Trem Noturno para Lisboa (Night Train to Lisbon. 2013)

trem-noturno-para-lisboa_2013trem-noturno-para-lisboa_2013_04Pensamento e ação unos. Assim eram os antigos romanos…

Sou apenas uma admiradora do legado de Jung. Com isso, é muito mais uma visão leiga do pensamento junguiano. Digo isso porque creio que esse filme é um belo exemplo de um de seus estudos. Já que ele traz uma sucessão de eventos cujo final trouxera significado para alguém. Eventos esses que de repente levou um certo professor a sair de sua rotina… Que levaria o nome de sincronicidade. Parece até que o primeiro sinal viera com a caixa de chá vazia. Um simples esquecimento bem casual a muitos, fez com que ele buscasse por uma solução bem fora do comum. O alerta mesmo que diminuto, já deixara o cérebro processando…

trem-noturno-para-lisboa_2013_01O verdadeiro cenógrafo da vida é o acaso, um cenógrafo repleto de crueldade, de compaixão, de fascinante encanto“.

Mas teria sido o acaso que levou aquele professor a passar naquela ponte justo a tempo de salvar aquela jovem de tentar se jogar lá do alto? Mais! Teria sido levado apenas por um impulso que o levou a fazer tudo mais a partir desse episódio? Fora de fato um sinal do destino? Essas são só algumas das reflexões que deixa desde o início e até mesmo pela conclusão de “Trem Noturno para Lisboa“.

As horas decisivas da vida, quando a direção dela muda para sempre, nem sempre são marcados por dramatismos ruidosos. Aliás, os momentos dramáticos das experiências que a alteram são frequentemente muitíssimo discretos. Quando exibem os seus efeitos revolucionários e se certificam que a vida é mostrada a uma nova luz, e fazem silenciosamente. E é nesse maravilhoso silêncio que está sua especial nobreza“.

trem-noturno-para-lisboa_2013_06Uma chuva… um pequeno atraso… eis que avista a jovem já de pé na amurada… corre… a pasta se abre espalhando os trabalhos de seus alunos… o guarda-chuva sai voando até o rio… mas ele então consegue salvá-la a tempo! A jovem em choque, talvez nem acreditando que tomara tal decisão, encontra nele um amparo imediato. Uma segurança para que pudesse concatenar seus próprios pensamentos. Daí segue-o até a sala de aula. Lá, até causa espanto aos alunos vê-lo com a jovem. Tentando não perder o foco, ele dá início a aula.

Deixamos algo de nós para trás ao deixar um lugar. Permanecemos lá, apesar de termos partido. E há coisas em nós que só reencontraremos ao voltar. Viajamos ao nosso encontro quando vamos a um lugar onde vivemos parte de nossa vida por mais breve que tenha sido.”

trem-noturno-para-lisboa_2013_03Passado um tempo, talvez já refeita do susto, ou nem tanto assim já que ao ir embora, a jovem esquece o casaco. Ele ainda tenta alcançá-la, mas ela se foi. Então, vasculhando os bolsos do mesmo, encontra um livro com o carimbo de uma livraria conhecida. Segue para lá, deixando seus alunos sozinhos. Causando espanto até no Diretor do Colégio… Bem, se aquele dia já o fizera sair de sua rotina… Era então seguir pela noite adentro. Que foi o que fez! Pois encontrando uma passagem de trem para Lisboa, e na tentativa de encontrar a tal jovem na estação… ela não estando lá… ele então embarca… E de Berna, Suíça, até Lisboa ele aproveita para ler o tal livro, cujo titulo era “Um Ourives das Palavras“. Apontamentos num diário de um jovem médico em constante ebulição com tudo que o cercava.

trem-noturno-para-lisboa_2013_07Quando a ditadura é um fato, a revolução é um dever“.

Para alguém já acostumado a dormir pouco, passar uma noite lendo seria tranquilo. Talvez até pegasse o trem de volta… Mas a história do livro lhe tocou tão profundamente que resolveu ficar em Lisboa e tentar conhecer os personagens daquele livro de memórias. Pelo menos parte deles que pelo contexto vivenciaram uma parte importante da história daquele país e culminando com a Revolução dos Cravos…

Se descer sobre nós a certeza de que essa plenitude nunca será concretizada, subitamente deixamos de saber viver o tempo que já não pode fazer parte da nossa vida“.

