Os Amantes Passageiros (2013). Apertem os cintos… nesse voo penas irão brilhar!

os-amantes-passageiros_2013O Diretor Pedro Almodóvar após a obra prima no Drama “A Pele que Habito” resolveu tirar o pé do freio e se soltar. Bom para nós, seus fãs, que nos divertimos juntos com ele. Afinal, é uma ótima Comédia almodoviana que está nesse voo. Onde sugiro se desligarem do politicamente correto porque ele dessa vez veio foi com ‘gays à beira de um ataque de nervos‘. Também porque dessa vez ele resolveu dar um Boa noite Cinderela em quase todas as mulheres dentro desse avião. Quase porque deixou acordada apenas a rameira (Norma, personagem de Cecilia Roth) e a virgem “religiosa” (Bruna, personagem de Lola Dueñas); atrizes carimbadas pelo diretor. E foi ótimo também porque não colocou o Brasil como paraíso para fugitivos da lei. O destino final seria o México.

os-amantes-passageiros_almodovar_penelope_banderasPois é! Uma viagem que iria para a Cidade do México nem chegou a sair do espaço aéreo da Espanha. Tudo porque após levantar voo foi descoberto uma grande falha técnica que obrigava a não apenas voltar, como também a aterrissagem poderia ser arriscada. E a tal falha fora por um descuido de um mecânico, em cena com participações especiais de Antonio Banderas e Penélope Cruz. Homenagem aos dois que já atuaram em outras Comédias de Almodóvar. O casal já protagoniza um dos temas dessa história: o amor que costuma cair de paraquedas na vida das pessoas, mas que por conta de um acidente do destino pode desaparecer, ou até se ver obrigado a escolhas nada felizes.

Bem, como a classe econômica tinha um número muito maior de passageiros, o que levaria a dificultar o trabalho dos comissários de bordo, o comandante (Antonio de la Torre) decide dopá-los, inclusive a tripulação desse setor, que no caso eram mulheres. Ficando apenas os poucos passageiros da área executiva para serem entretidos.

Na primeira classe, além de Norma e Bruna, temos como passageiros: – o Sr. Más (José Luis Torrijo) um alto executivo do setor financeiro que está fugindo de uma investigação policial; – Infante (José Maria Yazpik), um mexicano para lá de misterioso; – Ricardo (Guillerme Toledo), um ator que aceita um papel numa novela mexicana como forma de dar um tempo no assédio das fãs; e um casal de recém casados, cujo noivo resolve aproveitar-se da situação. Onde os três comissários de bordo, três gays para lá de assumidos, – Joserra (Javier Cámara), Fajas (Carlos Areces) e Ulloa (Raúl Arévallo) – tem como missão de distrair esses passageiros e com isso evitar pânico à bordo.

Acontece que tirando o comandante e o co-piloto Benito (Hugo Silva), os demais estão mesmo viajando às cegas. Sem saber a real situação do voo ficam com os nervos à flor da pele. Bebem. Trocam confidências. Fazem juras secretas. Outras nem tão secretas assim pois o único telefone para se despedirem com quem está em terra está com o sinal aberto, o que deixa a conversa ser ouvidas por todos. Numa dessas conversas há a participação de mais três atrizes que já trabalharam com Almodóvar: Blanca Suárez, Paz Vega e Carmen Machi.

E o avião segue pelos céus da Espanha a procura de uma pista livre para pousar e se possível em segurança. Entre confissões, rendições, saídas do armário, sexo, drogas e muita tequila somos brindados também com um memorável número musical com Joserra, Fajas e Ulloa cantando “I’m so Excided”.

Os filmes de Almodóvar são para serem sentidos. Até porque em todos há a sua assinatura mesmo quando ele faz é a leitura de um roteiro que não escreveu. O que não é o caso desse que ele assina o Roteiro também. Muito embora “Os Amantes Passageiros” também pode ser visto como uma crítica política ao país. Com a crise instalada nos países europeus. De qualquer forma é muito mais um filme para seus fãs, e os que se permitem serem levados por ele. Almodóvar é: ame-o ou vá ver outro filme. Eu vi, amei e fiquei com vontade de rever. Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Os Amantes Passageiros (Los Amantes Pasajeros. 2013). Direção e Roteiro: Pedro Almodóvar. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 90 minutos. Classificação: 16 anos.

