Jogo do Dinheiro (2016). Um “Clube da Luta” Tentando se Vingar do Sistema?

Jogo-do-Dinheiro-2016_cartazPor: Valéria Miguez (LELLA).
Bom demais quando filmes trazem à baila o mercado de ações! Em 2011 “Margie Call” nos levou a olhar perto a fome voraz e destruidora desse mercado… Depois em 2015 foi a vez de “A Grande Aposta” deixar mais claro o quanto esse mundo não tem o menor escrúpulo em arruinar pessoas, empresas ou até nações… Sem pretensões de fazer com que os norte-americanos desistissem, até porque investir em ações já é algo cultural nos Estados Unidos. Um mundo onde podem concretizar o american dream mais rapidamente… Mesmo que seja tentar a sorte onde poucos lucram com a desgraça de muitos… Porque é o lucrar muito o que todos esperam… Esse tentar tirar a “sorte grande” vai desde o pequeno comprador aos que operam com grandes fortunas… Lembrando ou não do que ambos filmes mostraram… “Jogo do Dinheiro” traz como diferencial a manipulação que há de fato, muito embora não chega ao grande público. A manipulação seja em qual esfera for, seja em quais meios forem, desde que se conquiste o lucro pretendido. E como um pano de fundo: tentar uma sorte numa jogada de azar.

Metaforicamente, “Jogo do Dinheiro” coloca frente a frente o jogador que perdeu todo o seu dinheiro e o crupiê que o incentivou a jogar, mas onde esse “azarado” exige é a presença do dono da banca. Tudo porque grande parte da ação do filme acontece dentro de um programa de televisão que além de ter como layout um cassino o apresentador ao passar as dicas ao seu público em qual ação deve investir seu dinheiro passa a ideia de um “quebrar a banca”.

Assim, de um lado temos Lee Gates, o apresentador do tal programa de tevê. Personagem de George Clooney que está ótimo em cena, por sinal! Onde até então, Gates se mostrara um grande mago acertando com as dicas. Mas até pelo desgaste dos anos do programa, ou não… Um jovem entra nos estúdios sem o menor problema…

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E esse intruso é Kyle Budwell (Personagem de Jack O’Connell; que não fez feio frente ao Clooney), que armado exige que Gates vista um certo colete, além de exigir a presença do dono da Ibis Limpar Capital onde ele perdera uma grande soma de dinheiro por dica de Gates… Aliás, todos do programa também esperavam essa presença para que explicasse a queda das ações num prejuízo US$ 800 milhões aos acionistas… Mas em seu lugar, e por vídeo, fora Diane Lester (Caitriona Balfe) que tentou explicar, mas diante da situação sai em busca de respostas… Kyle mais parece ser um dos anônimos do filme “Clube da Luta” indo numa nova missão… Onde o “sistema” agora a ser atingido é outro… Aliás, de tabela tem um outro alvo a ser atingido, algo também arraigado na cultura americana… Assim, numa de ver o circo pegar fogo… E no que vier será “lucro”… Kyle não tem mais nada a perder…

Entre eles, mesmo ficando nos bastidores, há a diretora do tal programa, o “Money Monster” (Que é o título original do filme), Patty Fenn. Personagem da Julia Roberts. Apagada no início, cansada do estrelismo de Gates, esse talvez seria o seu último trabalho ali… Ela cresce bastante ao colocar até a sua intuição a serviço de seu cérebro para ir levando a situação já que Kyle demonstra ter vindo disposto a tudo… Ótima performance de Julia Roberts!

Diretora Jodie Foster fez bem em levar o filme como em tempo real do programa! Pois prende a atenção até com o jogo dos personagens: onde olhares, conversação, silêncio… tudo soma num crescente em se chegar a verdade por trás de tudo. Além do que paralelo a isso os próprios personagens passam suas vidas em xeque… Onde no fundo o peso maior é no binômino sócio-econômico por lá, o loser x winner. Do que realizaram até então… Se estariam indo como o “sistema” queria… Se queriam mesmo uma mudança radical… Se haveria um jeito de conciliar… Por aí… Porque parar de todo o sistema seria algo impossível… Quem sabe apenas “dar um troco” a ele…

Então é isso! Temos em “Jogo do Dinheiro” uma ótima crítica social num thriller inteligente e com uma boa dose de divertimento! Nota 09.

