Jogos Mortais (Saw. 2004)

“Quanto vale a sua vida? Quanto sangue você daria para continuar vivo?

Jogos Mortais (SAW) é um filme do gênero terror e fez um sucesso considerável no ano de seu lançamento, (mais de 600.000 assistiram nos cinemas) tanto que seus realizadores o transformaram numa série. O primeiro foi escrito pelo também ator Leigh Whannell, que se baseou no curta Saw ½ de aproximadamente dez minutos, de James Wan, o que deu origem a esta saga. Para muitos, Saw deveria terminar no terceiro episódio com a morte de John, o vilão, mas parece que está conseguindo sobreviver para sorte dos fãs do gênero tanto que conta já com um lançamento anual, caminhando para o sétimo exemplar.

Jogos Mortais não é um mero filme de terror com finalidade de mostrar simplesmente sangue e vísceras. Saw tem um argumento instigante, um roteiro criativo e inteligente; uma idéia original o que geralmente me atrai é exatamente o diferente. A produção é caprichada, este suspense psicológico é um dos melhores dos  últimos tempos. Destaca-se pela qualidade de um thriller, muito bem feito e de tirar o fôlego. A fotografia é o ponto alto como também a montagem, e a direção excepcional; as atuações competentes. Gostei do elenco, tudo nos seus conformes. Mesmo para quem não gosta de filme com cenas fortes e de muita violência acaba se interessando e assistindo por curiosidade, pelo trailer caprichado e também pelos próprios críticos que deram parecer bom, dando crédito e concordando que vale uma conferida, pois prende a atenção do inicio ao fim. Afirmaram que nada deixou a desejar aos clássicos de terror vampirescos, que sempre reservavam para o final o melhor dos sustos. Este não, é o tempo todo. O final surpreende, nada do tipo obvio.

Diz em um dos cartazes desta série: É o melhor serial killer desde Seven e uns dos melhores do gênero feito nos últimos tempos.

JOGOS MORTAIS – SAW – nada mais é que um jogo comparado aos simples ou super produzidos para computadores, ou aqueles joguinhos nossos velhos conhecidos de damas, xadrez, cartas etc, que certamente precisa de parceiros para que se concretize. Jogos Mortais, porém, vai além; é um Jogo de vida ou morte.

E o filme começa com a seguinte frase: QUE OS JOGOS COMECEM!

Jogos Mortais é um dois em um: um filme e um jogo. Quando se assiste em DVD, para se começar a rodá-lo, deve-se clicar, interessantemente, na palavra JOGAR, o que chamou a minha atenção.

Nesta primeira edição John é o vilão interpretado pelo ator Tobin Bell, mas aqui ele está desfocado, não é o centro das atenções, só será foco a partir do II episódio.

O jogo começa com duas vítimas trancadas e que acordam acorrentadas pelo pé num banheiro úmido, sujo e assustador; uma delas desacordada numa banheira cheia de água, e ao despertar, tamanho é o susto, esvazia a banheira e uma chave que se encontrava lá acaba indo pelo ralo; e outro corpo ensanguentado estirado de bruços no chão, parece estar morto, em uma das mãos segura um mini-gravador e em outra uma arma. Eles não sabem exatamente o que aconteceu e o motivo de estarem nessa situação até que o mistério aos poucos vai sendo desvendado.

Um dos presos é médico, Dr. Lawrence Gordon, e outro, um detetive, Adam Faulkner. Conversa vai, conversa vem, eles acabam seguindo pistas do porquê estarem naquele lugar e daquela maneira.

Adam: – Socorro, alguém me ajude!
Dr. Lawrence: – Não adianta gritar, ninguém vai te ouvir, eu já tentei.
Adam: – Acende a luz!
Dr. Lawrence: – Acenderia se pudesse. Eu sou médico. Acordei aqui como você. Sabe por que veio parar aqui?
Adam: – NÃO! E quanto a você?
Dr. GLawrence: – Hoje você vai se ver morrendo, Adam. O que pensa a respeito disso?

