A Senhora da Van (2015). Uma Moradora de Rua e uma Burguesia Londrina

a-senhora-da-van_2015_posterPor: Valéria Miguez (LELLA).
Maggie Smith é sempre um convite a assistir suas performances! Ainda mais que a personagem desse filme seria um oposto da sua condessa na série “Downton Abbey“: uma mendiga motorizada. Em comum entre tão distintas personagens: a soberba. Afinal, não é por vestir trapos que não se possa ter dignidade! E se a outra vivia entre mansões… Em “A Senhora da Van” ela fez do carro o seu lar-fedido-lar… É que embora não tenha saído de nenhum movimento hippie… Higiene pessoal não estava entre sua rotina diária… Onde talvez pela idade já avançada, ou mesmo cansada de sair rodando por aí, estaciona sua van numa determinada rua entrando então na vida daquele que nos conta essa história… Como pano de fundo temos esse relacionamento: um escritor e essa singular figura. Algo do tipo: o cavalheiro e a “mendiga”. Uma relação que existiu de fato!

a-senhora-da-van_2015_chargeNão escolhi [viver assim]. Fui escolhida.

Ela é Miss Shepherd! Que ao escolher uma rua tranquila de um bairro de classe média londrina para estacionar sua “casa”, é mais rigorosa na escolha daqueles que terá como “novos vizinhos”. Muito mais do que eles com ela já que teriam todas aquelas tralhas parado em suas calçadas… O que traz certa comicidade a esses entreveros… E mesmo que se regozijassem quando ela mudava para a frente de outra casa, no fundo não queriam aquela moradora de rua ali em sua rua… Querendo eles ou não, ela já decidira ali fincar território!

Boa natureza, ou o que geralmente é chamado assim, é a mais egoísta das virtudes. Nove em cada dez vezes é mera indolência de disposição.” (Hazlitt)

a-senhora-da-van_2015_01Alheio ao “drama” dos vizinhos… Ela desperta uma curiosidade no tal escritor. Já que a presença dela poderia lhe render alguma história.. Mesmo que a princípio ficasse mais num tête-à-tête consigo mesmo… Vivendo sozinho, ele gostava de trocar ideia com o seu alter ego… Que embora fosse o seu maior crítico, era também o seu maior incentivador… Quando Miss Shepherd entra em sua vida, ele atua numa peça de sua autoria onde conta de seu relacionamento com sua mãe… Relação essa que não vivem mais sobre o mesmo teto: um visita o outro… Talvez até por não ter saído do armário… Discreto, tímido, metódico… Talvez inconscientemente ele também quisesse para si um pouco do caos que ela trouxera na vida de todos ali… Ele é Alan Bennett e quem o interpreta é Alex Jennings. Numa performance excelente!

É como um conto, uma parábola em que o culpado é levado a conceber uma sentença a alguém inocente, e perceber que declarou sua própria ruína.”

a-senhora-da-van_2015_04O que para todos daquela rua, inclusive os da Assistência Social, seria uma presença provisória, terminou levando quinze anos (de 1974 até 1989) morando ali, e que depois até colocou uma televisão dentro da van… Vale destacar que ela pegou quase todo o Governo Thatcher (1979/1990)… Mas a “luta de classes” ficou mesmo na cabeça dos “novos vizinhos”… O que pesou mesmo na vida de Shepherd fora a repressão que sofrera por sempre ter sido um espírito rebelde… Manicômios, Padres e freiras tentaram domá-la… Por parte da Igreja com a proibição de algo que lhe era muito caro, um talento nato para o piano. O estrago fora tanto que passara até a odiar a música… E por conta de suas auto penitencias ganha o apelido de “Pastora”… 

Lembranças não podem ficar apenas na memória. Com o tempo, elas se apagam.” (Everton Nunes)

a-senhora-da-van_2015_03O Diretor Nicholas Hytner imprime um ritmo lento o que pode desagradar aqueles que procuram por mais ação. No entanto irá agradar aqueles que gostam de ouvir histórias de vivências e convivências! De vidas que se cruzam até que a morte as separem! De sentimentos que fogem do racional. Como por exemplo: A alguém que faz merda na frente de sua casa e mesmo assim nutrir carinho e respeito por essa pessoa… Claro que algo assim mostra o tipo de humor que pontua o filme. Meio escatológico, mas mais por conta da personalidade da personagem. Que por sua vez ela não nos leva às lágrimas deveras pelo seu drama que vamos conhecendo ao longo do filme por transparecer que ela ligou um “Fuck you!” às diversidades. Great! Mas há momentos que emocionam, sim! De tudo, bem que Hytner poderia ter enxugado um pouco… Ou não, por ser um: “Senta, que lá vem história!“. Ótima, por sinal! Nota 09!

