Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte I

festival-do-rio-2015Por: Carlos Henry.
cine-odeon_rio-de-janeiroO Festival do Rio foi mais discreto esse ano, decerto por conta da crise, sem grandes convidados internacionais e com uma programação morna e sem grandes destaques. Neste ínterim, a película vira artigo raro em extinção dando lugar ao indefectível DCP (Digital Cinema Package) que dependendo da sala de projeção pode ocasionar uma imagem pálida, sem vida e provavelmente pior do que a sua tela de TV. Curiosamente esse processo de transição ocorreu rapidamente e sem estardalhaço e, portanto foi o sistema padrão adotado nas exibições do Festival. As noites de gala continuaram sendo no Cinépolis Lagoon de difícil acesso na Lagoa. No entanto, os artistas e a produção prestigiaram os animados encontros de cinema no antológico cinema Odeon no centro.

As pré-estreias nacionais que escaparam da febre da comédia barata, grosseira e fácil que assola o mercado brasileiro chamaram a atenção e resolvi conferir.

boi-neon_2014BOI NEON de Gabriel Mascaro onde o ótimo Juliano Cazarré mostra o seu talento na pele de Iremar, um calejado e bruto ajudante de vaqueiro, num evento de arena onde aquele universo aparentemente simples oculta uma rede relativamente violenta que movimenta muito dinheiro. O filme introspectivo e de ritmo lento desvenda o cotidiano da Vaquejada desvendando sonhos aparentemente díspares como o de Iremar em ser estilista trabalhando nas horas vagas em sua pequena máquina de costura. Maeve (O Som ao Redor) Jinkings faz parte desta endurecida equipe de bastidores dividindo seu tempo entre o trabalho, suas performances à noite vestida como um cavalo numa roupa desenhada e manufaturada por Iremar (A cena filmada para uma plateia de vaqueiros reais dá o tom surreal à obra.), os cuidados com a filha curiosa e rebelde e os desejos sexuais naturais de mulher. Vinicius de Oliveira, a descoberta mirim de Central do Brasil tornou-se um ótimo profissional e faz uma participação notável no longa. O filme não teme a exposição dos corpos nus e a fisiologia humana que por vezes pode parecer chocante, quase pornográfica, o que exige coragem e ousadia dos atores. Afinal, masturbar um cavalo não é para qualquer um. Extraordinário, mas definitivamente nada popular.

jonas_2015JONAS de Lô Politi conta com o menino Jesuíta (Tatuagem) Barbosa que está cada vez melhor. Infelizmente sua atuação neste filme está um pouco exagerada na angústia e ansiedade. Um tom mais contido certamente daria um resultado melhor. O filme parte de ideia boa com interessante utilização de nomes próprios para narrar um evento de suspense acontecido no carnaval. A ação se desenvolve a partir de um sequestro que acontece por conta de um acidente provocado pela paixão de Jonas pela filha da patroa de sua mãe (Apesar do pequeno papel de empregada, Luciana Costa, como sempre, “Ó pai Ó” consegue dar muita graça ao seu personagem). A situação foge de controle e o rapaz decide esconder a moça no carro alegórico mais importante da Escola de Samba que os dois pertencem, uma imensa baleia azul. Uma evidente referência bíblica. Prende a atenção, mas com mais habilidade poderia vir a ser um clássico.

nise-o-coracao-da-loucura_2015NISE – O CORAÇÃO DA LOUCURA de Roberto Berliner é um bom filme ordinário fadado ao sucesso por conta de ser estrelado por uma super global, a atriz Glória Pires. Ela encarna uma personagem real, a doutora Nise da Silveira que se recusa a adotar os tratamentos tradicionais do século passado na cura dos pacientes esquizofrênicos que ela prefere chamar de clientes. Ao invés dais radicais lobotomias e eletro-choques, Nise incentiva os doentes a exorcizarem suas neuras através da arte, criando um estúdio improvisado dentro do Hospital decadente de Engenho de Dentro. Os trabalhos ficam tão bons que exposições são organizadas enquanto o grupo de ditos loucos começa a melhorar. No entanto, as inovações não são bem recebidas pela direção da instituição formada por homens. O filme prende a atenção com seu roteiro correto e linear, mas é contido e comportado como uma produção de TV. Destaques para os “loucos” Simone Mazzer e Flavio Bauraqui. Não ultrapassa a marca de regular.

