Gata Velha Ainda Mia (2013)

Gata-Velha-Ainda-Mia_filmeRegina Duarte tem a chance de escapar mais uma vez do estigma de “namoradinha do Brasil” que ainda a persegue desde quando estreou na televisão na década de 60.

Neste engenhoso e tenso trabalho de Rafael Primot, Regina encarna a velha escritora ranzinza, Gloria Polk, que não escreve faz tempo. Nessa pausa com as letras, ganha a vida como cozinheira, mas resolve retomar um antigo personagem na forma de um novo livro. O problema é que não sabe como definir o desfecho do romance. Sua mente já perturbada confunde ficção e realidade quando a jovem Carol (Bárbara Paz) chega para entrevistá-la.

gilda-nomacce_em-gata-velha-ainda-miaO encontro das duas suscita uma discussão interessante num embate de gerações cheio de ideias divergentes. Num dos diálogos, a escritora Gloria Polk responde porque gente velha acumula tanto cacareco. Ela explica que os bibelôs agem como alavanca para acionar a memória senil. Complementa que os jovens estão cada vez mais impessoais por não saberem preservar a textura do passado. Digitalizam, editam, deletam, mas não retêm. Essa contenda difícil de concluir é habilmente interrompida pela chegada do bizarro personagem Dida (Gilda Nomacce), uma vizinha estranha e intrometida que começa a dar uma nuance soturna à trama.

Ainda que precise de um ou outro pequeno ajuste, especialmente em sua segunda parte, quando o roteiro ganha tons mais pesados, o filme tem o mérito da ousadia, quando flerta deliciosamente com os gêneros noir e terror, raros no Brasil.

Carlos henry

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As Palavras (The Words. 2012)

as-palavras_2012_cartazTalvez haja dois critérios básicos para se tornar um grande escritor: talento com as palavras e um olhar atento para o que acontece ao redor. Para então conseguir traduzir num texto o que sentiu, o que viu, o que imaginou, o que vivenciou… Deixando o pensamento correr livre. Sem cercear até mesmo a imaginação. E quando conta a história num longo texto terá também que manter o interesse do leitor até o final. Que mesmo escrevendo um breve conto se faz necessário também encantar quem o ler. Num misto de admiração e surpresa na leitura de todas aquelas palavras impregnadas de carga emocional.

Saber escrever bem até pode ser até pode ser um misto de constância com a escrita e técnicas de redação. Mas sobre tudo há o de se gostar de escrever. Descrever em palavras o pensamento. Em narrar a emoção da historia vivida ou imaginada. Onde muita das vezes mesmo tendo um talento nato ele pode ficar adormecido. Onde só ira acordar com um fator desencadeante. Que pode ser vindo de outra pessoa, mas em geral o estalo vem de algo vivido pela própria pessoa. Seja como for deve dar o primeiro passo. E mais outro. Escrevendo sempre, e principalmente quando der a vontade. Podendo até ser pequenas anotações. Onde a própria crítica seja mais como um incentivo a ser aperfeiçoar na escrita.

Agora, quem ou o que define quem é um grande escritor a ponto de colocá-lo no topo dos clássicos? A história em si? O número de leitores? A quantidade de palavras em cada livro? A continuidade nas escritas para não ser um autor de uma única obra?

No filme ‘As Palavras‘ temos três formas distinta de escritores: o verdadeiro autor da obra, o que se apropriou da obra e o que conta a estória desses dois. Deixando para quem assiste separar a ficção da realidade. Ou julgar ou se solidarizar com eles.

