Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit. 2014)

dois-dias-uma-noite_2014Quando o filme começa parece estar diante de um remanescente da Geração Prozac… Para em seguida ter a constatação de que é alguém recém saído de uma crise de depressão que a levara a se licenciar do emprego. Onde só não se desmoronou de todo por conta da própria família: de um marido que segurara a barra até ali. Incansável, se dividindo também em ser pai e mãe de um casal de filhos menores de idade. Crianças que até poderiam entender a gravidade da situação, mas no fundo sentiam por essa “ausência” presença da mãe. De qualquer forma o filme nos leva a caminhar com cuidado num final de semana de alguém que acha ter saído dessa crise e que tenta ter o emprego de volta. É que pelo médico até recebera alta das medicações, mas para ela parecia que ainda não tinha chegada a hora: ainda se fiava neles.

dois-dias-uma-noite_2014_01Dois Dias, Uma Noite” traz como pano de fundo a invasão dos produtos chineses e numa Bélgica proletariada. Pois é! Produtos esses que chegam com preços muito baixos, levando a uma crise as indústrias locais. Assim, veem como saída corte de pessoal… E foi por aí a solução encontrada para o dono da fábrica de placas solares onde ela trabalhava. Onde o gerente abusou do poder com um ultimato: ou aceitariam um abono no valor de 1000€ (Mil Euros) ou ela de volta. Só que para essa segunda opção um deles seria demitido no término do atual trabalho. E seria com essa certeza deles até já terem garantido o próprio emprego, que ela teria que “concorrer”. Se para alguém calcado em valores éticos já pesa, imaginem para alguém ainda tentando sair da depressão!

dois-dias-uma-noite_2014_02Da parte deles a entrada dessa bela quantia no orçamento familiar já era muito bem-vinda: tinham até feito planos onde ou como usar. E a possível fragilidade da tal funcionária meio que os abonaram na tal decisão. Muito embora não fora uma decisão unânime. Contando também que o filme traz como pano de fundo o peso de ser um imigrante mesmo já estando legalizado. Onde esses “não lourinhos” já eram preteridos em admissões de empregos. O que não de deixa de desestabilizar a ética pessoal. Perder um emprego ou mesmo um abono como esse… É! Ela teria um peso “pesado” pela frente.

dois-dias-uma-noite_2014_03Essa nova chance para voltar ao antigo trabalho partiu de uma das funcionárias, e por amizade a essa outra. Ela conseguiu do dono da empresa uma nova votação se baseando de que foram todos coagidos pelo gerente. Sendo já entardecer de uma sexta-feira, ele então marca para a manhã da segunda-feira, e dessa vez em uma votação secreta. Onde a maioria dos votos que então decidiria o destino dela na firma.

Bem, essa funcionária licenciada é Sandra, personagem da sempre ótima Marion Cotillard! Sandra então terá dois dias inteiro para procurar um por um em suas próprias casas e pedir que reconsiderassem o voto dado. Escolhendo pela volta dela ao trabalho nessa nova votação. Sem esquecermos nós público, e até por alguns desses personagens, de que ela realmente ainda não vencera de toda a luta contra a doença… Onde cada um desses empregados eram de classe média nada alta, alguns de menor poder aquisitivo ainda, enfim não viviam tão abonados assim para menosprezarem tal quantia. Por conta desse fator, Sandra vivenciará cenas meio de horror…

dois-dias-uma-noite_2014_00Assim, nesses dois dias Sandra além dessa amiga que por telefone tentava animá-la, tinha a presença do incansável marido (Fabrizio Rongione) e até da própria filha pesquisando na internet os endereços dos funcionários… E assim entre azedumes, patadas, choros, raiva, discussões, brigas… Sandra ainda teria pela frente mais uma noite inteira para então saber o que sairia dessa nova votação. É! Para alguém ainda fragilizada, não seria difícil desistir de tudo de vez…

Mais do que gostar de se ver a performance dessa atriz – Marion Cotillard -, se faz também um querer ver a história de alguém tentando sair da depressão. Que comprovadamente é uma doença, e séria o bastante porque pode até levar ao suicídio. “Dois Dias, Uma Noite” é quase um estudo de alguém com esse problema. Que mais que julgá-la, que mais do que dá vontade em dizer: “Acorda pra vida, mulher!“, “Sai dessa!“, “Vire essa página!“… Há de se tentar entendê-la nessa corrida até contra si mesma.

