Fatal (Elegy. 2008)

Por: Lidiana Batista.

“Fatal”, baseado na obra do escritor Philip Roth e dirigido pela cineasta espanhola Isabel Coixet, diretora de outras películas como: “Minha vida sem mim“, “A vida secreta das palavras“, conta a história de David Kepesh, brilhantemente interpretado pelo ator Ben Kingsley.

David é um renomado professor universitário, crítico de arte e que sente seu ego inflado por saber que é objeto de desejo de suas alunas (necessidade de autoafirmação). Toda essa confiança cai por terra no dia em que ele conhece Consuela Castillo (Penélope Cruz, que quando bem dirigida consegue convencer), uma jovem segura de si, inteligente e bonita.

Eis que o professor de meia idade se vê envolvido com a jovem quase 30 anos mais jovem. David se torna inseguro não só pela idade, mas porque ele sabia que aquele relacionamento chegaria ao fim, já que ele não conseguia manter uma relação estável com nenhuma mulher.

David vive essa paixão. Sua vida encontra-se em total desiquilíbrio, ele teme um futuro com Consuela, sente que esta envelhecendo, e segundo ele mesmo diz: “Consuela tem toda a vida pela frente.” E ele não?

Apesar do filme mostrar toda a insegurança de David, o que para o expectador é bastante compreensível, compreendemos também o lado de Consuela. Jovem, linda e quer viver essa paixão, a diferença de idade nunca foi um obstáculo para ela, pelo contrário, ao lado de David, ela se sente segura, se sente amada.

Então, o que impediria esse romance? Bem, David tem um caso puramente sexual com uma mulher há mais de 20 anos. Ela é seu alicerce, é ela quem oferece o equilíbrio que David necessita, ela traz a segurança para o homem que precisa se autoafirmar o tempo todo.

Em outro momento do filme, este equilíbrio também é demonstrado quando George (Denis Hopper), melhor amigo de David, e que foi infiel a vida inteira, adoece e se vê sob os cuidados da esposa traída. Será isso então que os homens precisam? Alguém que não coloque em xeque seus sentimentos, desempenho sexual, suas vidas perfeitamente planejadas? E a mulher? Do que ela precisa?

A relação com o filho é algo delicado. O filho, um homem já feito, casado, médico, culpa o pai por ter abandonado o lar. Essa relação foi pouco explorada porque não fica claro se David tentou realmente uma aproximação com o filho. A grande questão, é que quando o rapaz questiona esse abandono, David é categórico: “fui honesto”. E de fato o foi, foi honesto com sua ex-mulher e consigo mesmo. Mas fica a pergunta: estaria ele sendo honesto com Consuela e com seus sentimentos? Se escondendo atrás da insegurança e do medo de envelhecer?

Um outro ponto que pode ser discutido é sobre a beleza da mulher. “As mulheres bonitas são invisíveis”. E são mesmo! Vistas como objetos sexuais, alguém para se passar uma noite e depois se gabar com os amigos, ninguém sabe como são solitárias, que choram à noite, e que são também apreciadoras da arte (no caso de Consuela).

Esses são apenas alguns pontos que podem ser discutidos, vale ressaltar que cinema é algo subjetivo e talvez essas questões levantadas podem ter passado despercebidas para quem já assistiu. No entanto, fica a dica para quem gosta de refletir sobre o medo de amar, a fraqueza do ser humano e sua insegurança.

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Tiranossauro (Tyrannosaur. 2011)

Por: Celo Silva.

Certos filmes mexem tanto com o íntimo do espectador que fica difícil traçar um panorama sobre ele, talvez por temer não conseguir ter propriedade para expressar os reais sentimentos que sente pela obra. “Tiranossauro” flerta com elementos de dramas tradicionais, mas assim não deve ser considerado. Transcende um alinhamento clássico, apostando em certa ousadia na hora de tratar de assuntos difíceis e delicados de maneira pouco usual. Aqui, os personagens não são rasos como na maioria dos dramas atuais. Por isso, talvez, cada vez mais esses tipos de obras vem sendo apontadas como independentes. Entende-se por “filme independente” aquele que foge de propostas comerciais da indústria cinematográfica, valendo-se da expressão artística de seu realizador. Bem, se a última sentença é fato, é inevitável não dizer que o excelente Tiranossauro seja um filme que se enquadre nessa alcunha.