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Livro “TARÂNTULA” de Thierry Jonquet

Pessoal, sei que já foram feitas análises sobre o filme A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar. Entretanto o que será discutido agora é o livro de Thierry Jonquet. Apesar de focar na relação do médico Richard Lafargue e sua aparente esposa, Ève, tal qual a adaptação cinematográfica (com nomes trocados). O romance possui caminhos totalmente diferentes do longa-metragem, fornecendo personagens com atitudes distintas, porém ligados pelo mesmo segredo. Mesmo assim, o livro de Jonquet consegue, surpreendentemente, escrever uma história sobre a crueldade humana, algo mais distante do ambiente romântico do filme e próximo de “Laranja Mecânica”. Numa história envolvente onde todos possuem culpa, o autor “dá a cara a tapa” sem receios de mostrar as doenças do mundo real, evitando suavizar o lado da mocinha como o roteiro da película de Almodóvar.

Sinopse: O cirurgião plástico renomado (Richard Lafargue) e a bela mulher prisioneira de suas vontades (Ève), a adolescente que se automutila em um hospício (Viviane), o jovem acorrentado no porão obscuro depois de uma perseguição implacável (Vincent), o assaltante fugitivo condenado pelo próprio rosto (Alex). Um erro fatal do passado reúne esses personagens na mesma teia, no romance mais aclamado pelo público e crítica do autor francês Thierry Jonquet. Adaptado livremente ao cinema com o nome A Pele Que Habito sob a condução do famoso diretor espanhol Pedro Almodóvar.

Uma das coisas interessantes do livro é propor metáforas sobre zoomorfismo. O título Tarântula faz referência ao apelido dado por Ève ao seu seqüestrador, numa analogia da aranha envolver sua presa e, dessa forma, torturá-la na espera pelo pior. Além disso, a civilidade humana é posta a prova quando Vincent passa longos dias sem comer ou conversar com alguém, de maneira a ser comparado a um cachorro de estimação quando Lafargue chega, trazendo presentes e outros agrados. O sexo é retratado da forma mais cruel possível com a prostituição, criando um horrível pesadelo masculino relacionado a estupro consensual.

Já li algumas opiniões comparando a história a um Frankenstein moderno, todavia, até então, não entendia o porquê da trama lembrar-me tanto A Bela E A Fera. O item em comum com o conto-de-fadas é a Síndrome de Estocolmo, onde a vítima, numa tentativa inconsciente de autoproteção, busca uma maneira de se identificar com o raptor ou conquistar a simpatia do mesmo. Isso é uma das coisas mais angustiantes, afinal após tudo feito a Ève, ela continua tentando se aproximar do doutor, não da forma interesseira mostrada no filme, mas impulsivamente. O médico também se sente atraído, na verdade isso é ainda mais polêmico pela sugestão de que ele seja homossexual. É algo sem resposta e ofuscado pela atuação de Antonio Banderas, mas na obra de Jonquet fica no ar com a desconfiança momentânea de Vincent, fisicamente fraco demais para analisar melhor a situação. A saída do longa-metragem para essa suspeita foi fazer Vera (Ève, na literatura) com o rosto da esposa do doutor. Mas há outras peculiaridades semelhantes ao conto mencionado, o doutor a mantém presa, porém com o tempo passa a ser afetuoso, apesar do sofrimento imposto por ela a Viviane (filha de  Lafargue). Portanto, essa história  é mais próxima de uma versão ultraviolenta e sombria de A Bela E A Fera.

Tarântula e suas semelhanças macabras com A Bela E A Fera devido ao Complexo de Estocolmo, onde a vítima busca afeiçoar-se ao sequestrador, e as circunstâncias que levam o médico a aproximar-se da refém por solidão, culpa, piedade, irresistível beleza da moça, etc.

Ève não é santa ou inocente na história original, na realidade ela é capaz de tocar “The Man I Love” ao piano só para irritar Lafargue e abrir as pernas provocando o desejo proibido sentido por ele, o qual evita até tocá-la por conta do segredo. Mesmo tendo razões gigantes para torturar a “esposa”, Tarântula consegue ser perverso. O simples ato de prostituí-la e observar o ato é horrível, mas tudo é confrontado quando sabemos a identidade da mulher. Honestamente, li o livro após assistir ao filme e esse conflito de opiniões é bastante evidenciado. Afinal, o médico está certo ou não impondo sua tortura? a humanidade existente no homem deve ser ignorada, mesmo havendo motivos suficientes para fazer alguém culpado sofrer? Cabe ao médico condenar Vincent ao sofrimento até o fim da vida?