Jogo do Dinheiro (Money Monster. 2016)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Os Terraços (2013). A “Casa Grande, Senzala e Capitães do Mato…” na Sociedade Argelina

os-terracos_2013_posterdiretor-merzak-allouachePor: Valéria Miguez (LELLA).
Em “Os Terraços” o Diretor Merzak Allouache, que também assina o Roteiro, retrata de um jeito bem cru a vida de alguns dos moradores da capital argelina. Que mesmo sendo Argel uma cidade construída sobre colinas, daí os terraços terem um papel em destaque também nessa sociedade, e ao longo de sua história, mas justamente por essa visão privilegiada até do lindo azul mediterrâneo, ao colocar as histórias centradas nos telhados dos prédios parece dizer a todos do quanto estão desperdiçando um tempo importante de vida. Até porque o apelo que vem dos altos falantes das mesquitas parece ser como um barulho a mais numa cidade já bem barulhenta pelos carros e seus engarrafamentos… Abrindo um parêntese, por algo também comum a seguidores de outras religiões: em tendo-as como a absolvição dos atos, até criminosos, cometidos… Enfim, talvez o que Allouache queira dar a todos é uma chance de descortinarem novos horizontes. Nem que seja apenas para saírem um pouco dos próprios problemas. O que por sua vez também os levariam a ver se há uma outra saída… Ou não! Predestinado ou não! Cíclico ou não! Impostos ou não! São os contrastes da vida num quadro meio surreal pelas mãos do Diretor! Bravo!

argel_capital-da-argeliaPartindo de cinco terraços em bairros diferentes (Casbah, Bab El Oued, Belcourt, Notre-Dame d’Afrique e Telemly), com variações sócio-econômicas entre eles, o filme expõe o que se passa no interior de cada uma das pessoas! Onde uma maioria até tenta sobreviver da violência, da intolerância… do dia-a-dia e até por fechar os olhos diante de alguns fatos! Que embora não tenha sido ético, um dos que ignorou algo, talvez porque aquela parte da cidade já esteja tão carente… Numa de os meios justificando os fins? No fundo pode até terminar sendo absolvido por aquele que assiste o filme. Veja, e faça o seu próprio julgamento!

Em “Os Terraços” as histórias acontecem num único dia indo do amanhecer à meia-noite, com as cinco chamadas às orações de um feriado religioso. Entoadas num tom entristecido pelo muezzin como a apresentar o que estar por vir. Tendo como pano de fundo a mítica cidade branca, com seu mar azul num horizonte bem sugestivo. São nesses intervalos, entre essas pausas para orações e meditações… Que a vida dessa gente acontece! Ou deixa de existir…

Onde os recados, ou mesmo os apelos, por vezes até salta de um terraço para outro, conscientemente ou não, inconsequentes ou não… São gritos emudecidos até pelo medo de que acabe levando a barbárie para esse outro o qual o seu silêncio, ou mesmo a sua admiração, mais do que um pedido de ajuda, seria como um colírio para olhos já tão cansados de chorar… Quiçá, por um pedido de amizade… Mas aí quando esse outro atenta… Já era! Que por sua vez, por certo irá pesar na balança naquela absolvição o qual mencionei mais acima, mesmo tendo sido noutra das histórias mostradas em “Os Terraços“.

os-terracos_2013_cenas-do-filmeSão várias reflexões que o Diretor Allouache nos deixa em “Os Terraços“. Uma delas até pela visão de uma das personagens, uma cineasta que em um dos terraços tenta mostrar a toda a beleza de Argel para um documentário, o “Argel, Joia do Mundo Árabe“. Não apenas por terem diante de si todo o esplendor do Mar Mediterrâneo, a jovem pede ao cameraman que tente não posicionar referências a outras religiões…. Onde mesmo querendo dar a capital uma cara de cartão postal, ou uma identidade própria… Fica difícil até por ser uma cidade sobrevivente a décadas de lutas internas… Fica difícil não expor uma violência que já impregnou em muitos habitantes… Uma violência que pode estar logo ali bem próximo a ela… Ou como num outro terraço, e num bairro mais popular, o manter um ente familiar em cativeiro, foi por sua proteção… Mas sobretudo uma violência que pesa muito às mulheres! Até porque os homens se veem como donos delas…

Os Terraços” é um filme até para ser revisto! Não apenas pelo olhar inquietante de Allouache, ou até por conta disso, mas mais por expor vidas humanas sem máscaras. São dramas forjados também desamparo da política local: faltam moradias, água… Num país rico em petróleo, são desigualdades sociais que já deveriam terem sido sanadas… É o retrato de uma sociedade que até saltou dos apartamentos já tão apinhados de gente para “puxadinhos” em alguns desses terraços… Uma favelização que irá sentir a “força” da especulação imobiliária…

Paro por aqui! Para não tirar a surpresa de quem ainda não viu, como até motivando aos que já viram em ver de novo. Pois embora “Os Terraços” traga contextos bem fortes, até cruéis, o filme deixa uma leve sensação de que há esperança na humanidade. Mesmo que pela curiosidade ainda inocente de uma criança! Parabéns ao Diretor Merzak Allouache! Um Filme Nota 10!