Rory Jasen (Bradley Cooper) trabalha em uma editora de livros alimentando um sonho em um dia ter o seu próprio livro publicado. Mas passar o dia naquele mar de palavras em nada lhe ajuda como inspiração. Falta talento? Pode ser. O tempo vai passando e o sonho virando um pesadelo. Somado a essa frustração lhe vem a realidade das contas a serem pagas no final do mês. Sua esposa Dora (Zoe Saldanha), um pouco alheia ao real drama de Rory, mas por ele não lhe confidenciar, tenta incentivá-lo. Até o leva a uma pequena loja de antiguidades e lhe dá de presente uma pasta de couro. Mal sabendo ambos que aquela peça antiga trazia escondida um tesouro. Tal qual a lâmpada mágica era o sonho de Rory virando realidade. Pois ao limpar a tal pasta ele encontra um maço de folhas amareladas pelo tempo. Ele então ler todo o texto que o deixa fascinado. E logo se vê digitalizando todo o texto. Copiando palavra por palavra.

Ainda alheia a agora ao novo dilema em que se encontra o marido Dora ler o texto achando ser dele. Pronto! Era o incentivo que faltava a Rory. Então ele apresenta como sendo seu ao seu chefe. Que publica o livro. Virando um sucesso em vendagem, crítica e prêmios. Só que o tempo vai passando e com ele a cobrança de um novo livro. De uma outra grande história. Que também não vem. Mas dessa vez em vez de encontrar um novo texto surge o tal gênio da lâmpada. Ou seja, o verdadeiro autor da obra. Personagem do sempre ótimo Jeremy Irons. A princípio tudo que impõe a Rory que ouça toda a história. Como todas aquelas palavras surgiram. Ele vivenciou tudo aquilo, e soube contar em palavras.

Palavras apenas / Palavras pequenas / Palavras

as-palavras_2012Não há como voltar atrás depois de ter feito uma escolha. Até pelas consequências desse ato. Ainda mais quando houve perdas irreversíveis. Foram perdas e ganhos na balança do destino. É tentar se redimir? Buscar por uma expiação ou por uma redenção? Culpabilizar o forte e egoísta desejo de se tornar um escritor? Mas aí não deveria ter seguido o caminho solitário para não deixar na solidão os entes mais próximos? Pois como bem disse Saint-Exupéry “Você se torna responsável por aquilo que cativas.

Se para um ao contar toda a história seria como exorcizar antigos fantasmas, para o outro ao ouvir seria como ficar frente e a frente com os seus ainda lhe assombrando. E para quem conta toda essa história que sentimento quis tirar dali?

Eu gostei do filme! Foram palavras que resultaram numa bela história. Mostrando que Direção e Atuação possuem intimidade com as palavras. No mínimo terão um exercício para que quem saiba um dia venha se tornar um escritor. Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

As Palavras (The Words. 2012). EUA. Direção e Roteiro: Brian Klugman, Lee Sternthal. Elenco: Dennis Quaid (Clay Hammond), John Hannah (Richard Ford), Jeremy Irons (The Old Man), Bradley Cooper (Rory Jansen), Zoe Saldana (Dora Jansen), J.K. Simmons (Mr. Jansen), Olivia Wilde (Daniella). Gênero: Drama, Mistério, Romance. Duração: 102 minutos. Idade Indicativa: 12 anos.

A Grande Beleza (La grande bellezza. 2013)

A-Grande-Beleza_2013_cartazDifícil ficar impassível diante do filme “La Grande Bellezza” de Paolo Sorrentino, assim como é difícil acompanhá-lo. É uma obra complexa e que convém ser vista mais de uma vez. Intensamente belo como o título, desfila imagens de Roma de tirar o fôlego até os créditos finais. Remete a Fellini quando evoca a religião em quase todos os momentos da estória, mas de uma forma bem menos satírica ou debochada, ainda que cheia de humor.

O ponto central é um figurão da alta sociedade italiana cujo desencanto aos 65 anos é amparado em festas repletas de bizarrices e situações decadentes acompanhadas por um séquito não menos incomum (Sua editora, por exemplo, é uma anã bem resolvida com seu tamanho). Ele é jornalista e procura motivação para voltar a escrever. Sua personalidade é ácida, mas compreensiva. Consegue enxergar tudo com sensibilidade e sarcasmo, o que cria passagens fantásticas como quando visita os monumentos de Roma (Marforio), ou nas ricas conversas com a empregada ou com a “santa” madre que ele tenta entrevistar. A suposta santa-freira acredita ter poderes, dorme no chão, só come raízes e fala com os pássaros. Ela é protegida por um estranho cardeal metido a chefe de cozinha que já foi exorcista e aspira ao cargo papal.