Mais do que um Drama comum, “Dois Dias, Uma Noite” é um filme que nos deixa em Suspense até a cena final! Nota 10!

Dois Dias, Uma Noite (Deux Jours, Une Nuit. 2014). Ficha Técnica: página no IMDb.

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As Neves do Kilimanjaro (2011). Ou: Um Homem Posto À Prova

Tudo o que está morto como fato, continua vivo como ensino.” (Victor Hugo)

Atualmente, só em ter o nome de Jean-Pierre Darroussin nos créditos, já carimba minha vontade em ver o filme. Isto feito! E mais uma vez ele dá um show de interpretação. Mas o melhor de tudo, é que mesmo tendo cacife em roubar todas as cenas, ele, elegantemente, divide o palco com os demais. Em “As Neves do Kilimanjaro“, eu destacaria a dobradinha dele com dois atores. Um é com Gérard Meylan, que faz o amigo e co-cunhado: Raoul. A outra é com Ariane Ascaride, que faz a sua esposa, a Marie-Claire.

Darroussin faz Michel, que no início do filme também coloca seu pescoço na forca. Embora o filme se passa na França, mais precisamente em Marselha, a guilhotina agora é outra: a crise que atinge a empresa onde trabalhou por tantos anos. Como o Sindicalista responsável pelo acordo com os patrões, pelo seu caráter não se esquivou em retirar seu nome de um sorteio cruel: vinte homens perderiam seus empregos. E eis que o destino o leva a sortear seu nome. Causando surpresa em Raoul. Mas Michel quis assim! Pois isso o deixaria em paz com seus ideais. Tendo como espelho: Jean Jaurès. Um político da virada do Século XX que lutava por uma revolução social democrática e não violenta.

As Neves do Kilimanjaro” traz como pano de fundo a Luta de Classes. Mas sem ser didático, sem querer catequisar ninguém. Porque a frente de tudo está o real valor do ser humano. Machuca um pouco certas verdades, principalmente quando a vida lhe põe em xeque. Quando te leva a reavaliar a tua história pessoal. O filme faz isso com o personagem de Darroussin. Michel é um cara bom na essência. Que já estava aceitando essa forçada aposentadoria. Livre enfim das obrigações com o Sindicato, tinha agora mais tempo com a família. Mais tempo com os netos, tempo livre esse que não teve com os filhos.

Na comemoração das Bodas de um longo e feliz casamento, sua bondade acaba despertando a cobiça de alguém. E o objeto dessa cobiça fora o presente que Michel e Marie-Claire ganharam dos familiares e amigos, que se cotizaram para lhes dar uma quantia em dinheiro e passagens para verem o Kilimanjaro de perto. Os dois amavam uma canção com o então título do filme: As Neves do Kilimanjaro.

Além do presente, os assaltantes levaram mais dinheiro dos dois casais: o que o caixa eletrônico “permitiu” que sacassem com os cartões de Michel e Raoul. A irmã de Marie-Claire, casada com Raoul entrou em crise. A amizade desses dois homens, que vinha desde a infância também fica abalada. É que tal fato levou a outro, depois a outros, numa reação em cadeia. Michel tinha que ter de volta o controle dos seus atos. E isso se resumiria na verdadeira bagagem que ele e a esposa levariam!

Sempre quis fazer filmes que mostrem que o sentimento de humanidade pode se revelar talvez ainda com mais força onde é vilipendiado. Nos instantes em que a sociedade está em crise, tento, com meus filmes, encorajar comportamentos que seriam exemplares.” (Robert Guédiguian).

O filme é um libélulo aos reais valores da vida! Que há esperança nos homens de boa vontade! Um drama, sim! Que emociona! Minhas lágrimas rolaram em dois momentos no finalzinho do filme. Mas é um filme que te deixa leve! Diria que é iluminado! E muito bem sonorizado: Trilha Sonora mais que perfeita!

