O Que Traz Boas Novas (Monsieur Lazhar. 2011)

o-que-traz-boas-novas_2011o-que-traz-boas-novas_01Em algum momento da vida a morte de alguém próximo nos atinge. Mas que o sentimento de perda, pode vir junto o de culpa. Mesmo que não a tenha provocado, entre outros pensamentos vem o de que se fez de tudo para impedir. Mas o pior é quando fica também a sensação de que junto com o ato desesperado quis se vingar daquele que ficou vivo. Agora, se entre eles temos também crianças e inocentes fica a dúvida do porque dessa vingança. Na trama duas crianças tiveram um impacto maior: Alice (Sophie Nélisse) e Simon (Émilien Néron). A pequena Alice mostra que há diversas formas de se violentar alguém, e que com a morte não se tem como punir. Quanto a Simon ele reagiu porque aquilo era novo para ele. Quis mostrar força a alguém que já se encontrava na beira do precipício. Mas esse alguém era uma pessoa adulta.

E chegará o dia em que um simples abraço fará com que sintas como quem conseguiu, enfim, envolver o mundo. E como quem está protegido por todas as forças desse mesmo mundo. Porque o resto será mero resto, até o resto de nossas vidas.”

À primeira vista o filme “O Que Traz Boas Novas” pode ser mais um a mostrar a relação entre Professor e Alunos em Sala de Aula, mas como citei no início temos como pano de fundo a morte de um ente querido. Embora com um tema tão pesado ele transcorre num tom mais leve já que é uma Comédia Dramática. Também não é mais um a mostrar esse universo de dentro da escola porque ele se torna único por mostrar que regras rígidas demais mesmo que com boas intenções terminam prejudicando o peso de um professor na vida de uma criança. Até para não dar margens a pedofilia os professores se veem impedido de dar um simples abraço e que transmitiria segurança a criança. Muito embora se trata de uma classe ainda nos primeiros anos escolares. Onde as crianças em questão se encontram naquele momento de transição da infância para a pré-adolescência. Professores e Pais têm papel fundamental nessa fase. Que poderiam criar pontes, até porque olham para elas em universos distintos. No lar elas teriam o ninho. Na escola a preparação para o mundo. Assim se atuassem em conjunto, além da descoberta de futuros talentos, estariam preparando-as para as vicissitudes da vida. Se elas sentirem confiança conseguirão quase materializar essas novas angústias.

o-que-traz-boas-novas_02Ciente da morte de uma professora, Monsieur Lazhar (Mohamed Fellag) se candidata ao cargo. Por já estar disponível, e até por conta da burocracia na efetivação de um novo professor, a Diretora o contrata como substituto. Então Bachir Lazhar se encontra na difícil missão de trazer um sopro de vida para aquelas crianças. Algo como mostrar que a vida segue em frente. Que para ele também traria esse alento já que também trazia um luto dolorido. Monsieur Lazhar aos poucos foi conquistando os alunos. O que facilitou a abrirem seus corações. Percebendo de que havia um silencioso pedido de socorro.

Cada um vivencia um fato de um jeito, mesmo os que estão mais diretamente ligados a ele. Mas na trama não se pode esquecer que são crianças. Que a professora de quem gostavam tanto se suicidou ali. O que fez Bachir estranhar deles continuarem na mesma sala. Ai temos o paradoxo de se seguir ao pé da letra certas regras. De um lado temos a Diretora que mandou pintar as paredes e recolher todos os trabalhos que estavam nas paredes. Como se quisesse também esterilizar o que vivenciaram até então. Mais! Que se os mudassem de sala não os fariam esquecer do fato. Por outro lado tem a terapeuta impondo trabalhos artesanais, sem dar a menor chance delas mostrarem o que de fato estavam sentido.

transformacao-interiorBachir Lazhar mesmo colocando o seu pescoço a prêmio – até por ele está vivenciando um outro drama pessoal -, sabe que terá que ajudar aquelas crianças. Ainda mais que indiretamente aflorou os fantasmas delas. Abalando as estruturas do ensinar e educar, ou do papel da escola e da família na formação da criança, ele não poderia ficar de braços cruzados. Foi catártico até para ele. Não fora preciso estar ciente de toda a metodologia dali, de Quebec, para chegar no cerne do problema. Criança é criança em todo lugar. Talvez a brincadeira de colar o desenho de um peixe nas costas dele significava de que ele não era um peixe fora d’água ali, e de que remando contra a maré ele resgataria a infância de todas. Fechando assim esse período invernal.

