Birdman (2014). O Canto do Cisne em Seu Apogeu!

birdman_de-wws-harrisPor: Cristian Oliveira Bruno.
Alejandro-Inarritu_Edward-Norton_Michael-KeatonAo terminar de ler o roteiro de Birdman ou (a Inesperada Virtude da Ignorância) [2014], Edward Norton (A Outra História Americana) pergunta ao diretor e roteirista Alejandro González Iñarrítu (Babel) quem havia sido escalado para o papel principal do longa. Ao ouvir o nome de Michael Keaton (Batman – O Filme) como resposta, Norton tem uma epifania: “É claro! É tão óbvio….e tão perfeito!“.

E é assim, trazendo um ator que viveu o auge de sua carreira no início dos anos 90, ao interpretar um popular super-herói no cinema, vivendo o personagem de um ator que viveu o auge de sua carreira no início dos anos 90, ao interpretar um popular super-herói no cinema que Birdman estabelece-se como um escarnio metalinguístico crítico e auto-crítico de primeira qualidade, brincando de fazer cinema com bom gosto e com alto grau de originalidade, fazendo de um filme simples o melhor filme de 2014.

birdman_2014_cenasO roteiro de Birdman é tão bem escrito que qualquer um de seus personagens poderia ser escolhido como protagonista – embora Riggan Thomson (Michael Keaton) realmente apresente-se como principal eixo dramático da trama. Se, por vezes, o excêntrico Mike Shiner de Edward Norton parece querer tomar todas as atenções para si – e de quando em vez até consiga – e a Sam de Emma Stone tenha lhe rendido uma justificada indicação ao Oscar, uma personagem e sua intérprete parecem ter ficado à sombra de sua real grandeza: Naommi Watts e sua Lesley, uma talentosa e sonhadora atriz que vive simultaneamente o melhor momento de sua carreira e uma das fases mais conturbadas de sua vida pessoal. Tanto a personagem, quanto a interpretação de Watts deveria ter recebido maiores holofotes, pois são marcantes e dignos de nota. Inusitadamente trazendo uma trilha composta unicamente por solos de bateria, Birdman é justamente aquilo que seu diretor pensa sobre cinema: “um conjunto de elementos distintos em constante movimento trabalhando em conjunto pelo mesmo propósito“. Assim sendo, Iñarrítu se desprende de qualquer estigma narrativo e/ou estrutural, sentindo-se mais do que à vontade para transpôr sentimentos e sensações para a tela. Portanto, não estranhe os quase intermináveis planos-sequência (que geraram preocupação por parte se toda a equipe para com a saúde dos cameramens, que sustentavam o pesado equipamento móvel por muitos minutos, transitando pelos vários cenários – um teatro real foi usado como locação) ou cenas em que Michael Keaton levita ou move coisas com a mente. Tudo isso é tão bem construído que se torna a mais pura apresentação de contexto e personagem elaborada nos últimos sei lá quantos anos.

birdman_2014_01Sem poupar ninguém nem fazer concessões, Birdman critica e desnuda tudo e todos que compõem seu universo, atacando sem piedade – porém, com muita elegância – todos aqueles que integram o mundo glamouroso da Broadway, sejam atores, diretores, platéia e críticos. E principalmente, Birdman ataca seus egos, principal fio condutor de sua trama. Pois não há nada mais instável do que o ego. Ele que nos faz acreditar sermos capazes de fazer o capazes somos – nem nunca seremos – capazes – de fazer e nos leva a cometer os mais mirabolantes atos.

Birdman é o cinema em sua mais pura forma e utilizando-se de absurdos, metalinguagem, fantasia e técnicas para fazer uma verdadeira obra-prima contemporâneo. Birdman está aí para nos mandar um recado: Hollywood ainda tem esperança, mesmo que esteja fora dali.

Nota: 9,5.

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O Erro e os Muitos Acertos num Oscar 2015 bem Politizado!

oscar-2015_politizadoOscar-2015_Jack-Black_Neil-Patrick-Harris_Anna-KendrickEu até que deveria começar com os pontos positivos, mas sendo um evento com um anfitrião no comando, partirei dele. É que eu não gostei da performance de Neil Patrick Harris no geral. Ele até canta bonitinho, mas aí quando entrou o Jack Black no show musical, esse roubou o espetáculo. Harris não tem o carisma de Hugh Jackman, por exemplo, que deu um verdadeiro show quando foi ele o apresentador do Oscar. Eu não sei porque a Academia não retorna com o Jackman. Enfim, saindo da área musical, Harris ao tentar fazer piadas acabou que as deixou sem graça, para não dizer quando nem seria algo cômico. Mesmo que não tivesse sido escrito por ele, faltou-lhe bom senso em vetar certos comentários. Ou, por ser ele realmente sem graça. Um dos episódios onde o que poderia ter sido uma crítica pelos atores do filme “Selma” que não foram indicados, não ficou de bom tom: “Hoje celebramos os mais brancos, ops, os mais brilhantes“, mas se redimiu no decorrer do programa ao dizer: “Agora vocês gostam dele…” pelos aplausos a premiação de Melhor Canção para esse mesmo filme. Mas foi deselegante ao criticar o vestido de uma das premiadas. É! No geral, no mínimo faltou-lhe bom senso. E que para mim não seria mais convocado.