Não deixem de ver! Um filme Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

As Neves do Kilimanjaro (Les Neiges du Kilimandjaro. 2011). França. Direção: Robert Guédiguian. +Elenco. Gênero: Drama. Duração: 90 minutos. Baseado “Les Pauvres Gens” de Victor Hugo, um poema que fala da solidariedade entre os pobres.

Curiosidade: A citação que Michel diz ao arrumar seus pertences após ser demitido: “Coragem é compreender a própria vida, especificá-la, aprofundá-la, estabelecê-la e ajustá-la à vida em geral. Coragem é controlar com precisão a própria máquina para tecer, a fim de que nenhum fio se rompa, e preparar ao mesmo tempo uma ordem social mais ampla e mais fraterna na qual aquela máquina será a serva comum dos trabalhadores livres. Coragem é amar a vida e olhar para a morte com olhos tranquilos; é procurar o ideal e compreender o real; é agir e dedicar-se a grandes causas sem saber que recompensa o universo profundo dará ao nosso esforço e nem se haverá alguma recompensa.” De Jean Jaurès.

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011)

Por Alex Ginatto.
Pude assistir ontem a este surpreendente filme. De início acho que fui um pouco preconceituoso por se tratar de um filme iraniano, mas o enredo se aplica a qualquer lugar do mundo, talvez se focarmos um pouco menos na religião.

Realmente conseguimos sentir a aflição de todos os lados:
-o marido orgulhoso que não quer que a esposa se vá, mas também não diz isso a ela;
-a esposa, preocupada com o futuro de sua filha, querendo sair do país, mas não suportando a ideia de que o marido não concorde com ela;
-a filha em uma época complicada, diante da separação dos pais, se vendo como objeto de disputa;
-o senhor que não pode vencer o corpo e mente desgastados pela doença;
-o casal mais pobre entre a religião e o dinheiro devido aos credores.

O filme se mostrou muito maior do que se imagina pelo título e acho que a ideia do diretor ao finalizar sem um lado é justamente focar no todo e não somente na separação do casal.

Tudo o que acontece durante o filme é fruto de mentiras e decisões precipitadas iniciadas pela saída de Simin de sua casa. Ou seja, a separação é o início de tudo, e o filme termina com a certeza de que o que fica pendente durante todo o seu desenrolar, ao contrário do que parece, tem um fim, se concretiza.

Não sei se para rever, mas para se pensar e aplicar em nossas vidas.

Excelente filme!
Nota 8.

A Separação (2011). Ou: o Declínio da Família Contemporânea.

E quem estaria com a razão? Todos… Ninguém… Pois tanto em termos da natureza humana, quanto da sociedade, tudo dependerá de seu próprio ponto de vista.” (Asghar Farhadi)

O filme “A Separação” traz em primeiro plano uma reação em cadeia devido a separação de um casal. Pois quase todos os envolvidos se viram na obrigação de mentir, ccomo também de omitirem certos fatos. E que para alguns deles o que antes parecia ser uma mentirinha de nada, tomou um rumo inesperado.

Agora, seria mesmo uma casualidade de chegarem ao ponto onde chegaram? Que ao mentirem crendo ser com boas intenções não haveria implicações? Até porque para manter a mentira que se contou terá que obter pelo menos o silêncio de outros envolvidos. E estando de posse da mentira do outro, teria como se eximir da própria? O ato de mentir traria muito mais o peso do pecado ou o do perjúrio? Mas e quando Religião e Estado ocupam o mesmo estado de direito? Mais! E quando o Sistema Judiciário, sobrecarregado, se perde nas próprias malhas da Lei? A sucessão de erros fora por que alguém não segurou a onda? Mas quem, ou melhor, o que foi o ponto inicial desse drama familiar? Que terminou envolvendo outras pessoas. Onde inocentes ou culpados todos pagaram um preço.

Além dessas reflexões, o filme também traz um outro tema: o de ter um membro da família já idoso, com o agravante de precisar de atenção e cuidados por quase 24 horas diárias. Interná-lo, ou mantê-lo em casa? Quando a renda familiar não permite colocar profissionais para esses cuidados, aceita-se qualquer um? Mas nesse filme vemos um outro ponto. A mulher ganhando mais que o marido, e sendo o idoso o pai dele. Onde eu acho que tudo começou. Sobrecarregada, mesmo gostando do sogro, ela tomou uma decisão precipitada. O marido que antes já não tinha aceitado que a esposa pagasse por enfermeiro, não seria com a nova decisão dela que ele mudaria de opinião. Numa de que é o “macho que sustenta a todos da família”? Mas ele também se precipita aceitando a primeira que apareceu para tomar conta do pai. E o pobre do idoso, sem querer, termina por ser a causa da separação do casal.