No desenrolar da história parece que são peças de vários quebra-cabeças sendo montados. Mas que ao final todas as imagens se unem numa só figura como numa hologravura. Lindíssima! Simbolizando o começo, o meio e fim da história. De certa forma é o que o mundo atual precisa fazer mais. Como uma bela mensagem trazendo todos à razão de saber a emoção.

monsieur-lazharSensível! Cativante! De acompanhar com brilhos nos olhos. Que me fez querer revê-lo até porque ficou a impressão de que perdi alguns significados, já que os símbolos estavam todos ali. Muito embora o filme por um todo está fechadinho. Nada por alterar. Elenco em uníssono! Direção perfeita de Philippe Falardeau, que também assina o Roteiro. Um filme excelente! Mais até! O personagem Monsieur Lazhar merece viver outras histórias mais. E claro que com o ator Mohamed Fellag. Cuja performance foi fascinante!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Que Traz Boas Novas (Monsieur Lazhar. 2011). Canadá. Direção e Roteiro: Philippe Falardeau. Gênero: Comédia, Drama. Duração: 94 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos.

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Livro “TARÂNTULA” de Thierry Jonquet

Pessoal, sei que já foram feitas análises sobre o filme A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar. Entretanto o que será discutido agora é o livro de Thierry Jonquet. Apesar de focar na relação do médico Richard Lafargue e sua aparente esposa, Ève, tal qual a adaptação cinematográfica (com nomes trocados). O romance possui caminhos totalmente diferentes do longa-metragem, fornecendo personagens com atitudes distintas, porém ligados pelo mesmo segredo. Mesmo assim, o livro de Jonquet consegue, surpreendentemente, escrever uma história sobre a crueldade humana, algo mais distante do ambiente romântico do filme e próximo de “Laranja Mecânica”. Numa história envolvente onde todos possuem culpa, o autor “dá a cara a tapa” sem receios de mostrar as doenças do mundo real, evitando suavizar o lado da mocinha como o roteiro da película de Almodóvar.

Sinopse: O cirurgião plástico renomado (Richard Lafargue) e a bela mulher prisioneira de suas vontades (Ève), a adolescente que se automutila em um hospício (Viviane), o jovem acorrentado no porão obscuro depois de uma perseguição implacável (Vincent), o assaltante fugitivo condenado pelo próprio rosto (Alex). Um erro fatal do passado reúne esses personagens na mesma teia, no romance mais aclamado pelo público e crítica do autor francês Thierry Jonquet. Adaptado livremente ao cinema com o nome A Pele Que Habito sob a condução do famoso diretor espanhol Pedro Almodóvar.

Uma das coisas interessantes do livro é propor metáforas sobre zoomorfismo. O título Tarântula faz referência ao apelido dado por Ève ao seu seqüestrador, numa analogia da aranha envolver sua presa e, dessa forma, torturá-la na espera pelo pior. Além disso, a civilidade humana é posta a prova quando Vincent passa longos dias sem comer ou conversar com alguém, de maneira a ser comparado a um cachorro de estimação quando Lafargue chega, trazendo presentes e outros agrados. O sexo é retratado da forma mais cruel possível com a prostituição, criando um horrível pesadelo masculino relacionado a estupro consensual.

