AQUARIUS (2016). Uma lavada na alma das mulheres maduras

aquarius_escrevendo-pra-pensarAcho que quase todo mundo já viu “Aquarius” (Kleber Mendonça Filho). Eu esperei. Não queria tanto ruído político, influenciando a minha percepção. Optei por tentar ver o que os meus olhos enxergariam e o que vi? Um filme sobre família e com bastante política. Aquele mosquito que assobia na orelha de quem planejou dormir e descansar, estava lá.

Tivemos revolução sexual? Sim, tivemos, mas como foi incompleta! Se ela trouxe à mulher o direito aos novos comportamentos, não permitiu a naturalidade para exercitá-los em plenitude com naturalidade. A família vê as suas senhorinhas, tias, mães, como seres assexuados e tudo mais além disso é silenciado. Só Tia Lucia  não deixa passar a omissão da revolução sexual dos anos 60, 70 no texto em sua homenagem pela passagem do seu aniversário lido pelas crianças. Mesmo nos anos 80, não se colocava na lista de feitos de vida de uma mulher o seu grande amor casado com outra, afinal tem crianças na sala. Amar um homem casado, não é um grande feito e aquele aparador rústico, cheio de histórias pra contar segue mudo pelo tempo. Poder pode, mas que fique no armário e como Tia Lúcia soube usar o tal armário!.

Aquarius dá uma lavada na alma das mulheres maduras ou amadurecidas, mostra alguns (ou muitos) tipos de câncer que se tem de superar se não quiser ter uma etiqueta com um preço, bem ali o lugar do coração e dignidade e também o quanto está em desvantagem perante o mundo quem faz escolhas em desacordo com o poder.

Todo mundo sabe que essa produção é sobre uma mulher, jornalista aposentada (Clara /Sonia Braga) que se recusa a vender seu apartamento para uma incorporadora que projeta construir no local um grande empreendimento. Todos os demais apartamentos foram adquiridos pela empresa, menos o seu, o  que a torna a única moradora do prédio na Praia da Boa Viagem, no Recife. Viveu ali sua vida, criou seus filhos agora adultos, construiu sua trajetória, coleciona livros e discos de vinil e é a partir dali que deseja aproveitar sua vida, de modo que nem se dá ao trabalho de ler a proposta em dinheiro feita pela companhia e sofre pressões dos antigos vizinhos que entregaram seus imóveis em troca de um novo apartamento no novo condomínio a ser construído.

Quando da apresentação desse filme em Cannes, artistas e produtores levantaram cartazes denunciando o golpe contra o governo da presidente Dilma.
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E de tanto ler esse release, chamou-me atenção o que ainda não tinha visto alguém mencionar

 * A hesitação da mulher madura para utilizar um amante profissional –  um reflexo da cobrança da aura de santidade que a sociedade ainda espera que as mulheres apresentem.
* A dificuldade de exercer a sexualidade plenamente depois que o tempo passa, num mundo em que os homens de qualquer idade parecem só enxergar as “novinhas”
* A filha pentelha, onde a mulher é a maior crítica da mulher;
* A força da opinião de grupo que restringe a liberdade de escolha e descamba para as ameaças, dizendo com clareza  que nem sempre a maioria significa democracia, que guiada pelos interesses pode ser muito autoritária;
* A expectativa de que sejamos sempre e integralmente aquilo que não descartamos por corresponder a uma parte – amante de música “analógica” Clara declara para as jovens estudantes de jornalismo que gosta também de música digital e faz uma incrível defesa das possibilidades dos encartes dos discos, definindo-os como uma garrafa no mar, mas como elas entenderiam isso sem a experiência de naufrágio?

Talvez eu esteja encontrando sutilezas demais,  no entanto nem acho tão sutis assim, apenas listei o  que não li em outros comentários.

Clara (Sonia Braga) é uma aposentada querendo curtir seus discos e livros no local onde construiu e viveu com eles sua história e isso não pode, porque aqueles que não tem tantas histórias, decidem por novas paredes. É complicado não encontrar conforto em nós mesmos, mais ainda quando todo o coletivo está a serviço das suas próprias individualidades. Se me perguntassem na saída do cinema sobre o quê é esse filme, creio que eu diria que além de ser sobre resistência e a oposição do caráter forjado pelas revoluções sociais e o que se formou a partir do endeusamento do dinheiro fruto mas tocando muito sobre o egoísmo em conjunto ou em separado, sobre o mundo nada ideal onde não há perguntas ou diálogo, apenas a necessidade de que se cumpra aquilo que vai favorecer ao jogador do lance imediato.