O Festival do Rio selecionou uma série de filmes sobre a cidade do Rio de Janeiro em comemoração ao aniversário de 450 anos:

sao-sebastiao-do-rio-de-janeiro-a-formacao-de-uma-cidade_de-juliana-de-carvalhoSÃO SEBASTIÃO DO RIO DE JANEIRO, A FORMAÇÃO DE UMA CIDADE de Juliana de Carvalho é uma curiosa coleção de fatos e imagens raras que ajudam a desvendar o crescimento de uma cidade, passando pelas mudanças arquitetônicas dos primórdios de sua fundação até os dias de hoje.

o-rio-por-eles_2015O RIO POR ELES de Ernesto Rodrigues exibe a cidade vista sob o olhar estrangeiro nem sempre muito preciso. A imagem equivocada do Rio por vezes soa divertida, preconceituosa, racista ou falsa, sem deixar de ser um arquivo rico e precioso de uma época onde ainda havia muita elegância na Guanabara. Tragédias como o incêndio do circo em Niterói na década de 60 ou do Edifício Astoria também são relembradas por equipes de outros países.

cronica-da-destruicaoCRÔNICA DA DEMOLIÇÃO de Eduardo Ades tenta entender sem sucesso a destruição do Palácio Monroe, construído no início do século vinte para abrigar o pavilhão do Brasil na Exposição Universal em Saint Louis EUA. Em seguida foi desmontado e reconstruído no centro do Rio vindo a se tornar sede do Senado Federal. Aparentemente, a bela construção foi alvo de uma modernização descuidada na ditadura dos anos 70 comparada no documentário por uma “eugenia nazista” que via no prédio antiquado um entrave ao curso natural do desenvolvimento da cidade. O filme é fraco no sentido de ser mal montado, mas exibe interessantes imagens da demolição em si. Hoje no lugar restam um chafariz seco e um lucrativo estacionamento.

 

Alguns filmes de curta-metragem são até melhores que a atração principal:

projeto-beirutePROJETO BEIRUTE de Anna Azevedo passeia pelo animado Saara, o grande bazar do Rio. A colorida mistura de culturas e línguas é coroada com uma belíssima dança do ventre em grupo no meio da rua num desfecho impressionante de ver e ouvir.

cumieira_de-diego-benevidesCUMIEIRA de Diego Benevides apresenta o trabalho duro dos operários numa grande obra até o merecido descanso no terraço da construção.

pele-de-passaro_de-carla-peltierPELE DE PÁSSARO de Clara Peltier persegue Tuane Rocha, uma exuberante destaque no carnaval que revela um cotidiano para lá de corriqueiro. Por trás dos adereços e maquiagem exagerada, tudo o que ela precisa é cuidar da filha.

solte-os-bichos-de-uma-vez_de-marcelo-goulartSOLTE OS BICHOS DE UMA VEZ de Marcelo Goulart também agarra o tema da festa de Momo. Os tradicionais e às vezes assustadores grupos de bate-bolas, cujas fantasias foram trazidas pelos portugueses na época colonial, faz parte do imaginário suburbano do carnaval carioca.

[Continua aqui.]

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O Cinema Colocando em Xeque Religiões e Seguidores – parte I

o-cinema_religioes-e-seguidores_por-tiago-silvaNuma época onde um Papa renuncia e sucessor parece estar até mais mais aberto às mudanças trazidas pelo presente… Onde cada vez mais líderes religiosos adentram na Política com a finalidade retroceder com a sociedade… Onde radicais religiosos sequestram jovens e até fazendo delas escravas sexuais… Várias reflexões deveriam ser feitas por todos nós até para ver o que há de real por trás de episódios como esses. Em que estão mais de olho nos próprios interesses e com um rebanho obediente a lhes servir… Enfim, se o tema já intriga no mundo real, se torna ainda mais fascinante pelo mundo do Cinema. Vem comigo!

guerra-de-canudos_1997_filmeIgnorância e superstição configuram a base de domínio das consciências humanas.

