Trem Noturno para Lisboa (Night Train to Lisbon. 2013)

trem-noturno-para-lisboa_2013trem-noturno-para-lisboa_2013_04Pensamento e ação unos. Assim eram os antigos romanos…

Sou apenas uma admiradora do legado de Jung. Com isso, é muito mais uma visão leiga do pensamento junguiano. Digo isso porque creio que esse filme é um belo exemplo de um de seus estudos. Já que ele traz uma sucessão de eventos cujo final trouxera significado para alguém. Eventos esses que de repente levou um certo professor a sair de sua rotina… Que levaria o nome de sincronicidade. Parece até que o primeiro sinal viera com a caixa de chá vazia. Um simples esquecimento bem casual a muitos, fez com que ele buscasse por uma solução bem fora do comum. O alerta mesmo que diminuto, já deixara o cérebro processando…

trem-noturno-para-lisboa_2013_01O verdadeiro cenógrafo da vida é o acaso, um cenógrafo repleto de crueldade, de compaixão, de fascinante encanto“.

Mas teria sido o acaso que levou aquele professor a passar naquela ponte justo a tempo de salvar aquela jovem de tentar se jogar lá do alto? Mais! Teria sido levado apenas por um impulso que o levou a fazer tudo mais a partir desse episódio? Fora de fato um sinal do destino? Essas são só algumas das reflexões que deixa desde o início e até mesmo pela conclusão de “Trem Noturno para Lisboa“.

As horas decisivas da vida, quando a direção dela muda para sempre, nem sempre são marcados por dramatismos ruidosos. Aliás, os momentos dramáticos das experiências que a alteram são frequentemente muitíssimo discretos. Quando exibem os seus efeitos revolucionários e se certificam que a vida é mostrada a uma nova luz, e fazem silenciosamente. E é nesse maravilhoso silêncio que está sua especial nobreza“.

trem-noturno-para-lisboa_2013_06Uma chuva… um pequeno atraso… eis que avista a jovem já de pé na amurada… corre… a pasta se abre espalhando os trabalhos de seus alunos… o guarda-chuva sai voando até o rio… mas ele então consegue salvá-la a tempo! A jovem em choque, talvez nem acreditando que tomara tal decisão, encontra nele um amparo imediato. Uma segurança para que pudesse concatenar seus próprios pensamentos. Daí segue-o até a sala de aula. Lá, até causa espanto aos alunos vê-lo com a jovem. Tentando não perder o foco, ele dá início a aula.

Deixamos algo de nós para trás ao deixar um lugar. Permanecemos lá, apesar de termos partido. E há coisas em nós que só reencontraremos ao voltar. Viajamos ao nosso encontro quando vamos a um lugar onde vivemos parte de nossa vida por mais breve que tenha sido.”

trem-noturno-para-lisboa_2013_03Passado um tempo, talvez já refeita do susto, ou nem tanto assim já que ao ir embora, a jovem esquece o casaco. Ele ainda tenta alcançá-la, mas ela se foi. Então, vasculhando os bolsos do mesmo, encontra um livro com o carimbo de uma livraria conhecida. Segue para lá, deixando seus alunos sozinhos. Causando espanto até no Diretor do Colégio… Bem, se aquele dia já o fizera sair de sua rotina… Era então seguir pela noite adentro. Que foi o que fez! Pois encontrando uma passagem de trem para Lisboa, e na tentativa de encontrar a tal jovem na estação… ela não estando lá… ele então embarca… E de Berna, Suíça, até Lisboa ele aproveita para ler o tal livro, cujo titulo era “Um Ourives das Palavras“. Apontamentos num diário de um jovem médico em constante ebulição com tudo que o cercava.

trem-noturno-para-lisboa_2013_07Quando a ditadura é um fato, a revolução é um dever“.

