Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2011). E ficou como comida requentada!

Foi vendo um teaser deste filme que me levou a conhecer mais da Trilogia de Stieg Larsson. Enquanto aguardava por essa versão made in USA eu assisti o original sueco, e que eu AMEI. Mas quando vi o teaser da versão americana eu gostei muito; me motivou mesmo a vê-lo. Aliás, gosto mais de ver os teasers dos filmes do que os trailers; é que o primeiro vende o produto puro e simples, já um trailer o faz pensando mesmo no público alvo. Ai então veio a questão ver ou não ver esse de 2011? É que o outro, o original de 2009, ainda estava na memória. Decidir assistir. E não deveria ter feito isso! Deveria ter deixado passar mais tempo. Porque ficou mesmo um gosto de remake, e sem a emoção e a adrenalina de quando assisti o filme original.

E o que foi que aconteceu? Me perguntei ao final do filme. É um filme muito bem construído. De uma beleza ímpar. Fotografia perfeita. Som, idem. Atuações, também. Bem, não se pode dizer que o Diretor David Fincher pecou em algo. Talvez por ter aceito fazer o filme agora.

Mesmo mudando certas cenas, mesmo assim o filme perdeu o suspense para mim. Ok! Nem teria como ser de outro jeito pois eu já conhecia toda a trama. E até por isso não deveria me incomodar. Se eu até me preparei para ver um remake e de uma excelente história. Então era focar no Drama e na beleza plástica do filme. Mas David Fincher jogou todas as fichas num Thriller. Algo que pode ter agradado a muitos, principalmente os que não viram o de 2009, ou o viram há muito mais tempo que eu. Eu vi não tem nem seis meses.

Então o que ficou desse filme?

Das poucas vezes que faço comparações entre dois filmes uma seria como agora: original e versão, mas tendo um curto espaço de tempo entre eles. Em relação as atuações se for para colocar numa balança atores/personagens de 2009 versus 2011, meu voto penderá mais para atuação/elenco do original.

– Enquanto o Mikael Blomkvist de Michael Nyqvist passava a carga de um homem com uma faca no pescoço, com receio de ser preso, com uma certa raiva de si por ter caído numa cilada, o de Daniel Craig estava mais para um espião que entrou numa fria e em uma sátira. O de Blomkvist passa um ar de intelectual, alguém letrado. O de Craig ficou mais um jornalista que usa muito mais a internet como fonte de pesquisa. Nada contra esse lance pois trouxe o personagem para a atualidade. A questão é que fica um romantismo maior para um jornalista investigativo que vai às ruas, que sente o cheiro do papel, que torce por um “Parem às prensas!“, mas por ter trazido um grande furo. E esse ficou transparecido no de 2009. Craig ficou blasé demais. Na cena onde entra na casa de Martin Vanger, mas parecia que tinha ido pedir uma xícara de açúcar ao vizinho.

– Também para as duas Lisbeth Salander que mesmo com um exterior semelhantes – couro, piercing, tatoo, visual meio agressivo… -, houve diferenças nas performances. Como eu escrevi no meu texto do filme original essa personagem me fascinou. De eu querer me detalhar mais na análise dela, mas o farei após eu assistir os três filmes. Então agora um pouquinho das duas. A de Noomi Rapace fez dela uma fera ferida, mas uma menina em seu olhar. Uma Lisbeth a quem o mundo fora cruel, mas que mais que responder com igual violência era como uma armadura. A Lisbeth de Noomi traz sua história até na sua postura. Já de Rooney Mara não trouxe o passado em si. Foi como se só passou a sofrer as pancadas do mundo recentemente. Dai sua reação tinha mesmo o peso do momento.

– Até o Henrik Vanger do filme original transmitiu mais amargura. Pela família a qual fazia parte. Pela busca da dileta sobrinha. O de Christopher Plummer calcou-se mais na ironia. Talvez por conta disso, dou como empatados os dois Henrik Vanger.

