Uma Boa Mentira (2014). O que preservar e sacrificar numa nova vida?

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Diretor Philippe Falardeau

Diretor Philippe Falardeau

Por: Valéria Miguez (LELLA).
Numa atualidade onde alguns por egoísmo querem uma regressão social… Eis aqui um filme que irá tocar a outra parte que busca por mais e mais direitos humanitários até para uma outra parte bem maior do planeta… Ele fala de uma guerra civil que quando muito foi parar em algum parágrafo de um Livro de História Geral. Lembrando ainda que mesmo as do tempo presente quando veem a público são logo esquecidas… Então, é de se aplaudir quando fatos como esses são mostrados em Filmes! “Hotel Ruanda (2004), é um exemplo. Logo, o filme “Um Boa Mentira” também não deixa de ser uma releitura de páginas da História da Humanidade: do que ela tem de perverso e do que ela tem de bom! Mas tem muito mais! Ele conta a história de um grupo de sobreviventes do Sudão que foram viver nos Estados Unidos. Mas que nem por isso o filme passa rapidamente por tudo o que eles passaram ainda em solo pátrio. São órfãos de uma Guerra Civil deflagrada por religião e poder, em 1983, dizimando muitos sudaneses… Vale lembrar que genocídios até por limpezas étnicas não são exclusividades do solo africano…

Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado.” (Provérbio Africano)

uma-boa-mentira_2014_02Um Boa Mentira” fora o sonho americano para alguns refugiados sudaneses que nem sabiam o que significava isso. Era apenas a esperança de uma vida melhor após tantas lutas por sobrevivências. E o filme nos mostra todas elas! A longa caminhada que fizeram sem uma direção certa… Onde por vezes indicadas por aqueles que não mais poderiam seguir em frente… Ou quando tiveram que aceitar o sacrifício de um deles para que então os demais pudessem seguir adiante… Ou mesmo já estando num de Campo de Refugiados, já em 1987… Com racionamento de comida… Doenças… Eles ainda tiveram que esperar 13 anos até terem seus nomes numa das listas de admissão aos Estados Unidos…

Huckeberry Finn mentia para sobreviver em situações indesejáveis. Mas mais a frente as mentiras mudaram porque ele mudou… Quando diz ao caçador que não tinha escravos, era mentira, mas para salvar Jim. A liberdade de Jim significava mais que o dinheiro de entregá-lo…

uma-boa-mentira_2014_04Ainda em solo pátrio, e antes de terem quase a totalidade dos familiares dizimados, levavam uma vida bem rural, entre rebanhos bovinos e tendo como “vilões” felinos famintos… O de modernidade que por lá apareceu foram as armas, os helicópteros… É! As armas chegando primeiro… Com isso tudo que iriam conhecer dali para frente seriam de fato novidades… Já começando pelo o voo em avião, a comida à bordo… Mas o que mais chamava atenção estava invisível: do irem ao encontro de uma vida melhor… E em “Uma Boa Mentira” teremos a vida de quatro deles, mas representando a de todos que ficaram conhecidos como os Garotos Perdidos do Sudão. São eles: o gigante e religioso Jeremias (Ger Duany), o habilidoso Paul (Emmanuel Jal), o bom com a oratória Mamère (Arnold Oceng) e a meiga Abital (Kuoth Wiel). É Mamère quem nos conta essa história! E lá foram eles felizes como crianças! Mas já no desembarque surge a primeira pedra nesse novo caminho… Mas o jeito eram prosseguirem…

Olhe para mim. Eu era do exército. Estive na guerra. Mas muitos de nós éramos só garotos… Confrontando coisas inimagináveis. Tendo que fazer escolhas que ninguém deveria fazer. Seu irmão fez a escolha dele naquela dia. Uma decisão só dele. A decisão não era sua. Você não tinha o poder. Nunca teve.

uma-boa-mentira_2014_05Separados da Abital, os três então conhecem aquela que os ajudariam a arrumar um emprego, Carrie Davis (personagem de Reese Witherspoon). Fora buscá-lo em lugar da representante da instituição que os trouxeram da África, Pamela Lowi (Sarah Baker). Já a partir desse primeiro contato, Carrie começa a perceber que tudo era realmente novidade para eles. Mas nessa convivência não fora apenas o choque cultural que a deixara meio perplexa, mas sim em quanto mais eles iam descobrindo as novidades dali iam também preservando algo própria. Onde numa cena, por exemplo, faz um bem à alma: “Estamos olhando as estrelas.”… Assim eles prosseguiram meio que separando dos itens considerados essenciais para muitos dali o que realmente era essencial para eles… Pausa para falar da performance de Reese Witherspoon! Ela esteve ótima até em não solar. Muito embora creio que nem conseguiria por que os três – Ger Duany, Emmanuel Jall e Arnold Oceng – brilharam! E aplausos também para o Diretor Philippe Falardeau (de “O Que Traz Boas Novas“) até pelo timing perfeito contando muito bem toda essa história!

Mesmo que nossas diferenças possam nos dividir, nossa humanidade nos une. Somos irmãos e irmãs tentando compartilhar esse mundo maravilhoso que chamamos de lar.”

uma-boa-mentira_2014_06Num mundo onde valorizam tanto os bens materiais em lugar do que seria realmente essencial para si próprio e os demais a sua volta… Num mundo onde o desperdício até de alimentos ainda é muito grande… Assistir ao filme “Uma Boa Mentira” – que mesmo contendo cenas que doam na alma -, ele também nos lava a alma! Por ainda ter pessoas verdadeiramente humanas e desejosas de um mundo cada vez mais menos desigual. Mas principalmente que histórias como essas, dos Garotos Perdidos do Sudão, nos levam a reafirmar nossos conceitos de que os valores morais e éticos são o que realmente levamos de bagagem na jornada da vida. Mesmo tendo que atravessar infernos… Mesmo que pelo caminho tenhamos que contar “uma boa mentira“… Assistam essa emocionante história! Nota 10!