Os Terraços (Les Terrases. 2013)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Série: Gotham (2014-). Uma Nova Ótica Lançada Sobre um Conteúdo Aparentemente Inesgotável

Gotham_seriePor: Cristian Oliveira Bruno.
Batman_KaneQuando adapta-se uma cosmologia tão rica e tão famosa quanto a do Batman, icônico personagem de Bob Kane, se faz necessário manter uma cautela toda especial no que diz respeito às alterações que serão feitas tanto na cronologia quanto na concepção dos personagens. No caso do super-herói em questão, tudo é mais complicado ainda, pois quase não há o que já não tenha sido feito. O tom mais cartunesco já fora ditado e orquestrado com maestria por Tim Burton em seus Batman (1989) e Batman – O Retorno (1992). A atmosfera mais sombria e pesada a qual parece ter sido a versão definitiva dada ao personagem nos anos 80, com O Cavaleiro das Trevas, do Deus dos quadrinhos Frank Miller – a melhor série já feita sobre o Homem-Morcego – foi recente elevada a um outro estágio com a consagrada trilogia de Christopher Nolan (Batman Begins [2005], The Dark Knight [2008] e The Dark Night Rises [2012]). Mesmo a inocência e a fantasia dos primeiros exemplares dos quadrinhos teve sua vez entre 1966 e 1968, com uma série de TV contendo 60 episódios da dupla dinâmica. Assim sendo, o que de novo e diferente o produtor Bruno Heller (The Mentalist [2008-2015]) e o diretor e produtor executivo Danny Cannon (O Juiz [1995]; Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado [1998]) poderiam apresentar em mais uma adaptação para a TV? A resposta veio com o título da série: Gotham.

Gotham_01Voltando pelo menos 15 anos no tempo, a proposta desta vez é apresentar uma nova ótica e lançar o olhar sobre a cidade, ao invés de seu mais ilustre residente, e mostrar como uma cidade tão corrupta e dominada pelo crime chegou ao ponto de precisar de um justiceiro mascarado para manter a ordem. E isso é o mais interessante em Gotham. Mais do que acompanhar os primeiros passos e a origem de vários personagens do universo dos quadrinhos (alguns famosos, outros nem tanto), a série se baseia no fato de que ainda não há um justiceiro mascarado para defender Gotham. E com a polícia, a justiça e o próprio prefeito Aubrey James (Richard Kind) e o comissário Loeb (Peter Scolari) nas mãos dos dois chefões das famílias mafiosas que controlam todo o crime da cidade, Carmine Falcone (John Doman) e Salvatore Maroni (David Zayas), cabe ao ainda jovem detetive James Gordon (Ben McKenzie) assumir o papel de paladino solitário da justiça. E quando eu digo solitário, não é força de expressão. Embora com o passar do tempo Gordon vá adquirindo aliados em sua inspiradora jornada de combate ao crime mais do que organizado, até um certo ponto dela ele se vê abandonado por seus companheiros, chefe e seu parceiro Harvey Bullock (Donal Logue).

gotham_02O plot da série é o assassinato de Thomas e Martha Wayne e a promessa feita por Gordon ao pequeno Bruce Wayne (David Mazouz) – retratado aqui aos 12 anos – de encontrar o responsável. A partir desse momento, Gordon adentra de vez no submundo e começa a entender como a cidade funciona. Não é que todos os seus habitantes sejam corruptos, mas todos têm família e jamais arriscariam oporem-se a Falcone ou Maroni. Essa faceta de uma Gotham dominada por figuras poderosas, mas sem super-poderes acaba por tornar-se, naturalmente, o segmento mais interessante da série. Não que a relação tutor/serviçal/pai entre Alfred Pennyworth (Sean Portwee) e seu determinado protegido não seja deveras comovente, ou que a luta da ambígua e maliciosa Selina Kyle (Carmen Bicondova) para sobreviver nas ruas não tenha seus momentos – embora seja a ramificação mais trôpega do programa -, mas é no núcleo criminoso que encontram-se os melhores personagens, situações e conflitos mais tensos e interessantes.

