O Novíssimo Testamento (2015). Voos um Tantinho Mais Profundos.

o-novissimo-testamento_2015o-novissimo-testamento_2015_00Por: Carlos Henry.
Deus (Benoît Poelvoorde) existe, vive num universo paralelo em Bruxelas, é casado com uma idiota que ele detesta (Yolande Moreau), bem como os filhos JC (David Murgia) – que não vive na mesma casa -, e a filha adolescente problemática Ea (Pili Groyne). A garota não concorda com as atitudes do pai, enfiado o dia inteiro num salão onde num computador se ocupa em criar leis para azucrinar a humanidade, e após uma das brigas, se vinga liberando uma informação perigosa para toda a raça humana: A data e horário exatos de suas mortes. Em seguida, foge orientado por JC através de um código pela máquina de lavar roupa. Deus, desesperado com o controle adquirido pelas suas criações, vai atrás da filha, determinada a reescrever o testamento com a ajuda de seis novos apóstolos.

Se fosse uma produção americana, “Le tout Nouveau Testament” seria mais uma comédia amalucada provavelmente estrelada por Jim Carrey. Mas dirigido pelo belga Jaco Van Dormael, o roteiro surreal, alça voos um tantinho mais profundos, sem perder a graça. Os tons coloridos e a presença sempre bem-vinda de Catherine Deneuve (Com seu hilário parceiro gorilão) como uma das apóstolas que vão sendo aos poucos acrescentados à Santa Ceia de Da Vinci, não garantem a indicação do filme a uma determinada audiência de religiosos ferrenhos. Já os de mente aberta certamente vão aproveitar belos e engraçados momentos repleto de soluções criativas até o desfecho bacana, ainda que algo feminista demais.

O Novíssimo Testamento (Le Tout Nouveau Testament. 2015).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Bem Amadas (Les Bien-Aimés. 2011)

Se o filme de Christophe Honoré optasse por um roteiro mais enxuto, certamente teria uma recepção bem melhor de crítica e público. Também a indisfarçável alusão ao trabalho de Jacques (Pele de Asno) Demy prejudica a obra com o excesso de números musicais.

A personagem de Madeleine, vivida em sua fase final pela sempre deslumbrante Catherine Deneuve, é desvendada em cerca de quatro décadas desde 1964 passeando por momentos reais importantes como reformas políticas na Europa, o surgimento de uma doença assustadora e o ataque terrorista no início do século ajudando a tecer as estórias e dramas paralelos da estória.

Madeleine vira prostituta quase por acaso quando desfila em Paris com seus sapatos roubados da lojinha em que trabalhava e acaba atraindo clientes, dentre eles o sedutor médico tcheco Jaromil (Radivoje Bukvic e Milos Forman) que se tornaria o grande amor de sua vida e pai de sua filha Véra (Clara Couste e Chiara Mastroianni).

Se a Primavera de Praga serve como pano de fundo adequado ao conflito romântico inicial que separa o casal perfeito, o mesmo não acontece com os acontecimentos da Aids e da destruição das torres gêmeas que aparecem um tanto forçados dentro do roteiro irregular especialmente ao incluir o bissexual Henderson (Paul Schneider).

Na conclusão, o filme torna a ganhar a vitalidade inicial, quando resume com emoção que amor e liberdade podem ser incompatíveis ao desfilar as dores de Madeleine e Clément (Louis Garrel).

No entanto, Honoré perdeu a chance de dirigir uma cena antológica de uma sugerida e patética dança solitária ao som da sorumbática canção “Missing” (Everything but the girl) logo após a derrubada do WTC. Também deixou de realizar um filme memorável com a ajuda de uma fotografia mais criativa, um script decupado e centrado e principalmente uma montagem eficiente sem pena de cortar os exageros. Pecados que um elenco impecável não conseguiu salvar.

Bem Amadas (Les bien-aimés. 2011). França.
Direção e Roteiro: Christophe Honoré.
Gênero: Drama, Musical, Romance.
Duração: 139 minutos.
Elenco: Chiara Mastroianni, Catherine Deneuve, Ludivine Sagnier, Louis Garrel, Milos Forman, Paul Schneider, Radivoje Bukvic.
Classificação: 16 anos.

Potiche: Esposa Troféu (2010)

Primeiramente se faz necessário destacar a data da estória: ano 1977. Onde a mulher ainda tinha como papel principal: ser uma dona de casa. Algo realçado até nos comerciais de margarina, geladeira… Sempre bem vestida, bem penteada, bem maquiada… Sorridente. Feliz da vida. Tendo ela uma ótima situação financeira, o que lhe daria quase um séquito de serviçais domésticos, seu papel ficaria de gerenciar esse lar. E que para muitos maridos, teriam-nas como um troféu para exibirem aos demais. Onde certos locais, mesmo na moda, para esses mesmo maridos, não era adequados às damas da sociedade.

