O Homem Duplicado (Enemy. 2013)

o-homem-duplicado_posterPor Marcos Vieira.
O caos é ordem ainda indecifrada.” É com essa frase que tem início o quebra-cabeça narrativo de O Homem Duplicado. Nele, o professor de história Adam (Jake Gyllenhaal), que vive em um instável relacionamento com sua namorada Mary (Mélanie Laurent), descobre que existe um homem idêntico à ele. Esse duplo é o aspirante à ator Anthony (Jake Gyllenhaal, é claro), que tem seus próprios problemas com sua grávida e desconfiada esposa Helen (Sarah Gordon). O filme trata então dos conflitos que surgem quando Adam descobre a existência de Anthony e quando os dois homens se encontram. Enquanto Adam é tímido e retraído, Anthony é impulsivo e agressivo, e o filme se desenrola a partir do efeito que a revelação da existência do outro tem sobre cada um deles.

o-homem-duplicado_01Mais do que um simples suceder de acontecimentos, a narrativa é montada de forma a colocar o espectador dentro do pesadelo que essas personagens estão vivendo, incluindo aí a namorada e a esposa. Mesmo em cenas que poderiam ser simples, como quando Adam pesquisa sobre a vida de seu duplo na Internet, uma iluminação sombria e uma trilha sonora tensa e impactante constroem um clima de suspense psicológico angustiante. Cortes bruscos e intensos nos momentos de maior desespero das personagens contribuem para esse clima. Além disso, todo o filme é permeado de uma simbologia a priori indecifrável, sendo a principal delas a presença de uma enorme tarântula em alguns momentos. É a presença dessa aranha e de algumas cenas desconexas envolvendo ela e/ou algumas das personagens que dá o tom extremamente surreal da coisa toda. “O Homem Duplicado” é daqueles filmes que deixa o espectador em suspense em relação não apenas ao que vai acontecer, mas também ao que está acontecendo.

o-homem-duplicado_02E o que está acontecendo é o maior enigma desse filme. Você pode acompanhar perfeitamente a sequência de acontecimentos, mas o segredo está em saber o que eles significam. A situação dos dois homens é absurda e nenhuma explicação lógica é oferecida pela história. Em determinado momento, o filme simplesmente acaba, e fica para o espectador a tarefa de tentar prover uma explicação lógica para o que ele acabou de ver. Isso deixa espaço para as mais loucas teorias e infinitas discussões, a exemplo do cult Donnie Darko, também estrelado por Jake Gyllenhaal (coincidência?).

Esse é um filme que vai te deixar com vontade de discutir as possibilidades e ler várias teorias na Internet. Não é por acidente que só estou escrevendo sobre ele uma semana depois de assistí-lo. É isso o que acontece quando um roteiro livremente baseado em uma obra homônima de Jose Saramago. E O Homem Duplicado é dirigido pelo já genial Denis Villeneuve, de Incêndios.

Se não fiz uma análise mais profunda da história nos parágrafos anteriores, foi para evitar a revelação de detalhes que podem estragar um pouco a experiência de quem ainda não assistiu. Porém, não posso deixar de compartilhar com vocês algumas das explicações nas quais pensei. E é por isso que…

Os parágrafos a seguir contém SPOILERS:

É possível estabelecer com razoável certeza que os dois homens são…[Continua aqui.] Voltando

Essas são apenas algumas das explicações possíveis e não é possível afirmar que nenhuma delas é a correta sem sombra de dúvidas, e essa é a beleza da coisa. Antes de escrever esse texto, eu acreditava que essa última hipótese era a mais aceitável, mas durante a escrita da primeira hipótese que apresentei aqui, passei a crer que ela é a que deixa menos pontas soltas. Quantas vezes ainda iremos mudar de versão?

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Incêndios (Incendies. 2010)

Por: Lidiana Batista.

Drama canadense dirigido por Dennis Villeneuve e estrelado por Rémy Girard, Lubna Azabal e Mohamed Majd.

