Curta: Living with a Black Dog (2008). Ele não precisa ser um inimigo…

vivendo-com-um-cao-negro_depressao_capaPor Josie Conti.
Atualmente, a depressão afeta mais de 350 milhões de pessoas no mundo inteiro. Projeções da Organização Mundial de Saúde (OMS) estimam que em pouco tempo, entre todas as doenças, a depressão será a mais comum. Existem tratamentos efetivos, mas menos da metade dos afetados pela doença recebem qualquer tipo de tratamento. Os números da Previdência Social também não param de crescer e a depressão tem sido fonte de afastamentos longos e incapacidade para o trabalho.

Como existe uma grande chance da depressão tornar-se uma doenças crônica em que a pessoa pode ter diversos episódios de adoecimento ao longo da vida, o tratamento é fundamental.

O vídeo “Living with a Black Dog“, de Matthew e Ainsley Johnstone, leva a uma reflexão sobre a depressão numa descrição realista, mas com uma abordagem clara e descontraída. Uma presença que esgota e que muita das vezes termina por vencer as resistências que ainda possa possuir. Mesmo tendo consciência da sua presença a angústia mina as forças até se ver alimentando-o. Às vezes ele pode dar um respiro, mas não significa que tenha desaparecido.

vivendo-com-um-cao-negro_depressaoQuem popularizou a expressão cão negro como sinônimo depressão foi Winston Churchill ao descrever seu sofrimento com o transtorno. Mas o apelido de fato foi cunhado pelo escritor inglês Samuel Johnson ainda no século 18. E que era tido como Melancolia.

Se você ou alguém próximo a você sofre de depressão, procure ajuda profissional. Esse pode ser o primeiro grande passo em direção a uma grande mudança. Esse “cachorro preto” não precisa ser um inimigo.

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Série: Os Desajustados (2011 / ). Eles São o que São! Mas com Muitas Reticências…

shameless_serie_personagensA Pobreza Não Glamourizada nos Estados Unidos.

A Série “Shameless” traz como pano de fundo a realidade do “lado pobre” em um país tido como do primeiro mundo. Uma realidade sem os retoques tão comuns por Hollywood num retrato 3×4 de um microcosmo dentro de uma metrópole como Chicago. A pobreza existe em qualquer país! Daí é muito bom quando isso é mostrado bem de perto até porque uma das principais críticas ao Cinema Brasileiro seria justamente por isso: em retratar muito mais a pobreza no país. E mesmo que alguns filmes tragam esse mesmo pano de fundo, como em “O Solista“, por exemplo, terminam sendo diluido por contra da trama principal. Com isso é muito bom quando o tema vem numa Série porque terá bastante tempo para maiores detalhes. Melhor ainda quando usa o humor para fazer sua crítica ao establishment vigente.

Quem é você não apenas para si próprio, mas também para as pessoas ao seu redor?

shameless_serie_00E é assim que segue “Shameless” levando com humor o drama da Família Gallagher. Que como o nome da série também diz: eles vão levando a vida sem o menor pudor até para sobreviver, mas principalmente em não deixarem de ser uma Família. Talvez seja essa a principal mensagem: que mesmo sendo uma família disfuncional, eles são os Gallagher para o que der e vier.

Os Gallagher tem como patriarca um cara mais preocupado com a própria sobrevivência do que ser um pai de fato. Personagem de William H. Macy cujo papel lhe caiu muito bem até por conta do esteriótipo/meio estigma que Hollywood lhe trouxe. Sendo mais um loser em sua carreira ou não… Macy está excelente como Frank Gallagher. Nossa! É até surreal seu empenho em conseguir um rim! Um tanto macabro também por fazer humor com sua tragédia. Nessa “campanha” terá ajuda primeiro de um dos Gallagher, seu filho Carl (Ethan Cutkosky). Mesmo ou até pela lealdade ao pai, Carl vai fundo nessa ajuda. O que tem como agravante é que Carl está entrando na adolescência sem nenhuma referência sobre a moral e a ética. É como um carro desgovernado sem saber quando irá parar, sem se dar conta dos estragos…

Eles não têm muito em suas vidas no sentido de segurança, e assim por seus relacionamentos se tornam mais e mais importantes. A questão que entra em jogo para todos eles é: Como o amor ou carinho um pelo outro compensa a escassez?” (John Wells, criador da Série).

shameless_serie_01Sem a presença de uma mãe… É a filha mais velha, Fiona Gallagher (Emmy Rossum), que toma para si essa missão em cuidar dos cinco irmãos. Mas Fiona ainda é jovem, logo mais propensa a não visualizar o todo em cada atitude tomada. E numa delas, é quando terá que prestar conta com a justiça: “ganhando” uma tornozeleira eletrônica. Com isso, perde o emprego que era a principal renda da família. Fiona terá que se virá nos trinta para não desestruturar de vez a família. Como também amadurecer.