A personagem da Nicole Kidman, no filme “De Olhos Bem Fechados” (1999), jovem ainda, questiona-se por se ver como um jarro (potiche) decorativo da casa. Ressentido-se de uma falta de atenção, ou mesmo de tesão vindo do marido. Mas para Suzanne, a personagem da sempre bela Catherine Deneuve neste filme aqui, “Potiche: Esposa Troféu“, esse acordar para deixar de ser um mero adorno de casa veio quando uma modernidade bateu à porta da empresa da família: uma fábrica de guarda-chuvas.

Os empregados da fábrica clamando por direitos trabalhistas, mantém o presidente preso. Ele é Robert, personagem do sempre ótimo Fabrice Luchini. Ciente de que seu marido não irá ceder em nenhum dos itens reivindicados pelos grevistas, Suzanne vai falar diretamente com o Deputado que está por trás desse movimento. Ele é Babin, personagem de Gérard Depardieu. Abrindo um parêntese para falar da performance desse ator. Não sei se ele ficou intimidado com a Deneuve. Ou se o Diretor não conseguiu retirar dele um jeito sedutor. Numa cena, onde abraça Suzanne, em vez de paixão, o que transpareceu foi como um cumprimento entre duas comadres. Depardieu não ficou tão à vontade como esteve em “Minhas Tardes com Margueritte“, por exemplo.

Babin liberta Robert, com a promessa de Suzanne em fazer um acordo com os líderes grevistas. Para não ser ele a ceder, Robert simula um ataque de coração. Acreditando que se ausentando por doença mais a total inexperiência da Suzanne na gerência de uma indústria, ele sai em férias. Tranquuilo, até porque a secretaria, e amante, Nadège (Karin Viard), o manteria informado. Mas teria uma surpresa com Nadège, influenciada pela nova postura de Suzanne.

Para surpresa geral, Suzanne não apenas se mostra uma excelente negociadora, como ve brotar em si um ótimo tino empresarial. Alavanca as vendas. E com o filho Laurent (Jérémie Renier) introduz novos modelos, com guarda-chuva coloridos. Dando aos antigos guarda-chuvas um lugar na Moda. Mãe e Filho felizes com o rumo que deram as suas vidas. Já de Joëlle (Judith Godrèche), sua filha, que vivia a criticá-la por ser tão submissa, tão dona-de-casa, em vez de elogios, Suzanne receberá uma estocada.

Com o crescimento da fábrica, pelo tédio em ser um dono-de-casa, assim como não teria sido ele a ceder às exigências dos grevistas, Robert quer o seu posto de volta. Levando a um racha na Família. Porque Suzanne não quer mais voltar a vidinha de antes. E no ano de 1977, numa província francesa, uma dona-de-casa deixa de sê-lo conquistando um lugar onde os homens tinham supremacia. Para Suzanne, o ano veio como um divisor de água.

Gostei do filme! No geral, diria que é muito bom. Mas me levou a pensar se nas mãos de outro Diretor, teria sido bem melhor. Uma interessante e divertida estória + artistas de peso, não foram sucientes para François Ozon. O que é uma pena. Nem me deixou vontade de rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Potiche: Esposa Troféu. 2010. França. Direção: François Ozon. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 103. Classificação: 12 anos.

De Repente, Gina (Frühstück mit einer Unbekannten. 2007)

De repente, o sono foi embora, ligo a tv, e zapeando paro com a apresentação de um filme pela atriz Ângela Leal. Por ter gostado da sinopse, comecei a ver o filme. E logo depois, lá estava eu, sentada na cama, acompanhando encantada uma das Comédias Românticas mais lindas que eu assisti nos últimos tempos.

De Repente, Gina‘ nos mostra o início de uma linda história de amor entre dois adultos: ela já perto da casa dos trinta, ele já havia passado da dos cinquenta. Ambos, estavam tão envolvidos com suas ocupações profissionais, que desabituaram até de flertar. Um simples prazer em comum – uma xícara de café pela manhã -, foi o início de tudo. Onde se encontraram pela primeira vez – Laurens e Gina.

Laurens (Jan Josef Liefers) era muito tímido. Aquele lugar vago na mesa dela, fora a opção para não ficar de pé no Café. Gina (Julia Jentsch), nem tanto. Tanto que partiu dela, puxar conversa. O título da apostila que ele estava lendo, chamou-lhe a atenção.