Dr. Lawrence  – Temos que pensar por que estamos aqui. Há um relógio novinho na parede. A pessoa que fez isso nos monitora através do tempo.

A primeira pista é Adam que encontra em um de seus bolsos, uma fita cassete dizendo: TALK ME. Conseguem dar um jeito de pegar o gravador que está na mão do corpo estirado no meio do chão. (No final é que se descobre que aquela pessoa estirada é o John, o vilão ou anti-herói desta história que acaba se levantando e eis o desfecho inesperado e surpreendente dessa história). A fita lhes dá a primeira coordenada, dizendo que devem encontrar algo para que se livrem da armadilha. Adam encontra dois pequenos serrotes. O maquiavélico jogador colocou com o objetivo de serrarem o tornozelo para se desvencilharem e escaparem, mas a dupla entendeu que era para serrar as correntes, o que não deu certo por serem grossas e acabaram desistindo. E foram encontrando outras pistas, outra fita e um celular que serviria somente para receber chamadas do jogador-mor.

Enquanto isso a polícia já começa suas investigações a partir de Amanda, garota bonita, porém transtornada por tudo que viveu e passou, nas últimas semanas e a sua luta para sair viva da situação absurda que se viu; ela uma ex-drogada que estava presa em uma armadilha juntamente com o namorado, e a pessoa que os prendeu é a mesma que agora “joga” com essa dupla. Amanda teve que matar o namorado para poder pegar uma chave que estava no estômago dele e se livrar da sua armadilha num tempo mínimo de menos de três minutos, caso contrário essa armadilha a detonaria, exatamente como acontece num game qualquer.

Para se entender essa história de vez, a filosofia de Jigsaw (John) é a seguinte: Quem ama a vida, não briga com ela, não a destrói, é “politicamente correto” E Amanda, não se amava, já que usava drogas o que acabava com sua vida aos poucos.

Amanda dizendo para o delegado: “– Foi por isso que ele te escolheu. Eu era uma viciada, e ele me ajudou, me salvou.”

Acompanhando as cenas dos próximos filmes se descobrirá a performance de Amanda como seguidora e ajudante de John. Totalmente mudada. Transformada numa exímia jogadora e súdita do rei dos jogos mortais. Quem te viu, quem te vê.

O médico Lawrence é um dos suspeitos da polícia, porque encontraram na cena de um dos crimes uma caneta dele, e ninguém sabia nem mesmo ele como ela foi parar lá. John, o vilão tem tumor cerebral (câncer) e, coincidentemente é paciente de Lawrence. No hospital, um dos enfermeiros sabe muito desse vilão e descobre-se que está metido na história dos “jogos” da cabeça aos pés; a princípio é um dos colaboradores de John; é ele que está monitorando no momento aqueles dois do início da história.

A polícia, o detetive David Trapp (Danny Glover) que foi escalado para conduzir esta investigação, e rastrear o serial killer juntamente com o seu companheiro acabam descobrindo o esconderijo do jogador. E “voam” para o local. Lá encontram a próxima vítima, todo amarrado numa cadeira, pronto para ser executado. São recebidos pelo que passei a chamar de bonequinho vil andando numa bicicleta. Esse bonequinho está presente nas histórias falando por John, quase sempre pelo monitor, passando as informações aos jogadores.

A dupla de policiais procura se esconder ao perceber que o assassino esta prestes a executar essa vitima, mas John percebe a presença de ambos e tenta matá-los. Corta o  pescoço de um deles e acerta com um tiro o outro. Enfim, o sortudo vilão consegue escapar.

Enquanto isso o médico e seu colega continuam se questionando a fim de descobrirem o motivo de estarem presos e o tempo começa a se esgotar.

