Sagração à Primavera: Stravinsky e Béjart.

sagracao-da-primavera_stravinsky_bejartPor José Bautzer Fusca.

O lugar comum vê a primavera – a primeira verdade, o primeiro ver – como o momento da natureza idílica, florida e perfumada, quando o amor ronda o ar e os corações pulsam poéticos. Mas a coreografia de Maurice Béjart para a Sagração à Primavera de Igor Stravinsky nos devolve para a realidade áspera da música e olhar criterioso de um músico e de um coreógrafo geniais.

A primavera é rude, impiedosa e amoral, a ela basta exaltar os hormônios das marionetes vivas em disputa febril e não raro mortal pela reprodução. Não há ingenuidade nem visão idílica de pastos floridos e alegres. A vida, na música eloquente de Stravinsky pulsa o ardor da luta dos machos na disputa das fêmeas, e bandos de animais cavalgam, revoam e nadam em frenesi pela reprodução do melhor da espécie. É uma visão cruel. Bela, mas cruel, de uma natureza aparte de qualquer moral humana e apolínea. A ode é por um Dionísio febril.

Em comovente bailado o fraco se esvai, rasteja e morre atrás do bando em célere disparada. A fálica masculinidade, em eloquente representação plástica, corteja o útero receptivo das dançantes em coreografia circular, compondo uma flor ou um útero. A coreografia e a música são fortes e rudes, como a primavera em pulsante desejo selvagem pela vida e a amoral seleção dos mais aptos. Este balé, esta música são fortes e, repito, rudes. Não permitem a visão idealizada e romântica do lugar comum. É possível identificar com clareza a vida animal e seu drama primaveril de migração, vida e morte, na busca da reprodução.

Tive o imenso prazer de assistir este mesmo balé postado em vídeo, não apenas em sua apresentação no Teatro Municipal De São Paulo, décadas atrás, como também nos bastidores do ensaio, em um momento mágico e inesquecível, por um gesto de extrema simpatia para com este ardoroso fã que sou. Foi com emoção forte que encontrei o registro em filme dessa vigorosa coreografia que tenho o prazer de dividir com vocês, meus amigos.

Curiosidade: Poderão conhecer um pouco de Igor Stravinsky no filme “Coco Chanel & Igor Stravinsky“.

Anúncios

PINA + Wim Wenders + um 3D Mágico = O Nascimento de um Clássico.

Tem coisas que nos deixam sem palavras. E tem coisas que as palavras não dão conta de dizer. É aí que entra a dança.” (Pina Bausch)

Como tinha referências para assistir Pina” em 3D, é por esse fator que inicio. Pelo lindo cartaz ficava a ideia de que o uso dessa tecnologia ficaria no efeito de respingos de água na platéia. Algo por aí. Mas Wim Wenders foi muito além, e brilhantemente! Desde 2009, com o sucesso de bilheteria de “Avatar”, houve uma febre de 3D, mas pouquíssimos filmes usaram esse recurso a ponto de valer a pena. Até a presente data, para mim, “Pina” é o quarto filme a usar com inteligência o 3D; os demais foram: “Avatar“, a Animação “A Lenda dos Guardiões” e “A Invenção de Hugo Cabret“. Em “Pina” Wim Wenders usou o recurso colocando o espectador num lugar privilegiado num espetáculo de Dança. A teatralização de um evento desse porte, com o 3D deixa a impressão de estar ao vivo assistindo a um Balé Moderno. E realmente como se ficássemos num lugar mágico. Ora vendo de pertinho o suor no corpo do bailarino, ora sentido a força para dar a leveza ao movimento… A magia do 3D em “Pina” inicia com um convite para adentrar nessa Companhia de Balé Moderno, e de emocionar! Contar o que é, seria um spoiler que lhes tiraria a surpresa nesse encantamento. Bravo Wim Wenders! O 3D fez mesmo a diferença!

Conhecer Pina foi como encontrar uma linguagem antes de aprender a falar. Assim ela me deu um modo de me expressar. Um vocabulário.”

O Documentário “Pina” conta de maneira ímpar parte da carreira profissional de Pina Bausch. Coreógrafa, dançarina, Pedagoga de dança e diretora de balé em um Teatro na Alemanha, o Tanztheater Wuppertal – que depois foi acrescido: Pina Bausch. E é justamente com essa sua Companhia que ficamos conhecendo Pina, a profissional e um pouco do lado pessoal, pelos depoimentos dos bailarinos. Cenas que me emocionou também!