Até pelo caráter de estréia na direção de longas do ator inglês Paddy Considine, fica difícil não afirmar o seu trabalho como indie, mas mesmo para um tipo de realização da onde tem surgido com freqüência bons exemplares de cinema, Considine consegue fazer um filme muito acima da média. Daqueles que crescem na memória afetiva de quem tem o prazer de apreciá-lo. Como é o seu primeiro filme, o qual também roteiriza, não dá para afirmar assim um estilo totalmente autoral para o cinema de Considine, mas empolga perceber que um bom diretor está se formando.

A trama de Tiranossauro gira em torno de Joseph (Peter Mulan), um agressivo homem que vive de apostas em jogos, de bebedeira e confusões na vizinhança. Um dia desses, ele conhece Hannah (Olívia Colman), uma mulher dona de um brechó que o ajuda após uma incursão em sua rotina auto-destrutiva. Apesar de aparentemente diferentes, um disfuncional vinculo entre eles se forma. Os dois parecem ser bem opostos, mas tem algo em comum. Talvez seja a amargura, a decepção, a ausência de perspectivas ou mesmo a falta de amparo e amor.

Porém, mesmo com suas possivelmente nuances que poderiam conduzir para cenas climáticas que enobreceriam de forma edificante os personagens, não esperem de Tiranossauro algo altamente nobre. Sim, existe nobreza nos personagens, mas ela surge de uma maneira transviada, baseada em alguma esperança de que tudo pode ser diferente; até ingênua, como em certo momento Joseph cita na explanação do porque do titulo atípico do filme.

Tiranossauro é daquelas obras que fazem o sangue fervilhar de tantas situações limites, até porque a maioria delas pode surgir na vida de qualquer um. A raiva e tristeza estão presentes em quase todos os momentos, mas Considine não preza por elucidar beleza desses fatos. A intenção é ser o mais cru e cruel possível, fazendo o espectador sentir na pele o que Joseph e Hannah estão passando. Joseph não lida bem com a doença terminal de seu melhor amigo, Hannah sofre com a perversidade do marido. Joseph tem que lidar com as injustiças cometidas contra um garoto que é seu vizinho, Hannah tem medo até de voltar para a casa. Eles amarguram e padecem, e muito, é verdade, mas são daqueles que não se refutam a tomar atitudes, mesmo que extremistas, mas nesses atos, acabam cada vez mais por se aproximarem um do outro.

O trabalho de direção de Considine deve ser mesmo louvado, Tiranossauro também tem seus bonitos travellings, além de editar com naturalidade seqüências tensas e violentas com outras puramente sentimentais, cheias de angustias e aflições. Exemplo claro disso é na explosiva cena que culmina com Hannah implorando para que Joseph a abrace. Verdade seja dita, as atuações de Peter Mulan e Olívia Colman são algo fora do comum. Os dois atores estão soberbos defendendo seus personagens e são a força motriz para que essa maravilhosa obra engrene e ganhe força, fazendo o espectador terminar a sessão com a boca seca e a pulsação acelerada.

Tiranossauro é o tipo de filme que precisa ser visto, porque cinema também serve para representar e discutir a alma do ser humano, mesmo sendo em suas falhas e temores, e como sempre procuramos por um recomeço.

Gato de Botas (Puss in Boots. 2011). E o Valor de uma Amizade!

Fizeram uma homenagem ao escritor Charles Perrault, criador do “Gato de Botas“. É que em vez de uma Galinha dos Ovos de Ouro, colocaram uma Mamãe Gansa por conta do livro de contos infantis “Contos da Mamãe Gansa“, publicado em 1697; sendo um desses conto o do Gato de Botas. Cujo resumo da história é: Um moleiro possuia três bens: um moinho, um burro e um gato. Ele resolve repartí-los entre os três filhos na hora da morte. O filho mais moço, que recebeu o gato, ficou muito descontente, mas o gato demonstrou que um amigo leal e astuto vale mais que as riquezas.

O porque disso foi que deram uma nova história para esse famoso personagem que povoou o universo das nossas infâncias. Válido essa mudança? Sim! Não apenas pela liberdade poética que todos Roteiristas e/ou Diretores têm, mas também porque pelo o que li, pode ter continuações. O Roteirista principal dessa nova história é o mesmo que fez o soberbo “Como Treinar seu Dragão“, William Davies. Ele manteve a essência do original: Amigo leal, e de uma muita astúcia quando em perigo. Sacana, mas de índole boa.