Como citei número musical… Além desse no início homenageando filmes premiados – Neil Patrick Harris, Anna Kendrick e Jack Black -, além dos com as concorrentes ao Oscar de Melhor Canção, outros dois se destacaram. Um pelos 50 Anos do filme “A Noviça Rebelde“. Muito bom que Lady Gaga não tenha mudado os arranjos! Uau! Ela conseguiu atingir a nota em “The hills are alive” como a de Julie Andrews no filme. Um outro foi com a Jennifer Hudson cantando “I can’t let go“, após uma apresentação com atores e pessoas ligadas ao mundo do cinema que faleceram em 2014. Muito bom!

oscar-2015_meryl-streep-vibra_discurso-da-patricia-arquetteA 87ª cerimônia da Academy Awards foi marcada com discursos em protestos a causas dos direitos civis, aos direitos humanos, a causas feministas… Outro ponto alto do Oscar 2015. Bem melhor do que recusar o prêmio, estaria em ao recebê-lo aproveitar que é ao vivo e de alcance mundial, e protestar. Se houver retaliação da Academia será num depois.

Por conta do vazamento de emails entre executivos da Sony dizendo que atrizes ganhavam menos que atores num mesmo filme mesmo elas sendo mais famosas que seus colegas… Levou a premiada da noite – Melhor Atriz Coadjuvante – Patricia Arquette então clamar “Essa é a hora de ter salários e direitos igualitários para todas as mulheres dos Estados Unidos”, sendo ovacionada pelo público, em destaque pelas câmeras do programa: Meryl Streep e Jennifer Lopez. No geral, as mulheres premiadas aproveitaram também para a importância dos personagens femininos. Abraçando também a causa por equiparação em todos os setores num mundo dominado por machos. Destaque ainda pela reclamação de que no Tapete Vermelho só perguntam às atrizes pelos modelitos e para os atores é sobre o trabalho deles. Boa!

oscar-2015_documentario-citizenfourUm outro discurso que merece destaque veio do premiado Documentário, CitizenFour. Por conta de retratar a trajetória de Edward Snowden, eles saudaram a atitude e coragem desse, concluindo: “Sem liberdade não há democracia“. Outro foi com os autores da Canção premiada “Glory“, do filme “Selma“: “É dever de um artista refletir os tempos em que vivemos. Nós escrevemos essa canção para um filme baseado em eventos de 50 anos atrás, mas nós afirmamos que ‘Selma’ ainda existe porque a luta por justiça ainda continua. Vivemos no país mais encarcerados no mundo. Há mais homens negros sob controle correcional hoje do que estavam sob a escravidão , em 1850“. Esse filme além de não ter nenhum de seus atores indicados, também deixou de fora a Diretora Ava DuVernay. Pelo jeito parte significativa dos “eleitores” da Academia devem ser os mesmos que deixaram o Congresso dos Estados Unidos mais “elitizado”. E mesmo tendo votado em um “mexicano” creio que para eles o que contou no filme foi por mostrar carreiras artísticas. Sendo que para mim, Alejandro Iñárritu mereceu os de Melhor Direção e Melhor Filme por ter revolucionado com “Birdman“.

Falando em Iñárritu, houve uma certa troca meio pesada entre Sean Penn e ele. É que Penn ao anunciar “Birdman” como o vencedor, falou: “Quem deu o green card para esse cara?“, indo logo em seguida ao encontro do outro para abraçá-lo, e que foi retribuído. Iñárritu então já no microfone entra na brincadeira dizendo: “Talvez no próximo ano o Governo imponha alguma regra de imigração à Academia… Dois mexicanos em anos seguidos… Suponho que possa parecer suspeito.” (É que Alfonso Cuarón ganhou o de Direção em 2014.). Em entrevista após a premiação Iñárritu falou que há liberdade para isso na amizade entre eles. De qualquer forma, Iñárritu deixou claro num pequeno discurso de que os Estados Unidos é uma nação de imigrantes. Boa!