A venda das indulgências não segue o maior preceito de Cristo que é o perdão. As religiões se prevalecem até do sentimento de culpa para um domínio sobre seguidores. Até porque mantidos na ignorância os fiéis não terão como visualizar uma forma simples de aproximarem de Deus: num encontro com seu “eu” pelos caminhos da vida e sem a necessidade de estarem em um templo. Mas isso não levaria ninguém à engordar os cofres das igrejas… Em “Lutero“, de Eric Till, temos como pano de fundo uma luta de consciência por conta do sentimento de culpa. Mesmo assim, enfrentou com coragem as pressões políticas e da Igreja principalmente contra a salvação mediante a venda de indulgências. Em “Guerra de Canudos“, do Diretor Sérgio Rezende, se tem em plano geral Antônio Conselheiro. Alguém que contrariou muito mais a Igreja do que o Estado e por ter pisado nos calos dessa ao afastar os fiéis e seus dízimos. Com isso ela pressionou o Estado para acabar de vez com a insurreição desse líder.

stoning-soraya-1A Cultura Machista sob a Égide das Religiões

Em pleno século XV temos a história de uma personagem feminina que sofreu pela fúria dos homens. Embora não tivesse sido por apetites vorazes, eles sentiram a própria virilidade ameaçada por uma única mulher. As vitórias dela num território de machos fizeram despertar a inveja deles, e por conseguinte ter ido parar na fogueira da Inquisição. Ela é “Joana D’Arc“, em um filme do Diretor Luc Besson. Mas histórias como essa atravessa o tempo e no mundo real… Em um episódio muito mais recente temos também a cultura machista em terras islâmicas… Mostrando uma cruel realidade para as mulheres e sob a égide de uma lei estúpida que atravessa fronteiras e engloba até outras religiões: o adultério a mascarar a cultura machista… Temos em o “O Apedrejamento de Soraya M.”, do Diretor Cyrus Nowrasteh. Nele, um homem querendo casar com outra mulher muito mais jovem, arma com o conluio de um líder religioso um adultério para então esposa. O faz até para esconder que regulamente a espancava e a estuprava. Com isso ela seria condenada à morte pelo revoltante “crime de honra” e ele estaria livre até para cometer mais barbaridades com outras mulheres. Igreja e Estado abonando o machismo.

Ciência e Religião não poderiam caminharem juntas sem radicalismo?

Um filme que fica em cima desse binômio – ciência e religião -, é o filme “Contato“, do Diretor Robert Zemeckis, cujo roteiro é do astrônomo Carl Sagan. A trama do filme põe em xeque os valores éticos e morais da ciência e da religião, mas numa tentativa de encontrar um equilíbrio entre elas.

rezando-por-bobby_01O Absurdo de ainda condenarem alguém pela sexualidade

Em “Rezando por Bobby”, do Diretor Russell Mulcahy, temos uma mãe que ao seguir à risca as doutrinas da Igreja nem aceitou a homossexualidade do filho como impingiu a ele terapias e ritos religiosos com o intuito de “curá-lo”. Não suportando a pressão ele se atira de uma ponte… Depois, ela ler o diário desse seu filho passa a entender de fato todo o drama em que vivia e até por não querer ferir ninguém, querendo mesmo ser feliz. Ela ainda buscando por respostas na religião que o condenou, passa a interpretar de outra forma os textos bíblicos… E torna-se uma ativista dos direitos dos homossexuais. Já no belíssimo filme do Diretor Abbas Kiarostami, “Gosto de Cereja“, temos um homem que com o passar dos anos sente o peso da solidão por essa condenação até culturalmente, daí escondendo sua homossexualidade. Por conta disso decide se suicidar e sai à procura de quem o enterre, já que esse ato também é condenado pelas Religiões.

vida_de_brian_04O Fanatismo Atemporal dos Seguidores

Onde em vez de se aterem as suas próprias convicções… Até partem para agressões físicas numa de catequizar, exorcizar… Em “Alexandria“, de Alejandro Amenábar, a vida de uma filosofa Hipátia que foi morta por não se converter ao cristianismo. Que disse para essa catequese imposta que: “Quem acredita sem questionar, não acredita. Eu preciso questionar.“. Como pano de fundo fanatismo religioso: a busca ou pelo o conhecimento ou pela a estupidez. Já com com o clássico “A Vida de Brian“, do Diretor Terry Jones e ou mesmo com “O Primeiro Mentiroso”, dos Diretores Ricky Gervais e Matthew Robinson, temos e com humor o quanto se deveria questionar os dogmas religiosos. É! É velha retórica em apregoar a fé para não apenas manter o rebanho mansinho como também para atrair mais. Onde até se valem de falsos profetas para mantê-los sob rédeas curtas. E o pior que o ciclo se mantém pelos próprios seguidores em querer um santo, um líder religioso para idolatrar e ou expiarem as próprias culpas.

saving-godUm poder a serviço de quem ou do que?