Já li algumas opiniões comparando a história a um Frankenstein moderno, todavia, até então, não entendia o porquê da trama lembrar-me tanto A Bela E A Fera. O item em comum com o conto-de-fadas é a Síndrome de Estocolmo, onde a vítima, numa tentativa inconsciente de autoproteção, busca uma maneira de se identificar com o raptor ou conquistar a simpatia do mesmo. Isso é uma das coisas mais angustiantes, afinal após tudo feito a Ève, ela continua tentando se aproximar do doutor, não da forma interesseira mostrada no filme, mas impulsivamente. O médico também se sente atraído, na verdade isso é ainda mais polêmico pela sugestão de que ele seja homossexual. É algo sem resposta e ofuscado pela atuação de Antonio Banderas, mas na obra de Jonquet fica no ar com a desconfiança momentânea de Vincent, fisicamente fraco demais para analisar melhor a situação. A saída do longa-metragem para essa suspeita foi fazer Vera (Ève, na literatura) com o rosto da esposa do doutor. Mas há outras peculiaridades semelhantes ao conto mencionado, o doutor a mantém presa, porém com o tempo passa a ser afetuoso, apesar do sofrimento imposto por ela a Viviane (filha de  Lafargue). Portanto, essa história  é mais próxima de uma versão ultraviolenta e sombria de A Bela E A Fera.

Tarântula e suas semelhanças macabras com A Bela E A Fera devido ao Complexo de Estocolmo, onde a vítima busca afeiçoar-se ao sequestrador, e as circunstâncias que levam o médico a aproximar-se da refém por solidão, culpa, piedade, irresistível beleza da moça, etc.

Ève não é santa ou inocente na história original, na realidade ela é capaz de tocar “The Man I Love” ao piano só para irritar Lafargue e abrir as pernas provocando o desejo proibido sentido por ele, o qual evita até tocá-la por conta do segredo. Mesmo tendo razões gigantes para torturar a “esposa”, Tarântula consegue ser perverso. O simples ato de prostituí-la e observar o ato é horrível, mas tudo é confrontado quando sabemos a identidade da mulher. Honestamente, li o livro após assistir ao filme e esse conflito de opiniões é bastante evidenciado. Afinal, o médico está certo ou não impondo sua tortura? a humanidade existente no homem deve ser ignorada, mesmo havendo motivos suficientes para fazer alguém culpado sofrer? Cabe ao médico condenar Vincent ao sofrimento até o fim da vida?

Nesse ponto descobrimos o porquê do título ser justamente Tarântula, o personagem chave é Lafargue, uma vítima tentando se vingar e sendo confrontado com sua natureza: tenta fazer durar seu ódio, mas a piedade na consciência é pesada, ainda precisa controlar seu desejo pela aparência de Ève, sente orgulho de sua criação e não pode usufruir dela por dogmas unidos ao passado sombrio.  Após esse texto, consegue-se descrever o livro em uma palavra: desafiador. Tudo isso condensado em apenas 150 páginas, provando algo esquecido por alguns autores: estimar qualidade ao invés de quantidade. Não focando apenas na questão de manter a identidade sexual da pessoa, o livro vai bem além dos temas do filme, explorando o sentimento de punição aos limites com um resultado intrigante através de reviravoltas inusitadas onde o conflito de humanidade e castigo é debatido sem o temor de não agradar um público acostumado a distinguir personagens bons de maus.

Por Alexandre Cavalcante (Alecs)

O Leitor, A Dama do Cachorrinho e Tchekhov

Três histórias de paixão: paixão por Anton Tcheckov, paixão pelo filme O LEITOR e pelo filme OLHOS NEGROS ou  A DAMA DO CACHORRINHO, um dos mais célebres do já citado escritor russo.