Uma Boa Mentira (The Good Lie. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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A Grande Aposta (2015). “Desenhando” a Crise/2008 Para Que Assimilem de Vez?

a-grande-aposta_2015_posterfinancial-crisis_us_comicsPor: Valéria Miguez (LELLA).
Um Professor diante de uma matéria muito complexa sabe que o caminho seria se expressar de forma lúdica. Ainda mais tendo que fazer uso de terminologias bem específicas. Explicando com humor torna a aula mais prazerosa e com isso os alunos terão mais chance de entenderem a lição de vez, ou quando não muito, o necessário. Digo isso porque foi meio por aí que “A Grande Aposta” me passou. O que em nada diminui o filme, muito pelo contrário! Mesmo tendo vindo como a didática de um Professor de Cursinho… É justamente essa aulinha para lá de bem humorada, do tipo que “mete o dedo na ferida”, que traz o diferencial do filme. Pois tendo que contar o que foi a Crise Financeira de 2007/2008, uma história tão bem decantada em 2011 por “Margin Call“, teria que ser por um outro ângulo. E meio que “desenhando” o Diretor Adam McKay conta essa história em especial para os próprios conterrâneos o ponto alto do filme! Muito embora creio que o pessoal de lá possam a vir não gostar muito, ou nada, quando de fato a ficha cair. Afinal, o “desenho” é principalmente endereçado a eles, os estadunidenses! Esse detalhamento como um PowerPoint de sala de aula fica também como um alerta para que ninguém se esqueça do que foi o maior golpe financeiro desse século. Crise essa que pode ser traduzida por “Como Aplicar um Mega 171 Impunemente!“. Algo que coloquei como subtítulo no do filme de 2011.

Agora, “A Grande Aposta” também nos traz um outro dado que não deveria ser esquecido: de que quase uma década já se passou e pelo jeito varreram tudo para debaixo do tapete… Vejam quem de fato foi o único punido. Pior! Pois as tais Agências de Classificações de Riscos (Standard & Poor’s, Moody’s…) continuam por aí “avaliando” até mercados internacionais e a serviço de um seleto grupo diretamente. Ou como temos visto atualmente no Brasil, os que usam de má fé essas avaliações para fomentarem uma crise… É! Elas seguem livres e se linchando para os que foram, são e serão ludibriados com as “projeções” dada por elas. Esses outros são os reais “patos” (Algo que também nos remete a história atual do Brasil…) Quer sejam eles pessoas físicas, jurídicas, ou mesmo países… são quem de fato pagarão as consequências desse capitalismo selvagem! Há uma cena no filme que enfatiza bem a perversidade do Sistema! Ainda restando um certo pudor no que fará, questiona uma delas por ter dado um “triplo A” para um título já em queda livre. Ainda perplexo com tudo, o personagem ouve que se ela não o fizer, perde “o cliente“. E ainda lhe põe em xeque: já que para ambos o que realmente interessa são os lucros! Que o prejuízo, os “patos” que paguem! Assim, se o Sistema do Mercado de Ações é bem cínico… Logo, Adam McKay fez muito bem em também o ser nesse filme! Bravo, McKay!

E seguindo de um jeito meio documental Adam McKay conta toda essa história em “A Grande Aposta“. Com paradas para as explicações do “economês” do Mercado de Ações usando até algumas Celebridades. Com clips bem dinâmico de acontecimentos, fatos, momentos em evidências ao longo desses trinta anos: desde a entrada dos Títulos Hipotecários no Sistema até o “desfecho” em 2008. Com uma ótima Trilha Sonora! Agora, como num desses clips eu ri muito, mas para não estragar de todo a surpresa… Direi que a inserção da foto de uma famosa dupla de um Filme já Cult, veio como: “Golpista é golpista, não importa se da plebe ou da elite!“. Perfeita a analogia! É hilário!

A-Grande-Aposta_2015_01Além disso, temos em “A Grande Aposta” um personagem como um mestre de cerimônia que ao contar como ele entrou nessa história acaba meio que contando a dos demais envolvidos diretamente na trama. Ele é o corretor Jared Vennett interpretado por Ryan Gosling. Vennett é um cara bem antenado! Ao ouvir uma certa história vai atrás de quem o ajudaria a confirmar o fato. Mas antes de falar dos demais, temos quem teve a tal grande sacada: Michael Burry. Personagem de Christian Bale. Burry é cara bem excêntrico, mas com um olhar clínico para os números, algo que o qualifica como um grande investidor, onde até então era bem quisto no meio. Foi ele quem identificou que os tais Títulos – a “menina dos olhos” de todo Sistema americano -, estava para ruir. Como ficou desacreditado decide lucrar em cima do fato. Apostando contra o mercado de então, mas com uma segurança. Ávidos não apenas com o capital de Burry, mas também com o que lucrariam dos demais, já que para eles eram favas contadas Barry perder, aceitam! Surge então os Títulos de Seguros Contra as Hipotecas. Não sei se foi proposital o Diretor colocar esse personagem com um certo problema físico… Porque sei foi, a analogia foi ótima! Por ter sido o único que vislumbrou o problema!