O ballet clássico é para jovens. O que mais me fascina na dança contemporânea é a possibilidade de interpretar a nossa própria idade“. (Mikhail Baryshnikov)

“Pina” me fez lembrar de alguns filmes. Sendo que dois deles por também terem usado a dança como linguagem. Um, foi “Fantasia”, da Disney. E quando eu vi a cena com o hipopótamo, sorrindo pensei: “Minha intuição estava certa!” O outro foi um que revi há pouco tempo, o “O Sol da Meia-Noite“, onde a dança moderna também é um coadjuvante de peso. Mas mais em cima de que tanto o personagem, quanto o bailarino Baryshnikov foi em busca: de uma dança que não ficasse presa a um corpo jovem. Claro que em “Pina” o fato de trazer também os dançarinos com mais idade teve o peso da homenagem. Mas numa atualidade onde a efemeridade nos leva quase a perder o bonde da História, é aplaudir como Wim Wenders conduz todos eles para contar essa história. Aqueles que conviveram por mais tempo com Pina, mostraram com a marca do tempo, que a dança fala por si só. Que a linguagem corporal transcende, já que ela vem de dentro.

O mais ínfimo detalhe importa. É tudo uma linguagem que você pode aprender a ler.”

Mesmo para mim que não conhecia a sua arte me vi envolvida com todas as coreografias. Claro que sendo uma Dança se pensa logo numa música como mestre de cerimônia, mas aqui não, ela vem com um coadjuvante que até pode ser trocadas, receber outras músicas do país de origem do dançarinos. A Trilha Sonora é formidável! De em certos momentos querer seguir o ritmo. Em sorrir ao ouvir “Leãozinho” do Caetano Veloso. De ficar com lágrimas na coreografia da jovem com o rosto de batom. De bailar discretamente com o som caribenho. E um solo me fez pensar no filme “O Artista“. Vendo o filme identificarão a cena. Ela é ótima!

“Eu não investigo como as pessoas se movem, mas o que as move.” (Pina Bausch)

As coreografias de Pina Bausch fazem uma junção de Dança e Teatro, onde os poucos objetos cênicos usados fazem frente ao corpo de baile. Os levando a se conhecerem, a vencerem seus receios, a extrairem de si a força do sentimento. E em várias escalas: da solidão à alegria num encontro entre amigos, permeando com os relacionamentos a dois. Pina também usa elementos naturais como a terra e a água, ou como um grande granito. Natureza bruta que entra em comunhão com a natureza crua do dançarino. O 3D nos leva a sentir a pulsão desse, e nesse enlace. Realmente esplêndido!

O Documentário “Pina” já nasceu um Clássico. Que por conta disso deveria ser visto por muito. Por outro lado, pela temática muitos não irão apreciar. Como o senhor no meu lado que bocejou várias vezes a ponto de me fazer dar um grande bocejo, mas que me fez foi não ficar mais suscetível a ele. Como uma barreira invisível entre nós dois. Dai em diante foquei somente no filme. Vale a pena ir assistir em 3D! E que me deixou vontade de rever. Mas ai seria sem o 3D mesmo já que quem distribuiu o filme no Rio de Janeiro resolveu elitizar exibindo em um ponto nobre de Cinema. Já numa 4ª semana: sala lotada. Creio que o mesmo se daria em outros bairros.

Wim Wenders diz que a Pina gostava também de incorporar elementos externos e pertencentes aos locais em suas coreografias. Assim não sei se foi proposital, ou mesmo se foi para incorporar um merchan no Documentário. Porque uma coreografia num entrocamento ficou irresistível não olhar para uma placa enorme do MacDonald’s ao fundo. O que me fez lembrar da faixa da Coca-Cola em “Adeus, Lênin!“. Como também, caso não tenha sido por merchan, qual seria o significado de um símbolo de Fast Food no contexto da tal dança?

Então é isso! Pode ser que outros mais também irão trazer outras Danças, Balés Clássicos em 3D, mas os créditos serão para Wim Wenders: o pai dessa ideia sensacional. E quem sabe num futuro barateando as televisões com 3D, muitos mais terão acesso a filmes como esse. Porque o 3D caiu como luva para esse tipo de espetáculo. Assistam e comprovem. Até porque gostando ou não de Dança Contemporânea, ao se darem essa chance verão um Clássico. De tudo, não sairão indiferentes.
Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Sol da Meia-Noite (White Nights. 1985)

Antes de falar do filme, quero contar sobre esse belíssimo e emocionante desenho. É do Saulo Goki. Ele o fez atentendo a um pedido meu, para assim também contar a história desse filme. Grata, Saulo! Ficou mais que perfeito para ‘O Sol da Meia-Noite‘! (Conheçam mais trabalhos desse artista, acessando sua homepage: Saulo Goki.) Agora, o filme.

Uau! Rever “O Sol da Meia-Noite” mesmo depois de tantos anos não deu para segurar as lágrimas no final. Se antes a torcida era para que um dos personagens seguisse por aquela corda rumo a liberdade – num dos grandes momento do filme -, dessa vez ela ficou contida. Melhor! Foi substituída por um “Bravo, Ray!” Por então já saber que ele fez o que fez para que os “três” tivessem mais chance de sair dali. Para quem ainda não viu esse filme, fica a sugestão. Está na programação do Canal TCM. Assista. E depois volte para seguir na leitura. É que mais adiante no texto, terá spoiler. Para quem já viu, venha comigo!

Qual o tamanho da liberdade que lhe é necessária? Não a utópica. Mas sim aquela que lhe daria a liberdade de seguir o seu norte. Em poder mostrar o seu talento. Para realizar aquilo que lhe dá prazer.