A Dama do Cachorrinho é um dos contos mais populares da literatura russa. Tão popular que recentemente se teve a oportunidade de ouvir a história sendo contada pelo protagonista Michael no filme O LEITOR lançado em 2008, e anteriormente também nas telonas sob o título OLHOS NEGROS, em 1987 pelas mãos do cineasta Nikita Mikhalkov. Evidentemente que em 118 minutos de duração, perde-se muito, já que se tem o hábito de comparar alhos com bugalhos, não se pode esquecer que a obra literária e a cinematográfica são linguagens distintas, ficando mais ou menos assim a sinopse do dirigido pelo russo:

A bordo de um navio no final do século XIX, italiano de meia idade conta sua história de amor a um russo. Ao visitar um spa, o homem, ainda casado, conhece uma mulher russa por quem se apaixona. Ela é infeliz no casamento e os dois transam. Ao voltar para casa, o homem está resolvido a deixar a esposa e se casar com a russa.
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Essa história fala sobre desencontros e encontros da vida; casamento, sentimentos falidos, amor, traição, adultério, vergonha, culpa…

Viajando um pouco mais pela obra literária, transcrevo aqui o resumo do conto.

Dmítri Dmítrich Gurov, casado e com três filhos, entediado com a vida matrimonial, há algum tempo passara a trair sua esposa. Mantinha aventuras passageiras com suas amantes e, amargurado com suas fúteis experiências amorosas, passa a referir-se às mulheres com desprezo.

Dmítri morava em Moscou e estava em Ialta, já há duas semanas, para descansar. Lá comentavam sobre uma dama que aparecera à beiramar e andava em companhia de um cachorrinho, como não sabiam seu nome a chamavam simplesmente: A dama do cachorrinho. Interessado, Dimitri a vê em diversos lugares passeando com seu cãozinho, até que, certa noite, ambos jantam no mesmo local e ele tenta aproximação, atraindo o cachorrinho.

Ana Sierguéievna, a dama do cachorrinho, era natural de S. Petersburgo e morava na cidade de S. com seu marido. Também se sentia infeliz no casamento e como estava sozinha em Ialta, conversa com o estranho para diminuir sua solidão. Os dois passaram a se encontrar todos os dias e Dmítri sente-se muito atraído por aquela mulher, até que o marido manda uma carta a Ana pedindo que ela retorne, pois ele está doente. Eles se despedem com a promessa de não mais se verem.

Dmítri retorna a Moscou e não consegue esquecer Ana. Mudado já não trata as mulheres com arrogância e percebe que está apaixonado. Resolve então ir para a Cidade de S. para reencontrar Ana. Descobre onde ela mora, mas não a procura esperando um encontro casual. Vai à estreia de uma peça teatral e encontra Ana que, perturbada com a presença do amante, revela que também não o esquecera, mas pede que ele vá embora, temendo o flagrante do marido.

Ana promete ir a Moscou e cumpre com a palavra. Passa a viajar periodicamente para encontrar o amante. Amam-se com sentimento de culpa, mas se perdoam ao perceber que aquele amor os transformara. Juntos conversam sobre o desconforto do amor às escondidas, pensam começar uma vida nova, mas não sabem como recomeçar. Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.
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E por último, a sinopse do filme O Leitor

Nos anos de 1950, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o jovem Michael Berg adoece e passa a ser cuidado por uma bela e estranha mulher, Hanna, que tem o dobro de sua idade. Michael logo se recupera, mas Hanna foi embora. Ao encontrá-la, os dois têm um breve, mas intenso romance. Uma paixão cada vez maior, temperada com as leituras de obras clássicas que Hanna sempre pede para que o amado leia. Apesar disso, Hanna misteriosamente desaparece outra vez. Passados oito anos, Michael é agora um aluno de Direito que acompanha julgamentos de crimes de guerra cometidos pelos nazistas. É nesse momento que Hanna reaparece na vida do rapaz. Mas para a surpresa dele, a mulher está no banco dos réus do Tribunal. Enquanto o passado de Hanna é revelado, Michael descobre um segredo que poderá impactar na vida de ambos.
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O filme O Leitor é uma história bastante fiel ao livro e acaba abordando os mesmos sentimentos como em Olhos Negros: culpa, amor, vergonha, remorso pelo que não foi feito no momento oportuno. Define-se em uma única palavra: Romance. Uma singela história de amor.