A Senhora da Van (The Lady in the Van. 2015)
Ficha Técnica: na página do IMDb.

Anúncios

Uma Boa Mentira (2014). O que preservar e sacrificar numa nova vida?

uma-boa-mentira_2014_03

Diretor Philippe Falardeau

Diretor Philippe Falardeau

Por: Valéria Miguez (LELLA).
Numa atualidade onde alguns por egoísmo querem uma regressão social… Eis aqui um filme que irá tocar a outra parte que busca por mais e mais direitos humanitários até para uma outra parte bem maior do planeta… Ele fala de uma guerra civil que quando muito foi parar em algum parágrafo de um Livro de História Geral. Lembrando ainda que mesmo as do tempo presente quando veem a público são logo esquecidas… Então, é de se aplaudir quando fatos como esses são mostrados em Filmes! “Hotel Ruanda (2004), é um exemplo. Logo, o filme “Um Boa Mentira” também não deixa de ser uma releitura de páginas da História da Humanidade: do que ela tem de perverso e do que ela tem de bom! Mas tem muito mais! Ele conta a história de um grupo de sobreviventes do Sudão que foram viver nos Estados Unidos. Mas que nem por isso o filme passa rapidamente por tudo o que eles passaram ainda em solo pátrio. São órfãos de uma Guerra Civil deflagrada por religião e poder, em 1983, dizimando muitos sudaneses… Vale lembrar que genocídios até por limpezas étnicas não são exclusividades do solo africano…

Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado.” (Provérbio Africano)

uma-boa-mentira_2014_02Um Boa Mentira” fora o sonho americano para alguns refugiados sudaneses que nem sabiam o que significava isso. Era apenas a esperança de uma vida melhor após tantas lutas por sobrevivências. E o filme nos mostra todas elas! A longa caminhada que fizeram sem uma direção certa… Onde por vezes indicadas por aqueles que não mais poderiam seguir em frente… Ou quando tiveram que aceitar o sacrifício de um deles para que então os demais pudessem seguir adiante… Ou mesmo já estando num de Campo de Refugiados, já em 1987… Com racionamento de comida… Doenças… Eles ainda tiveram que esperar 13 anos até terem seus nomes numa das listas de admissão aos Estados Unidos…

Huckeberry Finn mentia para sobreviver em situações indesejáveis. Mas mais a frente as mentiras mudaram porque ele mudou… Quando diz ao caçador que não tinha escravos, era mentira, mas para salvar Jim. A liberdade de Jim significava mais que o dinheiro de entregá-lo…

uma-boa-mentira_2014_04Ainda em solo pátrio, e antes de terem quase a totalidade dos familiares dizimados, levavam uma vida bem rural, entre rebanhos bovinos e tendo como “vilões” felinos famintos… O de modernidade que por lá apareceu foram as armas, os helicópteros… É! As armas chegando primeiro… Com isso tudo que iriam conhecer dali para frente seriam de fato novidades… Já começando pelo o voo em avião, a comida à bordo… Mas o que mais chamava atenção estava invisível: do irem ao encontro de uma vida melhor… E em “Uma Boa Mentira” teremos a vida de quatro deles, mas representando a de todos que ficaram conhecidos como os Garotos Perdidos do Sudão. São eles: o gigante e religioso Jeremias (Ger Duany), o habilidoso Paul (Emmanuel Jal), o bom com a oratória Mamère (Arnold Oceng) e a meiga Abital (Kuoth Wiel). É Mamère quem nos conta essa história! E lá foram eles felizes como crianças! Mas já no desembarque surge a primeira pedra nesse novo caminho… Mas o jeito eram prosseguirem…

Olhe para mim. Eu era do exército. Estive na guerra. Mas muitos de nós éramos só garotos… Confrontando coisas inimagináveis. Tendo que fazer escolhas que ninguém deveria fazer. Seu irmão fez a escolha dele naquela dia. Uma decisão só dele. A decisão não era sua. Você não tinha o poder. Nunca teve.

