O Leitor, A Dama do Cachorrinho e Tchekhov

Três histórias de paixão: paixão por Anton Tcheckov, paixão pelo filme O LEITOR e pelo filme OLHOS NEGROS ou  A DAMA DO CACHORRINHO, um dos mais célebres do já citado escritor russo.

A Dama do Cachorrinho é um dos contos mais populares da literatura russa. Tão popular que recentemente se teve a oportunidade de ouvir a história sendo contada pelo protagonista Michael no filme O LEITOR lançado em 2008, e anteriormente também nas telonas sob o título OLHOS NEGROS, em 1987 pelas mãos do cineasta Nikita Mikhalkov. Evidentemente que em 118 minutos de duração, perde-se muito, já que se tem o hábito de comparar alhos com bugalhos, não se pode esquecer que a obra literária e a cinematográfica são linguagens distintas, ficando mais ou menos assim a sinopse do dirigido pelo russo:

A bordo de um navio no final do século XIX, italiano de meia idade conta sua história de amor a um russo. Ao visitar um spa, o homem, ainda casado, conhece uma mulher russa por quem se apaixona. Ela é infeliz no casamento e os dois transam. Ao voltar para casa, o homem está resolvido a deixar a esposa e se casar com a russa.
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Essa história fala sobre desencontros e encontros da vida; casamento, sentimentos falidos, amor, traição, adultério, vergonha, culpa…

Viajando um pouco mais pela obra literária, transcrevo aqui o resumo do conto.

Dmítri Dmítrich Gurov, casado e com três filhos, entediado com a vida matrimonial, há algum tempo passara a trair sua esposa. Mantinha aventuras passageiras com suas amantes e, amargurado com suas fúteis experiências amorosas, passa a referir-se às mulheres com desprezo.

Dmítri morava em Moscou e estava em Ialta, já há duas semanas, para descansar. Lá comentavam sobre uma dama que aparecera à beiramar e andava em companhia de um cachorrinho, como não sabiam seu nome a chamavam simplesmente: A dama do cachorrinho. Interessado, Dimitri a vê em diversos lugares passeando com seu cãozinho, até que, certa noite, ambos jantam no mesmo local e ele tenta aproximação, atraindo o cachorrinho.

Ana Sierguéievna, a dama do cachorrinho, era natural de S. Petersburgo e morava na cidade de S. com seu marido. Também se sentia infeliz no casamento e como estava sozinha em Ialta, conversa com o estranho para diminuir sua solidão. Os dois passaram a se encontrar todos os dias e Dmítri sente-se muito atraído por aquela mulher, até que o marido manda uma carta a Ana pedindo que ela retorne, pois ele está doente. Eles se despedem com a promessa de não mais se verem.

Dmítri retorna a Moscou e não consegue esquecer Ana. Mudado já não trata as mulheres com arrogância e percebe que está apaixonado. Resolve então ir para a Cidade de S. para reencontrar Ana. Descobre onde ela mora, mas não a procura esperando um encontro casual. Vai à estreia de uma peça teatral e encontra Ana que, perturbada com a presença do amante, revela que também não o esquecera, mas pede que ele vá embora, temendo o flagrante do marido.

Ana promete ir a Moscou e cumpre com a palavra. Passa a viajar periodicamente para encontrar o amante. Amam-se com sentimento de culpa, mas se perdoam ao perceber que aquele amor os transformara. Juntos conversam sobre o desconforto do amor às escondidas, pensam começar uma vida nova, mas não sabem como recomeçar. Tornava-se claro para ambos que o fim ainda estava distante e que o mais difícil e complexo apenas se iniciava.
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E por último, a sinopse do filme O Leitor

Nos anos de 1950, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o jovem Michael Berg adoece e passa a ser cuidado por uma bela e estranha mulher, Hanna, que tem o dobro de sua idade. Michael logo se recupera, mas Hanna foi embora. Ao encontrá-la, os dois têm um breve, mas intenso romance. Uma paixão cada vez maior, temperada com as leituras de obras clássicas que Hanna sempre pede para que o amado leia. Apesar disso, Hanna misteriosamente desaparece outra vez. Passados oito anos, Michael é agora um aluno de Direito que acompanha julgamentos de crimes de guerra cometidos pelos nazistas. É nesse momento que Hanna reaparece na vida do rapaz. Mas para a surpresa dele, a mulher está no banco dos réus do Tribunal. Enquanto o passado de Hanna é revelado, Michael descobre um segredo que poderá impactar na vida de ambos.
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O filme O Leitor é uma história bastante fiel ao livro e acaba abordando os mesmos sentimentos como em Olhos Negros: culpa, amor, vergonha, remorso pelo que não foi feito no momento oportuno. Define-se em uma única palavra: Romance. Uma singela história de amor.