Dentro da Igreja Católica para “para um rei morto, um rei posto“… Dois filmes que mostram os bastidores desse Conclave, como as responsabilidades, os dogmas a serem seguidos… O “As Sandálias do Pescador“, de Michael Anderson, baseado no livro de Morris West. Um Papa vindo de um país comunista… Abordando também temas pertinentes a geopolítica da época – guerra fria, bomba atômica… Um Drama com pitada de Thriller. Já o outro é o “Habemus Papam“, do diretor Nanni Moretti, uma Comédia Dramática trazendo o Papa eleito com uma dúvida crucial: “Ser ou não ser Papa?“. Agora, onde o Estado, a Família e a Sociedade ficam impotentes, é onde a Religião pode e deve atuar: numa “salvação” dos jovens aliciados pelo tráfico. Ou mesmo por estarem drogados demais para mudarem de vida. Em “Salvando Deus”, do Diretor Duane Crichton, temos essa remissão por um recém saído da prisão, pegando para si o papel de Reverendo daquele local até então desassistido…

Alagados, Trenchtown, Favela da Maré / A esperança não vem do mar / Nem das antenas de TV / A arte de viver da fé / Só não se sabe fé em quê

Assim, aos que adotaram uma Religião que sigam com ela, mas sem condenar os que preferem continuar lidando com seus próprios espinhos fora das religiões. Até porque transferir os próprios problemas para as “mãos do impossível” é uma das maneiras de não encará-los de frente. Com certeza voltarei a esse tema. É por demais interessante!
See You!

O Erro e os Muitos Acertos num Oscar 2015 bem Politizado!

oscar-2015_politizadoOscar-2015_Jack-Black_Neil-Patrick-Harris_Anna-KendrickEu até que deveria começar com os pontos positivos, mas sendo um evento com um anfitrião no comando, partirei dele. É que eu não gostei da performance de Neil Patrick Harris no geral. Ele até canta bonitinho, mas aí quando entrou o Jack Black no show musical, esse roubou o espetáculo. Harris não tem o carisma de Hugh Jackman, por exemplo, que deu um verdadeiro show quando foi ele o apresentador do Oscar. Eu não sei porque a Academia não retorna com o Jackman. Enfim, saindo da área musical, Harris ao tentar fazer piadas acabou que as deixou sem graça, para não dizer quando nem seria algo cômico. Mesmo que não tivesse sido escrito por ele, faltou-lhe bom senso em vetar certos comentários. Ou, por ser ele realmente sem graça. Um dos episódios onde o que poderia ter sido uma crítica pelos atores do filme “Selma” que não foram indicados, não ficou de bom tom: “Hoje celebramos os mais brancos, ops, os mais brilhantes“, mas se redimiu no decorrer do programa ao dizer: “Agora vocês gostam dele…” pelos aplausos a premiação de Melhor Canção para esse mesmo filme. Mas foi deselegante ao criticar o vestido de uma das premiadas. É! No geral, no mínimo faltou-lhe bom senso. E que para mim não seria mais convocado.

Como citei número musical… Além desse no início homenageando filmes premiados – Neil Patrick Harris, Anna Kendrick e Jack Black -, além dos com as concorrentes ao Oscar de Melhor Canção, outros dois se destacaram. Um pelos 50 Anos do filme “A Noviça Rebelde“. Muito bom que Lady Gaga não tenha mudado os arranjos! Uau! Ela conseguiu atingir a nota em “The hills are alive” como a de Julie Andrews no filme. Um outro foi com a Jennifer Hudson cantando “I can’t let go“, após uma apresentação com atores e pessoas ligadas ao mundo do cinema que faleceram em 2014. Muito bom!

oscar-2015_meryl-streep-vibra_discurso-da-patricia-arquetteA 87ª cerimônia da Academy Awards foi marcada com discursos em protestos a causas dos direitos civis, aos direitos humanos, a causas feministas… Outro ponto alto do Oscar 2015. Bem melhor do que recusar o prêmio, estaria em ao recebê-lo aproveitar que é ao vivo e de alcance mundial, e protestar. Se houver retaliação da Academia será num depois.

