As Montanhas se Separam (2015). Numa Promessa de uma Vida Melhor

as-montanhas-se-separam_2015_cartazPor Christine Marote.
Assisti o filme “As Montanhas se Separam”, do diretor chinês Jia Zhang-ke, e resolvi dividir com vocês, por alguns motivos. O filme é em mandarim, legendado em português. E sempre se fala que uma boa maneira de se aprender uma outra língua é assistindo filmes… Isso é fato. Mas nunca me atrevi a assistir um filme em mandarim desde que comecei a aprender essa língua. Achava que nunca iria entender nada, que ficaria perdida. Ok, também morando na China nunca havia encontrado um filme com legenda em português. Mas o fato é que fiquei super empolgada em reconhecer as palavras e expressões da fala cotidiana. Como usam expressões que eu achava que só servia para uma situação, e percebi que não. E faz todo sentido. Muito legal.

as-montanhas-se-separam_2015_02“As Montanhas se Separam” retrata a China do começo do século 21. Ele começa na virada do século, e algumas cenas que vi, me lembrou muito algumas situações que presenciamos em Chang Chun, quando chegamos na China em 2004. Até porque ele é rodado no interior do país, o que mostra uma outra realidade, bem diferente de Shanghai, mesmo naquela época.

A abertura econômica e as possibilidades que se abriram para o enriquecimento da população, ou não. As consequências que esse dinheiro, que chegou muito rápido, trouxe para as pessoas e a sociedade chinesa. Bem interessante.

Ele está em todos os cinemas do Brasil! Essa é a melhor parte, né? Estou falando de um filme que todos terão acesso. Não esperem uma produção hollywoodiana, mas um filme cativante e bem interessante sobre uma sociedade, que apesar de estar na mídia mundial, poucos conhecem de perto.

as-montanhas-se-separam_2015_01Um resumo de “As Montanhas se Separam”: Uma história narrada em três períodos: 1999, 2014 e 2025. Começando pela China em 1999. A professora Tao (Zhao Tao) é cobiçada pelos seus dois amigos de infância, Zang (Zhang Yi) e Lianzi. Zang (Jing Dong Liang) é proprietário de um posto de gasolina e tem um futuro promissor, enquanto Liang trabalha em uma mina de carvão. No coração dos dois homens, Tao terá de fazer uma escolha que determinará o seu destino e o futuro de seu filho, Dollar. Zhang, com espírito empreendedor capitalista, vai se tornar dono da mina em que Liangzi trabalha e, assim, o confronto amoroso se espelha e se reflete no confronto da China moderna, entre trabalho e capital, que põe em xeque a própria identidade do país.

Tempo depois, entre uma China em profunda mutação e uma Austrália com a promessa de uma vida melhor, esperanças, amores e desilusões, esses personagens irão encontrar os seus caminhos.

As Montanhas se Separam (Shan he gu ren. 2015).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Para Sempre Alice. (Still Alice. 2014)

para-sempre-alice_2014O grande diferencial do drama de Alice estaria em sua vida profissional: cátedra em Linguística. Pois para alguém com o domínio em comunicação ao se deparar com a doença de Alzheimer por certo sentirá bastante a perda da memória. Ou pelo menos deveria ter sido todo o desenrolar dessa história. É que em “Still Alice” faltou algo mais. Está tudo lá, mas…

para-sempre-alice_2014_julianne-mooreJulianne Moore parece levar o filme nas costas. Talvez por ser mais íntima dos dramas do que propriamente ter sido guiada por uma boa direção. O que me levou a saber um pouco dos que assinavam a direção, e que por sinal também assinaram o roteiro: Wash Westmoreland e Richard Glatzer. Wash tem um pouco mais de chão do que o outro, mas em comum têm o reality show “America’s Next Top Model“. Talvez daí veio os enquadramentos que levou o filme a quase parecer um comercial de margarina. Não que precisariam fazer um dramalhão, mas o problema em si ficou meio artificial no seio daquela família.