A ficção e a realidade nas obras de Tchekhov (con)fundem-se de tal maneira que nos faz devanear tanto quanto o tocante filme O LEITOR, e este, por sua vez em inúmeras nuances de muitas outras histórias sensacionais brindando o expectador duas vezes pelo menos: 1º a obra cinematográfica, e 2º conhecendo histórias da literatura universal. Considerei super válido o diretor Stephen Daldry de uma sensibilidade  ter traduzido o romance do escritor alemão Bernard Schlink em outra linguagem artística, transformando-nos em protagonistas de sua obra, ou melhor, nos colocando na posição de Hanna –  a ouvinte – que se apaixona pelo adolescente Michael na Alemanha após a 2ª Guerra Mundial e ambos começam uma aventura que marcará a vida do rapaz para sempre. Ela tem o dobro da idade dele o que não impede que daí nasça um sentimento de amor e desejo carnal. Há muitas outras diferenças entre o casal.  Em cada encontro, antes do sexo, ela pede que ele leia algo para ela, o que ele faz com prazer, lendo os clássicos da literatura: A Odisséia, Guerra e Paz etc, até chegar em A Dama do Cachorrinho. Ele é O LEITOR e nós somos OS OUVINTES, contracenando com a obra. Relembrei a história com saudosismo. Hanna as ouve com muita   atenção e só mais adiante que se entende o seu drama. É analfabeta. Sente vergonha dessa sua condição e em momento algum revela esse seu “segredo” ao amado.

Culpa dela e vergonha dele. Muito tempo depois quando já não estão juntos é que ele acaba descobrindo isso, por mero acaso esse segredo dela. Ela é julgada e condenada por crimes de guerra, e ele poderia salvá-la da condenação mas por vergonha decide se calar.

Culpa e vergonha são os ingredientes principais na tocante obra O LEITOR. Um filme riquíssimo em significados e interpretações que  levam a questionamentos perturbadores. É sem dúvida uma obra-prima.

A 4a paixão é que sou uma ótima ouvinte. Gosto que me contem histórias interessantes. É uma viagem indescritível. Explicar é impossível. Guardo boas recordações dos tempos de ouvinte. Acho que não tive infância…

Assista ao filme, leia o livro, não deixe de prestigiar. Aproveite para ver também MOSCOU de Eduardo Coutinho e conhecerá um pouco mais de Tcheckov. Deleitem-se! Afinal faz um  bem danado para a alma.

Karenina Rostov

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Tão Forte e Tão Perto (Extremenly Loud and Incredibly Close, 2011)

ImagemEm junho passado, uma amiga minha do Brasil, veio me visitar, e ela muito me falou do escritor Jonathan Safran Foer, em especial do livro, “Extremely Loud, Incredibly Close.” Logo dei uma pesquisa, e fiquei a saber que o director de “The Hours (2002) Stephen Daldry estava dirigindo a versão do livro para o cinema.

Ela me encorajou a ler o livro, e até cheguei a ler algumas paginas, mas não me envolvi pela leitura, e resolvi esperar para ver o filme. O enredo é sobre um menino que busca por uma fechadura por toda cidade de Nova York. Ao achar uma chave nos pertences do pai, ele acredita que seu pai – que morreu nos ataques de 11 de setembro de 2001 – propositadamente lhe deixou o objeto. O enredo muito me fez lembrar de “Hugo” de Martin Scorsese, pois temos em “Extremely Loud, Incredibly Close”,  um menino inteligente e bonitinho, um pai falecido e um mistério.

ImagemUm ano depois dos ataques de 11 de setembro, Oskar Schell (Thomas Horn) ainda sofre com morte de seu pai, Thomas (Tom Hanks). Oskar e sua mãe, Linda (Sandra Bullock), ainda vivem em Nova York, em frente ao prédio onde vive a avó do menino.

ImagemPara quem perdeu um ente querido, sabe como é dificil largar os pertences do morto – é uma das coisas mais difíceis de fazer.  E por tal, é facil sofrer e sentir a dor de Oskar, principalmente quando ele fica escutando a voz do pai. Nada de errado em ser um filme emocionalmente devastador – drama tem que ser emocionante  e achei que Daldry sabesse conduzir isso, mas..-

Entre um choro aqui e ali, Oskar decide resolver o mistério deixado por seu pai, envolvendo a chave, os nova-iorquinos com sobrenomes Black (todos os 472 que vivem na cidade!), a voz do pai deixada na secretária eletrônica e um  pandeiro. Assim começa as aventuras de Oskar.

