Série: PROOF (2015 / ). O Que Acontece Após a Morte?

serie-proof_2015_cartazNa literatura médica há vários relatos sobre o período de se estar “quase-morto” e então depois voltar à vida. Experiências de pessoas a cerca desse momento. Mas que para muitos ainda é tido como se elas tivessem visto um “E.T“. Até para a ciência há explicações para as “luzes, vultos, sons…” que essas pessoas dizem ter vivenciados. Uma delas seria que parte do cérebro pode encontrar um caminho para o que estaria acontecendo realmente em torno dessa pessoa. De qualquer forma a ciência ainda não tem respostas conclusivas sobre as experiências de quase morte. Agora, para aquele que teve essa experiência, e por mais cético que tenha sido antes, há de se ficar mexido com o que vivenciou. E até sem se importar muito se as outras pessoas acreditam ou não nela. A Série “Proof irá mostrar esses relatos a cada episódio e tentar achar como o próprio nome diz uma comprovação até para as experiências extra corpórea, ou mesmo de reencarnação. E creio que deixando para nós tirarmos nossas próprias conclusões do que um duelo entre ciência e fé!

A morte é o fim de tudo ou há algo mais além?

proof_serie-2015_jennifer-bealsA personagem principal é vivida pela atriz Jennifer Beals (Flashdance). Ela é a cirurgiã cardiovascular Dra. Carolyn Tyler, que ficará dividida entre o lado emotivo e o racional ao mergulhar nesse universo com muito mais perguntas do que respostas conclusivas. Exigente demais consigo própria como também com quem trabalha com ela. Sarcástica. Em paralelo ao seu presente no hospital, passa por um drama pessoal: separada do marido, o também médico Dr. Len Barliss (David Sutcliffe), com quem divide a guarda compartilhada da única filha, a adolescente Sophie (Annie Thurman). Uma jovem em conflito ou por pura rebeldia ou por se sentir preterida no coração da mãe. É que o casal perdeu um filho, e que ela ainda o tem muito presente em suas vida. Até porque Carolyn também teve uma experiência de “quase morte” onde parece ter sido ajudada por esse filho a voltar à vida.

“Não importo se não achar prova nenhuma, se as histórias de experiências de quase-morte sejam só isso, histórias. Ou que há realmente outra coisa. Só quero saber ao certo se quando você está morto, está morto. Prova concreta.”

proof_serie-2015_matthew-modinePor conta dessa experiência, do seu ceticismo, como também da sua competência profissional, até porque num eufemismo é alguém que faz um coração bater novamente, enfim ela foi escolhida por alguém a adentrar nesse universo. Ele é Ivan Turing (Matthew Modine), um excêntrico bilionário ligado a área da internet. Ivan foi diagnosticado com um câncer que o deixa com pouco tempo de vida. Não sei se por homenagem ou não, seu personagem não deixa de lembrar de Steve Job: pelo brilhantismo e pela doença. Bem, Ivan vai além de uma rebeldia, parecendo mais capricho: em querer saber o que lhe espera após a morte, é o nada. Não tem tempo, mas dinheiro de sobra para pesquisarem sobre isso. E é por aí que tentará persuadir Carolyn. Primeiro pelo seu chefe, o Dr. Charles Russell (Joe Morton, de Scandal): oferecendo uma bela quantia ao hospital caso ela aceite. Dr. Russel então, que mesmo não controlando as peculiaridade de Carolyn, onde até fecha os olhos por admirar a dedicação e habilidades dela, tenta dissuadi-la pelo muito o que faria ao hospital a tal quantia, mas é em vão.

