Últimas Conversas (2014), de Eduardo Coutinho

ultimas-conversas_de-eduardo-coutinho_2014Por Carlos Henry.
Em complemento ao notável filme de Carlos Nader, surge mais esta relíquia, Últimas Conversas, fruto dos últimos trabalhos de Eduardo Coutinho. No caso, esta obra inacabada devido à morte repentina do cineasta, conta com a já conhecida e impecável montagem de Jordana Berg e uma versão final e definitiva assinada por João Moreira Salles.

eduardo-coutinho_ultimas-conversasO feliz resultado é mais um tributo ao genial processo criativo do documentarista, neste caso, visivelmente contrariado com um projeto envolvendo estudantes adolescentes. A proposta inicial de Coutinho era rodar um filme com crianças, mas a ideia foi alterada por questões jurídicas. Este conflito e insatisfação com o rumo do projeto aparecem no início do filme e tornam o entrevistador bem mais falante, irônico e cáustico do que o habitual tornando a obra um pouco diferente de sua filmografia.

Ainda que visivelmente incomodado com o trabalho, o cineasta abusa do seu já conhecido “bom mau humor” para tentar arrancar pérolas dos adolescentes com quem conversa. Afinal acaba conseguindo a fórceps algumas lágrimas, revelações, depoimentos confusos próprios da idade, silêncios curiosos e até uma surpreendente interpretação da música “Listen to Your Heart” da banda Roxette.

ultimas-conversas_2014A crise de Coutinho parece chegar ao final quando surge a menina Luiza de apenas seis anos que parece iluminar o estúdio com sua graça e espontaneidade. Espirituoso como sempre, ele conduz a última entrevista bem mais satisfeito, certo de que faria um trabalho muito melhor se pudesse ter realizado um filme somente com crianças como tinha imaginado no início. Exalta a divertida interpretação que Luíza confere a Deus e abraça a menina que parecia muito à vontade naquela altura a ponto de voltar para se despedir com uma mesura típica da classe alta. Todos se divertem inclusive a plateia. Naquele momento, o artista deve ter imaginado que poderia voltar com a ideia original das crianças num futuro próximo. Infelizmente não deu tempo.

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Histórias Cruzadas (The Help. 2011). Por Um Pedido de Socorro

Por Mario Braga

Para aqueles que gosta, ou gostaram da história de cunho social, principalmente referente à discriminação racial contra os negros no EUA e assistiram “A Cor Púrpura-The Color Purple”(1985) de Steven Spielberg. Esqueçam. Não que Spielberg, não seja capaz de contar uma história como ninguém sobre o assunto, mas “Histórias Cruzadas-Help”(2011), baseado  no livro de Kathryn Stockett procura ir mais fundo no preconceito latente em relação aos negros, principalmente as mulheres negras.

Num elenco em que há a predominância das mulheres tanto brancas quanto as negras retratadas em 1960, o diretor Tate Taylor soube  captar como nenhum outro o sofrimento e a dor daquelas mulheres que só conseguiam galgar trabalho na condição de empregadas domésticas. Tate é direto, seguro e foge completamente dos estereótipos, do que seja piegas e dono de um talento ímpar que compõe muito bem o perfil dessas mulheres sulistas.

Embora todas elas façam uma composição perfeita de suas personagens, não há como negar a atenção sobre o talento natural de Octavia Spencer (Oscar de melhor atriz coadjuvante por “Help”) e Viola Davis como a doméstica contida que expressa toda a sua dor só pelo olhar, além das atrizes Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Jéssica Chastan e Allison Janey que completam esse universo feminino.

Não foi à toa que Taylor escolheu Sissy Spacey “Uma História Americana-The Long Walk Home” (1990) e Mary Steenburgen “Na Época do Ragtime-Ragtime” (1981), pois ambas (cada uma à sua maneira) nos filmes citados se apresentavam como mulheres liberais em seu tempo. Até mesmo como uma justa homenagem a ambas.

Vale citar a excelente fotografia de Stephen Goldblatt que pela manhã capta o calor exarcebado da cidade de Mississipi e a noite toda a tensão que a película exige.