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Embarquemos junto com Jeremy Irons nessa comovente viagem com o seu Professor Raimund Gregorius. Que quase vira um menino levado até pela curiosidade, mas muito mais com o coração aberto que acaba descobrindo também mais de si próprio. Nem precisa dizer que ele está esplêndido! Aliás, o filme também conta com um time de primeira: Mélanie Laurent, Bruno Ganz, Lena Olin, Christopher Lee, Charlotte Rampling… Mesmo tendo como pano de fundo uma História real de Portugal – Ditadura de Salazar -, o Diretor Bille August deixa tudo fluir com um timing preciso entre passado e presente. Como nos versos do tal livro. Deixando até a vontade de ler o livro de Pascal Mercier o qual o filme foi inspirado. Filme para ver e rever! Cujo único senão foi que também deveria ter falas em português. Mesmo assim… Nota 10!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Trem Noturno para Lisboa (Night Train to Lisbon. 2013).
Ficha Técnica: na página no IMDb.

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Léo e Bia. (2010). A Radiografia de uma Época

Quem não pode atacar o argumento, ataca o argumentador.”

A frase acima dita no filme “Léo e Bia” meio que define não apenas toda a obra de Oswaldo Montenegro, mas também os seus fãs, em qual eu me incluo. Um artista que não teve medo de se mostrar por inteiro, em cantar em verso e prosa o seu lado romântico, de não ter sido um engajado ferrenho em plena ditadura, por ter sido um pequeno burguês como muitos de nós. Que sonhava com um mundo melhor em conversas com amigos. Alguém assim termina aos olhos de muitos se tornando um poeta maldito. Mas ele sorri para os críticos de um jeito sereno. Abstrai como uma religião essas pedras pelo caminho. E assim nos identificamos com ele.

Se tudo fosse claro, tudo nos pareceria inútil.”

Oswaldo Montenegro transpos a peça teatral homônima dos anos 80 para a tela do cinema. E o fez de modo magistral! Em “Léo e Bia” o teatro está ali, já que o filme todo se passa num único cenário. Onde quase não há objetos cênicos que me fizeram lembrar de “Pina“, de Wim Wenders. Sendo que nesse filme aqui, mesmo as cenas que saem do tal palco do teatro, são passadas escurecendo o entorno. Para quem assiste nota e não nota essa ausência de cenários porque a presença dos atores aliados ao roteiro e a trilha sonora prende a atenção até a cena final.

Quando você estiver triste, a gente vai fazer teatro, quando você estiver feliz, a gente vai fazer teatro e quando você estiver arrasado, a gente vai fazer teatro”.

Léo e Bia” está centrada num período marcante da História do Brasil. Ambientada na época da Ditadura. Início dos Anos 70. Onde um grupo de amigos usam o teatro também como uma catarse. Se sentem meio deslocados em Brasília. Uma cidade erguida meio que para se ter um poder central, ou o sentimento dele. São jovens nascidos ou levados para morar nela que buscam por uma identidade, e o fazem com essa paixão em comum pelas artes cênicas.

Lúcio Costa e Niemeyer resolveram o problema da pobreza no plano piloto varrendo todos os pobres para as cidades satélites.”

Nessas reuniões, mais que para apenas um laboratório para a peça que irão encenar, eles se desnudam interiormente. Não são jovens alienados, mas sabem que a melhor arma é se ajudarem mutuamente. Existe amor entre alguns deles, mas acima de tudo há a amizade, o companheirismo. Alguns são mais abastados, outros mais humildes.

A ditadura acha que protege, mas na verdade ela tortura.”

O filme aborda o contexto político da época, mas mostrando que muita das vezes ela está dentro de casa. A personagem Bia sofre até fisicamente toda a opressão vinda da própria mãe, mas não se rebela por pena. Como também se sente presa pela forte cobrança que a mãe sempre faz. Já um outro personagem, o Cabelo, sofre pela homofobia tão repressora na época. Mas que ainda é forte atualmente. Também mostra que não se pode transar livremente, ou impunimente. Até porque o peso recairá na mulher. É a gravidez não planejada. Um outro tema tem a ver com as drogas. Até onde ela aprisiona a pessoa.

O povo é burro”. / “O povo é vítima”.