Para alguém já acostumado a dormir pouco, passar uma noite lendo seria tranquilo. Talvez até pegasse o trem de volta… Mas a história do livro lhe tocou tão profundamente que resolveu ficar em Lisboa e tentar conhecer os personagens daquele livro de memórias. Pelo menos parte deles que pelo contexto vivenciaram uma parte importante da história daquele país e culminando com a Revolução dos Cravos…

Se descer sobre nós a certeza de que essa plenitude nunca será concretizada, subitamente deixamos de saber viver o tempo que já não pode fazer parte da nossa vida“.

trem-noturno-para-lisboa_2013_02

Embarquemos junto com Jeremy Irons nessa comovente viagem com o seu Professor Raimund Gregorius. Que quase vira um menino levado até pela curiosidade, mas muito mais com o coração aberto que acaba descobrindo também mais de si próprio. Nem precisa dizer que ele está esplêndido! Aliás, o filme também conta com um time de primeira: Mélanie Laurent, Bruno Ganz, Lena Olin, Christopher Lee, Charlotte Rampling… Mesmo tendo como pano de fundo uma História real de Portugal – Ditadura de Salazar -, o Diretor Bille August deixa tudo fluir com um timing preciso entre passado e presente. Como nos versos do tal livro. Deixando até a vontade de ler o livro de Pascal Mercier o qual o filme foi inspirado. Filme para ver e rever! Cujo único senão foi que também deveria ter falas em português. Mesmo assim… Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Trem Noturno para Lisboa (Night Train to Lisbon. 2013).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Anúncios

A Mulher Canhota (Die Linkshändige Frau. 1978)

a-mulher-canhota_1978Por Kauan Amora.
É verdade que nossa sociedade vive em uma ditadura da felicidade, onde todos aparentemente são felizes e sabem exatamente o que isso significa, o que nos qualifica ensinar ao próximo o que é ser feliz, e empurrar goela abaixo todos os nossos parâmetros e regras que ninguém pode deixar de seguir.

A Mulher Canhota nos apresenta uma Alemanha pós-guerra, triste, gélida, desconsoladora e que nos convida ao afastamento humano aliás, me arrisco a dizer que o lugar funciona como personagem coadjuvante da história, já que esta sempre se apresenta como um local desconfortável, suas ruas têm sempre pouquíssimas pessoas e sua paisagem para ser estar em um constante estado de depressão, traduzindo o estado de espírito de sua personagem principal, como por exemplo, um bosque que se apresenta com suas árvores cortadas, logo depois da fatídica decisão.

O filme é baseado no livro de Peter Handke, e conta a história de Marianne, mulher inteligente e de meia idade, que por um motivo desconhecido resolve mandar o marido sair de casa e resolve viver sozinha com seu filho ainda pequeno, abrindo mão da família, do conforto financeiro para viver uma vida sozinha e por vezes solitária.

O fato é que nunca descobrimos por parte de Marianne porque esta se separou do marido, já que este se revela um homem ideal, trabalhador, fiel e preocupado com a família. Ela toma a decisão e sequer se dá o trabalho de justificá-la. O diretor Peter Handke, parece sempre nos instigar a descobrir o motivo, mas sem nunca dar pistas ou conclusões suficientes para que possamos fazê-lo, o que só aumenta mais o interesse Parece que Marianne resolveu se desafiar e desafiar as pessoas próximas de que é capaz de levar uma vida sozinha, mas não solitária, embora todos ao seu redor achem um absurdo sua decisão e tentem a todo o momento convencê-la de voltar atrás, e esta se mostra irredutível.

Marianne lança a mão de uma vida segura, confortável e aparentemente feliz para viver sozinha em uma casa imensa, perambulando nas ruas de sua cidade, vivenciando a sua vida consigo mesma.

Hoje, tomar uma decisão como essa parece loucura, já que vivemos em uma sociedade normativa que estabeleceu regras que servem como manuais de como sermos felizes, especialmente para as mulheres, que desde cedo são educadas para serem boas esposas, donas de casa e mães. Aqueles que abdicarem dessa ideia são loucos e não têm a menor chance de serem felizes.

