San Francisco 2.0. Um progresso que exclui a base da pirâmide social

sao-francisco-2-ponto-0_documentario_2015sao-francisco-2-ponto-0_04Por: Valéria Miguez (LELLA).
O DocumentárioSan Francisco 2.0” (2015), de Alexandra Pelosi, retrata aquela que já foi um importante centro cultural do país, de raízes livres e anti-materialista, vivenciando uma “guerra de classes” por um progresso que exclui do caminho a base da pirâmide social e de um jeito avassalador. O que por sua vez é um retrato do que está ocorrendo no mundo onde as “parcerias” entre entidades particulares e governos visam “agradar” o topo da pirâmide social. Gerando os “apartheids” da era do mercado de capital…

Da capital mundial da contra-cultura à capital mundial das TI

sao-francisco-2-ponto-0_01Quando uma maioria jovem e rica do Vale do Silício transformaram São Francisco numa “cidade dormitório”, o mercado de capital e a Prefeitura se uniram para atrair essa indústria de ponta… Redução de impostos e um local para que essas empresas – das grandes às incubadoras – se instalassem… Assim a “San Francisco 2.0” surgiu e no que seria o “lado pobre” da cidade: o “mais fácil” de ser removido…

Os jovens tech bros usam San Francisco como seu playground, eles não estão olhando para ela como sua comunidade.

Não obstante! Além do aumento do custo de vida – dos alimentos as moradias… as construções de prédios, condomínios de luxos… também descaracterizavam a arquitetura típica local… Como também, por serem de uma imensa maioria de jovens – sem crianças e idosos – por serem adeptos de uma cultura voltada essencialmente para a internet… Consumismo… Apps para “facilitar” o dia a dia… O sonho de se tornarem milionários com suas invenções tecnológicas… O capital sem se preocupar com a base da pirâmide social.

As cidades precisam se reinventar para permanecerem vivas. A questão é: professores, bombeiros, policiais… poderão ficar nelas onde viveram por gerações? Eles estão sendo expulsos de suas comunidades.

Essencialmente político, Alexandra Pelosi mostra os prós e os contras dessa “modernidade” em São Francisco: a gentrificação em alta escala. De que o mesmo fluxo para “agradar” aos mais ricos não é nem de longe o mesmo até para os que foram expulsos de suas moradias… Sem planos para a comunidade local acaba fazendo a cidade perder a sua própria identidade…

É! O mundo parece caminhar para tornar inacessível as classes C, D e E de morarem nas grandes cidades. É o mundo do mercado de capital aumentando a desigualdade social…

sao-francisco-2-ponto-0_02San Francisco está mostrando a nova economia mundial. É por isso que devemos prestar atenção a San Francisco.

Enfim, o Documentário “São Francisco 2.0” até por deixar uma sensação de que há muito mais por vir… Nos deixa de que mais do que escolher um lado estaria em tentar fazer a diferença na busca pelo meio termo desse “progresso” que chega nas grandes cidades.

Exibido pelo canal HBO Signature. Assistam! Nota 10.

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Então Morri (2016). Aparente simplicidade e assombrosa sabedoria

entao-morri_2016_bia-lessaPor Carlos Henry.
A ideia do filme de Bia Lessa e Dany Roland é contar a vida de um ser humano desde o primeiro dia de vida até o falecimento através de vários testemunhos. O tom da narrativa é documental com um toque de Eduardo Coutinho, importante colaborador deste trabalho que atravessou décadas desde sua ideia até sua finalização. Na tela desfilam personagens riquíssimos de aparente simplicidade e assombrosa sabedoria pinçados dos sertões e áreas mais carentes do Brasil. O panorama humano ali criado exibe um curioso sentido reverso à cronologia natural da linha da vida.