– Para a tal sobrinha desaparecida, a Harriet Vanger ficou um paradoxo. É que gostei mais da história do de 2009, por ficar mais verossímil. Mas mesmo não gostando da história dada a essa personagem por David Fincher, eu gostei da personagem. Talvez por ter gostado da atriz em outro trabalho. Não coloco o nome dela aqui, porque seria um grande spoiler.

– Em relação aos dois Martin Vanger, posso dizer que houve um empate. O de Stellan Skarsgård passou mais um refinamento como algo nato. Já o de 2009, mostrava que fora algo adquirido. Ambos mostraram frieza. Mas o de 2009 mostrou-se mais perverso.

Agora, o que eu gostei mesmo foram os computadores usados. Desempenho e performance dessas máquinas. Amei o tal programa de exibição de fotografias. Como também o uso desse ferramental, aliado a internet como ajuda na elucidação de um mistério. Claro que a trama traz o fator inteligência de quem opera -Mikael e Lisbeth -, em primeiro plano. A investigação avança porque ambos são muito bons. Mas essas maravilhas do século XXI tornaram-se excelentes coadjuvantes nesse filme. E me fez pensar em: “Quero um Mac!

Então é isso! Vou deixar passar um longo tempo para rever essa versão. Quem sabe ai não me venha mais com sabor de comida requentada. Porque agora mesmo com temperos adicionais para apurar o gosto me fez foi querer rever o original que é nota 10; como ver as continuações. Pelo conjunto da obra, esse aqui é um ótimo filme.
Nota 09.

Por: Valéria Miguez(LELLA).

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Millennium – Os Homens que Não Amavam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo. 2011)

Li o livro de Stieg Larsson em 2008; assisti o filme sueco no final de 2009, e achei a idéia de uma nova “tradução” bem precipitada, pois a obra sueca já era um grande filme,  e que foi muito bem avaliado por LELLA, aqui: “Os Homens que Não Amavam as Mulheres (2009).

Sinceramente, evitei ao máximo em ir ao cinema, e assistir ao filme de David Fincher, porque não acreditava o quão bem sucedida essa versão seria – tinha minhas dúvidas. Vamos vir e convir, assisti  a primeira “tradução” há dois anos, e como me interessaria em ver exatamente a mesma história contada de novo?.  Bem, fui literalmente levado ao cinema por um amigo, e olha que se arrependimento matasse, eu teria morrido sem ver  “Millennium – Os Homens que não Amavam as Mulheres” (2011). Sim, poucas mudanças foram feitas no roteiro escrito por Steven Zaillian — ele acrescenta um humor inteligente que diminue a alta tensão–, e eu tenho que admitir que saber de todo o mistério não me atrapalhou em nada – o fator suspense está lá intacto!

Para assistir o filme de Fincher– preciso dizer que é muito bom!–,não é preciso ignorar o filme sueco- cada filme tem seus próprios méritos!.  Evito aqui falar sobre o enredo do filme- será que eu preciso contar algo?  — bem, qualquer coisa (re) leiam o texto da LELLA!. E,gostei muito das atuações: Daniel Craig está excelente como Mikael, um homem com uma mente inquisitiva, mas humano – mais substancial do que na adaptação sueca!. Quando o versão hollywoodiana foi anunciado, achei super estranho a escolha de Rooney Mara, pois Noomi Rapace fez uma Lisbeth Salander, de cair o queixo, e torci para que os produtores americanos tivessem escolhido própria Noomi para reviver a Lisbeth, já que a mesma é fluente em inglês, mas admito que Mara não é nada mais do que formidável no papel ( embora não entendi o sotaque estranho que ela adcionou na sua caracterização). Ela domina com seu retrato poderoso. Faz uma Lisbeth mal-humorada, mas ainda assim vulnerável. Inteligente, mas sem ser irritante ou arrogante. Christopher Plummer se não viesse a ser indicacado ao Oscar por seu papel em “Beginners” (2011), merecia ser indicado por sua magistral atuação como Henrik Vanger- não tinha nunca sentido no livro, ou mesmo na versão sueca, a perspicácia desse personagem!.