Três coisas que achei problematicas no filme:

1- Mesmo que Hanks tenha um tempo limitado no filme, ele desempenha um personagem tão idealizado como “o melhor pai que já viveu no mundo”, que me pareceu falso, enquanto a mãe de Bullock parece tão negligente que, quando a explicação plausível para a sua longa ausência é justificado, eu me perguntei: que tipo de mãe deixaria o seu filho de 11 anos sozinho numa cidade grande como Nova York, e ser também acompanhado por um idoso estranho?. Quando o filme me deu a resposta para a tal atitude da mãe, desejei que tivesse um pandeiro para jogar na cara dela!.

2- Apesar de Oskar achar que a chave vai trazê-lo para mais perto de seu falecido pai, nunca que se pode acreditar por um momento que a essência da trama fosse para uma aventura no estilo “ o que vale é jornada, e não o destino” que terá o menino. A estrutura do filme não me prendeu – a busca de Oskar por respostas- suas idas de um endereço para outro.

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3- Nem quero criticar o ator Thomas Horn, pois esse é seu primeiro filme, e ele mostra ter potencial para ser um bom ator, mas o seu personagem, me fez lembrar da Mattie (Hailee Steinfeld) de “True Grit” (2010). Horn decorou muito bem os dialogos que tinha que decorar. O menino é o narrador do filme, e se sabe dos seus pensamentos e decisões privadas antes de ocorrer ação, por examplo: ele mente muito! Mas o roteirista  Eric Roth e Daldry exagera ao fazer uso de voice- over, pois todas as vezes que Oskar mente, vem aquela  justificativa como se os outros personagens acreditassem na mentira deleCompreendo que Oskar é um menino assustado, chocado pela morte do pai, mas o seu comportamento, e atitudes de  superioridade chega a irritar. Que prazer alguem poderia ter em ter a companhia de um menino tão arrogante?. Quando ele é acompanhado pelo velho (Max von Sydow), ficamos a saber que o misterioso senhor é incapaz de falar – isso significa que o garoto vai falar ainda mais. Fala tanto que me deu vontade de gritar : “Shut the F* up” !.  Desde “True Grit” – com aquela menina falante e irritante, vivida pela gracinha da Steinfeld-, que eu não tinha visto um personagem tão chato quanto Oskar.

Menos ruim, mas não perfeito :

ImagemMax Von Sydow até poderia ter roubado o show para si, se a sua personagem tivesse sido bem desenvolvida e bem conduzida, pois as cenas mais interessantes do filme, são as que ele aparece. A química entre ele e Horn é bastante vaga, e quando Von Sydow sai de cena, a alma do filme vai junto!. Sou um grande admirador desse veterano ator, especialmente por causa de sua grande expressividade, e esforço, e fico triste que ele ganhe uma indicação ao Oscar por um papel tão superficial.

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Faz um tempinho que venho escutano a trilha que Alexandre Desplat escreveu para o filme. Particularmente achei esse o seu melhor trabalho entre as trilhas que ele escreveu para 5 filmes diferentes em 2011. Mas quando ouvi as suas musicas emoldurando a fotografia de Chris Mendes (com uso de edge blur em algumas cenas) senti que Nova York nunca pareceu um lugar tão monótono e nada maravilhoso. A trilha sonora  é linda, mas não achei que case com o filme!.

No geral, “Tão Forte e Tão Perto ” é decente tecnicamente, mas esperava algo mais emocionalmente envolvente e um pouco menos manipulador. Eu certamente não queria sair do cinema como sai depois de “United 93” (2006), totalmente devastado pelo ocorrido em 11 de setembro, mas pelo menos os produtores deveriam ter  – extremamente -,  se preocupado mais com o mundo de Oskar do que ter investido – incrivelmente-, em tudo, pensando no Oscar!.

Nota 5,0

P.S.: Para minha surpresa, “Tão Forte e Tão Perto ” foi indicado para melhor filme, e melhor coadjuvante para Von Sydow. Indigna consideração!.

As Horas (2002). Uma Leitura Através da Filosofia de Martin Heiddeger

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As Horas” é um romance escrito em 1998 por Michael Cunningham e que lhe rendeu, no ano seguinte, o prêmio Pullitzer para a categoria ficção. Em 2002, sob direção de Stephen Daldry e atuações de Nicole Kidman, Julianne Moore, Meryl Streep nosapéis principais e outros grandes nomes como John C. Reilly e Ed Harris como coadjuvantes, “As Horas” se tornou um dos grandes clássicos do cinema e traz consigo uma profunda reflexão em torno da angústia heideggeriana. Diferente do que acontece com frequência na transposição do livro para o cinema, “As Horas” é uma película formidável, que merece todos os tipos de elogios de seus telespectadores, contando com atuações espetaculares dos atores e atrizes que compõe o time, que traz a essência do livro com toda a perfeição e fidelidade necessária para a realização de uma grande obra cinematográfica.