Com isso, foi com um dos corretores se gabando do lucro certo que teria com a derrota de Barry, que a história chegou aos ouvidos de Vennett. E por conta dele ir atrás de Barry, ou não… alertou uma Corretora. Quem está a frente dessa outra é Mark Baum, personagem de Steve Carell. Esse percebe que pode estar diante de um grande negócio, mas resolve investigar primeiro. Acontece que Baum está passando por uma grave crise pessoal… Somado ao seu jeito de ser de não ter papas na língua… O leva, ou melhor, nos leva a conhecer o quanto esse mundo não tem o menor escrúpulo em arruinar pessoas, empresas, nações. No filme ele seria um dos pesos pela moralidade e ética nessas, ou dessas negociações. Até por tudo que veio depois também com a tal grande aposta de Barry: quem de fato lucrou junto com ele, quem não arcou com o monumental prejuízo deixada por ela (Algo que mais especificamente pode ser visto em “Margin Call“…

Há ainda dois personagens ligado a tudo isso onde então entrará o do personagem de Brad Pitt! Eles são dois pequenos investidores que de posse do lucro resolvem entrar na Wall Street… Eles são Charlie (John Magaro) e Jamie (Finn Wittrock) que pareciam um pouco com Barry: de investirem em coisas que a maioria não acreditava que traria lucro certo. Assim, de posse da fortuna acumulada, vão em busca de um lastro maior para grandes investimentos… Nesse breve e frustrante caminho… ficam cientes dos planos de Barry… Tentam então contatar Ben Rickert (Brad Pitt): alguém respeitado na Wall Street, mas que se encontrava fora de toda aquela máquina: daquele que seria um circo dos horrores para muitos… Entretanto, mesmo longe de lá, para Rickert business is business, ainda! Paralelo a isso, essa dupla também tenta que alguém da imprensa noticie o que já estava acontecendo e o que estaria por vir… Para que os incautos, ou até gananciosos, do andar de baixo não caíssem no golpe dos poderosos que não iriam arcar com o prejuízo que a própria ganância os cegaram também para o que o Barry a princípio tentou mostrar… Enfim, todos nós estamos cientes quem caíram. Até porque isso já faz parte da cultura deles! Perdendo ou ganhando, a têm como a principal indústria!

O filme é muito bom! Mesmo que não queiram assistir pelo receio de um déjà vú, assistam! Pois “A Grande Aposta” não apenas traz uma radiografia bem cáustica do que foi essa crise, mas também porque o filme mostra que muitos poderão voltar a cair novamente em golpes parecidos: com uma nova roupagem. Afinal, além da impunidade, a crise mostrou aos do andar de cima as falhas do próprio sistema. Mais! Dando a eles mais know-how para o perpetuarem. Além dele não nos deixar esquecer quem afinal acaba pagando o pato! E salvo raríssimas exceções do andar de baixo que terão chances de conhecer o andar de cima e recebidos com tapete vermelho!

Vale também destacar ainda as atuações! Todos em uníssonos! Alguns bem caricatos, mas talvez para mostrar que mais do que os personagens em si é a história a grande protagonista ao mesmo tempo que pelo teor, também a grande antagonista. No qual eu darei um ‘9,5’ pelo conjunto da obra em “A Grande Aposta” porque a nota máxima ainda está com “Margin Call“! Agora, enfatizo é um Filme para ver e rever!

A Grande Aposta (The Big Short). 2015.
Direção: Adam McKay (co-Roteirista)
Baseado no livro homônimo de Michael Lewis.
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Casa Grande (2014). Até que Ponto Somos uma Democracia Racial?

casa-grande_2014_01Por: Eunice Bernal.

Todo brasileiro traz na alma e no corpo a sombra do indígena ou do negro.” (Gilberto Freyre)

O Cinema Brasileiro quando quer também sabe fazer bonito não deixando nada a desejar ao de outras nacionalidades, e de vez em quando nos brinda com um de tema excepcional e atual condizente aos anseios e desejos de nossa gente. O nacional do momento que destaco é CASA GRANDE, um drama, às avessas, com argumento e direção do jovem carioca Fellipe Barbosa que conta com Karen Sztajnbeg na elaboração do roteiro. Estiloso! Usou e abusou do formato simples de narrar, porém, com capricho, contando de uma forma inusitada um drama familiar real mesclando situações cotidianas desta sociedade.

O filme me chamou a atenção mais por um dos assuntos abordados na história, e que na época de sua implantação no país, gerou polêmica e a sociedade viu-se num impasse, dividida entre ser favorável ou não; seria benéfico ou daria dor de cabeça à população, e parece que até agora ninguém chegou a conclusão alguma, mesmo sabendo que se tornou lei e já vigorando tanto que muitos vieram a usufruir, porém, a questão ainda impera.

casa-grande_2014_02Casa Grande é baseado em fatos reais, na vida do próprio diretor do longa. Conta história de Jean, narrado em primeira pessoa, um adolescente de 17 anos, sua irmã Nathalie e seus pais Sonia e Hugo; família rica e feliz que, de repente, se encontra em séria dificuldade financeira decretando falência justamente no momento em que o filho mais precisa de atenção e apoio porque vai prestar concurso para ingressar na faculdade; fase de escolhas de carreira na vida do jovem brasileiro, momento único, curso preparatório, pré-vestibular, estresse, noites insones debruçados em livros pensando em rumos a seguir na vida que muitas vezes deixa essa fase da vida e a juventude insegura e por isso vale contar com apoio e compreensão dos entes queridos. O filme já nasceu grande de ideias, apesar de o diretor ser bem jovem, já traz na bagagem este seu primeiro ‘filho’ de dar inveja santa a colegas de profissão e aos mais experientes, pois o filme imediatamente conquistou alguns prêmios quando foi lançado em 2014. Sei lá, uma ideia que já passeava pelo país, e ele sortudo, se apropriou.