Venho de uma cultura onde não é uma questão de crença. É considerado um fato. Vivemos, morremos, então vivemos novamente. Mas onde também é considerado um fato que a malária é causada por espíritos e a AIDS pode ser curada por estupro. Então não, Dra. Tyler. Como homem de ciência não acredito em vida após a morte. Mas suponho que tudo é possível.”

serie-proof_01O que de fato a leva a aceitar o pedido de Turing é o que acontece durante uma cirurgia no primeiro episódio. Onde após ter feito de tudo para salvar um paciente, e então dizer a hora do óbito, o tal coração volta a bater deixando todos incrédulos. É nessa cirurgia que ela nota o Dr. Zedan ‘Zed’ Badawi (Edi Gathegi, de Justified). Primeiro dando uma bronca nele, depois pela efetiva colaboração de Zed nos procedimentos em tentar salvarem o paciente. Talvez por ter vindo do Sudão, África, ele não se intimidou como os demais em estar numa cirurgia comandada por Carolyn.

_E pelo amor de Deus, não coma essa porcaria. Te matará.
_Esse saco alimentaria uma família de 5 pessoas de onde ele vem.”

Como Carolyn também tem um lado altruísta prestando ajuda aos “Médicos Sem Fronteiras”, receber de Turing o controle de sua fortuna após a morte dele, também pesa em aceitar fazer a tal pesquisa. De início além de Zed ela terá ajuda de Janel (Caroline Rose Kaplan) assistente do Turing. E de tabela Peter Van Owen (Callum Blue) um renomado escritor sobre fenômenos psíquicos e mediúnicos. Até porque ela também irá investigar fenômenos pós-morte como poltergeists e reencarnação.

As pessoas acreditam no que querem acreditar. E acho que isso é o suficiente para a maioria delas.”

Bem, mesmo que “Proof” fique mais como um folhear as páginas de um livro com esses relatos e não se aprofundando muito, mesmo que Jennifer Beals ainda não tenha encontrado o tom certo para sua personagem – de que seria alguém com um esteriótipo mais grave, o de Beals tende mais para uma pessoa meiguinha -, a série deixa um suspense de que pode até vir com fatos ainda não tão conhecidos ao grande público. Início ainda de temporada. No mínimo me deixou com vontade de seguir acompanhando após ter visto o primeiro episódio. É esperar para ver! E “Proof” pode ser vista aos domingos no canal “TNT Séries” às 21 horas.

Anúncios

As Férias da Minha Vida (Last Holiday. 2006)

as-ferias-da-minha-vida_2006Por Leandro Salgentelli.
“As Férias da Minha Vida” num Álbum das Possibilidades
Eu quero ser cremada. Passei a vida inteira num caixote, não quero ser enterrada em um”. Assisti ao filme “As férias da minha vida” várias vezes e nunca havia prestado a atenção na reflexão e a mensagem que o filme entrega de bandeja.

Georgia Byrd trabalhava em uma loja como vendedora de panelas, sonhava em realizar vários sonhos. Tinha com ela um álbum das possibilidades, lá ela guardava todas as suas vontades na esperança de que um dia pudesse realizar. Queen Latifah, a personagem protagonista do filme, descobre que têm apenas três meses de vida e vai à busca de realizar seus sonhos, os sonhos que estava no álbum das possibilidades.

as-ferias-da-minha-vida_queen-latifahSe todos nós fizéssemos isso teríamos uma vida mais saudável. Passamos a maior parte da nossa vida preocupando-se com os problemas, tentando levar o mundo nas costas, tentando agradar a todos, buscando metas irreais acreditando que isso nos levará para a felicidade. Com o passar do tempo vamos percebendo que felicidade não é ter o carro do ano, o melhor emprego. Isso dá uma certa alegria, mas nada se compara a paz de espirito que poucos buscam.

Passamos a maior parte do tempo em busca do êxtase, do orgasmo e esquecendo-se de celebrar a própria existência. Passamos a maior parte da vida, preocupados com o que vão pensar de nós. Alguns asfixiados pelo “eu”. Eu posso, eu quero, eu vou. Enquanto outros sempre se asfixiando pela pluralidade. Se soubéssemos equilibrar esses dois… Se refletíssemos. Se déssemos conta de que felicidade é um detalhe, é o respirar, é o viver. Se parássemos de pensar no corpo ideal e aceitássemos como somos. Se abríssemos um sorriso diante da frustração.