Um outro destaque vai para o discurso de Graham Moore, premiado em Roteiro Adaptado por o “O Jogo da Imitação” e que vale trazê-lo na íntegra: “Quando eu tinha 16 anos, eu tentei me matar porque eu me sentia esquisito, diferente. É como se eu não me encaixasse. E agora eu estou aqui. Eu queria que esse momento fosse dedicado à criança que está lá fora e que se sente estranha, e diferente, e que sente que não se encaixa em lugar nenhum. Sim, você se encaixa. Continue esquisita e continue diferente. Então, quando for a sua vez e você estiver em pé neste palco, por favor, passe a mesma mensagem“. Bravo!

J.K Simmons, premiado com o de Ator Coadjuvante também fez um discurso emocionante, algo que muitos também gostariam desse tipo de lembrança: “Ligue para sua mãe, ligue para seu pai. Se você tiver a sorte de ter um deles ou os dois vivos neste planeta, fale com eles. Não mande mensagem. Não envie e-mail. Fale com eles por telefone. Diga a eles que você os ama, agradeça”. O mundo está carecendo disso! Bravo!

Oscar-2015_O-Grande-Hotel-Budapeste_premios-tecnicosAnd the Oscar goes to… “Birdman” levou 4: Melhor Filme, Melhor Diretor (Alejandro Gonzáles Iñárritu), Melhor Roteiro Original (Alejandro G. Iñárritu…), Melhor Fotografia. Pode até acharem que Michael Keaton merecia ganhar até pela idade… Mas Eddie Redmayne, por “A Teoria de Tudo” mereceu o de Melhor Ator. Não tenho muito o que falar para o de Ator Coadjuvante para J.K. Simmons por “Whiplash” é que eu ainda não vi o filme, mas pelos comentários de antes: era vitória certa. Assim como também o era para o de Melhor Atriz para Julianne Moore por “Para sempre Alice” – ela levou o filme nas costas. Também era esperada a vitória em Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette por “Boyhood“, outro que eu ainda não vi. Um filme cativante que até poderia ganhar nas categorias principais caso não existisse “Birdman” no páreo é “O Grande Hotel Budapeste” que eu amei e fico satisfeita que pelo menos saiu com um bom número das estatuetas douradas: Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Design de Produção, Melhor Trilha Sonora. E que até colocaria o ator Tony Revolori que fez o Zero como indicado ao de coadjuvante por ele ter um que de Chaplin. E para constar, os demais premiados… “Whiplash” além do de Ator Coadjuvante levou também o de Melhor Edição/Montagem, Melhor Mixagem de Som. “O jogo da imitação” o e Melhor Roteiro Adaptado. “Interestelar” o de Melhores Efeitos Visuais. “Selma” o de Melhor Canção, “Glory”. “Sniper americano” o de Melhor Edição de Som. “Operação Big Hero” o de Melhor Animação. “Ida” de Melhor Filme em Língua Estrangeira. “CitizenFour” o de Melhor Documentário. “The phone call” o de Melhor Curta-Metragem. “Feast” o de Melhor Animação em Curta-metragem. “Crisis Hotline: Veterans Press 1” de Melhor Documentário em Curta-metragem.

Então é isso! O erro foi escalarem Neil Patrick Harris. Mas por todos os posicionamentos e pela maioria em causas sérias o saldo foi muito positivo. Até porque nas edições anteriores quando havia algum discurso era quase de uma única pessoa. E quem tiver curiosidade em saber o perfil dos “eleitores” da Academia, segue o link.

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância). 2014

birdman_2014_01alejandro-gonzalez-inárritu_cineasta_birdmanJá adiantando que o filme é excelente e que tentarei não trazer spoiler! Até porque eu estou em suspense em como contar essa história onde parece estarmos numa poltrona mágica levados por toda trama com receio até de que se paramos cogitando se perdera algo poderemos de fato perder parte dela. Já tivera essa sensação em “Pina“, mas ai Wim Wenders usou com maestria a tecnologia do 3D. Já nesse aqui, eu diria que Alejandro González Iñárritu fez uso do talento de seus técnicos + espaço cênico. Conduzidos por esse genial cineasta!

