A Dama de Ferro (2011). E o que realmente a retirou de cena!

Se meus críticos me vissem andando sobre as águas do rio Tâmisa, diriam que é porque eu não sei nadar.” (Margaret Thatcher)

Por vários fatores eu não teria como deixar de assistir esse filme. Por Meryl Streep, sim! Por trazer uma personagem feminina como protagonista, inclusive. Mas indiscutivelmente por centrar na primeira mulher a governar uma democracia moderna: Margaret Thatcher. Isso feito, contando da minha emoção com “A Dama de Ferro“!

Ser poderosa é como ser uma dama. Se você tem que provar aos outros que você é, você não é.” (Margaret Thatcher)

O título do filme – A Dama de Ferro – cria uma expectativa de que se verá nele apenas a trajetória política dessa grande estadista. Mesmo que esse lado até nos livros escolares é mostrado, o filme mostra sua subida ao poder e depois seu declínio como passado. Vêem em lembranças em momentos de lucidez, devido a sua condição real e atual: por estar com Alzheimer. Mesmo que até pelo filme não dá muito para dissociar a Política da Mulher, também é por ele que esse outro lado ficamos conhecendo: o de uma mulher a frente do seu tempo. Se alguns acham injustos mostrarem ela já nesse período outonal da vida, que olhem por um outro prisma: a de que certas doenças terminam por tirar de cena quem ainda tem muito por fazer em vida. Então que vejam como um Tributo a essa que fez História: Margaret Thatcher!

Lembranças não podem ficar apenas na memória. Com o tempo, elas se apagam.” (Everton Nunes)

Eu gosto de filmes biografias. Claro que de imediato há uma certa liberdade em como contarão uma história. Primeiro com um texto, depois dando a ele uma nova leitura, e ai já dentro de um contexto visual. Ficando ainda com o Roteiro. Quem escreveu sobre esse filme foi Abin Morgan. Que pelo o que eu li, ela baseou-se em um livro escrito pela filha de Thatcher, o: “Diary of an election: with Margaret Thatcher on the campaign trail in 1983“. Mas como a presença do marido de Thatcher no filme é bem marcante, creio que a Abi também leu um outro da Carol Thatcher, com a biografia de seu pai, Denis Thatcher, o “Below the Parapet“.

Isso vem reforçar, que mesmo o filme partindo da realidade atual de Thatcher, e apenas mostrando o seu passado em flashback, está sim reverenciando essa que foi uma das grandes Personalidades do século XX. Partiu de um olhar da própria filha, passou pelo de Abi, chegando no da Diretora Phyllida Lloyd. E essa por sua vez tinha diante de si um desafio, em contar com muita sensibilidade verso e reverso dessa mulher. A escolha de Meryl Streep foi perfeita! Como também da que faz a Thatcher mais jovem: Alexandra Roach; sendo que essa com um biotipo de acordo com ambas: a real e a Meryl. Saindo-se bem. Conseguiu fazer uma bela ponte para Meryl Streep. Essa por sua vez nos leva com emoção até o final. Um Bravo para todas essas Mulheres, reais e da ficção!

Merece também os aplausos quem fez a maquiagem em Meryl Streep: J. Roy Helland. Foi perfeito no envelhecimento. Ficou muito real. Muito natural. Dando a personagem um envelhecer nada caricato. Em “A Dama de Ferro” também o Figurino como o Cenário atuam como um coadjuvante de peso. É uma bela viagem a um passado recente. E numa Londres sedutora.

O Pai (Iain Glen), o Amigo Airey Neave (Nicholas Farrell), o espirituoso Marido Denis (Jim Broadbent), e o Filho. Esses foram os homens que pontuaram a vida de Margareth, mesmo tendo boa parte dela em meio a um número muito maior. Os três primeiros lhe deram incentivo para que sempre seguisse em frente; e que só a morte que os separaram dela. Dois, morreram de causas naturais. Já o amigo dileto, vítima de um atentado. Já o filho… Bem, esse só aparece em criança. Talvez não tenha perdoado de todo a mãe. Talvez ainda se sinta abandonado pela mãe. Talvez ainda achando que lugar de mulher é em casa.

Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer por seu país!” (John F. Kennedy)

Margareth Thatcher governou o Reino Unido de 1979 até 1990. Num Parlamento onde até então era um território masculino. Fora uma Primeiro-Ministro que não fez política, nem politicagem. Bateu de frente com os Sindicalistas, fazendo com que eles entendessem que manter o emprego era mais importante que lutar por regalias. Talvez, que compreendessem que deveriam sim lutar por capacitar melhor os trabalhadores. Obstinada, tirou o Reino Unido da recessão pela Crise do Petróleo. Escapou de um atentado, em 1984. Ganhou o título – Dama de Ferro -, por severas críticas a União Soviética. Determinada, sua popularidade se solidificou com a Guerra das Malvinas. Mas com oposição até de dentro do seu partido, até suas qualidades eram minadas por eles. Sozinha, se viu na obrigação de renunciar ao cargo também no Partido Conservador.

O marido de Margareth, Denis (Jim Broadbent), fora também o seu melhor amigo. Um fã como também um crítico sincero do lado político dela. Apaixonado, foi com certeza o seu porto seguro. Já que diariamente, ao longa da sua vida política, e até o dia da sua renúncia, ela se via sozinha na arena. Assim, tendo que matar um leão por dia, saber que teria o colo do marido, dera a ela suporte para seguir em frente. Como fizera antes, seu pai. Sempre a incentivando a fazer uso da sua inteligência. Machuca, quando ela tem que enterrar de vez, Denis. Em respeito a tudo que ele representou, era preciso fazê-lo em um dos momentos de lucidez. Em ainda sendo a Margareth Thatcher, a esposa que o amava. Porque dali em diante, por conta do Alzheimer, já poderia nem mais saber quem ela foi algum dia. Sem esquecer também do ator Harry Lloyd que faz o Denis quando jovem. Ele também é muito carismático.

Um líder é alguém que sabe o que quer alcançar e consegue comunicá-lo.”

Para mim o filme conseguiu sim mostrar quem foi A Dama de Ferro! Uma guerreira! Uma mulher que não se intimidou com arenas com muita testoterona, e no âmbito internacional. Ele também nos leva a mais que julgá-la tentar entender o porque de suas atitudes. Mas sobretudo, o filme faz uma radiografia da pessoa como um todo: a filha, a esposa, a mãe, a política, a amiga, a primeira-ministra, a patroa, a governante… e a mulher solitária que a doença além de afastar as pessoas a deixa como uma prisioneira. De mulher para mulher: bateu orgulho em conhecer um pouco mais dela! Mesmo lembrando que na época, minha torcida fora para a Argentina. Por tudo o que mostrou e do jeito como contou eu digo que foi um fechar às cortinas que me emocionou! Que eu até voltaria a rever, principalmente para ver de novo as cenas com essa dupla: Meryl Streep e Jim Broadbent.

Um filme que assisti com brilho nos olhos. Que me levou a emitir umas sonoras interjeições, ora como um elogio a ela e ao marido, noutras em solidariedade, algumas com pesar, e outras foram mesmo uns sonoros palavrões, mas por certas situações. Uma delas por conta do banheiro feminino no Parlamento. E isso foi um nada por tudo aquilo que teve que enfrentar. Bravo, ao casal Margaret e Denis Thatcher!

Então é isso! “A Dama de Ferro” é um filme excelente! Que mesmo com lágrimas nos olhos, me fez sorrir por também querer bailar ao som de ‘Shall We Dance?’ do filme ‘O Rei e Eu’ (1956).
Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Dama de Ferro (The Iron Lady. 2011). Reino Unido. Direção: Phyllida Lloyd. +Elenco. Gênero: Biografia, Drama, História. Duração: 105 minutos.

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Filmes que Citam Livros

Já falei aqui numa outra ocasião que o cinema está sempre citando os clássicos da literatura ou é a própria literatura.