Essa nova versão traz como pano de fundo, ou como nos finais dos Contos Infantis (De um tempo onde havia “estória” e “história”.), a moral da estória: o valor de uma verdadeira amizade. Bom, já que direcionado muito mais a um público infantil. Até porque essa amizade foi colocada em xeque: um não suportou ficar à sombra do outro. Ciúme, orgulho ferido, o ter sido preterido, o se sentir o patinho feio… Enfim, tudo isso seriam coisas momentâneas se não trouxesse como algo nato. Preocupado só em ter uma riqueza, a título de comprar um bem querer dos outros, levou a vida só planejando tal meta. Esquecendo-se do algo importante: viver a jornada. Me estendi nesse ponto porque é um filme que pode ser debatido em Sala de Aula. Uma sabedoria a mais para essa nova geração: valores morais e essenciais.

A amizade que nasceu dentro de um orfanato, parece que para um deles morreu também ai, mesmo tendo recebido carinho da dona desse lar adotivo: Dona Imelda. Ele é Humpty Dumpty. Esse personagem é de outro também grande escritor: Lewis Carroll. Que simboliza a instabilidade, ou o tentar equilibrar duas forças que se opõem em si mesmo. Numa linguagem simples: o lado do mal e o do bem. Será alguém que carregará esse peso, não apenas na consiência, como também nas ações. Para que lado penderá.

Onde Humpty Dumppty traz uma identificação, é no fato de por em prática seus desejos. Que na trama do filme está ir buscar quem produz os ovos de ouro. A aventura em si que fará seu amigo vivenciar, é fascinante. A grande questão é o que está por trás desse seu gesto. Conflitos que terá que arcar, já que é um problema dele, e não do amigo.

Gato de Botas é nome e sobrenome. As Botas representam quase uma comenda. Como um título de nobreza. Então, nessa versão elas são mais do que calçados mágicos. E algo que conquistou por um feito heróico. Gesto esse que mais tarde saberá que marcou o começo do fim numa amizade que a seus olhos seria tão promissora: Gato de Botas e Humpty Dumpty – amigos para sempre.

Chris Miller trouxe dos “Shrek” para esse filme aquela carinha que ficou memorável com esse personagem: o olhar de menininho carente. Que por esse gesto, seduzia até o mais durão dos vilões. E que como sabemos de que se trata de um estratagema, seu uso nessa versão também diverte. Os fins justificando os meios.

Como o Gato de Botas ganhara má fama como consequência de acreditar cegamente no amigo, só restou-lhe deitar nessa cama. Assim, de um francês da história original, nessa versão vem como um amante latino, de sangue espanhol. Um Don Juan das gatas. Embalado por uma Trilha Sonora sensacional: caliente, envolvente, vibrante… Nota 10!

Acontece que uma gata lhe dará grande trabalho não apenas na conquista, mas também na parceria arquitetada por Humpty Dumpty. Ela é Kytty Pata Macia. Recebeu essa alcunha pela leveza em roubar os outros sem que ninguém percebesse. Um duelo de dança entre esses dois gatos é de querer rever! E junto com eles, Humpty teria muito mais chance de roubar os Feijões Mágicos, como também escalar o pé de feijão até o castelo onde vivia a gansa que botava os ovos de ouro.

A beleza plástica de o “Gato de Botas” é deslumbrante! De querer até ver cada desenho. Cada Fotografia de tirar o fôlego. O Gato de Botas também merece uma Nota 10. Eu só não gostei muito da imagem da Kitty, não ficou feminina. Muito embora como ela é um felino criado nas ruas, ai sim ficou perfeita. Nota 10, também!

Agora, todo esse aprimoramento teve momentos de levar o filme nas costas. Não sei se por conta de um cansaço físico meu, mas o certo é que teve momentos que ansiei de o filme acabar logo. Não sei se também a história ficou literal demais. Como se quisessem contar toda a história pregressa dele nesse primeiro filme. Até meio que encaixando, e não explicitamente, como ele foi parar depois na “Terra de Tão Tão Distante”, onde vivia o Shrek.

