Cartas do Deserto (Letters From the Desert / Eulogy to Slowness. 2010)

Cartas do Deserto é um dos filmes que ‘garimpei’ no Festival do Rio 2010. Achei o roteiro original e é essa particularidade que sempre me chama a atenção. Os protagonistas dessa charmosa história são as cartas. Os espaços geográficos são o deserto Thar, no norte da Índia, alguns vilarejos e um casebre usado como ponto dos correios; o tempo cronológico marcado pelo relógio quebrou-se; o título original é Elogio à Lentidão, e neste caso, procede.

Cartas do Deserto conta a história de um agente dos correios que recebe e separa toda a correspondência da cidade, e o seu único amigo e colega de trabalho, é o carteiro Hari que faz a distribuição diária, atravessando dia após dia o deserto para essa missão que cumpre com paciência, amor e eficácia, batendo de porta em porta, conversando com os moradores, alguns já aguardando a correspondência cativa que tem data e hora para receber o aviso de pagamento, por exemplo, enfim, caminha longas distâncias, com seus sapatos rotos, o calor miserável batendo em suas costas, às vezes em sua bicicleta naquele canto do mundo, que a terra esqueceu.

Foram 20 longos anos nessa tarefa árdua e incansável que ele sempre tirou de letra, até que um belo dia, um grupo de trabalhadores ergue no meio do deserto a primeira torre de telefonia móvel, e Hari começa a perceber que o mundo ao seu redor começa a mudar. As correspondências começam a escassear, as encomendas diminuem e muita gente adquire novos hábitos, andando de um lado para o outro com um pequeno aparelho grudado ao ouvido falando/ ouvindo constantemente como se o objeto fosse uma extensão do seu corpo.

O primeiro sinal de modernidade chegou com um pouco de atraso na terra que o mundo esqueceu… mas chegou… Até que um dia Hari recebe pelos correios onde ele próprio trabalha um aparelho celular, presente de seu filho mais velho que foi para uma cidade grande para trabalhar. Começa assim a mudança de seus hábitos, passando agora a se comunicar com mais freqüência e mais fácil e rapidamente com o seu  filho por esse meio de comunicação que para todos da aldeia é a novidade do momento.

O tempo não para. As cartas que falavam de amor, vinham perfumadas, o papel que se usou, o pensamento, a organização de idéias, o assunto para escrevê-la, as lembranças, a ida ao correio para postá-la, a caneta, o papel, o selo, o carimbo, o atendente que te recebeu e pegou essa sua correspondência, o dinheiro e o tempo gasto para todo o trabalho que envolve esse meio de comunicação ficaram, assim, para trás, de repente…

Hari amava sua profissão. Às vezes lia pacientemente para o destinatário a carta do remetente. O carteiro comportava-se como um membro de cada família que visitava. E o tempo era o seu aliado, o seu melhor amigo. O tempo que aos poucos começa a cair no esquecimento para ser substituído pelo vento.

Tão importante quanto o ar que respiramos, o tempo não se deve desperdiçá-lo jamais: é pecado e a vida é muito breve para isso, valioso para se deixar esvair. Às vezes é bom se jogar conversa fora, contemplar a natureza, edificar a alma, fazendo o que se gosta sem se preocupar com o tempo. Sinto saudade desse tempo de romantismo das cartas via correios que não volta mais…

Um filme obrigatório para todo cinéfilo que se preze!

E por falar em cartas, correios, tempo etc, aqui no Brasil temos o dia do carteiro que se comemora no dia 25 /01 …
K.R.

Sinopse

Hari passou os últimos 20 anos de sua vida cruzando o deserto Thar, no norte da Índia, para entregar cartas em vilarejos distantes. Certo dia, seu filho mais velho, que vive na cidade grande, lhe envia um estranho presente: um aparelho celular. Incapaz de compreender a utilidade daquele apetrecho, ou o porquê de se estarem construindo tantas torres nas redondezas, Hari aos poucos começa a perceber o mundo mudar à sua volta. As encomendas diminuem e todos começam a telefonar uns aos outros. Ele decide então tentar usar seu aparelho pela primeira vez, para ouvir a voz de seu filho.

Ficha técnica

Título inglês: Letters from the Desert (eulogy to slowness)
Diretor: Michela Occhipinti
Elenco: Hari Ram Sharma, Chatur Singh
Ano de Produção: 2010
País: Itália / Índia
Duração: 88

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O Carteiro e o Poeta (Il Postino. 1996)

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Quando se explica a poesia, ela fica banal.” (Neruda)

Ao rever o “O Carteiro e o Poeta” devo confessar que a emoção foi maior. Talvez porque dessa vez eu sorvi o filme lentamente, como um bom vinho. Para quem não conhece, um pouco da história:

Mário Ruppolo vive à beira-mar com o pai, um pescador como a maioria dos homens da localidade. Acontece que Mário não quer ser mais um deles. Até porque tem alergia. Para fugir um pouco da pregação do pai, divide seu tempo entre longos passeios, e quando pode, vai ao cinema.

Ao ver uma vaga nos Correios vê a chance de unir seu gosto pelos passeios com sua bicicleta a um trabalho longe das pescarias. Aliado a isso, o prazer em ter um contato maior com Pablo Neruda, que se encontra em exílio político na Itália.

Aos poucos as barreiras entre esses dois homens vão se quebrando. Surgindo uma amizade. Mário em sua simplicidade ganha o carinho de Neruda. Que o ajuda a vencer a timidez para se aproximar de sua amada Beatrice.

Com o término do exílio, Neruda vai embora. Mário por sua vez já está casado. Mas não é mais o homem de outrora. Quer agora falar e muito. Então se engaja na política de oposição.

Destaco aqui uma passagem onde a sogra fica a repetir “o pássaro comeu e foi embora“. Que Neruda aproveitou-se do genro enquanto lhe foi útil. Então Mário lhe diz que se alguém fora útil ao outro, esse alguém fora Neruda a ele. Ele sim aproveitara aquela convivência. Aprendera muito de si mesmo com o poeta. Claro que para ambos, carteiro e poeta, não houve uma materialidade nessa convivência, mas sim uma troca saudável, prazeirosa e que preencheu a vida de ambos naquele período.

Por iniciativa de um, como também da boa receptividade do outro, houve carinho, respeito e apreço naquela amizade. Mesmo num curto período, fora marcante. E ele não foi apenas um cumpridor do seu dever – o de entregar carta.

Enfim, temos aqui uma linda história de amizade!

Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Carteiro e o Poeta (Il Postino / The Postman). 1996. Itália. Direção: Michael Radford. Elenco: Philippe Noiret, Massimo Troisi, Maria Grazia Cucinota. Gênero: Romance, Drama, Comédia. Duração: 108 minutos. Classificação: Livre.