O livro O Apanhador no Campo de Centeio deve ser o recordista, tanto que já perdi a conta de quantos filmes o citaram, (exagero da minha parte) aparece em “Teoria da Conspiração” e no filme “Capítulo 27“. “Oliver Twist” é o Charles Dickens, não? Woody Allen cita constantemente Dostoievski em suas obras. Em “Match Point”, no desfecho, o protagonista está lendo Crime e Castigo, depois de se tornado assassino, comemorando por não ter sido descoberto (Crime perfeito?). Em O Morro dos Ventos Uivantes é o próprio de Emily Bronte; e é citado no filme “A Proposta”. “Meu Primeiro Amor” cita Guerra e Paz de Tolstói. Já o filme “10 Coisas que Odeio em Você” é o próprio de Shakespeare. O filme “O Clube de Leitura” de Jane Austen que obviamente fala sobre as obras da própria. Em “Um Amor para Recordar“, há uma encenação de obras de Shakespeare. No filme “O Leitor” cita obras de Tchekhov, e por aí vai…

O filme “A Casa do Lago” que revi recentemente, além de citar Persuasão de Jane Austen, cita também o clássico de Dostoiévski, Crime e Castigo, logo na cena inicial na conversa entre mãe e filha:

Kate (Sandra Bullock) – O que é isso?
Mãe – Nada de importante. É um livro do seu pai.
Kate – Dostoievski?
Mãe – Huuuummm, sim! É sobre um homem que quebra o pescoço de uma pobre mulher com um machado. Aí ele se martiriza e se arrepende.
Kate – Gostou?
Mãe – Gostei, muito bom!
Mãe – Hummm, o que está pensando?
Kate – Nada…
Mãe – Quando seu pai faleceu foi penoso…. ao segurar os livros dele eu sinto que está comigo… saber que ele leu as mesmas páginas, as mesmas palavras…

*
CRIME E CASTIGO – DOSTOIEVSKI (Fragmentos):

Há muito tempo que já se enraizara e crescera nele toda a tristeza que sentia agora; nos últimos tempos ela se acumulara e se reconcentrara, assumindo a forma de uma horrível, bárbara e fantástica interrogação que torturava o seu coração e a sua alma, reclamando uma resposta urgente.”

Mas a ciência hoje diz: ‘Antes de mais nada ama-te a ti próprio, porque tudo no mundo está baseado no interesse pessoal. Se amares a ti próprio farás os teus negócios como devem ser, e o teu cafetã permanecerá inteiro’.”

Acham que eu estou assim porque eles mentem? Tolice! Eu gosto que eles mintam! A mentira é o único privilégio do homem sobre todos os outros animais. Mente, que vais acabar atingindo a verdade! É precisamente por ser homem que eu minto. Nem uma só verdade poderias alcançar se antes não mentisses quatorze vezes, e até cento e quatorze vezes, o que representa uma honra sui generis; simplesmente, nós nem sequer sabemos mentir com inteligência! Tu mentes, mas mentes de uma maneira especial, e eu ainda por cima te dou um abraço. Mentir com graça, de uma maneira pesssoal, é quase melhor que dizer a verdade igual todo mundo; no primeiro caso é um homem e, no segundo, não se é mais que um papagaio! A verdade não anda depressa, mas podemos fazer a vida correr; há exemplos disso.”

Nesse sentido, efetivamente, todos nós, e com muita frequência, somos quase dementes, com a única diferença que os doentes são um pouco mais loucos do que nós, porque repare, é preciso distinguir. Mas é verdade que não existe o homem normal, de maneira nenhuma; talvez entre dezenas, e pode até ser que entre centenas de milhares, apenas se encontra um, e, ainda assim, em exemplares bastante fracos…

Após ter pronunciado essas palavras tornou a ficar perplexo e empalideceu; outra vez como que uma nova e terrível sensação de frio mortal lhe correu pela alma, de repente compreendeu claramente que acabara de dizer uma mentira horrível, que não só não teria mais oportunidade de falar com ninguém, como jamais teria de que nem com quem falar. Foi tão violenta a impressão que essa dolorosa idéia lhe causou que, por um momento, se esqueceu praticamente por completo de tudo, levantou-se do seu lugar e, sem olhar para ninguém, quase saiu do quarto.”

*
Folhear livros que alguém já tenha lido e uma sensação estranha e uma experiência única. Não sei bem quem leu antes de mim ou quantos leram o meu Crime e Castigo comprado num sebo na época de estudante. Ler é viajar através das palavras e quando o livro é usado, então, como diz um filme que fala de livros, é uma “Historia sem Fim“, queremos saber quem, quando, onde, e tudo o mais do livro e dos leitores anteriores, do autor, dos personagens, lugares… lemos e descobrimos novos encantos ao relermos.

K.R.

COMER REZAR AMAR (2010). Um Mergulho no Universo Feminino.

