Anomalisa (2015). A Globalização Padronizando Comportamentos

Anomalisa_2015_cartazPor: Carlos Henry.
Charlie Kaufman é um roteirista de temas soturnos recheados de personagens de almas atormentadas e mentes confusas como em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” e “Quero ser John Malkovich”. Em parceria com Duke Johnson criou mais um provável cult: A animação em stop motion com bonequinhos “Anomalisa”.

anomalisa_2015_cenaO personagem principal é o triste e quase frio Michael Stone que voa para Cincinnati para uma palestra como autor de livro de autoajuda. Curiosamente, todas as vozes e expressões das pessoas ao seu redor são as mesmas. Síndrome de Fregoli ou padronização de comportamento ditado pelo mundo? O filme não entrega, mas desfila situações típicas de uma globalização desenfreada embaladas num humor negro e sutil. A única que foge à regra de uniformidade é a simplória Lisa que a princípio arrebata o coração de Stone, tornando-se imediatamente diferenciada inclusive na voz para nortear o marasmo da monótona vida do autor.

As músicas Lakmé de Delibes e “Girls just wanna have fun” da Cindy Lauper pintam em cores pouco vibrantes a trama sombria e desconfortável que não é própria para menores. O enigmático título é uma aglutinação do nome da personagem de Lisa com a palavra brasileira anomalia, citada no livro de Stone como referência à suposta aberração de um país da América Latina que fala português. Ou seja, é um filme difícil, de reflexões incomuns no gênero, que poderia até ser considerado uma animação noir de indiscutível qualidade.

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A Grande Aposta (2015). “Desenhando” a Crise/2008 Para Que Assimilem de Vez?

a-grande-aposta_2015_posterfinancial-crisis_us_comicsPor: Valéria Miguez (LELLA).
Um Professor diante de uma matéria muito complexa sabe que o caminho seria se expressar de forma lúdica. Ainda mais tendo que fazer uso de terminologias bem específicas. Explicando com humor torna a aula mais prazerosa e com isso os alunos terão mais chance de entenderem a lição de vez, ou quando não muito, o necessário. Digo isso porque foi meio por aí que “A Grande Aposta” me passou. O que em nada diminui o filme, muito pelo contrário! Mesmo tendo vindo como a didática de um Professor de Cursinho… É justamente essa aulinha para lá de bem humorada, do tipo que “mete o dedo na ferida”, que traz o diferencial do filme. Pois tendo que contar o que foi a Crise Financeira de 2007/2008, uma história tão bem decantada em 2011 por “Margin Call“, teria que ser por um outro ângulo. E meio que “desenhando” o Diretor Adam McKay conta essa história em especial para os próprios conterrâneos o ponto alto do filme! Muito embora creio que o pessoal de lá possam a vir não gostar muito, ou nada, quando de fato a ficha cair. Afinal, o “desenho” é principalmente endereçado a eles, os estadunidenses! Esse detalhamento como um PowerPoint de sala de aula fica também como um alerta para que ninguém se esqueça do que foi o maior golpe financeiro desse século. Crise essa que pode ser traduzida por “Como Aplicar um Mega 171 Impunemente!“. Algo que coloquei como subtítulo no do filme de 2011.

Agora, “A Grande Aposta” também nos traz um outro dado que não deveria ser esquecido: de que quase uma década já se passou e pelo jeito varreram tudo para debaixo do tapete… Vejam quem de fato foi o único punido. Pior! Pois as tais Agências de Classificações de Riscos (Standard & Poor’s, Moody’s…) continuam por aí “avaliando” até mercados internacionais e a serviço de um seleto grupo diretamente. Ou como temos visto atualmente no Brasil, os que usam de má fé essas avaliações para fomentarem uma crise… É! Elas seguem livres e se linchando para os que foram, são e serão ludibriados com as “projeções” dada por elas. Esses outros são os reais “patos” (Algo que também nos remete a história atual do Brasil…) Quer sejam eles pessoas físicas, jurídicas, ou mesmo países… são quem de fato pagarão as consequências desse capitalismo selvagem! Há uma cena no filme que enfatiza bem a perversidade do Sistema! Ainda restando um certo pudor no que fará, questiona uma delas por ter dado um “triplo A” para um título já em queda livre. Ainda perplexo com tudo, o personagem ouve que se ela não o fizer, perde “o cliente“. E ainda lhe põe em xeque: já que para ambos o que realmente interessa são os lucros! Que o prejuízo, os “patos” que paguem! Assim, se o Sistema do Mercado de Ações é bem cínico… Logo, Adam McKay fez muito bem em também o ser nesse filme! Bravo, McKay!