Nesse ponto descobrimos o porquê do título ser justamente Tarântula, o personagem chave é Lafargue, uma vítima tentando se vingar e sendo confrontado com sua natureza: tenta fazer durar seu ódio, mas a piedade na consciência é pesada, ainda precisa controlar seu desejo pela aparência de Ève, sente orgulho de sua criação e não pode usufruir dela por dogmas unidos ao passado sombrio.  Após esse texto, consegue-se descrever o livro em uma palavra: desafiador. Tudo isso condensado em apenas 150 páginas, provando algo esquecido por alguns autores: estimar qualidade ao invés de quantidade. Não focando apenas na questão de manter a identidade sexual da pessoa, o livro vai bem além dos temas do filme, explorando o sentimento de punição aos limites com um resultado intrigante através de reviravoltas inusitadas onde o conflito de humanidade e castigo é debatido sem o temor de não agradar um público acostumado a distinguir personagens bons de maus.

Por Alexandre Cavalcante (Alecs)

A Pele que Habito (La Piel que Habito, 2011)

ImagemParente mais próximo de “Má Educação” (2004), “La Piel que Habito“, é um filme bizarro, o qual  mistura características sobre  identidade sexual, traição, ansiedade, solidão, e morte.  Pedro Almodóvar adiciona a isso, um elemento de ficção científica que beira o horror. Talentoso como é Almodovar não deixa esse híbrido melodramático torna-se num filme ruim como a sua obra anterior “Los Abrazos Rotos” (2009), mas essa adaptação da obra do escritor Thierry Jonquet, não é  uma obra-prima, apenas um bom passa-tempo, se assim posso dizer!.

A história é sobre um rico cirurgião Robert Ledgard (Antonio Banderas), que  mantém uma bela mulher trancada em um dos quartos de sua mansão. Ela é sua prisioneira ou paciente? Quem é essa mulher chamada Vera Cruz ( Elena Anaya)? Qual é sua relação com Ledgard? Por que ela deve ser mantida em uma sala trancada? Com ​​essa premissa firmemente estabelecida, essas perguntas serão respondidas no decorrer do filme.

Atores:
Banderas é enigmaticamente formidável como o cirurgião que se comporta como um homem possuído por suas ambições. E quando suas ambições mudam de direção, ele é ainda mais assustador, mas não é o tipico de cientista louco dos filmes de horror !. Anaya que é uma atriz de beleza hipnótica, nos faz cair de amor e luxúria por sua Vera Cruz. Marilia Paredes é magnífica num papel desafiador, e Jan Cornet faz um belo trabalho como Vicente.Imagem

Esse filme é  para quem ?

Creio que se precisa gostar muito do cineasta espanhol para apreciar essa obra. Tecnicamente perfeito – Almodovar e o seu diretor de fotografia, José Luis Alcaine, criam um mundo de um visual vibrante, e Alberto Iglesias compôs uma trilha sonora cheia de cor e escuridão com tons altos e baixos-, a qual é  a melhor coisa do filme como um todo para mim!.

ImagemAo passo que Almodovar vai relevando o mistério em torno da personagem de Anaya, mais eu fiquei desconectado com o filme. Muitos podem levar esse filme a sério, principalmente a quem curte as questões de gênero, associado à feminilidade e masculinidade. De acordo com Judith Butler, sexo é algo objetivamente natural, e, não existe: “a realidade de gênero é performativa”, o que ela quer dizer que gênero é real na medida em que é realizado.” O corpo torna-se seu gênero somente através de uma série de atos que são renovados, revistos, e consolidados através do tempo, e não numa troca de pele. Gostaria de ter visto as duas personagens sendo interpretadas pelo mesmo ator, e quem sabe se isso não me chocaria…se essa era a intenção de Almodovar.

Nota: 7,0

A Pele Que Habito. Obra-prima de Pedro Almodóvar!

Uau! Essa foi uma das exclamações proferidas durante e mais intensamente ao final do filme. Os créditos finais subindo, e eu ali em puro êxtase. Fora preciso meu sobrinho dizer um – Vamos!? -, para que eu voltasse a realidade de ter que sair do Cinema. Tinha presenciado uma Obra-prima! Pedro Almodóvar se superou! Ele assina a Direção e o Roteiro. De uma estória que veio como um presente de Thierry Jonquet, já que dera asas e um pouso perfeito para a loucura que permeiou toda a sua obra até então. “A Pele que Habito” veio como uma consagração a esse gênio. Bravo!

