Ninfomaníaca Volume 1 e 2. Um Estudo Sobre a Compulsão Humana

ninfomaniaca-2013_01Se você está indo ver Ninfomaníaca por causa das cenas de sexo, meu amigo, você está sendo lesado. Embora tenha um conteúdo pornográfico (fácil entre os mais explícitos já lançados num cinema comercial), Ninfomaníaca é um drama que tem uma história para contar. Se ela é relevante ou não, aí a coisa é bem relativa.

O diretor/roteirista você já deve ter ouvido falar – o tal do Lars Von Trier, o mesmo carrasco que dirigiu o polêmico Anticristo (2009) e o mais recente Melancolia (2011). Tendo isso em mente, da para entender tamanha ousadia.

Quem já assistiu alguma obra do diretor sabe que o cara gosta de começar seus filmes com estilo, fugindo das formuladas aberturas convencionais. Logo na primeira cena suas excentricidades ficam evidentes; uma demorada tela preta nos faz questionar se há algum problema na projeção; ela permanece por intermináveis 80 segundos – até tomarmos um susto com a pesadíssima trilha “Führe Mich” da banda alemã Rammstein enquanto vemos a distância, uma mulher jogada as traças no chão de um beco escuro.

ninfomaniaca-2013_02Assim somos introduzidos a protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg), que após ser acolhida pelo culto Seligman (Stellan Skarsgård), começa a contar sobre sua vida, da sua infância até o momento presente. E nos mínimos detalhes, sem o menor pudor, mergulhamos em sua jornada de confissões; desde sua descoberta sexual aos 9 anos à sua ruína, aos trinta e poucos. Relatos de uma busca desenfreada por sexo que começa como uma curiosidade, passa a ser uma diversão e mais tarde, a razão de todos os seus problemas.

ninfomaniaca-201_03Joe conta sua história como se culpasse a ela mesma por todas as desgraças que aconteceram, enquanto Seligman a escuta e tenta, de forma a amenizar a situação, justificar suas atitudes relacionando com uma série de curiosidades históricas e naturais. Comparações curiosas, mas que beiram ao ridículo as vezes – o que me levou a questionar se neste segmento do filme, o esquisitão do Von Trier não estaria apenas tirando sarro da nossa cara através das palavras de Seligman; atribuíndo justificativas tão complicadas e filosóficas em atos tão simples de se compreender. O cara tira muita onda – em dado momento, ele mesmo se “auto-referencia” com uma cena envolvendo um bebê na janela; igualzinha aquela vista na abertura do filme Anticristo. Ou do momento em que, passado três anos, a gatíssima Stacy Martin de vinte e poucos é bruscamente substituída por Charlotte Gainsbourg de quarenta e poucos, enquanto Shia LaBeouf continua o mesmo, só substituído momentos depois… vai entender.

Por um bom tempo ao longo do filme eu fiquei na dúvida. Joe da relatos atrás de relatos sobre sua incansável busca atrás do prazer e de novas experiências, somando isso às cenas explícitas de sexo e principalmente aos closes nas genitais (pensa num cara que gosta de filmar genitais), fiquei me questionando o sentido de tudo aquilo que estava vendo. Imaginando no pior dos cenários uma explicação tão esfarrapada quanto aquela dada pelo diretor para o filme Anticristo.

Até que o personagem Seligman, lá pro finalzinho da segunda metade, surge com uma justificativa simples porém muito eficiente: a velha questão do machismo. Oras, de fato… se Joe fosse um homem, não seria tão condenada por conta de sua perversão tanto pelos personagens, quanto pela plateia que assiste do outro lado da tela. Embora isso levante várias questões sobre a posição do homem e da mulher na sociedade, foi uma justificativa plausível e um jeito de se interpretar o filme. As cenas de sexo explícito… bom, isso é só estética mesmo. Dependerá de você julgá-las necessárias ou não.

ninfomaniaca-2013_04Aí estava tudo OK. Apesar de ser um material um tanto quanto forçado, o filme tocava num ponto que, de alguma forma, ofuscava o peso de suas imagens. Estava pronto pra sair do cinema com uma visão melhorada desse diretor; até que sua necessidade de chocar acaba falando mais alto do que a de encerrar de forma digna uma história. E então vem aquele final, onde o dito cujo não perde a chance de esfregar mais uma vez na nossa cara sua visão pessimista sobre o ser humano. Eu até entendo, somos as piores pragas que já pisaram nessa terra! Mas faltou a Von Trier, o bom senso de terminar um filme que já não é lá tão decente, de forma digna.