E seguindo de um jeito meio documental Adam McKay conta toda essa história em “A Grande Aposta“. Com paradas para as explicações do “economês” do Mercado de Ações usando até algumas Celebridades. Com clips bem dinâmico de acontecimentos, fatos, momentos em evidências ao longo desses trinta anos: desde a entrada dos Títulos Hipotecários no Sistema até o “desfecho” em 2008. Com uma ótima Trilha Sonora! Agora, como num desses clips eu ri muito, mas para não estragar de todo a surpresa… Direi que a inserção da foto de uma famosa dupla de um Filme já Cult, veio como: “Golpista é golpista, não importa se da plebe ou da elite!“. Perfeita a analogia! É hilário!

A-Grande-Aposta_2015_01Além disso, temos em “A Grande Aposta” um personagem como um mestre de cerimônia que ao contar como ele entrou nessa história acaba meio que contando a dos demais envolvidos diretamente na trama. Ele é o corretor Jared Vennett interpretado por Ryan Gosling. Vennett é um cara bem antenado! Ao ouvir uma certa história vai atrás de quem o ajudaria a confirmar o fato. Mas antes de falar dos demais, temos quem teve a tal grande sacada: Michael Burry. Personagem de Christian Bale. Burry é cara bem excêntrico, mas com um olhar clínico para os números, algo que o qualifica como um grande investidor, onde até então era bem quisto no meio. Foi ele quem identificou que os tais Títulos – a “menina dos olhos” de todo Sistema americano -, estava para ruir. Como ficou desacreditado decide lucrar em cima do fato. Apostando contra o mercado de então, mas com uma segurança. Ávidos não apenas com o capital de Burry, mas também com o que lucrariam dos demais, já que para eles eram favas contadas Barry perder, aceitam! Surge então os Títulos de Seguros Contra as Hipotecas. Não sei se foi proposital o Diretor colocar esse personagem com um certo problema físico… Porque sei foi, a analogia foi ótima! Por ter sido o único que vislumbrou o problema!

Com isso, foi com um dos corretores se gabando do lucro certo que teria com a derrota de Barry, que a história chegou aos ouvidos de Vennett. E por conta dele ir atrás de Barry, ou não… alertou uma Corretora. Quem está a frente dessa outra é Mark Baum, personagem de Steve Carell. Esse percebe que pode estar diante de um grande negócio, mas resolve investigar primeiro. Acontece que Baum está passando por uma grave crise pessoal… Somado ao seu jeito de ser de não ter papas na língua… O leva, ou melhor, nos leva a conhecer o quanto esse mundo não tem o menor escrúpulo em arruinar pessoas, empresas, nações. No filme ele seria um dos pesos pela moralidade e ética nessas, ou dessas negociações. Até por tudo que veio depois também com a tal grande aposta de Barry: quem de fato lucrou junto com ele, quem não arcou com o monumental prejuízo deixada por ela (Algo que mais especificamente pode ser visto em “Margin Call“…

Há ainda dois personagens ligado a tudo isso onde então entrará o do personagem de Brad Pitt! Eles são dois pequenos investidores que de posse do lucro resolvem entrar na Wall Street… Eles são Charlie (John Magaro) e Jamie (Finn Wittrock) que pareciam um pouco com Barry: de investirem em coisas que a maioria não acreditava que traria lucro certo. Assim, de posse da fortuna acumulada, vão em busca de um lastro maior para grandes investimentos… Nesse breve e frustrante caminho… ficam cientes dos planos de Barry… Tentam então contatar Ben Rickert (Brad Pitt): alguém respeitado na Wall Street, mas que se encontrava fora de toda aquela máquina: daquele que seria um circo dos horrores para muitos… Entretanto, mesmo longe de lá, para Rickert business is business, ainda! Paralelo a isso, essa dupla também tenta que alguém da imprensa noticie o que já estava acontecendo e o que estaria por vir… Para que os incautos, ou até gananciosos, do andar de baixo não caíssem no golpe dos poderosos que não iriam arcar com o prejuízo que a própria ganância os cegaram também para o que o Barry a princípio tentou mostrar… Enfim, todos nós estamos cientes quem caíram. Até porque isso já faz parte da cultura deles! Perdendo ou ganhando, a têm como a principal indústria!