Por conta disso, Phillip “Lip” Gallagher (Jeremy Allen) o único da família a cursar uma universidade, mas mesmo com uma bolsa integral sabe que precisa ter uma renda própria para se manter por lá. O que dificulta se manter acima da média para não perder a bolsa. Com a história de Fiona, Lip até pensa em deixar a faculdade para cuidar do caçula da família, o pequeno Liam. Lip acaba trazendo a irmã de volta à realidade das consequências dos próprios atos. E Fiona o demove de deixar a faculdade. Agora, numa de os fins justificando os atos… Lip tem uma saída nada ética para colocar comida na mesa da família.

shameless_serie_02Dentro do universo dessa família ainda há Ian Gallagher (Cameron Monaghan) e Debbie Gallagher (Emma Kenney). Ian sentiu necessidade de ser afastar da família para então assumir a homossexualidade. Sem bem que pode ser por conta de uma provável bipolaridade como “herança materna”. Com a crise provocada pelo deslize de FionaIan volta para casa, mas onde também volta a se relacionar com um cafetão russo, o MilkovichPor último há Debbie Gallagher. Sensível, sofrendo pela entrada na adolescência e com tudo mais que essa fase trás. Onde ante às pressões externas, carece a presença de uma pessoa madura nos aconselhamentos. Até por ser levada, de modo torpe pelas colegas da escola, a perder a virgindade. Algo que a levará não medir os atos.

Nós temos na comédia um tradição de tirar sarro de pessoas nesses ‘mundos’. A realidade é que essas pessoas não são ‘os outros’ – eles vivem quase na mesma quadra de onde você mora” (Paul Abbot, criador da Série)

Shameless” é mais uma série levada pelos Estados Unidos de um sucesso do Reino Unido. Traz como marca um questionamento no início de cada episódio com um dos personagens perguntando algo ao espectador para logo então entrar na cena. De qualquer forma esse remake é muito bom! Atuações ótimas! Roteiro afiado! Uma gama de personalidades distintas com um ponto em comum: a Família como um porto! Enfim, vale a pena assistir! Transmitida aos domingos, às 22 horas pelo canal TNT Séries. Fica a sugestão!

Por: Valéria Miguez (LELLA).

Série: The Walking Dead (2010 / )

the-walking-dead_serie-de-tvThe-Walking-Dead_Rick-GrimesPor Rafael Munhoz.
Os fãs mais fissurados por The Walking Dead, como eu, já podem começar a fazer contagem regressiva para o retorno da série. Faltam menos de dois meses para a estreia da quinta temporada de uma das séries mais comentadas do gênero. Tudo bem que ainda falta tempo para dia 12 de outubro, mas a expectativa em torno das histórias de Rick Grimes (Andrew Lincoln) e sua turma nos levam a várias imaginações sobre o que está por vir.

A produtora Gale Anne Hurd divulgou novidades sobre o quinto ano da série. Se você ainda não leu, veja as curiosidades:

the-walking-dead_quinta-temporada

– A quinta temporada se inicia de onde o quarto ano parou, ou seja, sem salto temporal.
– O novo ano vai sair da floresta rumo a cenários mais urbanos.
– Nem todos estão de acordo com a jornada rumo a Washington — afinal, temos os otimistas, os pessimistas e aqueles que acreditam que voltar ao cenário urbano é perigoso demais.
– Segundo Hurd, não devemos nos preocupar com Carol, apesar de a personagem não ter aparecido tanto no trailer promocional.
– Não teremos muito romance para Daryl. Segundo a produtora, “existem pessoas que querem que ele fique com a Carol, outros que ele se envolva com Beth. Não importa o que façamos, acredito que não faremos todos felizes”.
– Teremos dois arcos novamente. “Existem finais distintos naturais para narrativas em particular que serão revelados durante o episódio final antes da pausa e recomeçam na estreia do ano que vem”.
– Mais uma vez, teremos personagens separados uns dos outros. Dessa forma, ainda veremos episódios em que grupos diferentes são revelados e outros em que haverá foco apenas em poucas pessoas.
– Sobre as mortes: “Não seria The Walking Dead sem algumas lágrimas”.