O tom do filme — o desenho de produção—, é escuro, contribuindo para as cenas externas filmadas na Suécia. Os locais são impressionantes, com seus céus de inverno—uma beleza européia distinta!—,caprichada pelas lentes do cinematógrafo Jeff Cronenweth. Os zumbidos da percussão da trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, pode até contribuir a atonalidade do filme como um todo, mas que me deixou extremamente tenso!. Escutando a trilha sem ter as imagens, eu não consegui gostar de nunhuma faixa, mas no filme tudo casa perfeitamente!.

Ganância, corrupção, crime, crise familiar, segredos de guerra, justiça, sexo e amor —  não a forma tradicional de amar–, são os temas abordados no filme. Sexo não é a única coisa que é pouco convencional neste filme –- ele tem várias funções e significados, e esses aspectos do sexo que mais gostei na obra de Larsson.

Satisfatoriamente complexo e cativante, o filme de Fincher prende a nossa atenção por todos os  158 minutos  de duração. Não é o melhor filme do ano, mas é bem superior a filmes que foram indicados ao Oscar este ano – este filme é de cima para baixo, quase perfeito!. E, é apenas a minha opinião, mas um filme não precisa copiar o livro para ser bom – filmes e livros são dois formatos diferentes de uma história, e eles precisam ser tratados de forma diferentes. E, Fincher tem o dom de tomar uma única imagem e torná-la poeticamente ressonante. Este é um filme que realmente mergulha o espectador.

Nota 9,0

Indicado ao Oscar:
Melhor Fotografia- Jeff Cronenweth
Melhor Edição – Angus Wall, Kirk Baxter
Melhor Edição de Som – Ren Klyce Pendente
Melhor Mixagem de Som – David Parker, Michael Semanick, Ren Klyce, Bo Persson Pendente
Melhor Atriz  – Rooney Mara

Toda Forma de Amor (Beginners, 2010)

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“Beginners” é um belo filme sobre amor, perda, vida, família, amizades e um cachorro falante (com uso de legendas). O roteirista e diretor Mike Mills me surpreendeu, fazendo um filme que tem um pouco de Woody Allen, com estrutura de filmes como “(500) Days of Summer” (2009), e, gastando apenas 3,5 milhões de dolares.

O filme começa com uma montagem de imagens narrado por Oliver (o sempre talentoso Ewan McGregor), um artista comercial que acaba de perder seu pai (Christopher Plummer). Com fotos diante dos nossos olhos, indo e voltando entre 1955 e 2003, a narrativa cresce e encanta, pois em poucos minuto, eu senti que conhecia Oliver e seus pais por anos.

Para quem é? 

ImagemPara quem gosta de um filme leve, e bem humano, “Beginners” é um aqueles filmes que encantam, e  não apenas por seu teor gay – o pai de Oliver sai do armário, quatro anos antes de sua morte. A mudança no estilo de vida do seu pai veio como um choque, mas sentimentos também a honestidade da relação entre Oliver e o seu pai.

Atores:

Provavelmente, Plummer vai levar o Oscar de melhor coadjuvante, e ele merece, mas seu personagem teria metade da humanidade que tem se ele não tivesse um parceiro de cena tão maravilhoso quanto McGregor. Achei que o filme é “quase” todo astro de “Moulin Rouge!” (2001).

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Na fase depressiva da sua personagem, Oliver conhece uma jovem atriz vivida por linda Melanie Laurent. Há uma atração instantânea entre eles, mas na cabeça de Oliver – por causa de sua melancolia – a relação parece encontrar barreiras. Entre as cenas de monólogo interior, Mike Mills brilha num truque narrativo, acrescando legendas entre o dialogo entre Oliver e o seu cachorro. Essa ferramenta apenas aumenta a forca dramatica de McGregor, que nos dar ainda mais introspecção no processo de pensamento de Oliver e suas decisões privadas.