A família de Jean vive em uma mansão na Barra da Tijuca, um dos bairros considerados nobres da elite carioca; com piscina, carros na garagem, três empregados, enfim, uma vida, antes, financeiramente, digamos, confortável. O filho estuda no tradicional Colégio São Bento, uma das melhores escolas particulares do Rio de Janeiro referência em Educação e Conceito A no país. De repente, a história dessa família, muda radicalmente para o lado B da vida quando o patriarca começa a perder seus investimentos e bens, e por vergonha não revela isso aos filhos, amigos e vizinhos passando a viver de aparências. O filme é bem um reflexo da crise atual que o Brasil atravessa. A história é espelho da sociedade brasileira; talvez sirva apenas para esta nacionalidade por ser assunto mal resolvido deste país.

casa-grande_2014_03O motorista da família, um senhor de meia idade vindo da região nordeste do país era quem levava o rapaz todos os dias à escola e ia buscá-lo; davam-se bem, consideravam-se amigos, e no caminho, altos papos entre ambos; por causa da crise financeira que a sua família estava passando e por contenção de despesas, o motorista foi despedido e felizmente conseguiu outro emprego em seguida na Comunidade da Rocinha, próximo de onde ele vivia com a família. Rocinha está localizada na zona Sul no Rio, espremida entre o Leblon e São Conrado – caminho que divide a Zona Sul do RIO da Zona Oeste e Norte, e no enredo isso está explícito para mostrar como é composta a sociedade brasileira, (pobres e ricos) e como e onde se vive = casa grande X senzala = as raízes do Brasil Sudeste X Nordeste; os bairros são chamados em outras sociedades de distritos, e como distrito o país está dividido em abastados e miseráveis. Mas todos podem viver pacificamente na CASA GRANDE, o direito de ir e vir é igual para todo cidadão brasileiro, amparado perante lei, com os mesmos direitos (Bem, isso está claro na Constituição Federal). A Comunidade Rocinha (lembra um muro isolando tribos porque para ir de um lado a outro o caminho é esse, ou atravessando um túnel ou indo pelo elevado do Joá) ou os ricos dos pobres grifando as desigualdades sociais.

casa-grande_2014_04Sem motorista, Jean passou a ir à escola de ônibus e, graças a essa mudança radical em sua vida, conheceu na viagem uma garota – Luisa (Bruna Amaya) que estudava no Colégio Pedro II – também Educação de excelência e qualidade em Ensino, só que esta difere da outra por ser da rede pública Federal (Pedro II, apesar de ser Escola Pública, é considerado uma das melhores do Estado, comparado ao Colégio Militar e a algumas Escolas Particulares), e o casal passou a ter um relacionamento mais que amizade. A jovem embarcava no meio do caminho e descia no ponto da Rocinha. Começa aí para Jean descoberta de um sentimento novo e de amor, além da atração física e desejo que nutria por Rita, a empregada mais jovem de sua casa, e por isso suas as investidas constantes nas madrugadas para encontrá-la em seu quarto para ganhar sua confiança e carinho, e ela sempre arrumava jeito de lhe dar atenção, de ouvi-lo e conversas triviais e não passava disso e o desejo dele pela moça não passava do platônico até então.

A trama aborda assuntos relevantes e continuamente atuais; entre eles destaco dois:

livro_casa-grande-e-senzala_gilberto-freyrePrimeiro que me reportou imediatamente à obra Casa Grande & Senzala de Gilberto Freyre trazendo à tona algumas lembranças de QUEM SOMOS, e a formação sócio-econômico-político-cultural do povo brasileiro no contexto da miscigenação entre brancos, índios e negros; ricos e pobres, de oportunidades (des)iguais para todos; de escolhas entre estudar em escola particular ou pública; patrão e empregado; casarão x casebre ou melhor, Casa Grande e Senzala, além dos muros regionais, que, sutilmente, discrimina e divide o país. Não sei se Fellipe Barbosa fez de propósito apostando nesse título ou seria mera coincidência. Independentemente de qualquer motivo, ele fez a coisa certa e foi feliz na escolha tornando a obra aberta a tantas reflexões, principalmente no que tange a atual situação do país – e crise econômica não escolhe classe social. E Gilberto Freyre diz que “Casa Grande” é moradia de todos: do proprietário, escravos, parentes, filhos, esposa, amantes, padres, políticos cachorro e papagaio. O sociólogo diz que este domínio se estabeleceu incorporando tais elementos e não os excluindo. Ele também desmistifica a ideia de que no Brasil teria uma raça inferior devido à miscigenação. Antes, aponta para os elementos positivos da formação cultural brasileira, oriundos desta miscigenação entre culturas tão distintas, ou seja, o Brasil do ‘todos juntos e misturados’!

Quando fala em democracia racial, você tem que considerar que o problema de classe se mistura tanto ao problema de raça, ao problema de cultura, ao problema de educação. (…) Isolar os exemplos de democracia racial das suas circunstâncias políticas, educacionais, culturais e sociais, é quase impossível. (…). É muito difícil você encontrar no Brasil [negros] que tenham atingido [uma situação igual à dos brancos em certos aspectos…]. Por quê? Porque o erro é de base. Porque depois que o Brasil fez seu festivo e retórico 13 de maio, quem cuidou da educação do negro? Quem cuidou de integrar esse negro liberto à sociedade brasileira? A Igreja? Era inteiramente ausente. A República? Nada. A nova expressão de poder econômico do Brasil, que sucedia ao poder patriarcal agrário, e que era a urbana industrial? De modo algum. De forma que nós estamos hoje, com descendentes de negros marginalizados, por nós próprios. Marginalizados na sua condição social. […]. Não há pura democracia no Brasil, nem racial, nem social, nem política, mas, repito, aqui existe muito mais aproximação a uma democracia racial do que em qualquer outra parte do mundo. Gilberto Freire. Casa Grande & Senzala” foi publicado em 1933 e parece que foi hoje, não acha?