Não poderia encerrar esse texto sem falar das atuações. Embora este não seja um ponto notável no filme – é válido reconhecer a performance e, principalmente, a coragem dos atores sobretudo de Gainsbourg, por se permitir sacrificar sua imagem deixando os mais leigos acreditando que ela estava realmente fazendo sexo oral nos caras. E de sua “versão mais jovem” Stacy Martin, que em seu primeiro longa, fez mais cenas de sexo e nudez do que qualquer veterana no cinema. E claro, por transmitir de maneira natural toda a melancolia, compulsão e solidão da personagem. Um belo trabalho da dupla.

Nymphomaniac Volume 1 e 2. 2013.
Drama/Erótico – EUA – 241 min. Censura: 18 Anos
Direção e Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Jamie Bell, Mia Goth

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Melancholia ( 2011)

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O entediado e deprimido diretor Lars von Trier não faz um filme sem surpreender. A sua mais recente obra “Melancholia” é um meio-irmão do apocalíptico  “The Tree of Life” de Terrence Malick. O filme  é sobre o fim do mundo. E, Von Trier parte da instância de felicidade humana: um “feliz” casamento, ou uma recepção de casamento para ser mais específico, o qual é realizado em um castelo luxuoso, onde o cineasta- roteirista traça o significado da total (in) felicidade.

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A sequência de abertura, de oito minutos, é um espetaculo aos olhos; e prenuncia a destruição da terra em câmera lenta. Depois isso, encontramos os felizes recém-casados Justine e Michael (Kirsten Dunst e Alexander Skarsgard), ao caminho da recepção de casamento organizada  pela irmã da noiva, Claire (Charlotte Gainsbourg) e seu marido John (Kiefer Sutherland) .

Os pais da noiva (Charlotte Rampling e John Hurt) parecem catalisadores para o clima pesado da festa. A mãe dispara aos recém-casados, “aproveitem enquanto dura.” A partir dessa cena, o sorriso visto no rosto de Justine ( Dunst) ilustra o seu olhar vazio, onde residirá até a duração do filme. O casamento de Justine é esmagado apenas horas depois de dizer “o sim”, e, é não impossivel de notar que a moça é a depressão em forma de gente. Diante do fim do mundo, Von Trier deixa claro a ingenuidade de todos que rodeiam a sua heroina, mais precisamente, Claire, que lamentávelmente como muito de nós, é dominada pela ansiedade –  o medo de enfrentar a realidade, e se deparar com a morte. Mas não seria o medo uma forma de morrer antes da propria morte em si?

A atuação de Dunst é nada menos do que espetacular – vai do olhar ao sorriso vazios, até ao silencio. O restante do elenco é igualmente muito bom, especialmente a Gainsbourg, que tem aqui um desempenho bem melhor do que fez em “Anticristo” (2009).

Embora o filme não seja tão controverso como o “Anticristo”, “Melancholia” estimula questionamentos em relação do porque Justine se casa com Micheal, sabendo que o mesmo não a fara feliz. E, por que ela deixaria a sua festa para urinar no campo de golfe, e depois ter relações sexuais com um estranho?.

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Von Trier está certissimo quando disse que esse é um belo filme. Um filme que tem também a capacidade de assombrar a gente por dias, ou semanas, isto, graças a fotografia de Manuel Alberto Claro, e o pessimismo impiedoso do proprio Von Trier. “Melancholia” é mais uma prova que cada um de nós teremos uma percepção diferente ao chegar a conclusão do filme.

 Nota 9

Melancolia (Melancholia/Lars Von Trier/2011)

Por: Celo Silva.

Um lançamento do diretor e autor Lars Von Trier é um excelente motivo para uma ida ao cinema, mexe com os cinéfilos e as realizações do diretor sempre são obras para serem sentidas, que valem muito o clima da sala escura, que de maneira notada influi para uma melhor apreciação de Melancolia, longa imbuído de polêmica mesmo antes de seu lançamento, por conta de declarações infelizes de seu criador, mesmo que não necessariamente sobre a obra.

