Augustine (2012)

Augustine_01Augustine_02Própria de seu tempo e de uma cultura repressora, a histeria feminina foi uma das questões que levaram Sigmund Freud a iniciar suas pesquisas sobre o que viria a ser a psicanálise. O que alguns não lembram, ou talvez não saibam, é que ele iniciou suas pesquisas com o Dr. Jean Martin Charcot, neurologista francês atuante no Hospital La Salpetriere, em Paris. Na verdade, os primeiros livros de Freud foram baseados em casos de Charcot e Josef Breuer. Após Freud e Jung terem sido “redescobertos” recentemente pelo cinema, nada mais justo, portanto, do que o foco sobre um pioneiro.

Augustine_03Augustine é uma serviçal de uma família francesa, acometida por tais ataques histéricos. Após uma crise convulsiva durante um jantar em que trabalhava, ela é mandada ao hospital, onde permaneceria esquecida, não fosse uma nova crise, desta vez em frente ao próprio Charcot. As diferenças sociais que já atingiam Augustine em sua vida permanecem quando de sua internação: a “superioridade” e frieza científica de Charcot colocam a jovem como mero objeto de observação e estudos, cuja doença cai como uma luva aos propósitos do neurologista, que luta para firmar a seriedade de suas pesquisas junto à comunidade médica.

Augustine_1.JPGAos poucos, a relação entre observador e observada extrapola os limites do rigor da ciência. Da ingenuidade, a jovem paciente passa a notar o poder que tem sobre Charcot, e se faz valer desse poder. Aqui, a atuação de Soko como Augustine quebra os tons pastéis da fotografia, e de um quase academicismo da direção da estreante Alice Winocour. Sua interpretação é o que engrandece o filme, permitindo ao espectador uma identificação com a personagem, inocente e maliciosa, pueril e cheia de força. Tal desenvolvimento de Augustine permite até mesmo uma leitura da protagonista como o sujeito que, enfim liberto e dono da situação, manipula aquele que seria o detentor do poder na relação. Em que ponto ela descobre sua força perante Charcot? Em algum momento, ela simulou alguns de seus ataques? Nas palavras de Freud, afinal, o que quer uma mulher? (e o que ela faria para consegui-lo?).

“Augustine” é um retrato da condição do feminino no fim do séc. XIX. Porém, mostra o quanto as relações entre os gêneros não são estáticas, e a força do indivíduo pode suplantar os limites sociais aos quais está submetido.

Por Eduardo Carvalho.

Augustine (2012). França. Direção e Roteiro: Alice Winocour. Elenco: Vincent Lindon, Soko, Sophie Cattani, Grégoire Colin, Chiara Mastroianni. Gênero: Drama. Duração: 103 minutos. Classificação: 14 anos.

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A Filha do Pai (La Fille du Puisatier. 2011)

a-filha-do-pai_2011O filme me fez lembrar os de Mazzaropi. Onde o interiorano leva sua vida dentro da moral e dos bons costumes. Onde por vezes pela força do destino tem que amargar um ato nada ético dentre os seus princípios. É o chefe da família pobre tendo que mandar a filha embora de casa por ter se “perdido”; engravidando de um cara rico. Para esse pai a desaprovação que sofrerá pela sociedade local suplanta a dor do amor paterno. Talvez pensando nos outros filhos como tambem pelo medo de faltar serviço.

a-filha-do-pai-2011_01A trama principal em “A Filha do Pai” é essa: a de um pai que afasta a filha porque ela ter ficado mãe solteira. E com o agravante de que será a segunda vez que é afastada da própria família. A primeira vez foi porque tinham filhas demais. Ela então foi morar na capital tendo chances de estudar. O dilema desse pai será em questionar sua própria moral. Que valores terão mais peso para ele? Ainda mais que essa mesma filha mesmo tendo sido rejeitada ainda em criança, retorna à casa paterna tão logo soube da morte da mãe, e justamente para ajudar o pai a criar suas irmãs. Ironia do destino ou benevolência da jovem?

a-filha-do-pai_2011_02O viúvo, Pascal Amoretti, é interpretado por Daniel Auteuil que está ótimo como um caipira. Ele fura poços. Algo essencial para a irrigação numa região com tantas plantações. Por sinal é belíssima toda aquela localidade: a região de Provence. Pascal tem como companheiro de trabalho Félipe Rambert, personagem interpretado por Kad Merad que eu já conhecia pelo ótimo trabalho no filme “Não se Preocupe. Estou Bem!”). Félipe é apaixonado por essa filha do amigo, mas não vê que quem gosta realmente dele é uma outra filha do Pascal.

Félipe acaba trazendo esperança para esse pai desnorteado. A filha teria assim um marido. Mas uma guerra se contrapõe mais uma vez a essa família. Além do jovem rico, Jacques Mazel (Nicolas Duvauchelle), Félipe também é convocado para servir na 2ª Guerra Mundial.

a-filha-do-pai-2011_03A filha grávida, Patricia Amoretti, é interpretada por Astrid Bergès-Frisbey. Que aliás atua bem! Mas em “A Filha do Pai” quem reina são três personagens masculinas. Somados a Pascal e Félipe entra em cena Sr. Mazel, interpretado pelo sempre ótimo Jean-Pierre Darroussin. Ele é o pai do rapaz que engravidou a jovem, o Jacques. Com a esposa e o rapaz como filho único, são os mais abastados do local. Mazel tem uma loja de materiais de construção onde Pascal é um dos clientes.