gotham_03Com um elenco bastante regular e em sua maioria experiente, os personagens acabam ganhando uma roupagem diferenciada e uma cara própria, embora não abandonem os aspectos e traços mais fortes pelos quais ficaram mundialmente conhecidos. Ben McKenzie (do seriado OC e de 88 Minutos) compõe um Jim Gordon intenso e forte, com uma segurança e uma presença em cena muito boas, mostrando o quanto evoluiu com o passar dos anos. Sua parceira inicial, Erin Richards – que interpreta Barbara Keen, primeiro par romântico de seu personagem na trama – não está tão mau, mas carece de uma química maior com o protagonista. Falha esta corrigida absurdamente com a inserção da personagem da Dra. Leslie “Lee” Thompson, interpretada pela brasileira Morena Baccarin (do seriado V – Invasores), cônjuge do ator, tornando a interação entre ambos algo natural, e isso reflete-se na tela. Também destaca-se neste quesito, sem a menor sombra de dúvidas, Oswald Cobblepot, o Pinguim, de Robin Taylor Lord, tão afetado e tresloucado quanto ameaçador e doentio. Taylor Lord vive a dolorosa saga de ascensão daquele que será o futuro Rei do crime da cidade. Donal Logue recebe uma tarefa ao mesmo tempo motivadora e arriscada ao viver o Det. Bullock como um dos protagonistas, já que o personagem não havia ganhado tanto destaque até aqui fora dos quadrinhos – olhe lá uma rápida aparição no primeiro filme de Tim Burton – e sempre fora retratado como policial corrupto e desonesto, com o perdão da redundância. Aqui, Bullock ganha um novo ponto de vista e é retratado não apenas como um mau policial, como alguém que viveu a vida inteira em Gotham e conhece aquela cidade e como ela funciona, sabendo jogar de acordo com suas regras. O choque de personalidades com Gordon faz com que Bullock passe de um obstáculo para ser o primeiro aliado de Gordon – e um importante aliado, pois Bullock conhece o crime da cidade.

gotham_os-viloesCriada especialmente para a série, Fish Mooney (interpretada com muita ferocidade e ímpeto por Jada Pinkett Smith) não só possui um papel importantíssimo na trama, tanto no andamento desta quanto na formação de background de demais personagens, e com certeza agradou (ou agradará) grande parte dos fãs – embora o desfecho dado a ela não seja dos mais agradáveis, ou mesmo bem pensados, provavelmente sua relação com seu fiel capanga Butch Gilzean (Drew Powell) promete arrebanhar muitos fãs para a dupla. Vários outros personagens tradicionais nas páginas das revistas da DC Comics dão as caras por aqui, sendo que alguns são bastante conhecidos do público, como Harvey Dent (Nicholas D’Agosto) – o Duas-Caras -, Edward Nygma (Cory Michael Smith) – O Charada -, Victor Szasz (ANthony Carrigan), Dr. Francis Dulmacher (Colm Feore) – o Mestre dos Bonecos -, Dr. Gerald Crane (Julian Sands) – criador do gás alucinógeno usado por seu filho Jonatan, o futuro Espantalho – e outros mais conhecidos apenas pelos mais familiarizados com o universo Batman, como Jack Buchinski (Christopher Heyendahl) – o Eletrocutador -, a policial Renee Montoya (Carmen Cartagena), Richard Sionis (Todd Stashwick) – o Máscara Negra -, Aaron Helzinger (Kevin McCormick) – o Amígdala, vilão muito semelhante e freqüentemente confundido com Bane – e Larissa Diaz (Lesley-Ann Brandt) – a Cobra venenosa.