Os jovens estão encenando uma história que faz um paralelo entre Jesus Cristo e Lampião. Política e Religião sempre andam juntas, mas quando uma começa a perder terreno, não medirá esforço para recuperá-lo. “Antonio Conselheiro” que o diga! Não fazem de Lampião um herói, mas um produto do meio. A encrenca maior que arrumam será com a “dona Censura“. Que me fez lembrar do nome “Solange” na assinatura do documento exibido antes de cada filme na época.

Brasília lá em baixo, …era mais do que toda a possibilidade de vôo. Eu sentia a dor que o Léo tava sentindo… Eu amava o Léo. …todo mundo sabia… O Rio me assustava …mas até ter medo era novo. A gente tinha um tédio …de tudo. E aí percebi que seria diretora e protagonista do filme da minha vida. …não ia permitir que nenhum patrocinador influísse… Começou …e ele não é bom nem mal… Mesmo que doa, é o nosso filme! …conduziríamos o barco… o caminho era mais lindo que o barco… Valeu Brasília! Já fomos!

Mesmo ainda muito jovens, eles sentem quando chega a hora de cortarem o cordão umbilical para ir ao encontro do sonho maior: viver do teatro. E aí é hora de saber quem irá carimbar esse passaporte para a felicidade. Saber quem está preso a outros compromissos, outras responsabilidades. É o amadurecimento advindo da tristeza para uns. A dor de não poder ser livre. De não poder ser o protagonista da própria história de vida.

São sete bichos / Sete regras do jogo / Sete provas de fogo / Para a lógica de cada um / São sete mundos / Pelo mesmo planeta / A mesma bola na roleta / E apostando no número um / São sete dores e sorrisos em jogo / Apostando sete corpos em ponto comum / Observando na mesma estação / Os anjos e demônios de cada um.”

E quem são esses sete amigos de “Léo e Bia“?
Léo é o líder do grupo. Adora estimular a todos para que ponham em xeque suas emoções confrontando com o lado racional. Muito criativo, partindo dele as ideias para a peça. Um crítico da realidade, sem perder o lado terno. Tem um ponto fraco: é apaixonado por Bia.
Bia se encontra emocionalmente frágil. Totalmente submissa a mãe. Contida em seus sentimentos até por medo de expor o ódio que sente às vezes pela própria mãe. O que a faz passar por um momento muito sensível. Sabe que terá que escolher entre o amor de Léo ou cuidar da mãe.
Marina é um jorro de otimismo. Mas bem equilibrada. De essência solidária. Mas bem racional. Ufanista. E apaixonada por Léo.
Encrenca é o brincalhão do grupo. Contestador. Adora fazer citações, o que o deixa como um clichê-ambulante. Mesmo que aparenta ser um cara imaturo, será o apoio de uma amiga.
Cabelo é o que veio da cidade-satélite. Por esforço próprio se fez um cara culto. Poliglota. Boa pinta. Elegante até nas atitudes. Sensível, sofre por ter que esconder a sua homossexualidade por causa das reações das pessoas. Só diante dos amigos se pode mostrar por inteiro. Um sonho maior: Paris.
Cachorrinha é a mais animada do grupo. Pelos termos da época: Porraloka. Meiga. Ingênua. Riponga só no exterior, pois ama o conforto da cidade grande. Por acreditar piamente no namorado, irá entrar numa fria.
Brook é o mais rico da turma, ou melhor, o único. Um típico filhinho de papai. Daí, um tanto e quanto inconsequente. Boa gente, mas sem correr risco por alguém. Como também não pesar os contras daquilo que faz. Namora a Cachorrinha.

Ditadura não tem a ver com sexo, tem a ver com estupro.”

A Trilha Sonora é sensacional! Além das cantadas em cena, as de fundo contam com algumas participações como Ney Matogrosso, Zélia Duncan, Zé Ramalho, Sandra de Sá, Paulinho Moska. Um coadjuvante de peso que juntamente com o elenco afinado e afiado contam, cantam e encantam a história de uma época, que literalmente curta no contexto – 1973 -, marcou profundamente esses jovens. O filme foi baseado em alguns personagens reais. Tudo isso é contado com humor leve, mas por vezes apimentado. E que prende a atenção do começo ao fim. Para uma atualidade mais individualista, é altamente recomendado. Enfim um filme de querer rever! Que eu assisti pelo Canal Brasil.
Nota Máxima!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

LÉO E BIA. 2010. Brasil. Direção e Roteiro: Oswaldo Montenegro. Elenco: Paloma Duarte (Marina), Emílio Dantas (Léo), Fernanda Nobre (Bia), Pedro Nercessian (Encrenca). Pedro Caetano (Cabelo), Françoise Forton (Mãe da Bia), Brookie (Ivan Mendes), Cachorrinha (Vitória Frate). Gênero: Comédia, Drama, Romance, Musical. Duração: 95 minutos. Classificação: Não recomendado para menores de 12 anos. Trilha Sonora: Oswaldo Montenegro.

