Curta: Living with a Black Dog (2008). Ele não precisa ser um inimigo…

vivendo-com-um-cao-negro_depressao_capaPor Josie Conti.
Atualmente, a depressão afeta mais de 350 milhões de pessoas no mundo inteiro. Projeções da Organização Mundial de Saúde (OMS) estimam que em pouco tempo, entre todas as doenças, a depressão será a mais comum. Existem tratamentos efetivos, mas menos da metade dos afetados pela doença recebem qualquer tipo de tratamento. Os números da Previdência Social também não param de crescer e a depressão tem sido fonte de afastamentos longos e incapacidade para o trabalho.

Como existe uma grande chance da depressão tornar-se uma doenças crônica em que a pessoa pode ter diversos episódios de adoecimento ao longo da vida, o tratamento é fundamental.

O vídeo “Living with a Black Dog“, de Matthew e Ainsley Johnstone, leva a uma reflexão sobre a depressão numa descrição realista, mas com uma abordagem clara e descontraída. Uma presença que esgota e que muita das vezes termina por vencer as resistências que ainda possa possuir. Mesmo tendo consciência da sua presença a angústia mina as forças até se ver alimentando-o. Às vezes ele pode dar um respiro, mas não significa que tenha desaparecido.

vivendo-com-um-cao-negro_depressaoQuem popularizou a expressão cão negro como sinônimo depressão foi Winston Churchill ao descrever seu sofrimento com o transtorno. Mas o apelido de fato foi cunhado pelo escritor inglês Samuel Johnson ainda no século 18. E que era tido como Melancolia.

Se você ou alguém próximo a você sofre de depressão, procure ajuda profissional. Esse pode ser o primeiro grande passo em direção a uma grande mudança. Esse “cachorro preto” não precisa ser um inimigo.

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Anomalisa (2015). A Globalização Padronizando Comportamentos

Anomalisa_2015_cartazPor: Carlos Henry.
Charlie Kaufman é um roteirista de temas soturnos recheados de personagens de almas atormentadas e mentes confusas como em “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” e “Quero ser John Malkovich”. Em parceria com Duke Johnson criou mais um provável cult: A animação em stop motion com bonequinhos “Anomalisa”.

anomalisa_2015_cenaO personagem principal é o triste e quase frio Michael Stone que voa para Cincinnati para uma palestra como autor de livro de autoajuda. Curiosamente, todas as vozes e expressões das pessoas ao seu redor são as mesmas. Síndrome de Fregoli ou padronização de comportamento ditado pelo mundo? O filme não entrega, mas desfila situações típicas de uma globalização desenfreada embaladas num humor negro e sutil. A única que foge à regra de uniformidade é a simplória Lisa que a princípio arrebata o coração de Stone, tornando-se imediatamente diferenciada inclusive na voz para nortear o marasmo da monótona vida do autor.

As músicas Lakmé de Delibes e “Girls just wanna have fun” da Cindy Lauper pintam em cores pouco vibrantes a trama sombria e desconfortável que não é própria para menores. O enigmático título é uma aglutinação do nome da personagem de Lisa com a palavra brasileira anomalia, citada no livro de Stone como referência à suposta aberração de um país da América Latina que fala português. Ou seja, é um filme difícil, de reflexões incomuns no gênero, que poderia até ser considerado uma animação noir de indiscutível qualidade.

Don Juan Demarco (1994). Romantismo e Loucura…

don-juan-demarco_1994_capaPor Cristian Oliveira Bruno.

Romantismo e Loucura em uma Adaptação Fora dos Padrões

Com o auxilio da produção de Francis Ford Coppola, o roteirista Jeremy Leven (Diário de Uma Paixão; Gigantes de Aço) se aventurou pela primeira – até onde me lembro, única – vez no comando de um filme lá no longínquo e rico ano de 1994. Sua adaptação do clássico de Lord Byron, Don Juan Demarco, possui toda uma identidade própria e aposta num tom de comédia romântica das boas para conduzir uma narrativa extremamente lenta, baseada apenas em diálogos, mas que divertem e encantam na maior parte do tempo.