O filme é muito bom! Mesmo que não queiram assistir pelo receio de um déjà vú, assistam! Pois “A Grande Aposta” não apenas traz uma radiografia bem cáustica do que foi essa crise, mas também porque o filme mostra que muitos poderão voltar a cair novamente em golpes parecidos: com uma nova roupagem. Afinal, além da impunidade, a crise mostrou aos do andar de cima as falhas do próprio sistema. Mais! Dando a eles mais know-how para o perpetuarem. Além dele não nos deixar esquecer quem afinal acaba pagando o pato! E salvo raríssimas exceções do andar de baixo que terão chances de conhecer o andar de cima e recebidos com tapete vermelho!

Vale também destacar ainda as atuações! Todos em uníssonos! Alguns bem caricatos, mas talvez para mostrar que mais do que os personagens em si é a história a grande protagonista ao mesmo tempo que pelo teor, também a grande antagonista. No qual eu darei um ‘9,5’ pelo conjunto da obra em “A Grande Aposta” porque a nota máxima ainda está com “Margin Call“! Agora, enfatizo é um Filme para ver e rever!

A Grande Aposta (The Big Short). 2015.
Direção: Adam McKay (co-Roteirista)
Baseado no livro homônimo de Michael Lewis.
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Série: The Brink (2015/ ). O Mundo já Estaria numa Grande Guerra?

the-brink_2015_serie-de-tvPor: Valéria Miguez (LELLA).
hogans-heroes_serie-tvPara mim uma fã da antiga Série “Hogan’s Heroes” (1965/1971), no Brasil “Guerra, Sombra e Água Fresca“, sinto sempre a falta de novas séries onde entre outras coisas ridicularizam principalmente os fomentares das guerras. É! Só exagerando nos esteriótipos para mostrar a estupidez de uma guerra. Onde até mantém um clima de medo para venderem mais armas: ora vendendo para grupos rebeldes, ora para os governantes… Onde mortes de inocentes parecem mais contar como potencial do armamento a ser vendido. Muito embora atualmente o avanço da tecnologia dos armamentos deve ser o que conta mais na venda. Cuja destruição alcançaria uma área geográfica muito maior e correndo sério risco de uma devastação permanente por conta das irradiações lançadas nas explosões.

Mesmo em se tratando de temas tão graves, tão cruéis… Levando com humor ajuda também a disfarçar e assim chegar até nós algumas “realidades” passadas nas “salas de conferências de assuntos de guerras“: seja entre os membros dos próprios países, seja entre as nações aliadas, ou nem tão amigas, ou entre com aquela que corre o risco de ser invadida… De qualquer forma mesmo que os roteiristas não nos contem tudo, o pouco que soltam já no mínimo nos rendem alguma perplexidade. Fora as boas risadas com o grotesco da situação. E a nova série “The Brink” tem muito de tudo isso! Como também parece ter terminado o lance do politicamente correto nas produções cinematográficas no pós 11 de Setembro. Great!