O Ditador (The Dictator. 2012)

Sacha Baron Cohen! Esse nome trouxe algo um tanto inédito nos últimos tempos: o de “Ame-o ou deixe-o!”. Por causa dos seus filmes. Para um público internacional o peso disso surgiu com o seu “Borat“. Continuando em “Bruno“. Personagens e tramas marcantes e controversos. Agora, não sei se para conquistar um novo público, e quiça uma nova legião de fãs, que temos em “O Ditador” um filme mais comerciável. Diria mais: mais mastigado. O que pode não agradar seus fãs mais puristas. O que seria uma pena! Até por mostrar que mesmo gostando muito de seus personagens não precisa ser tão radical. Os personagens de Sacha mesclam entre um ar patético dos de Jerry Lewis com o humor displicentemente ferino dos do grupo Monty Python. Só que exagerando na dose.

Se Chaplin nos emociona até hoje com seu discurso de o seu “O Grande Ditador” (1940), creiam, “O Ditador” de Sacha, o General Aladeen, nos leva a chorar com o seu discurso na ONU, mas chorar de rir. Só essa cena – texto + performance -, já vale ter visto o filme. E mais! Deixando até uma vontade de rever. Sem tirar a surpresa de todo: o General Aladeen mostra a “diferença” entre uma Ditadura do Oriente Médio e uma Democracia como a dos Estados Unidos. A cara que ele faz dá um peso maior ao que discursa. Diria que é cruelmente hilário!

Sem as cenas escatológicas dos seus dois filmes anteriores citados, e que também foram dirigidos por Larry Charles, “O Ditador” mete o dedão na ferida do jogo político que há entre países ricos: a disputa não pelo poder maior, mas sim em se manter nele. Porque é um poço sem fim de lucros advindos das comissões em grandes transações. Muitas tendo até como fachada: fins humanitários.

Para o público “virgem” se ao assistir o filme focar nesse tipo de mensagem já terá percorrido meio caminho para se tornar fã desse ator. Do tipo de humor do Sacha. Como também para curtir esse filme por um todo. Se divertir com o seu General Aladeen. E quem seria ele? Aladeen não passa de um meninão riquíssimo, mimado, que leva uma vida nabanesca, se achando o maioral em ser um ditador sanguinário da República de Wadiya. Mas que acima de tudo: tem muita sorte em sair ileso dos inúmeros atentados. Tem como braço-direito Tamir; personagem do também sempre ótimo, Ben Kingsley.

Tudo seguia seu rumo em Wadiya, quando Aladeen é persuadido a comparecer na ONU para dizer que não está fazendo armas nucleares com fins militares. É quando descobre que morto será o tesouro dos “Quarenta Ladrões”. Assim, escapando de mais um atentado, numa engraçada cena com a participação do também ótimo John C. Reilly, Aladeen se vê perdido numa terra inóspita. Para ele, é claro! Já que se encontra em plena Nova Iorque.

“O Rei está nu!” Despido até do seu poder, Aladeen chama a atenção de uma jovem com jeitinho moleque. Ela é a dona de um Empório de produtos naturais, sem agrotóxicos. Vegan convicta. Uma Pacifista meia ferrenha. Mas uma empresária que não sabe bem gerenciar os empregados da loja. Pois até à frente de uma loja há de se ter um respeito a hierarquia. Ela é Zoey, personagem de Anna Faris. Aladeen que até então pagava, e muito bem, para prazeres carnais momentâneos, desconhece a atração que começa a sentir por essa mulher com aparência de um menino. Como também fará novas descobertas, até em saber que a arte em comandar não precisa passar por distribuir tesouros.