Bem, o filme ilustra que a vida move rapidamente, e que cada um de nós temos que nos certificar que tevemos viver a vida ao máximo e nos cercarmos de pessoas que que nos ama, e amá-las de volta. E nos faz lembrar que a cada dia é um novo dia, e uma nova vida- sendo assim, posso dizer que somos todos iniciantes, certo?

Nota 9,0

A Última Estação (The Last Station. 2009)


Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si mesmo.” (Tolstoi)

Se não fosse pelos personagens retratados aqui, eu poderia dizer que num resumo o filme ‘A Última Estação‘ aborda: partilha de bens. Onde de um lado se encontra a Família, tendo a frente, a esposa. E do outro, o Secretário-mor do Movimento de Resistência Passiva. No centro disso tudo, alguém em idade bem avançada querendo morrer em paz com a sua consciência. Devoto ao amor que nutre pela esposa, mas também às suas ideias lançadas, fica difícil tomar uma decisão final: quem ficará com a posse de seus bens: uma mansão, o título de nobreza – Conde -, e os direitos autorais de seus Livros. Sem esquecer que essa história se passa em 1910, numa Rússia dos Czares. Que faz parte da História Universal.

E quem seria essa figura histórica?

Em ‘A Última Estação‘ temos os últimos meses de vida, ou melhor, da vida do notável escritor russo: Leon Tolstoi. Numa grande interpretação de Christopher Plummer. Muito embora enquanto eu assistia pensasse que esse seria um papel para Anthony Quinn. Para logo em seguida me trazer de volta a atuação de Plummer. Que com certeza será um divisor de águas em sua carreira. Seu Leon fez brotar lágrimas em sua despedida a Yasnaya Polyana. Meus aplausos ao Plummer!

Sua esposa, a Condessa Sofya, é interpretada pela brilhante Helen Mirren. Antes de falar dessa atriz e da sua atuação quero falar da Língua do Filme: a Inglesa. Uma história pode ser contada em diversas formas: escrita, falada, por sinais, por um desenho… Um jeito de se perpetuar. Como também em usar uma outra língua para se contar a história de um outro povo. Até ai, eu assino embaixo. Acontece que em algumas cenas, a Condessa Sofya da Mirren me fazia lembrar da sua Rainha Elizabeth. O que me fez querer, e muito, que o filme usasse a Língua Russa. Teria adorado ouvir os embates do Leon e da Sofya em russo. Mesmo tendo que ler as legendas, essa história merecia ter sido contada na língua natal dos personagens. Não que a Mirren não tivesse atuado bem. Pelo contrário! Ela me levou às lágrimas, no finalzinho do filme.

Lá no início, citei o secretário-mor. Ele é Vladimir Chertkov. Quem o interpreta é Paul Giamatti. Sempre que penso em Giamatti, de pronto lembro de sua brilhante atuação em Sideways. Seu Chertkov conseguiu se desvincular dessa sua outra atuação. Mas… Posso não saber diferenciar um russo, ou até ter uma visão estereotipada desse povo já que nunca conheci um russo, agora, para mim o Chertkov do Giamatti parecia americano demais. Sobre o personagem em si, Chertkov tinha uma alma política. Para o Movimento Tolstoiano ser levado adiante precisava alguém com essa visão, já que o próprio Tolstoi era um romântico por natureza.

Enquanto Tolstoi vivia em sua imensa propriedade – Yasnaya Polyana -, Chertkov preferia mesmo ficar no escritório. Longe da Comunidade criada pelo Movimento – Telyatinki. Um local onde todos trabalhavam igualmente, sem distinção de Classes Sociais. Nela vivia Masha (Kerry Condon), uma personagem que fará uma revolução na vida de um outro personagem. Revolução essa, que no fundo segue a filosofia maior do criador do movimento: o amor.