O livro conta um dia de três mulheres em períodos distintos, entrelaçadas por um elo em comum: o romance “Mrs. Dalloway”. Durante o decorrer deste dia, iremos observar os contrastes e as imensas semelhanças na vida destas três mulheres, que compartilham o principal objeto de estudo para a realização deste texto: a angústia. A primeira cena do filme, que funciona como prelúdio, é uma descrição dos últimos momentos da vida da escritora britânica Virginia Woolf (25/01/1882 – 28/03/1941 – interpretada por Nicole Kidman), e reconta a história de seu suícidio, o que de fato aconteceu, derivado das constantes crises depressivas e acontecimentos que agravam o seu estado existencial, como a destruição de sua residência em Londres , durante o bombardeio realizado pela Força Aérea alemã durante a 2º Guerra Mundial.

Na manhã de 28 de Março de 1941, Virginia Woolf escreve dois bilhetes de despedida, um para sua irmã e outro para seu marido, Leonard Woolf, esclarecendo os motivos que lhe levaram a se suicidar. Escrita-se que estas sejam as ultimas palavras de Virginia para seu marido:
“Querido, Tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade. Você sempre foi paciente comigo e realmente bom. Eu queria dizer isto – todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V.”

A cena é retratada de forma magistral e exibe a nobre Virginia Wolf, escrevendo os bilhetes, abotoando os botões de seu roupão, fechando a porta de sua casa, caminhando por um bosque, colhendo pedras e colocando-as em seus bolsos e, finalmente, entrando num rio próximo a sua casa, paralelamente o seu marido entra em sua casa, encontra os dois bilhetes e os lê. Enquanto toda a cena se desenvolve, ouvimos a voz de Nicole Kidman dizendo os trechos do bilhete publicado acima. A cena é triste, porém muita bela e triunfante.

E é assim que se inicia “As Horas”, um filme sombrio e que nos leva de volta a nós mesmos, e nos faz refletir acerca de nossa existência.

Em 1923, observamos o dia de Virginia Woolf enquanto ela começa a escrever o romance “Mrs. Dalloway”, e planeja contar toda a história de uma mulher em um único dia. Paralelamente temos uma constante e sofrível luta de Virginia contra a sua própria loucura.

Em 1951 temos Laura Brown (interpretada por Julianne Moore), uma mulher que leva uma vida praticamente perfeita mas que sofre de um vazio sem explicação. O seu dia gira em torno dos preparativos para comemorar o aniversário do marido Dan Brown (interpretado por John C. Reilly), na leitura do livro “Mrs. Dalloway”, da autoria de Virginia Woolf, além de ficar evidente a sensação de se sentir estranha dentro de seu própria habitat. Laura está grávida e tem um filho de três anos de idade.

Em 2001, Clarissa Vaughan (interpretada por Meryl Streep) organiza uma festa para comemorar o prêmio literário que seu grande amigo Richard (interpretado por Ed Harris) – ex-namorado, homossexual, aidético e prestes a morrer – ganha por reconhecimento a um livro de sua autoria. A vida de Clarissa só tem sentido ao vivenciar a vida de Richard – que trata a amiga sempre por “Mrs. Dalloway” – a qual observamos a sua enorme angústia ao se deparar com o estado terminal de seu amigo, assim como as constantes tentativas de lhe proporcionar ânimo e alegria, até como forma de combater a sua própria angústia.

É notável o movimento a qual se desenrola toda a trama, sendo a ligação e os paralelos entre as três protagonistas que fazem de “As Horas” umas das grandes películas de nosso tempo. De tal forma, o livro não deve ser diferente. Apresentada a trama, vamos aproximar “As Horas” com algumas partes da filosofia heideggeriana. Primeiro é preciso retomar que, sendo a filosofia de Martin Heidegger uma filosofia muita abstrata, fica difícil entrar em consenso quanto a alguns significados, sendo a intuição o principal método utilizado para a compreensão da obra de Heidegger. Uma vez que possamos dizer que a angústia ôntica é aquela que tem origem no intra-mundano e que a angústia ontológica não tem origem e é causa de si mesma, representado apenas a dor e aflição de um nada sem explicação, estamos aptos a iniciar a reflexão.

A escritora britânica Virginia Woolf é vítima de fortes crises depressivas, têm consecutivos quadros de histeria e, consciente de seu estado mental, enfrenta diversas batalhas com a sua própria loucura até o momento que se sente incapaz de vencer sua doença e acaba cometendo suicidio. É evidente a angústia de Virginia, que está sempre a esperar que algo aconteça, e a ansiedade presente em cada hora de seu dia, onde é difícil conciliar os pensamentos com a realidade. Embora tenha o constante apoio de seus familiares, Virginia sente que seu quadro é irreversível e para aliviar as dores de seus sentimentos, procura fugir o máximo possível de si e do mundo, como que para procurar algo sem saber exatamente o que.