Depois, fui me perguntando em como contaria sobre esse filme: com ou sem spoiler. Algo que seria difícil resistir porque havia alguns pontos que eu gostaria de analisar com mais detalhes. Com isso, se você ainda não assistiu, pare por aqui. Nem é tanto pelos spoilers, mas sim porque irá perder esse mesmo contentamento que eu senti. É sensacional em ir seguindo todo o fio que brilhantemente Almodóvar deixou para nós. Esse é um filme para ver sem ter lido nem uma linha a mais do que a sinopse oficial. Também porque aquilo que irá saber durante o filme o levará a se questionar. Refletir como uma pessoa comum. Ou até como se tivesse com o poder de votar contra ou a favor em temas abordados nele. Um desses tema me levou a exteriorizar uma outra exclamação: “Boa!”. E dita pelo meu lado nada politicamente correto, mas assinado-embaixo pela totalidade mulher. Foi muito bem merecido! Fora uma ideia genial!

Por isso, e muito mais, Vá ver o filme, e depois volte para deixar a sua opinião. Porque a partir daqui terá spoiler. E para quem já viu o filme, vem comigo!

No centro do universo desse filme temos a Cirurgia Plástica. E será por ela que inicio as reflexões.

O que levaria alguém a decidir ser um Cirurgião Plástico? Sentir o poder de criar uma criatura? Independente de padrões de beleza para cada cultura, por vezes o resultado do seu trabalho traz uma nova pessoa à vida. Mesmo que sustente que o faz muito mais com o fim de regenerar uma sequela, ou até mesmo para fins estéticos, no fundo deve sentir-se como um Deus. E se temos um Criador, também se tem a Criatura. Em “A Pele que Habito” temos um período na vida em conjunto do Criador e sua obra mais que perfeita. Faltando um detalhe. Já que se esculpe um corpo por fora. E como ficaria o interior desse ser?

Antes de falar da criatura do filme, focarei no geral de quem procura por um cirurgião plástico. O faz, desde uma simples insatisfação por parte de seu próprio corpo, até um desejo meio mórbido de não ser o que se é. Vaidades em vários níveis. Sem contar nas que perderam a própria pele, literalmente, de modo acidental ou não. De qualquer maneira, uma parte consciente optou por isso. Mesmo que tenha um lado que não queira concretizar um sonho.

Antonio Banderas, numa atuação magistral, faz o cirurgião plástico Roberto Ledgard. Um homem angustiado por problemas pessoais, mas empenhado no lado profissional. Por não ter conseguido regenerar todo o corpo queimado da esposa, se dedica ainda mais em conseguir uma pele perfeita em laboratório. Achando já estar no caminho, tenta encontrar um jeito de introduzir sua pesquisa no campo acadêmico. Algo ainda legalmente proibido. Em sua mansão bem isolada, mantém uma clínica pequena, mas muito bem aparelhada, e subsidiada pelo Instituto de Biotecnologia. Ao receber um não do presidente dessa instituição, decide prosseguir às escondidas; e sem sua equipe.

Um lobo em pelo de cordeiro…

A determinação, a paciência e a capacidade que Roberto tem como médico e cientista, não é a mesma ao lidar com a própria filha. Norma (Blanca Suárez) se desestruturou com a morte da mãe. Roberto delegou à Psiquiatria todos os cuidados da filha. Essa separação o fez ficar quase um estranho para ela. Claro que cada um reage de um jeito próprio diante de uma violência sofrida. Mas talvez se ele tivesse mais carinho, tivesse mais presente na vida de Norma, ela não o teria visto como o vilão. Bem se faltou amor de pai antes, não faltou depois. Mesmo que tarde demais para ter a filha de volta, ele vai atrás do real vilão da vida da filha. Ele é Vicente (Jan Cornet), que mesmo ciente do que fez, se acha impune, acreditando que não deixara pistas. Mas à noite, nem todos os gatos são pardos…

A ciência avança, quando alguém rompe a barreira do que é ético. Mesmo tendo quem mantenha-se vigilante nessa linha divisória. O filme prima por trazer, ou melhor, por manter um tema como esse ainda em mesa de debate: clonagem de partes do corpo humano. Questionável? Sim. Necessário? Talvez. Fechar questão? Não. Até porque pesquisas concretizadas, trariam qualidade de vida a um paciente.