O ponto chave da procura incessante da grande beleza pelo protagonista parece estar na sequência do mágico que frustra o desejo do rico escritor quando pede para desaparecer como a girafa da cena. A resposta é reveladora: “– Você acha que se eu soubesse de fato fazer alguém sumir, estaria aqui fazendo essas bobagens? É só um truque.”

A mais provável resposta dessa busca é que a grande beleza é ilusória, inconclusiva, não existe. Mas também pode estar numa peça maluca onde a artista corre nua para bater num muro, na criança que se esfrega de tinta colorida numa enorme tela diante de uma plateia extasiada, na exposição de fotos de cada dia da vida de um homem desde os quatorze anos até sua maturidade, na inocência do primeiro amor ou na beleza interior da freira que abdica de tudo para virar santa. O espectador escolhe.

Tudo Ficará Bem (Alting bliver godt igen. 2010)

História de mais, em roteiro de menos?

Fiquei meio sobre impacto ao término do filme. Com uma sensação de ter “cochilado” durante a projeção. Mas aconteceu justamente o contrário. O thriller prende a atenção o tempo todo. Então me veio a pergunta acima. História tinha sim, bastante. Mas faltou tudo ficar amarradinho.

Se não, vejamos! O cara é um viajandão! Claro que para quem escreve dar asas a imaginação é mais do que produtivo. Acontece que esse do filme, Jacob Falk (Jens Albinus), se encontra em meio a um bloqueio criativo. De não conseguir colocar em texto, toda a sua história. Mais! O Produtor está no seu pé. Seu prazo limite está se esgotando. Ele tem até uma maquete do cenário. Tem os atores. Tem já toda a equipe de iluminação… Todos, tudo esperando pelas Falas, pelo Roteiro. Meio que “8 1/2”, de Fellini. Então Jacob ao se deparar com umas fotos, coloca toda as suas energias nelas.

Pediram a ele que fizesse um filme de guerra que pesasse na alma. O que me fez lembrar de “Gallipoli“. Mas quando o filme traz esse assunto, levanta alguns pontos. Um deles seria em mostrar que mesmo num país “nórdico” há uma de torturar com crueldade física seus presos, e pelos militares. O que me fez lembrar de “A Vida Secreta das Palavras“, onde um tipo de tortura e por quem fez, além de ter tudo a ver com o contexto do filme, quando ele vem à tona, fica sim a ideia de que nos machucam saber desse lado negro da História da Humanidade.

Mas nesse, “Tudo Ficará Bem“, quem é o portador de tais fotos é alguém de origem muçulmana, que foi recrutado por falar árabe, e a tortura é feita por soldados dinamarqueses. O que levanta a dúvida de que esses soldados também entraram nas guerras no Oriente Médio. Ou em que parte eles de fato participaram.

Outra coisa que intriga é que: até onde isso é um fato no filme. Se não se passa de viagem do Jacob. Como se não bastasse essa história, em paralelo há a da vida particular dele, que também parece ter algo fictício: já que não há uma ligação entre a esposa e a irmã de Jacob. Como se uma não existisse, ou ambas não existissem. Agora, a cena onde ele mais parece ser um viajandão, é a dele comendo uvas.

A tal maquete com as cenas do filme da história, não é apenas uma ilustração do início do filme real. Ela é real no filme: Jacob a manipula. Nela há um corpo estendido no asfalto. Na realidade do filme serão dois, cada um num contexto. Sendo que um a cena em si ficaria como: ‘a vida imitando a arte?’ Porque não dá para aceitar como: ‘um dos seus problemas, acabou!’

E onde entraria o significado do título original – Tudo se torna bom de novo (Alting bliver godt igen)? O título dado aqui no Brasil – “Tudo Ficará Bem” -, denota que haja o que houver, tudo entrará no eixo. Mas pelo título original, há o significado de finitude de algo para algo florescer. Mas pelo final, causa espanto esse desprendimento tão cedo. Se essa parte foi de fato real na vida de Jacob, ele é bem viajandão. Se foi ficção, também.