Podemos nos basear analisando duas cenas onde a tentativa de fuga e a oscilação do pensamento: uma é quando Virginia decide ir à estação de trem de sua cidade e, após se encontrada por seu marido, pede para sair da região a qual habitam em troca de uma cidade mais movimentada. É a tentativa de Virginia para acreditar que o seu problema se encontra na vida a qual ela vive, e que a mesma não representa a sua própria vontade. Assim como Virginia, existe uma gama de pessoas que procurar exteriorizar os seus problemas e acaba procurando uma solução fora de si. São inúmeros os casos de pessoas que vivem angustiada e para acabar com este sentimento escolhem mudar de cidade, de carro, trocar o guarda-roupa, reformar uma casa, etc. No princípio, existe uma disposição para que as coisas melhorem, visto que a novidade faz que a nossa mente se distraia de forma mais acentuada, porém, conforme o passar do tempo, a novidade deixa de existir e você passa a se encontrar consigo mesmo, se reencontrando com a angústia e tendo a necessidade de se distrair novamente.

A outra cena é quando Virginia escreve, num estado profundo, o seu livro “Mrs. Dalloway” e observamos que a protagonista da história é um retrato vivo da própria Virginia sendo ela por si mesma, ou seja, sem influência alguma do mundo exterior ou da sua própria doença. É durante a escrita que Virginia vive a angústia ontológica, que permite que se encontre com o seu Dasein – que está sempre aberto para o ser – e ela pode “vir a ser o que se é”, sendo que ela passar a existir até o momento em que ela para de escrever e se reencontra com sua vida. Heidegger diria que esta é uma vida inautêntica, pois sua angústia, que ele classificaria como ôntica, tem origem no intra-mundana, ou seja, tem causa no mundo exterior.

Neste caso, a origem é patológica, proveniente de uma doença como a depressão. Além disto Virginia está sempre a fugir de si mesma, tanto é que opta pelo suicídio para acabar com o seu sofrimento e o sofrimento de seus próximos, numa atitude de não aceitação. Esta não aceitação é que faz com que Virginia, mesmo atingindo a angústia ontológica em diversos momentos, procure uma explicação – até como princípio de distração – para sua própria angústia e acabe migrando para o estado de angústia ôntica, que é onde podemos nos arriscar a contextualizar os suicidas, que utilizam da morte como distração para por fim à angústia.

Laura Brown acorda sozinha em sua cama. Seu olhar é absorto. Fica claro que ela se sente uma estranha. A única coisa que parece lhe interessar é o romance “Mrs. Dalloway” que está em seu criado-mudo. Ao levantar observa que o seu marido já está de pé e que prepara o café-da-manhã para eles. Ele diz que não quer incomoda-la, afinal ela está grávida. Ele está alegre, alias é o seu aniversário. Laura finge para ele e para o seu pequeno filho uma sensação de felicidade que não existe. Ele se despede e vai trabalhar. Laura Brown acredita que ela deve fazer algo para comemorar o aniversário do bondoso marido e decide forçosamente a fazer um bolo. Mas é difícil. Laura não se sente à vontade, não se sente bem com a sua vida. Ela está angustiada e sua angústia não tem origem em nenhum acontecimento interior ou exterior. Esta á a angústia ontológica. Laura Brown passa a existir para Heidegger. Algo pede para ela se entregar a esta angústia, contudo ela hesita, não sabe o por que, da mesma forma que ela também não sabe porque se sente assim. Todos seus movimentos são incertos. Laura recebe a visita de uma antiga amiga e num momento acaba lhe beijando a boca, o que deixa o ambiente difícil e pesado, e faz com que sua amiga vá embora.

Nesta ultima cena podemos dizer que a amiga que Laura Brown procurava atender a necessidade de dar vida a esse apelo da vida causada por sua angústia ontológica, que pede insistentemente para fazer algo mas sem dizer o que é este algo, não obstante também podemos dizer que Laura Brown fez algo que sempre quis fazer, e estava no processo de humanização quando decidiu trocar sua vida inautêntica por uma vida autêntica, onde ela pudesse realmente fazer aquilo que seu ser sempre reclamou.

Posteriormente Laura Brown pega o bolo que estava preparando para o seu marido e o destrói. O fato dela preparar o bolo era algo que estava presente em uma vida que não era sua e neste processo de humanização não fazia sentido algum continuar com aquilo.