Chertkov, impedido por lei de se afastar do escritório, resolve contratar um dos Tolstoianos letrados para ser o secretário particular de Tolstoi. Quem passa no teste é o jovem Valentin Bulgakov. Interpretado por James McAvoy. Que por sinal, atuou muito bem. Um jovem que seguia à risca os ensinamentos do Movimento. Até o Celibato. Algo meio desvirtuado por Vladimir. Se Tolstoi pregava o amor, a castidade não era bem-vinda. Mas por timidez, Valentin fazia dela a sua armadura. Masha o trará de volta a uma vida fora dos livros, mais real. Mas será o amor de Leon por Sofia que o conduzirá ao caminho.

É no coração do homem que reside o princípio e o fim de todas as coisas.” (Tolstoi)

Leon meio que adota Valentin. Vendo nele alguém de ideias e ideais nobres, e até próprio. A princípio, Sofya vê em Valentin uma ponte para saber se Leon faria um novo Testamento, mas depois também se encanta com a ternura e a inteligência dele. Se ele tivesse entrado na vida de Tolstoi a mais tempo, poderia ter sido um aliado para uma volta de Tolstoi as suas estórias ficcionais. Por seu cavalheirismo, pelo amor fraternal aos dois – Leon e Sofya -, Valentin só desprende desses laços, nessa última estação. Testamento esse que para Vladimir seria necessário para continuar com o Movimento. Dai também querer ter Valentin como uma ponte, mas para ficar a par da influência da Condessa ao marido.

Há quem passe pelo bosque e só veja lenha para a fogueira.” (Tolstoi)

O título dessa estória – a última estação – é belíssimo! Faz parte do contexto. Mas também nos leva a viajar com ela, até a essa estação final… Até as locações, são puro romantismo. Lindas! Me fez querer ler o Livro, de Jay Parini, o qual o filme foi baseado. O filme é longo. Merece ser visto sem pressa. Ele até entrou para a minha lista de voltar a ver de novo mais tarde. Não recomendo aos que gostam dos bem comerciais. Recomendo sim, aos que gostam não apenas do escritor, Tolstoi, mas também aos que gostam da matéria História. Será mais um incentivo aos adolescentes a gostarem de leituras. Tomara que Professores levem ‘A Última Estação‘ para a Sala de Aula. É um ótimo filme.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Última Estação (The Last Station). 2009. Alemanha / Inglaterra. Direção e Roteiro: Michael Hoffman. Elenco: Helen Mirren (Sofya Tolstoy), Christopher Plummer (Leo Tolstoy), Paul Giamatti (Vladimir Chertkov), James McAvoy (Valentin Bulgakov), Kerry Condon (Masha), Anne-Marie Duff (Sasha Tolstoy). Gênero: Drama. Duração: 112 minutos. Baseado em livro de Jay Parini.

Regressão e Onipotência em “O Homem Que Queria Ser Rei”

the-man-who-would-be-kingPor: Eduardo S. de Carvalho.
Todo bom filme sobre poder e conquista tem a possibilidade de mostrar algo muito além nas entrelinhas. Sob a aparência de mero filme de aventuras, ou até mesmo uma crítica sócio-política, podemos ver como o ser humano lida – mal – com suas fantasias infantis de controle sobre seus semelhantes.

Um  filme que ilustra muito bem o tema é O Homem Que Queria Ser Rei (The Man Who Would Be King), produção do início dos anos 70. Protagonizada por Sean Connery, Michael Caine e Christopher Plummer, a aventura dirigida por John Huston mostra dois desertores do exército britânico na Índia em meados do século XIX, abandonando suas funções para se embrenharem na desconhecida geografia local e “conquistarem” o longínquo Kafiristão.

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Planejado por Huston na década de 40 para Humphrey Bogart, a fita só foi rodada cerca de trinta anos depois. Dificilmente teria sido melhor do que com outra dupla principal. Caine interpreta Peachy Carnehan, um dos desertores e narrador da estória para o público e para um assombrado Rudyard Kipling (autor do conto original, vivido por Plummer), fazendo um perfeito contraponto com Daniel Dravot (grande papel de Connery, injustamente  ofuscado em sua carreira  por James Bond e o Jack Malone de Os Intocáveis ).