Parece confuso, e é! “Tudo Ficará Bem” é daqueles filmes onde se deve prestar atenção ainda nos créditos iniciais. Como ir juntando as peças de um quebra-cabeça onde não se conhece o resultado final. Como Thriller, é 10! Como Drama, é loucura demais, dai também é 10! Pela atuação de Jens Albinus, também é 10! E até pelo final que foge do padrão comum. É um filme de querer rever! Parabéns para o Diretor, que também roteirizou, Christoffer Boe. Uma longa vida cinematográfica para ele!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Tudo Ficará Bem (Alting bliver godt igen). 2010. Dinamarca. Direção e Roteiro: Christoffer Boe. +Elenco. Gênero: Drama, Suspense. Duração: 90 minutos.

O Homem ao Lado (El Hombre de al Lado. 2009)

O filme é muito bom! Mas ao término dele fiquei pensando se nas mãos de um outro Diretor teria ficado memorável. De exclamar um “Uau!”. Até por conta do final que então fecharia com chave de ouro. A história por si só é ótima: uma invasão de privacidade não tão moderna assim. Já que a quebra da intimidade de uma família se deve pela proximidade de uma janela aberta na casa vizinha. Somado a isso, e então posicionando o filme numa atualidade, o fato de se ter uma legislação que proíbe a abertura da tal janela. Com a aglomeração populacional, com a proximidade entre os prédios, houve necessidade dessa legislação mais específica para tentar assegurar os limites físicos de cada unidade.

Quando se trata de uma unidade de um único pavimento um muro mais alto é uma solução. Mas a partir de um segundo andar, uma cortina, ou mesmo um toldo na janela cria uma barreira, não deixando o interior do imóvel tão devassado. Agora, quando se tem várias paredes de vidro e numa casa com mais de um pavimento, complica. Uma casa assim pediria um terreno em torno que a deixasse livre pelo menos do alcance do olhar humano.

O filme “O Homem ao Lado” partiu de uma casa real para criar a história na ficção. O que leva a algumas reflexões.

Uma delas seria que posicionamento leva uma família a morar num prédio assim. Mais! Com a parte real há a importância até histórica da tal casa. Pois se trata da Casa Curutchet – a única na América Latina projetada pelo famoso arquiteto Le Corbusier. Fazendo dela também um ponto turístico na cidade argentina de La Plata. No ficcional, toda a fachada deixa o interior de parte da casa devassada aos olhares dos que param na calçada para admirar, ou até estudar a arquitetura da casa. Deixando os cômodos do meio para o fundo livre dessa invasão. Que não é tão invasão assim, vejo mais como uma exposição dos moradores. De minha parte, eu gosto de uma parede de vidro, mas voltada para um jardim interno, ou mesmo que para uma bela paisagem do exterior desde que não haja um outro prédio no meio dessa visão. No filme, o prédio vizinho infringiu também a lei pelo fato de ter subido uma das paredes já no muro divisório. Mesmo não tendo explicação, um furo maior recairá na história do vizinho que abre a janela. Falo dele mais adiante. Ressalto que o que deixava os moradores livres de olhares indiscretos, nos outros cômodos da casa seria a certeza de que tinham nos fundos, os fundos desse prédio vizinho.

Mesmo partindo de um terreno inapropriado para uma casa envidraçada, a história dá como desculpa que quem foi morar nela é um arquiteto. Denotando alguém que não colocaria o fato dessa exposição sobrepujando a importância da obra arquitetônica. Sendo ele um designer, morar na Casa Curutchet o deixaria com muita evidência, até internacionalmente. Ele é Leonardo (Rafael Spreguelburd), um designer industrial que ganhou fama internacional com o projeto de uma cadeira.

