Habemus Papam (2011). Esse Papa não usa Prada, mas é Pop!

Nanni Moretti + um Papa em crise de identidade + Comédia = Pronto! Estava carimbado meu passaporte para assistir “Habemus Papam“. Há, sim! Faltou dizer que eu adoro a sonoridade da língua italiana. Conferido! E…

Poder é para quem pode!

Mais do que querer, tem que estar preparado para ele. Às vezes é algo inato, o que complica abdicar. Noutras, vem por alguma hierarquia. No filme “A Rainha” tivemos um exemplo de como estar num poder muda, ou melhor, molda uma pessoa. Em “Habemus Papam” temos com a morte de um, a escolha de um novo Papa. Alguém que irá ocupar o trono. O poder mais alto da Igreja Católica. Tudo dentro dos ditames da Igreja.

No filme teremos também um raio-X desse rito. Outros filmes já mostraram isso, mas Nanni Moretti suavizou todo o ritual. Indo da comicidade que se pode tirar de um cerimonial como esse, a até ironizar todo o luxo que há dentro do Vaticano. O que já levou a algumas pessoas um afastamento da Igreja Católica após visitarem o Vaticano. Até porque não sentiram nenhuma espiritualidade ali dentro, mas sim um puro comércio. De minha parte não precisei atravessar um oceano, daqui mesmo do Brasil, eu constatei isso. Primeiro em criança, depois quando adolescente me dando outra chance, mas fora em vão. Com o tempo me desliguei de toda e qualquer Religião. Já o Diretor Nanni Moretti foi além: é um ateu convicto. O que por si só já o deixa livre para voar nessa história. Ele também assina o Roteiro.

Moretti primeiro dar o ar da graça já na ida dos Cardeais para a sala de votação. Onde eles caminham pedindo pelas graças de todos os Santos. Depois, já na sala secreta, dando asas aos pensamentos do colegiado, e outras coisitas mais. O que ficou hilário! Fora dessa cúpula do Vaticano, um repórter (Enrico Iannello) faz o contraponto com o povão que, na Praça São Pedro, aguarda primeiro pela “fumaça branca” (Que indica que um Papa foi eleito e que aceitou.), depois pela oficialização na varanda central da Basílica. Onde então um Cardeal anuncia o “Habemus Papam” (= Temos Papa). Então o novo Papa chega ao balcão, se apresenta (Com o nome que escolheu.) e dá sua primeira bênção Urbi et Orbi (À cidade, no caso Roma, e ao mundo.).

Bem, até o Habemus Papam do tal Cardeal tudo seguia nos conformes. Depois é que começou a confusão geral, e com o grito de desespero do novo Papa. Como não chegou a escolher um novo nome, ainda com seu nome próprio: Melville (Michel Piccoli). Abrindo um parêntese para falar que a escolha desse ator fora mais-que-perfeita! Michel Piccoli está brilhante! Nos levando a acompanhá-lo nesse seu calvário com brilhos nos olhos. Ora sorrindo, ora a torcer pelo seu personagem.

Com algo tão inusitado – esse ataque de pânico no Papa eleito -, decidem chamar o melhor Psicanalista de Roma: Professor Brezzi. Personagem de Nanni Moretti. Que só terá a dimensão do novo caso, já lá dentro. Ele até tenta clinicar Melville, mas fica completamente cerceado não apenas pela presença de todos os Cardeais, como também por ter que pedir autorização para o que pode ou não perguntar ao paciente: sexo, mãe, infância, sonhos… Quando Brezzi comenta sobre um tal de – déficit de dedicação -, ele acaba dando asas aos pensamentos de Melville.

E o Papa foge! Pois consegue dar volta no cerimonialista (Jerzy Stuhr) do evento, como também aos policiais. O personagem de Jerzy Stuhr (Ótima atuação!) corta um dobrado em não deixar vazar a notícia da fuga, inclusive para o colegiado, enquanto aguarda que achem o Papa. Já que tem que encenar que o Papa se recolheu aos seus aposentos. Brezzi, sem poder sair dali, tenta novos caminhos em trazer o Papa à razão, achando que o Papa está recluso, e o faz com as dezenas de Cardeais que também não podem sair daquela ala do Vaticano. Se tem Itália, tem esporte. Mas com mais de “onze”, Brezzi improvisa um campeonato de vôlei entre continentes. É hilário até a comemoração de um único pontinho de um dos times quando já perdia de 15. Merece também os créditos o da Guarda Suiça que se passou pelo Papa, o ator Gianluca Gobbi. Foi ótimo!

Paralelo a isso, o Papa perambula por Roma como um anônimo qualquer. E enquanto é alguém do povo faz um balanço da sua vida. Até chegar a hora de dizer ao Público sua decisão na varanda da Basílica. Dando um fim ao Cerimonial. Ou não!?