Sem nenhum tipo de apelo emocional, mas muito bem conduzido, Tate Taylor domina o dom de fazer correr as lágrimas pelas faces dos marmanjões meio  durões, que habitam o nosso planeta, seja no escurinho de uma sala de cinema, seja dentro de casa no seu aparelho de LED com a luz toda apagada. Simplesmente magnífico.

Histórias Cruzadas (The Help. 2011). E a ajuda veio!

Abrindo um parêntese antes de analisar o filme. É que esse eu assisti no Festival do Rio 2011 – exibido como Vidas Cruzadas, mas que ao entrar no circuito comercial já virá como “Histórias Cruzadas“. Entre tantos a escolher… lembrei que uma amiga de blog, a Joyce, Blog Arte Amiga já o tinha citado. Então vi e amei! Valeu pela dica! Gostei tanto do filme que não entendi que só entraria no circuito comercial já quase Fevereiro de 2012. Pois uma data bem apropriada seria em 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra. Mas vá lá saber em como escolhem a data de exibição de um Filme no Brasil. Ainda mais esse que teve uma boa aceitação, de público e críticos, nos Estados Unidos; e da minha parte também. O filme é excelente! Até por conta disso eu resolvi deixar para publicar o meu texto já com ele em exibição. Incentivando assim a outros mais que não deixem de assitir. Agora sim, entrando no filme.

Histórias Cruzadas” traz como pano de fundo: de um lado as donas de casas e do outro as empregadas domésticas. Mas não se trata de uma luta de classe, e sim por mais dignidade e respeito entre elas. De imediato, há entre elas toda uma barreira de racismo. Herança de uma cultura escravagista. Num período de apenas algumas décadas passadas. Ambientadas em terras sulistas, mais precisamente no Mississipi. Como grande diferencial o filme traz um retrato 3×4 desses universos femininos. Mulheres iguais na essência, mas diferentes por forças das circunstâncias. O que estaria por trás, ou melhor, o que estaria de dentro dessas casas. Algo Histórico, mas focando mesmo na vida dessas mulheres. Num período bem marcante para todas. Onde se o saldo foi ruim para a elite local, veio quase como uma redenção para a classe espezinhada.

As tais donas de casas parecem terem saídos daquela escola em “O Sorriso de Monalisa”. Graduadas com mérito em: racismo, preconceito, futilidade, falta de amor visceral pelos próprios filhos. Delegando também às domésticas a criação dos filhos. Se tem como o grande vilão a segregação racial, tem como a personificação disso aquela que se auto proclamou a líder do grupo: a Hilly (Bryce Dallas Howard). Sua vilania é do tamanho e medida para aquilo que recebeu.

Se em “Domésticas – O Filme” temos uma prévia do grau do tratamento que muitas serviçais recebem das suas patroas, imaginem o que passavam na década de 60, Sul dos Estados Unidos. Época em que os Direitos Civis aos cidadãos negros tentavam entrar nesse território ainda com um tipo de milícia muito, mas muito cruel: a Kur Kurx Klan. Se por trás dessas máscaras estavam os maridos dessas patroas, o mais indicado seria que essas serviçais se calassem. Afinal, quem iriam socorrê-las?

_Coragem algumas vezes pula uma geração. Obrigada por trazer de volta à nossa família.”

A ajuda veio. Entre aquelas jovens brancas, uma resolveu ser a porta-voz das serviçais negras. Essa, nem o “casar e ter filhos” estava em seus planos. Seu sonho era ser jornalista com vôos em se tornar uma grande escritora. Da dona de uma Editora de Livros (Personagem de Mary Steenburgen) recebe uma importante dica. Que ganhasse experiência, não apenas no escrever, mas também em observar o entorno. Com isso teria o que dizer e como dizer. Essa jovem é Skeeter, personagem de Emma Stone. Se em “Amor a Toda Prova” ela não fez a diferença, em “Histórias Cruzadas” ela mostrou que está no caminho certo. Eu gostei da atuação dela.