A separação veio por mais uma decisão sem pensar de Simin (Leila Hatami) que vira na permissão dos vistos (passaportes) uma chance de sair do Irã. Acontece que o marido, Nader (Peyman Moadi), não quis abandonar o próprio pai (Ali-Asghar Shalbazi); o tal idoso, e acometido do Mal de Alzheimer. Então, também orgulhosa, ela pede a separação de direito do casal. Até porque Nader concordou com o desenlace deles, mas  não concordou que ela levasse a filha do casal: Termeh (Sarina Farhadi, filha do Diretor do Filme: Asghar Farhadi.). E que essa por sua vez, já uma adolescente, não queria perder os estudos.

Simin pensou que assim intimidaria o marido. O que talvez teria conseguido se houvesse mais diálogo entre o casal. Já com quase 15 anos juntos, estavam à beira de uma crise, e que pelo jeito nenhum dos dois percebeu. A seu favor, havia o peso de uma sociedade machista e autoritária, e de tradição centenária. Dai o fato de ter focado mais no destino final – o de viverem em outro país -, do que ir preparando terreno aos poucos. Sufocada, não pensou direito.

Tanto um quanto o outro usaram a própria filha como desculpa. Grande erro! Pior! Jogaram nos ombros dela a decisão final. Simin via em sair do pais um futuro não tão rígido para Termeh. Já para Nader ele achava o país o melhor lugar para criar a filha. Mas no fundo, ambos sabiam que a filha os manteriam pelo menos próximos um do outro. E é algo que machuca: em ver que ainda havia amor entre esse casal.

Termeh, em meio a esse fogo cruzado, fica sem saber o que fazer. Como agir. Talvez por conta de um temperamento calado, muito mais propensa aos rigores da tradição do país, do que a própria mãe, ela foi cozinhando os dois em banho-maria. Desejava a reconciliação deles.

Em “A Separação” vemos como pano de fundo um Irã de uma classe média alta. Se não fosse pelos lenços cobrindo as cabeças das mulheres, o lugar passaria por um bairro em algum país do Ocidente. Mas avançando o olhar, ele é definido como sendo um com tradição Islã pela modo como tratam as mulheres.

Agora, como em todo lugar do planeta, se há a classe que se dá o luxo de pagar por empregados domésticos, também há esse outro contigente advindos das classes mais baixas. Onde moram no filme é ilustrado pelos ônibus: significando que moram longe dali. O que pesa também para essas pessoas: distância + custo das passagens + cansaço por essa jornada…

Personificando esse proletariado teremos um outro casal, e que serão envolvidos nessa separação inicial. A primeira envolvida será Razieh (Sareh Bayat), com a filhinha. Depois, seu próprio marido: Hodjat (Shahab Hosseini). Se para o primeiro casal, nem o fato de “não faltar nada em casa” pesou para manter o casamento, o mesmo foi um fator preponderante em salvar a própria união. É que desesperada em ver o marido, há meses desempregado, ter sido levado pelos credores, Razieh mesmo grávida, mesmo indo contra a sua religião, implora pelo emprego a Nader. E ocultando tal fato do marido.

Nader tendo que ir trabalhar, não querendo ser render de que precisaria da esposa de volta, ciente também de que estaria indo contra os princípios do islamismo, aceita que Razieh tome conta do pai, e da casa. Ela por sua vez fica ciente de que o idoso Alzheimer. Logo, em algum momento teria que tocar nele. Num homem. E quando tal hora chega, é um quadro patético em vê-la ao telefone querer saber se isso seria pecado ou não.