Para quem conhece pelo menos um pouco da obra de Iñárritu sabe que ele parte de um ato único para então interligar todos os demais personagens ao protagonista. Assim, temos como pano de fundo em “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância” alguém querendo provar até a si próprio de que ainda é um ótimo ator. Que em se tratando dos Estados Unidos, os mais antigos ainda glamoriza a Broadway: a meca das produções teatrais. Como se a Hollywood não atestasse o talento de um ator. Para esse ator, essa segunda escalada ele já alcançara no passado com então o personagem que dá nome a primeira parte do filme: “Birdman“. Queria então partir para o seu segundo ato: tentar conquistar a Broadway. Para quem acompanhou a Série “Smash” teve uma ideia do quanto é difícil conquistar um dos importantes palcos dali, mais ainda em permanecer em cartaz, o que por si só já denotaria o sucesso da peça teatral. Bem, a história do filme já o coloca lá numa pré estreia. Assim, temos quase toda a trama focada nas apresentações dos ensaios técnicos abertos ao público.

birdman_2014Claro que o peso maior recai sobre esse ator, Riggan Thomson. Grande atuação de Michael Keaton! Para Riggan além do peso de anos sem atuar, há o do personagem que de ícone passara a ser Cult, lembrado em grande maioria por um público adulto. Quem lhe dará o toque de que precisa se atualizar para então atrair um público mais jovem é sua filha Sam. Personagem de Emma Stone, uma camaleoa ao se passar por uma adolescente rebelde. Dizendo que os tempos são outros, que deveria aproveitar da velocidade advinda dos iphones para as redes sociais. Que para esse grande público não bastava o peso de quem o fora no passado, eram atraídos mais por algo que escandalizasse. Bem, de qualquer forma, sem querer Riggan atrai para si esse tipo de flash. Mas que piora seu embate com o novo ator trazido por quem faz sua esposa na tal peça, a Lesley (Naomi Watts). Essa mesmo ciente do temperamento desse outro, o traz. Talvez imbuída da urgência, ou até por querer o sucesso da peça a qualquer custo, afinal era a Broadway e ela estava preste a realizar um sonho de criança… Riggan também concordara… Enfim, era alguém que atrai um público que soma o peso do nome com os escândalos que provoca. Ele é Mike Shiner, personagem do sempre ótimo Edward Norton. Pois é! Sem fugir da tal fama, ou até por conta dela, Mike de alto do seu egocentrismo tentará roubar o espaço em cena com Riggan. Um duelo de egos. Ou seria de alter-egos? Mike seria um James Dean da atualidade. Mas é ele quem acaba dando um toque em Sam para que pese a sua própria rebeldia contra o pai.

birdman_2014_01Já em relação a dicotomia entre celebridade x notoriedade, ator de filmes x ator de teatro… e por ai vai. É alimentada pela crítica teatral Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), odiada e venerada por uma gama de maior idade, mas desconhecida ou não endeusada pela parcela mais jovem. Terá um embate primeiro com Mike, depois com Riggan. Com esse não ficará pedra sobre pedra… E é dela que vem a segunda parte do título do filme: “A Inesperada Virtude da Ignorância“. Agora… Quem até então ignorara o que?

Além de tentar também se apaziguar com a ex-mulher, Sylvia (Amy Ryan), fora a filha… Riggan tem em seu calcanhar seu agente/advogado, Jake (Zach Galifianakis. Bom vê-lo num personagem mais sério.): com o orçamento em vermelho, com os acidentes de percurso na condução da peça teatral… Jake só não dimensiona a gravidade do estado de Riggan. Esquizofrenia ou para-normalidade? Sem como perceber de fato o que se passa com Riggan, Jake no fundo é um bom amigo. Até porque o próprio Riggan não admite para si mesmo que precisa de ajuda de um profissional da área, nem fala para ninguém. Até fala para Sylvia, mas não sendo explícito, essa também não avalia a gravidade… Com isso, meio que sozinho, ele acabará travando um embate com Birdman. Fora tudo mais a lhe pesar também a alma… Será muita coisa para ele digerir… Paro por aqui para não lhes tirar o suspense.

Então é isso! Preparem o fôlego porque irão voar, subir, descer… pela câmera vasculhando toda a trama, que é um deleite também para também os da área psico. Os atores estão em uníssonos! A Trilha Sonora, tirando uma certa bateria, é ótima! Com um Final em aberto? Eu diria que Riggan deixa todos livres para os seus próprios solos. Espero que não venham com uma continuação. Bem, de qualquer forma para “Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância” os louros vão em primeiro lugar para Alejandro G. Iñárritu! Ele é um gênio! Que por conta de como contou essa história criou uma obra prima! Que só por isso o filme merece até ser revisto!

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância. 2014. Ficha Técnica: página no IMDb.