O médico era infiel, traia sua esposa com uma colega de trabalho; o detetive fora contratado para tirar fotos para o policial David (Glover) que o tinha como suspeito. Enfim, para o vilão, segundo a sua filosofia, todos teriam motivo de sobra para não continuarem vivendo até que se provasse o contrário. O médico resolve serrar seu tornozelo para poder escapar. Pega a arma que esta no chão, atira no seu companheiro de cárcere que não morre, enquanto o médico sai se arrastando e sangrando muito para procurar ajuda.

Na verdade, John, nunca matou ninguém, então ele não é assassino. Indiretamente ele tenta por meio de suas vítimas, fazer com que uma elimine a outra. O objetivo dele é dar propósito à vida dos jogadores.

E no fim ele diz que as pessoas não dão valor ao que possuem, e que algumas pessoas são ingratas por estarem vivas, e tem sempre aquele que merece segunda chance.

E ele fala: – “Nestes últimos anos você fez de tudo para morrer (jogo de vida ou morte). Agora você tem tanto tempo para tentar. A ironia de tentar viver. Mas seja rápido porque a porta estará trancada e o quarto será o seu túmulo. Mas não você; nunca mais.” E conclui dizendo a célebre frase:

“GAME OVER.” Trancando definitivamente Adam naquele lugar.

O Jogo Terminou.

Neste primeiro o clima de terror psicológico e mortes são considerados incríveis e sem clichês. A história é bem coerente e procura desvendar os mistérios e a razão em comum dos escolhidos a participarem desse Jogo Mortal.

***

Como dizem os fãs “Perfeito! Soberbo! Surpreendente! Tornou-se um clássico do gênero.”

O expectador acaba entrando no jogo, tornando-se bem participativo, mesmo não conhecendo as regras acaba aprendendo e como se sair delas. Ética e lição moral, conseqüências dos atos. A platéia em certas cenas parece se identificar e vê a vida girando como se estivesse em um carrossel, baseando-se nas vivências e experiências humanas. Ficção e realidade mesclam-se.

Usa-se freqüentemente da abordagem e função social de um filme para se dizer se ele é bom ou ruim e todos os elementos que se esperam do dito “qualidade”. A trama está bem amarrada. Pode-se assistir aos jogos seguintes independentemente de não ter assistido a sequência ou a todos da série, pois o recurso flashback está ativado. Assista e saberá.

É surpreendente do início ao fim. Gostei. Recomendo! Que venham os outros jogos!

Karenina Rostov.  Blog: Letras Revisitadas.

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título original:Saw
gênero:Terror
duração:01 hs 42 min
ano de lançamento:2004
site oficial:http://www.jogosmortais.com.br
estúdio:Evolution Entertainment / Saw Productions Inc.
distribuidora:Lions Gate Films Inc. / Paris Filmes
direção: James Wan
roteiro:Leigh Whannell, baseado em estória de James Wan e Leigh Whannell
produção:Mark Burg, Gregg Hoffman Oren Koules
música:Charlie Clouser
fotografia:David A. Armstrong
direção de arte:Nanet Harty
figurino:Jennifer L. Soulages
edição:Kevin Greutert
efeitos especiais:Title House Digital

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Ensaio Sobre a Cegueira (2008): Uma Análise

Acabo de sair do cinema. Me encontro em estado de êxtase contemplativo. Estou pasmo, feliz e um tanto quanto emocionado. Um dos meus maiores temores já não tem razão de ser, pois Fernando Meirelles conseguiu a façanha inédita de adaptar com maestria a obra maior de José Saramago. Creio que as palavras que melhor descrevem o meu estado neste momento são estas duas: orgasmo mental.

José Saramago, em minha franca opinião, é o melhor escritor de literatura de todos os tempos. Me desculpem Dostoiévski, Tolstói, Hemingway, Kafka, Dante, Herman Hesse, Fernando Pessoa – também amo todos estes – mas Saramago, além de sua excepcional criatividade, tem uma maneira singular de contar histórias: ele sabe escolher as palavras certas e como encaixá-las no texto, graças a sabedoria popular adquirida durante toda uma vida levada com simplicidade. Sua narrativa é um espetáculo a parte e não posso simplesmente tentar explicar a sensação de ler um texto de Saramago justamente porque as palavras me limitam a fazer justiça à sua obra.