gotham_04Mas dois vilões destacam-se neste paraíso dos “Batmanáticos“, cada um a sua maneira. O primeiro deles é Jerome Valeska (Cammeron Monaghan) que, mesmo sem ser oficialmente apresentado como tal, trata-se da versão do seriado para o maior inimigo do Homem-Morcego: o Coringa. O episódio onde o vilão aparece não é um dos melhores da temporada, mas Monaghan destaca-se no diálogo final quando a referência ao coringa é feita, em uma atuação muito boa. O outro é apresentado apenas no episódio 19 (e mantém-se ate o episódio 21, penúltimo da temporada – tendo sido especulado também na segunda temporada, embora fique claro e óbvio que isso não ocorrerá). Jason Solinski, o “Ogro” (Milo Ventimiglia), surge como o principal vilão da série até então, oferecendo sensação de risco real para os mocinhos. O Ogro é aquele com quem todo policial da cidade tem medo de mexer. Gordon também, mas isso não o faz recuar. Esse ponto da trama é um dos pontos altos da série e poderia ser, inclusive, o desfecho (não que o episódio 22 não seja satisfatório, mas o 21 é ainda melhor.

gotham_06Mas a própria Gotham City é a principal personagem da série. Todo personagem da cosmologia criada por Bob Kane, de Bruce Wayne à Mr. Freeze, é composto com base em traumas, seja a perda de um ente querido ou a sensação de impotência perante as situações enfrentadas diariamente. E Gotham está repleta de traumas os todos os cantos. Traumas e mitos. Em Gotham qualquer um pode ser o que quiser. Heróis e vilões usam máscaras visíveis, enquanto a alta sociedade usa máscaras políticas e diplomáticas. Por isso o Bandido do Capuz Vermelho representa mais do que um simples elemento daquela sociedade, mas também um sentimento. Gotham resume o sonho americano de ser a terra das oportunidades. Qualquer um pode ser rei em Gotham, basta tomar o que é seu por direito. Mesmo que não seja seu de direito. E a maneira como Heller e Cannon retratam esteticamente a atemporalidade da mística cidade é curioso. Há celulares e computadores, o que nos põe imediatamente nos dias de hoje. Os carros são das décadas de 60, 70 e 80 e os prédios e as ruas remetem aos anos 30 e 40. Sabemos que Gordon lutou recentemente em uma guerra, mas não sabemos qual foi. Nada é dito sobre o que ocorre além das fronteiras da cidade. Quem é o presidente, de onde vêm as pessoas de fora e tudo mais que não envolva Gotham permanece um mistério. Gotham é uma cidade que existe apenas no imaginário e está sempre em constante formação e Cannon e Heller nos permitem preencher estas lacunas, cada um a nosso modo.

gotham_05A primeira temporada, apesar do caráter experimental, foi melhor do que o esperado. Sofre alguma irregularidade com relação ao ritmo e a consistência – coisa mais do que comum em séries sem um diretor fixo -, mas no fim das contas Heller e Cannon seguram bem as pontas e trilharam um belíssimo caminho para ser expandido nas próximas temporadas já anunciadas. Foi muito bom ver que ainda há o que explorar – com dignidade – de um universo já tão esmiuçado no decorrer dos anos. Este que vos escreve é fã do herói em questão e confessa sem vergonha que estava desesperançoso com esta série, mas fiquei bastante satisfeito com o resultado final desta primeira temporada e a recomendo sem medo para os fãs de Batman e até mesmo para os não fãs, dada a boa distribuição dos núcleos.

Avaliação Geral da Primeira Temporada: 7,5.

Série: Gotham (2014 – )
Ficha Técnica: na página no IMDb.

RoboCop (2014). Uma Análise Retrô

robocop-2014_cartazRobocopsPor Ivan Anderson.
Lançado em 2014 para se tornar um grande blockbuster do cinema, RoboCop 2014 se tornou um filme controverso e gerou grandes discussões a respeito das comparações com o filme cult de 1987. Com direção do brasileiro José Padilha, a releitura do policial do futuro, apesar de ser um bom filme, decepcionou os maiores fãs da série principalmente pela leveza com a qual o policial biônico Alex Murphy passou a encarar os criminosos no século 21.

RoboCop em sua versão original era uma verdadeira máquina de aniquilar vagabundos, segundo a linguagem oitentista: aquele tira que atira primeiro e faz as perguntas depois, o que tornava muito divertidas e únicas cada uma das suas empreitadas contra o crime. O bandido não pensava duas vezes em tentar ceifar a vida do policial, então o robô atuava conforme a demanda, se posso assim dizer.

robocop-2014_02Em sua versão moderna, além de ser mais polido e atender a atual visão global de que o bandido (mesmo com toda a crueldade) é ser humano também, o novo policial do futuro começou torcendo o nariz dos fãs quando sua principal arma, antes uma beretta modificada, tornou-se um teaser para eletrocutar os foras da lei. O que também assustou os fãs foi o novo design de seu corpo, agora negro, o que gerou muitas comparações com Batman e até com o vilão McGaren, do seriado japonês Jaspion. (A blindagem prata também utilizada no filme ficou fantástica.)