Não ficando só nisso, ainda há lhe pesar… Pela distância percorrida até chegar nesse emprego, pela gestação em período de cuidados, pela jornada dupla de trabalho, Razieh coloca a filhinha para ajudá-la no serviço da casa. A criança ao descer as escadas com o lixo, acaba entornando-o. Uma moradora do prédio impõe que Razieh limpe, e logo. Aturdida, ela esquece do idoso. E…

A partir daí mais erros se sucedem. Como uma avalanche. Mentiras e omissões em lugar de diálogos francos e respeitosos. E quando Hodjat descobre tudo, a teia de situações conflitantes aumentam. A grande questão que se estampa: Quem iria dar um freio aquilo tudo? Para no mínimo tentar uma conciliação geral. Um meio-termo onde ninguém achasse que não teve razão no que fez.

Não pude evitar em pensar na crise atual e no mundo real. Onde estão aumentando a população pobre dos países tidos como do primeiro mundo. Como também, que mesmo criticado por muitos, o Brasil com o seu Bolsa-isso-Bolsa-aquilo fez foi diminuí-la. Então, no filme, para esse casal de baixíssima renda, o próprio país era ainda mais opressor do que para o outro. Não havia o Bolsa Família do Ocidente, por exemplo.

Mas tanto Estado quanto Religião, em geral, incentiva em se ter uma família. Não importando se terão como mantê-la ou não. Não é de boa política o planejamento familiar. Algumas tradições ainda incentivam em trazer mais filhos ao mundo.

Para o casal pobre o desemprego viera já estando casados e com uma filha nascida e outra a caminho. Pesando ainda o fato de que psicologicamente Hodjat não estava tarimbado para ser um pai, nem em constituir uma família. A recessão que passava só trouxe a tona seu temperamento explosivo. Com tudo isso, o casal não apenas se envolveu, como também Hodjat quis tirar proveito de um fato. Já que com a indenização, teria como se livrar dos credores.

Além da crise financeira poderia se pensar que é por culpa de uma cultura machista? Se sim, ela não é privilégio das de tradição Islã. As do Ocidente, mesmo que veladamente, também se calca nela. Se alguém achar que não, que preste atenção nas propagandas de algum produto voltado ao lar, a família, só como exemplo. Eles colocam a mulher como compradora compulsiva, ou como uma “do lar”. Já para o homem, o mesmo produto é vendido como um hobby. Então a culpa não seria por ocidentalizar os costumes locais.

Para mim, o que Asghar Farhadi quis mostrar em “A Separação” é que a instituição Família que está em falência.

Que não importa se no Ocidente, ou no Oriente, é esse laço que precisa ser revisto. Ser pesado. Ser reavaliado sempre. O “sombrio” sentar para discutir a relação precisa acontecer. E que em vez de já numa mesa de um Juiz da Vara de Família, por que não com a ajuda de alguém da Área Psico, assim evitando chegar as vias de fato. Tem uma certa hora que o melhor a fazer é sentar e conversar. Saber o que cada um ainda estaria procurando nessa relação. O que, ou em que, cada um cederiam para uma boa convivência. Pesar se é o ser ou o ter que é alicerce da mesma. É por aí. Já que para cada casal também há conflitos únicos.

Não sei se por conta de não sofrer censura do governo e com isso não teria o filme liberado que Asghar Farhadi deixou o final em aberto. Os créditos subindo, e de cá ficamos sem saber a sentença final. Mas que para mim houve sim um desfecho. Como citei anteriormente: ele quis mostrar o declínio da instituição Família. Em qualquer classe social, e a bem da verdade, em qualquer cultura também!

O filme deixa uma vontade de rever logo em seguida. Por ficar a sensação de ter perdido tal cena quando mais a frente ficamos ciente de que foi ela que levou a tal consequência, a tal mentira. É uma uma mentira levando a outra, e depois a outra, e mais outra… A trama vai se revelando aos poucos, como num Thriller. A impressão de não termos prestado atenção no fato anterior, é por também querer conhecer, saber de todos os detalhes para melhor avaliar; para então ver se havia razão de ser. O ter como ponderar, como numa cena entre Nader e Termeh. Na realidade, sabemos como o fato anterior se deu. Julgá-los já se perde a razão de ser. Até porque: está feito! Como também não é de nossa alçada.

Então é isso! Com um elenco afinado – de querer vê-los em outros trabalhos -, temos em “A Separação” um filme Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Separação (Jodaeiye Nader az Simin. 2011). Irã. Direção e Roteiro: Asghar Farhadi. Gênero: Drama. Duração: 123 minutos.