Logo após o epílogo apoteótico ao som de uma bela e condolente canção instrumental, o áudio é cortado bruscamente, os créditos sobem em silêncio total e o mais impressionante que a sala relativamente cheia, todas as pessoas saíram taciturnas, como em respeito a obra que tinham presenciado. Confesso que sai um tanto angustiado, não com a possibilidade do fim do mundo, mas com o sofrimento que o ser humano é passível de sentir, sofrimento que pode virar tristeza e consequentemente depressão, às vezes nos transformando de maneira aterradora, como acontece com a noiva Justine (Kirsten Dunst, em excelente atuação) no dia de seu casamento, abatimento e desordem atingem a moça de uma maneira brutal, levando a atos extremos, como se premeditasse o que viria a acontecer.

O próprio cineasta citou em certa entrevista, que Melancolia é um belo filme sobre o fim do mundo, a expressão é mais do que correta, até porque com tantas cenas dolorosas, Lars Von Trier consegue dar ao filme sempre um olhar terno, seja com a irmã de Justine, Claire (a talentosa Charlotte Gainsbourg) que cuida da irmã nos momentos de depressão e guarda um medo cruciante de que o planeta Melancholia, em rota de colisão com a Terra, acabe com suas vidas e principalmente a de seu pequeno filho ou com as pequenas, importantes e marcantes participações de John Hurt e Charlotte Rampling, cada um a seu jeito transmitem sentimentos conflitantes e protagonizam situações constrangedoras que influenciam o esmorecimento de Justine.

Melancolia também pode ser visto como uma opera trágica, ate pela pulsante trilha sonora instrumental, com belas seqüências que remetem a pinturas, como uma em que Kirsten Dunst aparece nua em pelo, deitada na beira de um rio, com a lua refletindo seu belo corpo, como se redimindo, aproveitasse seus últimos momentos de existência. O fio condutor da parte mais cientifica da historia vem de Kiefer Sutherland, que defende o marido de Claire, estudioso, um homem centrado e preocupado com a família, mas que em certo momento também perde seu equilíbrio. Outro fato interessante é ver Lars Von Trier usando de efeitos visuais para conceber seus belos e tocantes momentos, como quando o planeta Melancholia se aproxima do nosso. Com certeza, Melancolia é o filme mais poético desse controvertido, habilidoso e inventivo cineasta, mesmo que para isso ele nos leve a uma jornada de sofrimento e tristeza.

O FRACASSO DO ANTICRISTO

Anticristo
Por: Affonso Romano de Sant’Anna.
Acabei assistindo ao ANTICRISTO de Lars von Trier durante o Natal. Pura coincidência.

Fui ver as polêmicas que se seguiram ao filme quando apresentado em Cannes: parte do público, injuriado, saindo da sala, outros vaiando, e numa entrevista coletiva que vocês podem ver no site (http://www.festival-cannes.com/en/mediaPlayer/9902.html), Trier , aparece ao lado de Willem Dafoe e de Charlotte Gainsbourg. Quando lhe perguntam porque fez o filme diz que não tem satisfação a dar a ninguém. Que não tem porque explicar a obra.

Confessa, no entanto, que havia saído de uma crise de depressão, que estava perdidão e fez o que lhe deu na telha.

Vi o filme. Ali estão algumas de suas obsessões: ele (diretor) tem uma relação perversa e complicada com mulheres (ver filmes anteriores, inclusive o maravilhoso Dogville). Neste a personagem feminina prepara uma tese inacabada sobre tortura de mulheres e sexo está sempre relacionado a sangue, violência e morte. Mas o que desagrada não é exatamente fato de a mulher não salvar o filho que se joga da janela, tentar matar o marido passar a tesoura no próprio clitóris ou jogar uma tora de madeira no sexo do marido, masturbando-o até sair sangue. Também não é o fato de no meio da discussão em Cannes ele dizer  publicamente que é o maior diretor de cinema do mundo e comparou-se a Deus. Todo mundo tem direito de alucinar.