No início são exibidos vários funerais seguidos de depoimentos de pessoas muito idosas, jovens casadouras, adolescentes e crianças até chegar a um parto de um bebê que já havia sido doado antes de chegar ao mundo. As imagens são todas reais e recheadas de emoção com um humor peculiar que está quase sempre presente nas situações mais inusitadas. O que tenta unificar a história e contá-las como se fossem uma única existência é a edição que, embora eficiente, poderia ser mais sensível para valorizar momentos impactantes e imagens raras de beleza crua.

entao-morri_2016O resultado é bastante satisfatório, combinando o grotesco e o onírico para narrar diversas vidas como se fosse uma só. Há uma senhora muito idosa que ainda diz coisas muito curiosas e coerentes no seu leito, a outra que não dispensa uma bebidinha cada vez que vai às compras, o padre que não aparece no animado casamento da roça, o dentista improvisado que sem camisa e sem luvas, arranca vários dentes de uma menina à força e finalmente o bebê que já nasce prometido, doado de forma abrupta por uma mãe sofrida e sem alternativas num desfecho que choca e emociona.

Um retrato belo e pungente de um grande pedaço do País que poucos conhecem e ousam desbravar.

Uma Noite em 67 (2010). E por que não?

O Canal Curta irá passar esse Documentário, “Uma Noite em 67”, hoje às 22 horas. Para quem ainda não assistiu, no qual me incluo, fica a dica!

Cinema é a minha praia!


Por: Roberto Vonnegut.
Há quarenta e tantos anos boa parte da população brasileira deixou de lado a dureza de viver na ditadura e se encantou pela estória de um rapaz que, oprimido por uma namorada que só pensava em casar, saiu pelas ruas pensando na vida e acabou descobrindo a alegria na liberdade. Transmitida ao vivo pela televisão, a estória foi contada por um narrador que com seu sorriso sedutor arrancou aplausos de uma plateia que no início não parecia disposta a um assunto tão frívolo para aquela época de passeatas e discussões politizadas.

Esta cena é um dos pontos altos do documentário Uma Noite em 67 que chegou aos cinemas: Caetano Veloso trouxe um conjunto argentino (Beat Boys) com guitarras elétricas a um festival de música popular brasileira- quase um sacrilégio na época. Tinha tudo para dar errado. Mas ao contar do rapaz com uma namorada monotônica (“se…

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Oscar 2016 – Apostando num Mundo Mais Justo, Sem Violência e Com Mais Igualdade Social!

oscar-2016_pontos-altosAntes mesmo da grande noite o Oscar 2016 levantou polêmica e de uma bandeira que pulou do ano anterior: o de não ter atores negros entre os finalistas. Verdadeiro! Onde até entendo o ato de boicotar o evento, mas… Vale lembrar que tendo uma chance de falar, mesmo que rapidamente, que será ouvido por milhões de pessoas. E foi o que fez Chris Rock aproveitando essa imensa platéia com o seu discurso na abertura do Oscar 2016. Que mesmo que ele tenha decorado o texto, deixou a impressão de não estar acreditando. Que estava livre para dizer tudo o que estava engasgado. Num quase receio de que a qualquer momento seria cortado. Ele falou bonito!

Com isso parecia que a Academia se redimia até pelo o do ano passado… Mas vale ressaltar que ela é a representante de mais de seis mil de eleitores. Que são eles com direito a voto que fazem as escolhas. Assim vieram deles o fato de não ter atores negros indicados nesse ano também. Agora, há também outros fatores. Um deles seria o peso da “divulgação” que alguns filmes recebem. Que por sua vez os levam a serem exibidos em muito mais salas. O que termina empurrando os demais para locais mais distantes, ou mesmo sendo exibidos em poucas salas… Que acaba diminuindo o público, logo de receberem mais votos.

Agora, bem que a Academia poderia divulgar após a festa da premiação, o número de votos de pelo menos os trinta mais votados… De qualquer forma há um outro e importante fator a ser considerado como bem disse Chris Rock: “O que a gente quer é oportunidade. Queremos que atores negros tenham as mesmas oportunidades. E não é só de vez em quando.” Bravo, Chris!

Assim, já desde o início o Oscar 2016 contou com discursos políticos, humanitários, sociais… Foram vozes a pedir um engajamento maior de toda a Sociedade!

Como o do Diretor de “A Grande Aposta“, Adam McKay, que levou o Oscar de Roteiro Adaptado. Lembrando ainda que o filme falou sobre uma tragédia que deixou milhões de pessoas sem casas e emprego… McKay aproveitou para pedir que deem um basta a isso! Que não votassem em candidatos comprometidos com Wall Street… E de quebra nem em milionários “esquisitos”… Um discurso que também cai como luva aqui no Brasil em relação aos golpistas… Bravo, McKay!