O roteiro parece ser criado ao acaso, onde depois da decisão de sua protagonista nada mais acontece, não possui ação dramática, é como se estivéssemos testemunhando uma vida acontecendo livremente sob os nossos olhos, Marianne vai sendo levada pelo espaço e pelo tempo, imóvel e desinteressada de mudar de vida.

No final das contas, A Mulher Canhota aparentemente conta a história de uma mulher que resolveu se questionar esses valores rígidos e não foi em busca da felicidade, mas atrás de si mesma, seguindo um caminho completamente diferente das outras (daí o nome A Mulher Canhota). Ao longo da projeção acompanhamos Marianne vivendo momentos de extrema alegria, como passear com seu filho ou mesmo com seu pai, e momentos de extrema solidão, ao chorar sozinha durante a noite olhando a paisagem lá fora. O que prova que tanto as pessoas casadas, com famílias perfeitas e construídas quanto as pessoas sozinhas, que vivem por si mesmas, tem seus momentos de alegria e tristeza e que esses valores são apenas reflexos de uma sociedade fria, autoritária e que não se reconhece, nem a si mesma e nem o seu lugar no mundo. Marianne é um anti-heroína.

O Leitor, A Dama do Cachorrinho e Tchekhov

Três histórias de paixão: paixão por Anton Tcheckov, paixão pelo filme O LEITOR e pelo filme OLHOS NEGROS ou  A DAMA DO CACHORRINHO, um dos mais célebres do já citado escritor russo.

A Dama do Cachorrinho é um dos contos mais populares da literatura russa. Tão popular que recentemente se teve a oportunidade de ouvir a história sendo contada pelo protagonista Michael no filme O LEITOR lançado em 2008, e anteriormente também nas telonas sob o título OLHOS NEGROS, em 1987 pelas mãos do cineasta Nikita Mikhalkov. Evidentemente que em 118 minutos de duração, perde-se muito, já que se tem o hábito de comparar alhos com bugalhos, não se pode esquecer que a obra literária e a cinematográfica são linguagens distintas, ficando mais ou menos assim a sinopse do dirigido pelo russo:

A bordo de um navio no final do século XIX, italiano de meia idade conta sua história de amor a um russo. Ao visitar um spa, o homem, ainda casado, conhece uma mulher russa por quem se apaixona. Ela é infeliz no casamento e os dois transam. Ao voltar para casa, o homem está resolvido a deixar a esposa e se casar com a russa.
—-*—–
Essa história fala sobre desencontros e encontros da vida; casamento, sentimentos falidos, amor, traição, adultério, vergonha, culpa…

Viajando um pouco mais pela obra literária, transcrevo aqui o resumo do conto.

Dmítri Dmítrich Gurov, casado e com três filhos, entediado com a vida matrimonial, há algum tempo passara a trair sua esposa. Mantinha aventuras passageiras com suas amantes e, amargurado com suas fúteis experiências amorosas, passa a referir-se às mulheres com desprezo.

Dmítri morava em Moscou e estava em Ialta, já há duas semanas, para descansar. Lá comentavam sobre uma dama que aparecera à beiramar e andava em companhia de um cachorrinho, como não sabiam seu nome a chamavam simplesmente: A dama do cachorrinho. Interessado, Dimitri a vê em diversos lugares passeando com seu cãozinho, até que, certa noite, ambos jantam no mesmo local e ele tenta aproximação, atraindo o cachorrinho.

Ana Sierguéievna, a dama do cachorrinho, era natural de S. Petersburgo e morava na cidade de S. com seu marido. Também se sentia infeliz no casamento e como estava sozinha em Ialta, conversa com o estranho para diminuir sua solidão. Os dois passaram a se encontrar todos os dias e Dmítri sente-se muito atraído por aquela mulher, até que o marido manda uma carta a Ana pedindo que ela retorne, pois ele está doente. Eles se despedem com a promessa de não mais se verem.