O filme traz a grosso modo uma radiografia do capitalismo versus o socialismo, mas mais pelo radicalismo dos e nos posicionamentos. Agora, sem esquecer de que essa reflexão mais séria vem com a cara/marca do Sacha. O que me leva a continuar fã desse ator, sem ser xiita.

Então é isso! Um filme para os já fãs e os que ainda não são. Pois terão também em “O Ditador” um humor escrachado. Com quase liberdade total. Onde o “quase” vem pelo fato de que em vez de ter a religião que estaria mais de acordo com a região, Sacha, até para continuar livre e vivo para novos filmes, prefere cutucar os judeus. Safo, não!? No mais, há participações especiais que complementam a trama de um ótimo filme!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

O Ditador (The Dictator. 2012). EUA. Diretor: Larry Charles. Roteiro: Sacha Baron Cohen, Alec Berg, David Mandel, Jeff Schaffer. +Elenco. Gênero: Comédia. Duração: 94 minutos. Classificação: 14 anos.

Raul Seixas: O início, o fim e o meio (Raul Seixas, 2012)

É o melhor documentário já feito sobre a vida de uma pessoa pública. Saí do cinema sabendo sobre a vida do artista, entendendo o que eu pensava que já sabia antes e, azar o meu, se o filme não me fez compreender o que antes já era incompreendido: O que afinal caracteriza os geniais? A loucura? O inusitado? O Brasil abriga um incontável amontoado de talentos, alguns geniais, no entanto inverter a trajetória do nosso cometa, não depende de nós… Como brinde, o filme oferece muitas imagens bacanas, personagens e personalidades que fizeram parte da vida do compositor. O documentário passeia pela ditadura, tropicalismo, festivais. Raul Seixas não viveu, aconteceu! Colocou imagens e coração numa trilha sonora que já veio com ele, uma cena rock’n rol de 44 anos de duração. Raul em essência era sua própria sua música concreta nas melodias que embalam nossa realidade.
Era uma vez um homem, suas muitas mulheres e muitos vícios que se lhe deram prazer, afastaram-no da felicidade, essa felicidade careta que muitas vezes fazem nossos sonhos existirem por mais tempo. O vício em “todo tipo de droga, menos maconha  –  que de maconha ele não gostava” – com ênfase no álcool era a trilha para o final da linha para os romances de Raul, menos um: o seu  primeiro casamento com Edith, a namorada de adolescência . Esta, ao ser “abandonada” enquanto Raul ia ali até Brasília ficar com Glória, a irmã do seu guitarrista, foi embora, voltou para o seu país, levando a filha do casal e nunca mais esta família voltaria a se reunir. Raul passou a vida remoendo tristeza e arrependimento por este ato, por esta perda.

Ninguém conseguia acompanhá-lo nas suas intensidades ‘tóxicossociais’, nem mesmo o guru satânico que depois viraria mago, não sem antes lhe apresentar às maldições nas suas mais variadas formas. Fiquei a pensar na generosidade desse baiano magrelo que ensinou “o mago” a fazer letras de música e em troca, com ele aprendeu a se decompor biodegradavelmente em frascos e ácidos.

Raul era doce, duas de suas antigas esposas afirmam que ele tinha um cheiro doce. Uma fala de forma romântica a outra, objetivamente atribui o cheiro e o sabor à diabetes do músico. É fato que aquele homem nem tão belo assim, muito magro, cabeludo e bastante doido era tão verdadeiro no seu sentimento, que conseguia manter consensualmente romances simultâneos com suas “atuais” e “ex”. Nesses depoimentos  a platéia se acabava de rir… da situação dos triângulos amorosos consentidos pelas partes envolvidas. Como a caretice é prejudicial à felicidade que aparentemente preserva…

O documentário é muito comovente, rodado entre Bahia, Rio, São Paulo, Estados Unidos, Genebra. A equipe fez o trajeto da diáspora  Raulseixista. Mostra o fã dono do mítico baú e suas preciosas relíquias, que  se tornou amigo do astro, carregando-o embriagado quando era preciso sem perder a admiração. Descobrimos que o “Trem das Sete” teve uma dona e  hoje  é de todo aquele que acredita que amor, atestado de garantia e certificado de posse são as mesmas coisas…

Raul tem um neto que é sua xerox, mas o moleque mora no exterior e não falou sobre o avô, que pena. A filha mais velha tem mágoa do pai, não gravou depoimento, mas escreveu uma carta; a segunda filha é uma gracinha, mas é a filha “brasileira do Brasil” – as outras moram na América do Norte – que dá show de orgulho de ser filha do maluco beleza. Viu como o documentário é bom? É como uma reunião de amigos, parentes e agregados em torno da figura do mito tão trágico quanto divertido.