Vamos aguardar!!!

CuriosidadesThe Walking Dead, série de televisão norte-americana. Aventura, Drama e Terror num mundo pós-apocalíptico. Desenvolvida por Frank Darabont. Baseada na série de quadrinhos de mesmo nome por Robert Kirkman, Tony Moore e Charlie Adlard.

SinopseA série é protagonizada por Andrew Lincoln, que interpreta Rick Grimes, um vice-xerife que acorda de um coma e descobre-se em um mundo pós-apocalíptico dominado por zumbis. Ele sai em busca de sua família e encontra muitos outros sobreviventes, ao longo do caminho. O título da série refere-se aos sobreviventes, e não os zumbis.

Série: Sessão de terapia (2012 / )

sessão-de-terapia_theoPor Leandro Salgentelli.

sessao-de-terapia_selton-melloGeralmente quando temos algum problema emocional ou físico, recorremos a alguns mediadores de respostas. Fazemos isso na boa intenção de buscar algo, uma segunda visão da qual muitas vezes nós mesmos não conseguimos ver. Buscamos essa ajuda através de Deus, religiões, médicos ou psicanálise. Uma analise é feita da nossa própria jornada. Confessamos nossos traumas, medos, segredos, em busca de uma alternativa ou uma intenção para compreensão. Não é à toa que acompanho a série “Sessão de terapia”, dirigido por Selton Mello, protagonizado por Zécarlos Machado interpretando o Psicanalista Dr. Theo Cecatto, que, agora, no inicio de agosto iniciará a 3º Temporada no canal GNT. Estar confinado e saber o que acontece com pessoas aparentemente lúcidas — uma ambição, eu diria.

Sentado no divã é como fazer uma confissão, é rasgar o peito e se abrir de tal maneira que muitas vezes nem nós mesmos não compreendemos o fato daquilo que estamos falando. É por isso que muitas pessoas logo após a primeira sessão numa mais voltam. O medo que toma ao olhar para si mesmo é a sensação de loucura.

Tenho vários amigos que afirmam a dizer que jamais passaria com um analista para saber de uma teoria da qual já sabem e que, segundo eles, encontrar o terapeuta na rua, o mesmo que sabe de sua vida toda: “Não, obrigado. Terapia é para loucos”. E, em contrapartida, sabemos que o valor de uma sessão não é lá muito associável com o nosso bolso. Terapia fica para outra vida. Mas, como sou fã de psicanálise e de tudo aquilo que me faz refletir sobre algo, sento na primeira cadeira e não perco o espetáculo.

Algumas pessoas passam anos fazendo analise, abrindo e fechando feridas. Numa busca de curar a alma das aflições que vamos tendo ao longo do tempo. Não há um tempo determinado para ficarmos pronto e ganhar alta desse processo introspectivo. Não sabemos se é um ano, dois; três, 8. A análise buscar e rebuscar a essência de nós mesmos. O processo é lento, mas transgressor.

sessão-de-terapia_agenda-theoSessão de Terapia, caso você ainda não tenha acompanhado, mostra como somos nós ao se abrir, como é complicado falar de si mesmo e como é difícil encarar algumas verdades sobre quem somos e por que somos. Já dizia os psicanalíticos: tudo há uma resposta. Ou seja, tudo há uma explicação, no fundo, no introspectivo, o quebra-cabeça se encaixa.

A mulher que diz que não tem magoa de ninguém, no fundo ela apenas está camuflando a verdade sobre si mesma. O homem blindado, no fundo ele simplesmente tem medo de demonstrar o seu lado frágil. Quem diz que nunca magoou ninguém, porque de alguma forma nunca se exaltou, no fundo não percebeu que silêncio demais também machuca. Quem tem bondade excessiva, tem maldade escondida.

O homem que é muito controlador, no fundo tem medo do desequilíbrio. A mulher que é muito medrosa, no fundo continua sendo aquela criança teimosa. O homem que tem muita certeza, no fundo tem medo da dúvida. A mulher que se apegou a tristeza, no fundo ela apenas está justificando sua existência.