Li o livro Ensaio Sobre a Cegueira em Junho de 2001. Poucos dias se passaram entre o início e o fim, pois a história era tão instigante que não conseguia chegar à um ponto que me bastasse. Acabei por ficar tão envolvido com toda a magia do livro que não queria saber de mais nada, a não ser apreciar lentamente e com delicadeza página-por-página daquela história que nunca saiu de minha mente. Se tivesse que escolher apenas um livro para ler durante toda a minha vida, não hesitaria em escolher o Ensaio Sobre a Cegueira como principal candidato.

Este não é o único livro que li de Saramago. Ao contrário, faltam apenas alguns para que eu tome conhecimento de toda sua obra, porém o Ensaio chega a ser tão bom que ofusca outras histórias. Conforme estes meus comentários, vocês devem imaginar que eu sou uma espécie de fanático pelo autor português, então imaginem a minha preocupação e angústia ao saber que a melhor história de todos os tempos seria filmada?

A primeira coisa que veio em minha mente foi: como? Como uma obra considerada por mim e por muitos como intransponível para as telas poderia ser filmada? Coisa boa é que não poderia surgir de tamanha ousadia. Desta forma, será que os realizadores do filme não iriam assassinar o livro dourado escrito em nosso tempo? Como ficariam os diálogos ácidos de Saramago? Como eles poderiam ser traduzidos em imagens?

Não irei assistir! Pronto! Seria persistente em meu ponto-de-vista e valeria de minha teimosia para bater o pé e não ceder. Porém um vídeo no YouTube, me fez mudar de idéia.

Nele, temos Saramago, ao lado de Meirelles, em lágrimas dizendo que a emoção que estava sentindo era a mesma de quando ele havia terminado de escrever o livro. Fiquei arrepiado dos pés a cabeça! O próprio autor dera o seu parecer, e de forma tão intensa que não havia como a adaptação ter ficado ruim. Enfim, fiquei ainda mais confuso e curioso. De certo, somente a decisão que iria, a qualquer custo, assistir a película no cinema.

Enfim, minha mente era um turbilhão de pensamentos. Eis que chega o grande dia. Quando entro no cinema entro também numa batalha contra todos os pré-conceitos formulados anteriormente. Tenho medo do resultado final. Desejo, com antecedência, que o filme seja ruim, pois então estaria vingado de todos os diretores que insistem em dizimar um autor consagrado ao tentar prostituir uma bela história nos cinemas hollywoodianos.

Deveria ter me recordado que do outro lado não estava qualquer diretor. Estava um que não insulta a mente do telespectador e que respeita a sua inteligência. O brasileiro Fernando Meirelles já provou que é um dos maiores nomes do cinema internacional. Em algumas entrevistas, ele disse que já foi convidado para dirigir grandes blockbusters, mas este não é o seu foco, mas sim fazer filmes tocantes. Foi assim anteriormente com “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”. Obviamente ele trataria com carinho o maior clássico de Saramago. Ele não entraria num projeto que considerasse inviável apenas para ganhar projeção. Meirelles, ao aceitar o desafio, teve coragem superior aos espartanos na batalha contra os persas. Era o seu nome e sua carreira que estava em jogo. E ele superou todas as minhas expectativas.

ATENÇÃO: Contém SPOILERS a respeito da história. Se não quiser saber o que acontece, então não leia o conteúdo abaixo.

O que aconteceria se as pessoas passassem, de súbito, a perder a visão – e não uma cegueira escura, mas branca, como uma luz cintilante e intensa? Este é o tema explorado por Saramago em seu livro de 1995. Por trás de uma idéia simples surge um leque tão grande de possibilidades que Saramago consegue explorar o que há de mais selvagem e humano nos homens e colocar-lhes em frente à um espelho: hora refletimos bestialidade, hora fragilidade.