Saí do cinema aliviada com as palavras do Marcelo Nova: “Ele fez 50 shows! Morreu fazendo o que gostava, cantando! Não morreu esquecido, nem anônimo num quarto escuro”. Marcelo Nova: Parabéns! Obrigada! Mas e agora o que eu faço com a sensação de que não devo ser tão genial quanto pareço, porque não sei ir tão fundo naquilo que dá celebridade aos imortais? Ser careta é meu atestado de mediocridade? Fiquei me sentindo uma roqueira de subúrbio. Daquelas que assistem ao show pela TV da barraquinha de hot dog atrás do Madureira Shopping, que antes de sair de casa lava e passa a camiseta preta com frases em inglês… Se você entendeu que a celebridade dos imortais está nas drogas, esclareço:  O que dá celebridade aos geniais, é a coragem. Coragem de se arriscar e até de perder. Perder afeto, mulheres, a convivência com os filhos, ver os amigos virarem-lhe a cara e negar-lhe oportunidades. Por mais que digam que a vida é escolha, acredito que para escolher há que se ter opções e, onde estão elas quando não vemos o que escolhemos? O esforço pra ser “um sujeito normal e fazer tudo igual“ não é escolha. Aprender a ser louco é dom! Somos apenas criaturas seguindo o caminho que os olhos enxergam. Cumprimos nosso destino.

Com Claudio Roberto – Paulo Coelho – Marcelo Nova

Era destino de Raul seguir sua carência, se entristecer a vida inteira por um ato que não resultou no que ele possa ter imaginado. Sua incapacidade de viver só, sua pancreatite regada pelo álcool que ele nunca conseguiu deixar, ainda que tivesse conseguido parar com as drogas ilícitas. Sua falta de vontade de viver e a falta de crédito para que voltasse a gravar definharam sua saúde, mas nada disso se compara ao vigor da sua obra eternizada, passando de geração em geração ainda que muitas das suas mensagens não sejam imediatamente captadas, são seladas, carimbadas, se pra gente voar. O destino de Raul foi ganhar essa legião de tipos, diferentes dele e entre si. Em comum os olhos úmidos na saída do cinema, porque a gente viveu ao menos pelo tempo de uma música,  Raulzitamente.
Ah, a mim pareceu que e o Paulo Coelho matou a única mosca de Genebra…

A Casa dos Espíritos (The House of the Spirits. 1993)

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A Casa dos Espíritos – The House of the Spirits

Direção: Billie August

Gênero: Drama

EUA – 1993

A Casa dos Espíritos nem de longe se refere a fantasmas de outro mundo que morreram e ficaram presos na mansão assombrada… Boooooooooooooooooooo! Entendo “Espírito” num sentido Filosófico do termo. Para a Filosofia Hegeliana, o Espírito é o retorno da idéia (princípio inteligível da realidade) para si mesma. Assim que vejo essa obra: um filme magnífico que retrata a história Política do Chile sob o olhar da família Trueba na narrativa consciente da filha Blanca (Winona Ryder).

Com um elenco fenomenal, que reuniu Meryl Streep, Jeremy Irons, Winona Ryder, Glenn Close, Antonio Banderas, Vanessa Redgrave e Maria Conchita Alonso, a trama se desenrola do macro para o microssocial; aquilo que se externa na sociedade e influencia o interior de uma família e vice-versa.

Seria uma família bastante comum praquela época se não fosse o poder e a personalidade da mãe Clara (Meryl Streep): infinitamente tranquila e de um semblante tão sereno que em certas cenas parece Maria (mãe de Jesus) ou o que pintam dela. Clara consegue unir aqueles que estão pra sempre separados, consegue acalmar e dar paz para a agitação política de seu marido e suas controversas atitudes. Seu nome foi bem escolhido, dá um tom de transparência, sinceridade, leveza. O mesmo ocorre com Blanca, sua filha?

Enquanto Clara está viva, existe uma organização familiar aparentemente Patriarcal mas que é maestrada pelo silêncio e voz calma da Matriarca. Quando ela morre, seu espírito (as recordações das pessoas que a cercaram) ronda aquela família que se desestrutura passo-a-passo.