Skeeter ao voltar para casa após se formar em jornalismo tenta se enquadrar na vida social local com as antigas colegas do colegial. Mas de imediato já destoa das demais por procurar um emprego em vez de um futuro marido. Conseguindo uma vaga no jornal local. Mas de algo que não tinha a menor aptidão. A vaga é para uma Coluna sobre Dúvidas e Sugestões em Trabalhos Domésticos. Parecia até piada, mas foi isso que a levou a se aproximar mais das serviçais. De uma em especial: Aibileen. E é por ela que conheceremos toda essa história. Eu comecei esse artigo com a Skeeter para então chegar na ligação entre as duas.

Aibileen é interpretada pela Viola Davis. Que está excelente! Por ela que temos também o porque do título original: “The Help“. Uma cena linda que foi menosprezada ao escolherem o título aqui no Brasil. Pois “Histórias Cruzadas” não faz jus as súplicas de Aibileen em suas conversas diárias com Deus. Escrevia tudo o que passava, o que percebia, o que ficava sabendo… Palavras muito mais fervorosas que qualquer oração. Skeeter na realidade foi quase uma ghost writer de Aibileen. Fora um salvo conduto num mundo onde ainda os brancos imperavam. Mas ela também teve uma história para contar no tal livro.

A cena de Aibileen escrevendo essas cartas para Deus, emociona. Até por algo sofrido, e muito especial. E pelo todo, me fizeram lembrar também da música do Gilberto Gil, “Se Eu Quiser Falar com Deus“. Aibileen mais que a Skeeter trazia em si o dom de escrever. O talento pode até vir de um aperfeiçoamento, de estudos, mas o dom é algo inato. Como também, só o fato de transcrever para o papel os sentimentos sofridos, já é um modo de exorcizá-los.

E é seguindo esse elo entre Fé e Realidade que ficamos conhecendo as histórias também das outras serviçais. Claro que todas essas histórias se cruzavam. Afinal todas elas, patroas e empregadas, moravam na mesma cidade, mesmo que em condados separados pela segregação racial.

O filme é longo, mas em nenhum momento perde o ritmo. Pois a atenção se mantém até por querer conhecer todas as demais histórias. As demais vidas. Saber da reação de todas quando o livro é publicado. Vibrar pela irreverência de Minny, personagem da Octavia Spencer. Minny é uma empregada que não deixará barato as injustiças que sofrera até então. Como também em soltar um palavrão na cena onde uma das amigas da mãe (Allison Janney) de Skeeter a obriga fazer, e até pelo motivo que a outra viu como afronta. Em se solidarizar com uma outra branca excluída pelas demais, a Celia, personagem de Jessica Chastain. A dupla Minny e Celia é uma comédia! Não tem como não se encantar com elas. Ri junto com a personagem da Sissy Spacek numa certa cena. E muito mais!

Uma das reflexões que o filme deixa é de que ainda há muitas dessas histórias nos dias atuais. Sob a égide de: cada um no seu lugar. Uma certa hierarquia dentro do campo profissional por certo há de se aceitar. Mas sem humilhações, nem constrangimentos com os subalternos. Na intimidade de uma casa, assim como numa empresa, precisa que haja um bom relacionamento entre todos para que tudo funcione bem. Do contrário, é uma ladeira abaixo até a falência familiar. Então a égide seria em valorizar quem realiza de fato as funções essenciais. É preciso respeito mútuo entre todos. E tirando o lado empregatício há de se pesar também o carinho que se recebe desses que em muitas das vezes terminam como sendo um membro “da família”.

Histórias Cruzadas” também deixa outras questões. Uma delas seriam com os homens. Em porque de terem sido ora passivos demais, noutras até violentos demais em meio a toda essa trama. Se eles são o que são por também serem produtos desse meio? Mas como citei, são reflexões após o filme. As máscaras deles não foram retiradas. O filme é delas!

Até pelas performances dos atores, destacando também a Direção e o Roteiro de Tate Taylor. Não li o livro de Kathryn Stockett, o qual o filme foi baseado, mesmo assim a história foi muito bem contada.

Então é isso! Entre emoções, risos e lágrimas, o filme entrou para a minha memória afetiva. De querer rever.

Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

As Canções (2011)

Assisti ao documentário “As Canções“, do diretor Eduardo Coutinho. Fui sem ler resenha alguma afinal, era um Eduardo Coutinho diretor do qual sou fã sem ser especialista, eu não tenho como ser especializada em nenhum autor devido a passionalidade que o ao meu olhar crítico possui, mas tenho cá as minhas “grifes”.De cara este filme remeteu-me ao anterior “Jogo de Cena”. Saí do cinema pensando se seria a resposta da música (arte de compor e cantar) à interpretação (arte de interpretar)… Mas se em Jogo de Cena tínhamos algumas atrizes famosas, em As Canções, famosas apenas as músicas e as histórias, por inusitadas que fossem, todas girando em torno do amor, da emoção de ter-se amado um dia ou de ter-se amado menos do que se podia, amado quem não devia, mas no fundo amores perdidos.

As pessoas entram num palco com cortinas escuras, cadeira escura, cantam suas canções, expõem suas penumbras e contam suas histórias ou vice-e-versa. Levantam-se e saem dali provavelmente diferente do que entraram – imagino – porque eu, senti-me diferente de quando entrei para ver o documentário. Mesmo as pessoas mais leves, “carregam” no peso de suas histórias. Mesmo aqueles que contam de maneira a provocar risos, falam de dramas de um pedaço que se foi e que a canção permanece a preencher.Pergunto-me qual o segredo de Coutinho para deixar pessoas tão à vontade contando particularidades. Sim, eu sei,  são  histórias vividas, passadas, já divididas, partilhadas nenhum segredo, talvez, já do conhecimento daqueles com quem convivem. Mas teriam sido as canções que fizeram do diretor alguém íntimo para que abrissem o coração antes de cantar a plenos pulmões?

O filho que dizia não ao pai, o homem que dizia não à esposa, a mulher que ouviu tantos nãos do seu afeto durante 30 anos de idas e vindas, o homem que mudou-se do interior depois de perder em curto período esposa e familiares. O coronel que hoje lava a louça e leva a esposa e sua culpa de carro ao médico. A mulher que perdeu o amante após ganhar centímetros na “cinturinha de pilão”, a jovem – agora uma senhora, expulsa de casa por ser mãe solteira que encontra o amor da sua vida no exato momento que partia para morrer-se e matar a própria filha. A cantora do programa do Ary Barroso aposentada. A cadeirante com a linda história do amor em “Dó-Ré-Mi”.

Histórias, emoções ainda que em torno do mesmo tema, tão diferentes umas das outras, geradas por um sentimento que todos tivemos um dia, de ter amado e ter perdido. De continuar amando mesmo depois de ter sido preterido.

Coutinho e seu método, penumbra, cadeira, depoimento, boca aberta, alma em exposição, vulnerabilidade,  poderia ser um dentista, é diretor, cineasta. Poderia ser dentista… Mas é que a dor do paciente fica com a gente…

Por Rozzi Brasil.

Curiosidade: Prêmio de Melhor Documentário no Festival do Rio 2011.

Histórias Cruzadas (THe Help, 2011)

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Baseado no romance de Kathryn Stockett, “The Help”, o filme de Tata Taylor, narra a história de uma determinada jovem branca, que se sente injuriada com o tratamento que as empregadas domesticas afro-americanas são vitimadas por suas patroas, em Jackson, Mississipi, na década de 1960.

Não li o romance de Stockett, mas o roteirista e diretor Tate Taylor não sacrifica muito, pois nada é explicíto no seu modo de narrar. A violencia vivida pelos negros no conturbado anos 60 nos Estados Unidos, não tem a mesma visão realista usada por Alan Parker, em “Mississipi em Chamas” (1988). Em “The Help”, o saldo se mede em comédia, drama- o que permite que os espectadores sintam compaixão e tornem parte do mundo das personagens.

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“The Help” é uma vitrine para seus atores. Viola Davis e Emma Stone, aparecem como fio contudor do filme. Stone vive Skeeter, a tal determinada jovem, que luta pela causa da classe minoritaria. Aibileen (Davis) é a voz que representa todas essas mulheres afro-americanas violadas pela discriminação racial. E, o seu testemunho serve de base para o livro “The Help” escrito por Skeeter, que subsequentemente representa outras multiplas vozes, dispositando uma Metaficção, onde Tayler exponhe ficção na ilusão ficcional, para dar um clima de verdade a narrativa.