Entretanto, embora se trate de uma obra de ficção “The Brink” mostra a todos nós que o mundo já se encontra numa 3ª Guerra Mundial! É a realidade superando a ficção da pior maneira possível: com o botão vermelho das ogivas nucleares sem grandes controles.

the-brink_2015_serie_personagensEm destaque em “The Brink” temos:
– Walter Larson, personagem de Tim Robbins, é um Secretário de Estado (EUA) ambicioso e sem muita paciência até para ficar parado em Washington. O que o fará sair em campo para tentar reverter o “lapso” causado por um piloto ao explodir um drone do Paquistão. Kendra (Maribeth Monroe) é a assistente de Walter que tenta conciliar a vida privada um tanto promíscua da vida profissional desse secretário sem papa na língua. Tim Robbins está impagável!
– Alex Talbot, personagem de Jack Black, é um humilde funcionário do serviço diplomático americano no Paquistão que sonha ser transferido para Paris o que para ele o tiraria do centro dessa crise geopolítica. Alex tem como amigo Rafiq (Aasif Mandvi) um paquistanês contratado pela Embaixada dos Estados Unidos como tradutor.
– Zeke Tilson, personagem de Pablo Schreiber, é um piloto de caça da Marinha que também vende “medicamentos” aos colegas do navio. Zeke é o tal piloto que estando chapado derruba o drone paquistanês. Glenn (Eric Ladin) além de co-piloto no caça, ajuda Zeque a traficar os medicamentos.

A Série “The Brink” tinha tudo para decolar pois é muito boa! Mas parece que o mundo anda com muito mau humor… É que mesmo após a HBO ter anunciado que haveria uma nova Temporada em 2016, voltou atrás e cancelou a série. O que é uma pena! Assim, resta esperar que pelo menos deem um desfecho razoável a atual temporada que é transmitida pelo canal HBO Signature. E ficar na torcida para que venham novas temporadas!

Eu gostei muito dessa série! Nota 08!

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte final

california-2015_de-marina-personPor: Carlos Henry.
CALIFÓRNIA de Marina Person pode ser considerada uma comédia de adolescentes. E das boas, por conta de um afinado elenco juvenil embalado por deliciosos hits (David Bowie, New Order e muitos nacionais, todos muito bem inseridos nas cenas, especialmente o final com “The Caterpillar” do The Cure.) dos anos 80 quando a ação se desenrola. Estela (Clara Gallo) vive sua difícil passagem pela puberdade ancorada na figura de seu idolatrado tio Carlos (Caio Blat, perfeito no papel) que vive na Califórnia e exerce influência mágica na menina criada por pais caretas. Os planos de conhecerem juntos o badalado estado americano são interrompidos pela volta inesperada de Carlos ao Brasil que chega magro e debilitado por conta de uma terrível e ainda desconhecida doença que começava a se espalhar pelo mundo naquela época. O engenhoso roteiro insere o complexo personagem de Caio Horowicz no momento certo. Ele é o menino mais estranho da escola. Sua posição de bissexual avançado irá amedrontar e fascinar a menina afligida pelos hormônios da idade, mas cercada de justificados preconceitos. “Se você for gay, você vai pegar Aids!” adverte Estela ao novo pretendente, ignorante como a maioria da população diante de uma praga nova e misteriosa. Apesar do que é abordado, o tom do filme é leve, ameno e muito divertido em sua maior parte, especialmente por conta do elenco de meninas e da pequena, mas sempre preciosa participação de Gilda (Trabalhar Cansa) Nomacce como uma empregada afeita a simpatias mágicas.

E aproveitei os intervalos do Festival e as férias para apreciar o que estava no circuito.

perdido-em-marte_2015O diretor Ridley Scott continua desapontando. Seu último longa PERDIDO EM MARTE (The Martian) é uma ficção científica apática e excessivamente técnica que poderia interessar somente aos aspirantes a astronautas. O personagem de Matt Damon é considerado morto numa missão em marte e deixado abandonado no planeta inóspito. O que deveria ser uma situação tensa acaba virando plataforma para uma série de piadas nem tão engraçadas. A trilha sonora calcada em hits da Disco Music seria um (forçado) atrativo à parte, não fosse detonada o tempo todo como se fosse mau gosto apreciar aquele gênero de música. Descartável.

a-travessia_2015A TRAVESSIA (The Walk) de Robert Zemeckis assombra com imagens estonteantes em 3D na tela gigante do Imax para contar a história verdadeira do Francês Philippe Petit que decide atravessar através de um cabo de aço as célebres torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque pouco antes de serem concluídas as obras finais nos anos 70. Não aconselhável para quem sofre de vertigem. Philippe sofreu pena leve pela inesquecível façanha ilegal e acabou ganhando passe livre para o terraço de observação da torre. O passe teve sua data de validação alterada de um dia definido para duração indeterminada. Infelizmente o trágico curso da história não permitiu que o célebre equilibrista usufruísse da regalia para sempre.