A Sra. Mazel (Sabine Azéma), uma mãe judia, é totalmente contrária a união. Porém nem o jovem ficou sabendo que seria pai, já que sua convocação fora às pressas. Por ser um exímio piloto, mal teve tempo de fazer as malas. Meses depois quando chega uma confirmação oficial de que o rapaz morreu a família Mazel tenta se aproximar da outra por conta do neto. Mas “agora Inês é morta“? A criança seria o elo que uniria todos? A filha do pai teria algo a declarar? A decidir sobre sua vida e de seu filho?

a-filha-do-pai-2011_04A historia do filme não é nada original. Nem tão pouco especifica a uma determinada cultura. Como também adivinha-se o final. Mas a história é tão bem contada que nos mantém atentos por mais de uma hora e meia de projeção. Claro que as atuações contam para a grandeza desse filme. Além da Fotografia e da Trilha Sonora. Mostrando também que Daniel Auteuil fez um excelente trabalho na Direção, como também em adaptar a obra de Marcel Pagnol. Vida longa a Auteuil por trás da câmera também!

Enfim, um filme que ganha pela simplicidade. Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

A Filha do Pai (La Fille du Puisatier. 2011). França. Direção e Roteiro: Daniel Auteuil. +Elenco. Gênero: Drama, Romance. Duração: 107 minutos. Baseado em livro de Marcel Pagnol.

Caché (Hidden. 2005)

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Para mim, há filmes que me motivam muito mais a falar sobre eles. Claro que focados em meu olhar. Há até a frase de um outro, que cairia bem aqui:

Toda história tem três versões: a sua, a minha e a verdadeira. E ninguém está mentindo. Cada um recorda diferentemente.” (Robert Evans).

Em Caché, uma cena foi a motivadora. Até mesmo essa palavra me fez refletir se estaria de acordo. Até pelo o que aconteceu nesse trecho do filme. Foram segundos que arrepiaram. Chocante, foi sim, mas mais pelo o que… E aqui também entra a escolha do verbo adequado. O porque da atitude tomada por aquele homem. O gesto em si, seria até “normal” num filme de ação; ou mesmo num de violência gratuita. Mas não em Caché. O antecedente da história dele, aliás a história dos dois personagens, até o culminar desse gesto, teve um peso maior. Algo como: não saber segurar a onda.

Há certas tomadas de atitudes que soam como gritos silenciosos de pedidos de atenção. Algo como: “Oi, estou aqui!“, “Olhe para mim.“, “Dê cá um abraço.”, “Converse um pouquinho.”… São pedidos mudos que por vezes tresloucados na forma, mas que foram como uma última tentativa. E quando não são de fato a derradeira – aquela que não tem mais volta. Alguns desses pedidos, mesmo que incômodos, podem até serem vistos como atitudes infantis. Mas seja lá como foi, ou mesmo de quem partiu, não querem nada de material.

Porém, muitos perdidos em seus afazeres, não conseguem perceber que tem alguém ali tão perto e ao mesmo tempo tão longe. Ou que até por um orgulho não reconsideram; não voltando atrás. Tão presos aos seus valores materiais, não vêem que o que querem, procuram, é um pouco de atenção, de carinho. Ainda mais se os erros do passado foram cometidos quando crianças. Embora erros na fase adulta também podem ser revistos.

Não sei. Por vezes, diante ou ante a atitudes extremadas, até dizemos: “O que tenho a ver com isso? Se eu seguro uma barra, ele também pode.” Mas há quem não segure. Como também, por que seríamos tão radicais para não ao menos parar e ouvir o que o outro tem a dizer? Seria algo tão vergonhoso voltar atrás?

Voltando para a “realidade do filme”… Até veríamos nas diferenças naquilo que levaram os personagens a uma “saída” para seus problemas, uma base para nossos argumentos. Explicando: Para quem viu o filme “Mar Adentro“, participou com o personagem, contra ou a favor, ou até com um: “Não sei o que faria no lugar dele!“. E claro, sendo um filme, podemos apenas assistir e mais nada. Em “Magnólia”, também vimos tomadas de atitudes; e no que elas geraram. Em “O Fio da Navalha” (The Razor’s Edge) houve o quase experimentar o que o outro passou para então entendê-lo melhor. E sobretudo, não julgar.

Em “Caché” a discriminação vai do plano emocional ao material. O ter pontuando a vida de um homem e das pessoas próximas; e também da que foi afastada. A tal cena mexeu comigo sim. Foi impactante! Mas mais do que falar sobre segregações raciais na França preferi falar sobre nossas atitudes e gestos com as pessoas. E de algum modo tentar decifrar suas mensagens. Pelo menos usar uma balança especial. Algo que o personagem do Daniel Auteuil não fez.

Assistam ao Filme!! Mesmo que seja apenas para descobrir quem filmava as fitas, se assim o quiserem.

Nota: 09.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Caché (Hidden). 2005. França. Direção e Roteiro: Michael Haneke. Com: Juliette Binoche, Daniel Auteuil, Maurice Bénichou. Gênero: Drama, Suspense. Duração: 117 minutos.