O Filme “Mad Max: Estrada da Fúria” saiu-se o grande vitorioso da noite com seis estatuetas – Figurino, Design de Produção, Maquiagem e Cabelo, Montagem, Edição de Som e Mixagem – que mesmo que sejam considerados técnicos, foram merecidos! Até porque na listagem dos finalistas faltaram principalmente o do Diretor George Miller, pelo excelente trabalho, e o da atriz Charlize Theron, pela sua magistral performance. Bem, mesmo tendo sido injustiçado em algumas categorias… Jenny Beavan, que levou o prêmio de Figurino, deixou também um importante seu recado! Em relação aos cuidados com a poluição da nossa atmosfera, e para que todos sejam mais gentis uns com os outros! Valeu, Jenny! O mundo está precisando muito disso: mais amor, menos ódio!

Um outro grande momento do Oscar 2016… Primeiro veio por quem apresentou uma das canções concorrentes… Alguém de peso! Não apenas por ser ele o vice presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, mas por se tratar de uma bandeira dele e desde quando ainda um Senador: quando então criou uma Lei contra a violência com as mulheres. Biden num discurso em tom ameno conclamou a toda a sociedade a abraçarem essa causa! Assim como a também tentarem mudar toda uma cultura machista! Great!

Uma expressiva apresentação pois a canção “Til It Happens To You” pertencia ao Documentário “The Hunting Ground“. Um filme que fala dos estupros em campus universitários americanos. Que também mostra que as direções dessas instituições se preocupavam mais em encobrir o fato em si. Além dos depoimentos, e até por eles, as vítimas além da violência sofrida, lutam por justiça e pelo direito de estudarem em paz. “Til It Happens To You” foi escrita e interpretada por Lady Gaga, cuja a apresentação contou com a presença de vítimas de violência sexual. Bem, a canção não levou a estatueta… Agora, por certo emocionou! Além de dar voz a essas pessoas! Bravo, Lady Gaga!

Ainda dentro deste triste contexto… O “A Girl in the River: The Price of Forgiveness“, ganhador como Documentário de Curta-Metragem. Ele conta a história de uma jovem que se apaixonou e ao tentar fugir enfrentou a “lei em nome da honra”… Por sorte sobreviveu e com coragem para contar essa história ao mundo. Até para mostrar a de centenas de mulheres que são mortas anualmente por essa mesma “lei”. Em seu discurso, a Cineasta Sharmeen Obaid-Chinoy disse que após assistir ao filme, o Primeiro Ministro do Paquistão decidiu mudar a lei que mata mulheres em nome da honra; além de exaltar aos homens que incentivam as mulheres a estudarem, em terem profissões… É! É tentar mudar um comportamento machista! Bravo!

Também teve o do Diretor Asif Kapadia pelo Documentário ganhador da estatueta: “Amy“. Uma obra que disseca com raro discernimento as dificuldades que Amy Winehouse enfrentou no decorrer da vida. Ao receber o prêmio Kapadia diz que quis mostrar ao mundo não aquela menina dos tabloides, mas sim a bela menina: inteligente, espirituosa, talentosíssima… A menina que silenciosamente pedia por cuidados… Ainda não vi o filme, mas já se mostra um respeito nessa homenagem!

Chegando então no grande esperado da noite… “O Regresso” além do prêmio de Fotografia, deu novamente o de Direção para Alejandro G. Iñarritu! Que seguiu também por um discurso que espera por mudanças: “Tem uma fala no filme em que Glass (DiCaprio) diz para seu filho mestiço: ‘Eles não te escutam, apenas veem a cor da sua pele’. Então, que maravilhosa oportunidade nossa geração tem de nos libertar de todo preconceito e nos assegurar de uma vez por todas que a cor da pele seja tão irrelevante quanto o tamanho do nosso cabelo“. E mesmo que esperado o de Ator para Leonardo DiCaprio… Este, que até fora mencionado no discurso de Chris Rock… DiCaprio também deixou o seu recado: “A mudança climática é real. Está acontecendo agora. É a ameaça mais urgente… precisamos trabalhar coletivamente e parar de procrastinar. Precisamos apoiar os líderes do mundo todo que não falam pelos grandes poluidores e grandes corporações, mas que falam por toda a humanidade. E por bilhões de pessoas que serão as mais afetadas pela ganância política.” Bravo para Iñarritu e DiCaprio!