O Homem Duplicado (Enemy. 2013)

o-homem-duplicado_posterPor Marcos Vieira.
O caos é ordem ainda indecifrada.” É com essa frase que tem início o quebra-cabeça narrativo de O Homem Duplicado. Nele, o professor de história Adam (Jake Gyllenhaal), que vive em um instável relacionamento com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), descobre que existe um homem idêntico à ele. Esse duplo é o aspirante à ator Anthony (Jake Gyllenhaal, é claro), que tem seus próprios problemas com sua grávida e desconfiada esposa Helen (Sarah Gordon). O filme trata então dos conflitos que surgem quando Adam descobre a existência de Anthony e quando os dois homens se encontram. Enquanto Adam é tímido e retraído, Anthony é impulsivo e agressivo, e o filme se desenrola a partir do efeito que a revelação da existência do outro tem sobre cada um deles.

o-homem-duplicado_01Mais do que um simples suceder de acontecimentos, a narrativa é montada de forma a colocar o espectador dentro do pesadelo que essas personagens estão vivendo, incluindo aí a namorada e a esposa. Mesmo em cenas que poderiam ser simples, como quando Adam pesquisa sobre a vida de seu duplo na Internet, uma iluminação sombria e uma trilha sonora tensa e impactante constroem um clima de suspense psicológico angustiante. Cortes bruscos e intensos nos momentos de maior desespero das personagens contribuem para esse clima. Além disso, todo o filme é permeado de uma simbologia a priori indecifrável, sendo a principal delas a presença de uma enorme tarântula em alguns momentos. É a presença dessa aranha e de algumas cenas desconexas envolvendo ela e/ou algumas das personagens que dá o tom extremamente surreal da coisa toda. “O Homem Duplicado” é daqueles filmes que deixa o espectador em suspense em relação não apenas ao que vai acontecer, mas também ao que está acontecendo.

o-homem-duplicado_02E o que está acontecendo é o maior enigma desse filme. Você pode acompanhar perfeitamente a sequência de acontecimentos, mas o segredo está em saber o que eles significam. A situação dos dois homens é absurda e nenhuma explicação lógica é oferecida pela história. Em determinado momento, o filme simplesmente acaba, e fica para o espectador a tarefa de tentar prover uma explicação lógica para o que ele acabou de ver. Isso deixa espaço para as mais loucas teorias e infinitas discussões, a exemplo do cult Donnie Darko, também estrelado por Jake Gyllenhaal (coincidência?).

Esse é um filme que vai te deixar com vontade de discutir as possibilidades e ler várias teorias na Internet. Não é por acidente que só estou escrevendo sobre ele uma semana depois de assistí-lo. É isso o que acontece quando um roteiro livremente baseado em uma obra homônima de Jose Saramago. E O Homem Duplicado é dirigido pelo já genial Denis Villeneuve, de Incêndios.

Se não fiz uma análise mais profunda da história nos parágrafos anteriores, foi para evitar a revelação de detalhes que podem estragar um pouco a experiência de quem ainda não assistiu. Porém, não posso deixar de compartilhar com vocês algumas das explicações nas quais pensei. E é por isso que…

Os parágrafos a seguir contém SPOILERS:

É possível estabelecer com razoável certeza que os dois homens são…[Continua aqui.] Voltando

Essas são apenas algumas das explicações possíveis e não é possível afirmar que nenhuma delas é a correta sem sombra de dúvidas, e essa é a beleza da coisa. Antes de escrever esse texto, eu acreditava que essa última hipótese era a mais aceitável, mas durante a escrita da primeira hipótese que apresentei aqui, passei a crer que ela é a que deixa menos pontas soltas. Quantas vezes ainda iremos mudar de versão?

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte II

festival-do-rio-2013A GAROTA DAS NOVE PERUCAS (Heute Bin Ich Blond) de Marc Rothemund tem um tema forte. Uma menina cheia de vida que de repente enfrenta um câncer devastador. Quando começa a perder cabelos por conta do tratamento, decide comprar várias perucas e assumir diversas personalidades. O humor e a criatividade da jovem ajudam a combater a doença. Um tema comum numa ótica alemã bem diferente, cheia de talentos e sem os excessos de dramaticidade comuns a Hollywood.

TATUAGEM é uma pérola hedonista de Hilton Lacerda. Ambientado numa periferia nordestina no final da ditadura no Brasil (1978) traça um retrato pouco visto da época já exaustivamente focada no eixo Rio/São Paulo. Ao sair dessa zona urbana conhecida, o filme ganha um colorido único com números musicais poderosos e sequências geniais amparadas por um roteiro preciso e um elenco vigoroso onde todos se destacam. Clécio (O excelente Irandhir Santos) quer montar um show ousado num cabaré decadente com o nome de chão de estrelas e se apaixona por um menino soldado cujo apelido é Fininha (Jesuita Barbosa). A paixão resulta num aparente contraste entre a resistência burlesco-nordestina e a severidade militar. Não tarda para que a trupe comece a se rebelar contra a aparente ameaça. O extravagante Paulete (Rodrigo Garcia numa composição inspiradíssima) está à frente dessa pacífica oposição. O que mais funciona no filme é a ausência de falsos pudores nos diálogos e especialmente nas cenas de sexo. O primeiro encontro de Clécio e Fininha é um primor de erotismo precedido de uma arquitetura de sedução notável, bem como o assédio sexual no quartel militar. Destacam-se também os curiosos relatos populares ligados ao pecado como o bebê que nasce sem cabeça ou o burburinho causado pela liberação de obras proibidas como “A Laranja Mecânica” de Kubrick com as famosas bolinhas pretas censurando a nudez frontal dos atores. Tudo costurado com primor e talento formando um espetáculo único e inesquecível que volta a orgulhar o cinema nacional ultimamente estremecido com produções grosseiras de bilheteria fácil. Salve o nordeste!