_Sabe quando reformou a cozinha, comprou um livro de receitas, e disse que iria aprender a cozinhar? Pois bem! Isso é o mesmo que ir meditar na Índia. Só que em cultura diferente.” (*)

Deixo um convite a Todos, não importando o sexo, e quase para todas as faixas etárias – para os adolescentes também. Que vão assistir esse filme – “Comer, Rezar, Amar“. Para que conheçam, entendam, sintam o que é ser mulher. Porque nele não é mostrado apenas a cabeça da personagem principal, mas de muitas. Desde a cabeça de uma menina aos quatro anos de idade, até de mais idosas. Aos homens, fica um convite especial. Verão qual é o limite que leva a uma mulher a dar um basta numa relação. Mesmo ainda sentindo amor por ele.

Assim, após assistirem, o convite é para uma troca de impressões. O porque disso? É que a partir daqui, o texto terá spoiler. Hesitei um pouco se traria ou não, mas senti uma vontade intensa em destacar vários trechos desse filme. O que ficaria complicado sem contar os detalhes.

Não li o livro, mas fiquei com vontade de ler. Como também, de ter o dvd. Até porque nele há várias falas que eu gostei. Clichês ou não, elas traduzem uma cabeça comum: livre de um certo pedantismo advindos de muitos estudos. Mas também sempre gostei de colecionar Citações, que para mim segue junto na composição de um texto. Gosto tanto, que até abri uma comunidade no Orkut de Frases de Filmes. Em “Comer, Rezar, Amar“, essas frases, a maioria delas, são como peças de um quebra-cabeça para se chegar a mente feminina. São várias reflexões que na montagem final temos o universo singular e particular de cada uma delas. E porque não, de cada uma de nós.

A fala com que iniciei o artigo, a escolhi, primeiro por mostrar um dos propósitos da protagonista, depois pela sapiência contida nela. Pela Liz (Julia Roberts), surgiu nela uma busca espiritual. Pela frase como um todo, em mostrar que essa busca não depende muito do lugar, mas sim da ferramenta usada. Mais até, em desligar a mente da questão maior fazendo outra coisa até fora da rotina diária. O que me lembrou de uma frase que ouvi num filme (Layer Cake): “Meditar é concentrar parte da mente numa tarefa mundana para que o restante encontre a paz.“ Também por mostrar que cada pessoa agirá de um jeito próprio, quando se dispõe a se conhecer por inteiro. Alguns levarão anos, outros, o farão num tempo menor. Outros nem terão esse desejo, e nem por isso serão infelizes. O que a estória mostrará, é um encontro com a religiosidade.

Ter um filho é como fazer uma tatuagem na cara. Você precisa realmente ter certeza de que é isso que você quer antes de se comprometer.”

A Liz encontra-se às vésperas de completar trinta anos de idade. Que seria uma data marcada para uma mudança radical em sua vida. Algo decidido num passado recente, por ela e o então marido, Stephen (Billy Crudup). Talvez uma promessa feita no calor da paixão. Haviam decidido que ela sossegaria, teriam filhos, que se dedicaria mais ao lar. Tudo já planejado. Num processo depressivo, em vez de remédios, decide rezar. Pedir a Deus que lhe mostre um caminho. E é quando se houve: se sua mente estava conturbada, seu corpo, cansado fisicamente, clamava por uma boa noite de sono.

Acontece que Liz não se via como mãe. Não ainda. Diferente de sua grande amiga Delia (Viola Davis). É Delia quem tenta convencê-la a não partir, a não abandonar a casa que ela, Liz, participou ativamente da reforma à decoração, e principalmente a não se separar de Stephen. Delia sempre quis ser mãe, dai não entendia muito o fato da amiga não querer. O que me fez lembrar de um fórum recente. São escolhas que em nenhum momento denigre uma mulher. Aliás, um dos pontos positivos que esse filme trouxe, é o fato da mulher se libertar daquilo já imposto pela sociedade. Uma liberdade que ainda pesa quando parte da mulher. Um largar tudo e botar o pé na estrada ainda é um território masculino. Assim, quando uma jornada dessa é feito por uma mulher: recebe a minha benção.