Mas o prêmio maior foi para “Spotlight: Segredos Revelados” que além deste, o de Filme, levou também o de Roteiro Original. Sendo que na premiação máxima, para mim competia mesmo com o “O Regresso“, já que não acreditei mesmo que “A Grande Aposta” levaria esse prêmio, como citei aqui. Bem, de qualquer forma estava bem cotado! Lembrando que o filme retrata uma investigação jornalística sobre crimes de pedofilia praticados por padres… “Spotlight: Segredos Revelados” não deixa de ser algo relevante… Mas de 2002 para cá… Há o Papa Francisco! Um Papa que, diferente dos antecessores, não esconde para debaixo do tapete os erros da Igreja Católica… De qualquer maneira, foi válido o pedido feito por um dos produtores do filme: “Esse filme deu voz aos sobreviventes e este Oscar amplificou esta voz, que esperamos que se torne um coro que vai ressoar até o Vaticano. Papa Francisco, está na hora de proteger nossas crianças e restaurar a fé.“. Pedofilia é algo sério, por demais! Que reforça a premiação!

E entre outros mais discurso… Ressalto também o de Sam Smith ganhador de Canção OriginalWriting’s On The Wall“, do filme “007 contra Spectre“: “Quero dedicar este prêmio à comunidade LGBT de todo o mundo. Estou aqui esta noite como um homem gay orgulhoso e espero que um dia possamos estar todos juntos como iguais”. Um discurso mais do que apropriado até porque o homossexualismo ainda hoje além de sofrerem por um forte preconceito, é até criminalizado em certas culturas. Bravo, Sam!

Assim, que bom que todo o glamour da entrega do Oscar permaneça mais no Tapete Vermelho… Que mais uma vez alguns dos premiados não ficaram só nos agradecimentos usuais… Usando o tempo e o imenso público com discursos onde abraçaram por causas maiores: de caráter social, humanitário, político, ecológico… Enfim, além de ter dado vez e voz ao Chris Rock com a causa racial, o Oscar 2016 conclamou a todos por mudanças de posturas, por uma consciência pela coletividade, para irem além do próprio umbigo. Com isso, um “Oscar goes to” para todos eles! Great!

Curiosidade: Além das premiações mencionadas, também ganharam o Oscar 2016:
– Atriz: Brie Larson, “O Quarto de Jack”
– Atriz Coadjuvante: Alicia Vikander, “A Garota Dinamarquesa”
– Ator Coadjuvante: Mark Rylance, “Ponte dos Espiões”
– Trilha Sonora Original: “Os Oito Odiados” (Ennio Morricone)
– Efeitos Visuais: “Ex Machina”
– Animação: “Divertida Mente”
– Curta de Animação: “Bear Story”
– Curta-Metragem: “Stutterer”
– Filme Estrangeiro: “O Filho de Saul” (Hungria)

Um Panorama do Festival do Rio 2015 – parte II

os-irmaos-lobo_2015Por: Carlos Henry.
OS IRMÃOS LOBO” (The Wolfpack) de Crystal Moselle é um documentário que narra a bizarra saga de sete crianças que crescem presas num apartamento imundo e decadente em Manhattan. O único contato com o exterior permitido pelo pai seria os filmes na TV. Portanto as criaturas se desenvolvem cercadas de criatividade cinematográfica, encenando diálogos de filmes que viram ao longo da prisão domiciliar. O que soa estranho na narrativa é que não há maiores conflitos quando os meninos de longos cabelos se rebelam quando chega a puberdade e alcançam o mundo exterior sem grande estardalhaço. Um deles exclama: “Parece 3D!” A praia de Coney Island é um dos primeiros locais que visitam numa sequência relativamente tocante. No fim, percebe-se que o que eles querem mesmo é fazer cinema, o que dilui o objeto principal do documentário que deveria ser tenso e emocionante.