Um homem, em meio ao trânsito, fica cego. Logo, outros vão ficando. Passa-se algumas semanas, e a proporção de cegos aumenta de forma que o governo e as forças armadas se vêem forçados a tomar medidas drásticas e colocar os infectados pela “maldição branca” em quarentena numa espécie de alojamento, de modo que acredita-se que o vírus seja contagioso. No começo apenas um casal fica encarcerado, mas em pouco tempo surgem dezenas e dezenas de pessoas, a maioria sem saber o que realmente está acontecendo. Quem está dentro desta prisão improvisada não tem contato algum com o mundo exterior.

Dentro desta situação, temos uma mulher que enxerga, que resolveu entrar em quarentena para ajudar o marido em sua cegueira. Porém ninguém, a não ser o próprio marido, sabe de sua condição. Logo, grupos irão se dividir, e eles entrarão em conflito por necessidades básicas. Depois são apenas os demônios presentes em cada ser que irão orientar o seu caminho, de modo que eles chegam a se tornar figuras selvagens de uma selva sem lei.

A primeira coisa a observar é o caráter existencialista da história: inesperadamente somos devastados com uma epidemia de cegueira. Em nenhum momento sabemos como ou porquê. Sendo os homens seres que entendem que são controladores de todas as situações, ao se deparar com tamanho absurdo entram em crise de identidade. Nestas situações extremas, a figura do homem real, sem influências e sem moderações, costuma aparecer de forma intensa e irracional. O homem tem a necessidade de explicar o início e o fim de todas as coisas, logo quando se depara com algo inexplicável, uma dor muito intensa toma conta de si, de modo que ele beira a falta de sanidade e passar a cometer atos inexplicáveis.

Ainda nesta linha existencialista, temos a figura de uma mulher que enxerga num universo de pessoas que só vêem branco a sua frente. No inicio ela acha que é questão de tempo até ficar cega, como todos os outros, porém logo ela entende que não irá perder a visão. Então porque ela? Como ela pode ser imune à algo que atinge a todos? São perguntas que não temos respostas em nenhum momento. O certo é que ela está sozinha. E a aparente vantagem que ela leva em relação ao resto se converge em sofrimento ao vislumbrar o que há de mais bárbaro nos atos dos homens. Como dizem no popular, as vezes é preferível não vermos do que vermos tantas coisas ruins. Esta é uma verdade.

O segundo ponto a ser observado é que a epidemia é de cegueira. Num mundo onde imagem é tudo, não acredito que Samarago inseriu a deficiência coletiva de forma desproposital. Ao contrário, ao retirar a visão das pessoas, o autor removeu toda a referência disponível para seres subordinados a apenas aquilo que vêem. Ele desnudou o homem e o colocou na frente do espelho para mostrar quem realmente é: o homem sem referência de imagens é um homem desesperado, pacato e covarde, que não se entende e não entende o que está ao seu redor. Imagens funcionam como signos de fé. Logo, acredito naquilo que eu vejo, pois o que eu vejo é evidência daquilo que realmente é. Porém com este raciocínio podemos concluir que quando não vemos não entendemos, logo, deixamos de existir.

O terceiro ponto inicial que gostaria de mencionar é a cegueira branca. No escuro, temos a tendência de ficarmos relaxados. Já no claro, ficamos mais agitados. O dia é para viver e a noite para dormir. Agora imagine que quando você fechasse os olhos, ao invés da escuridão, enxergasse um branco ofuscante como se tivesse olhando para o próprio sol? Como você iria conseguir dormir? Nesta linha, Saramago frisa que o homem começa, vagarosamente, uma jornada rumo a loucura. Sendo assim, cada dia que passa, mais próximos estamos de um colapso generalizado.