O que dá a sensação de fracasso estético é outra coisa, que não passa pela moral. O diretor perdeu o leme da obra (ele sabe disto). O filme muito bem dirigido tecnicamente, vai indo com uma tensão psicológica e quase metafísica instigante, mas, de repente, vira filme de terror, terror de terceira. Não é uma fábula, não é uma alegoria, não é uma obra surrealista. O diretor se perdeu. E o expectador sente isto e se vê fraudado. Afinal, toda obra de arte é um pacto.

E aí surge uma questão: diferença entre obra de arte e neurose. Obra de arte é uma metáfora de utilidade pública. Neurose é um aprisionamento pessoal. Nem toda neurose (ou psicose) é obra de arte. Um simples e forte exemplo: Kafka: transformou suas neuroses a alucinações em metáforas/símbolos de utilidade pública, uma coisa transpessoal. Lars von Trier não conseguiu isto. Dialogou para dentro e não para fora.

Tem ele o direito de fazer isto? Claro.

O mesmo direito do público em rejeitar  ou cobrar algo.

Essa coisa de que o artista é um “sujeito acima de qualquer suspeita” e pode fazer o que quiser, é um dos equívocos da arte do século XX.

Aliás, já que Trier andou se comparando a Deus, tem um detalhe. Até Deus erra. Errou naquela história do Eden, errou de novo ao tempo de Noé, por isto teve que mandar o dilúvio; novamente errou, daí a uns anos, e teve que mandar seu filho Jesus. Diante da situação atual vamos ver como ele vai tentar corrigir o que está aí.

Como dizia o poeta Rubens Jardim: HERRAR É UMANO!

Mas, como desde a Idade Média os teólogos afirmam que o Diabo é parte de Deus, então a gente vai botando a culpa dos erros no OUTRO.

AntiCristo (AntiChrist. 2009)

willem-dafoe-and-charlotte-gainsbourg_anticristoVon Trier,  cineasta dinamarquês, não poupa esforços para fazer de sua obra a mais complexa amostra de cultura de 2009 no mundo. Mal compreendido no Festival de Cannes, onde fora questionado do por que fez esse filme, defende-se como pode e deve, entenda como quiser:

“Trabalho para mim mesmo. Não devo satisfação a ninguém. Não tive escolha (ao fazer o filme). Foi a mão de Deus, eu temo. E eu sou o maior diretor de cinema do mundo. Não sei se Deus é o melhor Deus do mundo”, completou.

Polêmico.

AntiCristo (nome também de uma bela obra de F. Nietzsche – Filósofo Alemão) foi realizado pelo diretor num momento em que tentava superar uma crise de depressão. Segundo ele:

“Não conseguia trabalhar. Seis meses depois, apenas como um exercício, escrevi um roteiro. Foi um tipo de terapia, mas também uma procura, um teste para ver se eu ainda faria algum filme”.

E fez bonito!

A Depressão não é um fetiche burguês, um piti nostálgico que liga nada a lugar algum. Não. A Depressão corrói o sujeito por dentro entre uma Melancolia faltosa e um vazio absoluto que vai aos cumes do desespero. No texto Luto e Melancolia, Freud conceitua Luto como um trabalho psíquico que diz respeito a  reação à perda de objeto de investimento libidinal, onde uma de suas maiores características é a incapacidade de investimento em outro objeto. O momento do luto, portanto, é do sujeito se recompor de tal perda para então conseguir investir energia em outro objeto.

Sabedoria popular: Não dizem que cura-se um mau de amor com um amor mais especial? Exatamente. No momento em que “aparece” um amor mais especial é o momento em que o sujeito já dá conta de investir energia em outro.

E a Melancolia que é agente direta da Depressão? Conceitualmente é a mesma coisa do Luto, porém com nuances mais delicadas. Primeiramente, demora demais para cessar o tempo de reação à perda. Segundo, uma das maiores características é a Autodepreciação. A autodepreciação é importante para entender que na verdade quando o sujeito diz: “eu não presto pra você, sou chato, mau, idiota etc” ele está dizendo que o objeto de seu investimento libidinal que não presta 😉 . Por isso, os suicidas escrevem cartas maravilhosas: “Eu não presto, o mundo é bonito demais pra mim” ou “Essa vida não me traz mais nada, não compensa ficar nela para te dar trabalho” e por aí vai, no fundo trata-se de um ódio absoluto que ao invés de ser dirigido pra fora é dirigido pra dentro, pra si próprio. Autoagressividade. O Suicida quando se mata está matando o objeto de amódio. Por isso, também, a carta. É preciso que ele culpe o objeto a ponto de deixá-lo – o objeto – com o máximo sentimento de culpa que ele puder.