love-3d_filmeLOVE 3D do cultuado diretor do chocante “IrreversívelGaspar Noe é uma grata surpresa. Execrado pelos exibidores ultraconservadores deste país de mente curta, é ao contrario do que possa parecer é um filme de muita qualidade. Narra a obsessão sexual de um homem casado pela jovem Electra, uma antiga namorada que desaparece sem deixar vestígios. A paixão doentia confundida com amor esgota o rapaz física e mentalmente vista em notáveis mudanças ao longo da narrativa. Como é que a esta altura do campeonato, em pleno século vinte e um, numa terra infestada de sujeira, miséria e corrupção, alguém por aqui pode ousar se indignar com um punhado de cenas de sexo explícito (Penetração do ponto de vista do interior da vagina e um orgasmo masculino em direção à tela são as cenas mais comentadas) totalmente inseridas no contexto de um roteiro bem elaborado? A pornografia está nos jornais que hoje em dia não têm censura.

A-Colina-EscarlateA COLINA ESCARLATE de Guillermo del Toro é a grande decepção que fecha o festival. Tantos clichês que talvez funcionassem numa paródia de Mel Brooks – Arranca risos da plateia com a suposta intenção de assustar lançando mão de fantasmas toscos, gráficos e falsos, rangidos e “sustinhos” para lá de batidos. A-velha-perversa-do-retrato-que deve-esconder-um-segredo, O-jovem-que-divide-um-terrível-mistério-com-a-irmã-estranhíssima e a-menina-idiota-que-vai-morar-na-mansão assombrada-apesar-dos-avisos-da-mãe-morta são algumas das sandices óbvias do inacreditável roteiro. Como é que a talentosa Mia (Amantes Eternos) Wasikowska foi se embrenhar nesta patuscada? E o Senhor Del Toro que já realizou obras-primas como “O Labirinto do Fauno” e “A Espinha do Diabo” também perdeu a mão? Assustadoramente ruim. Como dizia um crítico que tinha um programa sobre cinema na TV nos anos 70: Fujam do cinema que estiver “levando”!

[Continuação daqui.]

Os Sabores do Palácio (2012). São Deliciosamente Irresistíveis!

os-sabores-do-palacio-2012_cartazPor: Valéria Miguez (LELLA).
Em nossa memória ficam registros que com o passar dos anos meio que desaparecem… Até que um aroma, um sabor… algo acaba despertando memórias afetivas até da nossa infância. Algo visto em “Ratatouille” quando um rigoroso crítico gastronômico sentiu ao provar esse prato típico da culinária francesa, presente até nas cozinhas das famílias mais humildes. Fiz esse preâmbulo porque o carro chefe de “Os Sabores do Palácio” veio de alguém querendo para as suas refeições diárias essa culinária com gosto de casa de vó… Esse alguém vivia num certo palácio: a residência do Presidente da França. E ele, o próprio ‘Le Président‘ (Jean d’Ormesson), um gourmet convicto e cansado dos pratos com muito mais enfeites que substância, seguindo uma indicação coloca seu pessoal para ir atrás dela, uma reconhecida Chefe de Cozinha, e também uma defensora da gastronomia tradicional francesa. Ela iria para a pequena e particular cozinha. Na na bagagem além dos dotes, dos talentos, levava junto uma preciosidade que esse presidente amava.