uma-boa-mentira_2014_05Separados da Abital, os três então conhecem aquela que os ajudariam a arrumar um emprego, Carrie Davis (personagem de Reese Witherspoon). Fora buscá-lo em lugar da representante da instituição que os trouxeram da África, Pamela Lowi (Sarah Baker). Já a partir desse primeiro contato, Carrie começa a perceber que tudo era realmente novidade para eles. Mas nessa convivência não fora apenas o choque cultural que a deixara meio perplexa, mas sim em quanto mais eles iam descobrindo as novidades dali iam também preservando algo própria. Onde numa cena, por exemplo, faz um bem à alma: “Estamos olhando as estrelas.”… Assim eles prosseguiram meio que separando dos itens considerados essenciais para muitos dali o que realmente era essencial para eles… Pausa para falar da performance de Reese Witherspoon! Ela esteve ótima até em não solar. Muito embora creio que nem conseguiria por que os três – Ger Duany, Emmanuel Jall e Arnold Oceng – brilharam! E aplausos também para o Diretor Philippe Falardeau (de “O Que Traz Boas Novas“) até pelo timing perfeito contando muito bem toda essa história!

Mesmo que nossas diferenças possam nos dividir, nossa humanidade nos une. Somos irmãos e irmãs tentando compartilhar esse mundo maravilhoso que chamamos de lar.”

uma-boa-mentira_2014_06Num mundo onde valorizam tanto os bens materiais em lugar do que seria realmente essencial para si próprio e os demais a sua volta… Num mundo onde o desperdício até de alimentos ainda é muito grande… Assistir ao filme “Uma Boa Mentira” – que mesmo contendo cenas que doam na alma -, ele também nos lava a alma! Por ainda ter pessoas verdadeiramente humanas e desejosas de um mundo cada vez mais menos desigual. Mas principalmente que histórias como essas, dos Garotos Perdidos do Sudão, nos levam a reafirmar nossos conceitos de que os valores morais e éticos são o que realmente levamos de bagagem na jornada da vida. Mesmo tendo que atravessar infernos… Mesmo que pelo caminho tenhamos que contar “uma boa mentira“… Assistam essa emocionante história! Nota 10!

Uma Boa Mentira (The Good Lie. 2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

A Grande Aposta (2015). “Desenhando” a Crise/2008 Para Que Assimilem de Vez?

a-grande-aposta_2015_posterfinancial-crisis_us_comicsPor: Valéria Miguez (LELLA).
Um Professor diante de uma matéria muito complexa sabe que o caminho seria se expressar de forma lúdica. Ainda mais tendo que fazer uso de terminologias bem específicas. Explicando com humor torna a aula mais prazerosa e com isso os alunos terão mais chance de entenderem a lição de vez, ou quando não muito, o necessário. Digo isso porque foi meio por aí que “A Grande Aposta” me passou. O que em nada diminui o filme, muito pelo contrário! Mesmo tendo vindo como a didática de um Professor de Cursinho… É justamente essa aulinha para lá de bem humorada, do tipo que “mete o dedo na ferida”, que traz o diferencial do filme. Pois tendo que contar o que foi a Crise Financeira de 2007/2008, uma história tão bem decantada em 2011 por “Margin Call“, teria que ser por um outro ângulo. E meio que “desenhando” o Diretor Adam McKay conta essa história em especial para os próprios conterrâneos o ponto alto do filme! Muito embora creio que o pessoal de lá possam a vir não gostar muito, ou nada, quando de fato a ficha cair. Afinal, o “desenho” é principalmente endereçado a eles, os estadunidenses! Esse detalhamento como um PowerPoint de sala de aula fica também como um alerta para que ninguém se esqueça do que foi o maior golpe financeiro desse século. Crise essa que pode ser traduzida por “Como Aplicar um Mega 171 Impunemente!“. Algo que coloquei como subtítulo no do filme de 2011.

Agora, “A Grande Aposta” também nos traz um outro dado que não deveria ser esquecido: de que quase uma década já se passou e pelo jeito varreram tudo para debaixo do tapete… Vejam quem de fato foi o único punido. Pior! Pois as tais Agências de Classificações de Riscos (Standard & Poor’s, Moody’s…) continuam por aí “avaliando” até mercados internacionais e a serviço de um seleto grupo diretamente. Ou como temos visto atualmente no Brasil, os que usam de má fé essas avaliações para fomentarem uma crise… É! Elas seguem livres e se linchando para os que foram, são e serão ludibriados com as “projeções” dada por elas. Esses outros são os reais “patos” (Algo que também nos remete a história atual do Brasil…) Quer sejam eles pessoas físicas, jurídicas, ou mesmo países… são quem de fato pagarão as consequências desse capitalismo selvagem! Há uma cena no filme que enfatiza bem a perversidade do Sistema! Ainda restando um certo pudor no que fará, questiona uma delas por ter dado um “triplo A” para um título já em queda livre. Ainda perplexo com tudo, o personagem ouve que se ela não o fizer, perde “o cliente“. E ainda lhe põe em xeque: já que para ambos o que realmente interessa são os lucros! Que o prejuízo, os “patos” que paguem! Assim, se o Sistema do Mercado de Ações é bem cínico… Logo, Adam McKay fez muito bem em também o ser nesse filme! Bravo, McKay!