Conquistar o direito de ir e vir não parou no período pós Guerra Fria, nem com a materialização disso com a Queda do Muro de Berlim. Ainda hoje há muitas dessas cortinas de aço. Israel levantou uam há bem pouco tempo. Para cercear esse direito aos cidadãos da Palestina. Cito isso, caso alguns adolescentes que queiram assistir esse filme saibam que o tema principal desse filme não está apenas nos seus Livros de História. Assim, o filme se tornou também atemporal. Além de um Clássico na memória afetiva de alguns cinéfilos. Entre eles, eu! Traçando esse paralelo com a realidade atual, e de algumas nações, pode-se visualizar melhor o drama de alguém ir atrás não apenas do seu sonho, mas por sentir que terá a liberdade de escolha. Mais! Ao abraçar uma outra pátria, se sinta de fato um cidadão nela.

Em “O Sol da Meia-Noite” será a Dança e a Música que contarão uma emocionante história. Como pano de fundo a época da Guerra Fria entre duas potências: Estados Unidos versus União Soviética. Na personificação de dois personagens que antes nativos de cada uma delas, agora pertencentes ao outro lado. Que traz também uma outra realidade, e que tem a ver com preconceito racial: de um lado um “louro nórdico”, e do outro um “afro-americano”. Ambos Bailarinos. Um, por se sentir podado numa gaiola dourada, ousou fugir dela. Já o outro que a princípio foi ciente de que viveria numa, o seu grande motivador fora por não querer abraçar uma Guerra: a com o Vietnã. Desertara dela. E quem seria esses dois?

O ballet clássico é para jovens. O que mais me fascina na dança contemporânea é a possibilidade de interpretar a nossa própria idade“. (Mikhail Baryshnikov)

Mikhail Baryshnikov interpreta um deles. Como também algo que vivenciou na vida real: o abraçar outra pátria. No filme ele faz o Nikolai. Um bailarino que pedira asilo polítio aos Estados Unidos. Queria poder dançar o que quisesse, e não o que lhe era imposto. Amava a dança para ficar somente preso aos Clássicos. Queria também vivenciar o Balé Moderno. Acontece que por um acidente do destino, o avião onde viajava, já como integrante de uma Companhia americana, fora obrigado a fazer um pouso de emergência em solo soviético. De volta a toca dos leões!

O outro quem o faz é o ator Gregory Hines. Ele é o Raymond, o Ray. Cansado de ser mais um negro Sapateador nos Estados Unidos, sonhou em ter um reconhecimento profissional na Rússia. Mas muito mais por conta da sua ex-nacionalidade do que pelo seu talento é que lhe deram um palco. Que para ele era bem mais do que conseguiria no Harlem, Nova Iorque. E em solo soviético conhece Darya, personagem de Isabella Rossellini. Se apaixonam e se casam.

Tudo seguia rotineiro para esse casal. Até que o destino traça um outro rumo: Ray será usado para tentar convencer Nikolai a primeiramente voltar a treinar, depois voltar a se apresentar no grande Teatro Kolya. Ray mesmo sendo obrigado, acredita que com isso irá se apresentar em teatros mais importantes na Rússia. Para um público mais seleto.

Quem faz essa intermediação é o Ministro da Cultura, Coronel Chaiko, personagem de Jerzy Skolimowski. Excelente performance! Mas revendo agora esse filme, não lembro se na primeira vez que vi se esse personagem me impactou tanto quanto o Coronel Landa, de Christoph Waltz, em ‘Bastardos Inglórios‘. Pelo perfil do personagem, me peguei a pensar se de certa forma Quentin Tarantino se inspirou no Chaiko para construir o seu Landa. Não gosto de fazer esse tipo de comparação. Acho injusto. Mas o Coronel Landa de Christoph Waltz veio para pontuar os Vilões da História do Cinema. De qualquer maneira, Jerzy Skolimowski merece aplausos. E seu Chaiko fez uma ácida ponte para os personagens principais se confrontarem.

Não tento dançar melhor do que ninguém. Tento apenas dançar melhor do que eu mesmo.” (Mikhail Baryshnikov)

Então, nesse embate temos, de um lado um negro nascido nos Estados Unidos tentando ter um palco importante em solo soviético, e do outro lado, um branco que abraçou o país do outro porque lá poderia dançar o que quisesse, e sem importar em que palco. Será um belo duelo! De ideais também. Algo bem planejado pelo Cel. Chaiko. E aos que ainda não conhecem esse filme, quando eu friso a negritude do personagem é porque o preconceito racial está na trama do filme. Mais! Será usada como arma pelos dois lados.