Pois é, somos um abismo. Somos um oceano de sentimentos cheio de fúria, a nossa dor fala, e fala alto. Se a gente desse espaço para o introspectivo e mergulhasse no fundo de dentro de nós, enxergando de outra forma as causas que nos aconteceram e deixasse vir à tona toda verdade, veríamos a cura para dor existencial. E se a gente percebesse que nunca estaremos prontos, que sempre haverá outras frustrações, deduzo que nem precisaria de terapia. Mas como disse Freud, há um bom tempo atrás: Nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca se cala, falam as pontas dos dedos.

Sessão de Terapia. Brasil. Direção: Selton Mello. Início 2012. Baseada na Serie israelita BeTipul, do psicanalista Hagai Levi; e na versão americana da série, In Treatment. A 3ª Temporada (2014) conta com roteiros originais, uma vez que a a Série original teve apenas duas temporadas.

Ninfomaníaca Volume 1 e 2. Um Estudo Sobre a Compulsão Humana

ninfomaniaca-2013_01Se você está indo ver Ninfomaníaca por causa das cenas de sexo, meu amigo, você está sendo lesado. Embora tenha um conteúdo pornográfico (fácil entre os mais explícitos já lançados num cinema comercial), Ninfomaníaca é um drama que tem uma história para contar. Se ela é relevante ou não, aí a coisa é bem relativa.

O diretor/roteirista você já deve ter ouvido falar – o tal do Lars Von Trier, o mesmo carrasco que dirigiu o polêmico Anticristo (2009) e o mais recente Melancolia (2011). Tendo isso em mente, da para entender tamanha ousadia.

Quem já assistiu alguma obra do diretor sabe que o cara gosta de começar seus filmes com estilo, fugindo das formuladas aberturas convencionais. Logo na primeira cena suas excentricidades ficam evidentes; uma demorada tela preta nos faz questionar se há algum problema na projeção; ela permanece por intermináveis 80 segundos – até tomarmos um susto com a pesadíssima trilha “Führe Mich” da banda alemã Rammstein enquanto vemos a distância, uma mulher jogada as traças no chão de um beco escuro.

ninfomaniaca-2013_02Assim somos introduzidos a protagonista Joe (Charlotte Gainsbourg), que após ser acolhida pelo culto Seligman (Stellan Skarsgård), começa a contar sobre sua vida, da sua infância até o momento presente. E nos mínimos detalhes, sem o menor pudor, mergulhamos em sua jornada de confissões; desde sua descoberta sexual aos 9 anos à sua ruína, aos trinta e poucos. Relatos de uma busca desenfreada por sexo que começa como uma curiosidade, passa a ser uma diversão e mais tarde, a razão de todos os seus problemas.

ninfomaniaca-201_03Joe conta sua história como se culpasse a ela mesma por todas as desgraças que aconteceram, enquanto Seligman a escuta e tenta, de forma a amenizar a situação, justificar suas atitudes relacionando com uma série de curiosidades históricas e naturais. Comparações curiosas, mas que beiram ao ridículo as vezes – o que me levou a questionar se neste segmento do filme, o esquisitão do Von Trier não estaria apenas tirando sarro da nossa cara através das palavras de Seligman; atribuíndo justificativas tão complicadas e filosóficas em atos tão simples de se compreender. O cara tira muita onda – em dado momento, ele mesmo se “auto-referencia” com uma cena envolvendo um bebê na janela; igualzinha aquela vista na abertura do filme Anticristo. Ou do momento em que, passado três anos, a gatíssima Stacy Martin de vinte e poucos é bruscamente substituída por Charlotte Gainsbourg de quarenta e poucos, enquanto Shia LaBeouf continua o mesmo, só substituído momentos depois… vai entender.

Por um bom tempo ao longo do filme eu fiquei na dúvida. Joe da relatos atrás de relatos sobre sua incansável busca atrás do prazer e de novas experiências, somando isso às cenas explícitas de sexo e principalmente aos closes nas genitais (pensa num cara que gosta de filmar genitais), fiquei me questionando o sentido de tudo aquilo que estava vendo. Imaginando no pior dos cenários uma explicação tão esfarrapada quanto aquela dada pelo diretor para o filme Anticristo.