Dizem que a pressa é a inimiga da perfeição. E um cirurgião plástico age com muita paciência. Roberto, sem mais pressa, já que seu lado pessoal se desmoronou, cuida de uma nova interna em sua clínica: Vera (Elena Anaya). Nela, tem a chance de testar seu experimento: a tão sonhada pele. Vera é mantida reclusa. Além de Roberto, só tem contato com Marília (Marisa Paredes), a governanta da casa. Enquanto a cicatrização não some por completo, tem como proteção uma malha no corpo, e uma máscara na cabeça.

Insanidade! Teria um fator genético? Que vem à superfície como resultante de um grande trauma? Como classificar esse tipo de comportamento em alguém que tem a consciência do que está fazendo? Alguém que leva uma vida à margem da lei e dos bons costumes traz um sinal de que? E alguém que por uma obsessão recente decide dar asas a algo muito louco, mas que seria como num tiro só acertar dois alvos distintos?

Roberto sabe que está bem perto de alcançar seu intento, e então poder mostrá-lo ao mundo científico. Acontece que o passado bate a sua porta. Era Zeca (Roberto Álamo), o filho que Marília entregou ao mundo. Ele chega justamente durante uma ausência do dono da casa. Marília pressionada muito mais pela culpa – sua escolha-de-sofia fora entre essa criança e uma estabilidade financeira -, do que pela vontade de revê-lo, deixa Zeca entrar na casa. Ele viera pedir por um tipo de esconderijo, por estar sendo procurado pela polícia por roubo a um banco. Só que ele foi além desse crime: matou um vigia do tal banco. Dai, não estava para brincadeiras. Como também barbarizou na casa de Roberto.

Como puderam ver, a Maternidade também se fez presente nesse filme de Almodóvar. Uma relação conflitante entre mãe e filho. Entre um filho que trouxe ao mundo e um que o mundo lhe trouxera. Afinal, ser mãe não é só gerar um filho. Tem que criar também. A mãe de Vicente dava mais carinho a jovem que trabalhava em seu Atelier, que a ele. Meio que a protegendo de seu rebelde filho. Zeca passou a infância trabalhando para o tráfico numa favela no Brasil. Procurando a mãe mais por lhe impor uma proteção tardia do que por amor. E em ambas visitas, deixou seu comportamento animal aflorar. Essas mães já anteviram que seus ventres não geraram bons frutos? Que não valiam por um sacrifício a mais? Quando Roberto chegou, vendo o que viu, decide por um fim em um fantasma do passado.

E dai em diante seria vida que segue? Não. Enquanto tiver outros fantasmas assombrando, não se atinge uma oitava maior. Outros ciclos voltam para atormentar, com pesos maiores para outras rodadas da roda da vida.

Sem um happy end, nem poderia haver, onde minha interjeição final fora um “Putz!”, mas já eletrizada por ter visto um primor de filme, “A Pele Que Habito” veio para pontuar a carreira de Pedro Almodóvar. Que além da estória, de como foi contada, da Direção, da performance de todos os atores, quero destacar que a Trilha Sonora também foi muito bem escolhida. Há uma cena onde mais parecia um som de um bate-estaca. Na hora eu não gostei dela, mas depois já ciente de um outro detalhe, achei mais que perfeita. E então meio que tardio, proferi um “Bem feito!”.

Não deixem de ver esse primor de filme. Nota Máxima!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Pele Que Habito (La Piel que Habito. 2011). Espanha. Direção e Roteiro: Pedro Almodóvar. Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, Blanca Suárez, Eduard Fernández, José Luis Gómez, Bárbara Lennie, Susi Sánchez. Gênero: Suspense. Duração: 133 minutos. Baseado no livro de Thierry Jonquet. Trilha Sonora: Alberto Iglesias. Classificação: 16 anos.

A Casa dos Espíritos (The House of the Spirits. 1993)

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A Casa dos Espíritos – The House of the Spirits

Direção: Billie August

Gênero: Drama

EUA – 1993

A Casa dos Espíritos nem de longe se refere a fantasmas de outro mundo que morreram e ficaram presos na mansão assombrada… Boooooooooooooooooooo! Entendo “Espírito” num sentido Filosófico do termo. Para a Filosofia Hegeliana, o Espírito é o retorno da idéia (princípio inteligível da realidade) para si mesma. Assim que vejo essa obra: um filme magnífico que retrata a história Política do Chile sob o olhar da família Trueba na narrativa consciente da filha Blanca (Winona Ryder).