robocop-2014_03Mas o longa tem também seus pontos positivos: a inovação tecnológica pela qual o protagonista passa, e explanações sobre a forma como a parte humana é alimentada, e fundida à máquina deixam um ar de satisfação grande aos expectadores mais curiosos e também aos mais críticos. A forma como a armadura é trocada, fazendo de Murphy uma espécie refil, ficou muito interessante e obviamente atuações como as de Michael keaton, Abbie Cornish, Gary Oldman e Samuel L. Jackson sempre brilham muito. Não deixando de lado, é claro, Joel Kinnaman, que encarnou muito bem o papel do primeiro ciborgue do mundo.

No fim das contas e apesar dos percalços RoboCop 2014 ainda vale o ingresso, principalmente por abordar de forma mais intensa o drama de um homem preso dentro de uma máquina, e pelas já citadas impecáveis atuações do glorioso elenco.

RoboCop (2014)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

A Espiã Que Sabia de Menos (Spy. 2015)

a-espia-que-sabia-de-menos_2015_cartazFazer uma paródia e de filmes do tipo James Bond pode até soar redundância. Porque convenhamos, o cara retirar uma roupa de mergulhador e por baixo já estar com um smoking impecavelmente alisado, é nonsense puro. Ou mesmo quando o 007 mergulha de um penhasco e consegue entrar num avião que despencara antes dele e sair pilotando numa boa. Com isso o Diretor Paul Feig já tinha diante de si um prato cheio, ainda mais que ele também assina o Roteiro: era brincar em cima daquilo tudo. Restando saber então se ele teria conseguido. E sim! Ele acertou a mão! Pois “A Espiã Que Sabia de Menos” é muito bom!

a-espia-que-sabia-de-menos-2015_01Se o próprio personagem James Bond já teria diante uma alta tecnologia em armamentos, é claro que um espião de hoje conta com muito mais. Como por exemplo, um olhar a lhe guiar em tempo real: satélites e drones ligando o espião em campo a alguém numa salinha a milhas dali. Os fãs de 007 podem até não gostar dessa “nova versão” para o seu querido agente, mas enfim uma paródia tem total liberdade para não o primar de um alto QI e sim liberando muito mais o sex appeal desse personagem. Assim temos em “A Espiã Que Sabia de Menos” como o agente galã, o Bradley Fine, o ator Jude Law. Não sei se ele quis participar desse filme como um laboratório tipo quem sabe um dia vir a interpretar o “007“, ou mesmo sendo um fã do personagem ter um gostinho interpretando-o mesmo que numa paródia. Enfim, mesmo para mim que sou fã do ator em Comédias Românticas, ou mesmo nas que pendem para um Drama, ele não me agradou de todo. Não sei se ele também preferiu ficar mesmo no caricato, até para “não queimar o filme” dele nesses outros tipos de filme onde ele é excelente! Mas nesse aqui ele deixou a desejar. Para a sua performance eu daria um 7,5.

a-espia-que-sabia-de-menos-2015_02O tal olhar a guiar esse agente vem de uma sala muito da esculhambada e dentro da própria agência, a CIA em questão. A ela é dado o tal QI que falta no tal agente de campo. Sendo assim usa com maestria toda a parafernália tecnológica a sua frente. Ali comandando tudo aquilo ela se sente uma agente 007 de saia. Ela é Susan Cooper, personagem de Melissa McCarthy. Eu não sei se Paul Feig escreveu já pensando nessa atriz, o certo é que acertou em cheio. McCarthy está excelente! Não apenas pelo biotipo, mas principalmente pela performance: há cenas que ficarão na memória e pela ótima atuação. Nota 10.

a-espia-que-sabia-de-menos-2015_03Por um erro de Bradley, e para não comprometer o andamento da missão, se fez necessário ter um novo agente em campo, e que fosse desconhecido. É quando Susan se oferece dela própria ir investigar mais de perto o tal traficante de armas. Bem, pelo menos é o que promete a sua superior (Allison Janney). Agora uma coisa era trabalhar atrás de um computador, e outra bem diferente era se passar por um espião. Mas de tanto ser os olhos e o cérebro do Bradley, deu a ela confiança de sobra, até em se achar meio invisível. Que de um jeito ou de outro ela vai conseguindo se infiltrar no território inimigo. Quem quase vai entornando o caldo é o agente Rick Ford, personagem de Jason Statham. Esse sim faz um ótima dobradinha com a McCarthy! Statham faz um agente bem tosco e está impagável! Para ele Nota 10.