Percebe-se que aquela mãe era o verdadeiro pilar de tudo, mesmo considerada erroneamente como frágil e fraca.

As pessoas tendem a considerar como fraqueza aquilo que é sereno e tranquilo. Ao contrário, pessoas assim são de uma força interior gigantesca. Meryl Streep está deslumbrante nesse papel, uma mãe IDEAL, uma esposa IDEAL, uma cunhada IDEAL, uma amiga IDEAL, uma patroa também IDEAL. Todos os papéis sociais de uma mulher ela o representa como aquilo que é idealizado pela maioria. Longe de ser passiva, age com passividade e amor. Amarra com fios de cobre toda a trama.

Um filme pra ser visto e revisto.

Por: Vampira Olímpia.

CHE – O Argentino

che-o-argentinoEm seu segundo trabalho realizado com o ator Benicio Del Toro, (O primeiro foi o ja bastante conhecido TRAFFIC, que inclusive rendeu o Oscar de diretor ao próprio e o de Ator coadjuvante para Benicio, além de outros 2 Oscars na categoria Edição e Roteiro Adaptado) o diretor Steven Soderbergh apresenta um filme que não necessariamente é uma biografia sobre a vida e morte de Ernesto Guevara mas tão somente o período que abrange desde a concepção do plano revolucionário que se iniciou no México… o médico que se torna “porta-voz” de uma revolução e um ícone que perdura até hoje… a chegada dos rebeldes a Cuba por mar em 1956, e uma grande seção é dedicada a três anos de combates nas selvas da Sierra Maestra, até o “xeque-mate”, que foi a vitória em Santa Clara, em 1959.

Concebido inicialmente como um épico de 4h28 de duração, dividido em 2 atos, o filme foi apresentado na mostra de Cannes como um filme único de cerca de 2h de duração. E assim ele chegou por aqui.

A abertura é enfadonha pois se estende por 3 longos minutos mostrando a bandeira da Ilha de Cuba e suas divisões e na sequência da espaço a uma montagem confusa que misturam o ano de 57 e 64. Interessante destacar que o diretor optou por realizar toda a sequência de 1964 em preto e branco. Nesse período é retratada a presença de Che nas Nações Unidas, em Nova Iorque, seu encontro com o então senador, McCarthy. Essa passagem dá um realismo interessante pois faz referencias as imagens que se tem registro de discursos de Guevara, também em preto e branco.

Passada essa confusão inicial de montagem brusca o filme se encontra e acerta no ritmo e não se estende mais do que deve nem se torna cansativo como pode-se até se esperar.

O filme não toma partido de HERÓIS ou VILÕES e nem esmiuça a sua vida pós CUBA, como suas visitas a outros países da América Latina (Onde sua grande pretensão era espalhar a revolução armada por toda ela.) e tão pouco sua ida a países africanos. Muito menos sua morte pós captura. O filme é enxuto e não soa pretensioso justamente por não se alongar em questões foras do contexto da historia por ele narrada.

Verborragias e discursos prolixos sobre o tema a parte, é um filme que consegue falar num ícone bem conhecido de nós, latinos, sem o seu endeusamento e por isso mesmo acho válido. O filme não se prende nem em detalhes menores como Aelida (Catalina Sandino Morena), um mensageiro que acabaria por se tornar a mulher de Guevara e que no filme faz uma breve – apesar de importante – aparição.

Para concluir… parafraseando o próprio:

“PÁTRIA OU MORTE!”

Hehehe

NOTA 7.0

Esqueci de frisar algo que achei muito interessante porque dá um toque de veracidade a mais ao filme. Ele é todo falado em castelhano ao invés do sempre clichê inglês.

Por: Korben Dallas.

Che – O Argentino (The Argentine). 2008. Espanha. Direção: Steven Soderbergh. Elenco: Benicio Del Toro (Che Guevara), Demián Bichir (Fidel Castro), Catalina Sandino Moreno, Franka Potente, Rodrigo Santoro (Raul Castro), Benjamin Bratt (Ente). Gênero: Biografia, Drama, História, Guerra. Duração: 126 minutos. Baseado no livro ‘Reminiscências da Guerra Revolucionária Cubana’, de Che Guevara.