A história de dois irmãos gêmeos tentando realizar o desejo da mãe após sua morte. No testamento, Narwal Marwan diz que quer ser enterrada nua, sem caixão, sem lápide e nem funeral. “Nenhuma lápide será colocada para aqueles que não cumprem suas promessas“. E diz ainda que Jeanne deveria encontrar o pai, e Simon o irmão desaparecido. Para cumprirem a missão designada pela mãe, ambos vão parar na Palestina, inciando assim uma investigação sobre suas vidas e sobre a mãe.

Primeiramente devo dizer que tive de refletir muito para escrever sobre este filme. Sabem aqueles filmes que quando terminam, você olha os créditos finais e mesmo assim não consegue se desligar? Incêndios fez isso comigo. Um excelente drama sobre verdade, força, perdão e obstinação.

E todos esses adjetivos não cabem somente ao filme, mas a uma mulher: Narwal Marwan, que teve a audácia de enfrentar a família para viver um amor, teve de doar seu filho e prometer a si mesma que jamais desistiria de encontrá-lo.

Enquanto os gêmeos caminham pelas áridas paisagens do oriente médio procurando pistas sobre o pai e o irmão, a história da mãe vai sendo contada. Não há como não sentir admiração por essa personagem que consegue forças para superar a perda de um filho, se envolver em uma guerrilha e viver 15 anos em uma prisão sendo torturada constantemente. Esta, é “a mulher que canta”.

Aos poucos os mistérios vão sendo desvendados, e a cada pergunta respondida, uma surpresa para os irmãos e para o espectador que assiste tudo admirado, fascinado e louco para saber quem é a misteriosa Narwal Marwan.

Narwal Marwan é sem dúvida alguma uma heroína como há muito tempo não via. Sua história de vida é apaixonante, e o diretor conseguiu transmitir isso com muita competência! A força da mulher que sonha, que não teme, que canta e encanta.

Incêndios queima a alma com a verdade, com o passado ignorado, com a crueldade e injustiça expostas para serem digeridas pelos protagonistas e pelo espectador.

Jeanne, um mais um pode ser um?

Incêndios (Incendies. 2010)

A morte nunca é o fim de tudo. Sobram traços.”
Filmado na Jordânia, o filme de Denis Villeneuve “Incêndios” (Incendies) que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, se situa numa região fictícia do Oriente Médio, onde os eternos conflitos religiosos entre cristãos e maometanos rendem estórias assustadoras.

Neste caso, a trama intrincada e cheia de revelações e segredos chocantes gira em torno de Nawal Marwan, uma mulher com a vida marcada por tragédias iniciadas pelo desaparecimento do primeiro filho, fruto de uma união proibida. A partir de sua busca desesperada pela criança supostamente morta até sua agonia no leito de morte, sua trajetória de sofrimentos será desvendada aos poucos através de duas cartas a serem entregues pelos seus dois outros filhos, um casal de gêmeos: uma destinada ao pai, outra ao irmão dos dois. A tarefa é difícil, pois eles não conhecem nem um, nem outro e contam com a ajuda de um tabelião amigo de Nawal para unirem um misterioso quebra-cabeças de pistas até encontrarem os destinatários das cartas.

O roteiro, de Wajdi Mouawad, navega habilmente entre cenas do passado e presente numa montanha-russa de emoções fortes. É preciso estar atento a todas as sequências e diálogos, mesmo que pareçam estar soltos ao longo do filme, para aproveitar a pungente e extraordinária estória da “mulher que canta” para suportar a dor. A peregrinação decorrente das procuras que acontecem dá o tom certo de fábula que embala e por vezes, até ameniza convenientemente um acontecimento tão aterrorizante quanto verossímil.

Carlos Henry

Incêndios (Incendies). 2010. Canadá / França. Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Wajdi Mouawad. Elenco: Lubna Azabal (Nawal Marwan), Mélissa Désormeaux-Poulin (Jeanne Marwan), Maxim Gaudette (Simon Marwan), +Cast. Gênero: Drama. Duração: 130 minutos.