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A relação de ambos, marcada pela amizade e lealdade, mostra sutis diferenças entre os personagens. Aparentemente o mais afoito dos dois, Peachy mostra-se logo mais centrado do que seu amigo; ao conhecermos Dravot, vamos percebendo que a calvície e as longas costeletas de Connery escondem uma profunda e perigosa imaturidade do personagem no que diz respeito à autoridade.

Ao decidirem partir para o Kafiristão, a dupla simula uma situação na qual Dravot é um bruxo louco, e Peachy, o tradutor de suas esquisitices. É uma dica para o que se vê ao longo da fita: em outras situações – a nevasca na fronteira do Kafiristão, por exemplo –, vemos que Peachy funciona o tempo todo como um guia para seu parceiro.

A cada erro que Dravot comete ou irá cometer, Peachy está presente para orientá-lo, trazê-lo de volta à realidade. O interessante é que a psicologia de Dravot não é mostrada de forma estereotipada, e Sean Connery compõe o personagem com uma  destreza impressionante. Sua interpretação é tão eficaz, que é comum o espanto do espectador com Dravot quando este assume o papel divino que lhe é imposto. Se até este ponto Peachy é seu ego auxiliar, é aqui que seu amigo mostra claramente a infantilidade de que é constituída sua psique.

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Em retrospecto,  podemos observar que, quanto progressivamente mais se afastava de sua civilização e sua cultura, Dravot adentrava um mundo arcaico e obscuro. Tal viagem é a metáfora perfeita, construída por Kipling e Huston (co-autor do roteiro adaptado), de um retorno psíquico, de uma regressão a uma fase do desenvolvimento em que o sujeito em formação acredita-se o rei do mundo, um deus, em torno do qual todos os seres se movem e nele encontram sua razão de existir.

A crença de Dravot em se ver como sucessor natural de Sikander é formidável como exemplo dessa regressão. O sujeito que tudo deseja, sem reconhecer limites a tais desejos, está fixado a  um momento da infância no qual estava assimilando os impedimentos impostos pelas figuras parentais. Se tal sujeito não teve em sua formação alguém que cumprisse a chamada função paterna – estabelecer e fixar limites e normas, em especial a interdição edipiana, necessários a uma futura boa convivência social – , esse indivíduo terá a possibilidade de viver em permanente conflito entre suas fantasias de poder e a vida em comunidade.

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E quem de nós, em determinado momento de nossas vidas, nunca desejou realizar tal fantasia ? Quem jamais imaginou em subverter os papéis de comandante e comandado, tomando nas mãos o poder de um superior hierárquico, assumindo uma autoridade que por direito não era sua, pelo simples prazer de arrebatar-lhe o posto ? Ou, o que seria mais catastrófico, destituir qualquer indivíduo do direito de dirigir, de governar, não reconhecendo as instituições sociais e políticas constituídas para tais fins ?

O destino trágico de Daniel Dravot anuncia o perigo da crença neste suposto heroísmo – um narcisismo infantil que persiste em muitos de nós, adultos – , onde o sujeito não vê os limites para suas ações e seus instintos, sendo engolido por eles. Pois o real destino do homem é conhecer suas qualidades e deficiências, a face santa e a face demoníaca, para, por fim, aprender a equilibrar-se entre o animal e o divino.

Alguns filmes mais recentes, como Um Dia de Fúria e Clube da Luta, podem ser vistos pelo prisma da satisfação imediata do instinto de agressividade, levando tal questão às últimas conseqüências. No entanto, O Homem Que Queria Ser Rei ainda demonstra, de uma maneira bela e marcante, as deficiências do homem que não consegue encontrar seu lugar no mundo civilizado.

Por fim, cabe o rascunho de uma outra visão. Abandonando suas terras para conquistar nações longínquas, subjugando povos para adaptá-los à sua cultura, Daniel Dravot sintetiza em sua figura toda a magna loucura de um império que se julgava indestrutível. A mesma loucura que move o líder de outro império, no limiar deste novo milênio, na tentativa de satisfazer a mesma eterna fantasia do homem imaturo, inadaptado a seu próprio mundo.