don-juan-demarco_1994_01Marlon Brando interpreta o Dr. Jack Mickles, psiquiatra de um instituto para pessoas com distúrbios mentais que, a dez dias de se aposentar, salva um misterioso jovem antes que este cometesse suicídio. Este jovem (Johnny Depp) acredita fielmente ser Don Juan Demarco e um trato faz com o Dr. Mickles – quem ele acredita ser Don Octávio da Silva, tio do de Don Francisco, o único homem que pode lhe conceder uma morte honrosa – que consiste no seguinte: se nestes dez dias ele não convencer o Dr. Mickles de que realmente é Don Juan, ele aceita submeter-se aos medicamentos e ao tratamento. Do contrário, pede o aval para ir embora.

don-juan-demarco_1994_02À medida que as sessões vão acontecendo e o jovem vai contando sua fantasiosamente absurda e igualmente apaixonante história, o Dr. Mickles começa a reavaliar sua vida e os rumos que ela tomou e acaba por indagar-se: o que houve comigo? Cadê aquela paixão de outrora? Será tarde de mais para retomar os trilhos e viver tudo o que eu sempre quis?Será que meu mundo é tão diferente do deste jovem, ou será que só vivo uma fantasia da felicidade? Embora saibamos, assim como os personagens, que aquele garoto não é Don Juan, é quase impossível não ser tocado pela paixão na sua voz. Uma pessoa capaz de enxergar beleza em tudo e em todos seria mesmo assim tão louca, ou só teria uma visão diferenciada das coisas? E a relação entre as histórias mirabolantes de Don Juan e as experiências de vida do Dr. Mickles começam a afetar o psiquiatra de uma maneira positiva, fazendo com que, inclusive, redescubra uma maneira de olhar para sua amada companheira como não fazia há um bom tempo nestes últimos 32 anos.

don-juan-demarco_1994_03Porém, fica evidente que aquele jovem sofre de um trauma gravíssimo, o qual o Dr. Mickles encontra uma barreira que o impede de acessar: a imagem fixa que ele tem de seus pais. Mesmo com a distorção dos fatos, algumas peculiaridades são percebidas, como a possível infidelidade de sua mãe e a trágica morte de seu pai. Aliás, há um belo momento, após Don Juan contar sua versão da morte de seu pai, percebemos os olhos do Dr. Mickles cheios de lágrimas e a câmera de Leven percorre a sala e encontra várias fotos do personagem com seu pai. Nada mais é dito, pois não é necessário. Um belíssimo momento muito bem dirigido por Leven.

Do meio pro final, Don Juan Demarco (o filme) assume de vez seu lado fantasioso e inverossímil, inclusive optando por um desfecho improvável que serve para ressaltar seu romantismo. Quem conseguir entregar-se ao filme e sua magia, com certeza terá uma experiência doce e muito bonita. É uma bela pedida contra as adaptações enfadonhas que vemos aos montes por aí.

Nota: 7.0.
Don Juan Demarco (1994)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit. 2014)

dois-dias-uma-noite_2014Quando o filme começa parece estar diante de um remanescente da Geração Prozac… Para em seguida ter a constatação de que é alguém recém saído de uma crise de depressão que a levara a se licenciar do emprego. Onde só não se desmoronou de todo por conta da própria família: de um marido que segurara a barra até ali. Incansável, se dividindo também em ser pai e mãe de um casal de filhos menores de idade. Crianças que até poderiam entender a gravidade da situação, mas no fundo sentiam por essa “ausência” presença da mãe. De qualquer forma o filme nos leva a caminhar com cuidado num final de semana de alguém que acha ter saído dessa crise e que tenta ter o emprego de volta. É que pelo médico até recebera alta das medicações, mas para ela parecia que ainda não tinha chegada a hora: ainda se fiava neles.

dois-dias-uma-noite_2014_01Dois Dias, Uma Noite” traz como pano de fundo a invasão dos produtos chineses e numa Bélgica proletariada. Pois é! Produtos esses que chegam com preços muito baixos, levando a uma crise as indústrias locais. Assim, veem como saída corte de pessoal… E foi por aí a solução encontrada para o dono da fábrica de placas solares onde ela trabalhava. Onde o gerente abusou do poder com um ultimato: ou aceitariam um abono no valor de 1000€ (Mil Euros) ou ela de volta. Só que para essa segunda opção um deles seria demitido no término do atual trabalho. E seria com essa certeza deles até já terem garantido o próprio emprego, que ela teria que “concorrer”. Se para alguém calcado em valores éticos já pesa, imaginem para alguém ainda tentando sair da depressão!