Somente com estes três pontos podemos apreciar a obra com um olhar mais crítico e contemplativo. Creio que Meirelles entendeu a sacada e se preocupou mais em trabalhar a trama e estes conceitos do que transpor os diálogos e a narrativa de Saramago no livro. E foi por isto que a adaptação foi estupenda. Justamente porque o filme não inibe o prazer de ler o livro mesmo após ter assistido o filme ou vice-versa.

A direção do filme é soberba e exemplar. É sombria, como deveria ser, e transita os nossos sentimentos entre o desespero e o alívio, a indignação e a resignação. A história não foi criada para ser bonita – ainda que seja – mas para dar um tapa em nossa cara e dizer: “Aí esta você! Acorde antes que seja tarde!”. Meirelles trabalha com o branco e o negro de forma mágica: tons desfocados são inseridos no canto da tela e ao fundo, as vezes temos sobreposições de imagens e efeitos fantasmas, quando então ele decide dilatar a pupila da câmera. Então somos arremessados num mar de leite, a tela fica branca, os diálogos são construídos sob a perspectiva das personagens e quase nos tornamos um deles.

Algumas cenas são perturbadoras e deixarão cicatrizes por anos em minha mente. Servirá para lembrar que para situações extremas podemos esperar atitudes extremas, ainda que sem justificativas. É o desencontro do homem. A fuga que ele necessita para acobertar suas atrocidades sem sentimento de culpa. No fim, jogamos a dignidade numa lata de lixo e o que nos sobra é este nada que representa o ser humano no contexto universal. Não um nada no sentido mais vazio, mas um nada quando comparado que ele não é a única força que rege o mundo e que a própria vida tem as suas regras que desconhecemos, sendo que todos estão sujeitos a sofrerem as conseqüências dela.

Na busca pela sobrevivência acabamos por nos encontrar novamente e vemos uma outra face no espelho. Ficamos envergonhados de certos atos ao fazer uma genealogia de nossa vida. É tempo de recomeçar e aceitar as coisas como elas são. Esta é a única maneira de recuperar a nossa dignidade e extrair alguma bonificação que a vida possa nos dar: aprendendo a conviver consigo mesmo, assim como entendendo suas limitações.

Belíssimo! Belíssimo!

Por: EvAnDrO vEnAnCiO  Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Ensaio sobre a Cegueira (Blindness). 2008. Brasil. Direção: Fernando Meirelles. Elenco: Julianne Moore, Danny Glover, Alice Braga, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Don McKellar, Maury Chaykin, Martha Burns. Gênero: Drama, Suspense. Duração: 124 minutos. Censura: 16 anos. Adaptação do livro de José Saramago.

Dreamgirls – Em Busca de um Sonho

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Um musical incrível! Fica uma idéia de homenagear mais que a trajetória de alguns cantores numa certa época nos Estados Unidos, o contar o início de um sonho. De ter uma gravadora onde pudessem mostrar, divulgar, vender suas músicas, seus trabalhos. É, houve algo assim… a Motown!

Os primeiros minutos do filme terão a tônica do que rolava… Quando um se apresentou… De cá pensei: a homenagem aqui seria a B.B. King? Que voz! Que performance!

O filme conta a trajetória de um Trio feminino: do início até o final… Descobertas num Show de Calouros, têm suas vidas mudada de uma hora para outra que chegam a entrarem num conflito se era mesmo isso que sonhavam. A amizade iria segurar essa exposição? Até em quem ficaria com a voz principal…

Entre desabafos e sucessos… Somos brindados com vozes e canções de arrepiar! Seria por isso que parte desse gênero musical foi denominada Soul? A música toca a nossa alma, de fato. Bem, eu amo esse estilo! Como outros mais.

Esse Musical entrou para a minha lista The Best. Confessando que não consegui segurar as lágrimas no final…

Amei! Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Dreamgirls – Em Busca de um Sonho. EUA. 2006. Direção e Roteiro: Bill Condom. Com: Jamie Foxx, Beyoncé Knowles, Eddie Murphy, Danny Glover, Jennifer Hudson. Gênero: Drama, Musical. Duração: 130 minutos.