E seguindo de um jeito meio documental Adam McKay conta toda essa história em “A Grande Aposta“. Com paradas para as explicações do “economês” do Mercado de Ações usando até algumas Celebridades. Com clips bem dinâmico de acontecimentos, fatos, momentos em evidências ao longo desses trinta anos: desde a entrada dos Títulos Hipotecários no Sistema até o “desfecho” em 2008. Com uma ótima Trilha Sonora! Agora, como num desses clips eu ri muito, mas para não estragar de todo a surpresa… Direi que a inserção da foto de uma famosa dupla de um Filme já Cult, veio como: “Golpista é golpista, não importa se da plebe ou da elite!“. Perfeita a analogia! É hilário!

A-Grande-Aposta_2015_01Além disso, temos em “A Grande Aposta” um personagem como um mestre de cerimônia que ao contar como ele entrou nessa história acaba meio que contando a dos demais envolvidos diretamente na trama. Ele é o corretor Jared Vennett interpretado por Ryan Gosling. Vennett é um cara bem antenado! Ao ouvir uma certa história vai atrás de quem o ajudaria a confirmar o fato. Mas antes de falar dos demais, temos quem teve a tal grande sacada: Michael Burry. Personagem de Christian Bale. Burry é cara bem excêntrico, mas com um olhar clínico para os números, algo que o qualifica como um grande investidor, onde até então era bem quisto no meio. Foi ele quem identificou que os tais Títulos – a “menina dos olhos” de todo Sistema americano -, estava para ruir. Como ficou desacreditado decide lucrar em cima do fato. Apostando contra o mercado de então, mas com uma segurança. Ávidos não apenas com o capital de Burry, mas também com o que lucrariam dos demais, já que para eles eram favas contadas Barry perder, aceitam! Surge então os Títulos de Seguros Contra as Hipotecas. Não sei se foi proposital o Diretor colocar esse personagem com um certo problema físico… Porque sei foi, a analogia foi ótima! Por ter sido o único que vislumbrou o problema!

Com isso, foi com um dos corretores se gabando do lucro certo que teria com a derrota de Barry, que a história chegou aos ouvidos de Vennett. E por conta dele ir atrás de Barry, ou não… alertou uma Corretora. Quem está a frente dessa outra é Mark Baum, personagem de Steve Carell. Esse percebe que pode estar diante de um grande negócio, mas resolve investigar primeiro. Acontece que Baum está passando por uma grave crise pessoal… Somado ao seu jeito de ser de não ter papas na língua… O leva, ou melhor, nos leva a conhecer o quanto esse mundo não tem o menor escrúpulo em arruinar pessoas, empresas, nações. No filme ele seria um dos pesos pela moralidade e ética nessas, ou dessas negociações. Até por tudo que veio depois também com a tal grande aposta de Barry: quem de fato lucrou junto com ele, quem não arcou com o monumental prejuízo deixada por ela (Algo que mais especificamente pode ser visto em “Margin Call“…

Há ainda dois personagens ligado a tudo isso onde então entrará o do personagem de Brad Pitt! Eles são dois pequenos investidores que de posse do lucro resolvem entrar na Wall Street… Eles são Charlie (John Magaro) e Jamie (Finn Wittrock) que pareciam um pouco com Barry: de investirem em coisas que a maioria não acreditava que traria lucro certo. Assim, de posse da fortuna acumulada, vão em busca de um lastro maior para grandes investimentos… Nesse breve e frustrante caminho… ficam cientes dos planos de Barry… Tentam então contatar Ben Rickert (Brad Pitt): alguém respeitado na Wall Street, mas que se encontrava fora de toda aquela máquina: daquele que seria um circo dos horrores para muitos… Entretanto, mesmo longe de lá, para Rickert business is business, ainda! Paralelo a isso, essa dupla também tenta que alguém da imprensa noticie o que já estava acontecendo e o que estaria por vir… Para que os incautos, ou até gananciosos, do andar de baixo não caíssem no golpe dos poderosos que não iriam arcar com o prejuízo que a própria ganância os cegaram também para o que o Barry a princípio tentou mostrar… Enfim, todos nós estamos cientes quem caíram. Até porque isso já faz parte da cultura deles! Perdendo ou ganhando, a têm como a principal indústria!