Coral de Tóquio (1931)

Coral de Tóquio (Tokyo no Korasu, Japão 1931)
Diretor: Yasujiro Ozu
Escolhi dia desses aleatoriamente para rever o filme O Homem que Sabia Demais de Hitchcock. Uma cena de uma das locações deste filme me remeteu ao cineasta Yasujiro Ozu. No desfecho, Hitch faz um breve passeio com a câmera, mostrando detalhes dos interiores da mansão, portas, escadas, mobília, corredores, lustres, até chegar ao quarto onde estava preso o filho seqüestrado do casal americano, exatamente como acontece ao estilo de Ozu filmar. Seria uma homenagem?

Conheço meia dúzia de filmes de Ozu dando perfeitamente para se concluir que seu estilo é inconfundível, reconhece-se como uma marca registrada pela poesia existente na fotografia, pelo assunto e costumes do cotidiano, temas triviais geralmente familiares, pequenos dramas, peculiaridades da cultura oriental, relações conflituosas entre tradição e modernidade. As imagens iniciais mostrando paisagens, crianças brincando, pessoas transitando pelas ruas, animais e residências transmitem paz e serenidade. Ele trata com carinho e especial sentimento os assuntos rotineiros e banais, o público se identificando constantemente pelos temas declinados, desde amor não correspondido, desemprego, saúde, miséria, educação, religião, família, até assuntos polêmicos como suicídio. Além de contar uma boa história, por mais simples ou rotineira que seja, Ozu nos presenteia com belas figuras de retórica e de estilo, principalmente a prosopopéia, personificando em belas imagens que dialogam frequentemente com o público, não se esquecendo de nenhum detalhe, tudo tem o seu valor, desde a chaleira e seu vapor num canto da sala, como também os corredores, as paredes, escadas, os chinelos e os cabides na entrada, a mesinha no centro da sala onde a família e os amigos se reúnem para uma habitual refeição e longas conversas, nada escapando ao olhar atento e cuidadoso de minúcias do diretor.

Fiquei emocionada e feliz pela oportunidade de ter assistido ao CORAL DE TÓQUIO, esse filme mudo, em preto e branco produzido em 1931, uma sessão especial assim, que eu me lembre, só vi no MAM (Museu de Arte Moderna), o clássico O Nascimento de uma Nação de D.W. Griffth com acompanhamento improvisado ao piano, e em outra ocasião um filme russo no Festival do Rio com tradução simultânea, os atores dublando ao vivo, foi um momento mágico e inesquecível.

A história de Coral de Tóquio começa dentro de um quartel onde um professor dá instruções aos subalternos, pedindo que marchem, verificando postura e obediência a ele como mestre, seus súditos fazendo tudo o que era pedido. O prólogo é uma comédia pastelão, ninguém no cinema consegue segurar o riso, principalmente quando estão em cena dois soldados trapalhões, sendo motivo de gargalhadas dos outros colegas recrutas e pelo fato de o professor mal conseguir manter a ordem e a disciplina do batalhão. Comentaram que Ozu era fã de Chaplin.

A história dá um salto, mostrando aquele que foi o soldado trapalhão, hoje um pai de família com três filhos: O mais velho era um menino aparentando ter uns seis anos; depois uma menina de cinco anos e um bebê. Okajima, o soldado hoje é um funcionário de uma empresa, e ele encontra-se em seu ofício ao lado de seus colegas de trabalho. Todos estão felizes porque é o dia do pagamento. O filho dele sabendo disso pediu-lhe de presente uma bicicleta, e o pai prometeu que lhe compraria. Acontece que nesse dia o patrão resolveu demitir um funcionário e este pai de família, para defender o colega foi falar com o patrão que acabou também o despedindo. Tempos difíceis no Japão, em plena depressão, e agora o jovem pai de família ficou desempregado. O que ele poderia fazer? Tinha formação superior, era professor, mesmo assim emprego não havia, era artigo de luxo, e Okajima começou a enfrentar dificuldades. Certo dia ele encontrou na cidade o seu ex-professor que também estava desempregado e ele lhe fez uma proposta. O professor estava abrindo com a esposa um restaurante e precisava de um ajudante para fazer propaganda, distribuindo panfletos nas ruas de Tóquio para conseguir clientes. Ele imediatamente topou. Só que não contou nada para a sua orgulhosa esposa porque não entenderia nem aceitaria ver seu marido com a formação que tinha, trabalhando como entregador de papel pelas ruas.
Okajima chegando em casa era só cobranças: o filho pedindo a bicicleta, a esposa, dinheiro para fazer compras, o bebê chorando e a menina adoeceu, precisando de dinheiro para ir ao médico e comprar medicamentos.