Obviamente que o assunto não cessa aqui, é longo, vasto e in-tenso. Mas com essas premissas em mão é possível entender melhor a obra de von Trier que se divide em capítulos que pelos títulos já se tem uma noção do que virá.

Respeitar o Luto é de suma importância tanto pra quem sente, quanto para quem convive com um sujeito de e em luto. Explicações racionais não são alcançadas para quem sofre. Não adianta um médico dizer para um sujeito às raias do desespero: “Você tem depressão”. E daí? Saber disso não o cura!!! O diagnóstico serve mais para o profissional como forma de saber como vai trabalhar com aquela pessoa do que para a pessoa em si que nem sabe o que fazer com isso…

Além disso, o filme é uma crítica direta ao americanismo do fast food terapêutico, onde são pautados no Behaviorismo que privilegia apenas a consciência do sujeito. Mas, isso é um longo assunto que pode ser massacrante para um blog onde a pauta é cinema rsrsrs. Freud, felizmente, não morreu.

Paciência, silêncio e atenção são elementos básicos para assistir o filme. Ele lida com questões humanas densas, feridas, fraturas expostas. Segundo Freud, quando se abre uma caixa de escorpiões o que encontrará lá dentro? Escorpiões. Não se iludam.

Por: Deusa Circe, Vampira Olímpia (Vamp) e Morgana.

AntiCristo – AntiChrist

Direção: Lars von Trier

Gênero: Complexo demais para defini-lo, mas … Thriller Psicológico, Terror

Dinamarca – Alemanha – França – Suécia – Itália – 2009

Anticristo (Antichrist. 2009)

willem-dafoe-and-charlotte-gainsbourg_anticristoVi na semana passada e fiquei pensando: qual é o critério usado pra se classificar um filme como de TERROR? Por que aterroriza quem o vê? Se for só isso, eu não classificaria ESTE filme como de terror. Diria que tem DUAS cenas terríveis e foi só. Como psicóloga que lidou com o inconsciente por mais de 20 anos, através de sonhos, mitos, lendas, símbolos, eu o classificaria como DRAMA PSICOLÓGICO.  Ou ser testemunha desse tipo de drama é que aterroriza qualquer um que desconheça seus próprios demônios? A mulher foi a culpada pela morte do filho? Nananinanum: sexo se faz a 2!

Vi este filme como quem vê um processo psicoterapêutico profundo, sem entender muito bem porque levou o nome de Anticristo. Viver o lado sombrio – no caso, 1º como todos, tentando fugir dele, mas depois deixando-o vir à tona – transformou-se numa inabilidade do terapeuta/marido em lidar com o seu próprio lado sombrio. Matar sua contra-partida sexual porque é inábil me pareceu a grande derrota de alguém que se diz terapeuta, mas que não faz a menor idéia do que venha a ser o inconsciente. Mexeu com o que não devia: não ‘salvou’ ninguém nem nada, como costuma ser a proposta dos que se dizem terapeutas sem serem psicólogos do inconsciente, entrando – inevitavelmente – em contato com seu próprio “buraco negro”: se contaminou. E por se contaminar, foi derrotado, não lhe restando outra opção a não ser eliminar sua própria proposta falida.

À parte das cenas ‘surrealistas’, pra mim este filme expressou os nossos próprios ‘monstros’ a serem reconhecidos e não, escamoteados como o filme mostrou: quer se acalmar –> uma boa trepada resolve… O PRAZER, a busca pelo prazer ACIMA de tudo? É a fuga, a eterna fuga de si mesmo. Vai ver que o ‘anticristo’ está nisso…

Este filme me lembra Os Idiotas, não por acaso do mesmo diretor.

Por: Eli@ne L@nger.