Um Plano Brilhante (Flawless. 2007)

Por Roberto Souza.

Uma Receita Contra a Mesmice

Se existe um gênero no qual os produtores investem seu dinheiro sem medo é o thriller. Mexendo com os nervos da audiência eles garantem o investimento e várias noites de sono tranqüilo. O filme de suspense caiu no gosto do público há tempos, desde que Sir Alfred Hitchcock explorou todas as suas possibilidades, vertentes e variações. Além disso, a presença de astros veteranos ou na berlinda, a convocação de um diretor competente e um script elaborado com um mínimo de engenhosidade garantem o sucesso da receita.

É o exemplo de Um Plano Brilhante (Flawless), estrelado por Demi Moore e Michael Caine, sob a direção do britânico Michael Radford. O roteiro original de Edward Anderson tem o mérito de conferir aos personagens principais uma sutileza pouco comum ultimamente, neste tipo de espetáculo. Situado na Londres dos anos 60, o enredo nos apresenta Laura Quinn (Moore), executiva de uma poderosa firma de diamantes, cuja ascensão profissional vem sendo barrada por ser mulher. Aos poucos, ela se aproxima do Sr. Hobbs (Caine), o velho zelador que foi descartado após toda uma vida dedicada à empresa. Juntos eles irão responder ao preconceito e à demissão esquematizando um golpe genial: o roubo de uma valiosíssima coleção de jóias, se vingando da corporação que friamente os menosprezou.

Radford (O Carteiro e o Poeta, O Mercador de Veneza, 1984), um realizador que costuma driblar a mesmice, conduz a narrativa com muita habilidade e acerta em cheio no ângulo da abordagem. Ao invés de apostar na trama, na armação do plano mirabolante, constrói o filme baseado na fragilidade dos protagonistas frente à estrutura que os devora. A impressão de que a tarefa está acima de suas capacidades e que andam sempre à beira do abismo, remete à tensão ao nível psicológico, garantindo uma densidade que confere equilíbrio ao todo.

Porém, em nenhum momento tal visão minimiza a diversão que todos procuram em histórias assim, muito pelo contrário. Ao final, a sensação que fica é da rara mistura de complexidade emocional e ação mirabolante, agradando aos olhos e à inteligência. Além do prazer de sempre rever a altivez natural de Michael Caine, e a grata surpresa de constatar que Demi Moore, amadurecida, tornou-se capaz de representar com sensibilidade, alcançando alturas que ninguém julgava possível.

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O Carteiro e o Poeta (Il Postino. 1996)

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Quando se explica a poesia, ela fica banal.” (Neruda)

Ao rever o “O Carteiro e o Poeta” devo confessar que a emoção foi maior. Talvez porque dessa vez eu sorvi o filme lentamente, como um bom vinho. Para quem não conhece, um pouco da história:

Mário Ruppolo vive à beira-mar com o pai, um pescador como a maioria dos homens da localidade. Acontece que Mário não quer ser mais um deles. Até porque tem alergia. Para fugir um pouco da pregação do pai, divide seu tempo entre longos passeios, e quando pode, vai ao cinema.

Ao ver uma vaga nos Correios vê a chance de unir seu gosto pelos passeios com sua bicicleta a um trabalho longe das pescarias. Aliado a isso, o prazer em ter um contato maior com Pablo Neruda, que se encontra em exílio político na Itália.

Aos poucos as barreiras entre esses dois homens vão se quebrando. Surgindo uma amizade. Mário em sua simplicidade ganha o carinho de Neruda. Que o ajuda a vencer a timidez para se aproximar de sua amada Beatrice.

Com o término do exílio, Neruda vai embora. Mário por sua vez já está casado. Mas não é mais o homem de outrora. Quer agora falar e muito. Então se engaja na política de oposição.

Destaco aqui uma passagem onde a sogra fica a repetir “o pássaro comeu e foi embora“. Que Neruda aproveitou-se do genro enquanto lhe foi útil. Então Mário lhe diz que se alguém fora útil ao outro, esse alguém fora Neruda a ele. Ele sim aproveitara aquela convivência. Aprendera muito de si mesmo com o poeta. Claro que para ambos, carteiro e poeta, não houve uma materialidade nessa convivência, mas sim uma troca saudável, prazeirosa e que preencheu a vida de ambos naquele período.

Por iniciativa de um, como também da boa receptividade do outro, houve carinho, respeito e apreço naquela amizade. Mesmo num curto período, fora marcante. E ele não foi apenas um cumpridor do seu dever – o de entregar carta.

Enfim, temos aqui uma linda história de amizade!

Nota: 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Carteiro e o Poeta (Il Postino / The Postman). 1996. Itália. Direção: Michael Radford. Elenco: Philippe Noiret, Massimo Troisi, Maria Grazia Cucinota. Gênero: Romance, Drama, Comédia. Duração: 108 minutos. Classificação: Livre.