A ficção e a realidade nas obras de Tchekhov (con)fundem-se de tal maneira que nos faz devanear tanto quanto o tocante filme O LEITOR, e este, por sua vez em inúmeras nuances de muitas outras histórias sensacionais brindando o expectador duas vezes pelo menos: 1º a obra cinematográfica, e 2º conhecendo histórias da literatura universal. Considerei super válido o diretor Stephen Daldry de uma sensibilidade  ter traduzido o romance do escritor alemão Bernard Schlink em outra linguagem artística, transformando-nos em protagonistas de sua obra, ou melhor, nos colocando na posição de Hanna –  a ouvinte – que se apaixona pelo adolescente Michael na Alemanha após a 2ª Guerra Mundial e ambos começam uma aventura que marcará a vida do rapaz para sempre. Ela tem o dobro da idade dele o que não impede que daí nasça um sentimento de amor e desejo carnal. Há muitas outras diferenças entre o casal.  Em cada encontro, antes do sexo, ela pede que ele leia algo para ela, o que ele faz com prazer, lendo os clássicos da literatura: A Odisséia, Guerra e Paz etc, até chegar em A Dama do Cachorrinho. Ele é O LEITOR e nós somos OS OUVINTES, contracenando com a obra. Relembrei a história com saudosismo. Hanna as ouve com muita   atenção e só mais adiante que se entende o seu drama. É analfabeta. Sente vergonha dessa sua condição e em momento algum revela esse seu “segredo” ao amado.

Culpa dela e vergonha dele. Muito tempo depois quando já não estão juntos é que ele acaba descobrindo isso, por mero acaso esse segredo dela. Ela é julgada e condenada por crimes de guerra, e ele poderia salvá-la da condenação mas por vergonha decide se calar.

Culpa e vergonha são os ingredientes principais na tocante obra O LEITOR. Um filme riquíssimo em significados e interpretações que  levam a questionamentos perturbadores. É sem dúvida uma obra-prima.

A 4a paixão é que sou uma ótima ouvinte. Gosto que me contem histórias interessantes. É uma viagem indescritível. Explicar é impossível. Guardo boas recordações dos tempos de ouvinte. Acho que não tive infância…

Assista ao filme, leia o livro, não deixe de prestigiar. Aproveite para ver também MOSCOU de Eduardo Coutinho e conhecerá um pouco mais de Tcheckov. Deleitem-se! Afinal faz um  bem danado para a alma.

Karenina Rostov

Precisamos Falar Sobre O Kevin (We Need to Talk About Kevin, 2011)

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Olá, pessoal. Hoje farei uma crítica que já planejo há um bom tempo, entretanto preferi esperar para que o filme estreasse nos cinemas brasileiros para que as pessoas que lessem tivessem a oportunidade de assistir. Quem leu meu post sobre Adaptações Cinematográficas de Livros deve lembrar que citei esse filme como sendo uma das adaptações mais diferentes que já assisti. Quando digo diferente não é no sentido de não haver fidelidade para com o livro, e sim do longa não ofender o romance, mas apresentar uma visão bastante particular da trama. Taxado como polêmico, assustador e surpreendente. “Precisamos Falar Sobre o Kevin está chocando o público, vocês devem estar perguntando o porquê disso. E é simplesmente por que tudo aquilo é algo bastante realista e não há nada mais assustador no cinema do que nós acreditarmos que aquilo mostrado nas telas pode acontecer na realidade. O relacionamento de amor e ódio de uma mãe com o filho, possivelmente, psicopata é algo que realmente instiga as pessoas. Numa das cenas geniais, Kevin comenta em tv aberta o fato do público televisivo dar tanta atenção aos psicopatas, afinal será mesmo que as pessoas não gostam de ouvir esse tipo de coisa? essa é uma das sugestões polêmicas que a história coloca.