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Curiosamente, achei as performances de apoio bem melhores do que as que foram entregues a Viola Davis e Emma Stone. Por examplo, a bela Bryce Dallas Howard como Hilly, encarna a personificação do mal como uma dona de casa racista, e ignorante. No entanto, o destaque do filme pertence a Octavia Spencer como a amiga de Aibileen, Minny, e Jessica Chastain como adoravel Celia Foote. Esta ultima é vista como uma “white trash” por Hilly e outras senhoras.  Chastain brilha em todos os filmes que fez este ano- “The Tree of Life”, “Take Shelter”,  “Debt” e Coriolanus-, e deveria concorrer ao Oscar contra si mesma da categoria de melhor atriz coadjuvante de 2011.  A Celia de Chastain é uma personagem cheia de vida, mas que sofre por não se enquadrar no grupo das senhoras respeitadas da cidade. Como Minny, Spencer está em fuso. Com os olhos arregalados e de fogo, ela comanda a atenção do público tanto quanto ela chama a atenção dentro da narrativa. Minny é o personagem que você torce, ri e deseja ser. Se Davis e Stone são o coração deste filme, Chastain e Spencer são o sangue pulsando a alma, e corpo  de “The Help”.

Por mais que haja aquela mensagem social, o filme de Taylor é vago. “The Help” não me tocou depois que acabou. Não que seja ruim, pois não é, mas não me deixou com aquele gostinho de querer rever.

P.S.: Sucesso de público e crítica, o filme provavelmente vai receber muitas indicacões ao Oscar. E, merecidamente Davis vai ser indicada como atriz – mesmo que o material aqui não chegue aos pés do seu desempenho em “Doubt” ( 2009).

Lindissima a trilha escrita pelo sempre injusticado Thomas Newman, que diferente do seu pai, o maravilhoso Alfred Newman, esse ganhou 9 Oscars, nunca ganhou nada, e esse ano provavelmente nem indicado aos Oscar vai ser! 😦

 Nota: 6

Narrar Contra o Dilúvio (3 Filmes: Ararat; Narradores de Javé; A Encantadora de Baleias)

Por: Affonso Romano de Sant’Anna.
Não tem muita gente vendo esse filme de Atom Egoyam. É pena, porque é um bom filme e, em certas cenas, além de mostrar a insanável estupidez humana, nos dá lições não só da história recente, mas de afetos e ternura humana. Estou falando de “Ararat”, dirigido por um armênio, com personagens armênios, sobre episódios da história armênia. Tem  até um armênio ultraconhecido – Charles Aznavour, que não canta, mas conta também a história.

-Quantos  filme armênios já vimos?

-Menos que iranianos, sulcoreanos e búlgaros.

Esse começa até com uma coisa que aos brasileiros soa familiar, pois os personagens começaram a contar uma estória que é exatamente a estória de “O coração materno” do nosso Vicente Celestino: o namorado que arranca o coração da mãe para doá-lo à sua amada e assim provar sua paixão. A narrativa é tão semelhante, inclusive com aquela cena de o coração da mãe saltando de suas mãos e falando-lhe de seu amor eterno. Mas não é isto o que fundamental no filme.

O filme tem várias histórias dentro dele e uma delas é a história de um  filme sobre o genocídio ocorrido em  1915 quando os turcos mataram naquele conturbado país, cerca de um milhão de homens, mulheres e crianças. Isto foi ontem, e nos faz entender o Afeganistão, o Iraque, as guerras em Israel e Palestina, o terror nazista, stalinista, maoista, o genocídio no Camboja e confirmar que o século XX foi o mais violento e dizimador de quantos existiram, desde a extinção dos dinossauros por misteriosos asteróides.

No meio do filme, um dos personagens diz que, para incentivar a dizimação dos judeus, Hitler afirmava que ninguém ligaria muito para aquilo, iam acabar esquecendo, porque a humanidade tem memória fraca. Com isto, ironizava: -Quem se lembra do massacre dos armênios? Já no final do filme aparece um texto dizendo que os turcos continuam afirmando que esse genocídio jamais existiu. Daí a necessidade de os armênios contarem e recontarem sua história para que ela não se apague neles e nos outros.