Dmítri retorna a Moscou e não consegue esquecer Ana. Mudado já não trata as mulheres com arrogância e percebe que está apaixonado. Resolve então ir para a Cidade de S. para reencontrar Ana. Descobre onde ela mora, mas não a procura esperando um encontro casual. Vai à estreia de uma peça teatral e encontra Ana que, perturbada com a presença do amante, revela que também não o esquecera, mas pede que ele vá embora, temendo o flagrante do marido.

Ana promete ir a Moscou e cumpre com a palavra. Passa a viajar periodicamente para encontrar o amante. Amam-se com sentimento de culpa, mas se perdoam ao perceber que aquele amor os transformara. Juntos conversam sobre o desconforto do amor às escondidas, pensam começar uma vida nova, mas não sabem como recomeçar. Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.
—-*—–
E por último, a sinopse do filme O Leitor

Nos anos de 1950, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o jovem Michael Berg adoece e passa a ser cuidado por uma bela e estranha mulher, Hanna, que tem o dobro de sua idade. Michael logo se recupera, mas Hanna foi embora. Ao encontrá-la, os dois têm um breve, mas intenso romance. Uma paixão cada vez maior, temperada com as leituras de obras clássicas que Hanna sempre pede para que o amado leia. Apesar disso, Hanna misteriosamente desaparece outra vez. Passados oito anos, Michael é agora um aluno de Direito que acompanha julgamentos de crimes de guerra cometidos pelos nazistas. É nesse momento que Hanna reaparece na vida do rapaz. Mas para a surpresa dele, a mulher está no banco dos réus do Tribunal. Enquanto o passado de Hanna é revelado, Michael descobre um segredo que poderá impactar na vida de ambos.
—-*—–

O filme O Leitor é uma história bastante fiel ao livro e acaba abordando os mesmos sentimentos como em Olhos Negros: culpa, amor, vergonha, remorso pelo que não foi feito no momento oportuno. Define-se em uma única palavra: Romance. Uma singela história de amor.

A ficção e a realidade nas obras de Tchekhov (con)fundem-se de tal maneira que nos faz devanear tanto quanto o tocante filme O LEITOR, e este, por sua vez em inúmeras nuances de muitas outras histórias sensacionais brindando o expectador duas vezes pelo menos: 1º a obra cinematográfica, e 2º conhecendo histórias da literatura universal. Considerei super válido o diretor Stephen Daldry de uma sensibilidade  ter traduzido o romance do escritor alemão Bernard Schlink em outra linguagem artística, transformando-nos em protagonistas de sua obra, ou melhor, nos colocando na posição de Hanna –  a ouvinte – que se apaixona pelo adolescente Michael na Alemanha após a 2ª Guerra Mundial e ambos começam uma aventura que marcará a vida do rapaz para sempre. Ela tem o dobro da idade dele o que não impede que daí nasça um sentimento de amor e desejo carnal. Há muitas outras diferenças entre o casal.  Em cada encontro, antes do sexo, ela pede que ele leia algo para ela, o que ele faz com prazer, lendo os clássicos da literatura: A Odisséia, Guerra e Paz etc, até chegar em A Dama do Cachorrinho. Ele é O LEITOR e nós somos OS OUVINTES, contracenando com a obra. Relembrei a história com saudosismo. Hanna as ouve com muita   atenção e só mais adiante que se entende o seu drama. É analfabeta. Sente vergonha dessa sua condição e em momento algum revela esse seu “segredo” ao amado.

Culpa dela e vergonha dele. Muito tempo depois quando já não estão juntos é que ele acaba descobrindo isso, por mero acaso esse segredo dela. Ela é julgada e condenada por crimes de guerra, e ele poderia salvá-la da condenação mas por vergonha decide se calar.

Culpa e vergonha são os ingredientes principais na tocante obra O LEITOR. Um filme riquíssimo em significados e interpretações que  levam a questionamentos perturbadores. É sem dúvida uma obra-prima.