Queen Latifah e Gérard Depardieu

Queen Latifah e Gérard Depardieu

(O texto a seguir contém spoiler.)
Podemos não ter tudo o que queremos, mas temos sorte. Sorte para por em pratica o que deixamos de fazer ontem e que podemos fazer hoje. Sorte para fazer algumas coisas que deixamos de fazer por medo do que vão pensar, do que vão achar. De frente para o espelho a personagem de Queen Latifah diz pra si mesma: “Você tem tido muita sorte, você não conseguiu tudo que queria, mas… Da próxima vez vamos fazer diferente, vamos rir mais, vamos amar mais, vamos ver o mundo, não vamos ter tanto medo”.

O medo da vida nos impede de ver coisas lindas. “Passei minha vida inteira engolindo sapo, acho que eu era medrosa. A gente abaixa a cabeça, e aguenta, e aguenta, até que um dia a gente se pergunta como é que permite isso. Muito daquilo que queremos na vida não tem o menor valor”. Tão humano. Tão verdadeiro. Ainda bem que a personagem descobriu a tempo que precisava viver. O destino algumas vezes entra na nossa vida para mostrar algumas coisas, nos dar uns tapas na cara e nos fazer acordar. É uma pena que algumas pessoas buscam viver intensamente quando está no deleito da morte. Já para Georgia foi tudo um equivoco. Ela não morreria coisíssima nenhuma, a vida só deu uma chance de mostrar pra ela o que ela estava perdendo.

Com um pouco de atitude e sorte um dia acordamos e damos espaço para o álbum das possibilidades, e claro, para virar realidades.album-das-possibilidades

As Férias da Minha Vida (Last Holiday. 2006). EUA. Diretor: Wayne Wang. Elenco: Queen Latifah, Gérard Depardieu, LL Cool J, Timothy Hutton, Giancarlo Esposito. Gênero: Aventura, Comédia, Drama. Inspirado no Roteiro de J.B. Priestley do filme “Last Holiday” (1950) com Alec Guinness.

A Culpa é das Estrelas (The Fault in Our Stars. 2014)

a-culpa-e-das-estrelas_filmeA Culpa é Das Estrelas poderia ser mais um filme com temática drama-juvenil com o objetivo de arrancar litros de lágrimas dos adolescentes nas salas de cinema, conseguiu essa proeza, mas pela diferença em vários aspectos. Entre os fatores que mais chamam atenção do público está no roteiro fiel ao livro e bem adaptado, a química de um casal de protagonista promissor no cinema e uma direção bem caprichada.

a-culpa-e-das-estrelasEmbora o primeiro amor entre jovens e a doença terminal sejam assuntos tratados inúmeras vezes no cinema – salve “Uma Prova de Amor” e “Minha Vida Sem Fim”-, Josh Boone conseguiu cativar o grande público desde o primeiro encontro do casal. Na história, Hazel (Shailene Woodley) se mantém viva graças a uma droga experimental. Tímida, sua família a obriga frequentar um grupo de apoio, lá conhece Augustus (Ansel Elgort), um rapaz que sofre da mesma doença. Neste cenário de intimidade, o casal vive essa história de amor com o pano de fundo da luta pela sobrevivência.

Firmes no papel, Shailene e Ansel – conhecidos por Divergente – conseguem suavizar a gravidade da situação com o carisma que o casal pede e tiram de letra cenas desnecessárias, como quando Hazel, que sofre com problemas respiratórios, sobe várias escadas com um balão de oxigênio sem grandes dificuldades. Mesmo com os típicos clichês, a semelhança com o livro deixa os fãs mais contentes. Além disso, o longa apenas não atrai um público variado como leva muitas pessoas as lagrimas. Nunca se vendeu tantos lenços de papel para assistir a um filme.