Best-Seller de Lionel Shriver

O livro de Lionel Shriver foi recusado por muitas editoras e quando finalmente foi aceito, virou sucesso. A trama acompanha a história de uma mãe, Eva (Tilda Swinton), que sofre as conseqüências dos atos de seu filho Kevin (Ezra Miller), já preso por cometer uma chacina na escola. Como se não bastasse ser julgada e perder todo o dinheiro no tribunal, acusada de negligência materna, Eva tem que suportar diariamente o preconceito nas ruas, as pessoas acreditam que a revolta do rapaz possa ter vindo de falhas maternas. Então ela faz uma recapitulação, narrando tudo para Franklin (John C. Reilly), seu marido que a deixou levando a filha pequena. A partir daí acompanhamos do nascimento de Kevin até a data do massacre, sempre alternando entre o presente e as memórias de Eva. Quando tudo começa, ficamos espantados com a relação entre os dois. Kevin não era uma criança fácil e sempre fez questão de expôr sua natureza fria utilizando a mãe como alvo. Eva também não fica muito atrás, seus pensamentos de raiva pelo menino nos deixam na dúvida se realmente seus atos influenciaram no que Kevin se tornou. E é aí que surgem nossas dúvidas. Por que Kevin fez aquilo? Será que sua monstruosidade é justificável pelo elo fraco com a mãe? Eva é ou não culpada? Kevin sempre foi psicopata? Eva estaria paranóica desde que a criança nasceu ou é verdade que o tempo todo notara as inclinações assassinas do filho?

Momentos tensos

As respostas para as perguntas acima são bastante relativas, o que faz com que cada pessoa saia da sala de cinema com um filme diferente na cabeça. Acredito que a monstruosidade do rapaz seja tamanha que ficará bastante constrangedor para alguém defendê-lo, no livro até o advogado se sente desconfortável pela reação de Eva. Ela tenta “permanecer de pé”, evita chorar na frente dos outros, o que faz com que a maioria pense que é uma mulher fria. Eva guarda a culpa para si mesma, o que torna tudo tão doloroso. Ela sente que precisa ser castigada pelo que seu filho fez, por isso não se zanga com a reação violenta das pessoas. Cabe a nós sabermos se ela realmente influenciou.  Quando chegamos ao final da trama, temos uma revelação que mudará todo o jogo. O assustador final é inevitável e alerto para que as pessoas estejam preparadas para a indignação.

Falando em indignação, estou profundamente decepcionado com a Academia do Oscar que não indicou Tilda Swinton como Melhor Atriz, mas indicou Rooney Mara. Não que a novata não mostre talento, mas quem assiste a “Precisamos Falar Sobre o Kevin” sabe muito bem que aquele talvez tenha sido o papel da vida de Tilda. Ela se entregou completamente para o papel, não assisti a nenhuma atuação tão surpreendente durante todo o ano. Logo é natural que a credibilidade do Oscar caia no meu conceito. John C. Reilly não tem quase nada a ver com a aparência do Franklin do livro. Apesar dele não ter muitos diálogos, só sua imagem é suficiente para o associarmos com um pai preocupado e que tenta simplesmente acreditar que seu filho é normal. Kevin se transforma na presença do pai, o que faz com que Eva sempre seja julgada como exagerada pelo marido.

A água como a vida aparentemente calma de Eva, até Kevin acabar com tudo com apenas um toque.

Ezra Miller parece que vem se preparando involuntariamente para Kevin através de outros papéis. Após interpretar um garoto com possíveis tendências psicopatas em outro filme de Cannes (Depois das Aulas), o jovem agora pode ser conhecido como o bad boy de Hollywood. A participação de Ezra como Kevin não é longa, porém marcante. Quem rouba a cena como Kevin é o ator mirim Jasper Newell, que provavelmente conseguiu a proeza de despertar a vontade de todas as mães, na platéia, de lhe dar uma bela surra.