casa-grande-2014_02Em segundo lugar, destaco na obra do roteirista a abordagem da Lei de Cotas Raciais. O jovem leva Luisa à sua casa onde está acontecendo um churrasco, e lá estão alguns parentes e amigos da família. No meio da festa surge o assunto ENEM, Vestibular, Carreira e também a Lei de Cotas Raciais. A namorada de Jean muito eloquentemente começa a explanar sobre suas raízes, dizendo o porquê de suas características físicas. Diz que a mãe é mulata e o pai japonês. E daí começa a ‘discussão’ sobre Cotas Raciais para ingresso ao nível superior, perguntam se ela escolheria ou não se inscrever por meio de Cotas. Falar sobre Cotas Raciais é um assunto delicado e o brasileiro ainda não chegou a um denominador comum; difícil se situar e não alterar o tom de voz; uns sendo a favor e outros contra. E ninguém se entende. Um diz que Cotas é uma forma de preconceito que isso não é fator para medir intelecto de ninguém. Como em qualquer roda de conversa que o assunto surge sempre acontece de ter defensores e atacantes para as duas correntes – dos favoráveis à lei de Cotas e dos contrários. É claro que esse almoço na casa de Jean também não acabou bem.

A Lei de Cotas foi regulamentada em 2012, e promove diversas políticas públicas para os afrodescendentes visando criação de oportunidades e a igualdade racial. É atribuída 50% das vagas em instituições e Universidades Federais destinadas a estudantes egressos de escolas públicas e com renda familiar igual ou inferior a um salário mínimo e meio per capita, e a outra porcentagem de cota a critérios raciais (negros, pardos e indígenas). Ninguém também se entende quando a cota é para estudante de Escola Pública, pois Colégio de Aplicação, Pedro II, Fundação Osório e Colégio Militar são alguns dos Públicos de Educação de qualidade, e usar a lei de cotas para concorrer a uma vaga é tirar a chance de outros candidatos sem cotas conseguirem pontuação para ingressassem. Concorrência desleal? E voltando a citar Casa Grande & Senzala de Gilberto Freire, ele diz também o seguinte: Não é que inexista preconceito de raça ou de cor conjugado com o preconceito de classes sociais no Brasil. Existe. É verdade que a igualdade racial não se tornou absoluta com a abolição da escravidão. (…). Houve preconceito racial entre os brasileiros dos engenhos, houve uma distância social entre o senhor e o escravo, entre os brancos e os negros (…).

Se o brasileiro é um povo miscigenado, resultado de negro, branco, índio, vermelho, japonês, verde e amarelo, por que deveria existir uma política de cotas raciais? Os investimentos em educação no país estão cada vez mais precários que a condição de todo cidadão independentemente de raça se igualou. As pessoas que discordam das cotas raciais afirmam que ela é discriminatória e causa conflito racial. Em um país com grande diversidade racial, as dificuldades são encontradas no momento de decidir se uma pessoa é branca ou parda. Parece que a nação brasileira redescobriu o Brasil, deu volta ao mundo e parou no mesmo lugar.

casa-grande-2014_cartazO filme pretende ainda ser uma crítica à alta sociedade, como explica o próprio diretor: “Busco trazer perguntas nesse filme. Por que a gente deseja tanto? Qual a vantagem disso? Por que viver assim?Fellipe Barbosa. O direito de ir e de vir é lei. Um ponto alto do filme todos iguais, oportunidades iguais, direitos iguais. Casa Grande ou Senzala não faz diferença… Conclui-se que todos carregam no dna certo parentesco, a condição financeira pode ser o muro, abismo social, mas nada impede que se pule passando para o outro lado. É o que Jean fez indo à Senzala; é o que Severino fez indo à Casa Grande. E despido a diferença entre pobre e rico desaparece. O Poster do filme conclui essa ideia.

Como dizia um pensador “Entrar na Faculdade é muito fácil; difícil é sair” (com o canudo ele quis dizer). E acrescentava que infelizmente sempre haverá ricos e pobres. A riqueza pode ser do eu interior em potencial e se pode escolher ser rico assim ou pobre de espírito. No final das contas, conseguindo passar pela peneira, pelo funil ou pulando o muro, a luta será constante e indispensável para a vida que não costuma distribuir cotas para se chegar aos finalmentes, ou àquilo que se almeja conseguir para se chegar a algum lugar. “Até que ponto nós somos uma democracia racial?” Foi o que perguntou Lêda Rivas para Gilberto Freyre. Cabe a cada um tentar encontrar a resposta.

de Eunice Bernal.

Uma Longa Viagem (2013). Para Encarar de Frente Seu Pior Pesadelo!

uma-longa-viagem_2013Por: Valéria Miguez (LELLA).
uma-longa-viagem_2013_02Em uma trama que retrata prisioneiros britânicos em plena Segunda Guerra Mundial, tendo entre eles engenheiros e ainda mais a construção de uma ferrovia… o que vem de imediato à lembrança é o “A Ponte do Rio Kwai” (1957), do Diretor David Lean e que eternizou o personagem de Alec Guinness até por odiá-lo em um certo momento. Longos anos se passaram e eis que um outro filme surge trazendo também esse pano de fundo, é o “Uma Longa Viagem“, do Diretor Jonathan Teplitzky. Se com o personagem do primeiro filme eu fiquei na torcida para que detonasse a tal ponte, com o desse a minha torcida foi para que não fizesse algo. É! Por vezes a vida nos leva a detonar pontes, mas o destino não diz qual, nem porque, nem muito menos aquela que ao atravessar levará ao encontro de algo que até pode vir a ser um outro divisor de água em nossas vidas…

uma-longa-viagem_2013_03Uma Longa Viagem” é um filme baseado numa história real: nas memórias de Eric Lomax de quando fora um dos prisioneiros dos japoneses em plena Segunda Grande Guerra. É por ele que o conhecemos partindo de um ponto presente – que no decorrer saberemos o porque -, até o seu passado mais tenebroso. Será um mergulho sem dó nem piedade. Nesse seu tempo presente é alguém que tem como um hobby trens: dos vagões às ferrovias, passando pelos horários… A bem da verdade é um entusiasta no assunto. Do passado, quando em campo de batalha em plena guerra ficara responsável pelo rádio: as escutas da época. Até que seu superior diz a todos que irão se render e ordenando que antes destruíssem tudo que pudesse comprometer a tropa. Lomax então resolve guardar uns componentes de um rádio. Um ato que sairá bem caro mais adiante.