O Homem Que Queria Ser Rei (The Man Who Would Be King. 1975).  Reino Unido. Direção: John Huston. Elenco: Sean Connery, Michael Caine, Christopher Plummer. Gênero: Ação, Aventura, Drama. Duração: 129 minutos. Adaptado de um conto escrito por Rudyard Kipling.

A Noviça Rebelde – O Filme e o Musical

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Havia lágrimas no final do espetáculo “A Noviça Rebelde” (The Sound of Music) de Charles Möeller & Claudio Botelho, tanto na platéia como parte do elenco. Não é para menos. A dupla sabe como fazer emocionar e se cerca do melhor em termos de produção e elenco. Ester Elias está perfeita na pele da noviça Maria Reiner transmitindo todo o vigor e alegria de viver da personagem que foi baseada em estória real publicada em 1949 e transformada num dos filmes mais famosos já feitos.

A verdadeira Maria Von Trapp não era tão doce quanto na arte e seus filhos não estão milionários porque ela vendeu os direitos do livro bem baratinho. Ela, que morreu nos anos 80, exigiu uma participação no filme, mas ganhou apenas uma breve aparição como figurante passante. No set, sua figura dominadora não era muito bem vinda, mas ela estava sempre por lá dando palpites que eram quase sempre ignorados.

julie-andrrews-in-the-sound-of-musicMas todo o glamour que se vê na tela é impossível de ser arranhado mesmo quando se sabe que Julie Andrews comeu muita lama e grama ao cair repetidamente tentando fazer a deslumbrante abertura rodopiando nos Alpes, mas sendo derrubada pelo helicóptero que filmava; ou quando Charmian Carr (Liesl) dança com o tornozelo machucado e enfaixado com o carteiro. Na versão atual, não dá para ver a atadura por conta dos milagres da tecnologia digital. Para completar, Christopher Plummer, o ator que faz o barão, detestava de verdade crianças e animais em cena, o que deve ter contribuído para o realismo das seqüências pai/filhos. Mas os pequenos atores eram terríveis mesmo. Aprontavam horrores no set e nos hotéis da Áustria. Vivem até hoje, mas ninguém ficou famoso. Os verdadeiros filhos de Maria fizeram bastante sucesso cantando nos EUA.

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Diria que a adaptação para os palcos brasileiros ainda é melhor do que a obra de Robert Wise porque seus personagens têm mais profundidade, as ações mais fluentes e bem resolvidas e as músicas mais bonitas e bem cantadas, além de um toque nacional que é sempre bem vindo. Faltam as belas locações de Salzburgo que não cabem no teatro, mas os cenários suntuosos e detalhistas compensam com direito a montanhas e céus com nuvens que se movem e tudo. É de tirar o fôlego e não fica a dever com as grandes produções do mundo. Soluções simples como a animação projetada sugerem com exatidão ilusões que vão de uma simples e rápida viagem de ônibus até outra ao redor do mundo.

As canções mais conhecidas não foram suprimidas. “O Som da Música”, “Dó-Ré-Mi”, “So-Long, Adeus”, “O pastorzinho” (The Lonely Goatherd) e “Sobe a Montanha” mantiveram o encanto e o significado mesmo traduzidas para o português. Questão de muita habilidade de quem lidou com as letras.

É reconfortante ver o teatro Casa Grande funcionando de novo com um espetáculo tão perfeito. Faz muito bem assistir. Inesquecível e brilhante.

Por: Carlos Henry.

A Noviça Rebelde (The Sound of Music). EUA. 1965. Direção:  Robert Wise. Elenco: Julie Andrews (Maria), Christopher Plummer (Capitão Von Trapp), Eleanor Parker (Baronesa Schraeder), Richard Haydn, Peggy Wood. Gênero: Biografia, Drama, Musical. Duração: 172 minutos.

Curiosidade: Fotos dos atores que interpretaram os filhos do Barão. Durante o filme, e 40 anos depois.