Mas Leonardo passa por um bloqueio criativo. Pressionado profissionalmente, pelo atraso, acaba descontando sem querer na própria família, e em seus alunos. A esposa reclama de mais intimidade. Com a filha adolescente ele não consegue dialogar. Com os alunos, cobra por mais criatividade, enquanto ele mesmo se encontra sem nenhuma. E é assim que a pendenga com o vizinho, Victor (Daniel Aráoz) lhe pega: desnudando o seu interior também.

Victor abre a janela para que entre luz em sua sala. Um cara bem tosco, mas que não esconde o seu jeito de ser. Leonardo já é o contrário. Dinheiro, fama, só o deixou com uma camada de verniz. No fundo, é tão bronco como o outro. Tudo fachada!

O início do filme é brilhante! O final é de deixar sem palavras… Mas como falei no início faltou algo. Talvez se enxugassem um pouquinho, pois teve momentos que me fez querer ter um controle para avançar com o filme por ter dado um tédio. Não sei também se porque não houve química entre os dois atores: Rafael Spreguelburd e Daniel Aráoz. Por conta disso não me deixou vontade de rever. Mas vale a pena ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Homem ao Lado (El Hombre de al Lado. 2009). Argentina. Direção: Mariano Cohn, Gastón Duprat. Atores: Rafael Spreguelburd, Daniel Aráoz, Ruben Guzman, Eugenia Alonso. Duração: 110 minutos. Gênero: Drama.

NINE (2009) – Luz! Câmera! …e Corta! Deu Bloqueio.

Deslumbrante! Um dos bloqueios criativos mais encantadores da História do Cinema. Mais! O personagem com toda certeza era mesmo para ser dele: Daniel Day-Lewis. E ele nos leva a um mergulho de tirar o fôlego. Literalmente, também. Pois há uma cena que… se forem assistir num Cinema com alta definição… chega a dar um calafrio, uma sensação de quase cair do alto da estrada naquele mar de águas tão transparentes.

Ainda falando nessa resolução da fita… Procurem por um Cinema que lhes dêem essa qualidade na projeção. Se gostam mesmo de Musical, sairão gratificados ao assistirem ‘NINE‘. Ambos merecem: você e o filme. E não é só para cenas  externas. Numa, também com ele, onde ele se questiona em frente a um telão, fica a sensação de que ele está dentro da Sala onde estamos vendo o filme. (*¹)

Quem seria esse personagem que Daniel Day-Lewis interpreta tão bem? (*)

Ele faz Guido Contini. um importante Diretor, e também Roteirista, de fama internacional. Seu público bebe nas suas fontes uma Itália romântica, sedutora, deslumbrante, misteriosa, provocante, sexy… Enfim, um país apaixonante! E não poderia ser de outro jeito, já que Guido desde a infância ama as mulheres. Por elas, seus filmes decanta o país dos sonhos de todos.

Mas com os seus últimos filmes foram um fracasso de bilheteria… mais a meia idade batendo à porta… ele passa por uma crise existencial. Vindo a refletir em seu trabalho atual. Não adiantando muito, seu Produtor, Dante (Rick Tognazzi – filho de Ugo Tognazzi), o cercar de mimos, até por conta do atraso, mas o texto não sai. Tem o cenário – um Itália com toda a sua arquitetura clássica -, a atriz principal – Claudia Jenssen (Nicole Kidman), os figurinos… Toda a equipe a postos. O título contendo ‘Itália’. E não consegue escrever uma linha sequer.

Assim, Guido faz um mergulho em seu passado e presente, numa tentativa de resgatar a si mesmo. Passará por nove questionamentos: da infância ao momento atual.

Vamos juntos nesse mergulho? Ah! O texto terá spoiler.

Mas não farei pela sequência do filme. E trata-se de um ponto de vista meu. Já que o filme é baseado em ‘Fellini Oito e Meio’, de 1963 – após oito filmes produzidos, um bloqueio não lhe deixa terminar o próximo. Nesse site terão toda a história do filme original e da montagem para a Broadway, num belo artigo.