E assim como tudo muda, Que eu mude não seja estranho.” (Todo Cambia)

O Papa de Nanni Moretti não usa Prada, mas ele é pop. Gosta do Teatro de Tchekhov e da Música de Mercedes Sosa. Ele vivencia um breve dilema: ao mesmo tempo que aceita ser Papa, se vê impotente para tal missão. Simpático e carismático. Não nos deixa indiferente, ficando numa torcida por ele. Alguns, para que ele siga o seu coração. Outros, que ouça a voz da razão. Assistam a “Habemus Papam” e escolham a sua opção.

O filme é excelente! De querer rever. E eu diria até que é desaconselhável para católicos para lá de beatos.
Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Habemus Papam (2011). Itália. Direção e Roteiro: Nanni Moretti. Elenco: Michel Piccoli, Nanni Moretti, Jerzy Stuhr, Renato Scarpa, Margherita Buy, Franco Graziosi, Leonardo Della Bianca. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 102 minutos.

CURIOSIDADES:
– Do mesmo diretor de “O Quarto do Filho“.

– A canção”Todo cambia” é de 1982. Cantada por Mercedes Sosa. E de autoria de um dos músicos mais significativos do movimento da Nova Canção Chilena: Julio Numhauser. Fala do amor à Pátria e é considerado um hino de libertação e de cidadania.

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Santa Paciência (The Infidel. 2010)

Uma santa paciência é o que se tem que ter para quem escolhe os títulos nos filmes no Brasil. O título original desse, além de pontuar em quase todo o filme, a cena onde de fato ele é dito – o infiel -, é ótima!

O que me leva a adentrar na análise citando que temos no Roteiro um dos pontos positivos. Um misto de Sacha Baron Cohen com Monty Python. O que já dá para imaginar que sobrará críticas para todos os lados. Além de garantir ótimas risadas. Em destaque: judeus x muçulmanos. Mas não fica apenas nessa guerra santa, vai além das etnias, das nacionalidades. Porque mostra que tudo isso pode afastar as pessoas.

Um amigo que o entenda!

No filme, uma amizade começa por conta dessa guerra dos tempos modernos. Um não tão pacato cidadão inglês. Um muçulmano nenhum um pouco ortodoxo. Vê sua casa cair ao descobrir que sua origem é judia. Ele é Mahmud (Omid Djalili). Ótimo, por sinal! Sem ter com quem desabafar, recorre a um judeu, vizinho de sua falecida mãe, a quem nos últimos dias travou intensos impropérios: o taxista de origem americana, Lenny Goldberg (Richard Schiff). Para mim, que costumo dizer que não busco por amigos como saídos de uma montadora, todos em séries, vi nessa amizade outro ponto alto desse filme. Pois chega de guetos no planeta!

Pai e Filho! E não versus, por conta de Religião.

Podemos até lembrar de um outro filme, o “A Gaiola das Loucas”. Por ambos mostrar a pré-ocupação de um filho pelo comportamento do pai. Num, pelo pai ser homossexual. Nesse, pelo pai não seguir todos os ritos do Islã. Em ambos também porque os filhos estando para casar, precisam reunir as famílias, as deles com as das futuras esposas. Mas essa semelhança em nada diminui esse filme. Pelo contrário! É mais um a reforçar que muitos dos preconceitos são impostos pela sociedade, e alimentado por grande parte da imprensa. Rashid (Amit Shah) também terá que rever seus conceitos.

A Família!

Mahmud por recear contar a esposa essa nova descoberta, termina por levar a mulher a pensar que ele tem uma amante. Mas Saamiya (Archie Panjabi) talvez preferisse isso, ao real motivo do comportamento estranho do marido. E novamente teremos a religião separando uma união feliz.

As Religiões.

Na própria, não encontra um apoio. Pelo contrário! Por parecer que falam línguas diferentes, é tido por um gay. Descobre que o provável pai biológico, é um rabino. Ou foi, por já estar à beira da morte. Um religioso que colocou o próprio filho para ser adotado!? E para completar, o padastro da noiva do filho, prega um islã mais conservador pelo mundo.

Cenas em destaque:
– a descoberta do nome judeu.
– a que mostra o título.
– o amigo judeu o recolhendo da calçada.
– aprendendo a ser judeu.

Ponto negativo.

O ritmo cai um pouco na metade do filme. Um pequeno enxugamento o deixaria redondinho. Como também por não ser exibibo no circuito comercial. Pois isso fará com que muitos nem saibam da existência dele. Afinal, um humor britânico é algo imperdível.

The Infidel” não é uma comédia ao longo de todo o filme, afinal temos um homem passando por uma crise de identidade. Seu drama não virará uma tragédia, porque já está ocidentalizado demais. E é por ai que abrirá seus olhos na tentativa de resgatar a sua família, como também em mostrar que mesmo por diferentes credos, todos podem viver em paz. Ou não!

Um ótimo filme. De querer rever.

Por: Valéria Miguesz (LELLA).

Uma curiosidade: Ao citarem brazilian, é por conta da depilação que extrai todos os pelos pubianos.

Santa Paciência (The Infidel. 2010). Reino Unido. Diretor: Josh Appignanesi. Roteiro: David Baddiel. +Elenco. Trilha Sonora: Erran Baron Cohen. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 105 minutos. Classificação: 12 anos.