As pessoas acham que a alma gêmea é o encaixe perfeito, e é isso que todo mundo quer. Mas a verdadeira alma gêmea é um espelho: a pessoa que mostra tudo que está prendendo você, a pessoa que chama a sua atenção para você mesmo, para que você possa mudar a sua vida. Uma verdadeira alma gêmea é provavelmente a pessoa mais importante que você vai conhecer, porque elas derrubam as suas paredes e te acordam com um tapa. Mas viver com uma alma gêmea para sempre? Não! Dói demais. As almas gêmeas só entram na sua vida para revelar a você uma outra camada de você mesma, e depois vão embora.

Liz não entendia ainda o porque do desconforto sentido em seu relacionamento com Stephen. O amava, mas seu interior estava sufocado. Ao se separar, apesar do litígio, se sentia culpada pelo rompimento. Só se libertaria desse peso, em sua passagem pela Índia. Uma cena emocionante, que me levou às lágrimas. É que meus olhos já estavam marejados pela anterior a essa. Quando a vida apresenta que não podemos nem esperar muito de alguém, nem que esse alguém, também espere muito de nós, vem como uma libertação. Para alguém com o pé no mundo, cada dia era de fato um novo dia.

Liz após esse rompimento, conhece David (James Franco). Um jovem ator. Com esse romance, era mais uma tentativa de se encaixar nas tradições. Mas por ser alguém muito Zen, David leva Liz a conhecer um lado religioso. Por ele, indiretamente, lhe vem a vontade de ir a Índia. Conhecer de perto o Templo, e a comunidade da Guru. Mas isso só se concretizou, quando viu que com David também levaria um casamento tradicional. O acorda veio com uma observação de um amigo. Com David, o rompimento em definitivo, vem num email.

Aprenda a lidar com a solidão. Aprenda a conhecer a solidão. Acostume-se a ela, pela primeira vez na sua vida. Bem-vinda à experiência humana. Mas nunca mais use o corpo ou as emoções de outra pessoa como um modo de satisfazer seus próprios anseios não realizados.

Liz se dá conta de que passou grande parte da vida sem um tempo só pra si. Tão logo saia de um relacionamento, entrava em outro. Então resolve fazer a sua jornada. Como era alguém que queria sempre ter controle da sua vida, mesmo querendo fugir de tudo planejado, traçou uma rota. Ficaria um ano longe de família, amigos, carreira, NY… Passaria quatro meses em cada um desses países: Itália, Índia, Indonésia. Ela vê uma curiosidade na escolha dos três: começam com “I”, que em sua língua, é “Eu”. Faria um encontro com ela mesma; com o seu self. Algo que eu adorei nessa sua peregrinação foi o fato de não fazer um caminho solitário. Mesmo indo sozinha, não se isolou do mundo, das pessoas.

Seu período na Itália veio como puro prazer. Quase como o alimentar o corpo. Transgredindo o pecado da gula. Primeiro, ou melhor, a escolha por esse país partiu porque sempre quis aprender a língua italiana. Mas chegando lá, descobriu também o prazer em comer. Ela tinha fome! De comer sem culpa. Comer sem se preocupar em engordar. De comer até se fartar. Afina o seu paladar entre sabores, aromas e saberes.

A cena da Julia Roberts saboreando um espaguete – e do jeito que eu amo: com muito molho de tomates -, ficará na memória. Sabe aquele prato que te leva a esquecer do mundo? Que lhe vem à mente – Não quero que nem Deus me ajude!? A cena em si, nos leva a pensar nisso. E regada ao som de: Der Hölle Rache Kocht In Meinem Herzen.

Mas esse período não ficou só em comilanças, e conhecendo a cultura e o jeito de levar a vida dos italianos. Liz faz uma descoberta de si mesma. A de que há partes da sua personalidade que ficarão para sempre. Que se adaptarão a cada nova realidade que a vida lhe trouxer. O que me levou a pensar nessa frase da Clarice Lispector: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.” Liz aprenderá a canalizar essas forças dentro de si, nos períodos passados nos outros dois países.

Ainda na Itália, lhe vem o desejo de encontrar a sua palavra: aquela que a definirá. Que será o seu norte. E a palavra vem na Itália, mas só terá consciência dela em Bali. Voltarei a ela mais para o final.

Galopamos pela vida como artistas de circo, equilibrados em dois cavalos que correm lado a lado a toda velocidade – com um pé sobre o cavalo chamado ‘destino’, e o outro sobre o cavalo chamado ‘livre arbítrio’. E a pergunta que você precisa fazer todos os dias é: qual dos cavalos é qual? Com qual cavalo devo parar de me preocupar, porque ele não esta sob meu controle, e qual deles preciso guiar com esforço concentrado.”