Até que o personagem Seligman, lá pro finalzinho da segunda metade, surge com uma justificativa simples porém muito eficiente: a velha questão do machismo. Oras, de fato… se Joe fosse um homem, não seria tão condenada por conta de sua perversão tanto pelos personagens, quanto pela plateia que assiste do outro lado da tela. Embora isso levante várias questões sobre a posição do homem e da mulher na sociedade, foi uma justificativa plausível e um jeito de se interpretar o filme. As cenas de sexo explícito… bom, isso é só estética mesmo. Dependerá de você julgá-las necessárias ou não.

ninfomaniaca-2013_04Aí estava tudo OK. Apesar de ser um material um tanto quanto forçado, o filme tocava num ponto que, de alguma forma, ofuscava o peso de suas imagens. Estava pronto pra sair do cinema com uma visão melhorada desse diretor; até que sua necessidade de chocar acaba falando mais alto do que a de encerrar de forma digna uma história. E então vem aquele final, onde o dito cujo não perde a chance de esfregar mais uma vez na nossa cara sua visão pessimista sobre o ser humano. Eu até entendo, somos as piores pragas que já pisaram nessa terra! Mas faltou a Von Trier, o bom senso de terminar um filme que já não é lá tão decente, de forma digna.

Não poderia encerrar esse texto sem falar das atuações. Embora este não seja um ponto notável no filme – é válido reconhecer a performance e, principalmente, a coragem dos atores sobretudo de Gainsbourg, por se permitir sacrificar sua imagem deixando os mais leigos acreditando que ela estava realmente fazendo sexo oral nos caras. E de sua “versão mais jovem” Stacy Martin, que em seu primeiro longa, fez mais cenas de sexo e nudez do que qualquer veterana no cinema. E claro, por transmitir de maneira natural toda a melancolia, compulsão e solidão da personagem. Um belo trabalho da dupla.

Nymphomaniac Volume 1 e 2. 2013.
Drama/Erótico – EUA – 241 min. Censura: 18 Anos
Direção e Roteiro: Lars von Trier
Elenco: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Christian Slater, Uma Thurman, Jamie Bell, Mia Goth

Augustine (2012)

Augustine_01Augustine_02Própria de seu tempo e de uma cultura repressora, a histeria feminina foi uma das questões que levaram Sigmund Freud a iniciar suas pesquisas sobre o que viria a ser a psicanálise. O que alguns não lembram, ou talvez não saibam, é que ele iniciou suas pesquisas com o Dr. Jean Martin Charcot, neurologista francês atuante no Hospital La Salpetriere, em Paris. Na verdade, os primeiros livros de Freud foram baseados em casos de Charcot e Josef Breuer. Após Freud e Jung terem sido “redescobertos” recentemente pelo cinema, nada mais justo, portanto, do que o foco sobre um pioneiro.

Augustine_03Augustine é uma serviçal de uma família francesa, acometida por tais ataques histéricos. Após uma crise convulsiva durante um jantar em que trabalhava, ela é mandada ao hospital, onde permaneceria esquecida, não fosse uma nova crise, desta vez em frente ao próprio Charcot. As diferenças sociais que já atingiam Augustine em sua vida permanecem quando de sua internação: a “superioridade” e frieza científica de Charcot colocam a jovem como mero objeto de observação e estudos, cuja doença cai como uma luva aos propósitos do neurologista, que luta para firmar a seriedade de suas pesquisas junto à comunidade médica.

Augustine_1.JPGAos poucos, a relação entre observador e observada extrapola os limites do rigor da ciência. Da ingenuidade, a jovem paciente passa a notar o poder que tem sobre Charcot, e se faz valer desse poder. Aqui, a atuação de Soko como Augustine quebra os tons pastéis da fotografia, e de um quase academicismo da direção da estreante Alice Winocour. Sua interpretação é o que engrandece o filme, permitindo ao espectador uma identificação com a personagem, inocente e maliciosa, pueril e cheia de força. Tal desenvolvimento de Augustine permite até mesmo uma leitura da protagonista como o sujeito que, enfim liberto e dono da situação, manipula aquele que seria o detentor do poder na relação. Em que ponto ela descobre sua força perante Charcot? Em algum momento, ela simulou alguns de seus ataques? Nas palavras de Freud, afinal, o que quer uma mulher? (e o que ela faria para consegui-lo?).

“Augustine” é um retrato da condição do feminino no fim do séc. XIX. Porém, mostra o quanto as relações entre os gêneros não são estáticas, e a força do indivíduo pode suplantar os limites sociais aos quais está submetido.

Por Eduardo Carvalho.

Augustine (2012). França. Direção e Roteiro: Alice Winocour. Elenco: Vincent Lindon, Soko, Sophie Cattani, Grégoire Colin, Chiara Mastroianni. Gênero: Drama. Duração: 103 minutos. Classificação: 14 anos.