É uma boa pedida!

Por Rafael Munhos.

Quando Você Viu seu Pai pela Última Vez? (And When Did You Last See Your Father?. 2007)

quando-voce-viu-seu-pai-pela-ultima-vez_2007O filme é baseado numa história real. Como só isso não bastasse, é o personagem principal, o escritor Blake Morrison, quem nos conduz nessa viagem por algo que lhe era muito doloroso: o relacionamento com o pai. Mais do que um conflito familiar é um filho ainda sedento por amor e respeito pelo próprio pai. Quem assina o Roteiro é David Nicholls, autor do livro “Um Dia“. Ele conseguiu ser a ponte para que o Diretor Anand Tucker não ficasse apenas num drama pessoal, até porque deu ao asas ao ator Colin Firth para que não caísse na mesmice de um personagem já comum em sua carreira. Era o meu receio antes de ver o filme de o terem escolhido pelo estereótipo. Mas ele soube dar voos incríveis fazendo do seu Blake único. Comprovando que Colin Firth é um excelente ator!

when-did-you-last-see-your-father_cartazReviver antigos fantasmas foi o que o destino aprontou para Blake. Mas de um jeito que criou uma ponte para chegar ao coração do pai. Com isso, esses sentimentos puderam fluir sem mais barreiras. Mas ainda teria tempo de fazer as pazes com o pai, e até consigo próprio? Porque esse reencontro se deu por conta de um câncer devastador que estava levando Arthur Morrison. Vivido pelo ator Jim Broadbent, numa performance também excelente!

Pai e Filho de temperamentos tão opostos têm a chance de passarem esse relacionamento a limpo no leito de morte de um deles. Mas essa busca fica muito mais por Blake, até porque no passado fora Arthur quem tentou uma aproximação. Mesmo que tenha sido de um jeito tosco. Mas na cabeça do então jovem Blake já se acumulava tantos traumas que rejeitou, além de também criar muralhas nessa relação.

Quando se é muito jovem o que os olhos veem, o coração pressente. Só não se tem discernimento bastante para entender a real situação. Ou mesmo uma vivência que o faria perceber. Mas aí corre-se o risco de sofrer mais porque teria comparações. Muita das vezes uma terapia é que pode mostrar que nunca o teria como desejava. Como também que por mais que não aceitasse há uma herança genética ligando-os. Que dessa outra pessoa por mais que menosprezasse há algum traço em comum. Seria tão mais leve para muitos desses filhos que sofrem por essa rejeição, se desde cedo não se importasse muito com isso. Que pudessem crescer desencanados, ou que não pesassem tanto tal fato ao longo da sua jornada chamada vida.

Quando Você Viu seu Pai pela Última Vez?” veio como um exorcismo a uma tristeza de anos para então o já adulto Blake. No decorrer do filme o personagem também terá a fase em criança – vivida pelo ator Bradley Johnson -, quando sente que a mãe, Kim (Juliet Stevenson), também guarda um segredo do relacionamento dela com o marido. Na adolescência quem o interpreta é o ator Matthew Beard. Blake então cada vez mais tímido e intimidado pela personalidade do pai. De um caráter duvidoso que ia aumentando ainda mais os pesos para esse jim-broadbent_e_colin-firth_quando-voce-viu-seu-pai-pela-ultima-vezjovem.

Assim eram as coisas com meu pai. Trapaças insignificantes, pequenas fraudes. Minha infância foi uma teia de pequenas fraudes e triunfos. Estacionar onde não se devia. Beber depois do horário permitido. Os prazeres da ilegalidade. Ele ficava perdido se não conseguisse trapacear um pouco.”