A 4a paixão é que sou uma ótima ouvinte. Gosto que me contem histórias interessantes. É uma viagem indescritível. Explicar é impossível. Guardo boas recordações dos tempos de ouvinte. Acho que não tive infância…

Assista ao filme, leia o livro, não deixe de prestigiar. Aproveite para ver também MOSCOU de Eduardo Coutinho e conhecerá um pouco mais de Tcheckov. Deleitem-se! Afinal faz um  bem danado para a alma.

Karenina Rostov

Asas do Desejo (Der Himmel Über Berlin, 1987)

Asas em sonhoNormalmente, os humanos sonham com a vida eterna, uma vida sem sofrimento ou dor, uma vida contemplativa na qual não sejamos vítimas nem do tempo, nem das circunstâncias.

Mas não Damiel.

Claro, ele não é humano! Evidente que ele deseja algo diferente dos humanos. Ou não?

Damiel é um anjo que observa a vida desde seu surgimento. Junto a seu amigo,  Cassiel, troca impressões sobre vidas alheias, mais ou menos felizes, mas vidas reais, histórias que se desenrolam com começo, meio e fim. Histórias cheias de sensações. Cores. Tempo limitado, sim, mas tempo sentido, vivido, real. Em sua existência contemplativa e sem grandes interferências, Damiel sente uma espécie de dor, uma espécie de impulso vital. Ele quer ser humano.

Este é o enredo de Himmel über Berlin, título original em alemão: O Céu sobre Berlim. Por se tratar de uma co-produção francesa, temos um segundo título, adotado em inglês e português, Asas do Desejo.

Segundo o diretor, Wim Wenders, o roteiro foi sendo escrito durante as filmagens, aos poucos. Mas a intenção era clara. Wenders queria se reencontrar com sua pátria. Andou pelas ruas da cidade, coletando impressões e notando que havia muitas e muitas estátuas de anjos pela cidade. A principal delas, a Siegessäule (coluna da vitória), também conhecida – mas só pelos Berlinenses, como Goldne Else (Elza dourada), aparece quase como personagem, apoiando Damiel e, principalmente, Cassiel.

Ao mesmo tempo que queria se reencontrar com a cidade, Wenders queria recuperar sua intimidade com o idioma, depois de uma temporada intensa nos EUA. Leu Rilke, um dos poetas mais talentosos para falar da existência. E, que coincidência (!), os textos eram repletos de figuras angelicais. Definida a perspectiva, Wenders contou ainda com mais uma inspiração literária: Peter Handke. São dele os poemas que, declamados por Bruno Ganz (Damiel) ao longo do filme, dão a ele o caráter pelo qual ficou conhecido: filme-poema.

Als das Kind...(…)

Quando a criança era criança,
não sabia que era criança,
tudo estava na alma,
e todas as almas eram uma.

(…)

Quando a criança era criança,
era o tempo das seguintes perguntas:
Por que eu sou eu e não você?
Por que estou aqui e não lá?
Quando começou o tempo e onde acaba o espaço?
A vida sob o sol é apenas um sonho?
Aquilo que eu vejo e cheiro é
apenas uma imagem do mundo frente ao mundo?
Há de fato o mal, e pessoas,
que realmente são as más?
Como pode ser, que eu, que sou,
antes de ter me tornado, não era,
e que eu, uma vez, que sou,
não mais serei quem sou?

(…)

Numa participação muito mais do que simpática, Peter Falk faz o papel de um anjo que já deu o passo para a mortalidade. Adorável. Solveig Dommartin, na época namorada de Wenders, faz Marion, a trapezista melancólica que é a última motivação que Damiel precisava para dar seu passo além dos muros do mundo cinzento da eternidade (por conta de que muitos interpretam o filme de forma política…).

Mas eis o que Damiel realmente quer:

É maravilhoso viver só em espírito e dia após dia pela eternidade … (acompanhando) das pessoas puramente o que lhes for espiritual – mas, às vezes, minha eterna existência etérea é demais. Então quero deixar de flutuar eternamente adiante, quero sentir um peso em mim que suspenda minha falta de fronteiras e me fixe à terra.