Nikolai sabe que tem pouco tempo. Precisando do fato que sua Agente (Personagem de Geraldine Page) ainda está fazendo tudo o que pode para trazê-lo para dentro da Embaixada Americana. O único jeito dele se ver livre novamente. Se antes o destino cochilou com o tal pouso do avião… Depois mostrou a ele um jeito de fugir daquele prédio. É quando o Cel. Chaiko traz a antiga namorada, como mais uma arma de persuasão. Ela é a bailarina Galina Ivanova, personagem da Helen Mirren. Galina está na direção da Escola de Balé. Um alto cargo. Para o Coronel, ela não porá tudo a perder. Mas seu tiro sai pela culatra! Já que Galina consegue um jeito de ser uma ponte entre Nikolai e a Embaixada. Também terá umas ajudas invisíveis para essa fuga. Uma, de um subalterno do Coronel. Numa de – “Beba do seu próprio veneno!” -, acaba dando segundos preciosos a mais para a fuga. A outra ajuda vem de uma zeladora da Academia. Mesmo para alguém acostumada em viver como numa casta, se sente bem quando alguém de uma superior lhe trata como um igual. Demonstrando que conhece um pouco da sua vida pessoal.

Se separarmos o contexto histórico – Guerra Fria -, o filme traz mais um tema. Mais que mostrar os Estados Unidos como a Terra Prometida, é o de querer ter o livre arbítrio em traçar seu próprio destino. Mas ambas as nações tolhiam esse desejo. Uma muito mais abertamente do que a outra. O que me fez lembrar agora, revendo esse filme, de um outro, o “O Declínio do Império Americano”, por levantar essa questão, em especial, com essa frase síntese:

A História não é uma ciência moral. A legalidade, a compaixão, a justiça são estranhas à História. Isso significa, por exemplo, que os negros da África do Sul estão destinados a vencer um dia, enquanto os negros americanos, provavelmente, nunca o conseguirão.“

Para Ray, um fator novo irá pesar na sua decisão final. Que o fará recusar aquela mão amiga a lhe chamar para a liberdade. Agora tinha um filho a caminho. Que ali não teria mais o “peso” do pai. Ray era como um troféu de guerra para os russos. Já seu filho, nascendo ali, não seria. Então Ray deixa que esse futuro filho tenha oportunidade de traçar seu próprio destino. Decide ficar para dar mais tempo à fuga dos três: Nikolai e Darya grávida.

O título do filme participa como um fato que mesmo que habitual na vida dos habitantes, ainda desnorteia um pouco a rotina diária. Do tipo: “Apesar de estar claro como o dia, ainda é noite.” Com isso há o de se esperar pelo funcionamento de tudo, quando de fato é de dia. O que pode ajudar, como também dificultar a fuga. O título também evoca algo romântico: uma luz a brilhar, a guiar, na escuridão. Como também há uma simbologia no campo psíquico. Se o sol do meio do dia seria o momento onde a sombra (conceito junguiano) se faz totalmente ausente, com o da meia-noite seria ter a visão por completo dela: conhecer a fundo os seus medos. E sendo o filme made in usa, uma outra simbologia: o sol representaria os Estados Unidos, e as trevas a cortina de aço.

Agora, o filme também traz um tema importante: o valor de uma verdadeira amizade. Mostrando que ela pode nascer mesmo sobre um forte antagonismo. Se fortalecer mesmo que num curto período. E o quanto um simples gesto pode deixar raízes profundas. Algo que marcará tanto, que virá a ser um divisor de água pelo menos na vida de um deles. Uma amizade que, se não durar para sempre, por certo fará parte da memória afetiva dos envolvidos.

Finalizando! Eu amei muito de rever esse filme! Só potencializou esse gostar. Confirmando que continuará na minha memória afetiva. E ao som de “Say You, Say Me”, na voz de Lionel Richie. Assistam!

Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Sol da Meia-Noite (White Nights. 1985). EUA. Direção: Taylor Hackford. Gênero: Drama. Classificação etária: Livre. Tempo de Duração: 136 minutos.

Pina (2011). Wim Wenders

Por: Fatima Daia Bosch.
O filme Pina, de Wim Wenders, é um documentário em homenagem à bailarina e coreografa alemã Pina Bausch, falecida em 2009. Os dois se conheceram quando ela apresentou seu espetáculo Café Muller, e se tornaram amigos. O filme deveria ter sido uma realização em comum dos dois. Com a morte súbita de Pina pouco antes do inicio da filmagem, Wenders chegou a pensar em abandonar o projeto, mas mudou de ideia, encorajado pela família da coreografa e pelos dançarinos de sua trupe. No filme se intercalam coreografias e depoimentos dos bailarinos.

Uma coisa importante a saber sobre o filme é que ele foi feito para ser visto em 3D. Essa característica me desencorajou um pouco. Confesso que até então não tinha visto uma real serventia, ou melhor, nada que compensasse o desconforto do uso de óculos especiais. Dessa vez tive que dar a mão à palmatoria. A escolha se adaptou perfeitamente à visualização dos números de dança, permitindo ao público captar toda a dimensão criativa das coreografias. Também belíssima a solução encontrada para o uso das imagens antigas, portanto em duas dimensões, de Pina Bausch dançando.