a-espia-que-sabia-de-menos-2015_04Outro personagem que também rouba a cena é Nancy, interpretado por Miranda Hart. Nancy passa então a ocupar o lugar de Susan na tal sala. Bem, ela até tenta também conviver com os ratos que por lá aparece, mas a questão que ela se empolga com a “promoção” de Susan. Empolgação é pouco! Que pelo jeito a tal salinha ficou pequena demais! Nancy não iria perder a chance… Mesmo sendo uma comédia um pouco de surpresa também conta. Agora, se houver uma continuação para “A Espiã Que Sabia de Menos“, além claro de Melissa McCarthy e de Jason Statham, Miranda Hart também carimba sua participação! Sua Nancy até me fez pensar na personagem Lucy de “Meu Malvado Favorito 2“, que eu também gostei muito! Nota 10!

Claro que um outro “coadjuvante” de peso é a Trilha Sonora. Começando com “Who Can You Trust“, de Ivy Levan, dando uma cara de um real “007”. Para mais tarde “Dancing Lasha Tumbai” mostrar que se trata mesmo de uma comédia escrachada! Até tem um love incendiante com a participação do cantor 50 Cent. Tudo num acorde perfeito, mesmo quando as figuraças parecem sair do tom!

Whoopy-Goldberg_e_Melissa-McCarthyO Diretor Paul Feig está de parabéns! Soube tirar proveito dos nonsenses dos filmes de espionagem num roteiro enxuto. E embora também tenha me levado lembrar do filme “Salve-me Quem Puder” (1986) por conta da personagem de Whoopy Goldberg, talvez numa de uma ideia que leva a outra, mas que acabei vendo como uma homenagem e a ambas atrizes com suas personagens que mesmo que atrapalhadas se saíram bem em suas missões, inclusive em divertir o público! Então é isso! O filme “A Espiã Que Sabia de Menos” é muito bom! Nota 9!

Por: Valéria Miguez.

A Espiã Que Sabia de Menos (Spy. 2015)
Ficha Técnica: na página no IMDb

Série: “CSI: Cyber” (2015 / ). A Realidade do Mundo dos Softwares Supera a Ficção!

csi-cyber_2015A Série “CSI: Cyber” ganha identidade própria em vez de ser apenas mais um dos laboratórios dentro da “nave mãe“. E talvez nesse início uma parcela dos fãs de “CSI: Investigação Criminal” ainda não perceberam que deveriam sim dar mais atenção a ela. Será que por exemplo já se esqueceram do que Edward Snowden contou ao mundo? Do quanto há de vulnerabilidade por ela para os que sabem se mover lá por dentro? Ou mesmo que atualmente cada vez mais estamos mais dependentes da Internet! Dai ser um prato cheio para um hacker black hat invadir perfis, contas bancárias… E muito mais!

Antes da informática, pedófilos usavam uma caixa para manter suas fotos embaixo da cama. Sendo geograficamente isolados dos outros pedófilos eram obrigados a reprimir os desejos socialmente inaceitáveis. Mas hoje a Internet conecta pessoas com as mesmas tendências depravadas. E uma vez que se reúnem, eles normalizam o comportamento e encorajam os outros.

Mary-Aiken_e_Anthony-Zuiker_CSI-Cyber_2015Anthony Zuiker, criador das “CSI“, teve a ideia para mais essa, a “CSI: Cyber” pelo do trabalho de Mary Aiken: psicóloga especializada em crimes na internet. Vale lembrar que a Internet vem desde a década de 90, daí haja chão para todos os tipos de estudos. Bem, entre a ideia até a concretização do projeto levaram alguns anos. Até que Mary Aiken se juntou a equipe como produtora e consultora. Emprestando assim sua experiência em inteligência e comportamento de cyber criminosos. Participando desde elaboração dos episódios até o andamento com o roteiro e as filmagens. Também em instruir a protagonista, Patrícia Arquette, em como agir em situações onde a personagem precisa analisar os suspeitos cara a cara.

Habilidades evolutivas de sobrevivência instintamente tendem a levá-los a lugares altos.”