Na Índia, antes de chegar ao Templo da Guru, fica assustada com o trânsito local. Numa de se perguntar em como do caos chegam ao equilíbrio zen. Já no Templo, constata que tal como o de NY, não há a presença física da Guru, mas sim um retrato. Depois entenderá que a busca é para dentro de si.

Essa sua passagem pela Índia, nos leva do riso às lágrimas. A diferença cultural, mais que deixá-la em choque, a levará a se por em xeque. Ela quis aprender a se devotar a algo maior. A encontrar a espiritualidade em si.

Duas forças amigas serão o peso em sua balança. De um lado, uma jovem indiana, Tulsi (Rushita Singh) que sonha seguir carreira como Psicóloga. Que gostaria de se rebelar com o seu destino: um casamento arranjado. Tradição familiar e cultural. Liz vai a cerimônia de casamento, e dá um belo presente a jovem. Algo não material. E que também fez com que Liz descobrisse mais de si. Que fazemos parte de uma engrenagem, não somos, não devemos nos ver como peça isolada o tempo todo. Há vários momentos que estaremos em contato com alguém. Então, é saber a arte de uma boa convivência. Mais! Que há vivências que não teremos como escapar. Assim, o melhor a se feito é tirar um proveito da situação.

Do outro lado, estava Richard (Richard Jenkins), o seu James Taylor. Richard ficava levando-a a conhecer seus limites, para então ultrapassá-los. Além do ex-marido, do jovem ator, ele foi mais um personagem masculino a mostrar que não basta só um querer manter a relação a dois. No caso dele, o desrespeito chegou aos extremos: bebidas, drogas, relações extra-conjugais… Ao contar a sua estória, dá um aperto no coração. Principalmente quando pessoas como ele, fazem parte do nosso ciclo, ou familiar, ou de amizade. Certa vez, eu perguntei a uma pessoa se fora preciso mesmo abraçar uma religião, para então dá valor a linda família que possuía, e ele disse que sim.

Liz, Richard e Tulsi foram parar ali por motivos diferentes, mas igual no que buscavam: depurar o passado, se adequarem ao presente, para então seguirem mais confiantes para o futuro. Inconscientemente, um ajudou o outro nessa busca. Dos três, o fardo maior trazido do passado, era o de Richard. Perdera um tempo enorme de não ver o filho crescer, por não o ter colocado antes em sua vida. Voltando ao tema do início. De que maternidade e paternidade tem que querer de fato. Até pela responsabilidade que terá com a criança. E quando Liz consegue perdoar a si própria… minhas lágrimas desceram. Leve. Por me levarem a pensar num momento meu.
Eu quero vê-la dançar novamente“… Livre, era chegada a hora de seguir em frente. Próxima parada: Bali.

Imagine que o universo é uma imensa máquina giratória. Você quer ficar perto do centro da máquina – bem no eixo da roda -, e não nas extremidades, onde os giros são mais violentos, onde você pode se assustar e enlouquecer. O eixo da calma fica no seu coração. É aí que Deus reside dentro de você. Então, pare de procurar respostas no mundo. Simplesmente retorne sempre ao centro, e sempre vai encontrar a paz.”

Da vez anterior, que estivera a trabalho em Bali, Liz conhecera um Xamã: Ketut. Uma figuraça! Então, o procura. Gostei muito mais de Ketut – até pelo seu jeito irreverente de ser -, do que da Guru da Índia. Ketut, mesmo com todo o peso de ser um Xamã, é alguém mais objetivo. Ligado com o que há por vir. Por conta disso, propõe uma troca a Liz: ela transcreveria seus manuscritos – que com a ação do tempo estavam se esfarelando – e ele a ajudaria nesse seu vôo em sua alma. Ah! A companheira de Ketut mostra-se uma mulher de grande sapiência.

Se na Índia, Liz se livrou de bagagens inúteis para seguir em frente, em sua passagem por Bali iria aprender de fato a adequar sua personalidade com tudo mais a sua volta. A ter um equilíbrio, até quando a vida lhe tirasse dele.