O filme é muito bom! Mesmo que não queiram assistir pelo receio de um déjà vú, assistam! Pois “A Grande Aposta” não apenas traz uma radiografia bem cáustica do que foi essa crise, mas também porque o filme mostra que muitos poderão voltar a cair novamente em golpes parecidos: com uma nova roupagem. Afinal, além da impunidade, a crise mostrou aos do andar de cima as falhas do próprio sistema. Mais! Dando a eles mais know-how para o perpetuarem. Além dele não nos deixar esquecer quem afinal acaba pagando o pato! E salvo raríssimas exceções do andar de baixo que terão chances de conhecer o andar de cima e recebidos com tapete vermelho!

Vale também destacar ainda as atuações! Todos em uníssonos! Alguns bem caricatos, mas talvez para mostrar que mais do que os personagens em si é a história a grande protagonista ao mesmo tempo que pelo teor, também a grande antagonista. No qual eu darei um ‘9,5’ pelo conjunto da obra em “A Grande Aposta” porque a nota máxima ainda está com “Margin Call“! Agora, enfatizo é um Filme para ver e rever!

A Grande Aposta (The Big Short). 2015.
Direção: Adam McKay (co-Roteirista)
Baseado no livro homônimo de Michael Lewis.
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte final

california-2015_de-marina-personPor: Carlos Henry.
CALIFÓRNIA de Marina Person pode ser considerada uma comédia de adolescentes. E das boas, por conta de um afinado elenco juvenil embalado por deliciosos hits (David Bowie, New Order e muitos nacionais, todos muito bem inseridos nas cenas, especialmente o final com “The Caterpillar” do The Cure.) dos anos 80 quando a ação se desenrola. Estela (Clara Gallo) vive sua difícil passagem pela puberdade ancorada na figura de seu idolatrado tio Carlos (Caio Blat, perfeito no papel) que vive na Califórnia e exerce influência mágica na menina criada por pais caretas. Os planos de conhecerem juntos o badalado estado americano são interrompidos pela volta inesperada de Carlos ao Brasil que chega magro e debilitado por conta de uma terrível e ainda desconhecida doença que começava a se espalhar pelo mundo naquela época. O engenhoso roteiro insere o complexo personagem de Caio Horowicz no momento certo. Ele é o menino mais estranho da escola. Sua posição de bissexual avançado irá amedrontar e fascinar a menina afligida pelos hormônios da idade, mas cercada de justificados preconceitos. “Se você for gay, você vai pegar Aids!” adverte Estela ao novo pretendente, ignorante como a maioria da população diante de uma praga nova e misteriosa. Apesar do que é abordado, o tom do filme é leve, ameno e muito divertido em sua maior parte, especialmente por conta do elenco de meninas e da pequena, mas sempre preciosa participação de Gilda (Trabalhar Cansa) Nomacce como uma empregada afeita a simpatias mágicas.

E aproveitei os intervalos do Festival e as férias para apreciar o que estava no circuito.

perdido-em-marte_2015O diretor Ridley Scott continua desapontando. Seu último longa PERDIDO EM MARTE (The Martian) é uma ficção científica apática e excessivamente técnica que poderia interessar somente aos aspirantes a astronautas. O personagem de Matt Damon é considerado morto numa missão em marte e deixado abandonado no planeta inóspito. O que deveria ser uma situação tensa acaba virando plataforma para uma série de piadas nem tão engraçadas. A trilha sonora calcada em hits da Disco Music seria um (forçado) atrativo à parte, não fosse detonada o tempo todo como se fosse mau gosto apreciar aquele gênero de música. Descartável.

a-travessia_2015A TRAVESSIA (The Walk) de Robert Zemeckis assombra com imagens estonteantes em 3D na tela gigante do Imax para contar a história verdadeira do Francês Philippe Petit que decide atravessar através de um cabo de aço as célebres torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque pouco antes de serem concluídas as obras finais nos anos 70. Não aconselhável para quem sofre de vertigem. Philippe sofreu pena leve pela inesquecível façanha ilegal e acabou ganhando passe livre para o terraço de observação da torre. O passe teve sua data de validação alterada de um dia definido para duração indeterminada. Infelizmente o trágico curso da história não permitiu que o célebre equilibrista usufruísse da regalia para sempre.