(…)

Não que eu queira sair concebendo um filho ou plantando uma árvore, mas seria interessante, ao chegar em casa, alimentar o gato.

(…)

Ou, finalmente, sentir como é tirar os sapatos sob a mesa e esticar os dedos dos pés, descalço, assim. (Simplesmente AMO este trecho!)

(…)

Afinal, estive tempo demais do lado de fora, tempo suficiente ausente, o suficiente fora do mundo! Para dentro da história do mundo!

É assim que Damiel me lembra, por muitas vezes, que a humanidade tem uma beleza peculiar. As sensações valem a pena. Por isso, ele declara ao final:

Sei, agora, o que nenhum anjo sabe...

Agora, eu sei o que nenhum anjo sabe“…

O LEITOR (The Reader)

the_reader

Stephen Daldry é um diretor seletivo. Com apenas três filmes na sua filmografia, mas com três indicações ao Oscar, nos deu de presente um dos melhores filmes da década, o íntimo As Horas, o elogiado e premiado Billy Elliot, e depois de alguns anos de férias, ele volta com o polêmico O Leitor, que recebeu 5 indicações ao Oscar.

A sociedade acredita que é guiada pela moralidade mas isto não é verdade. O premiado diretor de As Horas, Stephen Daldry, mostra novamente toda sua força nesta história de medos e segredos escondidos pelo tempo. Hanna (Kate Winslet) foi uma mulher solitária durante grande parte da vida. Quando se envolve amorosamente com o adolescente Michael (Ralph Finnes) não imagina que um caso de verão irá marcar suas vidas para sempre. Livro com sucesso mundial de vendas, O Leitor é a uma história que nos levará a questionar todas as nossas mais profundas verdades.

O Projeto tão polêmico de Daldry possui níveis já conhecidos para quem acompanha os filmes desse diretor, o filme possui linhas mais voltadas ao íntimo dos seus personagens, está tudo subentendido, muitas nuances, como é característica do diretor, o que pode afetar um pouco o cinéfilo que não conhece suas obras e não entende seu trabalho e achar um filme “difícil”, mas na verdade O Leitor é um filme para ser assistido com vontade e disposição, para entender seus detalhes.

O Roteiro de David Hare, o mesmo roteirista de As Horas, expõe aqui seu talento com sutilezas, compõe um roteiro com uma visão diferente sobre os fatos do Holocausto, menos convencional e sem nunca deixar cair no melodramático, aliás cenas dramáticas em O Leitor faltam.

E como não podia faltar em um filme de Daldry, o seu elenco, que sempre é um ponto positivo a se somar, o trio formado por Fiennes, Winslet e Kross é magnífico. Winslet expõe uma tridimensionalidade maravilhosa de Hanna, é competente ao retratar a acusada como uma mulher forte, orgulhosa e trabalhadora, porém humana e ferida pela vida, com uma racionalidade incrível, a mesma mulher que é capaz de mandar à morte outras mulheres é capaz de chorar ao ver crianças cantando em uma igreja, é um trabalho emocional e interno maravilhoso de uma atriz que só cresce, com uma personagem acima de tudo ambígua. Ralph Fiennes, como sempre brilhante, expondo todo o amor, dúvida e certa raiva que ele sentia pela mulher que o abandonou. David Kross brilha na pele do Michael Berg mais jovem, capaz de expor todo o charme e inocência do seu personagem, acompanha dignamente todas as fases do seu personagem, amadurecendo-o, crescendo-o, vivendo-o. Mas, a grande surpresa de The Reader, se localiza na performance forte de terminada de Lena Olin, atriz que andava sumida, e que voltou com tudo, numa performance maravilhosa, que expõe sua Sra. Mather com a força e frieza que a dor lhe causou, e que personagem precisava.

O fato é que O Leitor, é mais um filme digno e competente de um diretor que cumpre o que promete a cada novo trabalho. Merecedor de cada indicação ao prêmio Oscar que recebeu e merecedor de elogios.