dois-dias-uma-noite_2014_02Da parte deles a entrada dessa bela quantia no orçamento familiar já era muito bem-vinda: tinham até feito planos onde ou como usar. E a possível fragilidade da tal funcionária meio que os abonaram na tal decisão. Muito embora não fora uma decisão unânime. Contando também que o filme traz como pano de fundo o peso de ser um imigrante mesmo já estando legalizado. Onde esses “não lourinhos” já eram preteridos em admissões de empregos. O que não de deixa de desestabilizar a ética pessoal. Perder um emprego ou mesmo um abono como esse… É! Ela teria um peso “pesado” pela frente.

dois-dias-uma-noite_2014_03Essa nova chance para voltar ao antigo trabalho partiu de uma das funcionárias, e por amizade a essa outra. Ela conseguiu do dono da empresa uma nova votação se baseando de que foram todos coagidos pelo gerente. Sendo já entardecer de uma sexta-feira, ele então marca para a manhã da segunda-feira, e dessa vez em uma votação secreta. Onde a maioria dos votos que então decidiria o destino dela na firma.

Bem, essa funcionária licenciada é Sandra, personagem da sempre ótima Marion Cotillard! Sandra então terá dois dias inteiro para procurar um por um em suas próprias casas e pedir que reconsiderassem o voto dado. Escolhendo pela volta dela ao trabalho nessa nova votação. Sem esquecermos nós público, e até por alguns desses personagens, de que ela realmente ainda não vencera de toda a luta contra a doença… Onde cada um desses empregados eram de classe média nada alta, alguns de menor poder aquisitivo ainda, enfim não viviam tão abonados assim para menosprezarem tal quantia. Por conta desse fator, Sandra vivenciará cenas meio de horror…

dois-dias-uma-noite_2014_00Assim, nesses dois dias Sandra além dessa amiga que por telefone tentava animá-la, tinha a presença do incansável marido (Fabrizio Rongione) e até da própria filha pesquisando na internet os endereços dos funcionários… E assim entre azedumes, patadas, choros, raiva, discussões, brigas… Sandra ainda teria pela frente mais uma noite inteira para então saber o que sairia dessa nova votação. É! Para alguém ainda fragilizada, não seria difícil desistir de tudo de vez…

Mais do que gostar de se ver a performance dessa atriz – Marion Cotillard -, se faz também um querer ver a história de alguém tentando sair da depressão. Que comprovadamente é uma doença, e séria o bastante porque pode até levar ao suicídio. “Dois Dias, Uma Noite” é quase um estudo de alguém com esse problema. Que mais que julgá-la, que mais do que dá vontade em dizer: “Acorda pra vida, mulher!“, “Sai dessa!“, “Vire essa página!“… Há de se tentar entendê-la nessa corrida até contra si mesma.

Mais do que um Drama comum, “Dois Dias, Uma Noite” é um filme que nos deixa em Suspense até a cena final! Nota 10!

Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit. 2014). Ficha Técnica: página no IMDb.

Um Estranho no Lago (L’Inconnu du Lac. 2013)

Um Estranho no lago Alan Guiraudie 1Alan Guiraudie realizou um filme realmente incomum, digno de muita discussão e difícil de rotular por mesclar vários gêneros (drama, terror, arte, erotismo, suspense, etc.) sem que nenhum se sobressaia em Um Estranho no Lago. Toda a ação se concentra num belo lago afastado e naturalmente convertido num idílico campo de naturismo e pegação entre homossexuais. À primeira vista, pode ser confundido com um filme pornográfico gay, mas à medida que os personagens vão sendo apresentados de forma precisa e engenhosa, o olhar mais amplo perceberá que se trata de um filme de qualidade, cheio de nuances e profundidade nos diálogos e imagens que por vezes beiram o surrealismo.

Um Estranho no lago Alan Guiraudie 2Franck é um belo jovem que procura sexo e companhia nos bosques e conhece Henri que frequenta o lago somente para não ficar sozinho nas férias. Franck se apaixona por um tipo sedutor e misterioso chamado Michel enquanto Henri simplesmente confessa uma casta, sincera e comovente afeição por Franck. A solidão dos novos amigos impulsionada por sentimentos perigosos como o desencanto e o desejo irrefreável irá levá-los a um caminho difícil de retornar.