Só a título de curiosidade é uma série que merece ser vista! Além do que Edward Snowden contou sobre espionagem eletrônica de um país para vários outros, temos também a farta documentação que Julian Assange mostrou, mostra pela Wikileaks… Pois é! Nem tudo tem um caráter criminoso… Onde talvez até “CSI: Cyber” mostre algumas dessas histórias mesmo que seja de um modo a “salvar” a própria pátria como em outras Séries e Filmes dos Estados Unidos… É esperar para ver!

mundo-dos-softwaresCoitados desses pais. Eles compram uma babá eletrônica pra proteger o filho deles. E é a mesma coisa que convidar o sequestrador.

Pode ser que “CSI: Cyber” até fique mais em cima dos trojan (software espião), phishing (envio de e-mails fraudulentos para infectar dispositivos e roubar informações), roteador clonado… Em como até por uma babá eletrônica hackeada descobriram um leilão de bebês para adoções. Já que o mesmo aparelho que daria uma pretensa segurança aos pais, também pode dar a sequestradores a chance de pegar o bebê sem serem notados. Ou de como em uma dessas empresas de Táxi por aplicativo também foi invadida… Enfim, se inteirar desse mundo dos softwares que temos também dentro de casa.

Passei a maior parte da minha carreira lutando contra gangues de rua, atentado, tráfico e outras guerras sangrentas… Mas hoje estamos diante de alvos anônimos obcecados em impressionar pessoas que nem mesmo conhecem! Com encorajamento e reconhecimento… vem a escalada.”

csi-cyber_patricia-arquetteCSI: Cyber” tem a frente a personagem de Patricia Arquette, a agente do FBI Avery Ryan que responde pela divisão de Crimes Cibernéticos. Bem, no mundo atual tudo que envolva dispositivos eletrônicos conectados a internet ou não é por definição: Cibernético. O que por si só já mostra o quanto ainda há de desconhecimento de todos nós. Mesmo para os que trabalham com eles. Os softwares se multiplicam. Talvez por isso sua personagem possa aparentar “andar em papel de arroz”. Pois acima de tudo ela estuda o comportamental das pessoas, muito mais do que o trabalho dos aparelhos eletrônicos. Para isso tem a sua equipe. Em sua apresentação inicial em cada episódio temos um perfil do que ela é, do que houve, e de que vem com tudo. Mas também mostra um lado mais sensível. Até de mãezona. Sem estereotipar por também ser uma agente de policial, sua performance está conseguindo sim levar esse personagem! Great!

Contrações das pupilas indicaram que dizia a verdade. As micro-expressões sinalizaram que não mascarava os seus sentimentos. Ele é inocente.

csi-cyber_elencoEnquanto a Agente Avery Ryan (Patricia Arquette) parece ter o “dom” de pegar os suspeitos na mentira por simples reações corporais, já que também é psicóloga, em sua equipe temos:
Elijah Mundo (James Van Der Beek): braço direito de Avery. Agente de campo. Especialista em armamento, veículos e bombas.
Daniel Krummitz (Charley Koontz): agente na área técnica. O melhor hacker “white hat” no mundo. Tem raciocínio rápido. Não tem medo de ser brutalmente honesto. Antissocial. Parece “viver” na sede da divisão de Crimes Cibernéticos.
Brody Nelson (Shad Moss): Hacker “pego” por Krumitz. Escolhendo trabalhar para o FBI em vez de viver uma vida de cibercrime.
Raven Ramirez (Hayley Kiyoko): especialista em investigações de mídia social, relações internacionais e tendências cibernéticas. Ela acha qualquer pessoa em qualquer rede social de qualquer parte do mundo. Detém um segredo que irá colocar a divisão em risco.
E Simon Sifter (Peter MacNicol): Diretor do FBI e superior de Avery. Atua como o meio de comunicação entre a divisão de Crimes Cibernéticos e restante do governo. Ele é duro, justo e sabe jogar o jogo político.

A tecnologia pode facilitar a vida das pessoas. Mas certamente não a deixou tão segura.”

Então é isso! A Série “CSI: Cyber” também chegou esse ano pelas bandas de cá, Brasil. Transmitida às 22 horas nas quartas-feiras pelo canal AXN. Se vai emplacar mais temporadas? Ainda é duvidoso até porque também fica na pendência da audiência por lá, nos Estados Unidos. Eu espero que sim!

O nosso bandido é um bom empresário. Ele entende de oferta e demanda. Tente adotar uma criança nos dias de hoje. Triagem, lista de espera, contas com advogados… Ele achou uma maneira de encurtá-la.”