O Leitor é mais um filme sobre as verdades que mantemos escondidas e sobre os momentos em que o passado insiste em voltar para nos assombrar, e o medo que temos dele.

NOTA: 8,0

Por: Kauan Botwin.  Blog:  Sobre Cinema e Lobos.

O LEITOR (The Reader). 2008. EUA. Direção: Stephen Daldry. Elenco: Ralph Fiennes (Michael Berg), David Kross (Michael Berg), Kate Winslet (Hanna Schmitz), Bruno Ganz (Professor Rohl), Lena Olin (Rose Mather / Ilana Mather), Alexandra Maria Lara (Ilana Mather), Jeanette Hain (Brigitte), Hannah Herzsprung (Julia). Gênero: Drama, Romance. Duração: 124 minutos. Baseado no romance – Der Vorleser-, de Bernhard Schlink.

A Queda – As Últimas Horas De Hitler (Der Untergang. 2004)

O filme nos é contado por Traudl Junge (Alexandra Maria Lara). Ela era a secretária particular de Adolfo Hitler (Bruno Ganz). E narra os últimos dias desse ditador confinado num banker de segurança máxima.

Durante o filme fiquei me perguntando porque tantos seguiram um louco como ele. Dá para ver a personalidade desequilibrada do Hitler. Com um baita desvio de caráter. Claro que ele não foi o único monstro nessa história. Aqueles que fecharam as portas aos judeus, também o foram. E infelizmente, o ideal nazista, ainda se encontra e em vários países. Ele ainda tem fãs. Mas deixo uma ressalva aos mais jovens que apurem todos os fatos antes de embarcarem no pensamento nazista. Até porque o Holocausto figura sim nas páginas lamentáveis da História Real da Humanidade.

De tão absurdas que eram as suas leis que em uma das passagem chega a ser engraçada. É a cena do casamento dele com Eva Braun (Juliane Köhler). Com o juiz de paz perguntando a ele se era ariano. E um Oficial presente tentando dizer ao Juiz que ele estava diante do próprio Hitler, que para o ditador mor não há leis que o atinja.

Por outro lado um dos talentos de Hitler também é focado: sua excelente memória. Algo que também foi mencionado no filme “A Vida Secreta das Palavras“. Mostrando o quanto Hitler premeditou o extermínio aos judeus. E mais! Que muitos com o passar do tempo esqueceriam essa atrocidade.

Eu até gostaria de rever o filme para uma análise mais detalhada inclusive com as passagens dos seus oficiais. Mas confesso que no momento eu não tenho vontade de rever. É uma história real que enoja. Sendo assim peço que relevem esse texto que tirei da minha memória.

Eu não sei se a Traudl real quis ao contar essa história limpar um pouco a sua própria passagem. Mesmo sendo secretária particular onde há o peso da discrição… Creio que o querer saber o que se passava também conta. Mesmo sendo quem foi o seu chefe… o “o não ter visto” soa um tanto falso… De algum modo os reais fatos passavam por ela… Mas talvez tenha sido isso o fato dela ter ficado o tempo que ficou como secretária do Hitler. Mesmo assim… Uma lágrima teimou em cair, ao ouvir essa frase: “Que a juventude não é desculpa.” Assistindo, entenderão o porque!

É um filme que nos deixa sobre impacto! Sobre vários aspectos. E ele com certeza irá mexer com quem assistir. Quer seja por nos mostrar uma parte da História. Quer seja pelas interpretações! O ator que faz o Hitler, Bruno Ganz, merece muitos aplausos!

Por: Valéria Miguez (LELLA)

A Queda – As Últimas Horas de Hitler (Der Untergang). Alemanha. 2004. Direção: Oliver Hirschbiegel. Elenco: Bruno Ganz, Alexandra Maria Lara, Juliane Köhler. Gênero: Drama, Histórico, Guerra. Duração:156 minutos.