One – Se temos a Itália, temos a Religião Católica com todas as culpas e expiações aos seus fiéis. Querendo mais que uma absolvição, Guido clama por uma ajuda divina. O Cardeal não o ajuda muito. ou, até sem querer, leva a Guido ver, que não é ali a raiz do seu problema. O Cardeal, confessa ser fã de seus filmes, mas dos antigos. Lhe dá um tema para seu novo filme.

Two – A Religião também marcou a sua infância. Guido apanhava dos Padres por ir admirar uma linda mulher. Ela morava à beira mar. Os meninos levavam suas economias para vê-la fazendo poses provocativas. Saraghina (Stacy “Fergie” Ferguson) era de fato bem provocante. Era a puberdade precoce de Guido. A natureza sendo castrada pela Igreja. Dela, Guido só lembra da sua exuberância. Em sonho acordado lhe dá um musical a sua altura. O primeiro amor do Guido menino. Sua primeira musa a lhe inspirar.

Three – A figurinista Lilli (Judi Dench) é mais que sua amiga. É uma mãe para Guido. Mas não como uma Mamma italiana. Tem um ótimo humor! Embora zombe um pouco dele, gosta muito dele. Até por mantê-la junto nesse mundo do Faz de Contas, que é o Cinema. Lilli veio do Folies Bergère. Ama o efeito de que quem está no palco, proporciona ao público. Como um termômetro… da à Cesar, o que é de Cesar… Lilli é o seu suporte. Mas ela sabe quando é a hora de cortar o cordão umbilical.

Four – Guido vai até onde sua mãe está enterrada. Tem nela a sua fã numero um. Mas a Mamma (Sophia Loren) deixou à educação de Guido, quando menino, aos cuidados dos Padres. Bem, Guido até antes desse bloqueio deu provas de que a rigidez da Igreja não lhe causou traumas. E ele ama a sua mãe. Para mim, a Sophia Loren foi uma presença apagada. Para não dizer: patética. Plásticas demais, lhe tiraram as atuações de outrora. Uma outra atriz teria feito uma Mamma inesquecível. Pena! Deveria saber envelhecer.

Five – Quando ele não pode deixar de ir a uma coletiva com a impressa, Lilli o incentiva com algo assim: ‘Vai lá! Você mente muito bem!’ Durante a entrevista, Guido conhece a jornalista de moda, Stephanie (Kate Hudson). Ela flerta sem pudor esse homem fascinante. É a Imprensa que dá vida ou acaba de vez com a fama de alguém. Assim, é uma via de mão dupla, pois um precisa do outro. Stephanie escreve seus artigos banhando-se nos filmes de Guido. Seu musical em estilo retrô, narra o poder que seus filmes tem sobre seu público, e no caso dela, em seus leitores. Eu não sei porque, mas vendo essa cena, me fez lembrar de uma cena/clip com Elvis Presley: Jailhouse Rock.

Six – Se o seu mal não é espiritual, Guido recorre a um médico para saber se é algo físico. Quer dar vida novamente as suas inspirações. Mas também não há nada com ele nessa parte.

Seven – Durante os exames, surge sua amante: Carla (Penélope Cruz). Ele quer estar com ela. Numa de que uma paixão tórrida, volte a lhe inspirar. Mas ela já não o excita mais como antes. Guido sabe que essa relação está terminando. Pela situação atual, com tantos jornalistas no seu pé, temendo um escândalo, resolve ir aos poucos. Mas Carla pressente. Como se estivesse subindo os créditos finais, e lá um ‘The End’ bem grande. E não um; ‘E foram felizes para sempre!’. Então, resolve fazer uma saída dramática… O que sepulta de vez a paixão que Guido sentia por ela. Devolvendo-a de vez para o seu marido. Sobre a Penélope, em papéis dramáticos, ela se sai muito bem. Mas naqueles que deveria mexer com a libido… ainda não. Eu cheguei a falar sobre isso em ‘Fatal‘.