Os humanos têm necessidade de guardar, criar, recriar e até mesmo de inventar sua própria história. É isto, entre outras coisas que  me sensibiliza nesse filme. Nesse ou no esplêndido “Narradores de Javé” dessa competente Eliane Caffé ou em “A encantadora de baleias” daquela diretora neozelandeza. Em “Narradores de Javé”, toda uma comunidade recorre à memória e à narração para salvar-se do naufrágio no tempo, quando a represa expandisse suas águas sobre suas casas. Cada um se sente protagonista e dá a sua versão pessoal e subjetiva dos acontecimentos. Em “A encantadora de baleias”, é a magia de uma lenda beira-mar, como num conto de fadas, mobilizando a uma comunidade através da menina que, à revelia do machismo imperante, assume seus poderes de líder dialogando magicamente com a baleia, enquanto tótem da tribo, recuperando surpreedentemente o passado e modernizando a tradição.

Os três filmes são muito diferentes, e, no entanto, têm esse traço comum: a narrativa reagrupando a comunidade e dando sentido às vidas diante do dilúvio do esquecimento. O ser humano carece de embarcar na narratividade e ancorar sua memória num possível Ararat. E já que Noé atracou sua barca naquele monte, os armênios se consideram o berço da nova cultura humana depois do dilúvio. Ararat significa Grande Mãe e foi ali que, segundo a Bíblia, Deus estabeleceu a nova aliança com suas criaturas, ali foi onde Noé ergueu um altar e onde tudo recomeçou.

Já se falou que o homem é um animal simbólico, outros dizem que é um ser lúdico, outros o definem como “homo faber” ou “ homo economicus”, enquanto outros afirmam que é um ser que pensa. Mas pode-se dizer também que o que nos caracteriza universalmente é que somos seres que narram sua própria história. Assim como na natureza há os roedores e os herbívoros os humanos pertencem à espécie dos narradores. Narram oralmente, narram por escrito, narram pelo teatro, narram pelo cinema, narram por cores e volumes, narram pela dança, narram conversando na esquina, narram pelos jornais, narram fofocando por telefone e até por email não  fazem senão narrar.

Pois nesse filme uma das personagens é uma professora/ pesquisadora de arte que se dedica a fazer conferências sobre a vida e obra de Aschille Gorki-pintor armênio, que ainda menino teria assistido ao massacre dos seus, antes de conseguir com uns poucos sobreviventes chegar aos Estados Unidos.

Gorki viria a fazer parte de um famoso grupo de pintores da Escola de Nova York, da qual participavam Pollock, Rothko, Motherwell, De Kooning, Reinhardt e outros. Herói trágico, como Pollock e Rothko, ele também se mataria. Não pôde carregar sua própria narrativa. Olhava a velha fotografia em que estava ao lado de sua mãe antes da fuga e do massacre mas não conseguia libertar-se dela. Tentava pintá-la, reelaborá-la através de seus quadros, mas não superava o trauma. Havia algo inacabado nele e nas mãos da mãe que não conseguia terminar de pintar. É que há certas vidas de tal forma envenenadas em sua origem que só na inevitável e ansiada morte encontram o alívio para sua narrativa.

Nem sempre se pode suportar a própria história.

Mas, nesse filme “Ararat”- que remete simbolicamente para o monte onde a mítica barca de Noé teria ancorado, outros personagens procuram escapar ao dilúvio da história e da desmemória. O filho da professora de história da arte, por exemplo, volta à Armênia para filmar sozinho cenas e lugares que poderiam eventualmetne ser utilizadas no filme que está sendo rodado. É a geração mais jovem querendo reachar suas origens e refazer o périplo de seus antepassados.

Narrar é preciso.

Narrar é sobreviver.

Narrar é ancorar-se.

Narrando o mundo se recria. A gente diz “ era uma vez” e abre-se uma possibilidade infinita.

Por: Affonso Romano de Sant’Anna. Em 3.04.2004-O Globo. http://www.affonsoromano.com.br/

Nota do Autor (Jan/2010): Esse texto estará no próximo livro: LER O MUNDO.