love-3d_filmeLOVE 3D do cultuado diretor do chocante “IrreversívelGaspar Noe é uma grata surpresa. Execrado pelos exibidores ultraconservadores deste país de mente curta, é ao contrario do que possa parecer é um filme de muita qualidade. Narra a obsessão sexual de um homem casado pela jovem Electra, uma antiga namorada que desaparece sem deixar vestígios. A paixão doentia confundida com amor esgota o rapaz física e mentalmente vista em notáveis mudanças ao longo da narrativa. Como é que a esta altura do campeonato, em pleno século vinte e um, numa terra infestada de sujeira, miséria e corrupção, alguém por aqui pode ousar se indignar com um punhado de cenas de sexo explícito (Penetração do ponto de vista do interior da vagina e um orgasmo masculino em direção à tela são as cenas mais comentadas) totalmente inseridas no contexto de um roteiro bem elaborado? A pornografia está nos jornais que hoje em dia não têm censura.

A-Colina-EscarlateA COLINA ESCARLATE de Guillermo del Toro é a grande decepção que fecha o festival. Tantos clichês que talvez funcionassem numa paródia de Mel Brooks – Arranca risos da plateia com a suposta intenção de assustar lançando mão de fantasmas toscos, gráficos e falsos, rangidos e “sustinhos” para lá de batidos. A-velha-perversa-do-retrato-que deve-esconder-um-segredo, O-jovem-que-divide-um-terrível-mistério-com-a-irmã-estranhíssima e a-menina-idiota-que-vai-morar-na-mansão assombrada-apesar-dos-avisos-da-mãe-morta são algumas das sandices óbvias do inacreditável roteiro. Como é que a talentosa Mia (Amantes Eternos) Wasikowska foi se embrenhar nesta patuscada? E o Senhor Del Toro que já realizou obras-primas como “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo” também perdeu a mão? Assustadoramente ruim. Como dizia um crítico que tinha um programa sobre cinema na TV nos anos 70: Fujam do cinema que estiver “levando”!

[Continuação daqui.]

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte II

os-irmaos-lobo_2015Por: Carlos Henry.
OS IRMÃOS LOBO” (The Wolfpack) de Crystal Moselle é um documentário que narra a bizarra saga de sete crianças que crescem presas num apartamento imundo e decadente em Manhattan. O único contato com o exterior permitido pelo pai seria os filmes na TV. Portanto as criaturas se desenvolvem cercadas de criatividade cinematográfica, encenando diálogos de filmes que viram ao longo da prisão domiciliar. O que soa estranho na narrativa é que não há maiores conflitos quando os meninos de longos cabelos se rebelam quando chega a puberdade e alcançam o mundo exterior sem grande estardalhaço. Um deles exclama: “Parece 3D!” A praia de Coney Island é um dos primeiros locais que visitam numa sequência relativamente tocante. No fim, percebe-se que o que eles querem mesmo é fazer cinema, o que dilui o objeto principal do documentário que deveria ser tenso e emocionante.

H_2014_de-Rania-Attieh_posterH“. de Rania Attieh é uma obra estranhíssima e bizarra. A começar pelo título que se refere ao nome de Helena. Há duas delas na história. Elas vivem em Troia, Nova Iorque, numa clara alusão à clássica tragédia grega. Uma tem cerca de 70 anos, vive uma rotina cotidiana com o marido e cuida de uma boneca hiper-realista como se fosse uma criança de verdade. A outra é jovem e faz uma dupla de sucesso com o parceiro no mundo das artes enquanto prepara-se para ter um bebê. Um meteorito atinge a região e deflagra uma série de acontecimentos muito estranhos mudando o destino de todos. O filme pouco explica. Prefere sugerir muito em sequências belas e misteriosas, entre sons ininteligíveis criando um clima de crescente agonia, bem na linha do excelente “Sob a Pele”. A enigmática figura equina que surge ao longo dos capítulos entra em mutação no final numa cena realmente perturbadora. Para ver muitas vezes, interpretar, concluir e discordar como num filme de David Lynch. Uma delícia.