os-sabores-do-palacio-2012_01E quem seria ela, essa Chefe de Cozinha que até iria revolucionar um reduto até então de homens? Ela é Hortense Laborie que vai com a cara e coragem para o coração da França. Para alguém segura em sua fazenda na região de Périgord, dando aulas a Chefes de outros países a usarem em especial o foie gras e as trufas, fora uma grande mudança. Que se vê num clima bem competitivo e hostil. Mas ela finge ignorar até porque a quem teria que agradar era o Presidente. Assim já totalmente instalada resolve não se submeter a despensa da outra cozinha e quebrando protocolos vai às compras! Até por ser adepta e conhecedora de itens naturais e de primeira qualidade para suas receitas. Compras essas que interferem também com que administra os gastos das cozinhas do palácio. Enquanto isso na ‘cozinha grande’ inveja e ciumeira corria solto até dando a ela o apelido de ‘Du Barry‘, em alusão à favorita do rei Luís XV, a Condessa du Barry. Hortense seguia em frente até tentando adaptar as novas restrições alimentares para o Presidente às suas receitas. Pausa para comentar sobre as receitas, pano de fundo em “Os Sabores do Palácio“, que para quem assiste são de se comer com os olhos já que não podemos comer de fato. Assim, a ‘cozinha pequena’ seguia seu curso até que algo bate à porta e…

De Paris Hortense vai parar na Antártida. Ser a Chefe de Cozinha numa estação de estudos. Também cheia de homens, mas até pela solidão do lugar, viraram todos seus fãs. E é em sua despedida por lá que em flash back conhecemos seu período palaciano, o porque saiu de lá, como foi parar por lá naquele “fim do mundo” e até seus planos para um futuro próximo.

os-sabores-do-palacio-2012_02O filme “Os Sabores do Palácio” foi inspirado numa história real, a da Chefe de Cozinha Danièle Delpeuch que foi a cozinheira pessoal do Presidente da França François Mitterrand. Quem a adaptou também assina a Direção, Christian Vincent, fez um belíssimo trabalho que nos mantém atentos até o final! Deixando até uma vontade de querer ver mais e mais histórias com ela, a Hortense de Catherine Frot. Ela dá um show! Mesmo com tudo e todos em uníssono sem dúvida nenhuma o filme é dela! Num filme de se acompanhar com brilhos nos olhos e que no finalzinho minhas lágrimas desceram comovidas. Enfim, um filme Nota 10!

Os Sabores do Palácio (Les Saveurs du Palais. 2012)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Sob o Mesmo Céu (2015). Um Romance dos Tempos Modernos

sob-o-mesmo-ceu-2015_cartazPor Valéria Miguez (LELLA).
mito-do-sagradoHá uma lenda que diz que quando os Homens das Ciências alcançarem o topo do mundo encontrarão lá esperando por eles os Grandes Mestres da Mãe Terra. Num tipo de távola redonda. Juntos, irmanados em ajudar ao Planeta a se recompor. Talvez até diriam aos que os procuraram pelo poder maior, que voltassem e eliminassem tudo do que fizeram e que deixara o mundo com mais desunião, com mais muros, com mais desigualdades, com mais riqueza para pouquíssimos habitantes. Enfim, tudo que o deixara mais destruído e destituído de humanidade. Mito ou não… Por certo que nosso Planeta tem contado também com aqueles que pelo menos tenta frear os que não se importam com ele. Com isso é preciso estar atendo aos sinais advindos dos céus em conjunção com o que está acontecendo ao redor para então agir.

Bem, esse é o pano de fundo em “Sob o Mesmo Céu” – de que certos avanços tecnológicos têm mesmo o intuito de aniquilar o mundo. Mesmo que só fiquem na ameaça para indicar quem é que dá as cartas. De qualquer forma é preciso pesar muito mais os contra antes de impor ao mundo mais tecnologia. Mais danos ao Planeta que leva tempo para se recompor. O que deu ares de modernidade onde heróis e heroínas de agora pilotam caças ou mesmo filmadoras, mas que respeitam as tradições antigas. Nesse contexto o Diretor Cameron Crowe conta duas histórias de amor, aliás três: porque dois deles irão passar a limpo uma história antiga. Crowe também assina o Roteiro o que o deixa mais livre para lidar com tudo e todos. Em destaque na trama: um discutir a relação. Será que as conjunções celestes também estariam favoráveis para essas questões?

aloha-2015_filme_havaiO local não poderia ser mais significativo para o desenrolar dessa história: Havaí. Tradições culturais e religiosas seculares. Como também o peso de se serem agora uma “colônia” e com a sensação de serem usados e logo descartados. No filme “Os Descendentes” se tem o lado da especulação imobiliária em terras havaianas como também do Turismo que “esconde” a pobreza do local. Já em “Sob o Mesmo Céu” temos as bases militares por lá. Onde em ambos os filmes um sentimento que ainda são levados a aceitarem “bugigangas” nos acordos com o Tio Sam. Como se ainda vivessem na era dos grandes descobrimentos. Além disso, Cameron Crowe também faz uma crítica a invasão do céu: num congestionamento de satélite. Para que tantos satélites?