A ameaça mortal vai além dos bagres gigantes que supostamente infestam o lago paradisíaco ou do sexo inseguro estimulado pela depressão e carência numa assombrosa alegoria sobre paixões que ferem. Quem não se impressionar com as (necessárias) cenas de sexo explícito num cenário hedonista, apreciará uma obra singular, que apesar de delicada, é repleta de verdade e horror.

Por Carlos Henry.

Um Estranho no Lago (L’Inconnu du Lac. 2013). França. Direção e Roteiro: Alain Guiraudie. Elenco: Pierre Deladonchamps (Franck), Christophe Paou (Michel), Patrick d’Assumçao (Henri), +Cast. Gênero: Drama. Duração: 100 minutos.

Terapia de Risco (Side Effects. 2013)

Terapia De Risco-2013A evolução da geração prozac para a felicidade da indústria farmacêutica.

A dupla Steven Soderbergh e Scott Z. Burns, Diretor e Roteirista, conseguiram uma oitava maior em “Terapia de Risco“. Apararam as arestas após e com “Contágio“. Dando a esse outro um grau de excelência. É um Thriller Psicológico de querer rever tão logo o filme termina. O porém ficou com essa análise: se teria ou não spoiler. Optei por não trazer.

Num resumo, o filme conta a história de uma jovem, a Emily (Rooney Mara), que mesmo tendo o marido, o Martin (Channing Tatum), novamente ao seu lado vive numa fase depressiva e que após uma tentativa de suicídio se vê tendo que fazer terapia com o psiquiatra Jonathan Banks (Jude Law). Esse por sua vez receita um novo antidepressivo sem antes verificar os efeitos colaterais.

Terapia de Risco” traz como pano de fundo a indústria farmacêutica no mercado dos Estados Unidos, e pelo título original “Side Effects” num detalhamento maior sobre o efeito colateral danoso de um medicamento em especial.

Quem como eu gostou, gosta da Série ‘House’ viu em alguns episódios ele confrontando com os fabricantes dessas drogas lícitas. Por ser ele um médico voltado ao diagnóstico – e numa fase bem crítica do paciente -, com isso para não deixá-lo morrer, Dr. House e sua equipe precisam entender e bem dos medicamentos que irão ministrar nesse paciente. Como também o conhecimento se faz necessário para que os efeitos secundários não prejudiquem o tratamento. Tal qual a vida real, uma grande parte dos médicos pensam no tratamento e cura do paciente.

Acontece que a indústria farmacêutica é poderosa por demais, e que por conta disso ganha por todos os lados. Mais ainda dentro dos Estados Unidos. Até com a disseminação do medo. Como também com o mercado de ações. Sem esquecer que culturalmente extrapolam no quesito competitividade com o binômio ‘looser x winner’. Por conta disso se apoderam também de um grande filão que é a automedicação. Proliferando os calmantes e os estimulantes.

Um outro fator que a farmaco também conta é com a cobiça. Vence o mais ladino. Aqui entra em campo a Dra. Vitoria. Personagem da Catherine Zeta-Jones. Banks que além de um cargo público, possui uma pequena sala onde atende os pacientes particulares, se encanta com o consultório dela numa bela mansão.

Nessa guerra nem precisa estar realmente doente para virar joguetes para esses fabricantes. Mas focando na temática do filme que mostra depressão como primeiro plano, claro que a descoberta de novas drogas se faz necessário. O que leva pensar se fabricam sempre um novo, em como chegam com essa nova droga no mercado e nos médicos, em particular na psiquiatria. Quanto maior pesarão o lucro, mas dinheiro lançarão em campo. Luxuosas “cortesias”. Já que não jogam para perder, se cercam de grandes escritórios de advocacia aptos a pular na jugular de quem sai do esquema. Pois é! O sistema que corrompe não se restringe apenas ao mundo da política.

Agora, alguém sairá perdendo. Nem causa estranheza que seria o lado mais fraco, ou menos esperto. Mas mais do que se descobrir quem seria, o impacto mesmo fica em torno de como banalizam toda essa teia. Essa sim assusta! De ao final do filme me deixar por alguns longos segundos sem fala, para logo em seguida sonorizar um “Uau!”. Mas também me deixou na dúvida se seria politicamente correto aplaudir com entusiasmo pelo teor da trama. Porque o filme como um todo merece sim muitos aplausos. Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Terapia de Risco (Side Effects. 2013). EUA. Direção: Steven Soderbergh. Gênero: Crime, Drama, Thriller. Duração: 106 minutos. Classificação etária: 12 anos.