The-Nightmare_2015_posterOutro filme muito perturbador foi certamente o horripilante documentário “O PESADELO – PARALISIA DO SONO” (The Nightmare) de Rodney Ascher que já havia provado o seu talento tentando decifrar o que havia de oculto no clássico filme “O Iluminado” de Kubrick em “Quarto 237” que também causou aflição no outro Festival. Neste novo trabalho, Rodney entrevista várias pessoas que têm os mesmos sintomas. São acometidas por brutal paralisia quando entram em certo estágio do sono e se tornam impotentes diante das presenças que começam a surgir na escuridão. Um ataque de extraterrestres ou obsessão espiritual? A conclusão é do espectador que deve evitar assisti-lo quando a noite cair.

a-floresta-que-se-move_2015Ana Paula Arósio ressurgiu após longo hiato das telas, linda como nunca na exibição de “A FLORESTA QUE SE MOVE” de Vinicius Cimbra no cinema Odeon. O veterano Nelson Xavier também estava presente, contente com o fato de ter sido finalmente convidado para um papel de rico. E o fez brilhantemente. O filme que pode ser considerado um noir que flerta com os gêneros terror gore, suspense e policial é uma excelente adaptação de Macbeth de Shakespeare para os dias atuais. Uma bordadeira vidente (Juliana Carneiro da Cunha) prevê o poder meteórico para Elias, um alto executivo de banco. Incentivado pela mulher ambiciosa, os dois decidem eliminar pessoas para que se cumpra a profecia. O primeiro alvo é Heitor (Nelson Xavier), o presidente do banco, um homem bondoso e sensível que adora as Bachianas de Villa-Lobos. A partir daí, o rastro de sangue derramado espalhará a loucura, o remorso e os fantasmas no caminho dos dois. Neste trabalho extraordinário, destacam-se o mosaico de locações (Brasil, Uruguai, Escócia, Berlim) que confere uma atmosfera mágica e indeterminada à obra, bem como o elenco perfeito com destaque até nas pequenas participações como a de Emiliano Queiroz como um porteiro hilário, irônico e articulado. Imperdível.

as-fabulas-negras_posterAS FÁBULAS NEGRAS” é um terror nacional B gore que não deve ser levado tão a sério. Une o talento do veterano José Mojica Marins (Zé do Caixão) com outros novos diretores do gênero. O resultado por vezes amador e tosco diverte e evidencia um esforço constante em acertar. A decisão de inserir um grupo de crianças fantasiadas na mata como elo de ligação entre os contos ajuda muito no clima soturno pretendido. O episódio da loira no banheiro é decerto o melhor elaborado e bem montado com segurança na direção A velha que faz a diretora do pensionato de garotas está impagável. Mojica também se destaca como um exorcista de araque e aproveita para lançar a sua sempre esperada e “temida” praga no final.

[Continuação daqui.] [Continua aqui.]

Uma Longa Viagem (2013). Para Encarar de Frente Seu Pior Pesadelo!

uma-longa-viagem_2013Por: Valéria Miguez (LELLA).
uma-longa-viagem_2013_02Em uma trama que retrata prisioneiros britânicos em plena Segunda Guerra Mundial, tendo entre eles engenheiros e ainda mais a construção de uma ferrovia… o que vem de imediato à lembrança é o “A Ponte do Rio Kwai” (1957), do Diretor David Lean e que eternizou o personagem de Alec Guinness até por odiá-lo em um certo momento. Longos anos se passaram e eis que um outro filme surge trazendo também esse pano de fundo, é o “Uma Longa Viagem“, do Diretor Jonathan Teplitzky. Se com o personagem do primeiro filme eu fiquei na torcida para que detonasse a tal ponte, com o desse a minha torcida foi para que não fizesse algo. É! Por vezes a vida nos leva a detonar pontes, mas o destino não diz qual, nem porque, nem muito menos aquela que ao atravessar levará ao encontro de algo que até pode vir a ser um outro divisor de água em nossas vidas…

uma-longa-viagem_2013_03Uma Longa Viagem” é um filme baseado numa história real: nas memórias de Eric Lomax de quando fora um dos prisioneiros dos japoneses em plena Segunda Grande Guerra. É por ele que o conhecemos partindo de um ponto presente – que no decorrer saberemos o porque -, até o seu passado mais tenebroso. Será um mergulho sem dó nem piedade. Nesse seu tempo presente é alguém que tem como um hobby trens: dos vagões às ferrovias, passando pelos horários… A bem da verdade é um entusiasta no assunto. Do passado, quando em campo de batalha em plena guerra ficara responsável pelo rádio: as escutas da época. Até que seu superior diz a todos que irão se render e ordenando que antes destruíssem tudo que pudesse comprometer a tropa. Lomax então resolve guardar uns componentes de um rádio. Um ato que sairá bem caro mais adiante.