Por conta do vazamento de emails entre executivos da Sony dizendo que atrizes ganhavam menos que atores num mesmo filme mesmo elas sendo mais famosas que seus colegas… Levou a premiada da noite – Melhor Atriz Coadjuvante – Patricia Arquette então clamar “Essa é a hora de ter salários e direitos igualitários para todas as mulheres dos Estados Unidos”, sendo ovacionada pelo público, em destaque pelas câmeras do programa: Meryl Streep e Jennifer Lopez. No geral, as mulheres premiadas aproveitaram também para a importância dos personagens femininos. Abraçando também a causa por equiparação em todos os setores num mundo dominado por machos. Destaque ainda pela reclamação de que no Tapete Vermelho só perguntam às atrizes pelos modelitos e para os atores é sobre o trabalho deles. Boa!

oscar-2015_documentario-citizenfourUm outro discurso que merece destaque veio do premiado Documentário, CitizenFour. Por conta de retratar a trajetória de Edward Snowden, eles saudaram a atitude e coragem desse, concluindo: “Sem liberdade não há democracia“. Outro foi com os autores da Canção premiada “Glory“, do filme “Selma“: “É dever de um artista refletir os tempos em que vivemos. Nós escrevemos essa canção para um filme baseado em eventos de 50 anos atrás, mas nós afirmamos que ‘Selma’ ainda existe porque a luta por justiça ainda continua. Vivemos no país mais encarcerados no mundo. Há mais homens negros sob controle correcional hoje do que estavam sob a escravidão , em 1850“. Esse filme além de não ter nenhum de seus atores indicados, também deixou de fora a Diretora Ava DuVernay. Pelo jeito parte significativa dos “eleitores” da Academia devem ser os mesmos que deixaram o Congresso dos Estados Unidos mais “elitizado”. E mesmo tendo votado em um “mexicano” creio que para eles o que contou no filme foi por mostrar carreiras artísticas. Sendo que para mim, Alejandro Iñárritu mereceu os de Melhor Direção e Melhor Filme por ter revolucionado com “Birdman“.

Falando em Iñárritu, houve uma certa troca meio pesada entre Sean Penn e ele. É que Penn ao anunciar “Birdman” como o vencedor, falou: “Quem deu o green card para esse cara?“, indo logo em seguida ao encontro do outro para abraçá-lo, e que foi retribuído. Iñárritu então já no microfone entra na brincadeira dizendo: “Talvez no próximo ano o Governo imponha alguma regra de imigração à Academia… Dois mexicanos em anos seguidos… Suponho que possa parecer suspeito.” (É que Alfonso Cuarón ganhou o de Direção em 2014.). Em entrevista após a premiação Iñárritu falou que há liberdade para isso na amizade entre eles. De qualquer forma, Iñárritu deixou claro num pequeno discurso de que os Estados Unidos é uma nação de imigrantes. Boa!

Um outro destaque vai para o discurso de Graham Moore, premiado em Roteiro Adaptado por o “O Jogo da Imitação” e que vale trazê-lo na íntegra: “Quando eu tinha 16 anos, eu tentei me matar porque eu me sentia esquisito, diferente. É como se eu não me encaixasse. E agora eu estou aqui. Eu queria que esse momento fosse dedicado à criança que está lá fora e que se sente estranha, e diferente, e que sente que não se encaixa em lugar nenhum. Sim, você se encaixa. Continue esquisita e continue diferente. Então, quando for a sua vez e você estiver em pé neste palco, por favor, passe a mesma mensagem“. Bravo!

J.K Simmons, premiado com o de Ator Coadjuvante também fez um discurso emocionante, algo que muitos também gostariam desse tipo de lembrança: “Ligue para sua mãe, ligue para seu pai. Se você tiver a sorte de ter um deles ou os dois vivos neste planeta, fale com eles. Não mande mensagem. Não envie e-mail. Fale com eles por telefone. Diga a eles que você os ama, agradeça”. O mundo está carecendo disso! Bravo!