E nesse romance, terá como pano de fundo: a pobreza que devora o mundo. Que mata crianças por minutos. Mas não estarão em uma Ong, ou numa Instituição levando alimento para os africanos. Não. Eles ficarão dentro do encontro com o G8 na Alemanha. Pois Laurens é quem faz toda a pesquisa de dados para o Ministro das Finanças, que estará na mesa de negociação com o primeiro escalão do G8. Laurens, será uma eminência parda que sem querer, dará ‘armas’ a Gina para lutar pelas crianças do mundo. Até por ela amar sua profissão: enfermeira parteira.

Ainda nesse café da manhã, quase que um gesto gerou um mal estar entre eles. Pois se para ele a jornada de trabalho estava para começar naquela manhã, para ela, um turno de doze horas terminara. Dai, o não conseguir segurar um bocejo – realmente de sono -, pareceu a ele que seria por conta do assunto de sua conversa. De que era alguém entediante. Para tentar acabar com esse pequeno incidente, marcam um encontro. Um almoço, onde poderiam se conhecerem melhor. Com um pouco mais de tempo. Menos de uma hora, por conta da agenda apertada dele.

O título original – Frühstück mit einer Unbekannten -, refere-se a esse encontro – Café da manhã com uma desconhecida. Embora o segundo encontro foi que deslanchou o continuarem juntos, o nascedouro fora realmente no encontro casual no Café. Pois se não tivesse tido interesse de um no outro, a história deles não decolaria.

Talvez, quem escolheu para título oficial o ‘De Repente, Gina‘ (Suddenly Gina), focou apenas o lado masculino nessa relação. Por ele ser tímido? Por ela ter chegado sem aviso na vida dele? Por ela ter motivado, a eles e os demais, que ainda estava em tempo de mudarem de atitude? Gina não apenas quebrou protocolos, ela deu um ‘Acorda!’ geral a todos. E ainda bem que Laurens também acordou.

Por vezes ficamos tão focados nos filmes da Telona, que os feitos diretamente para a TV, terminam relegados a sessões da tarde. Bendita insônia que me levou ao Canal Futura, e por ele ter visto ‘De Repente, Gina‘. Um filme de ver com brilhos nos olhos! E de querer rever.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

De repente, Gina (Frühstück mit einer Unbekannten). 2007. Alemanha. Direção: Maria von Heland. Roteiro: Martin Rauhaus. Elenco: Julia Jentsch (Angelina ‘Gina’ Franke), Jan Josef Liefers (Laurens Wagner), Stefan Kurt, Andrea Sawatzki, Iris Berben, Jürgen Heinrich, Simone Thomalla, Catherine Deneuve. Gênero: Comédia, Romance. Duração: 90 minutos. Produção para a TV. Remake do filme britânico ‘The Girl in the Café’, de Richard Curtis, de 2005.

A Bela da Tarde (Belle de Jour. 1967)

Uma parte de mim é permanente / Outra parte se sabe de repente / Uma parte de mim é só vertigem / Outra parte linguagem / Traduzir uma parte na outra parte…

Após tantos anos rever esse filme ficou com sabor de primeira vez. E me peguei a pensar em como motivar a turma mais jovem que ainda não assistiu e tão acostumado a outro tipo de ritmo. Pela história em si até pode ser que uma versão mais atual dariam mais velocidade. Até porque não seria mais a Séverine de Catherine Deneuve. Bela e elegante! Cujo personagem imortalizou-se na imaginação de homens, como também de mulheres de uma geração. Quem sabe de duas.

O lance maior seria que atualmente as “escapulidas” não têm mais o mesmo peso. Embora em fóruns tenho visto jovens com idéias tão retrógradas, tão preconceituosas, que veriam nisso um pecado. Não que eu concorde também, pois para mim quem tem esse tesão todo por sexo, por orgias sexuais… deveria romper com o casamento. Ir à luta. O que quero dizer é o porque dessa personagem cair no gosto popular e dos eruditos também. Creio que o mérito maior é da atriz. Irradiando charme!

Esmiuçando o filme, mas tentando não revelar tudo. Com pouco tempo de casada Séverine sentia-se mais que entediada, sentia a falta de sexo. Não tinha o menor tesão pelo marido (Jean Sorel). Embora a tratesse com carinho, ele não a satisfazia. Não tinha o gosto de algo proibido. De algo pecaminoso. Não se sabe ao certo se era fruto da sua imaginação ou não, mas por lembranças rápidas ela nos mostra que passou por abusos sexuais, pequenas carícias por um homem adulto. Seu pai? Pode ser. Se não houve de fato, pode ser para tentar dar a si própria uma justificativa para o fogo atual. Um fogo que só tomaria uma outra proporção ao saber uma história de uma conhecida do Clube de Tênis. E é pelo amigo (Michel Piccoli) do marido que conta da Casa da Madama Anais (Geniviève Page).