O que também me levou a pensar que uma Animação como “Um Gato em Paris” cujo desenhos são até simples me prendeu muito mais a atenção. Como também eu não vi em 3D, pode ter sido esse o motivo de ter sentido um certo tédio. Se o filme me encantasse por um todo, eu até voltaria a rever, sendo que dessa vez em 3D. Lances assim onde o próprio Diretor diz publicamente que concebeu o filme em 3D, mas que acabou ficando mais uma muleta do que um coadjuvante, ainda me leva a não ver com bons olhos essa febre do 3D. E James Cameron ainda figura sozinho no topo dos longas que usaram com perfeição essa tecnologia, com o seu “Avatar“. Bem, um que brincou com o 3D e nos brindou com tal uso, foi o Diretor Tim Burton. Os Diretores em geral deveriam repensar, e várias vezes, antes de basearem um filme nesse recurso. Até porque muita tecnologia às vezes atrapalha, como também ainda não há muitas Salas para 3D ao redor do planeta. Sem contar do preço do ingresso: nada popular.

Por conta disso, o filme por um todo recebe uma Nota 9. Mas sem me deixar desejando por uma continuação.

Ah, com essa nova “onda” das Animações só serem exibidas em cópias dubladas, segue aqui dois trailers. O primeiro dubado, e o outro legendado. Como eu já comentei num texto, nada contra os Dubladores do Brasil, a questão é em nos dar o direito em optar em assistir na versão original -legendado -, ou dublado.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Gato de Botas (Puss in Boots. 2011). EUA. Direção: Chris Miller. Gênero: Animação, Aventura. Duração: 90 minutos. Página no IMDb com mais detalhes da Ficha Técnica. A listagem com os nomes das Vozes no Brasil: Dubladores.

O Inferno de Henri-Georges Clouzot (2009)

Serge Bromberg e Ruxandra Medrea decidiram fazer um documentário sobre a obra inacabada de Clouzot: “L’Enfer” assim que tiveram acesso a cerca de treze horas de filmagem através da viúva do diretor.

O projeto delirante e caríssimo envolvia estrelas do porte de Romy Schneider (Sissi) no auge de sua beleza e ousadias visuais nunca antes experimentadas. A ação do roteiro original de Clouzot se passava na região de Cantal no centro-sul da França tendo como cenário um suntuoso hotel à beira de um lago. Serge Reggiani fazia par romântico com Romy. As cenas reais da conturbada relação foram rodadas em preto e branco e os delírios causados pelo ciúme doentio do homem em colorido feérico.

O documentário acaba por resultar num fiasco em parte por não se aprofundar nos bastidores da filmagem e por outro lado por deixar o espectador frustrado diante de uma obra-prima despedaçada. Os depoimentos são desinteressantes, inconclusivos e repetitivos até o momento da inesperada morte de Clouzot que aborta o projeto.

No entanto, é valido, exclusivamente para os amantes do cinema, para assistir às cenas preciosas nunca antes vistas como a impressionante sequencia de Romy mudando de expressão somente pelo movimento da luz, além de muitas outras imagens caleidoscópicas e com testes inéditos mirabolantes de cor e maquiagem.

Melhor teria sido utilizar o enorme material encontrado e tentar montar um novo filme com os novos recursos digitais disponíveis e com base no roteiro palidamente aproveitado por Claude Chabrol em 1994 (Ciúme – O inferno do amor possessivo).

Carlos Henry

O Inferno de Henri-Georges Clouzot (L’enfer d’Henri-Georges Clouzot). 2009. França. Direção: Serge Bromberg (Roteiro) e Ruxandra Medrea. Elenco: . Documentário. Duração: 102 minutos.

Curiosidade: Em 1964, Clouzot começou a filmar O INFERNO, uma produção financiada por americanos [COLUMBIA], de quem recebeu carta-branca, com um orçamento astronômico. Contaria a história de um gerente de hotel de Provence [Serge Reggiani], de mais de 40 anos, que se casa com uma deusa de 26, Romy Schneider, e passa a desenvolver um ciúme doentio. O hotel enche de turistas a fim de curtir as férias diante do lago. Marido e mulher trabalham para entreter os hóspedes.
O diretor se prepara durante meses para filmar seu grande clássico. São 3 equipes de filmagem, que captam cada cena, depois de 4 meses de ensaios, testes e invenções de traquitanas. Um dos câmeras era COSTA GAVRAS.
Convocou artistas plásticos para criarem efeitos óticos. Era a pop art dando seus primeiros passos. Decidiu criar uma obra que fugisse da linguagem tradicional. A trama ajudava, já que os delírios do marido ciumento poderiam levar à tela imagens distorcidas. O filme seria em preto e branco. Os delírios, coloridos. Na era pré-computador, pintavam os atores de azul.
No entanto, depois de 3 semanas de filmagens delirantes, a produção foi interrompida. CLOUZOT, diretor, roteirista e produtor, sofria um surto psicológico.
Filmava e refilmava as cenas diversas vezes, em dias alternados. O filme não andava. A equipe se desgastava. Levava os atores e a equipe à exaustão. Acordava-os de madrugada para discutir o filme. Até o ator abandonar a produção, e CLOUZOT enfartar e morrer. As imagens ficaram guardadas num depósito por mais de 40 anos.
Recuperam e contam a história do filme interrompido.