O tão terrível pai de Blake – grande interpretação de Jim Broadbent que ganha maquiagem para o envelhecimento – é tão carismático que faz com que os fantasmas de Blake foram carregados na tinta e por ele próprio. Claro que ele teve motivos até para o distanciamento tido até então do pai. Mesmo extrovertido, no fundo Arthur também se ressentia do seu próprio passado. Só que sabia mascarar seus segredos, diferente de Blake.

O título do filme “And When Did You Last See Your Father?” veio para mostrar que conflitos como esse podem ir passando de uma geração para a outra até que alguém se toque e rompa esse ciclo. Mesmo que um pouco tarde demais para a então relação, mas a tempo de seguir livre desse passado e sem cometer os mesmos erros com as próximas gerações.

Bem, cada um sabe da dor que carrega, e se quer exteriorizá-la ou não. Blake um escritor de talento, e que só não tinha o reconhecimento pelo próprio pai, resolve colocar tudo isso em palavras escritas. Contar todo o drama vivido lhe fora salutar. Até em descobrir que recebera de herança paterna o de ser original. Ser o que é!

Além das performances, da Direção num timing perfeito com o Roteiro, a Trilha Sonora vem como coadjuvante de peso. É um filme que emociona até a cena final. Mais do que doer na alma, lava a alma. Simplesmente perfeito! Nota 10.

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Quando Você Viu seu Pai pela Última Vez? (And When Did You Last See Your Father?. 2008). Reino Unido. Direção: Anand Tucker. Roteiro: David Nicholls. +Elenco. Gênero: Biografia, Drama. Duração: 92 minutos. Baseado em livro homônimo de Blake Morrison.

Panorama do Festival do Rio 2013 – Parte II

festival-do-rio-2013A GAROTA DAS NOVE PERUCAS (Heute Bin Ich Blond) de Marc Rothemund tem um tema forte. Uma menina cheia de vida que de repente enfrenta um câncer devastador. Quando começa a perder cabelos por conta do tratamento, decide comprar várias perucas e assumir diversas personalidades. O humor e a criatividade da jovem ajudam a combater a doença. Um tema comum numa ótica alemã bem diferente, cheia de talentos e sem os excessos de dramaticidade comuns a Hollywood.

TATUAGEM é uma pérola hedonista de Hilton Lacerda. Ambientado numa periferia nordestina no final da ditadura no Brasil (1978) traça um retrato pouco visto da época já exaustivamente focada no eixo Rio/São Paulo. Ao sair dessa zona urbana conhecida, o filme ganha um colorido único com números musicais poderosos e sequências geniais amparadas por um roteiro preciso e um elenco vigoroso onde todos se destacam. Clécio (O excelente Irandhir Santos) quer montar um show ousado num cabaré decadente com o nome de chão de estrelas e se apaixona por um menino soldado cujo apelido é Fininha (Jesuita Barbosa). A paixão resulta num aparente contraste entre a resistência burlesco-nordestina e a severidade militar. Não tarda para que a trupe comece a se rebelar contra a aparente ameaça. O extravagante Paulete (Rodrigo Garcia numa composição inspiradíssima) está à frente dessa pacífica oposição. O que mais funciona no filme é a ausência de falsos pudores nos diálogos e especialmente nas cenas de sexo. O primeiro encontro de Clécio e Fininha é um primor de erotismo precedido de uma arquitetura de sedução notável, bem como o assédio sexual no quartel militar. Destacam-se também os curiosos relatos populares ligados ao pecado como o bebê que nasce sem cabeça ou o burburinho causado pela liberação de obras proibidas como “A Laranja Mecânica” de Kubrick com as famosas bolinhas pretas censurando a nudez frontal dos atores. Tudo costurado com primor e talento formando um espetáculo único e inesquecível que volta a orgulhar o cinema nacional ultimamente estremecido com produções grosseiras de bilheteria fácil. Salve o nordeste!