Um dia ela vai à cidade com os filhos e presencia a seguinte cena: o marido marchando pelas ruas, ao lado do seu ex-professor, carregando uma bandeira e distribuindo panfletos, a propaganda do restaurante. Em casa, foi um Deus nos acuda. A esposa não aceitou de jeito nenhum que ele continuasse naquela situação que considerava constrangedora para a família. Foi trabalhoso e penoso para ele convencê-la que era necessário porque ele não tinha outra escolha. É claro que para Okajima era apenas uma situação provisória até ele conseguir algo melhor. O ex-professor gostava muito dele e tinha muitos contatos de autoridades e pessoas influentes, e o ajudou sigilosamente enviando o curriculum dele para o ministro da educação indicando-o para o cargo de professor de literatura na universidade.

O dia da inauguração do restaurante, o seu ex-professor era ‘só sorrisos’, porque o local lotou; muita gente foi conhecer o novo point da cidade e foi o maior sucesso.

Nesse mesmo dia chega uma correspondência para o seu ex-professor. Adivinha o que era? A resposta do governo aceitando a indicação do professor Okajima para lecionar na universidade. Cinema também é uma escola, e neste filme aprendi muita coisa nova e agora compartilho aqui. Esta delicada comédia mostrando o cotidiano de Okajima um pai família em plena depressão e que acabou sendo despedido exemplifica o estilo de filmar e dirigir de Ozu e peculiaridades de seus primeiros filmes.

Coral de Tóquio é uma verdadeira obra de arte. Sem som e sem trilha sonora, como os primeiros filmes mudos e em preto e branco que ainda eram considerados uma curiosidade aos japoneses que diziam ser “coisa de ocidental”, e nesta sessão especial que tive a oportunidade de assistir e aprender coisas do mundo oriental que desconhecia, foi apresentado ao público a presença de uma narradora no idioma japonês, como se o filme fosse estrangeiro. Esse tipo de “tradução” ao vivo recebe o nome de Benshi que deriva de Ben (narração) e Shi (mestre, samurai), que servia para complementar o entendimento da obra cinematográfica. Formidável a tradução simultânea, ao vivo e em cores, com músicos e seus instrumentos orientais. Os benshis eram mais reverenciados que as próprias estrelas dos filmes.
O benshi continuou sendo uma parte muito importante na exibição de filmes até 1937. Fora do Japão o espanto nem era tanto pela manutenção do benshi. E sim porque frequentemente estes narradores tinham liberdade de acrescentar sua própria interpretação e dava explicação pessoal para cenas não filmadas, seu entendimento e impressão sobre o filme. Não necessariamente a versão pretendida do diretor. A narradora Ângela Nagai é ótima, fazia o público compreender um pouco mais o filme com um toque de humor imitando o choro do bebê, por exemplo, as brigas entre os irmãos por coisas banais, expressões fisionômicas etc, foi sensacional, e ilustrando constantemente com informações sobre o país, sobre a situação sócio-econômico-cultural, desemprego, família entre outros temas; e os músicos Felipe Fiani Veiga (tocando o instrumento okoto) e Tamie Kitahara (tocando o instrumento shamisen) fazendo o espetáculo mais bonito que a sétima arte já é. Tudo maravilhoso. Quem tiver oportunidade de ver um show como esse aconselho não perder. Assista!

Para quem achou estranho num primeiro momento, a técnica Benshi era muito usada nos primórdios do cinema no Japão, quando assistir a um filme era pouco para os espectadores, e os narradores eram, na verdade, considerados as grandes estrelas como os próprios atores. O filme só começava após uma palestra do Benshi; antes da narração dava-se explicação sobre o tema. No Japão existe até hoje sessões com benshi que também eram conhecidos como katsuben – abreviação de katsudoo shahin benshi (narradores de imagens em ação).