uma-longa-viagem_2013_01Com a rendição parte de seu grupo por serem engenheiros são levados aos empecilhos da construção de uma ferrovia: a que ligaria a Tailândia à Birmânia. Quanto aos demais prisioneiros seguiram pela construção propriamente dita: desmatando, assoreando, fazendo barreiras de contenção, na colocação dos trilhos… O trabalho braçal, pesado, cheio de perigos até pela selva e abaixo de chicotes. Enquanto esse trabalho avançava – e com ele muitas baixas iam somando àquela que ficaria conhecida como a Ferrovia da Morte -, o pequeno grupo resolve fazer um rústico rádio de onde passaram a ouvir notícias de fora. Desejosos de com elas tentar levantar a moral dos demais prisioneiros, acabam sendo descobertos e…

uma-longa-viagem_2013_05Uma Longa Viagem” ora se encontra num tempo presente, 1980, no norte da Inglaterra, com Eric Lomax já um homem adulto. Ora nos leva a viajar juntos com ele ao passado dele então um jovem prisioneiro de guerra. Nesse seu presente encontra-se recém casado com Patti (Nicole Kidman). Apaixonados, mas… Ela passa então a ver que ele é um ser atormentado e tenta um jeito de ajudá-lo. A presença dela traz mudança em sua rotina até por ele ser um cara bem metódico. O que talvez possa ter contribuído para que seus traumas de guerra viessem à tona. Na tentativa de ajudá-lo, Patti vai em busca de um grupo que vivenciaram o mesmo pesadelo, e dai se reúnem justamente para tentarem superar. Por lá Patti encontra-se com Finlay (Stellan Skarsgård) pedindo que lhe conte o que houve. Ele então conta a parte que ele cabe, não sem antes tentar demovê-la, pelo conteúdo muito cruel como também que lhe é muito penoso relembrar desse período.

uma-longa-viagem_2013_04Traga de volta o passado somente se for construir algo a partir dele.”

Mas é por Eric Lomax que conheceremos uma parte dessa história que nem eles sabiam: as das torturas. Até que Finlay mostra algo a ele: fizeram um memorial numa das estações da tal ferrovia. Justamente onde foram torturados. Ele então resolve visitar literalmente seu passado viajando até lá. Onde então fica novamente frente a frente com o seu pior pesadelo: o carrasco mor, o oficial Takeshi Nagase (Hiroyuki Sanada). Não ficará pedra sobre pedra nesse reencontro.

uma-longa-viagem_2013_06E nesse passado temos o jovem Lomax interpretado por Jeremy Irvine (de “Cavalo de Guerra”). Numa excelente atuação. Mas sem sombra de dúvida a magistral performance é a de Colin Firth. Seu Lomax nos leva a voos de doer na alma até ao mostrar o que todas as guerras deixam como “saldos” em quem dela participa. Vilões para um lado, Heróis para o outro, mas nos campos de batalha são homens, jovens à mercê de uma guerra cujos “donos” nem dela participam… É nessa sua volta onde fora torturado que terá um novo dilema a ser superado… Onde a minha torcida fora para que não o fizesse… Bem, posso adiantar apenas que chorei junto com o Eric Lomax de Colin Firth.

The-Railway-Man_posterO Diretor Jonathan Teplitzky ainda não está no mesmo patamar de David Lean, até pela pouquíssima bagagem, mas com certeza está no caminho certo! Pois temos em “Uma Longa Viagem” um novo ângulo da Segunda Guerra Mundial: contada por um que a vivenciou e que conseguiu sair vivo dela. De nos deixar em suspense até o final. Num timing perfeito entre passado e presente. Efeitos de cores em Fotografia. Trilha Sonora ótima! Atuações catárticas: um soco no emocional de quem assiste. Que embora a personagem de Nicole Kidman não tenha tido altos voos, todos sem exceção tiveram grandes performances no conjunto dessa obra que veio para ficar. Agora, é no reencontro entre Lomax e Nagase o ponto alto do filme. Até por conter nessas cenas o peso de anos do emocional até então guardados tanto de um como do outro. Aplausos entusiásticos para Colin Firth e Hiroyuki Sanada! Bravo! Num filme Nota 10!

Uma Longa Viagem (The Railway Man. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Livre (Wild. 2014). A Jornada de uma Rebelde Sem Causa

livre_2014_filmeEm “Livre” temos a jornada de uma rebelde sem causa em que só vai tomando consciência disso milha após milha, vendo passar diante de si – em flash back para nós – a vida que levava e que reclamava tanto. Queria tanto sofisticação e dinheiro, mas se entregara às drogas pesadas numa vida promíscua… Reclamava do pai, mas nem enxergava o real valor da mãe que pode não ter dado a vida de luxo que tanto queria, mas dera amor e ótimas lições de vida… E após o destino ter levado sua mãe ainda na flor da idade… essa jovem resolve carregar também todas as suas “assombrações” (Sombra – Jung) percorrendo a pé uma longa trilha e fazendo dela o seu próprio purgatório…

Completaria toda a trilha da Costa do Pacífico? Quantas e quais bagagens iria deixando pelo caminho? Entenderia o quanto desperdiçou de tempo de vida? Por que escolhera essa longa caminhada e em contato com uma natureza ainda selvagem? Percorrendo em grande parte sozinha o que nunca fora ligada a uma vida assim em contato direto com a natureza. Se até odiava… Enfim, vejam o filme! Que daqui por diante terá spoiler!