Seria entretanto um erro falar apenas do lado técnico e coreográfico do filme. Fiquei extremamente impressionada com os depoimentos dos dançarinos falando dela, da forma com que ela se comportava com eles, do extremo respeito e sensibilidade que ela demonstrava ter. Uma coisa me chamou a atenção, desde o inicio: a idade dos bailarinos. Alguns eram muito jovens, outros bem mais maduros. As próprias imperfeiçoes dos corpos não eram de forma alguma obstáculo à beleza dos espetáculos, e o corpo de cada bailarino exaltava à sua maneira a coreografia. Essa mesma atitude respeitosa de cada indivíduo aparecia nas recordações de cada um, essa preocupação em fazer com que cada pessoa descobrisse ela mesma a sua verdade e a fizesse aparecer no palco.

Essa mesma preocupação com as pessoas aparecia na escolha temática das coreografias, que falavam de amor, de separação, e que mergulhavam profundamente na alma humana (eu ia dizer na alma feminina, porque embora esses temas sejam universais achei extremamente feminina a visao dela). Por motivos pessoais sou muito sensivel a esse tratamento respeitoso, e por isso o filme me tocou demais. Nao conheci Pina Bausch,apenas de ouvir falar, mas graças às danças e aos depoimentos fui embora do cinema sentido sua falta. Durante o tempo que o filme durou ela voltou a viver.

Fiquei pensando; quando o cinema apareceu, era considerado uma arte menor, comparada ao teatro, uma mera curiosidade. Quando o cinema falado surgiu, muitos custaram a aderir, pois o cinema de verdade era o outro, o mudo. Ver um verdadeiro filme de autor em 3D me fez perceber que na verdade eu estava sendo preconceituosa.

Rever meus conceitos, passar duas horas de puro deleite e voltar pra casa com saudades de uma pessoa que nao conheci. Balanço mais que positivo para uma tarde perfeita. Nao deixem de ver!

Por: Fatima Daia Bosch.

Cisne Negro (Black Swan. 2010). Qual teria sido a pressão maior a essa me-Nina?

Indo assistir “Cisne Negro”  já estava ciente de que a personagem principal Nina (Natalie Portman) passava por um distúrbio psíquico. A profundidade dele, só vendo o filme. Por ser eu uma cadeirante, logo com certas limitações, e até mesmo adequações frente a uma nova realidade, batia em mim também uma curiosidade em ver o que ela faria, já que galgava o papel principal na nova montagem do “Lago dos Cisnes“. Claro que estou ciente de que limitações motoras não dá para se comparar com as mentais. Diante disso, fui disposta a observar os maiores detalhes que eu pudesse de Nina e todos em sua volta. E irei trazê-los para cá. Com isso o texto terá spoiler. Ficando também a sugestão de que assistam primeiro esse filme. Que o considero uma Obra Prima da performance da Natalie Portman.

Durante as primeiras cenas me veio a lembrança da Phoebe, personagem de Elle Fanning em “A Menina no País das Maravilhas“. Por ambas terem adentrado num mundo da fantasia. Um meio de escaparem das pressões do mundo real. Outro ponto em comum que também me chamou a minha atenção: foram o papel das mães. No sentido de quanto influenciavam na vida das filhas. No conflito interno que padeciam. A mãe de Phoebe retirou a filha das mãos de um Psiquiatra por achar que o problema seria por não ter tido tempo para a filha. Já a mãe de Nina, Érica (Barbara Hershey), mantinha uma dedicação quase integral. Quando não podia estar junto da filha, tinha outros olhos a lhe informar dos passos da Nina no Teatro. Falando em olhar, o da Érica sobre a filha parecia vampirizar a me-Nina. Meio assustador! Excelente atuação da atriz. E até por conta disso, nem lhe passou pela cabeça procurar ajuda por Profissionais da área Psico.

Esse também é um ponto que irei abordar: da busca por uma Terapia. O termo é mais difundido como o de fazer um hobby. Algo para desanuviar a mente ante a uma pressão, ou bloqueio… Enfim, até pode ser. Mas há de se pesar de que cada caso, é um caso. E só quem poderia avaliar com mais precisão seria alguém que estudou para isso. Sendo ele um profissional sério, saberá encaminhar para um especialista. Como leiga no assunto, me pareceu que o problema de Nina poderia ser pelo menos atenuado com medicação prescrita por um Psiquiatra.

Como eu fui com um olhar em buscar pelos sinais do distúrbio da Nina, o de se coçar até ferir, foi um deles. Sendo nas costas, seria outro já adentrando nos ensinamentos de Jung – a Sombra. Como também para quem gosta de Astrologia – a casa 12. A Phoebe também se autoflagelava como uma punição. No caso da Nina, a princípio, ela nem se dava conta disso. Era como se o seu outro “eu” que fizesse isso. Pode até ser que esse coçar… aos olhos de um Profissional já seria um sintoma. Para mim, seria um aviso de que minha filha estaria passando por um problema que a cabecinha dela não estava dando conta do recado. Um diálogo aberto levaria a outros sinais.