É interessante como a maioria ao redor de clara é de homens. Não à toa o filme acaba com “pau sobre a mesa”. Pau ruído, mas dando trabalho.

Mamute (2010) – O importante não é o destino, mas a jornada.

Um filme tosco contando uns dias na vida de um cara mais tosco ainda.

Talvez por isso que ficou restrito a poucas Salas de Cinemas. O que é uma pena porque passará despercebido para a maioria dos cinéfilos. Se bem que até por parecer um filme de amadores não deva atrair a esse contingente muito mais afeitos em apontar detalhes técnicos específicos nas grandes produções do que ver o filme por um todo. Algo mais a ressaltar estaria no fato de mostrar os atores sem os exageros de maquiagem, verdadeiras máscaras faciais tão comuns nos filmes hollywoodianos. Para o Cinema Francês, as rugas, a passagem dos anos nas faces dos atores não ficam escondidas. O que é ótimo!

Tosco é o termo que melhor define o personagem de Gerárd Depardieu: Serge Pillardosse.

Diferente do seu personagem em “Minhas Tardes com Margueritte“, já que esse era um simplório e muito carismático, em “Mamute” até há uma cena onde um ex-patrão o define como um idiota no sentido em ter dificuldade nos estudos – como era também seu personagem nesse outro -, Gerárd Depardieu conseguiu diferenciar os dois mesmo com esse ponto importante em comum.

Serge é um cara fechado, sem ser antipático.

Durante o filme ficamos sabendo o porque: há um peso pesado que vem carregando desde muito tempo. De poucos amigos. Se não tem quem goste dele, também não tem quem desgoste. Só não passa despercebido pelo seu tamanho. Cabeludo. Ainda guarda uma moto antiga: uma Mammuth. E é com ela que ele irá fazer uma jornada ao seu passado.

Aposentar de que?

Serge sempre trabalhou, mas ao requerer sua aposentadoria lhe dizem que faltam um período. Então é aconselhado pela esposa, Catherine (Yolande Moreau) a procurar por seus antigos patrões. Sem outra opção ele monta na moto e parte em busca dessa papelada que comprove que ele trabalhou. Mas ao fazer essa viagem de volta irá também reviver um velho fantasma. Velho, pelo tempo. Porque mesmo com um rosto muito marcado não dá para desviar o olhar de Yasmine (Isabelle Adjani).

O importante não é o destino, mas a jornada.

Assim, vamos na garupa dessa Mammuth, embalados ao som da deliciosa “Des Questions Me Reviennent“, de Gaëtan Roussel, nessa viagem com Serge. Onde há cenas surreais, de uma eu exclamar sorrindo: “Não estou acreditando no que estou vendo isso!” Essa cena é para um Top Ten especial. Só não posso falar qual para não tirar a surpresa. Direi apenas que é dele com um primo.

Em “Mamute” vemos um homem já não dando valor a si mesmo, achando meio perdido com aposentadoria, descobrir que se antes trabalhou como a formiga, que agora seria uma cigarra. Livre, também na essência! Eu gostei! De querer rever. Nota: 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Mamute (Mammuth. 2010). França. Direção e Roteiro: Gustave de Kervern, Benoît Delépine. +Elenco. Gênero: Comédia, Drama.

Notas Sobre um Escândalo (Notes on a Scandal. 2006)

Confesso que relutei um pouco a ver esse filme. Talvez pelo cansaço em ver em muitos a propagação de mais que estereótipos, o de acharem que uma homossexual é uma mulher recalcada, e o que é pior, quando veem que é por falta de uma…. com licença da palavra: piroca. Afe! Ainda mais quando isso sai do reino da ficção e vem para o mundo real e atual. Já que existem países onde a homossexualidade é crime. Ou até como ocorre na África do Sul com a aberração humana com o tal do “estupro corretivo“. Enfim, venci esse meu cansaço-pré-conceito e…

Fiquei aliviada em ver que o filme não veio com o chavão de mulher mal amada que por conta disso ficou homossexual. Muito embora há quem só se encontre numa relação homo, como pode ser visto em “Banquete de Amor“. Só que esse não é bem o caso da personagem de Judi Dench, a Bárbara. “Notas Sobre um Escândalo” até traz uma personagem homossexual, mas é de alguém que necessita, e muito, ter alguém aos seus pés… De um tipo de plateia particular, e submissa. E isso independe da sexualidade de uma pessoa. Tem a ver com algum tipo de sociopatia. Mas essa não é a minha praia, muito embora sempre fica como fonte de pesquisa em distúrbio comportamental.