BEHIND THE CANDELABRA foi concebido para ser exibido na tela grande, daí a qualidade em todos os quesitos da produção. No entanto, o diretor Steven Soderbergh teve de se contentar em vender os direitos para a televisão por conta da temática gay exagerada. Como conseguir conter um personagem como o músico Liberace que exalava excentricidade por todos os poros? Liberace já era famoso e tinha quase 60 anos quando conheceu o adolescente Scott Thorson que se tornou seu amante por muitos anos. Os dois são vividos magistralmente por Michael Douglas e Matt Damon que travam batalhas verbais elaboradas numa estória muito bem roteirizada. Mas o ponto alto é para a maquiagem que transforma Damon de menino a adulto, Michael num velho afetado que definha com uma doença mortal e Rob Lowe em um cirurgião plástico hilário e deformado que certamente é um dos pontos altos de sua carreira. Vai passar na HBO. Vale a pena ser visto.

SHAMPOO um filme de Hal Ashby datado de 1975 provou que perdeu força ao longo do tempo. Exibido em película riscada, com a cor adulterada e o som distorcido, mostra os então jovens Warrem Beaty e Goldie Hawn numa comédia de difícil digestão com drama demais inserida no roteiro para ser engraçado. Tudo gira em torno do cabeleireiro George, que aproveita da fama homossexual que a profissão lhe conferia na época para se envolver com todas as mulheres que se aproximavam. O atrativo maior da sessão seria a presença da estrela Goldie Hawn que simplesmente não apareceu.

GRAVIDADE (Gravity) de Affonso Cuarón apesar de incursões mais profundas inseridas nos (bons) diálogos deve ser encarada como puro entretenimento. Diversão do tipo montanha-russa mesmo com muita aflição. A sensação conferida com o 3D e o Imax  é de queda livre e afogamento. Tudo se passa no espaço dividido pela engenheira Ryan e pelo astronauta Matt numa missão delicada quando são atacados por uma chuva de meteoros que os deixam flutuando à deriva sem contato com a Terra. George Clooney está perfeito como sempre, mas o filme é de Sandra Bullock que imprime terror e coragem assombrosos em cada fotograma onde aparece lutando pela vida. Hollywood continua a fazer filmes extraordinários.

GATA VELHA AINDA MIA de Rafael Primot teve sessão de gala no Odeon com a presença das estrelas Regina Duarte e Barbara Paz. Regina é Gloria Polk, uma escritora solitária que já teve seus dias de Glória e é entrevistada por uma jovem jornalista (Paz) num embate furioso regado à inveja e amargura. Ainda que com deslizes no roteiro, o filme mantém interesse por conta dos diálogos cáusticos e da força das atrizes, ganhando um diferencial no epílogo surpreendente, quase noir com toques de terror para acabar derrapando um pouco no desfecho um tanto mal solucionado. De qualquer modo, vale conferir nem que seja para observar a estranha composição de Gilda Nomacce no papel da intrometida vizinha Dida. Gilda já havia feito outro filme exótico e excelente, o cultuado “Trabalhar Cansa”.

GIGOLÔ AMERICANO (American Gigolo) teve apresentação em película no CCBB o que é sempre uma boa experiência apesar do desgaste do tempo. O próprio diretor Paul Schrader estava presente na projeção desbotada e riscada de sua obra de 1980. Richard Gere brilha no auge de sua beleza, numa trama quase ingênua para os dias de hoje, vivendo um prostituto de luxo envolvido num crime. O talentoso Giorgio Moroder faz a música no mais fraco dos seus trabalhos para o cinema e Armani assina os figurinos que marcam época. Schrader afirmou na conversa após a sessão que não faria o filme hoje com o conteúdo homofóbico daquela versão que coloca gays como vilões inescrupulosos e o personagem de Gere imitando gratuitamente um homossexual. Cita a boate The Probe mostrada no filme como um cenário estereotipado e underground. No entanto era um lugar freqüentado por todos, inclusive por ele na época. Revela, afirmando não ter preconceitos.