Como o filme veio de um livro, e que eu ainda não li, parece que pegaram de tudo um pouco, mas não deixando espaço para os sentimentos aflorarem. Parecendo ter havido um corte cirúrgico, preciso, como a querer mostrar tudo. O que tem o lado positivo em nos mostrar todo o drama de Alice. Mas peca em parecer mais um documental do que propriamente em nos contar a história de uma mulher que deixaria de ser a Alice que ela e todos conheciam, para ser uma Alice só um corpo vivente. Sei lá! Posso ter ido com expectativas demais. É um filme onde o impacto maior ficou na subida dos créditos finais. Esplêndido!

para-sempre-alice_2014_elencoPara se ter uma ideia dessa maneira que os Diretores resolveram contar essa história cito os personagens ligados a Alice. O do Alec Baldwin que faz o marido de Alice parecia ter caído ali de para-quedas. Por mais frio que o marido tenha sido na trama do livro, nem isso ele passou. Primeiro que não houve química entre ele e Julianne Moore como ocorreu por exemplo com a Meryl Streep em “Simplesmente Complicado“. Depois que não houve emoção em duas cenas pelo menos. A que encontra Alice após ela não ter achado o banheiro. E a onde passa a “batata quente” para a filha Lydia, personagem de Kristen Stewart. O choro ficou forçado. Baldwin no todo mais parecia perguntar a câmera se ficara bom. A Stewart também parece ter sido podada as asas. Como se o voo maior só poderia ser pela Alice. Para quem a viu em “Corações Perdidos” sabe o quanto de voo ela pode alçar. Lydia o oposto da mãe até em ambições pessoais teria alçado altos voos. Não sei se por também não ter dado química com a Moore. Os demais filhos de Alice também ficaram à margem. O personagem do Hunter Parish, o Tom, até pode ser ter ficado alheio. Mas creio que com a filha Anna (Kate Bosworth, de “Quebrando a Banca“) cujo impacto da doença seria maior, não apenas por conta de um joguinho online entre ambas, mas principalmente porque Anna trazia um aditivo: o de ter pressa em viver intensamente. Nessa altura, destaque então para o neurologista de Alice: o Dr. Benjamin (Stephen Kunken). Que profissionalmente deu um lado humano a doença de Alzheimer.

Viva o momento!“.

para-sempre-alice_borboletaHá outros filmes que também abordam o drama pessoal de quem padece dessa doença. Onde cada um tenta ter o domínio de pelo menos uma parte de sua própria história antes que a doença os atinjam de todo. Em “Longe Dela” houve um procurar por onde passaria seus dias quando enfim a doença se instalasse. A Alice nesse aqui, até foi ver uma Clínica, mas pela a realidade da doença que viu nesse lugar, parece ter deixado isso para a família decidir. Um outro filme seria o “Poesia“, onde a protagonista tem quase uma última tomada de decisão… Cito esse porque a Alice nota de que não há muitos movimentos em favor da doença de Alzheimer, em favor de quem padece desse mal. Então ciente de que ainda tem um pouco do dom da eloquência, procura por atrair mais pessoas pela causa em si. Cena linda com a filha Lydia durante a preparação do discurso, e depois ao lê-lo numa palestra.

Em resumo a doença bate à porta de Alice às vésperas dela completar 50 anos de idade. Onde ainda teria uma longa vida produtiva. Para alguém que tinha como o ganha pão o domínio das palavras, a doença é um duro golpe do destino. O título original do filme “Still Alice” diz melhor sobre quem padece dessa doença: que de apesar de todos os pesares ainda é a Alice naquele corpo. Mas que ela já não saiba mais disso.

para-sempre-alice_2014_smartfone_aliado-da-memoriaAinda um detalhe que eu até já tinha visto num episódio da série “Os Millers“. Uma solução para a perda de memória do personagem de Beau Bridges. Claro que por ser uma comédia tiraram o peso do problema em si. Mas que não deixa de ser de uma grande ajuda para quando ainda se tem alguma memória. É que atualmente graças a tecnologia dos Smartfones essas pessoas ganharam um aliado portátil. E Alice o usa enquanto ainda tem o controle da mente. Porque depois não terá mais a tal serventia para eles. É! É uma doença por demais castradora!