No caso de Nina, sua própria mãe é quem nos fornece maiores detalhes. Que para ela eram todos contornados em tratando a filha como uma criança, ainda. Volto a destacar a atuação da Hershey: foi brilhante! Cheguei a ficar com raiva dela com a solução que ela deu. Conto? Contarei sim. Mas antes, já que a mãe via aquele coçar até se ferir como Compulsão, fui pesquisar por um significado. Trouxe esse do site do Dr. Dráuzio Varella:

O comportamento compulsivo se caracteriza por uma pressão interna que, em determinadas situações, faz com que a pessoa se sinta impelida, tomada por desejo muito forte de realizar uma ação que gera prazer principalmente nos estágios iniciais, mas que depois provoca sentimentos de culpa e mal-estar.”

Para mim, não se aplica no comportamento da Nina. Mesmo se tratando de uma compulsão, não seria cortando as unhas que iria resolver. Porque poderia se coçar com objetos que iriam ferir mais. Como a mãe veio com um – “Você voltou a fazer!” -, então era hora para procurar por uma ajuda. Na cena em si cheguei a ficar com raiva dela em tratar a filha como um bebezinho. E vendo o quarto de Nina, via-se ali os sonhos ainda da infância. Ainda uma adolescente. Achei-o sufocante.

Antes de prosseguir deixo uma indagação: Por que ainda nos dias de hoje há tanta resistência em se procurar por um profissional da área psi? Hora desses profissionais retirarem esse ranço antigo: de que são só para “loucos”.

A mãe de Nina fazia tudo isso por projetar na filha aquilo que ela não conseguiu ser: uma bailarina de destaque. O fato de ficar sempre como pano-de-fundo, a levou a outros caminhos. No filme não faz referência de como se engravidou de Nina. Se foi algo do tipo: teste de palco. Também não há indícios se houve em algum momento uma figura paterna. Não que seja algo imprescindível, mas no caso de Nina essa ausência terá uma consequência. Conto mais adiante.

Essa transferência – o filho será o que não conseguiu ser -, é algo muito forte na cultura estadunindense. Por polarizar: ou se é um winner, ou se é um loser. Mas também está presente na relação – pais e filhos – de outros países. A mãe de Nina a responsabilizava de que com o seu nascimento teve que abandonar a própria carreira aos 28 anos de idade. Algo que me fez lembrar da personagem principal de “Comer Rezar Amar“, onde às vésperas de completar 30 anos, ainda não se via como mãe. Para muitas das mulheres, atualmente, e que querem ser mãe, deixam para ter filhos após os 25 anos. Até para se dedicarem mais esse novo papel em suas vidas. Por conta disso me peguei a pensar de que a gravidez de Érica fora algo indesejado.

Não sei o quanto pesa na vida de uma mulher o fato de tentar conquistar a posição de 1ª Bailarina numa Grande Companhia de Balé. Desconheço os meandros. Sendo assim parto de supor de que alguém tendo 28 anos de idade se ainda não “aconteceu”, ficará difícil alcançar esse posto. Assim, não há desculpas convincentes para as cobranças da mãe de Nina. E a filha ao soltar as primeiras amarras, diz a mãe que ela sempre faria parte do corpo de balé, nada além disso.

O Lago dos Cisne, ou melhor os dois personagens principais – o Cisne Branco e o Negro – pediam por alguém jovem. Que se tiver condições, uma única bailarina faria os dois. Havia também o fato de que a Companhia passava por uma grande crise financeira. Dai, precisando de uma carinha nova; de sangue novo. Por conta disso aposentam a até então primeira bailarina: Beth. Grande atuação de Winona Ryder.

Nina admirava Beth. Aspirava ser perfeita como ela. Buscava pela perfeição em seus ensaios. Que não passou despercebido pelos olhos da Companhia, no caso, do Coreógrafo Thomas Leroy. Uau! Vincent Cassel me surpreendeu nesse papel. Foi brilhante! Não caiu em estereótipo. Seu coreógrafo não me levou a pensar em seus outros papéis. Pode até ser que essa atuação não seja o seu divisor de água, mas está de parabéns.

Thomas fora um Mentor diferente. Ciente da capacidade de Nina, faltava ingressá-la na Sedução o qual o Cisne Negro exigia. Nina já possuía a candura necessária para o Cisne Branco. Um jeito menina de ser. Lhe faltava descobrir a mulher fatal dentro de si e trazê-la à superfície. Bem, poderia apenas aflorar o poder de seduzir, mas a pressão do momento exigia muito mais.

Thomas faz isso de um jeito encantador. Fica meio difícil acreditar que um Pai, mesmo hoje em dia, daria o mesmo conselho. Dai o vi como um Mentor. Indo além, como um cara de bom caráter que sabe esperar que a jovem também o queira para uma relação íntima. Um cavalheiro à moda antiga. Mesmo que as verdadeiras intenções de Thomas eram fazer dela – de fato e de direito – a 1ª Bailarina da nova versão do Lago dos Cisnes.