E quem seriam os donos desses corações cujo destino levou uns num reencontro e outros a se conhecerem?

Começando pelo personagem de Bradley Cooper, o não menos encantador Brian Gilcrest. É que até achando que tem pela frente um grande e de curta duração evento – supervisionar o lançamento de um poderoso satélite -, tenta ser gentil, mas de modo a não dar impressão de estar aberto as novas amizades. No fundo, mesmo de uniforme militar, se sente um mercenário dos tempos modernos. Não importa para quais os fins, e sim cumprir as ordens.

sob-o-mesmo-ceu_2015_01Acontece que tão logo desembarca na ilha se depara com Tracy, personagem de Rachel McAdams. Era o passado de volta. Treze anos se passaram. E agora a encontra casada e mãe de dois filhos: o caçula Mitchell (Jaeden Lieberher, de “Um Santo Vizinho”) de câmera em punho filmando tudo e a adolescente Gracie (Danielle Rose Russell)
curtindo a dança havaiana. Tracy mais parece saída da escola de “O Sorriso de Mona Lisa”. Nada contra o querer ser dona de casa, mas focar a casa onde mora como desculpa por não querer o fim do casamento, denota superficialidade. Assim, a volta de Brian a levará a ir mais fundo em si mesma. O grande barato disso tudo fica por conta de seu marido Woody, personagem de John Krasinski, pois numa de quase entrar mudo e sair calado, ele rouba as cenas: está impagável! Woody não precisa de muitas palavras. É Tracy quem tem que parar de falar muito e com isso se dá um tempo para ouvir a si mesma.

Designada para acompanhar Brian durante sua permanência na ilha temos a Capitã Ng, a Allison. Personagem de Emma Stone. De cara se sente atraída por ele. Força uma barra para que fiquem amigos e com isso ficar mais tempo perto dele. Por conta de uma ascendência havaiana ela quis conhecer mais as tradições da ilha. Mais até! Passando a aceitar e a respeitar. Até por conta disso não gosta de algo que vê num dos vídeos de Mitchell. Com isso seu amor por Brian fica balançado: de herói ele passava a ser um vilão. E pelo fato em si, mesmo já estando apaixonada ficava difícil de engolir. Mesmo assim, ela precisava agir.

Fora eles, o filme ainda conta com algumas participações. Como de Bill Murray como o empresário Carson Welch dono do tal satélite, como também com Alec Baldwin como o General Dixon que abre as portas do quartel para Carson. Além de outros envolvidos com o lançamento do mesmo na base militar americana no Havaí. E que de certa forma envolverão a todos: militares e civis.

sob-o-mesmo-ceu_2015_02Assim, décadas depois de “Digam o Que Quiserem”, de 1989, histórias com adolescentes, Cameron Crowe traz em “Sob o Mesmo Céu” personagens adultos em seus dramas frente também as paixões. Sem perder a emoção até de estarem vivendo um grande amor, mas com um olhar mais amadurecido. E como podem ver se trata de um Romance com todos os clichês que esse gênero traz e caso não goste dessa combinação melhor procurar por um outro filme a gosto.

A Trilha Sonora também é um coadjuvante de peso! Performances em uníssonos! Numa escolha acertada do elenco! Cameron Crowe talvez tenha pecado em explicar demais algumas sub tramas, nem deixando lugar para divagações, como também desejando um enxugamento nesses momentos. O bom que logo em seguida a atenção volta plena e deixando um brilho nos olhos. E que só por algo que acontece no final do filme faz dele merecedor de uma Nota 10! Aloha, Crowe! O mundo agradece!

Sob o Mesmo Céu (Aloha. 2015). EUA
Ficha Técnica: na página no IMDb.