BEHIND THE CANDELABRA foi concebido para ser exibido na tela grande, daí a qualidade em todos os quesitos da produção. No entanto, o diretor Steven Soderbergh teve de se contentar em vender os direitos para a televisão por conta da temática gay exagerada. Como conseguir conter um personagem como o músico Liberace que exalava excentricidade por todos os poros? Liberace já era famoso e tinha quase 60 anos quando conheceu o adolescente Scott Thorson que se tornou seu amante por muitos anos. Os dois são vividos magistralmente por Michael Douglas e Matt Damon que travam batalhas verbais elaboradas numa estória muito bem roteirizada. Mas o ponto alto é para a maquiagem que transforma Damon de menino a adulto, Michael num velho afetado que definha com uma doença mortal e Rob Lowe em um cirurgião plástico hilário e deformado que certamente é um dos pontos altos de sua carreira. Vai passar na HBO. Vale a pena ser visto.

SHAMPOO um filme de Hal Ashby datado de 1975 provou que perdeu força ao longo do tempo. Exibido em película riscada, com a cor adulterada e o som distorcido, mostra os então jovens Warrem Beaty e Goldie Hawn numa comédia de difícil digestão com drama demais inserida no roteiro para ser engraçado. Tudo gira em torno do cabeleireiro George, que aproveita da fama homossexual que a profissão lhe conferia na época para se envolver com todas as mulheres que se aproximavam. O atrativo maior da sessão seria a presença da estrela Goldie Hawn que simplesmente não apareceu.

GRAVIDADE (Gravity) de Affonso Cuarón apesar de incursões mais profundas inseridas nos (bons) diálogos deve ser encarada como puro entretenimento. Diversão do tipo montanha-russa mesmo com muita aflição. A sensação conferida com o 3D e o Imax  é de queda livre e afogamento. Tudo se passa no espaço dividido pela engenheira Ryan e pelo astronauta Matt numa missão delicada quando são atacados por uma chuva de meteoros que os deixam flutuando à deriva sem contato com a Terra. George Clooney está perfeito como sempre, mas o filme é de Sandra Bullock que imprime terror e coragem assombrosos em cada fotograma onde aparece lutando pela vida. Hollywood continua a fazer filmes extraordinários.

GATA VELHA AINDA MIA de Rafael Primot teve sessão de gala no Odeon com a presença das estrelas Regina Duarte e Barbara Paz. Regina é Gloria Polk, uma escritora solitária que já teve seus dias de Glória e é entrevistada por uma jovem jornalista (Paz) num embate furioso regado à inveja e amargura. Ainda que com deslizes no roteiro, o filme mantém interesse por conta dos diálogos cáusticos e da força das atrizes, ganhando um diferencial no epílogo surpreendente, quase noir com toques de terror para acabar derrapando um pouco no desfecho um tanto mal solucionado. De qualquer modo, vale conferir nem que seja para observar a estranha composição de Gilda Nomacce no papel da intrometida vizinha Dida. Gilda já havia feito outro filme exótico e excelente, o cultuado “Trabalhar Cansa”.

GIGOLÔ AMERICANO (American Gigolo) teve apresentação em película no CCBB o que é sempre uma boa experiência apesar do desgaste do tempo. O próprio diretor Paul Schrader estava presente na projeção desbotada e riscada de sua obra de 1980. Richard Gere brilha no auge de sua beleza, numa trama quase ingênua para os dias de hoje, vivendo um prostituto de luxo envolvido num crime. O talentoso Giorgio Moroder faz a música no mais fraco dos seus trabalhos para o cinema e Armani assina os figurinos que marcam época. Schrader afirmou na conversa após a sessão que não faria o filme hoje com o conteúdo homofóbico daquela versão que coloca gays como vilões inescrupulosos e o personagem de Gere imitando gratuitamente um homossexual. Cita a boate The Probe mostrada no filme como um cenário estereotipado e underground. No entanto era um lugar freqüentado por todos, inclusive por ele na época. Revela, afirmando não ter preconceitos.

