizinha, que se masturba ao sentir o cheiro de Starling e joga seu gozo no rosto de Starling; lembram? Lembram do que Lecter disse? Ele disse o seguinte: “Falta de educação me desagrada”. No dia seguinte, Miggs aparece morto. A saber o que Lecter disse a ponto de Miggs se matar…

Penso que deve ter sido algo muito frio, cruel e planejado, embora extremamente sedutor. Que são as características de atuação de perversos como Lecter. Não poderia ser diferente, visto que Hannibal é extremamente educado…

Por: Vampira Olímpia.