Séverine então passa as suas tardes transando com vários homens. Ganhando a alcunha de Belle de Jour. (Revendo o filme agora, não deu para não pensar na música do Alceu Valença.) Para ela quanto mais rudes eram mais prazer sentia. Seu humor com o marido melhorava a cada dia. Ele completava um lado seu: o de ter um marido bonito. Pois é! Temos aqui uma inversão de papéis que nesse caso ainda é algo atual: o de marido objeto em vez da mulher. O que não deixa de ter graça perante aos machistas.

Voltando ao marido. Ele nota a mudança dela. Achando que ia tudo bem no casamento lhe fala de terem filhos. Acontece que ser mãe não estava nas fantasias dela. Nem nos planos. Ocasionando novos desconfortos entre o casal.

Tudo caminhava a contento até que um jovem (Pierre Clémenti) se apaixona por ela. Tornando-se obsessivo. Para ela, ele era só mais um homem que a fazia sentir enormes prazeres na cama. Talvez por sentir que estava perdendo o companheiro de tráfico seu comparsa a segue descobrindo sua verdadeira identidade. Mas antes disso, o amigo de seu marido a flagra num dos quartos da casa da Madama Anais. O que a faz pensar em parar por um tempo. É porque desistir de fato ela não quer. O jovem vai a sua casa e faz chantagem. Ela consegue ganhar um tempo.

Louco de amor por ela o jovem resolve a seu jeito dar uma solução. Acontece que o resultado foi pior para o lado dele. Para Séverine veio como uma punição. Peso na consciência. Faltava o tiro de misericórdia. Que veio pelo tal amigo do marido. Alguém que sentia muita inveja do casal.

E no final… não, o certo seria: e o final… pois é, o final poderão alguns ficar sem entender. Para mim o amigo do marido lhe fez foi um grande favor. Tirando-lhe um peso. Dando a ela a chance de voltar a vida dupla; e sem mais barreiras. Livre, leve e solta.

Não darei nota máxima porque senti falta de música. No meu imaginário Paris também tem músicas belas e românticas. Como também quero passar um bom tempo até voltar a assistir. Para sentir o mesmo clima.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Bela da Tarde (Belle de Jour). 1967. França. Direção e Roteiro: Luis Buñuel. Elenco: Catherine Deneuve, Jean Sorel, Michel Piccoli, Geniviève Page, Pierre Clémenti. Gênero: Drama. Duração: 100 minutos. Baseado num livro de Joseph Kessel.

Dançando no Escuro (Dancer in the Darker. 2000)

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Após assistir esse filme fiquei pensando em como escreveria para motivar a outras pessoas para que o vissem também. Porque eu gostei! Daí veio uma dúvida: e para aqueles que não gostam de musical, como dizer a eles? Bem, para quem passa longe de filmes que não sejam de ação ou suspense, muito embora sempre tenha uma primeira vez, não sei se serei capaz de demovê-los dessa idéia. Sorry!

Agora, para quem apenas torça o nariz, creiam as músicas fazem parte do imaginário da protagonista. Um jeito que ela encontrou de dar um “colorido” a sua vida. Que até poderia ser como uma válvula de escape, mas que para alguém que sabe, desde criança, que seu futuro será de escuridão (ficará cega) essas fantasias ganham um outro peso. Um trechinho, para ilustrar:

Eu vi o que escolhi ver. Vi o que precisava ver… / Você já viu tudo isso. Sempre pode rever. Na telinha da sua mente

Mas não fica apenas nisso. Mesmo sabendo que um filho teria o mesmo destino, ela o trouxe ao mundo. E mais do que o amor maternal, veio junto um sentimento de culpa. E por ele, um drama maior Mais uma vez, “viver um musical” lhe veio como consolo.

Você só fez o que foi preciso“. Será? É uma pergunta que me fiz.

O porque desses escapismos nos musicais? Ela amava os musicais (filmes) americanos desde criança. Dizia que a penúltima música já a avisava que o final estaria próximo. A partir daí, resolveu sair dos filmes nesse momento. Por desejar fazer um outro final, mais alegre, mais colorido, mais claro. “Dizem que é a última canção, mas eles não nos conhecem, só será a última canção se deixarmos que seja.

E para o filho que ela tanto quis: “O tempo que leva para uma lágrima cair, é o tempo que basta para se perdoar. Perdoe-me!

É! Como diz uma de nossas canções: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é“…

Eu recomendo! Nota: 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Dançando no Escuro (Dancer in the Darker). França. 2000. Direção e Roteiro: Lars Von Trier. Com: Björk, Catherine Deneuve, David Morse, Peter Stormare, Joel Grey, Cara Seymour. Gênero: Drama, Musical. Duração: 140 minutos.