Nos últimos anos agi como ela se fosse nada. Mas ela era tudo mesmo.”

livre-2014_laura-dernEnquanto essa jovem se auto destruía – sexo com qualquer um e muita droga pesada -, a mãe continuava levando sua vida por eles. Fora esposa e depois mãe em tempo integral. E só às vésperas da morte se deu conta de que não vivera por si mesmo. Nem fora um lance de egoísmo, apenas sentira um certo vazio dentro de si… Quem sabe por conta de nem ter recebido dessa filha um gesto de carinho. Uma filha que em vez de sentir vergonha de si própria, sentia do jeito caipira de ser da própria mãe.

Nós somos ricas em amor.”

Um câncer leva a doce e gentil Barbara “Bobbi” Grey. Numa ótima performance de Laura Dern. Uma mãe que ensinou que ela deveria encontrar o melhor de si e se valer dele pois dias piores poderiam vir. Que também ante a fazer uso de uma grosseria que buscasse ser gentil. Pois é! Gentileza gera gentileza… Uma mãe que ensinou a ela que há um nascer do sol todos os dias e que a vida dava a ela a opção de estar lá para ver.

Se sua coragem sumir, vá além.

livre_2014_01A jovem até tentou fazer uma terapia, mas como ainda não estava pronta… escolhe quase um auto flagelo percorrendo uma trilha muito longa. Para alguém que até então levara uma vida desregrada, e que nunca tivera um espírito desportivo, como também meio que odiava uma vida na roça, a trilha viria como uma punição… Como uma dívida com sua mãe… Onde o cansaço, a dor física, o suor, o frio, o medo… fizesse transpirar tudo fizera até então… Ela era a Cheryl, vivida por Reese Witherspoon que mostrou e bem toda a superficialidade da personagem: da rebelde sem causa que iniciou a jornada.

Cheryl precisava mesmo resgatar a si própria nessa natureza selvagem que também impõem limites e superações. Muito mais do que uma comunhão com a natureza, ela caminhava em direção a sua própria redenção. Assim como em se render de fato ao amor que recebera de sua mãe. Um pouco tarde, mas teria no irmão o sentimento família que antes não dava valor. Assim, Cheryl consegue expurgar o passado, com páginas em branco a vivenciar o presente, com muitas bagagens a menos para a vida que teria pela frente.

livre-2014_reese-witherspoonÀs vezes colocam maquiagem demais, mas nesse aqui faltou. Até para dar mais realidade a atriz Reese Witherspoon pelo o que vivenciou a personagem. A não ser que tenha usado um protetor solar de última geração, já que a pele do rosto continuou como bumbum de neném ao final da jornada de uns quatro meses. Teria vindo a calhar uma maquiagem que mostrasse por todas as intempéries que enfrentou. Mas enfim, sua performance foi excelente!

O filme “Livre” muito bom! Parabéns ao Diretor Jean-Marc Vallée que soube contar e bem essa biografia de Cheryl Straved. O cenário da trilha da Costa do Pacífico é belíssimo. A Trilha Sonora também atua como um ótimo coadjuvante! Vale muito a pena ver! Mas não me deixou vontade de rever. Nota 08!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Livre (Wild. 2014). Uma Jornada de uma Rebelde Sem Causa
Ficha Técnica: na página no IMDb.
Baseado no livro “Livre – A Jornada de Uma Mulher Em Busca do Recomeço”, de Cheryl Strayed
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Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks. 2013)

walt-nos-bastidores-de-mary-poppins_2013_posterFeliz da criança que através da imaginação consegue criar um mundo paralelo e então se resguardar nele da dura realidade que a cerca. E não se trata de uma fuga. Na infância ainda não se tem como discernir que tal momento lhe vem como válvula de escape, só sente a necessidade de se estar nessa fantasia até para lhes restaurar as forças. Como também ainda nessa fase não se tem ideia de que essa tensão fica guardadinha até que algo no futuro a traz à tona…

É Pamela Travers quem nos conduz numa viagem de volta ao seu próprio passado onde mais do que resgatar a menina que fora se vê tendo que revisitar velhos fantasmas. Um em especial e para o qual tinha um apreço muito grande: seu próprio pai, Travers Goff. E por que isso ainda era algo tão dolorido se o amara tanto? Se fora com ele que aprendera a dar asas a imaginação? Essa é a história que temos como pano de fundo em “Walt nos Bastidores de Mary Poppins“, mas que na realidade é também a principal já que fora esse trecho de sua vida também a fonte de inspiração para a história do livro.

walt-nos-bastidores-de-mary-poppins_2013_01Quem vive Pamela Travers é uma das grandes divas do cinema: Emma Thompson. Não tem como não se encantar como também não se emocionar com sua performance. É de se acompanhar também com peso no coração quando adentramos em seus pensamentos e então como num passe de mágica nos vemos diante dela em menina: a pequena Ginty, que era como o seu pai a chamava. É onde também encontramos uma outra performance magistral: a de Annie Rose Buckley. Que Annie tenha uma carreira longa! Meus Parabéns também para o Diretor John Lee Hancock, não apenas pela escolhas de ambas as atrizes, mas também pela passagem de uma personagem para o da outra! Perfeito!