Em Bali, Liz conhece uma Doutora da Floresta: alguém que cura pelas plantas. Ela é Wayan (Christine Hakim). Tem uma filha, Tutti (Anakia Lapae). Uma menina que aos 4 anos de idade, dá um sábio conselho à mãe. Que mesmo sendo penoso, até por conta da cultura local, Wayan aceita. As três ficam amigas. E por elas, Liz entende que há mais religiosidade num ato, do que passar horas num templo. Seu ato, faz um resgate a uma vida condigna a essas duas amigas. Mãe e filha não precisariam mais ficarem peregrinando. Ganham de Liz, e de seus amigos, um porto seguro. O mundo carece de atitudes como essa.

Ao longo dessa sua peregrinação, Liz convive com várias mulheres. De culturas diferentes. Algumas, como ela, nadando contra a correnteza, ou pelo menos, tentando. Mas mesmo as que seguem como reza a tradição, não estão infelizes. Esse é um dos pontos altos desse filme. É um verdadeiro ode a alma feminina.

Quando tudo parecia seguir por um caminho certo, Liz se vê literalmente jogada para fora da estrada. Bagunçando o seu equilíbrio novamente. Seria o destino testando-a? O autor dessa proeza seria o homem que Ketut viu nas linhas de sua mão? Aquele com quem teria um longo relacionamento? O que sustentaria essa ligação por anos? É quando entra em cena o personagem de Javier Bardem: Felipe. Alguém que trazia também um peso do passado.

Pausa para falar do ator, ou melhor, do homem: Javier Bardem. Ele está um tesão nesse filme. A maturidade o deixou mais sedutor. Lindo demais! Mesmo eclipsado pela performance da Julia Roberts, eu gostei dos dois juntos. Deu química.

Seu personagem é um brasileiro que adotou Bali como Lar. Tal como Liz, é alguém que ama viajar. O prazer nisso, até por força da profissão. No momento da estória, ele é um Guia Turístico em Bali. Leva Liz a conhecer aromas e sabores da cultura local.

Fazendo ele um brasileiro, fica difícil não comentar duas coisas:
– o filme passa a ideia de que pais brasileiros beijam seus próprios filhos na boca. De que isso é algo cultural. Como eu não li o livro, não sei de onde tiraram isso. Não há esse costume aqui.
– o lance dele dizer muito “Darling!”. Se é como “Querido(a)!”, também o costumeiro por aqui, ganha a conotação de algo superficial. Mas o seu personagem passa a ideia de um tratamento afetuoso, de intimidade com a pessoa.
É o único ponto negativo em todo o filme. Nem a longa duração do filme, me fez perder o brilho nos olhos. Até porque, sendo bem contada, eu gosto de uma longa estória.

Como citei anteriormente, “Comer, Rezar, Amar” traz várias falas reflexivas, e uma delas vem com a palavra que Liz então escolhe para si. Que para mim, é a que melhor traduziria como deveria ser uma relação a dois: attraversiarmo. É, ela a escolheu na língua italiana. Ela faz a ponte para a união de dois seres distintos. Donos de suas particularidades, um não anulará isso no outro. Saberão encontrar o ponto em comum, e respeitando as diferenças. Mas principalmente, respeitando o parceiro, a união, o porto seguro que farão com essa relação.

E é Ketut que leva-a a descobrir que estava pondo tudo a perder, ao voltar aos velhos hábitos. Deveria se entregar de corpo e alma a esse universo que chegara à sua porta. Isso, se colocava fé nessa relação. Até porque, os relacionamentos certinhos demais, de outrora, nunca a deixara satisfeita. Também, algo como o jovem Ian (David Lyons) propunha não era o que queria. Então, por que não vivenciar o que Felipe lhe propôs? Uma ponte entre NY e Bali… Em sua despedida ao Ketut, minhas lágrimas desceram…

A estória, ou as estórias, a Fotografia, a Trilha Sonora, as atuações… tudo em harmonia para um filme nota 10. E que entrou para a minha lista de que vale a pena rever. Não deixem de ver.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Comer, Rezar, Amar (Eat, Pray, Love). 2010. EUA. Direção: Ryan Murphy. +Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 133 minutos. Baseado no livro homônimo e autobiográfico de Elizabeth Gilbert.

(*) Foram tantas as Citações, que essa logo no início, me fugiu um pouco a lembrança palavra por palavra. Quando eu encontrar a transcrição literal, eu trarei para cá. Por hora, fica o sentido da fala.