Site do autor da caricatura de Henri-Georges Clouzot: http://www.nalair.fr/

Fatal (Elegy. 2008)

 

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Esse tão grande amor… Se você quiser e vier, Pro que der e vier, Comigo.

O que me levou de imediato a ver esse filme foi a atriz Penélope Cruz. Mas também por curiosidade em saber do que seria mostrado por conta do título original: Elegy. Pois o nacional – Fatal -, não condizia nem pelo biotipo da atriz, nem pelo olhar triste dela no cartaz do filme. E confesso que fui olhar no dicionário, o significado de Elegy – Poema lírico, cujo tom é quase sempre terno e triste.

Um outro fator me motivou também. Em ter na Direção uma mulher. Ela é Isabel Coixet. Ela também dirige “A Vida Secreta das Palavras“; quem ainda não viu, não deixem de assistir. E até por conta desse outro, eu confesso que esperei mais de Elegy. Teria escolhido mal a atriz principal? Não sei dizer. O certo é que a Penélope, a mim, não deixou a personagem ficar memorável. Como deixou com a sua Raimunda, em Volver. Talvez se tivessem enxugado mais o roteiro.

Claro que também ver Ben Kingsley, assim como Dennis Hopper, não deixa de ser um belo convite.

Assim feito, comecei a ver o filme. E… E lá veio a história do cara bem mais velho, David (Ben Kingsley), querendo transar com alguém mais jovem, Consuelo (Penélope Cruz). Não vejo preconceito nisso, até porque é algo tão corriqueiro no mundo real. Como também nem dá para ser o Tiozinho, já que ela já era uma mulher feita, de maior idade.

Naquela caça… Ele, um cara cheio de escrúpulos, por ela ser uma das suas alunas. Agora, não sendo ela uma garotinha – nem muito menos tinha pose de mulher fatal, Bela, sim! -, mesmo sendo nada ético, não dava para ver o porque de todo o cuidado dele. Não era por temer um processo de assédio sexual. Até porque era, ou seria, evidente para ela o interesse dele. Então, fora das cercanias da faculdade, não teria porque não paquerá-la, e com mais impulsividade.

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Com o desenrolar do filme, vamos conhecendo a sua personalidade. Um cara bem metódico. Que não sabia se interagir muito bem. Mesmo em sala de aula, não despertava muito interesse dos alunos. A própria Consuelo parecia mais olhá-lo como um homem. David, embora fascinado pelo estudos da sexualidade, e dela sem os moralismos, não era um cara arrojado. Consuelo para ele era como um objeto de arte a ser admirado. Mas que queria tocar. Esperou até que o Curso terminasse. Ai sim, jogou seu charme. David também, tinha problemas de relacionamento com seu filho (Peter Sarsgaard).

Paralelo a isso, mantinha um relacionamento com uma mulher muito mais madura (Patricia Clarkson). Uma relação livre, mas estável. Para não dizer, cômoda. Já que não havia cobranças. O que só ocorreu depois. Dela com ele. E dele com Consuelo. Mas nem isso o fez refletir.

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Fiquei pensando no porque da trama mostrar também os conflitos com duas pessoas maduras; e que mantinham um relacionamento aberto. Tinham muito mais vivências. Deveriam mostrar-se mais livres. Mais desapegados. Mas não foi o que fizeram. E nem foi Consuelo que mostrou a David como deveria agir. Foi George (Dennis Hopper), seu grande e único amigo. Aliás, o filme só não cai num marasmo, por conta das cenas com ele. De querer que logo apareçam outras.

O relacionamento entre Consuelo e David começa morno, mas depois, a paixão começa a desmoronar o castelo. Ciúmes, o devora, e a sufoca. Consuelo não gostou nada do monitoramento dele. Ela não era um quadro a ser vigiado. Tinha sede de vida. De liberdade. E nem eles esperavam muito dessa relação. Ela até pergunta a ele se ele a colocara no futuro dele. Adivinhem o que ele responde!