Ao continuar a leitura de “Mrs. Dalloway”, Laura Brown planeja o seu próprio fim, visto que ela não enxerga uma saída para se livrar de seu estado de sofrimento. Ela pega o seu filho Richie, leva para uma vizinha cuidar e se dirige à um hotel, onde retoma a leitura de seu livro. Durante todo o decorrer do dia de Laura Brown também é interessante analisar um personagem que também é vítima de uma angústia, embora seja ôntica, e sofre tanto quanto os demais personagens: é o pequeno Richie, que percebe o quanto a sua mãe sofre e sente a inutilidade em não poder fazer nada para alterar este quadro. Ele acompanha cada momento do dia de sua mãe e percebe o quanto ela é infeliz. Ele percebe inclusive o momento em que ela deseja se matar, o que é retratado com o seu desespero ao ser deixado na casa da vizinha enquanto a sua mãe se dirige ao hotel. Contudo a sua angústia tem origem no sofrimento de sua mãe. Richie vive uma vida inautêntica por isto.

Após terminar a leitura de “Mrs. Dalloway”, Laura Brown decide não mais se matar. Ela retorna a casa da vizinha para pegar Richie, prepara o bolo do marido e depois observamos a comemoração do aniversário em família. Porém o olhar de seu filho deixa claro que Laura Brown ainda continua num estado que o preocupa. É claro que, até então, podemos concluir que a leitura de “Mrs. Dalloway” no hotel teve um efeito decisivo na vida de Laura, embora só no final do filme iremos descobrir o porque, mas o que podemos dizer já é que o livro proporcionou que Laura se encontrasse com o seu Dasein e permanecesse a viver não mais em estado de dúvida, porém existisse em estado consciente e controlado. A partir daquela experiência ela tomou parte de sua vida e passou a controlar todos os acontecimentos posteriores. Ela passou a se conhecer. Clarissa Vaughan está animada. Seu melhor amigo, Richard, acaba de ganhar um prêmio em relação a um romance que escreveu. Ela organiza a festa que fará em homenagem à ele.

Alias, Clarissa é especialista em dar festas. Homossexual, observamos que Clarissa também se como simular a alegria e a felicidade, sempre na tentativa de quebrar a solidão, tanto a sua como a dos outros. Porém fica claro que ela também não se sente confortável com sua própria vida. Ao se encontrar com o deprimente Richard, em estado sofrível e prestes a morrer, Clarissa tenta animar o Richard com a sua própria festa, porém ele não vê motivos para euforia. Não é a festa que vai deixá-lo bem, não é a festa que irá amenizar a sua angústia ôntica, que tem origem na sua expectativa de morte e no percurso de sua má sucedida vida. Richard ironiza Clarissa dizendo algo como “Mrs. Dalloway dando festas para quebrar o silêncio”. Esta é uma tentativa de Richard de dizer para deixar o que está como está, que não vale a pena mascarar a verdade, para ela parar de ficar simulando a vida e ficar fugindo de si mesma. Richard sabe que irá morrer. Ele não gosta de si e não gosta das pessoas, com exceção de Clarissa.

Clarissa sofre ao ver o amigo sofrer, a sua angústia é ôntica e tem origem no sacarmo e na antivida de Richard. Ela afirma que só é feliz na presença do amigo. Clarissa vive uma vida inautêntica, vive uma vida que não é sua. Para Heidegger, ela não existe. Ela não atende o chamado de seu Dasein. Ela prefere espantar tudo com flores e festas. Ela prefere tapar os ouvidos ao invés de escutar o seu ser. Naquela tarde, numa das visitas de Clarissa para definir detalhes da festa, Richard resolve se suicidar ao se atirar pela janela de seu apartamento. Clarissa observa tudo e se sente inútil, pois ela sempre teve a certeza de que poderia fazer algo que deixasse o seu amigo feliz. Ela se sentia assim justamente porque não vivia a sua vida. Então surge a apoteose da obra: durante o funeral, todos os participantes ficam chocados ao saber da visita da mãe de Richard. Clarissa sabe que a mãe de Richard abandonou ele e a sua irmã, assim que ela nasceu, e nunca mais deu notícias. Esta era a maior mágoa de Richard.

Sua mãe não é nada mais nada menos do que Laura Brown e descobrimos que Richard é o pequeno Richie que viu de perto toda a angústia de sua mãe. Laura explica que havia algo dentro de si que lhe dizia que aquele não era o seu lugar e que lhe clamava por vida. Ela havia decidido se matar numa tarde em que ela se hospedou num hotel. Porém ela havia decidido que não faria isto naquele momento e planejou todo o seu futuro: assim que ela tivesse o bebê, iria abandonar toda aquela vida ilusória (inautêntica) e passaria a viver (existir) da forma que realmente gostaria. Ela prometeu a si mesma que não iria se arrepender e que não iria olhar para trás. Ela disse á todos que havia escolhido viver. Ela diz isto serena, confiante, e com o olhar mais leve do que a Laura que observamos antes.