festival-do-rio-2013_03O LOBO ATRÁS DA PORTA pode ser considerado um thriller. Baseia-se no caso conhecido como “A Fera da Penha” que chocou o Rio na década de 60. Extremamente bem conduzido por Fernando Coimbra, o longa conta com um elenco de grandes nomes como Milhem Cortaz, Leandra Leal e Fabíula Nascimento nos papéis principais, bem como participações muito especiais de Juliano Cazarré e Thalita Carauta (A Janete de Zorra Total num papel parecido com o trabalho que vem fazendo, mas com o sabor de cinema). Tudo começa com o desaparecimento de uma criança. Os pais da menina são chamados à delegacia e Rosa, a amante do pai, é a principal suspeita do sequestro. Nesta versão, o macabro acontecimento continua a acontecer no subúrbio do Rio, embora se desloque um pouco da Penha para Oswaldo Cruz e tem a época atualizada para o tempo corrente, o que lhe confere um distanciamento perfeito para manipular com a suposta obscuridade psicológica de cada personagem sem a preocupação da exatidão e fidelidade dos fatos. O resultado é um grande filme.

O ABC DA MORTE (The Abcs of Death) como quase todo filme com muitos diretores não é um filme regular. No caso, a situação se agrava por conta de reunir diretores de diversas partes do mundo para contar o tema macabro através do alfabeto. No entanto, há momentos muito originais e até geniais no meio de uma sucessão de escatologia e terror gore. Digamos que muitas letras se salvam.

Toda Forma de Amor (Beginners, 2010)

Imagem

“Beginners” é um belo filme sobre amor, perda, vida, família, amizades e um cachorro falante (com uso de legendas). O roteirista e diretor Mike Mills me surpreendeu, fazendo um filme que tem um pouco de Woody Allen, com estrutura de filmes como “(500) Days of Summer” (2009), e, gastando apenas 3,5 milhões de dolares.

O filme começa com uma montagem de imagens narrado por Oliver (o sempre talentoso Ewan McGregor), um artista comercial que acaba de perder seu pai (Christopher Plummer). Com fotos diante dos nossos olhos, indo e voltando entre 1955 e 2003, a narrativa cresce e encanta, pois em poucos minuto, eu senti que conhecia Oliver e seus pais por anos.

Para quem é? 

ImagemPara quem gosta de um filme leve, e bem humano, “Beginners” é um aqueles filmes que encantam, e  não apenas por seu teor gay – o pai de Oliver sai do armário, quatro anos antes de sua morte. A mudança no estilo de vida do seu pai veio como um choque, mas sentimentos também a honestidade da relação entre Oliver e o seu pai.

Atores:

Provavelmente, Plummer vai levar o Oscar de melhor coadjuvante, e ele merece, mas seu personagem teria metade da humanidade que tem se ele não tivesse um parceiro de cena tão maravilhoso quanto McGregor. Achei que o filme é “quase” todo astro de “Moulin Rouge!” (2001).

 Imagem

Na fase depressiva da sua personagem, Oliver conhece uma jovem atriz vivida por linda Melanie Laurent. Há uma atração instantânea entre eles, mas na cabeça de Oliver – por causa de sua melancolia – a relação parece encontrar barreiras. Entre as cenas de monólogo interior, Mike Mills brilha num truque narrativo, acrescando legendas entre o dialogo entre Oliver e o seu cachorro. Essa ferramenta apenas aumenta a forca dramatica de McGregor, que nos dar ainda mais introspecção no processo de pensamento de Oliver e suas decisões privadas.

Bem, o filme ilustra que a vida move rapidamente, e que cada um de nós temos que nos certificar que tevemos viver a vida ao máximo e nos cercarmos de pessoas que que nos ama, e amá-las de volta. E nos faz lembrar que a cada dia é um novo dia, e uma nova vida- sendo assim, posso dizer que somos todos iniciantes, certo?

Nota 9,0