Com um elenco fenomenal, que reuniu Meryl Streep, Jeremy Irons, Winona Ryder, Glenn Close, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave e Maria Conchita Alonso, a trama se desenrola do macro para o microssocial; aquilo que se externa na sociedade e influencia o interior de uma família e vice-versa.

Seria uma família bastante comum praquela época se não fosse o poder e a personalidade da mãe Clara (Meryl Streep): infinitamente tranquila e de um semblante tão sereno que em certas cenas parece Maria (mãe de Jesus) ou o que pintam dela. Clara consegue unir aqueles que estão pra sempre separados, consegue acalmar e dar paz para a agitação política de seu marido e suas controversas atitudes. Seu nome foi bem escolhido, dá um tom de transparência, sinceridade, leveza. O mesmo ocorre com Blanca, sua filha?

Enquanto Clara está viva, existe uma organização familiar aparentemente Patriarcal mas que é maestrada pelo silêncio e voz calma da Matriarca. Quando ela morre, seu espírito (as recordações das pessoas que a cercaram) ronda aquela família que se desestrutura passo-a-passo.

Percebe-se que aquela mãe era o verdadeiro pilar de tudo, mesmo considerada erroneamente como frágil e fraca.

As pessoas tendem a considerar como fraqueza aquilo que é sereno e tranquilo. Ao contrário, pessoas assim são de uma força interior gigantesca. Meryl Streep está deslumbrante nesse papel, uma mãe IDEAL, uma esposa IDEAL, uma cunhada IDEAL, uma amiga IDEAL, uma patroa também IDEAL. Todos os papéis sociais de uma mulher ela o representa como aquilo que é idealizado pela maioria. Longe de ser passiva, age com passividade e amor. Amarra com fios de cobre toda a trama.

Um filme pra ser visto e revisto.

Por: Vampira Olímpia.

Pecado Original (Original Sin. 2001)

pecado-original_2001“Não. Essa não é uma história de amor. Mas uma história sobre o amor.” (Angelina Jolie no papel de Julia Russel)

Qual é o pecado original partindo do pressuposto de que existe pecado? O prazer pode ser pecado?

Eu gosto muito desse filme e tive o prazer de revê-lo hoje, depois de tanto tempo que o vi pela primeira vez. Inicialmente, é possível sentir raiva de Julia Russel, depois você se solidariza mais com ela, quando lembra de uma de suas falas iniciais, onde marca bem a mão dupla do desejo e desse caminho que quando se une ao desejante anda em uma via apenas, compartilhada.

Não se pode dizer que um foi sacaneado e o outro o sacana, não nesse filme e nem nessa situação, ali ninguém sai impune. Palavras iniciais de Antonio Banderas no papel de Luis Vargas:

“O Amor não foi feito pra mim. O amor foi feito para quem acredita nele.”

Ele sabia o que ele buscava… 😉 Encontrou o que queria, via de regra, os desejos acontecem.

Um caso de amor? Não sei. Talvez sim, o amor tem suas inúmeras facetas que são desconhecidas até para os amantes no ardor de sua maior paixão. É sempre uma surpreendente  novidade. Ele queria o futuro, ela, se livrar de seu passado. Ambos mentiram (pra si próprios?), ambos não são confiáveis e portanto, se encaixam perfeitamente bem. Ambos envolvidos com os “pecados” que fazem os instintos humanos aflorarem sem retornos. Sim, isso não é uma história de amor mesmo, mas o amor está o tempo todo ‘contando essa narrativa’…

Pecado-Original_filme“Ela não vai voltar, né Sara? Pergunta Luis Vargas.
Ela nunca esteve aqui. Você casou com um sonho – Respondeu Sara (escrava de Vargas).”

Quando amamos é como se tivêssemos sonhando… e por favor, não “me acordem” 😉

A trilha sonora acompanha a sensualidade do filme; a música cubana recheada de percussão, de envolvimento, dá uma pitada especial… é a azeitona num delicioso martini…

Por: Deusa Circe.

Pecado Original – Original Sin

Direção: Michael Cristofer

Gênero: Romance

EUA – 2001