festival-do-rio-2013_03O LOBO ATRÁS DA PORTA pode ser considerado um thriller. Baseia-se no caso conhecido como “A Fera da Penha” que chocou o Rio na década de 60. Extremamente bem conduzido por Fernando Coimbra, o longa conta com um elenco de grandes nomes como Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabíula Nascimento nos papéis principais, bem como participações muito especiais de Juliano Cazarré e Thalita Carauta (A Janete de Zorra Total num papel parecido com o trabalho que vem fazendo, mas com o sabor de cinema). Tudo começa com o desaparecimento de uma criança. Os pais da menina são chamados à delegacia e Rosa, a amante do pai, é a principal suspeita do sequestro. Nesta versão, o macabro acontecimento continua a acontecer no subúrbio do Rio, embora se desloque um pouco da Penha para Oswaldo Cruz e tem a época atualizada para o tempo corrente, o que lhe confere um distanciamento perfeito para manipular com a suposta obscuridade psicológica de cada personagem sem a preocupação da exatidão e fidelidade dos fatos. O resultado é um grande filme.

O ABC DA MORTE (The Abcs of Death) como quase todo filme com muitos diretores não é um filme regular. No caso, a situação se agrava por conta de reunir diretores de diversas partes do mundo para contar o tema macabro através do alfabeto. No entanto, há momentos muito originais e até geniais no meio de uma sucessão de escatologia e terror gore. Digamos que muitas letras se salvam.

Erros e Acertos na Entrega do Oscar 2013.

oscar-2013Com toda a certeza eu não daria um para o anfitrião da 85ª edição do Oscar, o Seth MacFarlane. Chegou a me dar sono num momento, que me fez ir até a cozinha e pegar um café. Se a Academia quis nesse evento homenagear os grandes Musicais, sem dúvida poderiam ter escolhido Hugh Jackman, pois esse canta, dança e encanta! Ainda no campo das homenagens, lembrar os 50 anos de James Bond 007 nas telas, foi merecida. Mas eu tenho que concordar com Rubens Edwald Filho (Acompanhei a cerimônia pelo canal TNT.), que faltou estar ali ao vivo os atores que deram vida a esse personagem. Outro ponto desfavorável aos organizadores dessa grande celebração do Cinema.

De cá, eu aplaudi de fato o Oscar para Quentin Tarantino, por Melhor Roteiro Original. Pelo menos esse teriam que dar a ele. Até porque o pelo Filme, já era carta marcada. Já falo sobre isso. Ainda  com “Django Livre“, é um primor de Filme, onde a escolha do ator Jamie Foxx deixou um pouco a desejar. É que em algumas cenas eu cheguei a pensar se algum novato teria totalizado o personagem, ou até um outro já conhecido, onde nessa hora me vinha à mente Ice Clube. Já a performance de Christoph Waltz foi visceral, o que o levou ao merecidíssimo Oscar de Ator Coadjuvante. Para Quentin Tarantino eu o faria dividir um de Direção com Ben Affleck.

Falando em Ben Affleck… não houve demérito em “Argo” levar o de Melhor Filme. Mesmo parecendo uma premiação de cartas marcadas, como a elevar a moral da tropa, ou mesmo da população estadunidense. O filme é de fato muito bom! Ben Affleck fez um excelente trabalho na direção. Mesmo se conhecendo o final da história, nossa atenção e tensão foi mantida até o final. E se alguém creditar o mérito nos atores, eu citaria um exemplo, e de um filme de um dos produtores de “Argo”, George Clooney, onde esse ele quem dirigiu. Foi em “Tudo Pelo Poder“. George Clooney teve tudo nas mãos para realizar um grande filme, mas faltou a ele o que esbanjou em Ben Affleck: talento na Direção.

Ainda não vi “As Aventuras de Pi“, e mesmo também ainda não tendo visto “Lincoln“, quem levaria o de direção seria Steven Spielberg. Quando eu assistir o primeiro verei se de fato foi merecido o Oscar de Melhor Diretor para Ang Lee. E como a Academia já estava ciente que Spielberg não levaria, poderiam dar a ele um prêmio que faltou esse ano, o pelo conjunto da obra. Que não seria nem uma premiação de consolação, pois se o tema do evento eram Temas Musicais muitos da Filmografia de Spielberg permanecem até hoje na nossa memória cinéfila. Como: “Tubarão”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “E.T. – O Extraterrestre”, “Indiana Jones””… Bem, se é lenda urbana ou não, vendo Spielberg posicionado bem atrás, nas poltronas, já se visualizava que ele não levaria mesmo esse Oscar.