Ela percebeu as tendências do filho desde o princípio

O defeito do filme é em alguns momentos deixar escapar a semelhança de Kevin com outros monstrinhos do cinema. É inevitável não lembrar de Damien de A Profecia. A diferença de Kevin para Damien é que o filho de Eva é praticamente uma abordagem nova sobre a psicopatia. Se em A Profecia, o menino não tinha um bom elo com a mãe por ser o anticristo, em Kevin a situação é explorada sem receio. A realidade é que muitas mães sofrem por não conseguirem ter uma boa ligação com seus filhos (exemplo disso é a depressão pós-parto), isso sempre foi visto de maneira assustadora pela sociedade, mas é algo que acontece. Em A Profecia, isso foi transformado numa fantasia onde a desculpa pela falta de vínculo materno ocorre pela criança não ser o filho verdadeiro do casal e, sim, do diabo. O que torna “Precisamos Falar Sobre o Kevin” tão assustador é justamente o fato de não haver fantasias. Kevin não é adotado e não é o anticristo. Eva teve muita dificuldade em gostar da criança no princípio, porque para ela aquele bebê significava a perda da independência. Nós sabemos que a criança sente quando isso acontece, o problema é a reação de Kevin. Quando a mãe tenta se aproximar dele, ele sempre recua e não deixa uma oportunidade de machucar a mãe passar em branco.

Eva imaginando o afogamento do filho

Há uma situação que talvez alguns não entendam completamente no filme, porém que fica bastante claro no livro. A cena em que Eva quebra o braço de Kevin num acesso de fúria pelo que o menino faz. O menino estava com um leve sorriso no rosto quando isso aconteceu. Kevin não contou para ninguém o feito da mãe. O que nos deixa intrigados é o porquê dele fazer isso. Ao mesmo tempo que Kevin mantém segredo, ele utiliza isso como arma para “aprontar” sem que a mãe o delate, senão ele conta sobre o braço. Mas, como todas as atitudes de Kevin têm dois lados da moeda. É possível também que ele não tenha contado para ninguém porque, como Eva cita no livro, aquele foi o único momento em que ele pôde se identificar com a mãe, pois se sua natureza era violenta ele buscava alguém com quem se identificar, e é terrível sua alegria quando a mãe demonstra raiva. Parece uma maneira de “atiçar” Eva como desculpa para também ver o lado obscuro de outra pessoa. Em uma das partes do livro, Kevin na escolinha convence uma menina com doença de pele a descascar a pele ruim (até sair sangue), como se desejasse libertá-la daquele incômodo ou fazê-la se machucar. Não há limites para as crueldades do menino até a adolescência, poucos notam sua verdadeira face, mas suas atitudes sempre possuem duas possibilidades. E o mesmo jamais demonstra culpa.

Kevin sente culpa?

Sobre o conteúdo, não é fácil para algumas pessoas ler os diálogos cruéis do livro. Por isso algumas coisas foram suavizadas no filme. Um exemplo são as visitas de Eva a Kevin, onde no romance há uma troca de farpas de deixar qualquer pessoa horrorizada com tamanha crueldade do filho e as respostas terríveis da mãe. No longa isso não aconteceu, deixando o silêncio tomar conta das cenas como uma forma de expressar a dificuldade que Eva possui ao ter de visitar o filho. No final da leitura e da projeção percebemos o porquê dela odiar o filho em tantos momentos. Mas não se assuste, você (leitor dessa crítica). Apesar do filme revelar que não há limites para a crueldade humana, também coloca a ausência de barreiras para o amor de uma mãe. Eva continua vendo Kevin porque ainda tem a esperança de que um filho que a ama esteja ali dentro. “Precisamos Falar Sobre o Kevin” prova isso da maneira mais realista possível. Enquanto assistimos a esse filme é importante ficar claro a quantidade de mulheres que estão passando por esse sofrimento de culpa ao presenciar a prisão do filho. A verdadeira pergunta que deixo aqui é: Será justo julgá-las sempre negativamente?

Tilda Swinton na cena mais emocionante, a da descoberta. Digna de Oscar.