Seu conselho foi para se masturbar. O primeiro passo para sentir os prazeres do próprio corpo. E então poder exteriorizar essas sensações até para ajudar no processo de sedução. Pois o Cisne Negro teria que ser bem provocante com a plateia. De modo a surpreender a todos com as duas formas de sedução em cada um dos Cisnes. O angelical, do Cisne Branco. O de mulher fatal, do Cisne Negro.

Com isso a me-Nina cresce. Fazendo uma revolução em sua vida. Que até poderia ter vindo como uma consequência natural de vida: infância -> adolescência -> maturidade… Mas tendo a mãe lhe pressionando a não crescer, talvez para que chegasse ao estrelado ainda com o frescor da adolescência. Essa mãe também deveria fazer uma Terapia.

Por estar sempre cobrando o seu nascimento me veio a impressão que ficou no subconsciente de Nina uma aversão a uma relação hétero. Nina passa isso quando um carinha em uma boate a leva para um cantinho. Com o Thomas não foi um desejo carnal, mas em aprender rápido o que ele queria na interpretação do Cisne Negro. Como se não bastassem as pressões: uma doença em evolução, a mãe, a posição de Primeira Bailarina, o sentimento de culpa pela “aposentadoria” da Beth, o querer ser perfeita na carreira, não conseguir se enturmar, o coreógrafo lhe cobrando numa mudança para então fazer também o Cisne Negro… Enfim, se não fosse tantas pressões, o próprio Thomas lhe traz mais uma: uma bailarina para ficar como substituta. Já que “o show não pode parar“… a Companhia precisava ter alguém à altura do espetáculo.

Ela é Lilly (Mila Kunis). Se Nina pudesse raciocinar com calma veria que ali dentro não teria concorrência. Nem Lilly lhe tiraria a vaga. Já que ela não trazia o porte elegante de Nina. Lilly pendia mais para a vulgaridade. Tinha talento sim, mas para se encaixar na disciplina do Balé Clássico, Lilly precisaria de muito treinamento.

Inocentemente, Nina busca em Lilly tudo aquilo que não consegue ser por si mesma. A carência por uma amizade a leva a se entregar de corpo e alma a Lilly. Onde realidade e fantasia se misturam em sua mente. Mas essa por sua vez cerca Nina de todos os modos. Esperando os momentos certos para atacar. A maldade em Lilly lhe era tão natural que cegava a visão de Nina. Não vendo que o que Lilly pretendia mesmo era destronar Nina. Ela só descobrirá já um pouco tarde.

Nina que antes tinha a lhe assombrar o Cisne Negro… direciona a sua limitação em aprender com essa nova amizade. Sem ter consciência da sua nova realidade, no caso, de ter uma outra personalidade, a faz também um objeto de desejo. Ao se masturbar, Lilly se materializa. Onde eu não vi como sendo a descoberta de uma homossexualidade. Era o seu outro “eu” querendo ser provocativa. Me fazendo lembrar de “Uma Mente Brilhante“, onde o “colega de quarto” do personagem principal, o Nash (Russel Crowe), também era o seu contraponto. Mas esse teve alguém que lhe amava e conseguiu ver a real situação do marido. Diferente de Nina que não teve ninguém que pensasse nela como uma pessoa, e que precisava de ajuda. Só pensavam neles. Quando a então notaram… já era tarde demais.

Cisne Negro” também aborda uma outra mudança atual. Até um tempo atrás era muito comum ver menininhas em uniforme de Balé. Fazia parte do sonho infantil: ser bailarina. Até as com tendências a engordarem eram encorajadas numa tentativa em mudarem seus hábitos alimentares. Além disso, elas também ganhavam as primeiras noções dos Clássicos: Música e Dança. Eu não sei se a intenção do Diretor era em mostrar o total desconhecimento dos Clássicos pelos jovens de hoje. Muitos dos quais buscam em serem Celebridades sem o menor esforço, e com muito menos estudos. Um pouco de Cultura não faz mal a ninguém. Aronofsky leva isso nos dois jovens que Nina e Lilly conhecem na boate. Ambos sequer tinham ouvido falar do “Lago dos Cisnes”.

E qual teria sido a pressão maior a essa me-Nina?

Para mim a grande vilã dessa história foi a mãe de Nina. Que a conduziu até a borda daquele precipício. Final emocionante. Para ficar na História do Cinema.

Ao fechar as cortinas…

Bravo Natalie Portman! Sua Nina entrou para a Lista das Grandes Personagens Femininas! Aplausos também a todos! Desse excelente filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Cisne Negro (Black Swan. 2010)

Não esperava outra coisa, que não fosse excelente, de um diretor do gabarito de Darren Aronofsky. Ainda muito jovem este é um dos iluminados do cinema, visto que desde Pi – seu filme de estreia – todos os seus trabalhos são clássicos do novo cinema (a título de curiosidade, no IMDB, seu pior filme tem a nota 7.4).

Logo já sabia que o filme seria algo melhor do que temos nos habituados a averiguar no cenário atual – onde remakes e continuações persistem num cinema que está ficando sem criatividade e a beira da falência. O que eu não sabia é que Cisne Negro era a principal obra de Aronofsky até o momento, candidato à melhor filme dos últimos anos.