Spielberg leva então o mérito de ter insistido para que Daniel Day Lewis aceitasse fazer o personagem título do filme “Lincoln“. Com sua performance ele conquista também o Oscar de Melhor Ator. Ainda não vi nenhum dos filmes indicados para essa categoria, mas se Daniel Day Lewis já conquistara outras premiações com esse papel, parece justo então completar a sua coleção com esse Oscar.

Merecido o Filme de Michael Haneke, “Amor“, ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Mesmo só tendo visto esse, o filme além de enfocar a velhice deixa no ar um tema que volta e meia aparece nas manchetes jornalísticas. Trata-se de um spoiler: a eutanásia. Haneke tem esse poder de ser imparcial ao mostrar uma realidade, deixando para nós a reflexão ou até um julgamento do fato.

Tirando Seth MacFarlane, a noite da premiação penderia para o lado masculino, não pela falta de surpresa nas escolhas, mas mais pela satisfação na confirmação do prêmio. Pois uma coisa é sonhar, outra é enfim ver o sonho realizado.

Então, o que dizer da presença feminina no Oscar 2013?

Claro que havendo prêmios distintos para Ator e Atriz as mulheres marcam presenças não apenas pelos modelitos. O Tapete Vermelho da Academia vira um Desfile de Grifes famosas do mundo da Moda. Não sei como se dá a escolha entre Atrizes e Estilistas, mas por conta de alguns vestidos bem que poderiam dar uma aula de como se caminhar com ele. Um exemplo foi quando numa entrevista ver que ao fundo aparecia uma delas andando com o vestido vermelho todo levantado aparecendo até as coxas. Sem contar, é claro, com o tombo da atriz Jennifer Lawrence subindo as escadas do palco. Uma “gata borralheira” dos tempos modernos. Com panos demais, noutros de menos, os Estilistas também deveriam conhecer todo o percurso que as atrizes terão que fazer.

De qualquer forma, além das atrizes que fizeram parte dos shows musicais – em destaque a coreografia da Charlize Theron que deu um show dançando -, a bela voz de Adele cantando “Skyfall” foi o maior destaque no Oscar 2013 pelo lado feminino. Levando o Oscar de Melhor Canção Original para o filme “007 – Operação Skyfall“.

Destaque maior teria sido se em vez de Jennifer Lawrence levar o de Melhor Atriz, tivessem premiado Emanuelle Riva. Não que eu esteja desmerecendo a atuação da outra, até porque eu ainda não vi o filme “O Lado Bom da Vida“, mas a performance da Emanuelle foi um primor. Talvez porque muito pouco dos que votam viram “Amor”. Um outro fator surpresa nessa premiação teria sido o prêmio ir para Quvenzhané Wallis. Mas assim como já era esperado a premiação ir para Jennifer Lawrence, também o era para o de Melhor Atriz Coadjuvante para Anne Hathaway.

Sendo então a premiação para jovens atrizes, já que a encantadora menina Quvenzhané Wallis de “Indomável Sonhadora” não levou, temos uma outra destemida levando o prêmio de Melhor Animação para “Valente“, a jovem Merida. Sendo que essa ganhou vida pela computação gráfica. E um Oscar merecido!

A surpresa mesmo ficou para o final, em quem Jack Nicholson chamou pelo telão. Com isso encerrando as participações femininas nessa 85ª edição do Oscar quem disse o “…and the Oscar go to…” final, no caso para o de Melhor Filme, foi a Primeira Dama: Michelle Obama. Mais indicativo que seria “Argo“, só mesmo se fosse anunciado pelo próprio presidente. Em seu pequeno discurso, Michelle disse:

Bem-vindos à Casa Branca. Sinto-me honrada em apresentar o Melhor Filme deste ano. …filmes que elevaram nossos espíritos, ampliaram nossas mentes. …quero parabenizar todos os indicados pelo seu tremendo trabalho. …os filmes levam as pessoas a voltarem no tempo e viajar ao redor do mundo. lições para os jovens. Todos os dias, por meio de seu envolvimento com as artes, nossas crianças aprendem a abrir a imaginação e a sonhar mais alto”.

Em resumo, o filme que mais prêmios levou foi “As Aventuras de Pi”: Melhor Direção, Melhor Direção de Fotografia, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Trilha Sonora. “Argo” levou 3 estatuetas: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Montagem. E “Lincoln“ que liderava em número de indicações, levou: Melhor Design de Produção e Melhor Ator. Um link com a listagem com todos os indicados e premiados com o Oscar 2013. [em construção ainda; depois serão todos linkados aqui.]

Então é isso! Entre erros e acertos, eu digo que valeu ter visto o Oscar 2013!

Por: Valéria Miguez (LELLA).