H_2014_de-Rania-Attieh_posterH“. de Rania Attieh é uma obra estranhíssima e bizarra. A começar pelo título que se refere ao nome de Helena. Há duas delas na história. Elas vivem em Troia, Nova Iorque, numa clara alusão à clássica tragédia grega. Uma tem cerca de 70 anos, vive uma rotina cotidiana com o marido e cuida de uma boneca hiper-realista como se fosse uma criança de verdade. A outra é jovem e faz uma dupla de sucesso com o parceiro no mundo das artes enquanto prepara-se para ter um bebê. Um meteorito atinge a região e deflagra uma série de acontecimentos muito estranhos mudando o destino de todos. O filme pouco explica. Prefere sugerir muito em sequências belas e misteriosas, entre sons ininteligíveis criando um clima de crescente agonia, bem na linha do excelente “Sob a Pele”. A enigmática figura equina que surge ao longo dos capítulos entra em mutação no final numa cena realmente perturbadora. Para ver muitas vezes, interpretar, concluir e discordar como num filme de David Lynch. Uma delícia.

The-Nightmare_2015_posterOutro filme muito perturbador foi certamente o horripilante documentário “O PESADELO – PARALISIA DO SONO” (The Nightmare) de Rodney Ascher que já havia provado o seu talento tentando decifrar o que havia de oculto no clássico filme “O Iluminado” de Kubrick em “Quarto 237” que também causou aflição no outro Festival. Neste novo trabalho, Rodney entrevista várias pessoas que têm os mesmos sintomas. São acometidas por brutal paralisia quando entram em certo estágio do sono e se tornam impotentes diante das presenças que começam a surgir na escuridão. Um ataque de extraterrestres ou obsessão espiritual? A conclusão é do espectador que deve evitar assisti-lo quando a noite cair.

a-floresta-que-se-move_2015Ana Paula Arósio ressurgiu após longo hiato das telas, linda como nunca na exibição de “A FLORESTA QUE SE MOVE” de Vinicius Cimbra no cinema Odeon. O veterano Nelson Xavier também estava presente, contente com o fato de ter sido finalmente convidado para um papel de rico. E o fez brilhantemente. O filme que pode ser considerado um noir que flerta com os gêneros terror gore, suspense e policial é uma excelente adaptação de Macbeth de Shakespeare para os dias atuais. Uma bordadeira vidente (Juliana Carneiro da Cunha) prevê o poder meteórico para Elias, um alto executivo de banco. Incentivado pela mulher ambiciosa, os dois decidem eliminar pessoas para que se cumpra a profecia. O primeiro alvo é Heitor (Nelson Xavier), o presidente do banco, um homem bondoso e sensível que adora as Bachianas de Villa-Lobos. A partir daí, o rastro de sangue derramado espalhará a loucura, o remorso e os fantasmas no caminho dos dois. Neste trabalho extraordinário, destacam-se o mosaico de locações (Brasil, Uruguai, Escócia, Berlim) que confere uma atmosfera mágica e indeterminada à obra, bem como o elenco perfeito com destaque até nas pequenas participações como a de Emiliano Queiroz como um porteiro hilário, irônico e articulado. Imperdível.

as-fabulas-negras_posterAS FÁBULAS NEGRAS” é um terror nacional B gore que não deve ser levado tão a sério. Une o talento do veterano José Mojica Marins (Zé do Caixão) com outros novos diretores do gênero. O resultado por vezes amador e tosco diverte e evidencia um esforço constante em acertar. A decisão de inserir um grupo de crianças fantasiadas na mata como elo de ligação entre os contos ajuda muito no clima soturno pretendido. O episódio da loira no banheiro é decerto o melhor elaborado e bem montado com segurança na direção A velha que faz a diretora do pensionato de garotas está impagável. Mojica também se destaca como um exorcista de araque e aproveita para lançar a sua sempre esperada e “temida” praga no final.

[Continuação daqui.] [Continua aqui.]

Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse. 2000)

Les-Glaneurs-et-la-Glaneuse_2000Por: Karenina Rostov.

agnes-varda_cineastaPara alguns são um monte de lixo, para mim, muitas possibilidades.”

Depois de assistir ao documentário “Os Respigadores e a Respigadora da cineasta Agnes Varda, começo meu parágrafo já concluindo que “respigar” é uma arte. Arte esta que designa um verbo, resultado de uma ação nobre, porém, nem tanto sob a lupa de parcela da sociedade que se dá ao luxo de julgar essa ação como repugnante e humilhante gerando até certo pré-conceito. É bem verdade que não é confortável ao ser humano testemunhar determinadas cenas do homem quando este, por exemplo, porta-se como um animal abandonado à própria sorte e ter que catar comida no lixo. A história me fez lembrar o poema “O Bicho“, de Manuel Bandeira:

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.

Então volto a pensar na ação de respigar como arte porque, bem ou mal ela, há tempos, está representada através de várias pinturas famosas que embeleza paredes de museus pelo mundo, e alguns desses trabalhos são do pintor francês Jean-François Millet que evidencia em parte de suas obras cenas exóticas do cotidiano, integrando homem e natureza, como no consagrado quadro “The Gleaners”, ou “Os respigadores“, de 1857. Confesso que o verbo respigar não fazia parte do meu vocabulário, mas a ação embutida nela, sim, faz parte da minha vida, da sua, e de todo ser que respira, mesmo não sabendo seu significado literal, inconscientemente pratica-se essa ação. Acabei recorrendo ao dicionário para saber a definição exata da palavra e sua filologia, pois nem o meu editor de texto foi capaz de reconhecer. A propósito, Varda inicia a narrativa de “Les glaneurs et La glaneuse” a partir do conceito dicionarizado. Significado de Respigar: v.i. e v.t.d. Ação de apanhar no campo as espigas que aí ficaram após a colheita. Recolher, catar, rebuscar. Fig. Recolher daqui e dacolá o que outros disseram ou fizeram; compilar, coligir: respigar frases célebres.

os-catadores-e-eu_2000Então respigar designa ação de apanhar espigas que sobraram da colheita… faz sentido! Soa esquisito até conjugar o verbo, não? Eu respigo, tu respigas ele respiga… A novidade aqui é questão vocabular. Às vezes temos conhecimento de atos e atitudes que ficam adormecidas dentro da gente e é preciso a ação de alguém para que o mundo tome conhecimento ou fazer com que desperte em nós esse lado adormecido. Catar comida, ou coisas que ninguém mais quer, rebuscar ações, recolher frases, pensamentos, pegar alimentos e objetos abandonados por aí…isso tudo é respigar.

Muitas histórias nunca serão contadas em livros, filmes, rodas de conversas, recitadas ou cantadas; mas esta história, sim, era mesmo para ganhar vida e para a alegria do cinéfilo, nessa linguagem, quadro a quadro, registrados em cada fotograma com direito a narração, direção, roteiro, produção, enquadramentos, edições, trilha sonora, risos, lágrimas, respiração, cabelos brancos, mãos enrugadas, experiência de vida, enfim, para que o espectador nela se identificasse, uma história que o mundo inteiro deve conhecer para se conscientizar de ações como essas tão ambíguas, mensagens da mãe natureza ao homem alertando que se depender dela, jamais faltará alimento para o mundo porque a Terra fértil produz sempre além de sua capacidade, só que o homem por não dar crédito à sua inteligência não reconhece a boa vontade Dela, da natureza e, por isso, desperdiça.

Os-Catadores-e-Eu_2000_00O alimento não colhido é benção para a própria terra que, com certeza, agradece porque ganhará em adubo para novas plantações. E assim todo ciclo da vida se renova, desde a minhoca até o pássaro. E não é a toa que a escolhida para contar essa história fosse alguém especial, com a sensibilidade apurada, capaz de ver o lado bom da vida mais que outros, alguém sensível, experiente, com lembranças interessantes capaz de traçar comparações algo do tipo quem precisa ser compartilhado, comparando um respigador que faz apenas por diversão com outro que faz por necessidade.