Heidegger diz que a felicidade não é possível como um sentimento simulado quando você decide viver uma vida autêntica, aquela felicidade proveniente de um sentimento de distração e de apego, mas diz que surge um sentimento de libertação, de conhecimento e um certo orgulho que nos faça crescer de tal maneira que poderemos dizer qual é o mundo que não queremos viver. E é este sentimento que encontramos na fala de Laura Brown ao relatar a sua experiência. Ninguém está mais apto a lhe julgar, e sentimos uma certa comoção geral.

A lição que fica desta cena é que não há vida ao se agradar somente os outros. Laura poderia viver uma vida dedicada aos filhos e ao seu marido, mas não é o que ela queria, então por que deveria ser assim? Por qual motivo ela deveria deixar de fazer aquilo que o seu ser ansiava? Quando passamos a viver uma vida que não é nossa apenas para agradar os outros, quando é que alguém passará a viver a sua própria vida de forma autêntica? Quando é que a vida passará a existir? Quando é que viveremos? Ao término do filme, observamos novamente a cena em que Virginia Woolf caminha adentro ao rio e comete o suícidio que entrou para a história como o fim da escritora. O dia termina. É o fim de “As Horas”. É por todos os argumentos citados neste texto que vale destacar “As Horas” como uma oportunidade de releitura da obra de Martin Heidegger, justamente por encontrarmos ingredientes que fazem parte da filosofia do último grande filósofo de nosso tempo. E que esta obra nos sirva para refletirmos durante todos os momentos de nossa vida.

Por: Evandro Venancio. Blog: EvAnDrO vEnAnCiO.

Link IMDB: http://www.imdb.com/title/tt0274558/
Trailer: http://www.youtube.com/watch?v=he8cR7skklA

As Horas (The Hours). 2002. EUA. Direção: Stephen Daldry. Roteiro: David Hare. Nicole Kidman, Juliane Moore, Meryil Streep, Stephen Dillane, Miranda Richardson, George Loftus, Charley Ramm, Sophie Wyburd, Lyndsey Marshal, Linda Bassett, Christian Coulson, Michael Culkin, John C. Reilly, Jack Rovello, Toni Collette, Ed Harris. Baseado no livro de Michael Cunningham.

As Horas (The Hours. 2002)

A fantasia, em todas as suas formas, só tem utilidade se servir como uma reflexão do que pode ser construído para o futuro.” (Kurt Vonnegut)

Muito embora o filme traga três personagens femininas é do lado feminino de ser que cada um de nós temos, homens e mulheres, que ele mostra. E esse olhar feminino vem pelo poeta, justamente por um personagem masculino. Um jeito romântico de ser e de olhar o mundo. Lindo!

Aí ficam perguntas! Tudo tem que ser tão certinho? Tudo tem que sempre ser encarado dentro da normalidade, daquilo que já está pré-estabelecido? A mola do mundo também é movimenta por algo fora dos padrões, fora do convencional. Sempre teremos tempo de subverter a engrenagem da vida? Ou não! Já que o tempo não para. As horas voam. Onde estaria, melhor, onde ficaria o sonho, o desejo, a vontade em traçar seu próprio destino? Pois levar uma vida dupla, onde a real é por pura obrigação, onde a de sonhos é escapismos, há de chegar uma hora que não aguentará mais. E ai…

Não li o livro do qual o filme foi baseado. Como também ainda não li o livro de Virgínia Woolf, “Mrs. Dalloway” que faz parte do filme. Esse me motivou mais a ler. Então focarei o filme. E sem entrar muito na patologia da escritora por não ser a minha praia. O filme mostra um dia ímpar na vida de algumas pessoas. Com ela, Virgínia Woolf, escrevendo os esboços de mais um livro. Que viria a ser seu último trabalho. Como também, anos depois (Em 1951 e em 2001; nos EUA.), vidas alteradas em alguns dos leitores desse mesmo livro. Um dia que ficará marcado para sempre.

O que me cativou de pronto foi o lance dela ficar buscando uma frase para então iniciar o texto. Sem nenhuma pretensão nessa comparação, lhes digo que eu era assim. Para qualquer texto que escrevia, mesmo para uma redação na escola, buscava por uma frase para iniciar. Após encontrá-la, o texto fluía naturalmente.

Nicole Kidman faz a Virgínia Woolf. Confesso a vocês que não a reconheci de imediato. Só fui mesmo notar quando outra pessoa comentou. Parabéns pela performance e pelo visual!