As Canções (2011)

Assisti ao documentário “As Canções“, do diretor Eduardo Coutinho. Fui sem ler resenha alguma afinal, era um Eduardo Coutinho diretor do qual sou fã sem ser especialista, eu não tenho como ser especializada em nenhum autor devido a passionalidade que o ao meu olhar crítico possui, mas tenho cá as minhas “grifes”.De cara este filme remeteu-me ao anterior “Jogo de Cena”. Saí do cinema pensando se seria a resposta da música (arte de compor e cantar) à interpretação (arte de interpretar)… Mas se em Jogo de Cena tínhamos algumas atrizes famosas, em As Canções, famosas apenas as músicas e as histórias, por inusitadas que fossem, todas girando em torno do amor, da emoção de ter-se amado um dia ou de ter-se amado menos do que se podia, amado quem não devia, mas no fundo amores perdidos.

As pessoas entram num palco com cortinas escuras, cadeira escura, cantam suas canções, expõem suas penumbras e contam suas histórias ou vice-e-versa. Levantam-se e saem dali provavelmente diferente do que entraram – imagino – porque eu, senti-me diferente de quando entrei para ver o documentário. Mesmo as pessoas mais leves, “carregam” no peso de suas histórias. Mesmo aqueles que contam de maneira a provocar risos, falam de dramas de um pedaço que se foi e que a canção permanece a preencher.Pergunto-me qual o segredo de Coutinho para deixar pessoas tão à vontade contando particularidades. Sim, eu sei,  são  histórias vividas, passadas, já divididas, partilhadas nenhum segredo, talvez, já do conhecimento daqueles com quem convivem. Mas teriam sido as canções que fizeram do diretor alguém íntimo para que abrissem o coração antes de cantar a plenos pulmões?

O filho que dizia não ao pai, o homem que dizia não à esposa, a mulher que ouviu tantos nãos do seu afeto durante 30 anos de idas e vindas, o homem que mudou-se do interior depois de perder em curto período esposa e familiares. O coronel que hoje lava a louça e leva a esposa e sua culpa de carro ao médico. A mulher que perdeu o amante após ganhar centímetros na “cinturinha de pilão”, a jovem – agora uma senhora, expulsa de casa por ser mãe solteira que encontra o amor da sua vida no exato momento que partia para morrer-se e matar a própria filha. A cantora do programa do Ary Barroso aposentada. A cadeirante com a linda história do amor em “Dó-Ré-Mi”.

Histórias, emoções ainda que em torno do mesmo tema, tão diferentes umas das outras, geradas por um sentimento que todos tivemos um dia, de ter amado e ter perdido. De continuar amando mesmo depois de ter sido preterido.

Coutinho e seu método, penumbra, cadeira, depoimento, boca aberta, alma em exposição, vulnerabilidade,  poderia ser um dentista, é diretor, cineasta. Poderia ser dentista… Mas é que a dor do paciente fica com a gente…

Por Rozzi Brasil.

Curiosidade: Prêmio de Melhor Documentário no Festival do Rio 2011.

Há Tanto Tempo que te Amo (Il y a longtemps que je t’aime. 2008)

Ha Tanto Tempo Que Te AmoPhilippe Claudel estréia na direção em grande estilo. Kristin Scott Thomas é Juliette, que sai da prisão após cumprir pena por um crime terrível e se hospeda na casa da irmã criando um certo conflito na harmonia da família.

Il y a longtemps que je t’aime” – que também é a letra da canção que pontua o filme – contém um saboroso desfile de interpretações exímias (incluindo a engraçada menininha vietnamita que ajuda a amenizar a amargura da estória e parece ter nascido para brilhar na tela grande) e sequencias muito naturais e bem filmadas como as da festa no campo.

O roteiro interessante mantém a atenção de quem vê este curioso jogo de crime, culpa, castigo e julgamento. Dostoievski aqui não é citado à toa.

Carlos Henry