A história narrada por Agnes Varda é crua, seria como dizer o lado bizarro da vida, cenas que o mundo varreria para debaixo do tapete, enxergando como grotesca porque lixo ninguém quer dentro de casa, e para muitos a cena dantesca chega a chocar quem dela se farta. E a diretora seguiu adiante nesse seu projeto de cair na estrada para rebuscar o que o mundo tem para oferecer, do grotesco ao sublime tudo que conseguiu capturar em sua câmera na viagem pelas estradas da França, e ainda dando carona a quem mais tivesse interesse de registrar com ela imagens, e ações aparentemente corriqueiras ou aquelas que ficarão para a eternidade retidas na memória como algumas emoções, sentimentos, depoimentos e outras descobertas nessa ação de respigar.

the-gleaners_by-jean-francois-milletEla encontrou na sua respigação, um mestre na arte de ensinar o estudo da vida, um professor de Biologia desempregado vendedor de jornais nas ruas e que rebusca alimentos largados nas feiras livres e nas lixeiras, e esse moço, um sábio, o pão deixado para ele nas lixeiras, é retribuído por ele ao dar aulas aos menos favorecidos. E a vida é um ciclo de troca, todo mundo acaba, sem querer, rebuscando. Uma ação bonita e louvável da parte dele. Nessa sua jornada, Agnes encontrou também alguém na arte de respigar imagens através de sua própria invenção a la Irmãos Lumiere. A diretora teve sorte em suas buscas e garimpagens.

Acabou me fascinado com essa história toda e nos apontando saídas da vida ou para ela na arte de respigar, exatamente como na pintura “As Respigadoras” de Millet. E a diretora também respigou na sua viagem ao Japão coisas fascinantes e estranhas e guardou algumas delas na bagagem além das lembranças do passeio e outras curiosidades que pode carregar.

São as coisas que recolho ao longo do tempo que resumem as viagens que faço… da viagem ao Japão trouxe na bagagem coisas que respiguei.

Os-Catadores-e-Eu_2000_01Esta história ganhou vida não para ser um mero entretenimento, mas para que muitos se conscientizem do que acontece com o Mundo. Tanta coisa que é deixada para trás nas grandes colheitas pela França, (só lá?) nas plantações de batatas, na colheita de maçãs e outras frutas, e tudo que é deixado pelo caminho, aquilo que não foi colhido por algum motivo, não é descartado por muita gente, felizmente é aproveitado e vai-se atrás para catá-las o que é permitido naquele país. Das coisas que são descartadas também no final das feiras, os tomates amassados e as folhas das verduras que murcharam que ninguém vai querer comprar.

Alimentos vencidos que muitos deixam apodrecer na geladeira e acabam servindo aos menos favorecidos. Pães e bolos que as padarias jogam fora sempre terá alguém que vai precisar e querer. Além disso, há o descarte de objetos de todo tipo que são deixados nas ruas quando não se quer mais. E essas coisas ganharão um novo dono e nova utilidade. Uma repaginada do lavou, tá novo!

É um exercício de reflexão sobre o desperdício de alimento principalmente de tudo que é plantado, há mais desperdício do que aproveito. Um século crítico que não dá mais para o mundo se dar ao luxo de descartar alimento.

A diretora é uma respigadora e tanto, capaz de rebuscar muito daquilo que os outros não querem ver nem fazer, e que abandonam despudoradamente nas esquinas da vida. A história é retratada em grandes pinturas realistas, a lição é antiga, mas até hoje o homem não aprendeu a fazer direito o dever de casa. Nós somos os respigadores, ela, Varda, a respigadora. Só posso agradecer por este belo filme fazer parte da minha respigação. Todos nós respigamos de alguma forma as formas de ver o mundo. Hoje eu chamaria de garimpar.

Agnes Varda é mesmo um anjo por nos ter permitido fazer parte de sua viagem.

Por: (E.B.) Karenina Rostov.

Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse. 2000)
Ficha Técnica: na página no IMDb.

Nota: (*¹) De quando o Documentário saiu num Festival, veio com o título de “Os Respigadores e a Respigadora”. Já passando para o circuito comercial, ganhou o título de: “Os Catadores e Eu”.