Então, a partir dai: desconfiança, ciúmes, cobranças… E tudo isso não mantém nenhuma relação de modo saudável.

Agora, se o objeto amado fora escolhido pela beleza plástica, o que aconteceria se um dia, por uma fatalidade do destino, deixasse de sê-lo? Como ficaria a relação? A paixão de antes, cataria os caquinhos e manteria acesa a admiração de antes? Ou, mais que a piedade, em sentir que finalmente teria a posse definitiva. Ou o amor então se faria presente? Mas fora preciso vir à tona após um momento trágico? E para a mulher, em não se sentir mais bela… Pois é! O filme leva a um leque de reflexões, e para um relacionamento a dois.

Para quem gosta do rumo que a Diretora dá aos seus filmes, onde o crescente se dá do meio para o fim, ficará a desejar. Como falei no início, faltou algo mais para o filme ser considerado bom. A história se perdeu. Não me deixou com vontade de rever. Enfim, e até pelo personagem do Dennis Hopper, dou nota 08.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

FATAL (ELEGY). 2008. EUA. Direção: Isabel Coixet. Elenco: Penélope Cruz (Consuela Castillo), Ben Kingsley (David Kepesh), Dennis Hopper (George O’Hearn), Patricia Clarkson, Peter Sarsgaard. Gênero: Drama, Romance. Duração: 108 minutos.

 

ROMANCE (2008)

romance1Romance é uma surpresa. Delicado,inteligente, bem humorado, instrutivo. Discute o amor, a paixão que podemos ter por uma pessoa, pela arte. Recheado de ótimos diálogos, de lindas cenas de amor, até me vi satisfeita por ver Andréa Beltrão diferente das personagens que ela sempre interpreta de maneira, que a mim ficam parecendo tão iguais. Há diálogos no filme que tive vontade de escrever, decorar para não perder de vista. Há coisas do velho Shakespeare tão frescas! E ainda a informação que todos os romances trágicos nasceram de Tristão e Isolda, a partir do século XII e que o beijo final do início dos romances com a felicidade eterna que ninguém vê, começaram no século XVII.

Como fã de cinema brasileiro, claro que vai parecer suspeito, como originária da geração barzinho com violão e papo cabeça, encontro temas e mais temas para discussões e risadas. A verdade é que, não vou ao cinema para não gostar mas nesse filme não precisei fazer o menor esforço.

romance_02Discussões batidas como diferença entre amor e paixão, discussões profissionais entre a romantização do teatro e a pasteurização da TV que se dá o direito de mudar finais de clássicos e decidir o que o público realmente gosta de ver.

Wagner Moura interpreta o inteligente e idealista Pedro, que como tempero leva uma certa dose de ciúme. O cardápio de questões é bem extenso. Um amor recíproco pode ser infeliz? A paixão tem duração pré-definida? Até que ponto podemos nos apaixonar pelo que vemos e não pelo que o outro é? As histórias precisam ter sempre um final feliz? Uma obra precisa apresentar coerência? O ator tem que escolher ser de teatro ou TV e é possível fazer os dois ao mesmo tempo? Como lidar com o parceiro que se torna bem sucedido ao escolher o caminho que decididamente não queremos trilhar?

O público que busca a ficção, afinal, quer morrer de rir ou debulhar-se em lágrimas? Letícia Sabatella envelhecerá algum dia? Quanto tempo de projeção um monstro como Marco Nanini precisa para roubar a cena? É impagável seu aparecimento na trama e sua entrada numa das ficções dentro desta ficção. Chega a ser hilária a nuance de José Wilker interpretando “deus”. Nada difícil, associarmos alguns personagens com pessoas que conhecemos de tanto que vemos nas revistas de celebridades…

Ao fim de tudo somos brindados com várias versões de Tristão e Isolda, com finais diversos. Considerei um brinde as cenas de nus, em se tratando de romance, sexo é sempre bem-vindo, sorrisos e risadas também!

Romance é um filme sobre romances e amores e nossas reações diante das contraditórias situações nas quais os sentimentos nos envolvem.

Finalmente um filme que uma vez em DVD eu veria muito mais de uma vez.

Por: Rozzi Brasil. Blog: Exoticum.

ROMANCE. 2008. Brasil. Direção e Roteiro: Guel Arraes. Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, José Wilker, Bruno Garcia, Tonico Pereira, Vladimir Brichta, Edmilson Barros, Marco Nanini. Gênero: Drama, Romance. Duração: 100 minutos.