O filme por certo é muito bom: dou nota 08! Merece ser visto. Até pelo lado elucidativo para esse mal ainda sem uma cura. O que valida o rever para clarear as ideias acerca dessa doença, até para reavaliar conceitos, preconceitos… Mas por conta do que falei, de ter ficado um tanto quanto plástico, para mim ele deixou de ser um excelente me levando mais a querer ler o livro homônimo de Lisa Genova o qual o filme foi baseado. O que ficou mesmo após o filme foi a “tradução literal” da doença de Alzheimer na subida dos créditos finais. De ter exclamado um sonoro: “Nossa!”. E para quem já viu o filme a “borboleta” deixa uma reflexão…

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Para Sempre Alice. (Still Alice. 2014). Ficha técnica: página do filme no IMBb.

Cartas do Deserto (Letters From the Desert / Eulogy to Slowness. 2010)

Cartas do Deserto é um dos filmes que ‘garimpei’ no Festival do Rio 2010. Achei o roteiro original e é essa particularidade que sempre me chama a atenção. Os protagonistas dessa charmosa história são as cartas. Os espaços geográficos são o deserto Thar, no norte da Índia, alguns vilarejos e um casebre usado como ponto dos correios; o tempo cronológico marcado pelo relógio quebrou-se; o título original é Elogio à Lentidão, e neste caso, procede.

Cartas do Deserto conta a história de um agente dos correios que recebe e separa toda a correspondência da cidade, e o seu único amigo e colega de trabalho, é o carteiro Hari que faz a distribuição diária, atravessando dia após dia o deserto para essa missão que cumpre com paciência, amor e eficácia, batendo de porta em porta, conversando com os moradores, alguns já aguardando a correspondência cativa que tem data e hora para receber o aviso de pagamento, por exemplo, enfim, caminha longas distâncias, com seus sapatos rotos, o calor miserável batendo em suas costas, às vezes em sua bicicleta naquele canto do mundo, que a terra esqueceu.

Foram 20 longos anos nessa tarefa árdua e incansável que ele sempre tirou de letra, até que um belo dia, um grupo de trabalhadores ergue no meio do deserto a primeira torre de telefonia móvel, e Hari começa a perceber que o mundo ao seu redor começa a mudar. As correspondências começam a escassear, as encomendas diminuem e muita gente adquire novos hábitos, andando de um lado para o outro com um pequeno aparelho grudado ao ouvido falando/ ouvindo constantemente como se o objeto fosse uma extensão do seu corpo.

O primeiro sinal de modernidade chegou com um pouco de atraso na terra que o mundo esqueceu… mas chegou… Até que um dia Hari recebe pelos correios onde ele próprio trabalha um aparelho celular, presente de seu filho mais velho que foi para uma cidade grande para trabalhar. Começa assim a mudança de seus hábitos, passando agora a se comunicar com mais freqüência e mais fácil e rapidamente com o seu  filho por esse meio de comunicação que para todos da aldeia é a novidade do momento.

O tempo não para. As cartas que falavam de amor, vinham perfumadas, o papel que se usou, o pensamento, a organização de idéias, o assunto para escrevê-la, as lembranças, a ida ao correio para postá-la, a caneta, o papel, o selo, o carimbo, o atendente que te recebeu e pegou essa sua correspondência, o dinheiro e o tempo gasto para todo o trabalho que envolve esse meio de comunicação ficaram, assim, para trás, de repente…

Hari amava sua profissão. Às vezes lia pacientemente para o destinatário a carta do remetente. O carteiro comportava-se como um membro de cada família que visitava. E o tempo era o seu aliado, o seu melhor amigo. O tempo que aos poucos começa a cair no esquecimento para ser substituído pelo vento.