Pamela Travers tentou por quase duas décadas se esquivar de Walt Disney, em ceder a ele os direitos em filmar sua heroína, Mary Poppins. Até que seu advogado Sr. Russell (Ronan Vibert) lhe traz de volta a uma outra realidade. Até por se encontrar sem inspirações para novos livros, o dinheiro estava terminando, e que a levaria até a perder a casa que tanto amava. Ele então lhe lembra da nova proposta de Walt Disney: de que lhe deixariam mexer no Script… Sem mais ter como manter a recusa viaja para Los Angeles: para o mundo de fantasia do Wall o qual não via com bons olhos…

walt-nos-bastidores-de-mary-poppins_personagens-reais-e-do-filmePelo tempo em que insistia… Walt Disney ia retirando as barreiras que ela colocava. Uma fora até benéfica a todos nós fãs das Animações principalmente para essa então Disney. É que no início basicamente eram filmes com Mickey Mouse, Pato Donald… Então para agradá-la ele começou a filmar outros Clássicos da Literatura Infantil como Cinderela, Alice no País das Maravilhas, Peter Pan… Pois é! Tudo isso porque Walt Disney desde que lera o livro pela primeira vez lhe veio o querer levar “Mary Poppins” para a telona, e até por um pedido de sua filha de quem ganhara o livro. Vira todo o potencial da história de Travers. O que não deixa de ter sido um gênio em sua arte!

Quem interpreta Walt Disney é Tom Hanks. Ele que já nos presenteou com personagens memoráveis… Nesse filme ficou meio travado. Não sei se pelo peso da maquiagem, mas não ficou espontâneo, ficou caricato. E olha que nessa história nem precisaria ser ou ficar parecido com Walt Disney. Bastaria apenas demonstrar a paixão pela indústria do Cinema, pela magia gerado por ela e que encanta crianças e adultos… Mas enfim, mesmo Tom Hanks não tendo uma performance memorável, mesmo que a história em si lhe confira um certo peso a essa figura tão importante… em suas passagens por “Walt nos Bastidores de Mary PoppinsHanks as cumpriu bem! Muito embora na cena final onde de fato vem o porque do título original – Saving Mr. Banks -, e que enlaça toda a trama, eu queria me emocionar também com ele, e não apenas com a Miss Travers!

walt-nos-bastidores-de-mary-poppins_2013_02A parte cômica concentram-se nas reuniões entre Pamela juntamente com o Roteirista Don DaGradi (Bradley Whitford) e os Irmãos Sherman, Bob (B.J.Novak) e Richard (Jason Schwartzman), os responsáveis pela parte musical do filme, e sem esquecer da “moça das gulodices” (Melanie Paxson). As falas são ótimas e a que se refere as músicas não deixa de ter um fundo de verdade já que uma delas nos “acompanha” até uns dias após assistir o filme. Mas também não deixa de ser engraçado! Enfim, ganhamos nós nessa guerra de nervos onde por parte deles pesa a dose extra de paciência para a quase sempre do contra Pamela… São cenas também apaixonante para quem ama musicais em filmes!

Seguindo ainda pelas falas… e até por aquelas deixadas no ar… Me levaram a comprar o livro de onde foi inspirado esse filme. É o “Mary Poppins e sua criadora – A vida de Pamela Travers“, de Valerie Lawson. Um livro que pelo início já senti que será um daqueles que levarei um tempo maior para ler por ir parando para copiar certas citações, frases, passagens… Estou amando!

walt-nos-bastidores-de-mary-poppins_2013_03Voltando ao filme… Destaque também mais alguns personagens. Dois que fizeram dobradinhas com a personagem: ela na do passado e com a do presente. Assim, com a doce e meiga Ginty, temos o pai: um sonhador, um cavaleiro errante… Travers Goff não se enquadrava até as convenções mais básicas: de que deveria ser o provedor de sua família. De que o mundo não era só de fantasias. Uma excelente performance de Colin Farrel! Onde até pelo gestual, sentimos todo o drama da menina. E no presente, a dobradinha com a um tanto ranzinza Pamela, o motorista designado por Walt Disney para acompanhá-la por Los Angeles, Ralph. Performance excelente e encantadora de Paul Giamatti! Ralph parecia ter a chave mágica para adentrar no coração de Pamela. Passado e presente que emociona muitíssimo!

Todos nós precisamos sentir que estamos em busca da magia… de que uma varinha mágica irá surgir… Contudo, somos nós mesmos que temos que sacudir essa varinha…

walt-nos-bastidores-de-mary-poppins_2013_04Assim, se lá no início do século passado, em um lugar no continente australiano, uma menininha pressente que os ventos do leste não trariam boas notícias… Por volta dos anos 60, em Londres, então adulta, pressente por ele que terá que reviver tudo outra vez… E revive enquanto revisa página por página daquele roteiro que lhe é tão caro, tão dolorido… Minhas lágrimas também desceram junto com as de Pamela no final… Um filme que irá agradar principalmente a quem Mary Poppins fez parte do imaginário infantil. Para ver e rever! Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks. 2013).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Curiosidades:
– “Mary Poppins e sua criadora – A vida de Pamela Travers“, de Valerie Lawson, é um livro que traz além da biografia de Pamela Travers, a relação dela com Walt Disney a cerca de fazer um filme com encantadora babá, e que foi fonte de inspiração para esse outro filme “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”.
– O livro “Mary Poppins” foi lançado em 1934.
– O contrato com Walt Disney foi em 1959. Que além de cem mil dólares, daria a ela uma renda vitalícia. Além de que ela poderia opinar na adaptação. Poderia, porque por esse filme atual, “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”, transparece de que o filme saiu como ele queria.
– O filme “Mary Poppins” foi lançado em 1964. Além de ter sido um sucesso em bilheteria, eternizou Julie Andrews na pele da personagem, que até lhe rendeu um Oscar de melhor atriz.