uma-longa-viagem_2013_01Com a rendição parte de seu grupo por serem engenheiros são levados aos empecilhos da construção de uma ferrovia: a que ligaria a Tailândia à Birmânia. Quanto aos demais prisioneiros seguiram pela construção propriamente dita: desmatando, assoreando, fazendo barreiras de contenção, na colocação dos trilhos… O trabalho braçal, pesado, cheio de perigos até pela selva e abaixo de chicotes. Enquanto esse trabalho avançava – e com ele muitas baixas iam somando àquela que ficaria conhecida como a Ferrovia da Morte -, o pequeno grupo resolve fazer um rústico rádio de onde passaram a ouvir notícias de fora. Desejosos de com elas tentar levantar a moral dos demais prisioneiros, acabam sendo descobertos e…

uma-longa-viagem_2013_05Uma Longa Viagem” ora se encontra num tempo presente, 1980, no norte da Inglaterra, com Eric Lomax já um homem adulto. Ora nos leva a viajar juntos com ele ao passado dele então um jovem prisioneiro de guerra. Nesse seu presente encontra-se recém casado com Patti (Nicole Kidman). Apaixonados, mas… Ela passa então a ver que ele é um ser atormentado e tenta um jeito de ajudá-lo. A presença dela traz mudança em sua rotina até por ele ser um cara bem metódico. O que talvez possa ter contribuído para que seus traumas de guerra viessem à tona. Na tentativa de ajudá-lo, Patti vai em busca de um grupo que vivenciaram o mesmo pesadelo, e dai se reúnem justamente para tentarem superar. Por lá Patti encontra-se com Finlay (Stellan Skarsgård) pedindo que lhe conte o que houve. Ele então conta a parte que ele cabe, não sem antes tentar demovê-la, pelo conteúdo muito cruel como também que lhe é muito penoso relembrar desse período.

uma-longa-viagem_2013_04Traga de volta o passado somente se for construir algo a partir dele.”

Mas é por Eric Lomax que conheceremos uma parte dessa história que nem eles sabiam: as das torturas. Até que Finlay mostra algo a ele: fizeram um memorial numa das estações da tal ferrovia. Justamente onde foram torturados. Ele então resolve visitar literalmente seu passado viajando até lá. Onde então fica novamente frente a frente com o seu pior pesadelo: o carrasco mor, o oficial Takeshi Nagase (Hiroyuki Sanada). Não ficará pedra sobre pedra nesse reencontro.

uma-longa-viagem_2013_06E nesse passado temos o jovem Lomax interpretado por Jeremy Irvine (de “Cavalo de Guerra”). Numa excelente atuação. Mas sem sombra de dúvida a magistral performance é a de Colin Firth. Seu Lomax nos leva a voos de doer na alma até ao mostrar o que todas as guerras deixam como “saldos” em quem dela participa. Vilões para um lado, Heróis para o outro, mas nos campos de batalha são homens, jovens à mercê de uma guerra cujos “donos” nem dela participam… É nessa sua volta onde fora torturado que terá um novo dilema a ser superado… Onde a minha torcida fora para que não o fizesse… Bem, posso adiantar apenas que chorei junto com o Eric Lomax de Colin Firth.

The-Railway-Man_posterO Diretor Jonathan Teplitzky ainda não está no mesmo patamar de David Lean, até pela pouquíssima bagagem, mas com certeza está no caminho certo! Pois temos em “Uma Longa Viagem” um novo ângulo da Segunda Guerra Mundial: contada por um que a vivenciou e que conseguiu sair vivo dela. De nos deixar em suspense até o final. Num timing perfeito entre passado e presente. Efeitos de cores em Fotografia. Trilha Sonora ótima! Atuações catárticas: um soco no emocional de quem assiste. Que embora a personagem de Nicole Kidman não tenha tido altos voos, todos sem exceção tiveram grandes performances no conjunto dessa obra que veio para ficar. Agora, é no reencontro entre Lomax e Nagase o ponto alto do filme. Até por conter nessas cenas o peso de anos do emocional até então guardados tanto de um como do outro. Aplausos entusiásticos para Colin Firth e Hiroyuki Sanada! Bravo! Num filme Nota 10!

Uma Longa Viagem (The Railway Man. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.