Tão importante quanto o ar que respiramos, o tempo não se deve desperdiçá-lo jamais: é pecado e a vida é muito breve para isso, valioso para se deixar esvair. Às vezes é bom se jogar conversa fora, contemplar a natureza, edificar a alma, fazendo o que se gosta sem se preocupar com o tempo. Sinto saudade desse tempo de romantismo das cartas via correios que não volta mais…

Um filme obrigatório para todo cinéfilo que se preze!

E por falar em cartas, correios, tempo etc, aqui no Brasil temos o dia do carteiro que se comemora no dia 25 /01 …
K.R.

Sinopse

Hari passou os últimos 20 anos de sua vida cruzando o deserto Thar, no norte da Índia, para entregar cartas em vilarejos distantes. Certo dia, seu filho mais velho, que vive na cidade grande, lhe envia um estranho presente: um aparelho celular. Incapaz de compreender a utilidade daquele apetrecho, ou o porquê de se estarem construindo tantas torres nas redondezas, Hari aos poucos começa a perceber o mundo mudar à sua volta. As encomendas diminuem e todos começam a telefonar uns aos outros. Ele decide então tentar usar seu aparelho pela primeira vez, para ouvir a voz de seu filho.

Ficha técnica

Título inglês: Letters from the Desert (eulogy to slowness)
Diretor: Michela Occhipinti
Elenco: Hari Ram Sharma, Chatur Singh
Ano de Produção: 2010
País: Itália / Índia
Duração: 88

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VOLVER (2006)

volver_almodovarAlmodóvar trouxe nesse filme, Volver, o que a falta de um diálogo pode ocasionar.

Pois vejamos o que temos nesse filme. Em destaque: três gerações de mulheres, aparentemente dominadoras; mesmo exarcebando até um jeito bem feminino em cumprimentar. O filme faz uma análise crua do sentimento familiar e de cada um dentro desse núcleo. O que está por trás de cada decisão tomada. Mas que se for feita sem contar aos outros pode ressuscitar dúvidas, julgamentos, cobranças… Afinal, bem ou mal, estão todos ligados por laços familiares. E numa família também há os diferentes, quem se comporte de modo reprovável…

Seja quais forem as intenções, elas devem ser compartilhadas. E que julgamentos sem ouvir o outro lado não é algo certo a se fazer.

Volver” também mostra que alguns terão que lutar com seus moinhos de ventos; seus dragões; suas expiações… E cada um tem jeito próprio de vivenciar tudo isso.

O que pesou mais nessa convivência, foi sim a falta de diálogo entre elas.

Ocultar, ou melhor, apenas enterrar, não faz com que esqueçamos de algo. Os fantasmas um dia podem aparecer e… Lembraria aqui de uma frase de Jung: “O que não enfrentamos em nós mesmos, encontramos como destino.

Por um outro lado, o ficar mostrando (os túmulos), fica parecendo idolatria ao ego.

Por último, o que não ficou bem resolvido “voltou”. E aí??? E aí, ao revolver esse passado, o melhor é ter consciência do que fez, ou falou, mas sobretudo, é ter consciência de seguir em frente. Se possível, com uma carga a menos.

Eu gostei do filme! E não entendi o porque de tantas críticas contrárias a Volver. Menos ainda, quando ficam numa de comparar filmes do mesmo Diretor. Creio que em cada um, ele quer dizer algo diferente. Excetuando, claro, quando trata-se de uma seqüência. Ou quando o Diretor diz que é como uma Trilogia; ex: Iñárritu com: Amores Brutos, 21 Gramas, Babel. Aliás, esses três filmes do Iñárritu também aborda a comunicação; as conseqüências dela quando não há entendimentos.

Cenários e trilha sonora, assim como atuação dos atores, excelente.

Nota: 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

VOLVER. 2006. Espanha. Direção e Roteiro: Pedro Almodóvar. Com: Penélope Cruz, Carmen Maura, Lola Dueñas, Chus Lampreave, Billy West, Maurice LaMarche, Yohana Cobo, Mary Tyler Moore. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 121 minutos. Classificação: 14 anos.