Oscar-2015_O-Grande-Hotel-Budapeste_premios-tecnicosAnd the Oscar goes to… “Birdman” levou 4: Melhor Filme, Melhor Diretor (Alejandro Gonzáles Iñárritu), Melhor Roteiro Original (Alejandro G. Iñárritu…), Melhor Fotografia. Pode até acharem que Michael Keaton merecia ganhar até pela idade… Mas Eddie Redmayne, por “A Teoria de Tudo” mereceu o de Melhor Ator. Não tenho muito o que falar para o de Ator Coadjuvante para J.K. Simmons por “Whiplash” é que eu ainda não vi o filme, mas pelos comentários de antes: era vitória certa. Assim como também o era para o de Melhor Atriz para Julianne Moore por “Para sempre Alice” – ela levou o filme nas costas. Também era esperada a vitória em Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette por “Boyhood“, outro que eu ainda não vi. Um filme cativante que até poderia ganhar nas categorias principais caso não existisse “Birdman” no páreo é “O Grande Hotel Budapeste” que eu amei e fico satisfeita que pelo menos saiu com um bom número das estatuetas douradas: Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Cabelo, Melhor Design de Produção, Melhor Trilha Sonora. E que até colocaria o ator Tony Revolori que fez o Zero como indicado ao de coadjuvante por ele ter um que de Chaplin. E para constar, os demais premiados… “Whiplash” além do de Ator Coadjuvante levou também o de Melhor Edição/Montagem, Melhor Mixagem de Som. “O jogo da imitação” o e Melhor Roteiro Adaptado. “Interestelar” o de Melhores Efeitos Visuais. “Selma” o de Melhor Canção, “Glory”. “Sniper americano” o de Melhor Edição de Som. “Operação Big Hero” o de Melhor Animação. “Ida” de Melhor Filme em Língua Estrangeira. “CitizenFour” o de Melhor Documentário. “The phone call” o de Melhor Curta-Metragem. “Feast” o de Melhor Animação em Curta-metragem. “Crisis Hotline: Veterans Press 1” de Melhor Documentário em Curta-metragem.

Então é isso! O erro foi escalarem Neil Patrick Harris. Mas por todos os posicionamentos e pela maioria em causas sérias o saldo foi muito positivo. Até porque nas edições anteriores quando havia algum discurso era quase de uma única pessoa. E quem tiver curiosidade em saber o perfil dos “eleitores” da Academia, segue o link.

Panorama do Festival do Rio 2014

Festival-do-Rio-2014_logoProvavelmente, a mais fraca das edições do Festival do Rio. Filmes pouco impactantes, ausência de convidados e o cinema Odeon fechado são alguns dos motivos para o evento esfriar ainda mais. A falta de criatividade da organização geral revela-se evidente até na vinheta preguiçosa. O Cinépolis Lagoon é muito bonito, mas de acesso não tão fácil. O deslocamento das premières para a Lagoa criou uma desagradável segregação entre o público comum, o elenco e a produção por conta do tamanho das salas, acostumados a se misturarem quando as pré-estreias aconteciam no antológico cinema no centro da cidade.

panorama_festival-do-rio-2014Outono” é um belo curta-metragem sem diálogos de Anna Azevedo envolto num clima onírico, onde um casal recorda os melhores momentos isolados numa praia. De inegável beleza plástica, lembra o episódio final de Derek Jarman para o filme “Aria” de 1987 sobre as reminiscências de uma mulher no fim da vida.

Ausência” de Chico Teixeira infelizmente demora muito tempo de projeção para revelar-se um grande e sensível filme. O drama, tristíssimo, gira em torno da figura de um adolescente que é primeiro abandonado pelo pai e aos poucos por todos que se afeiçoa que parecem traí-lo deliberadamente. Sua principal qualidade é ser centrado e não misturar os sentimentos que conflitam entre os primeiros desejos sexuais e a profunda carência paterna. Determinação mais difícil para o professor Ney que sofre para não se desvirtuar diante da confusão causada pelo amor transferido do menino, numa composição notável pelo ator Irandhir Santos. Também merecem aplausos o trabalho da atriz Gilda Nomacce como a mãe alcoólatra e do garoto protagonista Matheus Fagundes.

Max Uber” revela o curioso processo de criação do artista plástico Andre Amparo, envolvendo todas as dificuldades, limites e preconceitos que o profissional da arte enfrenta para conseguir ter o trabalho reconhecido, concluindo que o ritual criativo não pode nem deve ser podado, especialmente por questões lucrativas.

Favela Gay” de Rodrigo Felha pouco ou nada acrescenta ao rico universo homossexual nas áreas carentes. Salvo raros momentos, como o da divertida persona “Pandora”, os entrevistados não conseguem aprofundar seus anseios, alegrias e aflições tornando o documentário raso como um pires. Definitivamente, o diretor Eduardo Coutinho faz muita falta neste segmento.

Por: Carlos Henry.