Fica aqui a dica para uma sessão de cinema divertida e leve. Esplendido!
Karenina Rostov
*
Elenco: Tokikiko Okada, Emiko Yagumo, Hideo Sugawara, Hideko Takamine, Tasuo Saito, Chouko Iida, Takeshi Sakamoto, Reiko Tani, Kenichi Miyajima, Isamu.

Ou tudo ou nada (The full monty. 1997)

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No jobs. No money. No underwear.

Voltando para meu genero preferido de filmes, este filme tem comédia, a arte ser pai (desempregado), sentimentos do mundo egoista e sem tempo para nada, e o apice: o mais sexy e empolgante strip tease masculino ja visto no cinema!

Numa pequena cidade da Inglaterra, o problema principal que assombra pais de familia é o desemprego, principalmente ex – operários de obras, ou seja sem uma qualificação que permita tentar uma colocação melhor no mercado. A partida para o andamento do filme começa em Gaz (Robert Carlyle), que quer desesperadamente ficar com o filho, mas sem emprego nada consegue. Mas eles são unidos, são amigos. O filho estará ao lado do pai, nao importa os micos pelos quais terá que passar.
Gaz, entre um cigarro e outro e mais conversas jogadas fora com outros amigos – tambem desempregados tem uma ideia “brilhante”: porque nao formar um grupo de strippers?

full_monty_xl_06--film-A Quer dizer: fazer stripp para as mulheres, mas com modelos diferentes do que elas estão acostumados a ver, os tais saradões. Stripp feito por homens comuns, que mal sao reaparados na rua. Ninguem – dos amigos de Gaz coloca uma fe na ideia. Mas no desespero, resolvem topar a parada, mas precisam de mais “modelos” para compor o grupo de stripper.

Esses tais modelos são “conseguidos” na fila para receber o seguro desemprego. A pre – seleção de candidatos, hilária, precisam ficar de cuecas ou samba canção, fazer uma perfomance musical para avaliação. paulbarberREX_468x670. Esse ai, qdo termina de fazer a apresentação de arrasar ainda diz que nao fez melhor porque esta com reumatismo. Demais

Cenas inusitadas, principalmente porque o filho de Gaz esta dando uma força para o pai. Interessante no filme é que finalmente o grupo é formado por todos os tipos de homens de cor, idade, fisico e classe social diferente, mas em comum desempregados e sem perspectivas de melhoras.

Enfim, depois de muita luta, vencido as vergonhas e preconceitos, ensaios exaustivos ao som da era Disco ´70 e apoiadíssimos por suas esposas (os casados) eles marcam o dia da apresentação. Para divulgar o show, as mulheres que vestiram a “causa” de seus maridos dão uma força e todo mundo sai pregando e divulgando os panfletos deste show.

Apesar das duvidas, a casa de espetáculos lota, e eles dançam, tiram a roupa e arrasam entre a mulherada.

O filme é uma séria reflexão sobre nós e essa tal globalização.

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Soundtrack (são 2 cds, porem deixo essa dica)
1. Zodiac, The – David Lindup
2. You Sexy Thing – Hot Chocolate
3. You Can Leave Your Hat On – Tom Jones
4. Moving on Up – M People
5. Make Me Smile – Steve Harley & Cockney Rebel
6. Full Monty, The – Anne Dudley
7. Lunchbox Has Landed, The – Anne Dudley
8. Land of 1000 Dances – Wilson Pickett
9. Rock and Roll Part 2 – Gary Glitter
10. Hot Stuff – Donna Summer
11. We Are Family – Sister Sledge
12. Flashdance…What a Feeling ’95 – Irene Cara
13. Stripper, The – Joe Loss & His Orchestra

Direção: Peter Cattaneo
Elenco: Robert Carlyle, Mark Addy, William Snape, Steve Huison, Tom Wilkinson, Paul Barber, Hugo Speer, Lesley Sharp, outros
Gênero: Comédia, 91 min, colorido, Reino Unido

Recomento o DVD e os 2 cds da trilha sonora.

por Cris Barros