Eight – Enfim, Guido teria em seus filmes uma atriz que ele adorava: Claudia Jenssen (Nicole Kidman). Uma Celebridade ciente do seu fascínio. Mas se chegou onde chegou, foi por amar a profissão, e pelo seu profissionalismo. Tal qual o Guido. Claudia, primeiro ironiza os seus testes, depois decide ir embora. Dizendo que só voltará quando lhe entregarem o Roteiro do filme. Guido consegue que ela o deixe levá-la ao seu hotel. No caminho, param para conversar. Trocam confidências… Não é uma relação de ‘criador e criatura’. Até pela sua presença em cena – um talento nato -, ela tem sido uma fonte de inspiração para ele. Aproveitando o momento íntimo, Claudia aproveita para fazer um balanço dessa dependência… resolve então pensar por ele. Já que também o ama. Claudia descobre assim, que nunca teria dele um amor pela sua pessoa. Que Guido é 100% um Cineasta. É hora dela sair de cena… O faz com muita elegância…

Todos os musicais são lindos! Mas para mim, dois estão no topo. E um é com a personagem de Nicole Kidman. Um que estão perto de uma fonte… É! Fontes em cenários na Itália é algo bem comum, mas que estando tão bem incorporados, são sempre românticos. Agora, com uma cena entre uma louraça e um homem + filme de Fellini + fonte… não dá para não pensar nessa outra cena aqui:Nine – O princípio, meio e… desfecho desse bloqueio. Princípio, porque sua esposa, Luisa (Marion Cotillard) foi atriz de um dos seus fracassos de bilheteria. Ela então abandona a sua carreira. Passando a ser a esposa que fecha os olhos para as escapadas de Guido. Embora ele diga que a sua opinião conta muito nas escolhas do Elenco, Figurino… Luisa descobre o que a Claudia também descobriu… Mas à ela, sendo a esposa, doeu mais. Mesmo sendo uma grande romântica, a isso ela não perdoa. Saindo da vida de Guido. Indo atrás da sua própria identidade. Até para mostrar que também sabe ser provocante.
Com ela, tem o segundo clip que eu amei! Um segundo que ela faz, a mim, mostrou-se muito mais sedutora do que o que a Penélope Cruz fez. Marion Cotillard deu um show! Bravo!

Guido abandona tudo. Após se despedir de toda a equipe, cai no mundo. Voltando alguns anos depois… E numa conversa com Lilly, enfim vence o bloqueio. Achando o tema certo para um novo filme… Então… é: Luz! Câmera! …AÇÃO! Agora, se foi por conta do ego ferido, ou não… Como todo excelente filme, deixa que o público dê asas a sua imaginação.

Nem preciso mencionar que a Trilha Sonora de ‘NINE’ veio a somar nesse excelente filme. Aqui, no site oficial, tem como ouvir as músicas na íntegra. Entrou para a minha lista de que vale a pena rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Nine. 2009. EUA / Itália. Direção: Rob Marshall. Elenco: Daniel Day-Lewis (Guido Contini), Marion Cotillard (Luisa Contini), Penélope Cruz (Carla Albanese), Judi Dench (Lilliane La Fleur), Kate Hudson (Stephanie Necrophuros), Stacy “Fergie” Ferguson (Saraghina), Nicole Kidman (Claudia Jenssen), Sophia Loren (Mamma). Gênero: Drama, Musical Romance. Roteiro: Michael Tolkin  e Anthony Minghella. (*)Baseado no livro de Arthur Kopit, de 1982. Que foi derivada de um jogo italiano de Mario Fratti inspirado pelo filme autobiográfico de Federico Fellini 8 ½.

(*¹) – Eu fui assistir num dos Cinemas UCI, no UCI New York City Center. Se por mais um lado, estão de parabéns, por terem colocado o espaço para o cadeirante no meio. Por outro, quem projetou não visualizou que colocaram o telão muito baixo. Os recostos das poltronas da fileira a seguir, tampam a legenda que está na segunda linha. E as cabeças dos que sentam ali, tampam a primeira linha da legenda. É algo simples de resolverem: só subirem com a tela. Ai sim sim, seria um Cinema Nota 10.

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