Cinema – Um Olhar na Psique Coletiva

A comoção por combates corpo a corpo é semelhante à que havia por duelos romanos há 2000 anos.

Cinema ou instituição para tratar a psique coletiva. Por: Charles Alberto Resende.

teatro-e-publicoJung (1989, §48) chamou o teatro de “instituição para o tratamento público de complexos”. Ele explicou que o prazer que se sente com a comédia, com uma história dramática com final feliz ou com uma tragédia se deve à identificação de complexos pessoais com os da peça. Com relação à tragédia, tem-se a sensação terrível e benéfica de se presenciar a ocorrência com o outro daquilo que nos ameaça. Essa identificação também ocorre com outras produções como o cinema e a novela. Essa identificação pode chegar a tal ponto que fortes complexos podem ser trabalhados em psicoterapia, por meio de filmes especialmente indicados para tal. E já se criou até um nome para uma espécie de terapia que usa enfaticamente as produções cinematográficas: a “cinematerapia”.

Um filme pode aludir a possíveis soluções de problemas psíquicos e pode também questionar preconceitos, pontos de vista e convicções fortemente arraigadas. Os filmes podem falar poeticamente à alma e ao inconsciente, sem que o cliente tenha noção inteiramente consciente do que está sendo tratado, abreviando a terapia, sobretudo devido à amplificação de temas já tratados ou ainda por se discutir nas sessões. Uma novela ou filme que toca um complexo pode ter um efeito particularmente intenso no espectador, de forma a produzir emoções nomeadas popularmente de “positivas” ou “negativas”, cujas ocorrências associadas podem ser analisadas em terapia.

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“Star Wars” foi escrito com base em conceitos como o “inconsciente coletivo”.

Ora, os filmes que afetam positiva ou negativamente uma pessoa, de forma mais ou menos intensa, como já exposto, o fazem porque representam aspectos que possuem fortes conexões com seus complexos, ensejando sua identificação com personagens e situações. Se um certo filme impressiona muitas pessoas, isso se deve ao fato de ele refletir os complexos dessas pessoas, desde pequenos grupos, até nações inteiras. Assim, complexos coletivos, pertencentes a vários países, podem ser ativados por determinados filmes, mobilizando as massas, como ocorreu com produções como “Guerra nas estrelas”, “O senhor dos anéis”, “Avatar”, “Titanic”, etc. A análise dos filmes de maior bilheteria, que devem seu sucesso principalmente ao seu roteiro e à elaboração dos personagens, pode fornecer um diagnóstico mais ou menos preciso dos complexos mais mobilizados no inconsciente coletivo à época de seu lançamento. A energia psíquica está atrelada a esses complexos, e esse diagnóstico pode explicitar facilmente o caminho que ela está tomando e, pelo menos teoricamente, pode tornar claro para qual meta está se desenvolvendo, assim como os obstáculos desse destino.

O homem possui hoje em dia meios para prever coletivamente seu comportamento, assim como recursos para tratamento em massa das pessoas. Esses expedientes podem ser usados com maestria para um verdadeiro salto evolutivo de consciência, o que vem sucedendo sofregamente, ao contrário do que ocorre com o desenvolvimento tecnológico. Infelizmente, percebe-se, por meio de diversas leituras, que a humanidade se encontra em um estágio evolutivo de consciência, no sentido de uma integração maior à totalidade psíquica, semelhante à que havia há mais ou menos 2000 anos. Apenas um “verniz tecnológico” parece encobrir o estágio precário do inconsciente coletivo, fornecendo a aparência altamente civilizada que parece iludir a todos.

Infelizmente o homem parece estar se desfazendo cada vez mais da linguagem simbólica, que poderia aproximá-lo o suficiente dos instintos vitais para que retornasse aos rumos de um verdadeiro crescimento psicológico saudável. A maioria dos filmes parece indicar esses caminhos: basta atentar a eles.

Referências
JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 1989. v. V.