Nessa personagem nem se trata apenas de um ciúme doentio, nem muito menos de medo da solidão, é mais. Aqui é sim de alguém vampirizando a outra. Até que essa sua vítima consiga sair por si só dessa teia. Fazendo-a escolher uma nova vítima.

Logo no início do filme há um caminho a nos guiar num quebra-cabeça psicológico. Em ir traçando o perfil de Bárbara. A primeira peça dele é de alguém que não quer que o sistema mude. Mudança para ela vem como fazer uso do lado lógico do cérebro. Pois esses, são mais difíceis de se controlar. Deixa de ser uma marionete.

Bárbara é uma Professora já perto da aposentadoria. Sem ter feito amigos pela vida lhe vem o medo de nem mais ter os seus dias preenchido com a balbúrdia dos alunos. Se fosse apenas o medo da solidão, poderia aproveitar os dias livres para pequenas ou longas viagens. Conhecer pessoas, lugares, culturas, comidas… Ou até escrever um romance ficcional. Já que gostava de escrever pequenas anotações como páginas de um Diário.

Então, Bárbara precisa de uma nova presa. Algo para se ocupar nos dias que virão. E lhe vem como um presente: uma professora novata e com problemas pessoais. Como também, alguém cheia de ideia para mudar um esquema educacional, que eu não o veria como falido, mas sim como acomodado. Assim, essa “estrangeira” lhe vem como uma presa fácil. Ela é Sheba (Cate Blanchet).

Sheba é alguém sedenta de amor. Casada com um homem mais velho, em vez de sair dessa união, acaba se envolvendo com um aluno bem mais jovem. Alguém que se sente a tentar mudar toda uma estrutura acomodada no campo profissional, deveria primeiro fazê-lo no pessoal. Essa contradição na vida que leva vem como uma peça chave para traçar o perfil de Sheba. Em fazer o quanto de uma personalidade como a dela vai de encontro a uma como a de Bárbara. Mais! Se haveria nela, intimamente, a igual necessidade de ter alguém a seus pés. Levando a crer, que os iguais também se atraem.

Sheba, a princípio, vê em Bárbara uma amiga em quem se pode confiar, e até sentir nela um olhar de mãe. Mas isso não fazia parte dos planos de Bárbara. Assim, vamos acompanhando essa caça-ao-ratinho, ver até onde vai esse gato, como também o que fará esse ratinho para se livrar disso, tendo certeza de que será um escândalo não de notinhas, mas sim de uma manchete.

Não deixem de ver! O filme é muito bom!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Notas Sobre um Escândalo (Notes on a Scandal). 2006. Reino Unido. Direção: Richard Eyre. Roteiro: Patrick Marber (Closer – Perto Demais). +Elenco. Gênero: Drama, Romance, Thriller. Duração: 92 minutos. Baseado no livro homônimo de Zoe Heller.

Nem Tudo é o que parece (Layer Cake. 2004)

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Até boa parte desse filme, eu pensei nessa frase acho que de uma música do Bezerra da Silva: “malandro é malandro, mané é mané“. Mas com o desenrolar da trama, a coisa mudou de figura, “é cobra comendo cobra“. O filme prende atenção. E foge do estilo hollywood.

O personagem do Daniel Craig é um traficante que sempre conseguiu se manter no anonimato. Não deixava rastro dos seus atos. Sabia respeitar a hierarquia. Aceitava a sua parte sem reclamar. Ao longo dos anos montou todo um aparato para não se pego pela polícia; tinha até onde lavar seu dinheiro.

Até que resolve se aposentar. Mas sair de cena assim, ainda mais sendo o melhor no que faz, teria um preço. A princípio, essa última missão até lhe pareceu estranha. Pois seria algo que até um mané poderia fazer. Achando que por ser algo fácil e que logo estaria livre para então curtir a sua aposentadoria em alto estilo aceita a tal incumbência.

É aí que começa o jogo… E um jogo de cartas marcadas!

E no final… no final eu exclamei um pqp!!

Ah! Nesse filme, vi a melhor definição para meditação: “Meditar é concentrar parte da mente numa tarefa mundana para que o restante encontre a paz.

Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Nem Tudo é o que parece (Layer Cake). Inglaterra. 2004. Direção: Matthew Vaughn. Com: Daniel Craig, Colim Meaney, Francis Magee, Kenneth Cranham, Tom Hardy, Jamie Foreman, Sally Hawkins, Burn Gorman, George Harris, Tamer Hassan, Marcel Iures, Dimitri Andreas, Garry Tubbs, Nathalie Lunghi, Marvin Benoit. Gênero: Ação, Aventura, Drama, Suspense. Duração: 105 minutos. Classificação: 18 anos.