Aronofsky demonstra ter habilidade de sobra para retratar os homens e seus demônios, parece conhecer como ninguém a loucura presente em cada um de nós, o grito contido na garganta e as consequências do sentimento reprimido. Como diria Gabriel Garcia Marques – “todo escritor sempre escreve o mesmo livro”, neste caso este diretor sempre dirige o mesmo filme, explorando cada vez mais a angústia do homem presente no mundo, assim como doenças da alma e do coração.

Uma breve sinopse: Cisne Negro é uma história que mostra a expectativa e o esforço da bailarina Nina em busca da apresentação perfeita para a estreia da nova montagem de O Lago dos Cisnes, balé composto em quatro partes pelo russo Tchaikovsky. Nina, já com 28 anos, sempre treinou arduamente para o papel principal, e agora que é selecionada, exerce uma enorme pressão em torno de si mesma.

Esta pressão faz com que Nina se torne uma mulher atormentada, perturbada e com mania de perseguição, que passa a ver coisas e imaginar situações que se confundem com o nível real. Logo Nina passa da breve pressão para ataques constantes de psicose e delírio pré-loucura. De certo modo, lembra muito o declínio de Raskólnikov, protagonista de Crime e Castigo, obra clássica de Fiódor Dostoiévski – tenho lá minhas dúvidas se o filme não foi influenciado pela literatura do escritor russo (coincidência ou não, existe um filme brasileiro chamado Nina que é baseado em Crime e Castigo).

O Cisne Negro permite uma série de análises complexas nos seus diferentes atos. É um filme que traz algumas fendas de reflexão que nos autorizam a mergulhar por horas em suas diretrizes distintas. Entre estes pontos podemos destacar a relação entre Nina e sua mãe, uma mulher protecionista que abdicou de sua carreira de bailarina, para cuidar de Nina – fruto de um relacionamento do que podemos classificar como “Uma Noite e Nada Mais”.

Nina pode ser vista como uma consequência de sua mãe (e não como uma filha ou uma cria): Nina é a oportunidade de sua mãe vingar-se como a continuidade da carreira de bailarina que foi “obrigada” a abandonar. Além disto, Nina é sempre vista como uma menina por sua mãe – o quarto decorado como uma menina de 12 anos, mais as regras e deveres impostos a protagonista, causam uma repressão e uma espécie de fúria contida, que traz graves sequelas posteriores.

Este relacionamento complexo entre mãe e filha corrobora ainda mais com minha teoria: nunca um escritor explorou tão bem a conturbada relação entre pais e filhos do que Dostoiéski, ilustrada tão perfeitamente em Os Irmãos Karamazov. Inclusive o ápice do delírio chega a um notável grau de semelhança entre o Cisne Negro e o livro. Deveras, os traços de influência estão lá, como se fossem easter eggs para os apreciadores do escritor russo.

Outro ponto de destaque é a conversão da menina ingênua, que é uma abstração do cisne branco, para a menina perversa, que nada mais é do que o cisne negro tão almejado. De fato, o cisne branco tem uma apresentação impecável, perfeita, onde devido aos traços inocentes da personalidade de Nina, não há dificuldade em preservar o papel. Entretanto o cisne negro peca em excesso: o cisne negro está muito distante de Nina e acaba por influenciar a sua apresentação.

Para que ela consiga chegar ao seu objetivo, há uma série de iniciativas provenientes principalmente de Thomas Leroy – o diretor da montagem – que tenta despertar o espírito malvado em Nina tão necessário para encarnar a personagem obscura do balé. Este dualidade entre o negro e branco desperta constantes desequilíbrios na protagonista, que chega a ter acessos esquizofrênicos durante boa parte do filme.

Por fim, não menos importante, é o relacionamento entre Nina e Lily, uma colega do balé que é personificação do próprio cisne negro. Lily é substituta direta de Nina, que vê em sua colega uma ameaça para o seu papel, o que acalenta ainda mais a pressão exercida por si mesma. Lily é o Gral de Nina, objeto de perseguição e obsessão. É para lá que Nina deve caminhar se quiser se tornar o cisne negro perfeito.

É neste clima que o filme se desenvolve. Não irei citar nenhum caso em específico para não diminuir a experiência daqueles que irão assistir. Entretanto é interessante guardar estes pontos em sua mente para que se possa criar uma posterior reflexão dissertativa, visto que possibilidades não faltam. Ademais, outros pontos, que não os apresentados neste texto, podem ser explorados. O filme é quase inesgotável.

Portanto Clint Eastwood que se cuide, pois está chegando Darren Aronofsky, um diretor da nova safra que ainda trará outras preciosas iguarias para o nosso cinema. Arrisco-me a dizer que no futuro ele será considerado o melhor de todos os tempos. Se continuar neste ritmo, o que eu disse não será nenhuma adivinhação, mas um fator lógico a ser considerado.

Por: EvAnDrO vEnAnCiO.   Blog: EvAnDrO vEnAnCiOUniverso Hiper-Real.