Virgínia após encontrar a frase “Eu adoro flores!” pensa no rumo que dará aos personagens. Sua intenção inicial era matar a protagonista. Sua inquietude também por conta de sua doença a faz parar por algumas horas e olhar o mundinho que a cerca. De onde se deprime por saber que está presa ao seu problema. Gostaria que mais do que drogarem-na que os médicos encontrassem uma solução. Durante esse correr do dia, constata que sua casa funciona sem ela, pois as criadas tomam as decisões que deveriam vir dela. Talvez, numa de punir, faz a empregada ir comprar gengibre em Londres.

Depois com a visita da irmã com os sobrinhos capta mais coisas. Visita essa que por terem chegado antes da hora irrita o marido (Stephen Dillane). A irmã (Miranda Richardson) lhe diz que é uma privilegiada, por poder viver duas vidas: a real e a dos livros. Mas Virgínia queria mesmo viver outra vida. Até da irmã, já seria bem-vinda. E por conta de um cerimonial junto com a sobrinha para um pássaro à beira da morte, reflete mais, mas agora também sobre a sua vida real.

Uma das passagens mais tocante é dela com o marido na estação de trem. (Algo sadio em qualquer relacionamento: o de discutir a relação.). O que cada um fala para o outro. Mas que deixou uma pergunta: “Será que ambos ouviram o que o outro dizia de fato?” Claro que eles tentaram. (Atualmente, eu diria que num caso semelhante precisariam da ajuda de um profissional.). Mas diante do quadro clínico dela e por Leonard ser meio avesso às mudanças repentinas, não houve o acesso até ela. Mesmo havendo amor entre eles, um não conseguia satisfazer o outro. Numa parte, quando ela diz estar entediada ali naquele lugar, ele lhe diz que ela sentia o mesmo na agitação da capital. Ele bem que tentou dentro do limite dele, do jeito dele, fez o que julgava estar certo e por amor a ela. Mais uma vez estava disposto a mudar a si próprio por ela. Mas não era isso que ela queria. Virgínia queria não apenas libertar-se, como também não manter ninguém preso a ela. E eles não se entenderam; não chegaram a um acordo em comum.

As outras duas histórias mesmo passadas em anos diferentes irão se unir de fato nesse único dia. Não! Não se trata de nenhuma viagem no tempo. Vendo o filme irão entender melhor. Por hora vou tentar contar sem estragar a surpresa de quem ainda não viu esse filme.

Laura Brown (Julianne Moore) leva a vida de uma dona de casa padrão. Casada. Mãe de um menino e encontra-se grávida de outro. No dia do aniversário do seu marido, Dan (John C. Reilly), algo acontece que a faz mudar radicalmente a sua vida. Pontua essa decisão não apenas a história do livro, mas a conversa com a amiga Kitty (Toni Collette). Essa, por estar na iminência de não mais poder gerar um filho considera a amiga uma privilegiada. Mas essa não é a vida que Laura queria levar. Ela queria libertar-se. Mas como sair daquela engrenagem? O que seria do seu garotinho? Certo ou errado, Laura segiu com a sua decisão.

Passados mais alguns anos, conhecemos Clarissa Vaughan (Meryl Streep) que como na manhã da história do livro sai para comprar flores. Também irá dar uma festa. Seu grande e inestimável amigo Richard (Ed Harris) ganhara um prêmio. Prêmio esse que o colocava na lista dos grandes poetas. Mas que para ele viera mesmo por ele se declarar aidético. Clarissa já incorporara em seu dia-a-dia ir cuidar dele. Mas isso o deprime, achando ser um fardo para ela. Tal qual Virgínia com o marido, ele também se desgosta em precisar desses cuidados. Richard a ama demais para mantê-la presa a ele. Ela tem uma filha (Claire Daines), ela tem Sally (Allison Janney) como companheira. Tem também a sua própria vida.

Assim, ao final de um único dia, após fazerem um mergulho profundo dentro de si mesmo, após reverem seus fantasmas – “Ou seria seus piores pesadelos?” -, dormem o sono dos justos. Para alguns, um novo amanhecer surgirar. E por conta disso, mesmo sendo um clichezão, repito: “Enquanto há vida, há esperança!” Eu fico triste quando vejo um final com o fim de certos personagens. Triste, mas respeitando a decisão.

Esse entrou para a minha lista de que vale a pena rever, sempre! Filmaço! Nota máxima!

Por: Valéria Miguez.

As Horas (The Hours). 2002. EUA. Direção: Stephen Daldry. Elenco: Nicole Kdman, Meryl Streep, Julianne Moore, Ed Harris, John C. Relly, Claire Danes, Toni Collette, Miranda Richardson, Jeff Daniels, Stephen Dillane. Gênero: Drama. Duração: 114 minutos. Baseado no livro de Michael Cunningham.