Cinema em 3D. Estão esquecendo de um grande detalhe…

avanco-em-oculos-3DAqui o assunto será mesmo sobre o Cinema em 3D: Filmes e Salas. Em destaque as Salas onde não tem como passar esse tipo de filmes, mas assim mesmo exibem filmes com essa tecnologia. Em específico sobre as Salas IMAX, o Evandro escreveu um texto delicioso de ser lido, esse: IMAX Fundo do Mar 3D. Além de uma tecnologia diferente, as Salas IMAX ainda são em um número bem menor no Brasil. Agora, voltando aos 3D…

Mesmo tendo alguns filmes em 3D produzidos bem antes, o boom do Cinema em 3D foi na Década de 50. Uma projeção onde a visão reproduzida aparentava estar em formato de relevo. Mas esse jeito não persistiu por muito tempo. O porque ao certo, não sei. Há muito poucos dados sobre esse início. Numa pesquisa que fiz para colher dados para esse artigo o que achei foi numa página em inglês. E o mais curioso era a fonte: o Guinness Book. Ficando uma pergunta se deram pouca importância a essa tecnologia, ou até por não ter atraído muito o público depois disso. Quem sabe com o novo boom do momento apareçam mais estudos sobre o Cinema em 3D.

Cronologia da História do Cinema em 3DCom o avanço dessa tecnologia, inclusive nos óculos, os filmes em 3D voltaram à cena. Mas ainda faltava mais. James Cameron esperou por mais de uma década para só então filmar ‘Avatar‘. Por querer usufruir de todo avanço. E fez bem! Pois o filme Avatar fica como marca na História do Cinema em 3D. Mesmo os que não gostaram desse filme terão que concordar com esse fato. Com esse feito desse Diretor. Fiz um gráfico para ilustrar essa trajetória.

Eu fiquei encantada com o ‘Avatar’ em 3D! Por um tipo de campanha viral* na Blogosfera eu ganhei um Dvd desse filme. Chegando na minha casa fui correndo rever o filme. Parando nas cenas onde me lembrava do 3D. Uma em específica por ter sido a única que me “assustou”… E vi que nesse filme a Fotografia não perdeu em nada na nitidez e nem na minha televisão que nem HD é.

nitidezFiz isso até para tirar uma dúvida. Tudo por conta de outro filme. Talvez a Sala de Cinema onde vi o tal filme tenha sido a grande vilã dessa história. Fora algo que me irritou quase a ponto de sair do Cinema. O filme foi ‘Como treinar o seu dragão‘. Numa Sala comum exibiram uma versão em 3D. Ficando tudo esbranquiçado ao fundo, só destacando algo no meio… e em várias cenas. A colagem que fiz com o dragão ilustra um pouco o que estou contando. Na segunda foto mostra como fica a cena do 3D numa Sala comum: perde a nitidez. Acontece que até para ir num Cinema mais próximo onde de onde eu moro eu gasto também com o táxi, e não é por frescura, mas sim porque sou cadeirante. Sendo assim pelo menos quero ver num filme uma ótima Fotografia. Uma boa imagem eu até aceito. Mas uma péssima me leva a odiar essa “febre 3D”.

Pelo jeito os Produtores, ou mesmo os donos das Salas, não estão nem ai para esse detalhe importante.

Numa comparação seria assistir um show de um excelente cantor, num acústico – no gogó e acompanhado de um violão, por exemplo -, ou ouvi-lo num grande e potente show. A essência dele – voz, letra, melodia -, está nas duas apresentações. O que muda, é o espírito de quem vai assisti-lo em cada um dos shows: se quer algo mais intimista ou não. E que o mesmo não aconteceria num cantor de playback. Pois não saberia cantar, e encantar, num ao vivo. Ou até que poderia ser ouvido em casa mesmo.

É meio por ai para diferenciar os filmes em 3D. Não apenas os bons dos ruins. Dos que o 3D entrou de fato como um Coadjuvante, daqueles que estão mesmo aproveitando do 3D como caça-níqueis. Como disse antes até a ida ao Cinema tem um custo, como também o preço do ingresso. Se a Sala não tem a tecnologia para exibir um em 3D que projete um sem essa tecnologia. E quem não tem a competência para fazer um nos moldes do que Cameron fez com “Avatar”, deveria pelo menos fazer o filme em duas versões. O público merece esse respeito. Ou eu é que teria ficado mal acostumada com a qualidade do 3D no filme do James Cameron. Eu até tentarei ir com mais complacência nos próximos em 3D. Mas por favor! Respeitem também o meu bolso.

E vocês, o que teriam a dizer do Cinema em 3D?

p.s: (*) A tal Campanha partiu da iChimps. E me escolheram pela segunda vez. Grata! E fica aqui o registro de que são profissionais de markenting confiáveis. Espero continuar sendo escolhidas nas próximas Campanhas.

Por: Valéria Miguez (LELLA), em 13/10/2010.